sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

VIDA TODA VIDA

   Me leva pra Serra do Mar que eu me encontro lá. Ela é pra mim o que os Andes foram pra Humboldt ou a Sierra Nevada para John Muir. Na Serra eu escuto a voz da minha alma que é a alma do mundo. Não existe dor naquela embrenhação de mata, porque não mora eu nenhum lá. O nós eterno e imorredouro é o que habita cada folha daquele lugar que é todo lugar.
 Desde sempre eu assisti formigas e minhocas. Procurava as estradas de exércitos de formigas e via as saúvas carregando suas folhas verdes para dentro de buracos bem abertos. Cavava na lama dos patos e descobria as minhocas que se enfiavam em túneis esbeltos. E ia correndo atrás das abelhas que nunca me deram medo. Toda minha infância, berço da mente, é um reino de encontros com coisas vivas. Os marimbondos em seu cacho pendurado no telhado ou os ratos minúsculos que se escondiam no meio da roupa suja.
 Mas tão vivo quanto tudo isso eram as nuvens que eu aplaudia no brinquedo de encontrar formas em seu transformamento súbito. Um coelho, uma cara, um deus, um barco, uma flor. Na tela azul do céu a gente via nuvem e cria que ela era casa de um titã. Como vivo era o fogo que comia e rosnava no meio da lenha seca e do papel inútil.
 Havia vida no escuro do quarto de noite. Não só uivos de cães vizinhos. Bater de asas de pássaros aninhando. Havia vida no próprio negror do escuro espaço. Suspeitava e confirmava a vida em suspensão. Detrás e tudo uma dimensão de vida: escondida.
 Andar era sempre ir ao encontro de mais pedaços do universo. Uma pedra mal enterrada ali, uma árvore jamais vista lá. O encontro com um velho coxo, um japonês deformado, uma menina de saia rosa. Avião cheio de pensamentos e um helicóptero levando gente. Em cada trilha de terra uma promessa, em cada riacho uma constelação de peixes e girinos.
 Mais vida nos livros e nas cores das revistas. Dentro do aparelho de TV, vivos elétrons que viravam pessoas, coisas e lugares. Naqueles tubinhos de vidro dourado nascia o mundo de lá além. A TV era uma incubadora. E o rádio uma festa. Multidões de vozes que riam, cantavam, berravam, anunciavam. Um rádio em cada casa, alto, uma casa em cada passo, sol.
 Mais vivo o sol, mas a chuva e a neblina também. O sol erguia os punhos e pulava ao se espreguiçar de manhã. Ele se abanava e à noite andava pra depois de lá. A lua era uma menina discreta que apenas olhava aqui. E a chuva...ela era um animal que anunciava a sua chegada em som e em cheiro. Chuva ser vivo, garoa ser vivo. Eu beijava cada manhã como se fosse um encontro de destino.
 Porque a vida é inevitável e se ainda sei isso é por causa dessa infância que sempre e toda hora a confirmava. Meu coração era a marcação de tambor de toda vida ao redor. Mais que ao redor, dentro e fora. ( E é por isso que ainda hoje me é impossível fechar portas e janelas...fora e dentro são o mesmo ).
 Vou lá...

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A INVENÇÃO DA NATUREZA, A VIDA E AS DESCOBERTAS DE ALEXANDER VON HUMBOLDT - ANDREA WULF

