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MAHLER, A NONA SINFONIA. POR QUE VIENA MORREU E NÃO CONSEGUE RENASCER?

Como acontece com Bruckner e Brahms, Mahler exige muito do ouvinte, mas a recompensa é inestimável. Ele exige atenção. A música de Mahler é composta por detalhes, centenas de sons que se combinam, surgem e logo desaparecem, crescem, diminuem. É música feita de silêncios, crescendos, falsos finais. Se sua atenção não é total voce perde tudo e a sinfonia irá parecer apenas uma massa sonora sem definição ou rumo. -------------- Quando a Nona Sinfonia surgiu, Mahler estava doente e pessimista. Compor uma número nove era um tabu, Beethoven e Schubert morreram após a nona, e o coração de Mahler fraquejava. A Nona é uma sinfonia sobre a morte, mas não morta. Não deprimente, triste, e às vezes festiva. É uma despedida. O primeiro movimento é longo e melancólico, o segundo festivo e com um final que atinge alturas de obra prima ( Mahler é mestre em finais ), o terceiro movimento é esquisito e o quarto é a verdadeira despedida. São 80 minutos de música que passeia, voa, mergulha e se transforma. Sua alma, respirando e ouvindo, agradece. --------------------- Estou lendo um autor húngaro contemporaneo e tomo consciência da riqueza que havia nessa região do mundo, o triângulo composto por Viena, Budapeste e Praga. Guerras e ditaduras destruíram essa cultura, mas Praga e Budapeste voltam a respirar e Viena fica para trás. A Russia também não consegue ainda voltar a ser culturalmente relevante, mas Viena, a Viena de Mahler, é um caso a ser explicado. Lançada em 1907, no auge da vida vienense, a Nona Sinfonia é antecipação da morte da cidade que se daria na guerra de 1914. O que aconteceu? Seria a vida cultural de Viena a vida cultural do judeu de Viena? E com o extermínio dessa etnia, tornada proscrita na Primeira Guerra e destruída em 1936, a vida de Viena teria ficado restrita aos austríacos que Thomas Bernhard tanto odeia? Mahler era judeu, como eram Freud e Wittgeinstein. Teria sido Viena a capital judaica da Europa? E por isso tinha de ser lá o nascimento de sua sombra? A Nona Sinfonia antecipa tudo o que penso aqui e muito mais.

LIÇÕES DE PROUST

Estou relendo à SOMBRA DAS RAPARIGAS EM FLOR ( odeio esse título, por que não Sob a sombra das jovens meninas? ). Escrevi em outro post que Proust é um tipo de médico de almas. Mostro aqui, em meio a tão vasta obra, dois exemplos retirados do volume acima citado. ---------- Em toda minha vida, cerca de 90% dos discos que mais amei foram decepções em sua primeira audição. Let It Bleed é o melhor exemplo, mas posso citar obras primas como Siren, Low ou Houses of The Holy, todos discos que me decepcionaram na primeira audição. Mais recentemente eu achei In The Court of Crimson King algo muito ruim, para depois da terceira audição começar a o achar fascinante. Proust explica isso. Como? -------------------- O narrador frequenta a casa dos Swann e lá ouve a dona da casa, a volúvel Odette, tocar ao piano uma obra que todos na casa adoram. O narrador se surpreende pois nada entende do que é tocado. Para ele aquilo parece uma confusão de notas sem nenhum sentido. Pois bem, ao escutar a dita peça pela segunda vez eis que o narrador entende o que acontece ( e começa aí a lição do mestre Proust ), a obra só faz sentido quando ela já vive em algum canto da memória. Ao a escutar de novo e de novo e de novo todas as notas começam a se arrumar e a fazer sentido, isso porque a memória já fez seu trabalho de as identificar e arrumar. Os trechos mais sublimes se destacam em meio a multidão de acordes e a melodia se encontra em reencontro. ----------- Então posso dizer que as músicas que amamos de primeira são aquelas que MESMO SEM TER JAMAIS SIDO ESCUTADAS NOS RECORDAM ALGO JÁ OUVIDO! E que tudo que seja novo deverá ser confortado na memória antes que possa ser entendido, ou seja, pedirá a reescuta. A primeira para deixar a música entrar na memória, e a segunda para começar a recordar e assim apreciar. ------------- Na minha atual fase, em que ouço Bruckner e Mahler, sinto na alma a verdade dessa tese. Nada entendi de nehum dos dois, e os ouvi antes de reler Proust, a música de ambos me pareceu uma orgia de fragmentos de melodia sem nenhum sentido. Mas eis que na terceira audição, ao reconhecer certos trechos, tudo se iluminou: eis a música! A beleza assombrosa dos dois surgiu inteira. Sem esforço nenhum, apenas se deixando ouvir. ------------------- A segunda lição de Proust é sobre o ciúmes. A febre do ciúmes como um desejo voluntário de esquecimento, ao sentir ciúme eu esqueço de meus problemas, da vida ao meu redor e me distraio com o objeto que me deixa febril. O fim do ciúmes é sempre o mesmo, se for vivido até seu destino terminará na indiferença. Não importa mais se ela ou ele traíam ou não, não interessa mais o que é feito, o objeto amado se torna algo sem nenhum valor. Isso porque ele jamais foi amado de fato, foi apenas perseguido como miragem. Swann, que viveu o inferno com Odette, não se importa mais em saber se ela mentia ou não, e nota que ela nem mesmo era seu tipo de mulher. Sim, ele se casa com ela, e é provável que ela o traia, mas isso pouco lhe importa agora. Ele a trai também e em todas essas traições há a verdade da ausência de amor real. O desejo almeja a posse e o ciúme é a posse impossível, o desejar possuir completamente. O amor é o conhecer autêntico. ------------- Todas essas lições em apenas 20 páginas de Proust.

