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O SONHO E O MUNDO DAS TREVAS - JAMES HILLMAN

O que a noite é pequeno, na luz do dia será grande, e aquilo que durante o dia é ínfimo, de noite será gigante. Essa frase é de Jung e serve como guia para esta obra prima de James Hillman. ------------------ Um analista quando decifra o sonho de um paciente, ele supõe o significado do que aparece no sonho. E ao supor, ele arranca a imagem de seu mundo, onírico, e a transforma em coisa do dia. Ilumina, traz ao ego. O ego então absorve a imagem e se expande. O sonho como tal não mais respira. A imagem, que é imagem e não alegoria, que é imagem e não narrativa, desaparece. ---------------------- Sonhos são a imagem da alma e alma vive no Hades. Almas, todas, vivem dentro, dentro da Terra, dentro da mente, dentro do infinito. Cavamos para a encontrar. E com ela encontramos a morte. ------------- Para entender isso é preciso deixar de lado 2000 anos de cultura critã, onde a morte é o oposto da vida, o mal o oposto do bem, onde todo oposto é uma escolha. Aqui morte e vida são uma via unida. Uma pressupõe a outra, uma existe na outra. A morte está na vida, a vida na morte. ------------ Este pensamento não é oriental, é grego, tragicamente grego. Mas, ao contrário de Nietzsche, Hillman não glorifica o heroi. O heroi, ativo, sempre fazendo algo, foge da morte, nega sua alma. Hillman demonstra em Hercules o modo como ele nega toda sua interioridade ao fugir, o tempo todo, de tudo que lembre interioridade. Ele mata, ele limpa, ele ordena, ele faz. Ele não quer morrer. -------------------- Como dizia Sócrates, nada sabemos, nada sabemos sobre a alma e sobre o sonho. Nós estamos nela e não ela em nós. Nossa sombra nos move na realidade que é uma imaginação. Parece complicado? Leia de novo. ------------------ O pai, a mãe que encontro no sonho não é meu pai, não é minha mãe. Nem mesmo é um símbolo de meu pai. É uma imagem psíquica. Devemos entrar no sonho e estar dentro dele. A questão aqui não é Por Que ou O Que, a questão é COMO? Como é meu sonho. ------------------ O cristianismo venceu a morte e transformou os seres de Hades em demonios. Desde então vivemos uma tara por explicações, por clarear as trevas. Nada mais pode ser mistério. Tudo deve ser colocado à luz. A morte é então vencida pela ressurreição, a alma se faz espírito, ela vive no céu, claro. O mundo da morte se torna tribunal. Humano. Ego. ------------- Extremamente insatisfatório descrever o texto de Hillman como aqui tento fazer. Então o que posso falar, para quem se interessa pelo tema, é que leia o livro. Hillman não desmonta a religião cristã nem a teoria de Freud ou Jung, ele aumenta. Recupera o que foi perdido usando o que agora existe. Amplia nossa visão da vida ao trazer a morte de volta ao centro.

ANIMA - JAMES HILLMAN

Chega a ser assustador, porque, afinal, nada há de agradável no encontro com sua anima. Quando ela é pressentida vem uma sensação de pânico e o limite da loucura. O ego, a razão, querem fugir, negar, não notar. Voce jamais verá sua anima, mas voce a sentirá. Fantasia? Hillman, como Jung, não teme dizer: a fantasia é real. Pense melhor: a fantasia é real. Retire toda fantasia do mundo e voce não terá mais mundo. ------------- Voce tem uma viagem marcada e seu joelho doi. Um deus está falando: não vá. Fantasia, sim, é uma fantasia, mas a dor e o joelho são reais. Não vá. Se voce for, vai doer. Muito. Deuses são vingativos. Não os desafie. ------------ O ser que possui anima é um ser vivo, pois ela é a vida. Na China, anima seria a palavra p'o. P'o é traduzido como Fantasma Branco. ----------- Não temos uma alma dentro de nós. Nós estamos dentro da alma. ----------- A vida adquire calor e sentido quando ela é envolvida pela fantasia criativa. Nossa infância parece mais viva por que essa fantasia estava presente. Fantasia é a realidade. A quintessencia da cor do ar. -----------------Consciência não tem a ver com vontade-ego, mas sim com imagens-anima. Antes de criarmos um ego havia algo em nós, alma. No processo psicanalítico, tentamos recuperar essa conexão com a alma através da anima, ponte que leva ao inconsciente onde mora a alma. Esteja voltado ao interior e espere, sem desejar encontrar. --------------- É isso.