   A autora diz no começo desta obra que as pessoas hoje desconhecem quem seja Alexander von Humboldt. Fico surpreso! É sério que vocês não conhecem o cara mais famoso de todo o século que teve Napoleão, Lincoln e Darwin? Pois pra minha geração, aqui no Brasil, o alemão Humboldt é um nome inescapável. Nem que seja como nome de acidente geográfico, escola pública, rua, corrente marítima e cidades pequenas.
  Contemporâneo do romantismo, nascido no iluminismo, Humboldt criou sozinho dois conceitos que nos são muito caros: a ecologia e a holística. Temos a sensação de que desde sempre o homem viu a natureza como coisa interligada e viva. Mas não. Foi preciso o alemão e seus livros de sucesso para dar ao mundo a ideia de que um rio está ligado à um bosque e este ao mar e este ao plâncton e este à lua e....uma corrente infindável. Para ele, os estudos científicos deveriam estar todos ligados, química com biologia com geologia com oceanografia com física com arte e com poesia e ....infindável. Mais ainda, é dele a ideia e a prática do homem de ciência como aventureiro. Humboldt subiu montanhas, adentrou florestas, viveu em desertos. Ele ia o local, via a diversidade, descobria seres vivos e lugares. E assim, com seu modo poético e científico de ver as coisas, pois para ele o conhecimento passa pela emoção e pelo sentimento, ele se tornou famoso. Privou da amizade de Goethe, de Darwin, de Thomas Jefferson. E lançou a ideia de ecologia e mais ainda, de Cosmos, palavra grega popularizada por ele. A vida como uma coisa única em que tudo está ligado e depende de tudo.
  O livro é delicioso, viciante e soberbo. Lemos com curiosidade, prazer e nos educamos. Humboldt criou o andarilho, foi Whitman antes de Whitman e Rimbaud antes de Rimbaud. Mas ele criou também a Thoreau, a Darwin, aos hippies e aos beats, à ecologia de hoje e a ideia de vida que conhecemos. O livro tem ainda um capítulo para Thoreau, um para Darwin e um para John Muir, esse, uma figura interessantíssima, homem que criou na América as reservas florestais e a luta pela preservação. Seus escritos, que este livro mostra, são uma revelação. Ele foi um homem de 2017 que viveu em 1870.
  Direi por fim que temos todos de ler e reler este livro. Ele é mais que bom, ele é necessário e é preciso.
 

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

CHEGA DE ROMANTICOS!

   Meu coração é romântico, mas meu cérebro é do século XVIII.
Vejo imigrantes venezuelanos entrando no Brasil. Fico triste em assistir mais um dos vários desastres nascidos do romantismo. O gigantesco EU de um líder "sonhador" levou mais uma vez um povo ao desastre. O romantismo, ideia que crê na força do sonho, do ego, da coragem destemida, da força da vontade, perde, mais uma vez, seus seguidores. Mas não seus líderes. "Pensadores" encontrarão milhões de desculpas, e o culpado será sempre o "frio pragmatismo do mundo real". Bullshit! O romantismo sabe e deve lidar com o coração, mas nunca com a razão, com as coisas do mundo real, o mundo do estômago. Poetas e filósofos são péssimos administradores.
  O chavismo foi mais uma versão, das mais fuleiras, do sonho no poder. Essa ideia de que basta querer para poder, é uma desvirtuação do idealismo alemão. Esse idealismo dá sempre na mesma lama, um líder tresloucado indo atrás de um arco-íris de felicidade. E levando consigo uma população inocente, rota, faminta, que ergue as mãos e abraça o ego imoral desse líder poeta-sem-poesia. De Napoleão à Fidel, de Trotsky à Hitler, todos venderam um Novo Mundo Ideal, o sonho de um recomeço, o sonho romântico de uma história pura e inocente. Sem os porcos mercadores. Sem os bancos hipócritas. Sem as fronteiras burguesas.
  No iluminismo do século XVIII acreditava-se na razão como força impessoal. O mundo é o que é, e compete ao homem o conhecer e o compreender. Não há fronteiras para o comércio e para o saber. Não precisamos de grandes líderes, precisamos de grandes ideias que funcionem.
  Estou lendo um livro delicioso sobre Alexander von Humboldt, um homem que foi romântico antes do romantismo e que voltou à razão quando o mundo enlouqueceu no romantismo. A América Latina, lugar que Humboldt amava acima de todos, desde 1820, com as revoluções românticas de Simon Bolivar, teve gravado em seu DNA essa fantasia de um ego salvador. Agora somos obrigados a socorrer os refugiados, inocentes que só querem paz e comida. Somos obrigados a ouvir cínicos a dizer, mais uma vez, que a culpa é do sistema impessoal do capitalismo hiper desumano. Chega dessa besteira toda! Precisamos de gente discreta, gente racional, gente que sabe o que a vida, sólida e prática, é. Estamos cheios de sonhadores.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

STONER, JOHN WILLIAMS, A MAIS TRISTE DAS OBRAS PRIMAS.

