THE LIMEY - Trailer - HQ



leia e escreva já!

O MELHOR FILME DE STEVEN SODERBERGH...O ESTRANHO.

   Ele começa com o som de The Seeker by The Who. E voce sabe, é um dos melhores rocks da história do mundo. Na letra Roger Daltrey diz: Perguntei à Bob Dylan, Perguntei aos Beatles, Perguntei à Timothy Leary, mas ninguém me responder, eles me chamam The Seeker.
 Vemos TERENCE STAMP num avião, no aeroporto, e quando há Stamp, há maldade no ar. ( O irmão de Stamp foi empresário do WHO nos anos 60 ).
 Primeiro fato: Este filme é uma aula de ritmo. Ele é lento, nunca chato, ele tem cortes atemporais, mas jamais é confuso. Este filme nos hipnotiza. Completamente.
 Vamos a algumas informações:
 Terence Stamp foi, nos anos entre 1964-1969, o ator mais quente da Inglaterra. Em um tempo que tinha Sean Connery, Michael Caine, Alan Bates, Peter O'Toole, John Hurt, Richard Burton, era Stamp o mais fascinante, o mais sexy, o mais perigoso, o mais querido pelas meninas mais doidas. Mas ele deu uma bela pirada no fim da década e sumiu na India. Retornou oito anos depois, já bem esquecido. Com fama de doidão, sua carreira não engrenou mais, e para quem não sabe, ele é conhecido apenas como um ator mal humorado e esquisito. Um coadjuvante. Não sabem que ele já foi uma big estrela. Pois bem, Steven o escolhe como ator central. Mais que isso, o filme inteiro é uma homenagem à ele. Logo a gente saca que aqui, em plenos anos 2000, vemos uma amarga lembrança dos anos 60. Stamp é o lado podre do tempo hippie, é um ladrão, é violento, é mal. E ele vem à California em busca de vingança.
 O filme tem Peter Fonda. E aqui ele é o outro lado do tempo hippie. É o cara de boas, o ex hippie sempre sorrindo, saudável, da paz, rico, que se deu bem com a onda paz e amor. Mas Peter cometeu um erro: é um covarde. Na vida real Peter também se deu mal e também pirou.
 O filme ainda tem Barry Newman, o ator de Vanishing Point, Joe Dalessandro, o ator dos filmes de Andy Warhol e Lesley Ann Warren, a atriz da serie Missão Impossível. Mas...nada há de saudosista aqui. O filme é uma crítica aos anos 60. E passado hoje, ele é moderno, muito moderno.
 É o melhor filme de Soderbergh. O mais enxuto. O mais sincero. O mais emocionante. O final é absolutamente perfeito. Soberbo.
 ( PS: Soderbergh intercala algumas cenas com outro filme, um original de 1966 com o jovem Terence Stamp. Sacada ótima e homenagem carinhosa ).

LIVRARIA, LIVRO E UM CARA CHAMADO FRANCO.

   Estive esses dias em duas livrarias Cultura. O dono errou feio. Não sei onde ele estava com a cabeça.  Criar aqueles dois monstros no começo do século XXI foi de uma ingenuidade estúpida. Um amigo me afirma que é culpa do "liberalismo bolsonarista"...oh God...esse amigo é usuário de Amazon.com e tem um aparelhinho que baixa livros. Zomba de mim porque eu ainda compro livros. E a culpa é do liberalismo...
   Na unidade do shopping Iguatemi o aspecto de pobreza é pior. As prateleiras estão com espaços vazios. Os lançamentos são relançamentos. Nada atrai, não sinto vontade nenhuma de gastar dinheiro. Na Paulista o ar é de fim de feira. Hora da Xepa. DVDs ridículos ocupando espaços vagos. Meia dúzia de CDs. E livros que não causam nenhuma impressão.
   Acabou. O mundo mudou. Já é 2020.
   O fim do DVD pode ser pior para o cinema que o fim do DVD foi para a música. Isso porque o colecionador sobrevive no meio musical, com sua coleção de LPs e seus CDs de luxo. É esse cara que anima o ouvinte não fissurado a valorizar gente como Chet Baker ou Arthur Lee. Já o cinema, sem o DVD, perde a figura do colecionador. Não há como ter um acervo de filmes da Netflix ou de obras baixadas na net. Sem o colecionador apaixonado, morre a divulgação entre amigos das obras raras. E assim o cinema fica cada vez mais dependente, financeiramente e amorosamente, das grandes corporações. Disney. E ainda a Warner.
   O livro ainda sobreviverá. Mas em pequenas livrarias, sebos, casas de editoras. Acho isso ótimo. O modelo FNAC sempre foi uma farsa. Voce irá na livraria que vende best sellers ou na que vende edições pequenas. Supermercados de livros nunca foi boa ideia.
  Sinto mais que isso. O cara tipo "Franco" está no fim. Franco foi um amigo que tive. Estudava sociologia na PUC e vendia blusas na Vila Madalena. Nunca foi empregado de ninguém, nunca passou dificuldades, mas posava de proletário. Tinha, em 2009, uma bandeira da Venezuela na sala. Aos 21 anos, não escutava nada gravado após 1980. E não via filmes com menos de 30 anos. Sempre sorridente, namorava meninas maconheiras de Pinheiros. Lia apenas coisas latinas e achava esquisito um ex estudante de publicidade falar de política. Não era minha area.
  Esse tipo de pessoa ainda existe. Mas hoje ela é mais radical, mais feroz, mais mal humorada e, felizmente, muito mais restrita. Franco era como um hippie de 1967. Hoje esse tipo de militante parece um bicho grilo irritado de 1975. Somem na poeira dos anos. Cada vez mais deprimidos. Cada vez mais sem público que os escute.
  Cinco anos atrás eu achava que seria triste ver a Cultura fechar. Hoje penso que seria a melhor coisa para os livros. Saio de seu espaço vazio com alívio. Sem olhar para trás. Dentro dela um grupo vocal canta Chico em ritmo de velório. Ex alunas da PUC, média de 65 anos, aplaudem. Maggie mudou a Inglaterra para sempre. Até hoje há quem chore a velha nação falida. O mesmo rola no Brasil hoje. Não sei se vai dar certo como deu lá. Mas a mudança é irreversível.
  Feliz 2020.

NATAL

   O fato de ser escolhido um homem como Jesus Cristo já é por si só um tipo de milagre.
   Não vou escrever nada sobre fé, escrevo apenas sobre aquilo que um ateu pode saber se assim o quiser. Há mais ou menos 2000 anos, no lugar mais pobre do mundo conhecido pelo que seria o Ocidente, um filho de carpinteiro nasce. E é Ele o escolhido para simbolizar e dar significado aos novos tempos.
   Não era filho de nobres. Não era rico. Não foi discípulo de nenhum filósofo influente. Esteve sempre caminhando longe de Roma e longe de Atenas. Não era forte e não manejava espada ou flecha. Percorria o deserto e tinha meia dúzia de seguidores. Era, visto em seu tempo, insignificante.
   Então porque ele? Mesmo não sendo filho de Deus, mesmo não sendo um profeta original, se assim voce preferir pensar, por que ele? Se os evangelhos forem ficção, quem criou uma personagem tão radicalmente original?
   Voce, ateu, pode dizer que Buda já pregara a paz. Mas o Buda falara que o mundo era sonho, ilusão, e este Cristo dizia o contrário, que o mundo era a realidade. O pacifismo de Jesus é oposto ao de Buda. O de Cristo é atuante e vive dentro do mundo. O budismo nega a realidade da vida. Tudo é o que é. Em Cristo tudo é aquilo que fazemos.
  Mais radical ainda, esse é um Deus que morre. Sim, muitos morreram antes, houve deuses despedaçados ou desaparecidos em combate. Mas este Cristo morre como gente. E morre voluntariamente. Mas isso é a Paixão e hoje é dia de Nascimento, da Natalidade.
  Nesse nascimento nasce um mundo onde a bondade é viril, onde a caridade é ativa e onde perder pode ser uma vitória. É a primeira religião que coloca o Amor como centro. Se pensa hoje que toda religião é Amor, mas falar de amor no zoroastrismo, na religião do Olimpo ou nos deuses vikings é absurdo. Nessas religiões, e em todas as outras, o centro da crença é a coragem, a força e o erotismo. Não há sinal de amor. Zeus não ama seu povo. Ele exige respeito e homenagens. Por ser vaidoso e só por isso. O mesmo vale para os deuses astecas ou celtas. São ciumentos. São possessivos. São vaidosos.
  A imagem desta noite é uma estrela no deserto. E uma manjedoura iluminada. Um burrinho, uma vaca e um casal. E uma criança. Todo nosso futuro está aí representado. A criança, a pobreza, os animais. A estrela no deserto. E o casal.
  Então mais uma vez eu te digo: Em meio aos presentes ou a dor de não ter presentes. Em meio aos amigos ou a dor de ter perdido pai e mãe, olhe para o céu e veja a estrela. E nasça mais uma vez.
  Pouco importa se 25 de dezembro era data pagã. O que vale é sua herança cultural. E para nós, todos nós, 25 de dezembro é uma data invulgar.
  Nasça. E deixe-se guiar pela estrela.

O MUNDO DE HOJE TEM HANNAH?