O LIVRO DO PUER - JAMES HILLMAN

São conferências de Hillman reunidas em livro. Nascido em 1926, Hillman estudou com Jung nos anos 50. Professor em várias universidades americanas, falecido em 2011, Hillman levou adiante o legado do mestre suiço. Aqui temos a oposição entre Senex e Puer. Senex sendo o tipo saturno, pesado, pessimista, antigo, teimoso, construtor, e também astuto, sexual, demoníaco e pai do Olimpo. Puer, mercúrio, é o jovem eterno, irresponsável, veloz, alado, trasnformador, mentiroso, ladrão, auto destrutivo. Em nossa alma viveriam os dois tipos, tendo um predominância sobre o outro. --------------- O texto é vasto, cheio de refências, e espanta o modo como Hillman consegue ser poético sem nunca parecer raso-barateador. Ele não teme ir além. ------------------------------------------ Algumas afirmações me surpreenderam e conseguiram me convencer. Por exemplo, o fato de que todo heroi é heroi para a figura da mãe. Puer sempre, o heroi luta para dignificar a mãe. Isso me surpreendeu pois sempre vi o heroi como aquele que superou a figura da máe. Vale avisar que Hillman não advoga a complexo edipiano como fato central da psique. Para ele, apenas algumas pessoas vivem esse complexo, muitas outras tendo complexos realtivos a Marte, Vênus, Mercúrio, Hercules, Odisseu. Sim, os mitos dos deuses, todos, de toda cultura, são centrais para Hillman. Somos regidos por esses deuses e a crise de sentido de nosso tempo está ligada ao abandono de todo sentido de divino. -------------------------- A cura é a decadência. Hillman vai contra as doutrinas que pregam a paz interior, a unificação. A cura vem do conflito, da complexidade, de se ouvir as várias vozes internas. Aceitar não um Deus, mas deuses, cada um em cada recanto. O puer, para evoluir, deve apodrecer. Ficar doente fisicamente, viver sua queda. Nós não nos livramos dos complexos, eles que desistem de nós. ----------------- Ao dizer que o problema do puer é devido à mãe, a psicologia deu ao puer um complexo materno. O problema do puer não é a mãe, é a oposição senex-puer. O velho e o novo. Quando surge um complexo devemos perguntar a que deus devo sacrificar meu sintoma. ------------------- Há uma bela imagem que Hillman desenvolve: se um aborígene nos perguntasse a que servimos, o que move nossa ida à Lua, nossas cidades imensas, nossas construções, teríamos de dizer que não são os deuses, mas sim o ego asssutado pelo tédio e pelo medo da serpente, a serpente sendo o universo irracional dos deuses e da alma. ------------------- Há já ao final do livro, uma palestra onde Hillman cita E.M.Forster, o grande romancista inglês dos anos 20 e 30. Tentando diferenciar espírito de alma, Forster diz que escritores do espírito escrevem bem e constroem sentidos. Dostoievski, Tolstoi, Dickens são do espírito. Autores da alma se perdem na escrita, seus livros são cheios de digressões. O espírito não possui humor, a alma ri. O espírito é um profeta, a alma fantasia. --------------------------- Outra bela imagem deste belo livro é o contraste entre monte e vale. O espírito vive no monte, seja Olimpo, monte das Oliveiras, o Tibet. Ele vive no alto, no rarefeito, no limpo, no iluminado. A alma é do vale, do escuro, da sombra, do pântano, da névoa. O espírito é uno, a alma é multi. ---------------------- Não pergunte O Que ou Como, pergunte Quem. ------------------- Por fim, falando da Anima, Hillman fala que a alma é história, é passado, é continuidade e o espírito é o agora sem tempo. ---------------- Termino falando de uma cena histórica, crucial, que mudou o ocidente para sempre. O concelho de Niceia que em 835 criou a prioridade do espírito sobre a alma. Como? Houve um conflito entre duas fés. Um grupo pensava que as imagens eram sagradas e o outro grupo dizia que toda imagem era pagã. No concílio, os bispos e o Papa decidiram que as imagens da cruz e dos santos poderiam continuar nas igrejas, MAS elas seriam louvadas como imagens, com a consciência de serem objetos, retratos, ALEGORIAS de uma história divina. Ou seja, retirou-se da imagem seu PODER mágico. Antes, a imagem de um santo era o santo em presença. Um objeto era a morada de um poder real. Agora era somente uma obra de arte, mais nada. Foi nesse momento que a alma se retirou para o inconsciente mais profundo. Ela não mais podia ser vista, presente, diante de seus olhos, numa imagem, ou em um lugar. O espírito no alto e a alma onde? Sem saber, a igreja católica assinava alí o começo de sua dessacralização. O espírito, racional, provável, prático, vencia a alma, obscura, multipla, fantasiosa. ---------------------- O livro, este, de James Hillman, é uma obra prima.

UMA BUSCA INTERIOR EM PSICOLOGIA E RELIGIÃO - JAMES HILLMAN

Na tarde quente de março, era 1977. Enormes ratos brincavam no capim alto. Cheiro de fezes. O suor escorria pela minha testa. A tarde insistia em durar. Momento na vida: sem amigos, sem família, sem nada além. Descobertas. Eu fugia. Criava uma ilha onde só eu existia. Então deu quatro horas e eu saí do mato e entrei na rua. Na calçada, cansado, ouvi o som de um piano. De onde vinha? Varanda de um sobrado, janela aberta no quarto de cortinas brancas. Eu sabia que ela tocava piano e triste, só, fazia música de tarde. Escutei. Nunca a esqueci e nunca amei tanto. ---------------- O livro de James Hillman, junguiano que abriu seu caminho particular, basicamente fala sobre isso. O encontro com a alma. Alma que vive além do inconsciente. Alma que é anima, o feminino que é o eu, self que existe antes do ego ser construído. Eu não ansiava pela triste mulher que tocava piano, ela era eu e encontrar essa mulher é missão para a vida. --------------- Isso independe de querer a encontrar, pois querer envolve o ego e é o ego quem dela nos afasta. A coisa acontece "sem querer". Não adianta amar 100 mulheres pois se voce não amou sua alma não saberá amar de fato. E eu vi minha alma no rosto daquela menina loira que vi passar na rua apenas uma vez e amei para sempre. Freud diria que ela era minha mãe revivida, mas isso reduz meu amor à um mecanismo raso. A menina era símbolo de minha alma, meu feminino que não aceitei, a delicada flor que todo homem traz no coração. ------------------- Olhe para este mundo, o de 2026, e veja tanta gente sem alma. Procurando como idiotas aquilo que não aceitam dentro de si. Correndo atrás de amor, de poder, de tempo, de saúde e não abraçando a flor que é só dele. ------------- Silencie...