   Um dos pensamentos mais bobos que existem, e que era moda nos anos 80, era pensar que "antes" de escrever um livro é preciso "viver". Em seu posfácio a este livro, Peter Cameron diz que existem vários livros ruins sobre vidas incríveis, e vários bons livros sobre vidas medíocres. Stoner é um homem medroso, pobre, embaçado, ausente, e tem uma vida tão desinteressante quanto ele mesmo é. Mas John Williams, que viveu uma vida tão boba quanto a de Stoner, consegue fazer desse ser tão vulgar, um herói. O romance, cristalino, é comovente sem jamais tentar ser poético.
   Stoner nasce pobre e vai á universidade. Lá se apaixona por literatura, e vira professor. Se casa e o casamento vira um inferno. Tem uma filha que ele ama, mas que se afasta dele. E faz um inimigo na universidade onde leciona. Morre aos sessenta e poucos de cancer. E é só isso. Williams tem uma habilidade imensa em descrever o clima de uma universidade, em nos falar de uma aula real e em retratar a frustração de um casamento ruim. Mas o livro é mais que isso, e eis um mistério que Peter Cameron levanta: De onde vem esse mistério? O livro é maravilhoso, mas por que é maravilhoso?
   Nunca li uma descrição tão transcendente da morte. No final ele morre e vemos de dentro o que seria morrer. Isso é genial. Mas essas são apenas as 3 páginas finais. E o resto? Ficamos envolvidos por gente comum, gente ruim, gente medrosa, vidas sem significado. E mesmo sabendo que o que lemos é banal, lemos maravilhados. Como John Williams consegue isso?
   Não consigo entender o que este livro tem de tão bom. Mas ele é tão bom quanto um livro pode ser. Ele respira. Ele vive. Ele é real. Stoner é um livro tão bom que a gente tem vontade de o levar no bolso e viver com ele por perto.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

STONER E OS LIVROS QUE NINGUÉM LÊ.

   Em 1965, um professor do Missouri lançou um livro chamado Stoner. Ninguém leu e nenhum crítico deu atenção. Era uma época de livros "sensacionais". Era tempo de Norman Mailer, Truman Capote, Tom Wolfe e Gay Talese. Crimes, paranoias, mundo ácido e colorido. O livro do tal professor não poderia ser mais "out of time". Era simples, sem cor, nada sensacional. A narrativa, convencional, descreve a vida de um cara banal. Não há violência explosiva e nem sacadas revolucionárias. Estranhamente, com toda sua convencionalidade aparente, ele não é old fashioned. Não lembra Fitzgerald e nem Heminguay. Ele é estranhamente original. Uma ilha em um mar vazio de ilhas.
  Cinquenta anos mais tarde, eis que a New York Review of Books o reedita. E no boca a boca ele vira cult. O autor, morto oito anos antes, não viveu para ver a ressurreição de seu livro. Não pense que esta história é comum. Livros que são descobertos anos após seu aparecimento são raros. Proust e Joyce podem não ter sido sucessos em seu tempo, mas foram resenhados e amados por críticos e autores de sua época. E mesmo Moby Dick, se foi incompreendido em 1855, foi notório em sua incompreensão. Como Stoner, este livro de que falo, me lembro só de Emilly Bronte e seu Whutering Heights. Um livro que passou em branco e que foi descoberto algumas décadas mais tarde. Tem mais casos. Mas não quero que voce pense que é de lei isso acontecer. A lenda de Van Gogh se aplica a poucos no mundo das letras. ( Kafka não foi publicado em vida. Nada tem a ver com o livro que passa em branco ).
  Uma das coisas mais legais em livrarias é tentar achar um livro mal divulgado e descobrir nele uma joia desprezada. Acho que jamais achei uma pérola.
  Stoner é uma obra-prima.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

ALEGORIA DO AMOR - C.S. LEWIS, UM ESTUDO DA TRADIÇÃO MEDIEVAL.

   Lewis vai contra as ideias de Denis de Rougemont. Para quem não lembra, Denis dizia que o amor cavalheiresco, aquele que inaugurou nosso modo de ver o amor ideal, foi uma espécie de sublimamento do amor cristão. A donzela amada posta como símbolo da donzela original, a Virgem mãe inalcançável de Cristo. Denis de Rougemont é engenhoso e seu livro se tornou um clássico. Mas Lewis vai em outra direção ( e não nos esqueçamos de que Lewis se tornou católico pouco depois de compor este livro ), ele diz que o amor romântico é uma ALEGORIA, uma forma de dar imagem e voz à um impulso erótico que sempre houve. O importante para Lewis é a criação da alegoria e não a invenção do novo tipo de amor. ( Estamos falando do século IX de nossa era ).
  Para expor sua tese, Lewis vai aos autores latinos tardios, autores que testemunharam a morte do paganismo e o nascimento do novo cristianismo. Na morte dos deuses pagãos, eles passaram a alegorizar o amor, a guerra ou a cobiça. Sai vênus de cena, sai marte, e nasce O Amor e a Guerra como personagens dotados de rosto e de voz humanas. A nova Afrodite pode ser Guinevere, Isolda ou a musa futura de Keats. A nova Afrodite pode ser inclusive chamada de Amor. Para Lewis, erudito amante das letras, o que influencia uma nova literatura é a própria literatura anterior. E dessa literatura nova surge um novo conceito e um novo modo de pensar.
  Este é um livro árduo, sua leitura não é simples e não o recomendo para leigos.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