GUSTAV MAHLER, O FILME DE KEN RUSSEL E A SINFONIA NÚMERO 9

É quase um milagre. O final da Sinfonia número nove de Mahler. Escrita em momento terrível, Mahler brigado com a Sinfônica de New York, a saúde muito fragilizada, ele adivinhou ou intuiu que aquela seria sua última obra. São mais de 80 minutos de despedida, de dor, de luta e de absoluta e tétrica beleza. O final desta obra prima, quase silencioso, arrasa sua alma e ao mesmo tempo te dá nova força. Por isso, um milagre. -------------------------- Aviso: se voce tem dificuldade para ouvir Brahms esqueça Mahler, ele exige ainda mais atenção. O modo como Mahler faz música é nada simples. Melodias são criadas como se fossem independentes, e então misturadas. São várias "músicas" executadas como se ao mesmo tempo, o risco de caos é imenso, mas, ninguém sabe como, Mahler harmonizava e fazia dar certo. Para quem tem dificuldades com música erudita, Mahler é torturante. A sensação é de falta de melodia, de bagunça, de música que ameaça nascer e não nasce. Na verdade há muita melodia, tudo organizado e as músicas nascem e morrem o tempo todo, sem parar. Mahler queria criar a música da Terra e por isso suas sinfonias são assim: como passear pela Terra e ver tudo: passado, futuro, animais, tempestades, mares, tragédias, mortes, nascimentos. É a mais universal das músicas e a mais terrestre entre todas. ---------------- Estranho destino teve Mahler! Ficou rico e famoso mas não como ele queria. Seu desejo era ser um grande compositor, mas sua fortuna foi como maestro. Foi um superstar no tempo em que maestros eram superstar ( entre 1880-1910 ). Regeu em New York por uma fortuna e até hoje é considerado o maior maestro da história. Mas...enquanto vivo, suas composições eram tratadas como "mera curiosidade de um grande maestro que insiste em compor". Morto ainda no auge, longe da velhice, por problemas crônicos de coração, foi chorado como maestro e apenas como tal. E então algo aconteceu... a partir da década de 1960, lentamente, primeiro apenas entre os mais cult, Mahler começou a ser descoberto como compositor e então na década de 1980 veio a virada, Mahler passou a ser visto como um dos cinco maiores músicos da história, um igual a Wagner, Bach ou Beethoven. Desde então sua fama só cresceu. Em 2026 ele é, após Beethoven, o autor mais tocado em salas de concerto. Mesmo sendo tão dificil e exigindo orquestras imensas. ------------------ Mahler fez a ponte entre a música do século XIX, a de Beethoven, Brahms e Wagner, e a do século XX, a de Debussy e Stravinsky. Ele era romântico como Liszt e moderno como Ravel. Demorou muito para eu o entender, várias vezes o escutei sem entender, sem entrar em seu universo. O filme de Ken Russel, feito em 1974, ajudo. -------------------- Tentei ver esse filme anos atrás e detestei, parei em 20 minutos. Agora fui em frente e ele me tocou. Tem um dos finais mais tristes da história e a música é sublime. O filme nos faz entender a música de Mahler e isso não é pouco. Do meio para o fim ele cresce muito e algumas cenas são memoráveis. Claro, há o velho exagero cafona de Ken Russel, a cena com a nazista é grotesca, mas é um filme belo, digno do artista. Mahler, egocêntrico, revela no final quem ele de fato foi e isso nos toca. Alma, sua esposa, finalmente entende o marido e nós sentimos o que ela sente. --------------------------- Que houve naquele canto da Europa entre 1880-1910? Entre Munique e Vienna, Praga e Budapeste? Wittgeinstein e Kafka, Musil e Klimt, Mahler e Freud, Bartok e Mann. Seria o Danúbio? A mistura de línguas? A cultura judaica colocada ao lado dos ciganos e germanos? Ninguém sabe. ----------------- O CD que ouço traz Claudio Abbado em 1999 regendo a Filarmonica de Berlin. Abbado havia quase morrido em infarto e voltava ao trabalho. O CD, gravado ao vivo, traz os aplausos finais. Gravaram dois minutos onde se escutam vários Bravo! e muitas palmas. Leio que duraram 12 minutos. 12 minutos de aplausos. A gravação é sublime.

