terça-feira, 17 de julho de 2018

O DOCE FIDALGO, ESSE SER TÃO ESQUECIDO...

   Em tempos de Neymar, nada melhor que lembrar da figura do fidalgo. Tipo de homem que na Itália recebeu o nome de "cortesano" e na Inglaterra de "noble man". Esse termo começou a se popularizar por volta de 1520, e popularizar é modo de falar: a literatura cortesã é a mais aristocrática de todas. Se voce quer ler aquilo que um verdadeiro aristocrata leria, o século XVI é seu século.
  Antes, em plena idade média, a literatura e as artes variavam entre o popular ( aquilo que nasce das tradições das ruas, das festas ) e a igreja. O povo era religioso, mas a igreja, dentro de suas catedrais e seus mosteiros, não. Daí viria o nascimento das universidades, todas religiosas, e depois das nações, todas começando em um centro universitário. ( ´Portugal não. Nasce antes de todas as outras nações. Portugal, a mais antiga nação europeia, começa no século XII. A consciência de ser francês ou ser inglês só nasce cem anos mais tarde ). Voltemos então ao fidalgo...
  Quando a imprensa é inventada, a Europa é inundada por Bíblias. E por livros de cavalaria. No centro de tudo isso, dessa revolução mental e espiritual, nasce a figura do fidalgo, do cortesão. Uma literatura voltada para o aristocrata. Uma literatura contrária ao comerciante, ao padre e ao artesão.
  Já naquela época, principalmente na Itália, pessoas mais atentas percebiam que o mundo era do dinheiro, e que o dinheiro era do banqueiro, do comerciante e do navegador. A igreja precisava se aliar ao dinheiro e os reis eram financiados pelo capital. A nobreza, antes símbolo do poder e donos do destino, foram jogados de lado. Se transformaram em testa de ferro da burguesia ou em adereços de desfiles cívicos. Nasce então a literatura que sonha em manter a aristocracia viva. Que já percebe o começo do fim de uma época.
  Pense bem. Se o mundo de Deus é dos padres e o mundo da matéria é dos burgueses, o que resta ao aristocrata? A história. O passado. O mundo dos sentimentos puros. O mundo platônico. Mas, como viver e agir dentro desse mundo imaterial? Sendo um homem imaterial. Viver dentro do universo dos símbolos.
  Garcilaso de La Vega é um aristocrata exemplar na mais aristocrática das nações, a Espanha de 1550. Nobre, rico, mas sabendo que a fartura minguava, De La Vega é poeta, é soldado, é amante, é viajante, e morre jovem, aos 32, no campo de batalha. Como ele, muitos nobres de Portugal, França, Itália, têm esse mesmo ideal de vida. Viver pelo e para o Amor.
  Em Garcilaso só se fala do amor. Em todo lugar, em todo canto, em toda mulher, é o Amor quem surge. O universo existe pelo Amor e por ele se morre. A obra e a vida de um fidalgo é refinada, filtrada, pelo Amor. Um fidalgo existe como ser que ama, todo o tempo. Ele acorda e se prepara para o Amor. Ele se exercita para a luta em defesa do Amor. Suspira por Amor e morre em nome dele. Todas as regras de vestuário, de etiqueta à mesa, de conversação, são criadas para ser um amante vinte e quatro horas por dia. O fidalgo se comporta entre homens, seja numa caçada, seja numa guerra, como se na presença da Amada, sempre. Esse o nascimento do homem nobre, tão ridicularizado a partir do iluminismo. E tão grotescamente exagerado na França de Luis XV e XVI. Como tudo que é humano, portanto imperfeito, o fidalgo com o passar das eras foi sendo facilitado. Tudo o que era mais difícil foi esquecido e o menos penoso, ressaltado. O nobre se torna apenas uma máscara. O espírito da coisa desaparece.
  Mas em 1550 está vivo. E ainda se deve não só ser elegante, mas também lutar, defender, arriscar, se sacrificar. E saber conversar, fazer rir e escrever sobre o Amor.
  De certo modo a fidalguia destruiu Espanha e Portugal. A casta dirigente se encantou e se platonizou. Nada de mundo real, apenas cartas de amor e batalhas perdidas.
  PS: Todo adolescente é aristocrata em algum momento da vida. Nem que seja só por seis meses. Os mais infelizes carregam isso para toda a vida. Mas é uma aristocracia sem elegância, claro, e sem batalhas para vencer ou perder. Uma aristocracia hiper platonizada.
  PS2: Nobres davam regras sobre etiqueta e gosto para a burguesia que os invejava. No mundo virtual, todos nos comportamos como nobres. Não admitimos que nos ensinem, queremos ditar. Sabemos tudo e ansiamos por uma corte de seguidores. Cada post é um ato de sedução. Mas NUNCA EM NOME DO AMOR. EM NOME APENAS DO ORGULHO.
  Pense nisso.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Noel Coward's This Happy Breed - great preview



leia e escreva já!

