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OS HEMISFÉRIOS DO CÉREBRO, TEDDY PAEZ E STEELY DAN

Uma boa notícia: descobriram que a partir de certa idade, mais ou menos os 60 anos, os hemisférios cerebrais entram em comunhão. A fornteira entre eles se torna mais fraca e isso faz com que nosso lado intuitivo entre em comunicação com o lado racional. Há perda de memória e de agilidade, mas há, vejam que coisa!, aumento de criatividade. E, e agora vem o que aqui interessa, AUMENTO NA CAPACIDADE DE APRECIAÇÃO DA ARTE. Talvez esteja aqui a explicação do porque de gente com menos de 40 anos não apreciar Steely Dan. ---------------- Eu acho fantástico quando a ciência corrobora, após séculos de pesquisas, aquilo que a civilização já sabia, por costume, desde sempre. Antes da hiper valorização da juventude, via mercado, toda nação valorizava os velhos como repositórios de sabedoria. Um velho maestro, um velho escritor, um velho líder político eram vistos como um ser em seu apogeu. Em 2022, e desde pelo menos 1968, um cara com mais de 40 anos é um ser em decadência e com mais de 60 é um traste a atrapalhar a vida dos outros. Nunca foi assim. E será preciso a ciência para dizer o óbvio. --------------- Em 1977 havia uma loja, na época loja chique se chamava boutique, loja em francês, que ficava escondida no corredor mais estreito do velho shopping Iguatemi. Essa boutique se chamava Soft Machine e seu estilista era Teddy Paez. Paez era porto riquenho e vivia em New York, seu design vinha de lá. Os produtos, roupa masculina moderna, começara como um tipo de hippie chique. depois passara a ser discoteque exclusiva e a partir de 1979 seria new wave sóbria à NY. Eu tinha 15, 16 anos e minhas roupas eram de lá. Até hoje não encontrei jeans melhor. Caía feito uma luva e não era nem justo e nem largo. Camisas que pareciam militares, camisetas hiper coladas na pele, cintos fininhos de fivelas prateadas...qualquer coisa lá parecia moderna, ousada, diferente. E jamais exagerada. O local cheirava a tecido recém lavado e nas caixas tocava Steely Dan. ---------------- AJA não é o melhor LP deles mas é o mais conhecido. É de 1977. E tem o estilo do grupo ( grupo formado apenas por dois caras ) em seu modo mais jazzy. Voce sabe: um ano em estúdio para acabar o trabalho ( hoje se faz um disco em quanto tempo? Dez dias ? O som é perfeito, as composições sublimes, e é preciso ter alguma idade para perceber a profunda beleza daquilo tudo. Porque eles nunca apelam, não são dramáticos, não posam, não forçam. São músicos, são profissionais ao extremo. O que Donald Fagem queria era isso: que fosse perfeito. E perfeição é trabalho, muito trabalho. Os discos deles mostram trabalho, apuramento, resultados. Mas não esforço. Tudo parece fácil. E nada simples. ------------------ Eles unem dois hemisférios.

Donald Fagen - New Frontier | REACTION

donald fagen - tomorrows girls [music video]