   Revi quatro filmes de Woody Allen. CELEBRIDADES me surpreendeu por sua confusão. É um filme que tenta revisitar A Doce Vida de Fellini, mas jamais alcança sua grandeza. Já O DORMINHOCO, que eu tanto gostava, revisto hoje me pareceu apenas confuso. Porém, e esse é o motivo de eu escrever isto, HANNAH E SUAS IRMÃS e MANHATTAN pareceram ainda melhores do que eu lembrava.
  Nada há de sensacional na vida das duas irmãs de Hannah. A mais nova tem um caso com Max Von Sydow e se apaixona pelo marido de Hannah. Michael Caine é um marido de meia idade patético. Não há charme algum em seu personagem e seu caso não nos causa simpatia. Sabemos que Hannah não merece aquilo. Mia Farrow ganha de presente um dos mais belos personagens da vasta galeria feminina de Allen, Hannah, ao descobrir que seu casamento naufraga, espelha uma dor muda que nos toca fundo. Desejamos salvar aquela mulher. Escrever um roteiro que nos leva a tanta empatia é trabalho de mestre.
  Mas há mais. Dianne Wiest levou seu Oscar aqui. Um caco de personalidade hiper frágil, vejo nela várias mulheres dos anos 80, cheias de cocaína, fracassos afetivos, artistas sem arte. O rosto dessa imensa atriz fala um milhão de coisas em cada frame. E temos Woody, naquele que pode ser seu segundo melhor personagem. Sua crise hipocondríaca que se torna uma crise existencial é maravilhosa. Não se engane: o filme é um drama. Nada aqui do tipo caricato do judeu intelectual frágil. É um homem sem Deus. Que deseja crer em algo. Que precisa acreditar.
  Manhattan não é tão agradável. E talvez seja ainda mais duro.
  Ele namora uma menina de 17 anos e vemos que eles são felizes. Mas por ela ter apenas 17, ele não consegue leva-la a sério. Ele pede para que ela conheça outros caras, ele não quer que a coisa dure. Várias vezes ele usa a palavra ridículo.
  Então ele se envolve com Diane Keaton, a ex de seu amigo. Ela é seu número: neurótica, adulta, um tanto esnobe, indecisa. O caso não dá certo. Ela volta ao ex namorado. É só isso o filme. Ah...Meryl Streep é a ex esposa que virou lésbica. Ela lança um livro sobre a vida dos dois quando casados.
  A história é de uma simplicidade absoluta, enxuta. Mas o filme vai fundo no vazio de um homem que começa a perceber que não há lugar para ele no mundo. Isso porque ele não confia nos outros. Ele pensa demais e pensa muito mal. Com prazer estético, acompanhamos sua pequena saga. No final ele descobre que era feliz com a menina, que eles riam juntos, mas é tarde, ela vai para Londres.
  Destaco a cena na lanchonete, quando ele termina com ela. Um momento absolutamente verdadeiro, muito mais raro em cinema do que nos damos conta. A menina desmonta e ele simplesmente é incapaz de empatia por ela.
  Em 1979 Manhattan foi saudado como uma obra prima completa. Lembro de críticas eufóricas, falando da fotografia, da música de Gershwin, da maturidade de Woody Allen. E hoje?
  Temo que em 2020 as pessoas parem no fato de ser um homem de 42 com uma menina de 17. Parem por aí e simplesmente bloqueiem todo o resto. Pior, temo que a megera feita, logo por quem, Meryl Streep, se torne a heroína e Woody o vilão. Se isso acontece é sintoma de uma burrice absoluta, da completa incapacidade de ver a complexidade de tudo. Woody escreve maravilhosamente bem para mulheres. Não ver isso é cegueira intelectual.
  Por fim digo que tanto Hannah como Manhattan seriam impossíveis hoje. Em Hannah o personagem de Caine teria de ser mais ridículo e grotesco, haveriam cenas de drogas e Hannah fugiria de casa. Já Manhattan seria um fiasco de bilheteria, perseguido por lésbicas e por defensores de menores. Mais que isso, um ator e diretor como Woody Allen não existiria se fosse 40 anos mais novo. Ele colocaria faixas de rock em seus filmes, aumentaria o humor pastelão e em vez de citar Bergman e Fitzgerald, citaria Batman e Stan Lee. Manhattan se chamaria New Jersey e Hannah seria algo como Daphne e suas Sisters do Barulho. Pior ainda, em moldes alternativos, Hannah seria catatônica, o marido viciado em heroína e o personagem de Woody encontraria Deus em um filme de Almodóvar.
 

The Doors - Break On Through HQ (1967)



leia e escreva já!

JIM MORRISON E AS CALÇAS DE COURO

   Jim Morrison é o mesmo caso psico que acometeu Kurt Cobain, um rapaz talentoso e idealista que se viu subitamente transformado em algo que ele jamais quis ou imaginou poder ser. No caso de Kurt, ele tinha ideais punk. Já Jim era filho de seu tempo, ele tinha os ideais beatniks.
   Morrison era bonito, era sexy e era muito cool. E coroando tudo isso, ele tinha voz. Morrison é a melhor voz branca do rock. Ele grita como um cantor de heavy metal e é suave como um astro pop. Sua dicção é perfeita e o timbre jamais falseia. Quanto a presença de palco, é ele quem cria o performer de palco realmente perigoso, sexy, ofensivo. É o inventor de Iggy Pop e de David Bowie.
   Mick Jagger poderia ter esse posto, mas além de cantar menos, Jagger é irônico. Ele mesmo não se leva a sério e de certo modo foi isso que salvou sua sanidade. Jagger sempre parece rir de si mesmo, ele macaqueia. Jim era absolutamente sério e esse era seu ponto fraco. Jim Morrison se achava um poeta. Ele era solene. Chato às vezes. Incapaz de rir das besteiras que fazia ocasionalmente. Suas letras são ótimas para uma banda de rock de LA, mas como poesia simbolista, são infantis. Jagger sabia disso e ria. Morrison não queria saber e sofria por não ser levado a sério. Todo astro pop se afunda ao se levar a sério. De Lennon à George Michael, não há um só que não tenha afundado em auto piedade ou hostilidade burra ao não aceitar o fato de que seu trabalho é dirigido a semi analfabetos ou a jovens estudantes idealistas e ingênuos. Quando eles começam a se ver como novos William Blakes ou Nietzsches revividos a coisa entra em curto.
   O primeiro disco dos Doors é muito bom. Ele sacoleja e é um prazer ouvir o teclado de Ray rodopiar pelo balanço jazz de Robby e John. A voz de Jim é brilhante. E tudo o que ela transmite é a angústia pura do desejo sexual. É apenas isso. E isso é fantástico. No segundo disco, ainda melhor, eles acrescentam o medo como tempero. É um disco sobre o pesadelo do desejo sem objeto. Strange Days é um album perfeito. Mas então o ingênuo Jim Morrison começou a brigar com seu status pop. Queria ser artista. Queria ser Rimbaud. E como não tinha o dom para tanto, jogou o que tinha no lixo.
   Falei em Iggy e em Bowie.
   Iggy, que é um grande leitor, sempre soube que rock é primitivismo. E foi realista o bastante para dar ao rock o que ele quer: sangue. Inteligente ao extremo esse Iggy. Já Bowie foi o artista que Jim quis ser e não pode. Bowie criou um artista pop. Uniu o pop mais pré fabricado à arte possível em meio tão simplório. Nunca houve cara mais astuto.
   As pessoas gostam de dizer que Morrison teve sorte ao morrer. Que gordo e careca ele seria patético. Bem....Van Morrison é gordo e careca e não é patético. Talvez Jim fosse feliz ao saber que sua voz era o que o mantinha e não sua aparência. Talvez.
   De todo modo, era preciso ser muito homem para usar calças de couro em 1966.

PALAVRAS DIZEM O QUE?

   Já viveu isso Wittgeinstein: há um momento na vida de uma pessoa em que as palavras perdem o valor. E hoje, mais ainda, neste universo cheio de textos, frases, blogs, posts, memes. As pessoas falam, escrevem, tentam comunicar-se, demais, muito, em excesso. E eu aqui, neste blog, com agora uma imensa dificuldade para escrever, postar, me convencer e te convencer.
  Penso que sempre tive um radar razoável para sentir o espírito do tempo. E sinto que o silêncio é hoje o bem mais precioso. Neste ano, 2019, perdi o amor absoluto que eu sentia pela palavra. Por isso escrevo menos. Por isso escrevo pior. Não há paixão aqui. Eu não sei precisar quando, mas houve um dia em que eu senti que a frase, a sentença são falsas. Elas são apenas palavras, e palavras são brinquedos, só transmitem jogos de sentidos. Palavras mentem. Mesmo quando não queremos e não pensamos mentir, elas mentem.
  Isso porque elas jamais dizem exatamente o que se deseja dizer. E, pior, a pessoa que escuta entende o que ela pode e deseja entender. Não há ouvido neutro. Não há sentença inofensiva.
  Sinto algum respeito pelo amor que senti um dia, e por isso estou aqui escrevendo. Mas é passado, mundo morto, ido e partido. Minha inocência sobre a escrita se perdeu. É irrecuperável. Eu poderia escrever sobre a morte de Anna Karina. Sobre um filme qualquer. Um autor do século XX. Mas a questão que coloco é: Pode-se fazer isso sem mergulhar no labirinto da vaidade?
  Talvez tudo seja uma questão de politica, e hoje no Brasil o texto parece ser monopólio da esquerda. Daí a crise. Nada mais antigo e zumbi que a esquerda, ela nada tem de novo a oferecer e nada de sincero a professar. Já a direita nada escreve que possua algo de instigante. Seu discurso é realista. Seco. Cru.
  Ainda sinto algum resto de paixão pelo texto científico. Meu coração se excita com um artigo sobre física ou química. Nesse tipo de texto não há a tola pretensão de se fazer arte escrita. É apenas um pretenso fato sendo comunicado em palavras. E o autor sabe que o verbo comunica o fato de modo muito pior e falho que os números.
  Desconfio de gente que tem orgulho em dizer "sou de humanas, não sei contar". Pode ter certeza que ele também não sabe falar. As humanidades foram sublimes enquanto artistas e filósofos sabiam matemática. Quando sentiram despeito e passaram a esnobar a ciência, as humanidades se tornaram apenas campo para preguiçosos e vaidosos. Nada hoje é mais ridículo que um filósofo.
  Por isso meu pudor em escrever. Não quero fazer parte desse povo que desprezo.
  Obvio que continuo amando os autores de sempre. Mas os amo em silêncio. O que eu podia dizer sobre eles já foi dito. Meu amor foi alardeado aqui. Agora sinto em silêncio.
  Não me comparo à eles, mas todo autor tem seu dia. A hora em que ele sente que o texto não tem mais o que falar. E então ele passa a viver. Viver o mundo fora do texto.
  Não, isto não é o fim deste blog. Acho que ainda irei publicar alguma coisa. Breve, curta, simples.  A paixão virou amizade.
 

VELEJANDO O BRASIL - GERALDO TOLLENS LINCK

   O veleiro sai do Rio Grande do Sul e sobe todo o litoral brasileiro. São várias paradas e a viagem aconteceu nos anos 80. Minha edição é de 1996, e vejo que até então eram 9 edições publicadas. Ora, eis um clássico nacional de aventuras!
  O texto é bom, a aventura é leve e sem grandes dramas, os perigos são não tão perigosos. Mas o livro é lindo! Lendo em 2019 vejo que as coisas mudaram muito em 30 anos. Ainda se caçavam baleias, alguns bichos estavam quase extintos, o mar era mais limpo. O trecho do litoral norte de São Paulo é mágico. A partir de Bertioga um espaço limpo, deserto, em vias de sofrer um crescimento veloz nos anos seguintes. Conheci Bertioga e onde hoje é a tal Riviera havia um pântano que nada valia. Terreno ali meu pai não quis nem quase de graça. Cem metros valiam um Fusca velho. Isso em 1986.
  Este é mais um livro que releio e garanto que vocês deveriam procurar em algum site ou sebo. Nada melhor para o verão e as férias.

Bing Crosby & Frank Sinatra Well, Did You Evah



leia e escreva já!

NATAL?