THIS HAPPY BREED - DAVID LEAN ( CONSTELAÇÃO FAMILIAR ).

   Infeliz o povo que não consegue mais fazer filmes como este. Pior ainda, infeliz o povo que não vê mais sentido em histórias como esta. Do que trata, e por que "constelações familiares" ?
   Primeira cena do filme: Um jovem casal está de mudança para uma casa simples. É uma daquelas casas inglesas de tijolo marrom, uma fila sem fim de casas iguais: uma sala e uma cozinha; em cima, dois quartos, mais um jardinzinho nos fundos. A mudança é feita eles arrumam e limpam tudo, a casa é bem suja. Um filho e duas filhas, são os Gibbons e a história começa nos anos 20. A Inglaterra se encontra tomada por greves e desemprego.
  Um vizinho faz amizade com eles. Começam os namoros. Casamentos, vinte anos serão exibidos em duas horas de filme. Eles passam pela Segunda Guerra, passam pela morte de um membro da família, e depois de mais um. Uma filha foge de casa, e depois, muito depois retorna. E tudo é regado a chá, muito chá, dor contida, piadas, whisky, mais chá e o jardim do pai. E é aí que desejo chegar:
  Um namorado da filha é um jovem socialista anarquista, do tipo que havia aos montes nas ilhas dos anos 30. Numa discussão com o pai dos Gibbons, ele diz que "o mundo precisa mudar já!" O pai, cuidando das rosas, diz que "a Inglaterra ama jardinagem...e por isso somos do jeito que somos...temos paciência porque sabemos que as coisas têm um tempo para crescer, florir e morrer...quero que o mundo seja melhor...mas sei que a vida não é diferente deste jardim..." Robert Newton é o ator que diz esta frase simples, e muito do seu encanto se deve ao charme desse ator inglês. Talvez voce então já tenha notado o que desejo dizer... O filme, de uma forma discreta, leve e grave, sem apelos, mostra despudoradamente o VALOR SUPREMO DE UMA FAMÍLIA. O que vemos diante de nossos olhos, cheios de maravilhamento, é a mais simples, a mais banal das histórias: vinte anos na vida de uma família absolutamente comum. Nem ricos nem pobres, nem felizes, nem infelizes, sem bandidos ou santos. Banais, banais como todo pai é, banais como toda mãe é.
  Steven Spielberg gosta de dizer que David Lean nunca fez um filme menos que bom. Discordo. Ele tem um filme chato ( A Filha de Ryan ) e cinco obras primas. Este é talvez seu maior e melhor filme. E é o mais simples e modesto. This Happy Breed se tornou nos anos 2000 um clássico tão cult como Coronel Blimp, de Powell. São amados com carinho e com respeito.
  Voce tem de ver este filme. Para entender a IMPORTÂNCIA DE SUA VIDA. A dignidade da vida comum. A beleza do chá banal de toda hora. O pai modela toda a moralidade daquela família. E a mãe dá à todos a força física de uma presença real. O filme, feito em 1949, é retrato perfeito e doloroso de um mundo que morria após a guerra. Um mundo do qual sentimos falta. Não criamos ainda um melhor para colocar no vazio deixado.
  Não veja este filme esperando moral ou beleza fácil. A vida dos Gibbons é árida. Espere dele uma lição. Uma aula. Uma chamada à ação.
  Um dos mais belos filmes já feitos. E o mais comum entre os grandes.

Haru & Natsu, As Cartas Que Não Chegaram 01



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HARU E NATSU, CARTAS QUE NÃO CHEGARAM.- SUGAKO HASHIDA.