SINFONIA 9 DE GUSTAV MAHLER, SOB A REGÊNCIA DE ESCHENBACH COM A SINFÕNICA NDR.

Mahler não é fácil. Sua obra, hiper valorizada hoje, dá enfase à orquestração e nunca à melodia. Isso nos aliena. Precisamos de tanta concentração para a penetrar que acabamos por nos cansar. A Nona, mais de hora e meia de música, é uma massa pós romântica que o tempo todo parece ir mergulhar num wagnerismo século XX, mas escapa se fazendo universo de células sugestivas. De tudo que ouvi de Mahler, é a mais difícil e por isso confesso ter sentido tédio, um tédio digno de...Mahler. ----------------- Ele não comunica, é música que nasce e caminha da alma do artista para dentro da mesma alma. Ela como que cozinha nas profundezas do ego e não lança um anzol para fisgar outro coração. Eu sei que no mundo erudito de 2024, criticar Mahler parece heresia. Mas sou o que sou, e digo que dificilmente irei escutar esta obra novamente.

Mahler Symphony 5 finale - World Orchestra for Peace Proms 2010 - valery...

O APOGEU

Não lembro mais onde li isso, mas alguém disse que uma orquestra sinfônica é uma espécie de milagre. Pois ouço o último movimento da Quinta Sinfonia de Mahler e essa frase vem à minha mente. O genial compositor austríaco criou um tipo de fuga onde toda a orquestra entra numa espécie de frenesi feliz. São tantos timbres, tanto som, tanta harmonia sendo colocada em risco, que há a sensação de que o engenho colocado ali, na composição e na execução, prova a existência de um milagre. Mahler era místico, mas não é disso que falo. Estou pensando na evolução humana maravilhosa que chegou em seu apogeu musical nesse tipo de obra. É perfeito. E é incrivelmente arriscado. ----------------- Toda arte tem seu apogeu, sua queda, sua quase extinção como forma artística, e um renascimento. O apogeu da música se dá entre Bach e Debussy, meros 150 anos de sons imaginados. Antes houve muita coisa boa, depois também, mas a queda se dá sem parar. Não é por acaso que esse apogeu se dá ao mesmo tempo no romance. Quem não entende música não percebe que uma obra prima é como um romance genial, uma narrativa e um universo criado e acabado em si mesmo. ------------- Não falarei da pintura ou arquitetura ou dança. Como arte que são, todas têm ou terão seus apogeus e quedas. Sua quase morte e renascimento. A arte, como a vida, é circular. ------------------ A versão que ouvi tem o Concetgebouw de Amsterdan com Bernard Haitink. Não dá pra ser melhor. Mahler era um gênio. No CD constam também as 4 canções que Mahler compôs ( lieder ). Voz e orquestra. Emocionante. Hermann Prey é o barítono. ------------ Não sei se esta minha fase erudita irá estragar meu gosto para o rock. Mas tem sido uma jornada fantástica.