TOME CUIDADO COM DONALD FAGEN

Cuidado com Donald Fagen. Como todo traficante ele é discreto. Não chama a atenção, não quer ser notado, mas está sempre presente. Ele não te procura, você vai até ele. Um amigo o indica. Então voce prova seu produto e de começo acha a coisa fraca. Hummmm....tou sentindo nada...Mas, súbito, a coisa te pega. E então, bingo, voce tá viciado. Nervos sensíveis, voce percebe coisas onde parecia nada haver. Sons, mas também imagens. ------------- Donald Fagen é de Boston e isso significa muita coisa. Sua ex banda, Steely Dan, foi o grupo mais elogiado por críticos severos durante toda a década de 70. O primeiro disco é de 1972. De cara já foi um sucesso. Ainda parecia rock, ainda era uma banda normal. Mas já era genial. Uma mistura de ritmos latinos, funk, soul, jazz e pop que não se parecia com nada feito na época. Até seu terceiro disco, Pretzel Logic, 1974, ainda se percebia a raiz rock no som deles. Mas logo veio a guinada. Aumento na dose de jazz e a transformação da banda em duo. Steely Dan passou a ser Donald Fagen e Walter Becker, e uma multidão de músicos convidados. Os melhores. Quando eles imaginavam um solo de guitarra, mesmo que esse solo tivesse apenas um minuto, eles chamavam o melhor cara para aquela sonoridade. Por isso eram meses e meses de gravações. Meses e meses de mixagem. Discos caros para produzir. Os mais caros. Mas dava certo. Valia pena. Sempre valeu. O produto final era chique. Suave. Cheio de detalhes sonoros. Rico. O som mais rico do rock pop. Até hoje. ----------------- Montes de músicos passaram a seguir a trilha do Steely Dan. Quem queria parecer chique dava um banho de Steely Dan Style no som. Sade Adu, os solos de Bryan Ferry, Bowie nos anos 80, Phil Collins, Billy Joel, George Michael, Robbie Willians, Norah Jones, K.D. Lang, Tina Turner, Eric Clapton, todo mundo tentava a sonoridade chique dos Steely. Mas todos, sem exceção, evitavam a parte mais difícil: as mudanças mágicas de harmonia. ------------ A raiz jazz do grupo era sua complexidade harmônica. Suas canções mudavam de ritmo, clima, compasso, harmonia, melodia, sem parar. Cada composição poderia ser dividida em 3 ou 4 novas canções. O povo que os imitava, lembro agora de Joe Jackson, seguia apenas 10% da receita. Criavam uma batida à la Steely Dan, produziam uma sonoridade chique como a deles, mas não ousavam dificultar a audição. Deixavam de fora a alma do som do Steely Dan. A criação constante. ------------- Aja, de 1977, foi o apogeu do estilo. O disco seguinte, Gaucho, já é bem mais simples. E então, em 1980, o grupo acabou. Desde então Donald Fagen lançou 3 discos solo. Apenas três discos solo. Nível alto, os três merecem nota dez. Aliás, a banda leva dez em todos os seus discos. Dos raros casos de grupo musical que jamais deixou a coisa cair. A filosofia deles sempre foi essa: se é pra lançar algo mais ou menos que não se lance nada. --------------- As letras são ironia pura. Mas não engraçadinhas. São sérias. Mas voce nunca sabe se eles falam a verdade ou se mentem sem parar. -------------- Para quem ama ouvir e escutar, não há banda melhor. Suas canções exigem atenção em cada instrumento. E eles nunca são menos que oito ou nove. Aqui não há nada feito para voz e piano ou baixo, guitarra e bateria. São sempre quatro ou cinco guitarras, dois ou três teclados, montes de percussão e os metais. Van Morrison também seguiu a trilha deles. Ninguém chegou nem perto da sua magia. -------------- Ah sim....a voz! Fagen canta mal. Muito mal. Mas há um segredo aqui. Sua voz não irrita e nem atrapalha. E por não ser um grande cantor, o vocal se integra ao instrumental. Não é voz acompanhada. É voz como parte da coisa. Inteligência pura: ele usou sua fraqueza como força. Não consigo pensar em ninguém cantando suas canções sem parecer fake. --------------- Kamakiriad é o disco solo de Donald Fagen de 1994. Foram 12 anos sem lançar nada. Desde Nightfly de 1982. O que temos aqui? Aparentemente o mesmo som do Steely Dan. Composições complexas, ritmos quebrados, riqueza instrumental. Mas há uma diferença: menos jazz e mais funk. O disco é dançavel como nenhum outro dele. O centro é a bateria e não mais o teclado. Uma delícia suave e sacolejante. Chique ao extremo. Vendeu bem na época. Fagen sempre vende bem. Como disse, os viciados em som querem sempre mais. E espertamente, ele dá pouco. Não dá pra escolher a melhor faiza. Todas são ótimas e todas são únicas. Relaxa e aproveita.