Em 2005 a NHK do Japão fez uma série em cinco partes tendo por base este livro. A série passou aqui e assisti apenas o último capítulo ( não sabia do que se tratava ). Gostei do que vi, tinha aquele emocionalismo travado, bem nipônico. Agora acho o livro, por acaso, em um sebo. Ele é de 2002, escrito por uma japonesa e foi traduzido por 3 pessoas. O texto, o estilo é árido e não sei se é um problema da tradução ou se ele foi composto desse modo hiper direto em sua origem. Vamos ao tema:
Nos anos 30, o Japão em fome absoluta, uma família resolve vir ao Brasil. Mas uma das meninas fica no porto, pois ela tem uma doença transmissível. São trocadas correspondências, mas os endereços estão errados, e assim, se passam 70 anos. A história das duas irmãs, uma no Japão e outra no interior de SP é o que se conta.
Os japoneses eram enganados. Vinham para cá com a promessa de enriquecer em 3 anos. Ao contrário de portugueses e italianos, que se mudavam para o Brasil sem a ideia de retorno à pátria, todo japonês vinha com a intenção de retornar o mais rápido possível. E acabavam ficando presos aqui. Se endividavam, eram explorados, nunca conseguiam juntar dinheiro. Tentavam manter a identidade japonesa, tentavam fugir das fazendas, quando fugiam, passavam a plantar aquilo que aqui não se plantava então: flores, caqui, pimenta, peras. O drama corre solto, e quando começa a guerra tudo piora ainda mais.
A irmã do Japão enriquece, e amarga, pensa ter sido esquecida.
Para quem se importa ainda com história e com relações familiares, é um livro bacana. Pena ser uma edição tão mal cuidada.

sábado, 14 de julho de 2018

Ian Dury - Reasons to be cheerful, part 3 (lyrics on clip)



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31 CANÇÕES - NICK HORNBY

   Voce sabe que livro é este né? Lançado em 2005, fala de 31 canções pop. Não são as favoritas de Hornby ( sua number one é Lets get it on, do Marvin Gaye, e ela nem está no livro ), são canções aleatórias, claro, todas amadas, mas não as top. Tem Rod, tem Richard Thompson, Nelly Furtado, Bruce...e ele fala ainda de Jackson Browne, Ian Dury ... Não, não vou comentar uma por uma. Aleatoriamente digo que seu texto sobre o Led é legal ( com 14 anos temos preconceito contra canções sem guitarras altas, e aos 30 temos preconceito contra hard rock ). Ele escreve também um belo mea culpa sobre o punk. Diz que black music dura muito mais que o melhor do punk.
   No ótimo texto sobre Ian Dury ele fala o que é ser inglês, e esse é o melhor texto do livrinho. Lembra do que era a Inglaterra de 1974, um país que "sonhava em ser a Polônia"...apenas 3 canais de TV, comida ruim, tédio absoluto e comodismo medíocre. Sua descoberta da América,( foi morar lá aos 16 anos ), a terra da fartura, da diversão, do excesso, da mania de beleza. Uma sacada ótima: Nick Hornby não tem mais saco para música que é "como um tiro na cabeça", "como ser asfixiado", música de sofrimento, de perigo. O insight dele é perceber que as pessoas que consomem música perigosa, música de drogados, criminosos, suicidas, são as pessoas que vivem protegidas, longe do perigo, longe da fome, longe de tiroteios. Quem vem da guerra não quer ouvir uma coisa que é como um tiro na cabeça.
   É um livrinho que li em uma hora, de uma sentada.

O LIVRO DAS EVIDÊNCIAS - JOHN BANVILLE

   Ora, voce pode pensar, mais um romance de John Banville!!! Não, este livro é de 1989 e foi lançado só agora aqui nos trópicos. E, como tudo de Banville, não se parece com nenhum outro livro dele.
   O narrador é um cara desprezível. Na verdade ele nem desprezível é, ele é odiável. Um aproveitador, ladrão, playboy preguiçoso, vaidoso, egoísta, cruel, assassino. É sempre difícil acompanhar um narrador tão pouco gostável. Mas a prosa do autor é tão bem urdida, tão cheia de sabor, que a gente se deixa levar pelo estilo. Comemos o texto. Mas há um erro fatal na parte final do livro. Após a horrenda descrição de um assassinato, passamos a nos sentir incomodados pelo livro. Até então o romance era movimentado, com algum humor, agilidade. Mas após o ato repugnante, ele passa a ser reflexivo, íntimo, pesado. O prazer de ler diminui, mingua, desaparece. Sentimos pena então. O romance, ebulição de prazer escuro, se torna um triste e modorrento, dostoievskiano pecado.
  É o menos bom dos livros do autor irlandês.
  Mas está longe de ser vulgar.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Lady's June Linguistic Leprosy



leia e escreva já!