   O símbolo é esse: Mesmo que voce seja ateu, o mundo que formou sua mente é cristão. O fato de voce ser contra Deus ou contra Jesus já te coloca dentro da civilização cristã. Então, ateu, leia isto que não vai te fazer mal algum...
   Faz uns 2020 anos, mais ou menos, que no dia 25, talvez, nasceu um homem que se disse filho de Deus. Ele era judeu e pobre. Até aí nada demais. Montes de profetas nasciam na Galileia todo dia. Mas houve algo de muito, muito novo e ousado no que veio depois: Ele não era um super herói.
  Jesus Cristo fez milagres, é o que dizem, mas foram apenas mágicas ou magias modestas se compararmos ao que os deuses faziam até então. Deuses explodiam mundos. Faziam chover fogo. Matavam todos os inimigos. Viravam chuva de ouro ou boi potente. Deuses ficavam invisíveis. E principalmente, jamais provavam a morte. Um deus é imortal. Ele não morre, e portanto, não ressuscita.
  A revolução, a maior revolução da história, é a que diz, pela primeira e única vez, que a fraqueza é uma força. Que amor e caridade são tudo aquilo que Deus quer. E surge na Terra um Deus que é homem e é divino. Jesus dá ao homem o estatuto da dignidade. Não mais a divisão em castas. Não mais a espada como valor supremo. Não mais o culto da morte. E, em ato definitivo, esse Deus morre. Morre não como herói, não na guerra, Ele morre na cruz, como ladrão, como indigente. Uma morte suja, feia, sem glamour. Morre para mostrar assim que mesmo a morte é digna de um Deus, e que ela não é o fim. Que mesmo nós, mortais, podemos vence-la.
  Toda nossa civilização se baseia, filosoficamente, nessa base. Mesmo ao negar e ao trair esse Deus, estamos o tempo todo inseridos nessas ideias. A caridade, o amor, a doação, o auto sacrifício. Olhar o outro, olhar a criação divina, olhar a vida. Pela primeira vez eis uma religião que olha a realidade ao redor como um bem de Deus. Toda religião temia a natureza ou a olhava como ilusória. O cristianismo fala do mundo e do universo como coisas sagradas, coisas reais, coisas divinas. A ciência nasce desse interesse pelo real. No cristianismo a realidade se torna Real de fato.
  Surpreso? Sim, está no cristianismo a base e a liberação da ciência. A estrela e o átomo se fazem dignos de Deus, pois são Dele. E o homem, amorosamente, se debruça sobre o universo.
  Dia 25 é Natal. E cada vez mais vemos pacotes e luzes, e menos presépios e imagens do aniversariante. Nosso mundo caminha para a indiferença, a absoluta falta de paixão. O desinteresse por Deus leva ao desinteresse pelo universo como coisa digna, criação divina. Caminhamos para ver o mundo como abstração. Ilusão. Um tipo de armadilha.
  Acenda uma vela e pense, nem que por um segundo, no aniversariante. Mesmo sendo ateu, reconheça alguma importância histórica nesse "mito", nessa "mentira". O pensamento de Cristo está ao redor de tudo que voce vê e faz.
  Um pouco de modéstia te fará muito bem.

Gols de Zico com narrações originais e música



leia e escreva já!

Bjorn Borg vs John McEnroe | The 1980 tie-break in full



leia e escreva já!

AMOR AOS 15 ANOS

   Um homem falando de futebol diz que o time que a gente ama aos 15 anos passa a ser o time que vamos amar a vida toda. Assim, as pessoas que hoje têm por volta de 50 anos vão sempre amar a tal seleção de 1982. Será?
 Lembro então de meus 15 anos e de meus amores nessa idade...
 O time sempre foi o Santos, mas como era fraco nesse tempo, só tinha Pita e João Paulo, eu admirava o Flamengo de Zico, Junior e Adílio, e a seleção francesa de Plantini, Tigana e Giresse.
 Pode ser verdade essa teoria, pois continuo achando que Bjorn Borg foi o melhor tenista do mundo, que a seleção de basquete da Iugoslávia era imbatível ( Petrovic e Kikanovic ), e que Gilles Villeneuve foi o herói da F1.
 Aninha não foi meu maior amor, mas é o amor mais bonito.
 Aos 15 meus discos favoritos eram Let It Bleed dos Stones e Viva do Roxy Music. Amava também, muito, o Physical Graffitti, do Led. Não sei se mudou meu amor. Foi nessa idade que comecei a ouvir Vivaldi e Mozart.
 Eu lia Dickens, Dostoievski e Thomas Hardy e meu livro do ano foi O Morro dos Ventos Uivantes.
 O filme que mais revi no cinema, no velho cine Gazeta e no Vitrine, foi Embalos de Sábado a Noite. E foi aos 15 que descobri Fellini e Truffaut, Cary Grant e Audrey.
 Usava cabelo longo e meu quarto estava atulhado nas paredes de fotos de surf e skate. Ir para a praia era a coisa que mais me dava prazer. Eu nem dormia no dia anterior.
 Amava chuva forte, manhãs geladas e o sol na cara.
 Andava a toa pelas ruas do bairro. E ficava entrando no mato fechado, só pra ver os bichos. Ainda havia bichos.
 Penso então que o homem tava certo. Posso ter tido amores maiores ou mais "sérios", mas aos 15 anos eles são pra sempre, nunca serão esquecidos ou desvalorizados.
 

VOLTA POR CIMA - MARGI MOSS E GÉRARD MOSS

   Talvez seja o melhor livro de viagens que li na vida. E é um dos menos pretensiosos. Voce não irá achar este livro em livraria nenhuma, ele foi editado em 1995. É da editora Globo e vale demais a pena procurar.
  Margi é esposa de Gérard. Ele é suíço e ela é francesa. Os dois vieram morar no Brasil no começo dos anos 80 e só aqui se conheceram, no Rio. Então, em 1989, os dois pegam um monomotor e resolvem dar a volta ao mundo. Monomotor é um avião simples, um motor, autonomia exata. Escolhem como trilha a menos usada pelos outros. Poderiam seguir rumo América do Norte, Alasca e Russia, então Europa e voltar ao Brasil. Mas optaram por Fernando de Noronha, Cabo Verde, África e então India, Malásia, Austrália e o Pacífico. E quanta coisa acontece! Muita miséria africana, muita paisagem de sonho, aventuras sem fim. Margi conta sua versão de tudo e ela escreve bem, escreve simples sem parecer amadora. Há suspense e há maravilhamento. Leiam, leiam que é bom demais. Dá vontade de viajar, dá vontade de viver.

[온스테이지2.0] 이루리 - Dive



leia e escreva já!

WHERE HAVE ALL THE GOOD TIMES GONE...

   Conversando com uma menina de 20 anos...Ela não fazia ideia de que um dia roqueiros eram as estrelas de uma sala de aula.
 Isso me incomoda sim. Qual foi o momento em que rock virou música de nerd? Porque em 1980, por exemplo, o povo do fundão ouvia rock e eram eles que andavam nas bikes mais velozes, nos skates mais detonados e pegavam as meninas mais bonitas. O rock era coisa de gente viva, hedonista, com ideias. Temo dizer que a mudança tenha sido a mais simples de todas...o Tempo.
 Rock virou um estilo musical com mais de 60 anos de história, e em tempos tão velozes, isso equivale a 6 séculos. Mesmo que um moleque ouça uma banda nova, ele estará ouvindo um estilo musical velho, com visual velho, com um certo saudosismo incubado no fundo de cada nota musical. Daí vem esse ar de cansaço que se nota não só nos álbuns como nos fãs de rock. Eles, mesmo aos 12 anos, estão comprometidos com algo muito, muito antigo.
 Posso então dizer que o momento da virada foi exatamente o ano de 1985. O estouro de Beastie Boys e de Walk This Way com RUN DMC. O novo não era mais rock. E assim, o moleque esperto não ouvia mais uma guitarra e um baixo. O fundão queria um DJ. Os roqueiros foram pro quarto se esconder e não saíram mais. Saudosos, choram por um protagonismo que não vai voltar. Uma guitarra e uma baqueta virou antiguidade.
 

DOIS LIVROS SOBRE UM BRASIL QUE NÃO EXISTE MAIS

   Os dois foram escritos pelo mesmo jornalista: Renato Sérgio. Os dois são da Ediouro e foram editados no começo deste século que já está adulto. MARACANÃ conta a história do estádio que não existe mais. Ficamos sabendo que ele foi um sonho em que mais da metade da população não acreditava em sua concretização. Na verdade ele foi construído para roubar a copa do mundo de 50 da Argentina. O livro, sinto dizer, chato, perde um tempo imenso falando dos trâmites absurdos e kafkianos para legalizar a obra. É política demais, políticos em excesso, burocracia absurda e aquele monte de discursos, inaugurações, blá blá blá que rolou na época.
   Na parte que importa, o futebol, a decepção aumenta, Renato fala muito pouco dos jogos históricos dos anos 50-60, e se joga logo na barrigada de Renato Gaúcho na final de 95, em Edmundo, Romário, Petkovic, ou seja, tudo o que aconteceu no tempo em que o Maior do Mundo já parecia prestes a desabar. Falta glamour.
  O outro livro, bem melhor, é a biografia do primeiro multi mídia do Brasil: Sergio Porto, vulgo Stanislaw Ponte Preta. Ele foi, além do maior carioca do Rio, jornalista, autor de programas de TV, escritor, cronista, e acima de tudo um bon vivant. Foi ele que nos anos 60 cunhou algumas frases que até hoje são repetidas: Em rio com piranha jacaré malandro nada de costas, por exemplo. Outra, que eu considero perfeita para 2020 é: Ele acaba de despontar para o anonimato. Sergio Porto nasceu em família rica, torcedor do Fluminense, amava jazz e samba de raiz. Criou as "Certinhas do Lalau", tipo da coisa que só podia existir no Rio de 1960, todo mês ele escolhia a mulher mais bonita do Brasil que virava um tipo de vedete do país. Bikinis e meia arrastão.
  O estilo de escrita dele era aquele típico do país de então, que foi perdido e nunca mais vai voltar. Uma escrita feijoada, voce vai acrescentando ingredientes e frases temperadas. É uma escrita quente, saborosa, difícil de imitar e boa de ler. Melhor eu dar um exemplo:
" O show do Crioulo Doido tem sido a salvação da lavoura aqui no Rio. Bolado no princípio do ano para aproveitar a temporada de paulistas que surupembavam na Guanabara a espera do carnaval, era pra ficar em cartaz só fevereiro, mas veio março e abril, e o espetáculo agrada mais que banana em jaula de macaco. Começo a desconfiar que há linguiça embaixo desse feijão. "
  É o estilo figurado, a imagem no lugar da explicação, o texto feito pra quem "conhece a receita do angú". O tipo de texto que se escreve hoje irá parecer um tipo de tradução mal feita quando comparado a isto. É o estilo brasileiro, nada lusitano e nem um pouco frio. A turma do Sergio Porto, Millôr, Paulo Francis, Paulo Mendes Campos, todos tinham esse modo cheio de bossa nova de escrever. Quando ele escreve notícias, bem, voce morre de rir: " Ela era uma viúva, ou seja, chegada à um exagero homérico. E por causa disso, era apegada à uma bicharada, no caso, papagaiada. E foram seus papagaios que causaram a celeuma que invadiu a noite do Grajaú e acabou em fogo, pimenta e aracajé. Um tabuleiro da baiana completo". Creia, isso era uma notícia de jornal.
  Mulherengo, casado e pai de 3 filhas ( alguém pode me dizer porque todo mulherengo tem filhas e não filhos? ), ele morreu cedo, aos 48 em 1968. Era pra ter chegado ao ano 2000, e penso no que ele escreveria sobre Sarney, Itamar e cia. Pois foi ele quem criou o FEBEAPÁ, o Festival de Besteiras que Assolam o País. Ele pegava notícias idiotas, fatos imbecis, bem brasileiros, e os publicava. Era um sucesso absoluto. E temo que hoje não seria. Pelo fato de que há tantos idiotas que ninguém notaria a graça do absurdo. As notícias do FEBEAPÁ eram tipo deputado proibindo bikini no interior de Goiás, prefeito inaugurando estrada de ferro sem trem. Tudo fato real, nada inventado.
  Politicamente a posição de Sergio se revela nesta frase exemplar: O capitalismo é homem explorando homem. O socialismo é o contrário.
  Sobre a tropicália: São rapazes vagamente compositores.
  Niteroi, cidade onde urubu voa de costas.
  Ontem foi inverno no Rio. Agora só ano que vem.
  No Brasil as coisas acontecem, mas depois com um desmentido, deixaram de acontecer.
  Mais feio que mudança de pobre.
  Gato escaldado tem medo de água fria.
  Mulher e estrada com muita curva, ambas são perigosas.
  Amor não acaba, se transfere.
  E por aí vai...são frases e frases que entraram na mente nacional. O que me leva à uma constatação: Na atual burrice cinzenta, esquerdista e direitista, onde tudo vira slogan pobre, gente como Sergio seria detestada. Porque ele sai pela tangente, ele vê o ridículo dos dois lados, ele sente que tudo é fake. Forçado. E se não for fake, pior, é doença mental.
   Confesso que a malandragem desse Brasil, seu machismo, sua preguiça, me irritaram em certo momento. Logo me ví vendo Vinicius como um simples petista, Paulo Francis como um americanizado e Sergio Porto como um isentão. Mas acordei e vi que eles eram nada disso. Eram apenas brasileiros, ainda no berço que foi esplêndido, sem procurar minúcias de sentido preconceituoso em tudo que se fala, e exatamente por isso, de fala livre, quente e sensual. Muito da desgraça do mundo de agora passa pela linguagem em camisa de força. Mas isso é papo pra outra noite...