Lucky Henry

UM PEQUENO GRANDE DISCO QUE NINGUÉM OUVIU: WALTER BECKER, 11 TRACKS OF WHACK

Pra quem não sabe, Becker é a outra metade do Steely Dan. Ele e Donald Fagen compunham tudo que a banda gravou e enquanto Fagen cantava e tocava os teclados, Becker se dividia entre baixo e guitarra. Voce sabe, entre 1972 e 1980 o Steely Dan gravou alguns dos melhores discos de todo tempo. Fagen e Becker chamavam dúzias de músicos para gravar e ficavam meses em estúdio para aperfeiçoar um solo de guitarra ou para refazer um beat de bateria. De Steve Gadd à Michael Brecker, os melhores músicos de estúdio fizeram parte dos discos. Era a época em que se gastava uma fortuna para produzir um LP e um album como AJA, 1977, tem uma sonoridade irrecuperável. O Steely Dan é a banda para quem ama escutar, para quem se liga em timbres, arranjos, maestria. Os andamentos são impossíveis, os grooves mudam sem parar, e acima de tudo há um clima de chique, de sofisticação. De Doobie Brothers à Diana Ross, de Marina Lima à Rita Lee, em 1978-1984, todo mundo queria soar como Steely Dan. Alguém conseguiu? Não. --------------------------- Quando o Steely Dan acabou, em 1980, Donald Fagen lançou um disco solo em 1982, o excelente The Nightfly. Então deixou seu perfeccionismo virar preguiça e desde então lançou apenas mais dois discos. Já Walter Becker só se animou a gravar alguma coisa em 1994, 14 anos após o fim do grupo. É este 11 tracks of whack. O som é quase Steely Dan, mas tem diferenças cruciais: é menos jazz. Quando lançado passou em branco, quase ninguém ouviu. A crítica amou como sempre, mas o povo estava então no grunge e no rap. O pop hiper bem feito de Becker não tinha lugar e hoje continua não tendo. ----------------- Mas ouvi-lo é um prazer. Sempre a beira do esquisito, tanto bateria como baixo mantém o ritmo impecável de composições variadas e classudas. Dean Parks faz solos de guitarra sublimes e econômicos. Hat Too Flat é talvez a melhor faixa, mas é impossível escolher. Walter lançou mais um disco solo após este e morreu faz uns poucos anos. Donald está por aí, insistindo em não lançar nada. Ouça.

Walter Becker - Surf and-Or Die

Steely Dan - Peg (original audio recording)

O PRAZER DE OUVIR. LOVE OVER GOLD. DISCO DO AUGE DA TÉCNICA DE GRAVAÇÃO.