EINSTEIN, A BIOGRAFIA DE UM GÊNIO IMPERFEITO - DAVID BODANIS.

   Se voce quer começar a entender o que é a ciência moderna, leia este livro. Até hoje, seja em jornal, revista, livro, aula ou conversa, não encontrei nada que explicasse de uma forma tão clara e objetiva o que é a teoria da relatividade, a segunda teoria de Einstein e inclusive a física quântica de Bohr. Como desde então, 1915, a ciência se tornou algo muitíssimo mais excitante que a arte, com mais criatividade e mais ousadia, ler este livro é obrigatório para quem quer começar a entender por que digo isso.
   Dados sobre a vida de Einstein são conhecidos: a escola onde ele foi excelente mas sempre desinteressado, os primeiros empregos humildes, a família com a qual ele sempre se deu bem, o mundo germânico-judaico do começo do século XX. Einstein era não convencional mas ao mesmo tempo não era vaidoso. Simpático, alegre, nada disso é mito, é fato. Foi para a Suíça. E nas décadas finais da vida, EUA. Sua física era feita à base de intuição, criatividade e amor à beleza. Para ele, um afirmação era verdadeira quando representava harmonia, simplicidade, clareza. Daí a clara verdade de suas duas equações geniais. Para Einstein, Deus era lógico, o universo era todo ligado por uma lógica que cabia a nós descobrir.
  Energia e Massa, o universo é feito dessas duas coisas, mas a sacada de Einstein foi a de que energia é massa e massa é energia. Toda "coisa" é uma forma de energia e essa energia jamais desaparece, ela apenas se transfere, se modifica. O que há no universo permanece igual, massa e energia não aumentam nem diminuem. Mudam.
  Vivemos em um universo com múltiplos sentidos, formas geométricas que não temos como ver. Há uma realidade que nos parece invisível, mas ela está presente, em dimensões que só a matemática pode perceber. Peço que aquele que me lê guarde esta frase, frase que acho a chave de todo o universo: "Minha equação é mais inteligente que eu mesmo". Ela vê o que não vejo e diz ser verdade aquilo que ela sabe provar.
  Ela diz que vivemos sobre um lençol, apenas uma fina camada do todo. Sobre esse lençol dispomos da visão dos planetas, das galáxias. Cada "coisa", desde um sol até um alfinete, exerce peso sobre esse lençol, nosso mundo. Ao exercer pressão ele "curva" levemente esse lençol, fazendo com que ele se torne não um plano quadrado, mas um "mundo" encurvado. Essa é a tal curvatura do tempo, do cosmos, do universo. Cada coisa e cada mundo encurvando o plano e assim, por fazer do lençol algo mais ou menos curvo, influenciando  o lençol inteiro. A estrela mais distante faz parte de nossa mesma dimensão, e por estar sobre esse mesmo lençol, ela influencia e é influenciada pelas curvaturas construídas por todas as coisas. Isso vale e foi provado desde 1915. A luz inclusive faz parte das coisas que se curvam sobre o lençol do universo.
  Fora do lençol há dimensões que não percebemos, mas que a matemática nos faz tomar contato. E vem daí o tal erro de Einstein. Quando Bohr surge com a mecância quântica, dizendo que no nível sub atômico não há lei física como no mundo que podemos ver, que elétrons somem e aparecem "aleatoriamente", Einstein se sente balançar. O que a teoria de Bohr traz é a não-lógica para dentro da ciência, o kaos. Partículas que se misturavam e se comunicavam a mundos de distância, partículas que atravessam paredes e surgem em lugares insuspeitos, resultados aleatórios, imprevisibilidade. Para Einstein, o mundo era feito de lógica e de ordem, cabia ao homem o entender; para Bohr, o mundo era impossível de ser alcançado pela mente humana, seria sempre incompreensível.
  Isso fez com que os últimos 20 anos da vida de Einstein fossem passados longe da comunidade da ciência. Ele era o mais famoso dos cientistas vivos, e ao mesmo tempo era visto pelos colegas como uma mente ultrapassada. Não pela idade, Bohr era da mesma idade, mas por não abrir mão de suas certezas. Einstein cometeu o mesmo erro de Freud, não ouviu, se aferrou aquilo que o fez famoso e não quis mudar.
  Leia.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