FLAMENGO

   Gente da minha geração, que viu Zico jogar, vê o Flamengo de uma outra maneira. Vemos ele como o maior clube do Brasil. Não, não me aporrinhe. Sou torcedor do Santos e perdi um campeonato, em 1983, para o Flamengo. Gerações vêm o mundo a seu modo, e assim como para quem tem 70 anos o Botafogo é um time grande, para quem tinha nascido nos anos 60, o Flamengo era o maior.
   Entenda novinho e novinha, o Liverpool sempre foi o maior time da Inglaterra, e talvez voce ache, pelos últimos anos, que o Chelsea ou o City são maiores que ele. Se, e somente se, eles continuarem ganhando títulos, até digamos 2030, eles serão tão grandes quanto. Cada um enxerga o mundo de seu ponto de vista temporal, por isso é bom saber história. Amplia seu mundo.
   A vitória do Flamengo é tão importante hoje como foi o mundial de 81. A Libertadores e o Mundial nada significavam aqui, e foi o Flamengo que trouxe de volta a moda de ganhar esses torneios. Agora, em 2019, ele nos lembra que futebol é espetáculo. Show. Diversão.
   O Santos de Neymar já poderia ter nos lembrado disso, mas com uma torcida mediana e cobertura de imprensa ínfima, a coisa passou batida. Um time como o Flamengo, fenômeno nacional, obriga todos a ver o óbvio: futebol pode ser bom de se ver, não só de torcer, e técnico faz diferença.
   Técnico de futebol nunca é muito considerado no Brasil. Culpa da imprensa, que sempre viu todo técnico como um Zagallo, o cara que fala frases motivadoras e dá as camisas no vestiário. Lembro que sempre que nascia um técnico com ideias ele era ridicularizado. Foi assim com Claudio Coutinho. Cilinho. E mesmo Telê Santana. Hoje eles elogiam as ideias diferentes do Mister, mas nunca tiveram paciência com Carpegianni. Nos últimos 25 anos vivemos a glória so boring de técnicos ao velho estilo gaúcho: raça e contra ataque. Mais vale um chutão pra frente que uma tentativa de tabela. Nesse mundo, tanto faz se o cara se chama Muricy ou Abel, Filipão ou Mano, Cuca ou Levir, todos são o mesmo, gaúchos em estilo, falastrões em alma. Luxemburgo foi a ideia que traiu seu criador. O ego o venceu.
   Vejo muito menino de escola surpreso. OH!!!! MAS O FLAMENGO É ASSIM? Eu explico pra eles: Sim, ele é assim. Imenso. Com alguma organização ele cresce como souflé e domina o cenário como Juventus. A tendência é a torcida aumentar ainda mais.
  Quanto ao meu time.....weeelllll preguiça de falar dele.....

O QUE A ESQUERDA É

   Eu gostaria de escrever sobre a política brasileira mas não há o que dizer sobre. Então me veio uma constatação: desde pelo menos os anos 80, mundialmente, as pessoas que mais se interessam e discutem política vivem em um mundo que morreu faz muito tempo.
  Elas ainda acreditam que ideologia define o mundo, quando na verdade, ideologia define apenas um molde, uma forma de adaptar e formatar seus pensamentos. Ideologia hoje é uma ferramenta. Um ícone que dá uma guia para seus textos. E seus pensamentos. Quase uma gravata que enfeita seu visual. Apenas perfume.
  Na velha política, ideologia era economia. E, como dizem os marxistas, dinheiro é vida.
  Então posso falar de governos como Trump ou Bolsonaro. Como ensinou Thatcher, em um tempo em que não havia internet, ou seja, Maggie não foi blindada por seus seguidores, o que define um governo são índices financeiros. Se o presidente falou mal de Cuba ou não comemora o dia do nascimento de Stalin, isso só importa à classe média festiva que posa de filósofo cabeça. Política é, desde pelo menos 1981, economia. E nesse mundo hiper realista, gente de esquerda tende a durar dois verões e viver apenas da propaganda de seus pares. Por definição, o povo de humanas nada entende de economia e se orgulha de não saber fazer contas. O que resta à eles, em politica, é fazer barulho. À direita sobra o dinheiro, ou seja, o que interessa.
  Administração e economia se complicaram muito. A velha tese, que a Argentina vai implantar mais uma vez, de que tudo se resolve com mais impostos e salário mínimo maior, se mostrou simplório. É o tipo do cálculo de quem estudou sociologia ou letras. E como são apenas criadores de narrativas, quando tudo dá errado e dará, inventam uma lenda do porque tudo não deu certo. É o que a esquerda tem feito: gastar o dinheiro feito pela direita. Quando a grana acaba, volta a direita para botar as contas em dia.
  Cada vez mais a esquerda parece ser aquilo que talvez, desde o movimento romântico, em 1810, ela sempre foi : Meninos mimados em revolta contra o papai burguês. Eles querem quebrar a cristaleira. Fumar sua maconha. E poder transar com quem quiser. Ou com o que quiser. E por favor, vamos socializar essa mesada!

FILME CULT

   Filme de arte só será cult se em seu lançamento tiver sido um fracasso. Mas eu acho que mesmo assim não será um cult de verdade.
  Isso porque a mais bela característica do cult é ser atemporal por acidente. O autêntico cult é feito sem querer. Não existe cult feito com a intenção de ser cult ( muita gente faz com essa ideia, mas jamais consegue porque a gente percebe o fake em tudo ).
  O filme nasce como apenas mais um filme, passa meio despercebido, alguém o revê anos depois, e descobre que ali há algo de muito diferente. Vira cult quando um grupo grande pessoas concorda com essa descoberta e passam a citar esse filme como um tipo de sabor adquirido.
 Groundhog Day é um cult absoluto. Em seu tempo causou algum impacto, mas foi tratado como apenas mais uma comédia de Harold Ramis. Mas então algo estranho aconteceu. Primeiro os psicanalistas e depois os religiosos, principalmente os rabinos, descobriram o filme. Os cinemaníacos vieram em seguida.
  Voce conhece o filme. Bill Murray é um meteorologista de tv mal humorado e egoísta que vai à cidade do interior cobrir o dia da marmota. Mas acontece algo estranho, o dia se repete ao infinito. Todo dia ele acorda para viver mais uma vez o mesmo dia. O mesmo tempo, as mesmas pessoas falando as mesmas coisas. Tudo igual. Positivamente isto não é uma comédia.
  O filme incomoda muito e chega a causar angústia. Murray vai do puro desespero, ele se mata várias vezes, ao cinismo, ele usa a repetição para ganhar dinheiro e sexo. No final, numa cena de aterradora beleza, ele começa se curar ao descobrir a morte do outro. Morte contra a qual ele nada pode fazer.
  Psicanalistas logo notaram que o filme exibe o processo de análise como poucas vezes o cinema pode mostrar. Murray, como um analisando, revive no presente a memória, e passa a viver essa lembrança de todos os modos possíveis. O dia, eterno dia, pode ser visto como prisão, como dor, como angústia, mas também como apreciação, chance de recomeço, auto conhecimento.
  Já para os religiosos há a ideia preciosa de que sim, os dias são iguais, mas se voce souber enxergar o que há de sagrado neles, nenhum dia será como o outro. O pecado maior é exatamente não perceber que cada dia é a chance de se fazer algo de novo. Nunca tentado antes. Um dia é apenas uma tela, sempre uma tela, mas voce pode pintar algo de único sobre essa tela.
  Há muito o que dizer sobre esse filme. Desde o fato de que todos nós vivemos dias iguais, e nos esquecemos disso, até o fato de que eles são iguais para que possamos ter um mínimo de segurança para então poder tentar o novo.
  É o melhor desempenho na vida de Bill Murray e o filme toca fundo nossos piores medos.
  Veja.

Django Reinhardt - Minor Swing



leia e escreva já!

ANOS 20

   e Então modernos? Ano que vem começam os anos 20.
  E quero saber quem vai ser o James Joyce do pedaço. O TS Eliot do verso.
  Quero ver um novo Bunuel e meu querido Buster Keaton.
  Heminguay e Fitzgerald, e uma nova música popular, uma era do jazz.
  São os anos 20 galerinha, e eles definirão todo o resto de século a ser vivido.
  Bartok e Gershwin.
  Tem algum Proust por aí?
  Um Kafka pelo menos?
  Está em formação um Beckett e um Fernando Pessoa não conhecido?
  Me manda um Picabia, um Dali e um Miró.
  Em que artista invisto?
  Há uma nova Paris ou uma ousada New York?
  São os anos loucos?
  ( são os anos deprimidos melhor dizendo )

ALDOUS HUXLEY, O CHAPÉU MEXICANO E OUTROS CONTOS.

   Houve um tempo, por volta dos anos 20, em que abundavam revistas que publicavam contos. Havia uma demanda constante por histórias, narrativas que falassem da guerra, de crimes, de horror ou de casos de amor. E algumas revistas, The New Yorker era a melhor delas, que pediam arte. Não havia romancista que não tenha começado como contista e Tchekov era o modelo a ser seguido.
   Ainda bem jovem, Huxley lançou vários contos e este livro compila alguns de seus primeiros. Ainda não é o gênio que escreveu Contraponto, muito menos o autor de ficções perturbadoras sobre a distopia do futuro. Aqui seu objetivo é descrever uma personalidade, um caráter e um momento crucial. São leves, agradáveis, bem escritos e graças a Deus, bem traduzidos. Tio Spencer é de longe o melhor conto, retrato afetivo de uma infância e de uma vida que se choca com a verdade do mundo.
  Huxley nunca é desinteressante.

HAROLD BLOOM E WOODY ALLEN, A MORTE MORRIDA E A MORTE EM VIDA.