Uma das maiores tragédias da era do streaming é a morte da apreciação sonora. A gravação sonora evoluiu durante cem anos. Do cilindro de cera ao disco de vinil. Da Alta Fidelidade ao som estereofônico. E então os 48 canais nos anos 70. A High Fidelity teve seu ponto alto nos discos de Sinatra gravados entre 1956-1959. Se voce puder ouvir em vinil, em aparelho com dois alto falantes distantes um do outro, ouça. Quando os metais da orquestra de Billy May ou de Nelson Riddle começarem a soar voce vai entender o que digo. É como se 48 músicos estivessem na sua casa. Quanto ao som stereo, use fones de ouvido. Aconselho a escutar Dear Mr Fantasy do Traffic. Em vinil, claro. O grande salto de qualidade, o pico que foi perdido, se dá por volta de 1973. Os estúdios se tornam instrumentos, os engenheiros de som viram músicos, os LPs são transformados em caixas de surpresas sonoras. Aja, do Steely Dan talvez seja o mais sutil desses monumentos. Mas há centenas de discos feitos entre 1973-1983 que exemplificam esse ponto alto. A decadência começa com o barateamento dos teclados, mais ou menos em 1984, e depois com o CD, que realmente corta os agudos e graves que seriam "indesejáveis". Em nosso tempo, 2021, nada disso importa mais. Música é escutada na rua e no carro. A qualidade sonora pouco importa. Músicas são gravadas em ritmo de quem faz hamburger no Mac. Todos os artistas usam os mesmos engenheiros de som. Quando os usam. --------------------------------------------- LOVE OVER GOLD é o disco problema de uma banda que hoje tem a maldição de ser odiada por quem não a conhece. Dire Straits entre 1978 e 1982 era uma banda muito interessante. E este disco, o que menos vendeu, é de longe seu melhor. Ele exemplifica à perfeição aquilo que falo: é um ponto alto na possibilidade de se usar seus ouvidos. ------------------------- Feche-se no quarto e coloque seus fones de ouvido. Coloque o vinil. Ouça. E se encante. É um dos melhores discos para se viajar mentalmente. Ele é visual, todo som parece contar um filme. A guitarra de Mark Knopfler nunca soou tão cristalina. Ecos que flutuam sobre a água. A bateria de Pick Withers, gigante, tem a sonoridade chique e vibrante. Exata. Cada canção, são apenas cinco, é desenvolvida com calma. Um piano aqui, vibrafone que surge do vazio, violão cigano na noite, um synth discreto. A elegância é absoluta. E seus ouvidos são usados em sua verdadeira plenitude. A melhor faixa é Private Investigations, sussurros numa madrugada perdida. Voce mergulha nesses sons. --------------------------- Nesse derradeiro 1982 aconselho que voce também ouça o disco de Donald Fagen lançado nesse ano, talvez o disco mais trabalhoso já gravado. Mas há muito, muito mais. Isso é educação auditiva. Isso é sublime.

BECK HANSEN-STEELY DAN-RAEL-O QUE É NOVO?

   Para os que me acompanham fora do Brasil, Rael é um novíssimo cantor e compositor daqui. Supostamente ele faz música para jovens. Supostamente, música jovem. Ok.
   Ouço hoje Odelay!, do Beck Hansen. O disco tem já 22 anos! E sim, está encapsulado em seu tempo. É um disco de 1996. Voce ouve e lembra na hora de Beastie Boys, Sonic Youth e os Dust Brothers. Voce lembra de uma América estranhamente pessimista e ao mesmo tempo cheia de energia. O disco é genial, mas será ainda instigante? Vejo 3 alunos de 16 anos escutando o disco pela primeira vez. Não se apaixonam pelo cara. Mas acham "legal". A questão é: Para eles, anestesiados por um milhão de músicas nos ouvidos por dia, alguma coisa pode ser mais que "legal"?
   Não se discute aqui se Beck foi hiper valorizado em seu tempo, claro que não foi, ele pode ter sido até sub valorizado, pois não tinha glamour, o glamour que os Pumpkins tinham e depois os Radioheads tinham. O que discuto é se nesse Kosmos de sons sem fim, ainda se pode sair do anestesiamento e se apaixonar por um som por mais de um mês. É como um "Donjuanismo" sonoro: Voce ouve e ama tanta coisa que perde o dom de amar.
   Posto o som dos Them de onde saiu o riff sublime de devil haircut.
   O Steely Dan nem devia estar neste post. Mas é que ouvi todos os discos dos caras. É atemporal. E por isso, em 2076 ainda será amado. Ou pelo menos será "muito legal".

Steely Dan - Hey Nineteen (1981) HQ



leia e escreva já!

TIMBRES, AMBIENTAÇÕES, CLIMAS.