The Beach Boys-I Get Around (Live on the Ed Sullivan Show, Sept 1964)



leia e escreva já!

Beach Boys Little Honda '64



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LITTLE DEUCE COUPE - ALL SUMMER LONG - THE BEACH BOYS

   Muita gente gosta de dizer que ama Pet Sounds, mas esquece que Pet Sounds veio de algum lugar, e este lugar é aqui. CD único, com belo livreto, tem dois LPS da banda: Little deuce coupe é do fim de 1963 e All summer long de 1964. Em dois anos eles gravaram cinco LPS. E que maravilha eles são!
   O tema de Little deuce coupe é a estrada, não a estrada como fuga, mas sim como lugar onde se pode correr com um carro. O amor de um jovem por seu carro, esse o tema de todas as canções. Brian Wilson começava a falar de si mesmo, abandonava a praia, lugar que nunca gostou, e passava a contar coisas sobre carros, um dos seus amores. O amor maior ainda era a música.
  Brian Wilson foi o Mozart de sua geração, um gênio tolo, um gênio solar, um gênio feliz. Sim, feliz até o fim de 1964, hora em que ele encontra a marca de seu tempo, a droga e a paranoia. Brian bebeu na fonte de Chuck Berry, dos grupos vocais dos anos 50, em Burt Bacharach, e, incrível!, jamais se deixou pegar por Dylan. A música dos Beach Boys é música de anjos. Há uma delicadeza em cada nota, um encontro harmônico em cada arpejo, uma sinceridade barroca em toda canção de um minuto e meio.
  Veja uma simplicidade como 409. As vozes soam como alegria otimista, são vozes de jovens confiantes, e a instrumentação, elétrica, tem uma leveza que combina com suas asas. As melodias nunca são o "yeah yeah yeah" direto e repetido dos Beatles, são voltas e aperfeiçoamentos que sobem até a beleza sublime. Não é rock. Os Beach Boys se deram mal a partir de 1966, também porque os hippies notaram que eles estavam muito mais para música popular americana que para rock'n'roll. Burt Bacharach, mas também Johnny Mandel, Gil Evans e Cole Porter.
  Quando George Lucas lançou o sublime American Graffitti, encerrou o filme com All summer long. Ele sabia que ali estava o sonho. Tudo aquilo que um jovem queria ser em dois minutos de música e letra. All summer long é ainda melhor que Little deuce coupe, e seu tema é "o cotidiano de um beach boy".  Como diz Scruton, escrever sobre música...como? Escrever sobre os Beach Boys, como?
  Se os Beatles são potencialmente e de fato, a maior banda de rock do mundo, os Beach Boys são potencialmente e de fato, a maior banda de música do mundo. Melhor ouvir Little Honda. Um mundo de pequenos toques musicais na mais simples das formas.
  Menos é mais. Brian sempre soube disso.

QUADRIVIUM, AS QUATRO ARTES LIBERAIS CLÁSSICAS DA ARITMÉTICA, DA GEOMETRIA, DA MÚSICA E DA COSMOLOGIA.