   Na antiguidade grega quem ia contra o senso comum era condenado ao ostracismo. Tipo de morte em vida, o cidadão grego era expulso da cidade e seu nome era esquecido. Nada mudou. Apenas o senso comum flui em ondas de acordo com a maré da década. Oscar Wilde foi perseguido por deixar ser exposto seu caso com Bosie, Ezra Pound por defender Mussolini. Hoje, divididos que somos em pequenas tribos virtuais, somos perseguidos pela tribo X enquanto a tribo Y nos adora. No mundo da arte, digamos que seja a tribo W, há um libertarismo limitado. Voce pode ser gay. Voce pode ser comunista. Voce pode ter uma religião oriental. Mas por favor, não venha defender a civilização ocidental branca hetero do século XX. Voce será exorcizado.
 Woody Allen, como todo homem criativo, é uma alma complicada. Não tenho certeza de nada do que ele faz entre 4 paredes, mas sei que tipo de arte ele fez. E sei qual o alvo de seu humor. Ele sempre defendeu a mulher liberal, democrata, pós feminismo. Sempre amou o intelectual da universidade, o cara culto e neurótico. Em seus filmes não há o menor traço de ranço racista, de machismo ou de violência. O que ele nos dá é um mundo civilizado. Talvez, para os tempos de hoje, civilizado demais.
 Se ele seduziu sua enteada, pouco me importa. Me importaria se houvesse qualquer sinal de estupro ou de dor. Não é o caso. Eles se casaram e parece que viveram bem por vários anos. O que não é o caso da ex, Mia Farrow. Mas também não posso falar de Mia. Tudo que sei é que ela nada produz em arte e só foi grande ao lado de Woody Allen.
 As pessoas não se contentam mais em absorver arte e fruir cultura. Elas querem saber tudo. E acham, como diria Paulo Francis, "de forma Jeca", que a vida pessoal do outro é podre e a delas mesmas é "democrática". Meryl Streep se tornou uma ditadora "do bem", e o Oscar é hoje um ridículo "clube dos diversos que são todos iguais". Woody Allen é perseguido por ter sido simplificado. Ele é visto por esses míopes coloridos, como apenas um "macho abusivo". Então posso dizer que Oscar Wilde era somente uma bicha engraçada, Henry James um frustrado esnobe e Paul Gauguin um pedófilo colonialista.
  Não há personalidade grande sem grandes "pecados". O artista do bem é um banana. Todos têm alguma tara, todos são egoístas, todos são esquisitos. Inclusive os artistas negros, mulheres, do terceiro mundo.
  Em 1920 Fatty Arbuckle era o comediante mais famoso do mundo. Mais que Chaplin ou Keaton, ele era o cara. Aqui no Brasil ele era conhecido como Chico Boia. Acusado de estupro, por uma menor, ele foi a tribunal, condenado, e morreu pobre e esquecido. No auge dos dvds, seus filmes nunca foram reavaliados. Nesse caso concordo. Ele foi um criminoso julgado e condenado. Fez um ato de violência real. Repugnante. Não foi condenado por não fazer parte do senso comum ou por falar algo que foi contra o esperado óbvio. O caso é diferente. É penal.
  O futuro esquecerá o homem Woody Allen e apreciará o liberalismo humanista de filmes como Manhattan e Annie Hall. Acontecerá com ele o que ocorre com TS Eliot ou Nabokov: a arte deles é tão boa, que por mais que os juízes do bem gritem, eles não podem ser esquecidos.
  Harold Bloom foi um dos primeiros a alertar o mundo sobre a ditadura do politicamente correto. Ele já em 1989, dizia que se dava mais valor a uma pintora mexicana tetraplégica por ela ser mulher e doente, e não por pintar melhor. Que Sylvia Plath era um mito por ser esposa de um suposto machista egoísta, Ted Hughes, e não por ser melhor poeta que o marido ( Ted Hughes é bem melhor ). Havia e há até o delírio de se achar que a força criativa era Zelda Scott e não Scott Fitzgerald ( qualquer bobo sabe que Zelda prejudicou a escrita de Scott ). Bloom teve a coragem de dizer o óbvio: que se julgue a obra pelo que ela é concretamente e não pela alma inocente ou não de quem a construiu. Nelson Rodrigues estaria esquecido se fosse americano. E aqui? Já está?
  Dante está sendo esquecido por ser apenas um macho europeu, além do que católico, e há idiotas dizendo seriamente que Shakespeare era mestiço, gay e fumava maconha. ( Juro que li isso ). Será que Cervantes era um asteca perdido na Espanha?
  Recentemente uma revista inglesa publicou os 50 poetas mais importantes da língua inglesa. Esqueceram William Blake. John Donne. E injustificadamente, John Keats ( ??? ) e John Milton ( !!!!! )...em compensação havia uma enorme quantidade de mulheres negras "oprimidas"...Elas são boas poetas? Não posso julgar pois não as li. São mais relevantes que os quatro homens citados? Deixo que voce pense sobre isso. A boa nova é que choveram cartas defendendo John Keats.
  Bloom morreu velho e fora de moda. Woody Allen está vivo e fora de questão. E eu não ligo pra isso. A arte é bem mais forte que o tempo. Ela vencerá.

OS ELEITOS - ALEX KERSHAW. A BATALHA DA GB.

   Não, não confunda com o excelente filme de 1983 sobre os homens que quebraram a barreira do som. Em comum, apenas o ato de voar. Alex Kershaw escreveu uma boa biografia sobre Robert Capa e então este livro me pareceu bom. Não é não.
  O tema é maravilhoso. Em 1940, cinco americanos ignoram a neutralidade americana e se alistam na RAF, a força aérea inglesa. Isso era crime nos EUA, e portanto eles fogem para o Canadá e de lá vão à França e por fim à Londres. Nenhum deles é militar. São apenas jovens que sabem pilotar aviões. Nenhum deles sobrevive à guerra. Morrem em combate e só após Pearl Harbour é que os EUA entram na guerra.
  Pois bem, com um tema desses, o livro consegue ser truncado, chato, repetitivo, boçal. Como pode isso? Então percebo o porque. Tradução porca! As frases sem sentido se acumulam, verbos repetidos à granel, frases que não fluem, toscas, sujas. Creio firmemente que ele foi traduzido em algum programa de computador, e tenho certeza que não foi revisado.
  Então me desculpe Kershaw, mas eu na verdade não li seu livro. O que li é um amontoado de palavras que se atropelam e cansam a leitura de qualquer um.
  Pena.

A TRÉGUA - MARIO BENEDETTI

   No Uruguai de 1960, um homem de 50 anos, prestes a se aposentar, sim, a aposentadoria era aos 50, pois se vivia até os 60, se enamora de uma colega de trabalho. Ele tem 3 filhos adultos e é viúvo. Ela tem apenas 25 anos. Claro que eu me interesso por esse tema ( quem me conhece sabe o porquê ), mas o livro é bem chato.
  O autor usa a forma diário, então lemos esse namoro dia a dia. Mas não é esse o problema. A linguagem é pobre e os pensamentos do homem são banais. Não senti a menor afinidade com nada no livro. Suas inseguranças não me fizeram simpatizar com ele e seus pensamentos profundos são xucros.
  Este livro, 120 páginas, é considerado o melhor produto de um autor importante. O que posso registrar ainda é que o li sem nenhum prazer. Terminei ontem e já começo a o esquecer.
  E é só.

CARTAS PERSAS - MONTESQUIEU

   Em 1725 Montesquieu nobre francês, lança este best seller ( sim, foi um imenso sucesso então ). Cartas Persas é uma obra em que o autor cria uma correspondência entre príncipes persas que viajam à França. Eles comentam aquilo que observam e ao mesmo tempo recebem notícias de seu reino. Na Pérsia tudo se resume as intrigas entre eunucos e escravas, na Europa tudo é hipocrisia e vaidade.
  Montesquieu aproveita para demonstrar os erros do catolicismo, da moda, dos poetas e dos intelectuais. Várias são as cartas memoráveis. O retrato que ele faz de Espanhóis e portugueses é perfeito: Homens que se acham superiores só por terem a pele clara, e que por isso passam a vida sentados, sem trabalhar, pois o trabalho é indigno de brancos.
  Ele aponta ainda um fato pouco reparado: o colonialismo empobreceu os países colonialistas. Portugal e Espanha se arruinaram na América, pois a despesa sempre foi maior que o lucro. Holanda e Inglaterra enriqueceram por comerciar e não colonizar.
  Mas há bem mais! O autor explica o porque do apogeu de Roma e a pobreza da Italia e adverte que o primeiro sintoma da decadência é a diminuição da população.
  Montesquieu defende o protestantismo, o divorcio, a liberdade, a união em torno de um líder. Seu raio X da Inglaterra é sublime: País de gente impaciente, ativa, trono forte com reis sempre fracos, o que garante a força da instituição e não da pessoa´.
  Livro central do grande século da luz.

MAIS UM NABOKOV: O DOM.

   Este é dos anos 30 e é bastante ambicioso. Uma auto biografia fake, o livro mistura xadrez com borboletas ( dois amores de Nabokov ), com o início da vida de um emigrado russo na Alemanha pré nazista. O estilo é elaborado ao ponto da quase saturação. Elitista. Saboroso.
  Longo, tem no capítulo 2 o seu maior momento: o autor descreve e narra a vida de seu pai. Um homem que explorava o mundo atrás de espécies raras de borboletas. Um tipo de nobre muito em moda no fim do século XIX, o "homem de ciências". ( Penso em nosso Dom Pedro II ). Apaixonado por conhecer este mundo pela via científica, esse homem não mede esforço para ir onde seu desejo de saber o manda. O filho, o autor, ama esse pai sem nenhum pudor. O pai de Nabokov, sabemos, foi bastante assim.
  Os demais capítulos, são poucos e são imensos, nos seduzem com a exposição de um universo que não existe mais. Sinto pena por Nabokov não ter visto a morte da URSS. Ele amaria ver Leningrado retornar a São Petersburgo. E seus livros serem finalmente lá editados. Mas não houve tempo, ele morreu em 1977, aos 78. Teria de ter chegado aos 90.
  Um escritor tem de ser muito bom para conseguir me fazer sentir prazer em ler páginas e páginas sobre borboletas. Ele consegue. Jamais leia um autor deste tipo, mestre na arte da escrita, esperando a fascinação de um enredo. O fascínio aqui nunca está no que se conta, está no como se conta. Pouco importa o motivo, o que queremos é ler palavras. Palavras que se transformam em sentenças, que harmonizam como música e metamorfoseiam-se em borboletas ou peças de xadrez. Ou um quarto barato em Berlin.
  Ah! As personagens, muitas, são maravilhosas!