TOMAS TRANSTOMER NO BRASIL ( ENFIM )

   Ao contrário da maioria dos estudantes de línguas, eu não creio que um dia a linguagem foi mais viva do que é hoje. Palavras, o verbo, foi criado para tratar de trabalho e da vida em comunidade. Sonhos, sentimentos, intuições jamais couberam em linhas, sentenças, sujeitos e adjetivos. Desse modo, posso dizer que a poesia sempre foi um ato em que tentamos dizer o indizível. Todo poeta faz uma atividade fadada ao fracasso, palavras nunca dirão exatamente aquilo que ele sente dever dizer. Mas na tentativa, falha, ele cria uma terceira possibilidade. Ele dá vida à algo que não é inefável, mas que também não é apenas verbo e objeto.
  Transtomer finalmente chega em tradução. Eu o espero desde 2011, ano em que venceu o Nobel. A editora promete lançar mais obras. Eu aguardo. Me identifico com ele. Suas intuições são irmãs das minhas. Ele nunca é emotivo. É como se ele virasse a esquina antes da emoção fluir. Escreve a sensação que nasce antes da emoção plena. Ele olha e recolhe. Ele vê e escreve. Está aberto aos estímulos, atento às pequenas coisas, mas mantém um certo distanciamento, calma dentro da sensação.
  Sua sintaxe é apurada e seu vocabulário simples. É direto. Não se perde em requintes exibicionistas. Tem o rigor do norte.
  Um poeta maravilhoso.

domingo, 8 de julho de 2018

FLORESTA ESCURA - NICOLE KRAUSS

   Ele começa com uma citação de Kafka. Aquela que diz que nunca saímos do Eden. Que na verdade somos incapazes de perceber isso por não termos comido da árvore do conhecimento. Começo então a leitura.
   São duas histórias que se movem de forma paralela. Uma, em terceira pessoa, conta a história do milionário Friedmann, um advogado que aos 65 anos doa todos os seus bens e despojado, ruma à Tel Aviv. Lá ele se envolve com um rabino meio fajuto, uma produção de cinema caótica e planta uma floresta em homenagem aos pais mortos. A outra história, em primeira pessoa, fala de uma escritora chamada Nicole, que foge do casamento e dos dois filhos, indo à Israel se hospedar no Hilton, onde ficava em sua infância, à procura de seu duplo, seu outro eu que vive no mundo "à parte". Ela é contatada por um ex professor velho que lhe envolve na caça aos papéis perdidos de Kafka. Isolada no deserto, ela renasce. Ou não.
  Nicole Krauss é ainda jovem e é considerada uma das maiores promessas das letras americanas. Judia, o romance tem por tema as obsessões judaicas: o duplo, o renascimento, a culpa, o deserto, o desterro, Davi, a escrita. Não só por colocar duas fotos em meio ao texto, fotos que servem para "provar" a verdade de uma coisa ou de um lugar; seu estilo me lembra Sebald, o genial autor alemão. Como Sebald, Nicole mistura personagens de ficção com outros históricos, narrativas inventadas com fatos comprovados, e faz com que não saibamos, às vezes, se aquilo que lemos é romance ou história, invenção ou jornalismo, mentira ou verdade. Sebald é mais radical. Ele realmente nos faz ficar em dúvida todo o tempo. Krauss pega mais leve. Ela é menos histórica e mais íntima. Nicole é Nicole Krauss?
  Essa literatura do diáfano, do confuso, esse mix de invenção e pesquisa, de fato e ficção, é a coisa mais fascinante que se escreve hoje. É retrato de um mundo que sabe muito e por isso sente não ter certeza de nada. Onde o que é pode ser mais, e o que não é pode vir a ser. Onde tudo é uma possibilidade. Inclusive a não possibilidade de tudo.

CAMISA QUE PESA

Camisa que pesa: Nada mais bobo para se dizer sobre o futebol. Camisas pesavam na época da falta de informação. O cara ouvia falar de Pelé e dos feitos do Brasil e quando via um bando de desconhecidos usando a blusa amarela tinha a sensação de jogar contra lendas. Zé Maria, Valdomiro ou Dadá viravam jogadores temidos por usarem a blusa pesada. Ninguém de fora do Brasil sabia o quanto eles eram ruins.
Não há mais camisa pesada porque hoje não se joga contra uma camisa lenda, se joga contra um time de jogadores muito conhecidos. O jogo é entre pessoas que se conhecem, que jogaram contra em seus times, ou pessoas que jogam juntas o ano inteiro. A camisa se tornou apenas uma cor, uma lembrança do passado, não mais o único sinal conhecido.
A gente não sabia nada sobre Overath. Apenas que ele usava a camisa da Alemanha. Então ele deveria ser dono da mística da camisa branca. Hoje saberíamos que Overath era um grande meia armador. E provavelmente companheiros de dois ou três adversários. Cruyff jamais seria uma surpresa hoje. O fato da camisa laranja em 1974 não ter peso nenhum ( era mais leve que a de Portugal ou do Perú ), nada significaria. Do outro lado Zagallo e Rivellino veriam jogadores pesados. E não anônimas camisas laranjas.
Como na Euro, a tendência da Copa é ter cada vez mais campeões inéditos. França e Espanha são a tendência. Foram dois inéditos em 20 anos. E teremos neste ano uma final nunca vista. O futebol se globalizou, E o que vale é o aqui e agora. O passado tem de ser conhecido. Mas é  isso. História.