   Não meus queridos, não é um livro onde se diz que a Terra é plana. Nem se fala de magia. Nem mesmo de Deus se fala. Ele nada tem de místico, de estranho ou de perturbador. Mas então, que livro é este?
   Bem, é uma decepção com certeza. Deixa explicar para você:
   São dois volumes, este é o segundo, sendo que o outro fala de gramática e de retórica. Se voce ler os dois, diz a editora, voce terá uma ideia daquilo que um bom aluno da renascença deveria saber. Até aí a ideia é interessante. Um jovem estudante de Bologna ou de Oxford, em 1500, deveria ler Pitágoras, Platão, Ptolomeu, Santo Tomás, Roger Bacon etc...claro que em latim e em grego, e claro que ele teria de ler suas obras completas. Mas...o que temos aqui é uma muito pequena explicação, escrita HOJE, sobre aquilo que eles sabiam ENTÃO. A sensação é de um resuminho para o ENEM.
   O tema é vasto e é fascinante, as ilustrações são ótimas, mas fica tudo com a profundidade de apostilas.
   Em geometria ficamos tomando conhecimento das proporções que formam o universo. O modo como elas se repetem sem parar. Das medidas do ínfimo e do imenso, do modo como esses totais podem ser reduzidos sempre à mesma proporção. Da música temos o mais difícil dos postulados. Difícil ser entendido por quem não lê partitura. Mas há o fato de que toda harmonia se resume a combinações matemáticas. Uma equação errada traz a desarmonia. É fato conhecido por todo músico sério.
  Temos so triângulos como base para toda a construção da natureza, a sequência de Fibonaci como paradigma de plantas, animais e estrelas ( 1,1,2,3,5,8,13,21....). É sim, um conhecimento não mais discutido, mas isso tudo merecia uma obra muito maior.
   Pensamento: Em 2518, qual será a lembrança daquilo que um jovem médio aprende na escola?

sábado, 27 de janeiro de 2018

Old Surf Movies: A Hatteras Odyssey, 1975



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Une journée avec William Finnegan



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DIAS BÁRBAROS - WILLIAM FINNEGAN

  Acabo de ler este livro que venceu o Pulitzer de melhor autobiografia em 2016. Em termos de estilo de escrita é delicioso. O autor, jornalista conhecido, escreve no estilo "americano". O modo direto e nunca afetado de Mailer, Bellow e Heminguay. Coloquial mas nunca pobre. Denso, cheio de metáforas, limpo.
  Finnegan é conhecido no meio. Escreve inclusive na New Yorker. Tem livros sobre guerras na Africa, situação humanitária na América Central, vida no Oriente. Sim, ele é um típico liberal de esquerda, daquele tipo que os anos 60 formaram. Um pensamento que só existe nos EUA, pois são liberais que odeiam o capitalismo e ao mesmo tempo amam a liberdade. Uma contradição com que eles convivem com ansiedade e desacertos. Por isso produzem tanto.
  Finnegan nasce numa família de classe média na costa leste. Mas por razões de trabalho, o pai faz parte do meio da TV e do cinema, eles se mudam para a California. Essa a parte mais brilhante do belo livro. A infância e a adolescência de William em um mundo mutante. Brigas na escola, gangs de recreio, insegurança física, a descoberta do poder do surf. A grande sacada de Finnegan, e que ele irá confirmar ao fim do livro:  a grande mudança do surf é que até os anos 80 ele era um esporte dos isolados, dos solitários, dos calados. E desde então, com a popularização, ele se torna esporte de grupo, de bandos, de galera. O surfista deixa de ser um individualista radical, e passa a ser apenas um consumidor de fim de semana. Mas me adianto...
  O pai de William começa a trabalhar na produção de uma série havaiana, e a família se muda outra vez. Na ilha ele se faz surfista. Começo dos anos 60. Mudança da prancha grande e pesada para as leves e pontudas. Sai de cena a surf music e entra a psicodelia. Qualidade do livro, Finnegan é modesto. O livro não é sobre uma busca pessoal. Não é sobre filosofia new age. Ele surfa. Ele consegue trabalhos modestos. E viaja.
  Bali, Java, Samoa, Australia. Tudo antes da popularização. Doenças, misérias, roubadas. E ondas em praias ainda não popularizadas pelas revistas. Ele passa anos nessas viagens. Longe da família, com a qual ele se dá bem, ao lado de um amigo: pode ser Dominic, pode ser Bryan...cruzam o deserto australiano ( William descobre que não há país onde o trabalhador seja mais bem pago que em OZ ), vão à Africa do Sul.
   Finnegan vira professor. É o fim do apartheid, tempo quente, tempo de crise. Ainda sobe a Africa com uma namorada. E volta aos EUA. Adulto.
   Mas não é o fim. Já quarentão, descobre seu pico favorito: a Ilha da Madeira, Portugal. Aldeias, plantações, camponeses pobres. Ele fica anos por lá, uma década. Acha a melhor onda. Mas as coisas mudam: a comunidade europeia e Portugal faz estradas, tuneis, hotéis, tudo se enche de turistas e a onda morre numa rodovia beira mar mal feita. Aos 50 anos ele desiste. O corpo dói. Escreve full time. Tem filha. Ela surfa.
   Um surfista, essa raça tão mal entendida, quer apenas uma coisa da vida: surfar. Só saberá o porque disso aquele que provou da droga. O livro explica mesmo para não-surfistas. Na união de homem e mar vive a parte mais pura de nossas aventuras. De Odisseu à Camões, dos pescadores aos surfistas. De Conrad à Finnegan.