Mahler - Symphony No.5 - Abbado - Lucerne Festival Orchestra 2004

SINFONIA NÚMERO 5 - GUSTAV MAHLER....COMO APRENDI A ENTENDER

A Vienna de 1900 era um lugar mágico. Rica, ela unia culturas, e daí sua complexidade. Era católica e era judia, era Europa mas era acossada por turcos. Na rua voce podia cruzar com Wittgenstein e Klimt e num café com Freud ou Kraus. Brincando num parque voce veria as crianças Billy Wilder e Max Ophuls. Mahler era entre todos eles o mais famoso, não por ser um compositor, mas por ser o maestro mais famoso do mundo. Em vida foi Mahler rico e famoso, mas seu trabalho de composição era visto como excêntrico. Não sei se é fato, mas li vários autores atuais que dizem ser Mahler o músico mais executado hoje, que após quase duzentos anos, Beethoven foi destronado. O alemão continuaria a ser o maior gênio da música, e Mahler é aquele que fala mais de perto à nosso tempo. Well..... ------------------------------------- Coloco a quinta sinfonia para rodar e não entendo nada. Sim, é complexo, sim, é rico, mas o que é isto? São ruídos de fundo e melodias à frente sendo abortadas antes de seu desenvolvimento. Onde a linha que me faça entender do que se trata? Parece uma tapeçaria de sons, quase aleatórios. Não absorvo este mundo: metais que irrompem e desaparecem, cordas que se desvanecem, barulho que morre antes de chegar ao ponto, música incompleta? Ou não? ------------------ Uma da maiores tolices deste nosso tempo preguiçoso é crer que arte é repouso. Que uma peça de arte é boa quando entrega todo seu segredo com facilidade. Que ter de lutar para entender um livro ou um filme significa que esse livro ou esse filme é falho. Consequência da ditadura da pornografia, hoje procura-se o gozo imediato, sem preparação e sem segredo. Um romance deve dar prazer na terceira linha. ( Por favor, entenda prazer como GANHO. Prazer em aprender, prazer em saber, prazer em rir, algum prazer. A fruição do BELO não se inclui aqui. ) ------------------------ Continuo na quinta de Mahler. Passaram dez minutos, a aparente anarquia continua e então brota na minha mente uma imagem. EIS O SEGREDO. Vejo o COSMOS. Voando eu passo por nuvens de gás colorido, planetas que giram, constelações e escuridões. Eis um cometa, eis um mundo que explode, um outro para de girar. Acelero meu voo, interrompo, volto a voar. Aquele universo é imaterial, este são rochas frias, fogo que surge e desaparece, um suspiro de vida, o negror da morte. --------------- Entendi e agora a usufruo. É bela! Meu Deus, é bela! Música cósmica que propõe a visita a universo de sons e de motivos que se movem. Se em Bach a música era aquela de Deus, um universo em ordem rígida, este, de Mahler, é um universo que se expande sem parar. Max Planck publicou em 1900 e esta música prova a ligação mental sub consciente que permeia o mundo. -------------------------- Em meio a todas essas cores há um movimento lento. Não é triste, mas passa longe de ser alegre. Violinos e metais ao fundo, longos acordes, ao contrário do resto da sinfonia, aqui algo dura, permanece, insiste em estar. O som surdo dos metais ao fundo enobrece, o som das cordas, nada doce, antes ácida, eleva. Há peso aqui, há gravidade. Minutos de beleza pesada. Beleza que se impõe. Que se afirma. E que se encerra ao final, momento para sempre. --------------------- Penetrar na quinta de Mahler é crescer como homem.