SOMOS TODOS ARLEQUINS - VLADIMIR NABOKOV

   Escrito em 1974, já em sua velhice, este livro, meio auto biográfico, mostra mais um tipo de Nabokov.
 Fascinante autor, ainda não li dois livros dele que fossem parecidos. Li dois bastante ruins, li três geniais, e ainda mais dois "apenas" ótimos. Este é um dos ótimos.
 Aqui ele conta as memórias de um refugiado russo. Vadim é escritor de sucesso, professor universitário nos USA e se casou várias vezes. O que ele mais lembra aqui são seus casamentos. O primeiro termina em tragédia, outro vira pesadelo, mais um que se torna uma piada e um novo casamento que promete ser bom. Há ainda a relação com uma filha. ( Estranho mundo o nosso. O personagem, não há como evitar, parece ter uma relação carinhosa demais com essa filha...incesto? Ou estamos educados e amestrados a ver doença em ato sem conotação sexual? ).
 Vadim é esnobe, hedonista, vaidoso, preconceituoso e brilhante. E terrivelmente sexista. Não é simpático, é interessante. E tem queda, outro problema neste século, por ninfetas. Penso em como um rapaz médio ou uma garota mediana, irá reagir ao fato dele "adorar" quando Dolly, uma sua vizinha, senta-se em seu colo insinuando uma nascente sensualidade. Detalhe: Dolly tem 10 anos...Quando ela chega aos 22 ele é seduzido pela antiga criança.
 Disse que Nabokov cria livros diferentes. Mas eu menti. Nabokov nos faz bons mentirosos. Seus livros são sempre o mesmo. Sexo é o centro e há sempre um homem muito vaidoso perdido em seus pensamentos. Esse homem tem uma cultura clássica, vasta, e é russo. Anti bolchevique, ele tenta sobreviver em meio às delícias do ocidente. Não tem lar. Não tem raiz. E é seduzido pela jovem ninfa: a América. Linda, tola, alegre, saudável e limpa.
 Acho que voce não vai encontrar este livro para venda. Mas vale à pena. Nabokov escreve como se letras fosse notas musicais. É um estilo grande, exibicionista, faminto.
 Ele corre o risco de ser enterrado e banido de nosso mundo diverso e igualitário. Nabokov lembra um tipo de homem que as pessoas querem fingir nunca ter existido. Eu adoro ele. E não tenho problema algum quanto à isso.
 

GÊNIO?

   No último dia do Rock in Rio tem King Crimson. E a banda é massacrada pelos ditos críticos por ser elitista. Oh God!
   Neste tempo de "democracia do gosto" se instaura o "pecado do elitismo". O King é chato. Ok. Mas criticar elitismo? Seria hoje o Velvet Underground chamado de metido à besta? É pecado exigir do público cultura e discernimento?
   Postei video do Glenn Gould. Pianista canadense, morto precocemente em 1982. Ele tocava para si mesmo. Pegava Bach e o explorava ao vivo. Reduzia a velocidade, empacava numa nota, mudava timbres. Ia fundo em cada aspecto do compositor. Para ele o público deveria se esforçar para o acompanhar. E essa é a palavra: esforço. Me parece que qualquer pedido de esforço hoje seria elitismo. Parte-se da ideia de que o público é idiota e assim deve ser respeitado em sua folgada idiotia.
   Genialidade é sempre desconforto. Há gênios felizes, mas não existe genialidade democrática. O gênio exige aperfeiçoamento. É para poucos. É aristocrático.
   Claro que King Crimson não é genial. Mas ele exige um mínimo de concentração. De senso musical. E isso irrita os inconcentráveis sem senso.
   A burrice é a fé do século.

Django Reinhardt CLIP performing live (1945)



leia e escreva já!

Glenn Gould-J.S. Bach-The Art of Fugue (HD)



leia e escreva já!

Mozart conoce música de Johann Sebastian Bach



leia e escreva já!

CÂMERA OBSCURA - VLADIMIR NABOKOV

   Odiei. Abominei. Detestei.
   Escrito quando Nabokov vivia em Berlin, quero crer que este livro foi escrito apenas com o desejo de conseguir algum dinheiro. É um tipo de Anjo Azul em versão russa. Homem rico e casado se envolve com menina ( 16 anos ), pobre, bonita e desinibida. Ele afunda em solidão e claro, é humilhado. Há o mérito de nuançar a menina, ela não é apenas má. Tem seus motivos. Mas não há nada do inventivo Nabokov aqui. É um livro terrivelmente pop. Prevemos tudo o que irá ocorrer, a história corre em seu caminho comum e banal. Odiei ver o mago Nabokov, mago da linguagem, dos climas mágicos, da sensibilidade, percorrer esse circuito best seller vulgar. Não há jogo de escrita, não há refinamento, não há surpresa nenhuma.
  Curto e bobo, joguei ao lixo o livro assim que terminei de o ler. Raras vezes fiz isso na vida. Minha reação irada revela o amor que tenho pelo autor.

FOGO PÁLIDO - VLADIMIR NABOKOV

   Como vou falar deste livro, esplêndido, sem revelar seus muitos segredos? Seria terrível contar para você tudo aquilo que será descoberto conforme você avança em suas duzentas e poucas páginas.
   A questão que Nabokov propões é certeira: Existe alguma coisa que seja verdadeira? Nosso cérebro tem o poder de absorver e compreender a realidade? Ou tudo que conseguimos é criar mentiras para nosso tolo consumo? Pior, só percebemos aquilo que desejamos perceber e queremos viver o que nosso passado e nosso meio nos faz querer viver. Mesmo sem o perceber.
  Lemos um livro, ou vemos um filme, e o que assistimos ou lemos é aquilo que podemos e ansiamos por encontrar. Não há leitura isenta. Não há vida imersa na verdade. Criamos nossa crisálida de ilusão segundo a segundo. Se você é apenas um bobalhão, voce cria uma realidade curta e simplória, feita de desinteresse e funções corporais. Se voce tem uma mente mais sofisticada, voce cria um universo de visões e crenças complicadas. Nunca verdadeiras.
  Este livro é uma maravilhosa peça de ilusão. É divertido e trágico. Venha comigo...
  Voce abre o livro e trava conhecimento com um professor universitário. Ele vai comentar e lhe apresentar o último poema de um amigo morto. Nessa introdução, ele te aconselha a ler primeiro as notas que ele compilou.
  E lá vou eu ler essas notas. O poema tem cerca de 15 páginas, as notas são duzentas páginas. Eis um livro em que as notas são mais importantes que a obra em si. Eis um livro em que o editor é mais importante que o autor.
  Então leio as notas. Ou melhor, começo pela bibliografia. Depois leio o índice. E então as notas.
  Falo do que elas tratam? Ok, só uma pista: O editor se vê na obra. Assim como voce se vê em seus filmes e livros favoritos. E por ter sido "amigo" do autor, ele vê sua biografia no poema.
  Nabokov escreve como quem cozinha e sabe cozinhar. Tempera e aquece, bate e mistura, serve e exige paladares treinados. O livro é de 1962, e em 1962 ele era o autor mais importante a escrever em inglês. O Nobel não veio. Ele não era simpático a duas coisas que os juízes do Nobel amam. Política e vitimismo.
  Não é um livro fácil. Mas é um prazer.

AS DUAS GRETAS

   Vivemos o tempo do faz de conta. Cada um acredita naquilo que seu coraçãozinho puro quer aceitar como verdade. A ciência virou um filme em 3D e a filosofia um tipo de eco daquilo que voce já sabe e adora reouvir.
  Espertalhões usam isso pra se promover. Eles revivem algo feito já montes de vezes e vendem como novo, ideia original. Ou pior ainda, um tipo de "resistência contra a mediocridade". Falo das duas Gretas. Aquela do rock e aquela da ONU.
  A do rock tem milhares de seguidores fanáticos, incapazes de perceber que ela é apenas um karaokê não assumido. A banda dá aos seus seguidores aquilo que eles sempre quiseram: a repetição ao infinito de um discurso vazio. Tudo que eles fazem é obedecer. Obedecem fãs, empresários e alguns divulgadores. Cumprem um acordo. Mais do eterno mesmo. Fake.
  A menina autista nascida em país rico e filha de pais bem de vida é caso bem mais doentio. Europeus ricos amam parecer conscientes. Faz parte de sua formação vir ao Brasil ou à Africa defender pobres ou baleias. Pra eles é tudo a mesma coisa. Ficam dois anos e depois voltam para Estocolmo, viver um estilo de vida imutável. Ricos e loiros, puros como bebês em berçário social, se livram assim de sua culpa e podem passar os próximos 60 anos felizes. Eles podem pensar: Fiz minha parte.
  Greta diz que perdeu seus sonhos. Protegida pelo mais sofisticado capitalismo, vivendo num país que dizimou florestas e lobos, ela, comendo e morando nas benesses desse sistema, se torna a porta voz dos bem nutridos e dos seres de consciência pesada. Usada por seus pais e pela ONU, ela repete ao infinito as bobagens simplórias que John Lennon ou Taiguara falavam em....1970. Lennon ao menos compunha boas melodias.
  Há um bando de Yokos por detrás da pobre Greta. A pobre menina raivosa alimentada por salmão e arenque.
  Na minha escola tenho 550 alunos que não tiveram seus sonhos roubados.
  Eles não tiveram sonhos, então nada foi roubado.

UMA QUESTÃO PARA QUEM QUISER SER QUESTIONADO

   A questão que faço é: No amor erótico, entre homem e mulher ( ou não ), há realmente o interesse pelo outro, o sentimento é aquilo que parecemos sentir, ou tudo seria uma fantasia?
   Falo de amor, do amor que diz 'Te amo", "Preciso de você", daquele que se dedica completamente. Ou seja, não falo da amizade ou do mero acordo de companheiros. Falo do amor que escreve romances e dita poemas. E pergunto outra vez: Nós o sentimos, todos sabemos do que falo, mas ele é de fato aquilo que imaginamos ele ser?
  Já me traí ao usar a palavra imaginação. Seria então um amor ao ego travestido em amor ao outro? Amaríamos na verdade aquele que sente o amor e na verdade o que nos seduz é estar dentro de uma narrativa?
  Ou o amor seria apenas um ajuste de contas, um modo de reviver e tentar purgar coisas vividas na infância? Sexo hoje é coisa simples, e dizer que o amor é um modo mais bonito de falar de sexo não me parece mais apropriado. O mundo mudou muito e o sexo é aceito como biologia, política ou direito, chama-lo de amor não é mais preciso.
  Acho.
  Mas o que ele, o amor que mata e faz viver, o que ele seria?