MOMENTO MAIS FELIZ DA VIDA

   Este texto fala sobre alguns dos momentos mais felizes de uma vida. Momentos que eram aparentemente sempre os mesmos, mas que na verdade eram completamente irrepetíveis.
   Falarei no plural, porque todo esse prazer era vivido a dois, eu e meu irmão, 3 anos mais novo que eu. Eu comecei a fazer esse "ritual" aos 11 anos. E durou, com essa intensidade, até meus 15.
   Nessa época minha família tinha uma casa na praia, e a gente descia a Serra todo fim de semana. Contando os feriados e as férias, eu passava mais ou menos 150 dias por ano na praia. Não a toa, minha pele se acha destruída pelo sol hoje, aos 50 anos de idade. Mas quer saber? Não ligo. Valeu a pena. Cada minuto passado foi mágico.
   Tudo começava na véspera, na preparação. Eu e ele ouvíamos os discos que nos remetiam à praia. Houses of The Holy, Let It Bleed, Atlantic Crossing, In Rock. A descida era ansiedade feliz, um misto de renovação  e de pressa. O carro voava. E assim que era estacionado na garagem eu e meu irmão voávamos pro mar. Mais uma vez parecia ser a primeira vez.
  A paixão é aquilo que pode matar uma pessoa. Mas é, por isso mesmo, aquilo que dá sentido à vida de uma pessoa. É uma monomania, e isso faz com que fechemos os olhos para o mundo fora da paixão. Mas dentro desse mundo, desse alvo específico, cresce um outro universo. É apenas um único desejo, mas é um desejo vasto, vasculhado, conhecido e sempre novo. O corpo brilha em vontade de ir além da paixão. E nessa emoção sem fim, eu e meu irmão nos atirávamos.
  Hoje me impressiona a profundidade em que a gente chegava. Muito além do ponto onde dava pé, a gente chegava onde apenas os surfistas de 16, 18 anos iam. E com uma alegria que beirava o absurdo, rindo e sem falar nada, nos deixávamos ir em qualquer onda que viesse. A gente não escolhia, a gente não sabia esperar, éramos pregos na verdade, mas a gente deixava se ir.
  Uma das muitas diferenças do mundo de 1977 e do mundo de 2018 é o surf. Hoje se ataca a onda, se obriga a prancha a ir contra a onda e o objetivo é quebrar a onda. Antes se fluía com a onda. A meta era se integrar à onda e se deixar harmonizar por ela. A sensação beirava a epifania, e por isso excluía todo o resto da vida. Eu poderia destacar a velocidade, a água entrando em comunhão com o corpo, a adrenalina do medo, a sensação de vitória sobre si mesmo, mas o que mais me dava loucura era o som. As vozes vindo da praia, distantes, quase inaudíveis, que eram apagadas quando a onda surgia. E então a música eterna, vinda da pré- história, do mar quebrando sobre voce.
  A gente tomava vários caldos, vacas. Engolia a imunda água salgada com detritos. Tossia. A garganta ardia. Tive vários momentos de pânico e de quase afogamento. De estar debaixo da água e não saber onde ficava o céu e onde ficava o fundo de areia. Mas a gente, com nosso um metro e meio de altura, conseguia respirar por fim. E ia, rindo, buscar a prancha onde ela estivesse. Era isso de oito da manhã até as seis da tarde. Todo dia. Com uma parada breve ao meio dia. Para suco e água, muita água.
  De noite na cama a gente comentava o dia. E sentia que a cama parecia flutuar. Parecia que a gente boiava sobre o colchão. O rosto queimado de sol, o cabelo estragado, nosso sono vinha com um sorriso. Por saber que amanhã tudo seria repetido. Igual. Mas jamais o mesmo.
  Não consigo lembrar de nada melhor que isso.