   Conversava eu com um amigo quando foi citada a célebre frase de Brian Eno: "A música POP não deve ser valorizada por melodia ou harmonia, nisso a música erudita é muito melhor; mas sim pela originalidade de seus timbres."
   Como prometido, faço aqui uma breve explanação de algumas canções que me marcaram e me marcam por seus timbres.
   ( Antes um adendo: A música pop do século XXI tem tido uma uniformidade de timbres irritante. Parece que todos os estúdios e todos os produtores usam os mesmos equipamentos e as mesmas técnicas...Aliás, não parece, é fato ).
   The Spencer Davies Group - gimme some lovin.
Não tem como não falar dessa faixa de 1966. Mais que tudo, o grande gênio deste som é Jimmy Miller. Ele quem produziu esta canção que esbanja ambientação. Podemos ver o local onde os músicos estão. Há uma abundância de vozes, de sons de percussão e um órgão que soa como faca. É um marco da gravação elétrica. Feche os olhos e enxergue os caras tocando.
   Steely Dan - hey nineteen.
O Steely Dan usa em cada faixa de seus LPs formações diferentes de músicos. Como num menu, Fagen e Brecker escolhem o som que cada músico pode dar. O som de hey 19, faixa de 1980, gravada em LA, 38 canais, usa os músicos de estúdio mais foda que o dólar podia comprar. Mas acima de tudo ela é elegante. Começa com aqueles acordes de guitarra e se espalha em um dos melhores sons de bateria já gravados. A música é quase nua, usa o silêncio e os backing vocals são dos céus. Todos os timbres são fortes em presença e ao mesmo tempo discretos, por isso elegantes. Uma aula de bom gosto.
   10CC - i'm not in love.
É uma das canções mais importantes do pop de todos os tempos. Levou cinco meses para ser gravada. O quarteto, gente que produziu Yardbirds entre outros, perfeccionista ao extremo, faz uma canção maravilhosa usando apenas vozes como melodia. Essas vozes, apenas duas, são multiplicadas ao infinito. De fundo, um piano elétrico delicado e um baixo que parece tocado por um anjo. Eno fala de ambientação, estamos no Eden aqui. O momento em que a melodia cessa e depois retorna é assombroso. O final sempre me faz pensar que a música pop foi criada para um dia dar luz a esta canção perfeita.
   Lou Reed - Vicious.
Mick Ronson e Ken Scott são os responsáveis por este rock de um timbre nunca mais igualado ( ok, David Essex tem um disco com som parecido ). A guitarra de Mick é aquosa, plástica, suave; enquanto a bateria rebombeia ao redor do som. É preciso criar novas palavras para falar de som tão novo. Repare como a voz de Lou, "machona", noturna, detonada e sábia, faz contraste com o som da instrumentação de Ronson. O solo é tão maravilhoso que seria digno do melhor de Jeff Beck. Voce pode ouvir isto 300 vezes. Nunca vai enjoar.
    ( amanhã tem mais )

STOOOOOOPID !