AS LIGAÇÕES PERIGOSAS - CHODERLOS DE LACLOS

   Houve um tempo, entre 1969 - 1980, em que as editoras lançavam livros luxuosas em bancas de jornal. Se você é mais jovem, deve pensar que estou falando dessas edições muito ruins lançadas neste século, já na agonia das editoras. Eu falo dos livros de capa dura, com títulos em ouro, páginas macias e leves, fonte clara e de bom tamanho, livros dignos de seus autores. Foi uma época maravilhosa para começar a ler, e lembro de uma nota de jornal, em que numa visita ao Brasil, um famoso autor de língua inglesa ficara espantado com os autores que eram vendidos em banca de jornal.
  Minha edição de As Ligações Perigosas é de 1979. E é digna de um livro tão delicioso. Dizem que ainda hoje, toda a psicologia amorosa do livro é válida. Penso que sim. Os movimentos do coração aqui descritos são eternos.
  Laclos foi conhecido como nobre e militar, não como escritor. Venceu batalhas e escreveu sobre elas. Passou ileso pela revolução. E como todo grande homem, ela não pertence apenas a seu tempo.
  De todo modo, Laclos esperava passar à posteridade como diplomata e general, é lembrado duzentos e cinquenta anos depois como escritor. Mas por pouco tempo. Este livro caminha a largos passos para o esquecimento.
  Esta obra contém três fatos da vida real que se tornaram tabu nestes tempos de faz de conta: Valmont seduz uma menina de 15 anos. Pedofilia. Todas as cenas de sexo são um tipo de estupro. E as mulheres se dão como servas ao homem que as seduz. Todos esses pecados são fato. É claro que me incomodam. Mas não é por não se dever escrever sobre eles que magicamente eles deixam de existir. Mas quero dizer que uma leitura mais profunda revela algo mais complexo, e bem mais atual...
  Merteuil, uma mulher, é personagem atemporal. Moderna. É uma mulher que tem prazer na cama e faz o que quer quando quer e com quem quiser. Ela é castigada ao final, mas esse castigo não convence. Laclos ama Merteuil. E ele conduz Valmont, numa campanha que parece tática militar, à uma derrota absoluta. Ciumenta, ela exige que ele seja dela, mas ele se apaixona por uma bobalhona, e Merteuil o destrói.
  Valmont é o Casanova francês, conquista pelo prazer de vencer, de dominar, de possuir. O amor não entra nessa batalha. Cada mulher é uma tropa a ser tombada. Mas ele é pego pela única que resiste. E se apaixona sem ter consciência de sua paixão. É fantástico ler como sua mente cria desculpas para sua demora, para suas exitações, para seus cuidados. Ele a ama, e não sabe que aquilo é amor. Mas Merteuil sabe, e odeia isso em Valmont. Ela se divertia com cada nova sedução dele, mas não pode perdoar o fato de ele ter a traído. No mundo dos dois todos os crimes são perdoados, menos a humanidade.
  A psicologia do livro é brilhante, a mente de Valmont e de Merteuil está viva em cada página. Mas só dos dois. Os demais personagens são apenas tipos, são uma espécie de motivo que faz com que os dois reajam. Há já uma pitada de romantismo na seduzida-culpada-sofrida Tourvel, mas o livro transborda iluminismo. Tudo é conduzido de forma racional. Quando surge a irrazão, pronto, eles afundam.
  Escrito em forma de cartas, vemos também como vivia a elite francesa por volta de 1770. As cartas eram trocadas às vezes até 3 vezes no mesmo dia. Voce remetia uma de manhã, recebia a resposta às duas da tarde, mandava outra em seguida, e ainda era lido pelo seu confidente de noite. Ele escreveria a resposta, enviaria, e de manhã voce já poderia ler outra carta. Dizem que na Inglaterra o correio era ainda mais veloz.
 

O DIA EM QUE STALIN REEDUCOU OS ROLLING STONES

   Amigos queridos e desqueridos, o mar não tá pra peixe. Acabo de ser testemunha de um dia inteiro de ofensas de esquerdistas e ditadores eugenistas de araque. Explico:
   Faço parte do facebook de um grupo de fãs dos Rolling Stones. Pois bem, esse grupo foi tomado por um bando de homens brancos esquerdistas que se auto proclamam donos da verdade e guardiães da alma pura da maior banda de rock do mundo. E sendo assim, se sentem no dever de humilhar e expulsar quem não seguir as normas stalinistas que eles imaginam ser a única verdade.
   Seria cômico, mas é bobo apenas.
  Desse modo, eles intuem que por eu ser de direita não compreendo a banda, não sei do que se trata e pior, NÃO TENHO O DIREITO DE FALAR DA BANDA. Sou um ignorante a priori. O objetivo deles é claro: fazer com que eu saia ou pior, peça desculpas por ser quem eu sou. A tara por expurgos do comunismo mais retrógrado chegou ao rocknroll.
   Quem quiser saber como é minha relação com a banda basta digitar Rolling Stones neste blog. São dezenas de escritos. Analiso meus discos favoritos. Musicalmente e filosoficamente. Mas para esses eugenistas isso pouco importa. Sou conservador e quem é conservador está proibido de ouvir Stones.
   Há neles algo de muito primitivo e perigoso, o desejo de pureza. O sonho deles é que todos na comunidade sejam idênticos. Mesmos gostos e mesmas fés. É um tipo de fascismo. Mais que estético, o fascismo que não suporta fazer parte de um grupo que tenha quem pensa diferente. Tive de ler aulas sobre o Banquete dos Mendigos! O que ele é e o que significa. Teses que provariam o petismo dos Stones. Traduções de letras que deixariam claro o amor de Mick Jagger pela luta do proletariado. Sim, é engraçado. E bastante ridículo. O rei do jet set mais snob como paladino da justiça social. Um idiota chega a dizer que eles são a segunda banda mais politizada do mundo ( hahahahahahahahah ). Estariam os Stones à frente de Clash e Gang of Four? Seriam mais à esquerda que Bob Dylan e Robert Wyatt? Pra eles sim. My God! O que o fanatismo não faz....
   Ah sim, a mais politizada para ele é Rage Against...isso mostra o que ele anda desouvindo.
   Mick Jagger é contra a queimada da floresta. Eu sou e voce é. Qualquer um que não seja uma besta será. E Mick não só é inteligente como tem um filme para vender. Os stalinistas pegam essa declaração óbvia e criam todo um discurso sobre o ódio de Mick à Moro. Pois é.....as aulas de leitura de texto andam bem mais fracas do que eu pensei.
   Para terminar, um delirante patrulheiro maoísta diz que Sweet Black Angel prova o esquerdismo radical de Mick. Angela Davis era uma comuna guerrilheira e Mick a homenageia. Não ocorre ao ser babante e baboso que Mick fala do absurdo de a terem prendido. E também não lhe ocorre que Mick se alinha assim ao Partido Democrata Americano, aquele de Kennedy e Roosevelt. ( Mick transou com Angela, mas isso não importa...ou importa? ).
   Reducionistas dos mais infantis, eles me recordam a idiotice dos patrulheiros ideológicos de 1979, que cobravam de cada artista brasileiro um claro e inequívoco compromisso com a esquerda. Ou voce é como nós ou será um pária social.
  Questão final: Mas não era apenas rocknroll?

VOCÊ É LIVRE. INFELIZMENTE.

   Leio a tal apostila que fala de gênero sexual para crianças. O texto é inofensivo e não faz mal algum. Uma criança que leia aquelas linhas mal entenderá do que trata. Como tem ocorrido tanto, muito barulho por nada.
  Mas há um problema adulto nesse fato. Lendo o texto, percebo que se faz uma força imensa para se negar o óbvio. Sofismo, dos mais baratos, para afirmar que sexo é ficção, construção social, escolha de cada um. Bem, isso não seria problema se não escondesse um problema maior, a infantilização dos adultos.
   Vivemos um tempo de supermercado. Tudo está a sua disposição, para seu conforto, e desde que voce possa pagar, tudo que se oferece é seu. Desse modo, vivemos a ilusão de que querer é poder. Uma fé muito de criança e nada adulta.
   Voltando ao texto. É claro, que é muito saudável, voce escolher se quer fazer amor com homens ou mulheres. Mas negar o fato de voce ser um homem que se sente mulher é um absurdo. Para que serve negar a biologia básica e real? A verdade e que é macho quem produz espermatozoides, é fêmea quem produz óvulos. Qual o pecado em se dizer: Sou uma mulher que tem personalidade de homem. Por que a necessidade de dizer que personalidade não é biologia, não é corpo, química, matéria? Se dá a prioridade à alma e se nega o corpo. Isso é perverso! Pior, é infantil. Basta querer ser mulher e pimba! Voce é mulher!
   Vivemos esse tempo: Achamos que amamos a ciência, mas o que amamos são seus frutos, não suas verdades. Se queremos crer em terra plana, vida de ETs ou na alma angelical de meu cão, não há problema, a ciência "prova" isso. Na verdade não prova e não é ciência. É desejo infantil.
   Por crescermos com pais que nos "amam" mas pouco nos educam, temos a fé de que o mundo é o que pensamos dele. Se a gente desejar com fé, tudo acontece. Mais, a verdade é relativa, ela inexiste de fato. Nada mais confortável que acreditar que a verdade não pode ser apreendida. Isso nos livra da necessidade de esforço para a alcançar. Basta pensar no que eu acho que desejo: eis a verdade automática.
   Se o gênero sexual é apenas uma construção mental, então posso modificar em 100% sua verdade. Basta pensar diferente e serei diferente. Eureka!!!! Mas há a maldita ciência biológica....
   Isso me leva a falar da liberdade. De todas as ilusões infantis, talvez a mais nociva seja crer na liberdade. Queremos crer que somos livres para fazer e ser o que nossa mente quiser. Podemos viajar, abortar, transar, se matar, falar, olhar, comer, se drogar, mudar o corpo, mutilar, tudo tudo tudo....mas existe a maldita biologia....e ela estraga essa tola liberdade...
   A biologia nos obriga a morrer. A ter fome mesmo não desejando comer. A ir ao banheiro mesmo em meio a uma viagem. A se coçar num jantar chique. A biologia nos fala que não somos livres. Somos limitados por nosso corpo.
  Então como crianças mimadas nós gritamos: o sexo é questão de escolha, obeso é feliz, o feio é relativo, se voce quiser que seja, a morte será uma good trip, posso reprogramar meu DNA, o câncer é emocional. Tudo remetendo para fora do corpo, tudo tentando em desespero nos dar a ilusão da liberdade de escolha. Em extremo eu escolho minha morte: morro onde e quando eu quiser.
  Nesse mundo tolo, não há possibilidade de felicidade mínima. Isso porque ser feliz é estar confortável dentro de algo. Se voce vive fora de família, regras, leis e até de seu corpo, tudo que voce saboreia é vazio. Voce está dentro de seu corpo, mas não crê nele. A felicidade é aceitar. E voce nada aceita, apenas quer.
  Eu comecei o texto com a intenção de dizer que em um mundo onde todos são artistas, obviamente a ciência é uma intrusa. Mas falo disso outro dia.
  Só para terminar, devo dizer que a religião também caiu nessa. É hoje um supermercado de pedidos a curto prazo. Ter fé é poder. E voce, tendo fé, pode fazer o que quiser. Liberdade pura não é?

LIBERDADE PRA QUÊ?