   São 10 LPs vindos diretos de Kookaburra, Australia! Edições de 1980, eles seguem adiante do lugar onde Lenny Kaye havia parado. Sim, voce sabe né, Lenny Kaye era crítico de rock e guitarrista da banda de Patti Smith e em 1972 ele conseguiu lançar um disco chamado Peebles. Era uma coletânea de bandas americanas que tinham desaparecido sem deixar rastro. Mais importante, eram bandas de garagem e em 1972 NINGUÉM MAIS lembrava do que era uma banda de garagem!
   Garagem era o tipo de som mal tocado, mal gravado e mal divulgado. Todas as bandas bebiam na fonte de Yardbirds e Them. E por causa da sinceridade, da energia, do desejo a flor da pele, era rock na mais pura alma. A molecada, alguns com 14 anos de idade, botava o fígado pra fora. Pois bem, esse som ameaçou estourar nas paradas entre 1966 e começo de 1967, mas a história foi cruel com eles. Veio em junho de 67 o sargento Pimenta e o rock mudou. Agora a moda era som pretensioso, bem arranjado ou solos longos inacabáveis. Faixas de dois minutos eram velharia agora...
  Em 1972, no auge do rock sinfônico e do hard rock hedonista, Lenny lança então esse Peebles. Fazia apenas 6 anos que aquilo tudo fora gravado, mas parecia um século. O mundo das garagens ficava a anos luz de Steely Dan e Roxy Music ( as grandes novidades de 72, e eu amo as duas ). Era tosco. Era juvenil. Era sublime.
  Peebles não vendeu nada, mas certos críticos amaram. E muito moleque de Akron, Detroit, Los Angeles e Londres pirou ao ouvir aquilo. Era exatamente o que eles queriam ouvir. Era um som que eles podiam fazer.
  Em 1979 um maluco Aussie, um tal de Seltzer, sai pelos USA a procura de discos perdidos em coleções, lojas antigas, porões cheios de tralhas. E nessa procura ele encontra material para 10 LPs!!! Todas as bandas que ele encontra têm em comum, além da sonoridade pré-punk, o fato de não terem vendido quase nada e nunca terem gravado um LP. Fizeram apenas um ou três singles, venderam de mão em mão, sonharam com o sucesso e sumiram sem deixar pistas.
  Algumas faixas têm péssimo som. Discos que foram achados semi destruídos, riscados, jogados em meio a vitrolas e bikes abandonadas. Um tipo de aventura de garimpo impossível de ser feita hoje. Uma aventura atrás de pérolas, de pepitas.
  A edição, os 10 discos com lindas capas acondicionados em uma pasta de vinil, com poster e uma carta de Lenny Kaye, é linda.
  Andei pensando se na história do rock existe um só nome que seja amado por todas as tribos. Um nome que possa ser escutado com gosto por góticos, hippies, punks, metaleiros, folks, indies, eletrônicos, blueseiros, rockabillies, countries, e etc sem fim...pensei que Hendrix chega perto dessa unaminidade...mas acho que uma banda como essa The 12 a.m. tem esse poder. O som vai de Sonic Youth e Mudhoney à Buddy Holly e Monkees. Ninguém sabe quem são, para onde foram, nada. Ficou o disco. Um milagre.

Steely Dan - Peg - 10-17-15 Beacon Theater, NYC



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LINGUÍSTICA E MÚSICA: STEELY DAN.

   Aprendemos na linguística que com a educação, feita desde o nascimento, de nossa audição, adquirimos a habilidade de perceber certos sons, em nossa língua-mãe, que estrangeiros, nascidos e educados em outro ambiente, não percebem. Desse modo, um brasileiro tem dificuldade em perceber a diferença falada entre "night" e "Knight". Um inglês consegue escutar esse "K", nós não o notamos. Do mesmo modo, a trema de uma palavra alemã, a diferença entre "U" e o "i" em francês ou os sons nasais do japonês podem nos ser inaudíveis. E eles não conseguem escutar o nosso "til" com clareza. Ouvem um simples "n".
  Música é a mesma coisa e por isso um músico profissional sempre parece a nós, leigos, um chato. Ele foi educado a ouvir sons que nos passam despercebidos. Mesmo assim, um leigo como eu, pode ser melhorado se escutar certas músicas de complexa construção. O Steely Dan faz isso por nós.
  Percebo que meus alunos, não todos, educados no som chapado do sertanejo e do funk, têm perdido a capacidade de distinguir os vários sons e ritmos que formam a música mais rica. Sentem a batida geral, mas não procuram instintivamente o som da bateria ou do baixo. Muito menos percebem os vários timbres que existem numa bateria. Minha geração, por mais que o rádio nos desse a riqueza sonora de Stevie Wonder ou de Marvin Gaye, tinha também suas massas deseducadoras: Kiss, Foreigner ou Roberto Carlos. Entenda, eu adoro sons chapados como os do MC5 ou Motorhead, mas é preciso ouvir mais, muito mais, inclusive para entender melhor MC5 e Motorhead.
   Numa canção como Peg ou King of The World há tanto ritmo diferente e tanta sutileza que a educação se faz completa. A bateria em Peg tem quebras de andamento, toques sublimes nos pratos, uma caixa que parece atravessada. Em King of The World o solo de guitarra final é cheio de notas que se reproduzem ao infinito enquanto o contrabaixo evolui como uma cascata de notas blue. E há muito mais, muito mais.
  Um LP como Countdown to Ecstasy serve como um mestrado em beat, em harmonia e em composição. Por detrás da aparente inofensividade de um pop bem gravado há a ferocidade genial de um ouvido que escuta tudo e escuta bem. É o POP sublime.
  E você pode perguntar: Para que serve educação. E eu respondo: Para dar ainda mais prazer dentro daquilo que você já conhece. E para te abrir caminho para novos conhecimentos. O Steely Dan, Donald Fagen-Walter Becker, são dupla de eruditos. São de se reverenciar.

Donald Fagen - New Frontier (Video)



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THE PRETZEL LOGIC - STEELY DAN

Fácil dizer o que o Steely Dan não é : banda de rock, grupo de jazz ou música pop. Mas também nada tem de vanguarda, de folk ou de simples. O que eles são afinal ?
Dá pra dizer que eles odiavam tocar ao vivo. Eram desajeitados e muito feios. Raras bandas foram tão pouco glamurosas. Mas dá pra dizer uma coisa que eles faziam : um tipo de som "de luxo", refinado, macio. Como na mpb, não há ódio no Steely Dan, porque neles tudo soa harmônico.
Na verdade eles eram um duo : Donald Fagen e Walter Becker. E um bando de músicos escolhidos a dedo. Gente do jazz. Mas eles faziam jazz ? Nunca. Então o que tocavam ?
Nasceram em Boston, o que quer dizer muito. Cultura. E eram maconheiros exaltados. Leitores maconheiros. Começa a entender ? Aquele tipo de cabeludo não-hippie mas que fica chapado e é anti-capitalista. Porém o som deles nunca é muito-louco. É muito bem tocado e usa o formato pop. Quatro minutos com refrão e solo curto. Pegajoso.
Pop ? Com esse vocal de quem não tem voz ? Mas que TomJobinianamente coloca a voz ruim sempre no tom exato. Pop ? Com essas mudanças de andamento constantes e letras que são compêndios universitários ? E refrões muito complicados... e magnificamente bem arranjados.
Venderam muito em seu tempo. E hoje são sampleados a toda hora pelo povo do rap. Seriam eles funky ?
O disco tem um vendedor de rua na capa. Pretzels. Capa feia e ao mesmo tempo bela. Fria. Rikki dont lose that number abre o disco. Riff de piano. De gênio. Tá dado o tom. Música bonita e bem feita, mas... mutável. Night by night é noite em Chicago andando de Cadillac. Any major dude é obra-prima de sóbria e madura melancolia. Linda de doer. Tem um arranjo quase medieval e quase freak ( Pode ? Pode ! ). Maduros. O Steely nasce adulto.
Barrytown é festeira e otimista e vem um cover de quem ? Duke Ellington !! Lembremos : O Steely tem a culpa de ser matriz do pop mais vulgar da história. O pop yuppie dos anos 80. Mas o Steely Dan jamais é vulgar ou yuppie. É perfeitamente brilhante.
Parkers band. O disco cresce. Exibição de música elétrica. Voa. Through with buzz é adendo para a obra-mestra : Pretzel logic, hino de inspiração de alguém ( Fagen ) que sabe tudo de harmonia. O dude é inspirado demais !!!!! With a gun é música de cowboy. Mas é cowboy urbano, nada country. Made in Boston. O som do Steely Dan é almofadinha. Sem jamais ser careta. Muita erva.
Charlie Freak é fôlego novo e o disco termina com Monkey in your soul que é psicodelismo inteligente e sob controle. O Steely Dan nunca perde o controle, ele é hiper ensaiado, hiper profissional, mas é sempre vivo.
Mas o que é o Steely Dan afinal ?