   Leio a tal apostila que fala para as crianças sobre opção sexual. Como já esperava, ela é tola e inofensiva. Muito barulho por nada. O que discuto aqui é porque se escreve um texto tão burro.
   Vivemos um tempo infantil. Como crianças, cremos que querer é poder. É provável que isso aconteça não só por termos pais que nos amam e não nos educam, mas também porque viver se tornou relativamente fácil. Podemos passar anos e anos sem quase morrer e sem ver alguém morto. Antes os enterros e toda sua crua realidade eram parte da rotina do dia a dia.
   Continuando...A biologia nos diz, com imensa simplicidade, que produzir espermatozoides faz de mim um homem. E produzir óvulos faz de voce uma mulher. Só isso. Uma verdade sólida, real e comprovada. Isso não impede que voce queira ser trans. Isso não impede que voce queria amar gente de seu sexo. Isso não impede nem mesmo que voce seja assexuado em gostos e comportamento. Mas veja, gosto e comportamento, não realidade biológica.
   Mas vejamos, qual o problema em se falar: Sou um homem que se sente mulher. Sou um homem-mulher. Qual a necessidade do sofismo barato do texto da tal apostila, que faz um malabarismo vazio e tolo para afirmar ao final que a biologia é questão de querer? De escolha. De desejar ser. Ora, isso não é ciência, é brincadeira, jogo de crianças. Hoje quero ser o Homem Aranha, então sou o Homem Aranha. Sinto muito pequeno Paulinho, voce é uma criança que faz de conta ser o Homem Aranha.
   Nessa equação é lógico que entra o produto mais valorizado do supermercado mundial: a liberdade. Temos a fé, e ter fé é o que "conta", que somos livres. Podemos abortar. Nos drogar. Ir e vir. Falar o que quiser. E no extremo somos livres até para escolher nossa morte. Dentro desse mundo, eu escolho meu sexo. Se me sinto mulher, eu escolho ser mulher. Pouco importando se produzo espermatozoides. Isso é "apenas" um detalhe. Mas....surge a biologia...e com ela nosso corpo real. E por mais livres que nossa fé diga que somos, ainda assim nosso corpo nos obriga a comer mesmo quando não queremos, a defecar mesmo em meio a uma viagem, a envelhecer, mesmo com gastos altos em estética, a menstruar, a ejacular, a sentir dor, a ter dentes podres, a perder cabelo, a morrer. Nosso corpo nos grita todo o tempo que afinal não somos livres. Estamos presos a tempo e a necessidades.
   Daí nosso ódio à biologia e a tentativa de transformar tudo em escolhas. A transformar o real no irreal e a fé em verdade. Gordo é escolha, morrer é uma viagem ao mundo melhor, envelhecer é pra quem não sabe se manter jovem, e sexo é escolha. Somos um povo que ama os produtos da ciência, mas que a odeia enquanto fato real.
   Nesse tipo de mundo a verdade se torna sempre relativa. A verdade depende de seu gosto. A verdade não pode ser aceita pois ela nos prende à....verdade verdadeira e final. Ela nega a liberdade de crer no que se quiser crer.
   Nesse tipo de mundo, o mundo é plano ou é uma explosão, tanto faz, se voce tiver fé será válido. E a igreja, reino da fé, se torna um tipo de poço dos desejos. Tudo será concedido se voce crer, e nada lhe será exigido se voce assim o desejar.
   Felicidade nesse mundo infantil é impossível. Pois ser feliz é aceitar de forma profunda a imperfeição da vida e do mundo, sentir-se dentro da realidade e compartilhar essa verdade. No mundo do desejo mágico é cada um na sua, criando sem parar uma realidade individual feita de fé e de relatividade. Cada um na sua.
   Eu comecei o texto querendo falar de que em mundo onde tudo é arte e todos são artistas, a ciência se torna um tipo de primo mal vindo. Um estraga prazeres. Mas meu desejo me trouxe até este texto. Sim, sou livre para escrever aqui. E o que escrevo não é ciência, pois cientista não sou. Mas não penso magicamente que escrevo filosofia, ou arte, ou que ajudo alguém. Escrevo o que posso para ser lido por quase ninguém. É só isso.
  Todo o resto é magia.

MINHA VELHA VELHA ESCOLA

   É um final de tarde de primavera. O sol generoso parece fazer sorrir o chão e as fachadas dos edifícios anos 50 das ruas. Passo pelos portões e estou de volta após 40 anos distante.
  Não há emoção nos primeiros passos, mas após alguns segundos olho para o lado esquerdo e vejo uma alameda. Os pequenos prédios de tijolos marrons, as árvores com suas sombras calmas, as escadas que levam às portas de madeira escura, as janelas altas...meu coração se alarma. Sim, eu estou de volta ao lugar onde fui completamente infeliz. E o que sinto é apenas alegria.
  Lágrimas brotam nos meus olhos. Eu poderia me ajoelhar e chorar. Eu sorrio então. Minha alma sente-se em casa. Como posso sentir coisas boas se estou aqui?
  Lá está a construção onde eu estudava. Seu aspecto limpo e funcional. Uma fachada que sorri, aberta, clara, permitindo luz. Aqui a praça cercada, bancos, e depois os caminhos onde eu me escondia. E então a biblioteca. Alta, o aspecto de igreja sem Deus. Elegante e vitoriana. Escura, sombria, úmida, linda. Eu a beijaria se estivesse só. Nela tenho lugar. Ninho. Completamente em casa.
  Se lá fui tão infeliz, e sei que fui, e agora me sinto em casa, então a conclusão me vem: É porque a tristeza que eu sentia então, hoje me parece acolhedora. Naquela escola nasceu a pessoa que sou, e esse parto foi dolorido, sofrido, solitário, quase um trauma. Muito tempo se passou e agora, hoje, a alegria vem não só da vitória de ter sobrevivido e retornado, mas principalmente por conseguir reconhecer nos tijolos marrons e nas árvores escuras, um berço. Sim, aquele local maldito é minha pátria mãe.
  Tenho de sair de lá. Me conduzem para fora. Olho os muros que não mudaram. Os porões onde existiam os laboratórios. Me lembro da minha incapacidade para aprender. E do quanto era duro fazer um amigo. A timidez que me sufocava, o medo das meninas bonitas, a sensação de que eu sobrava. Mas houve um outro lado. O nascimento do que eu sou. A luta para ser. A vontade de sobreviver.
  Pego o metrô e volto para casa.
  Em todos esses anos sonhei muito com essa escola. Eu sonhava sempre estar nela e não conseguir voltar para casa. Estar fora dela, na rua, mas sem conseguir sair de onde me encontrava. Pois hoje entrei e saí. Estive e retornei. E sinto que mergulhei em mel.

EU E MEU AMIGO CHIQUE

   Saio com um velho amigo chique e ele me faz a pergunta já esperada: " Como pode você ser de direita? Você tem cultura, você é de esquerda, claro que é"
  Sim, essa pergunta foi feita, e como esse amigo é ultra civilizado, não discutimos, apenas conversamos. Lhe explico que assim como há direitistas que acham que todo esquerdista é comunista ( God!!!!! ), há esquerdistas que acham que todo direitista é igual. Na verdade não há esquerdista que ache isso...no Brasil TODO esquerdista pensa isso.
  Explico ser um conservador. E que na direita há sérias divergências. Englobamos desde o mais xiita nazi-fascista até o mais pacífico e culto conservador. Liberais, yuppies, reacionários, revolucionários de direita, neo liberais, proto conservadores, todos brigam entre si. Meu amigo não fazia a menor ideia disso.
  Entendo que um governo como o atual é muito necessário. Como Lula nos foi necessário. Bolsonaro irá errar, irá acertar, talvez nos leve ao buraco final, ou nos salve do buraco atual. Mas essa faxina é necessária. O fato de meu amigo pensar isso da direita, mesmo sendo culto e antenado, mostra como fomos podados de 50% da cultura real. Nos acostumamos a crer que todo valor artístico ou filosófico é natural monopólio da esquerda. É um monopólio, mas nunca foi natural. Foi imposto às mentes formadas entre 1980-2018. Trinta e oito anos de absoluta ditadura artística e educacional da esquerda. Donos da verdade, do bem e do saber. Nunca foram. Ser esquerdista é apenas um dos modos de se ver o mundo. Existem outros.
  Eu e meu amigo tomamos um cappuccino e terminamos falando de TV e de ópera.
  Sim my dear, ser conservador é mais que uma opção política. É um modo de sentir.

ENTRE ELES E NÓS ( DIFICIL SER BRASILEIRO )

   Muita gente estranha eu dar apoio à uma figura como Bolsonaro. Waaaalll.....não apoio o presidente, dou suporte ao seu governo. Ele tem quatro ministros que são totalmente confiáveis e é à eles que apoio.
   Bolsonaro se conformou em fazer o papel de rainha. Ele é a imagem e o boi de piranha do governo. Delegou todo poder a esses quatro e eu apoio isso. De bobo ele nada tem.
   De qualquer modo, não é fácil ser brasileiro. Se voce é conservador como eu é obrigado a apoiar Bolsonaro. E se é de esquerda tem de se conformar com menu que vai de Boulos à Ciro, passando por um ladrão condenado e uma doida varrida. Pobres esquerdistas.
   Preciso ainda dizer que o Brasil repete, sem saber?, toda a agenda crítica dos USA. Os democratas acusam Trump exatamente das mesmas coisas que aqui os esquerdistas acusam Bolsonaro. Racismo, fascismo, machismo, etc etc etc. E a direita daqui se comporta como os republicanos de lá, tudo é comunismo fora de suas asas. Houve um tempo em que o modelo era a URSS. Melhor hoje.
  Trump será reeleito alegremente. Formadores de opinião tipo atores e jornalistas não influem em mais nada. A opinião do Caetano ou da Meryl Streep vale tanto quanto a sua. E o povo meu querido, ele é conservador, sonha em fazer amanhã o que faz agora. Ama sua casa, sua rua e sua igreja. Quer que seu mundo seja preservado. Revolução? Qual deu certo? A última foi a de 1776.

O FIM DO TRABALHO

   Leio uma matéria americana que diz : No futuro próximo, a maioria da população nascerá já sabendo que jamais irá trabalhar. Legal né? Não, não é. Ele explica que essa vasta quantidade de pessoas não trabalhará pelo fato de serem inúteis, e não por algum privilégio financeiro.
   O trabalho está se tornando hiper sofisticado, e a maior parte das pessoas simplesmente não terá a capacidade de ser util. A grande questão do futuro será o que fazer com esse povo. Como fazer com que eles vivam razoavelmente felizes SEM NADA PARA FAZER.
  O autor aposta na virtualidade. Talvez essas pessoas consigam gastar suas vidas em algum tipo de jogo interativo. O governo terá de lhes dar o básico, casa e comida, e elas viverão entretidas em sua vidinha virtual. Jogando e fazendo contatos. Uma vida assim precisará do mínimo de dinheiro.
  Digo que de forma perversa, o Brasil já é assim. A maior parte da população não tem a menor utilidade e vive de trabalhos informais, pouco relevantes, e não morrendo de tédio graças ao celular. O autor americano fala em 90% da população mundial. 90% nascendo sem nenhuma possibilidade de fazer parte do mundo do trabalho. Aqui não estamos longe disso.
  Ou voce acha que entregador de pizza e lava rápido é trabalho relevante?
  Estudei Letras e conheço bem uma carreira que já é irrelevante. O tipo da carreira virtual onde se finge viver e fazer alguma diferença. Jornalismo vai no mesmo caminho. Profissões extintas, ou pior, brincadeiras de faz de conta vivendo das glórias de um tempo cada vez mais distante.
  É por aí.

POBRE TEENAGER

   Na aula de filosofia voce ouve que Deus não existe e que a vida não se explica.
   Na aula de geografia se fala do índice de miséria do mundo e do futuro árido e cruel que nos espera.
   Em história se diz que todo o passado é um pesadelo, feito de escravidão e injustiças.
   Na aula de português se lê um texto sobre o massacre dos índios.
   Em sociologia se diz que todo país rico é um tipo de assassino.
   Tudo isso é verdade? Pode até ser PARTE da verdade.
   Mas não se fala dos grandes homens da história, aqueles que podem nos consolar ou inspirar.
   Não se fala dos filósofos que acreditam em valores morais.
   Por quê?
   O objetivo da educação é formar pessoas insatisfeitas. Contestadoras. Isso só se consegue jogando na cara delas as desgraças do mundo. Gente feliz não se revolta. E sem revolta o mundo "justo e democrático" não nascerá.
   Weeeeellll....Erraram na dose. Excesso de negativismo não causa revolução, causa depressão. E é por isso que tantos jovens se matam. Aprendem com adultos que a vida é uma merda.
   E gente feliz não faz revolução, sim, fato, faz reforma. E reformar é muito melhor que revolucionar.
   A agenda da educação moderna é trágica. Tenta formar revolucionários e forma deprimidos. Tenta mudar o mundo e engessa a apatia. Um lixo.