MATADOURO CINCO

Voce ama ou odeia. MATADOURO CINCO é um filme que impressiona de cara: uma máquina de escrever datilografa a história de um homem que está preso numa viagem pelo tempo. E voce estará preso em um filme que viaja pelo dentro de fora, pelo real e pelo imaginário, pelo futuro e pelo passado.
Pilgrim é um bobo. Calado, não muito esperto, ele é preso do acaso. É um soldado na segunda guerra. É preso pelos alemães. Vê uma nave no céu. Cresce na América dos anos 40-50-60. Casa com uma mulher que não ama. É raptado e enviado para o futuro. Descobre o sexo já na maturidade. Vê a destruição de Dresden pelos aliados.
George Roy Hill dirigiu este filme em 1972. Após seu sucesso em Butch Cassidy, ele faz um filme de "arte". Usa o livro de Kurt Vonnegut Jr. Usa a fotografia belíssima de Miroslav Ondrieck ( tcheco dos filmes de Milos Forman ). Usa a música de Bach tocada por Glenn Gould. E tudo isso junto faz deste filme uma coisa deliciosa, engraçada e trágica, muito trágica e muito engraçada.
As cenas se sucedem em cortes. Cenas muito curtas, algumas muito longas. Aquelas no planeta alienígena são as mais difíceis, o que é aquilo afinal? Seria esta Terra vista sob outro foco? O limite como prazer? Ou Vonnegut brinca com a física quântica? E há a beleza inenarrável de Dresden. Vemos o paraíso possível, humano, ser destruído inutilmente pelo homem, que se cria o céu cria o inferno também. Dresden foi tão destruída quanto Nagasaki. A cidade inteira foi arrasada em uma noite. Toneladas de bombas incendiárias jogadas sobre uma cidade que não tinha tropas e nem fábricas. Uma simples vingança. O filme não faz draminha: tudo é mostrado de forma seca. É de uma aterradora beleza. É o centro da vida de Pilgrim, um Forrest Gump sem doce simpatia spielberguiana.
Este filme foi um grande fracasso. Hoje parece obra de gênio. Ele prova o quão miserável é nosso cinema atual.
Em sequência George Roy Hill ganharia o Oscar com Golpe de Mestre.

sábado, 30 de junho de 2018

IKIGAI, OS SEGREDOS DOS JAPONESES PARA UMA VIDA LONGA E FELIZ- HÉCTOR GARCIA E FRANCESC MIRALLES

Dei de presente para minha mãe este livro de autoajuda. Apesar da bela capa e do viés oriental, sim, é autoajuda. Mas é uma autoajuda menos chata e menos mágica.
Trabalhar por toda a vida é o segredo número um. Trabalhar atingindo o ponto de "fluir", que seja, tirar da simplicidade de seu trabalho um tipo de dança do tempo.
Difícil para mim falar deste livro. Tudo o que ele tem de melhor eu pratico desde sempre. Por intuição. Ninguém me ensinou a meditar, mas eu medito em qualquer lugar, basta ter algum canto quieto. Ouvir o ambiente, sentir o presente, se dissolver no lugar. Não acho nada disso difícil. Fico surpreso quando alguém diz não saber do que falo.
Enquanto voce Lê isto tudo que existe no mundo é voce lendo isto. Um conceito zen que entendo facilmente. E o experimento desde sempre. Não há futuro, não há passado. O que realmente podemos sentir e provar é o agora.
Este momento jamais irá se repetir. Esta pessoa jamais será o que ela é agora. Por isso o amor japonês ao bule rachado, à xícara quebrada: imperfeição da vida, bela sempre, mas jamais perfeita.
Regra segunda: aceite seus pensamentos, mesmo os ruins. São apenas pensamentos. Olhe para eles como aquilo que eles são: pensamentos. O que importa é a ação e pensamentos são coisas para serem vistas. Deixe sua mente pensar o que ela pensar. Não tente mudar ou calar sua mente. Ela própria seguirá seu caminho.
Aprenda, nunca pare de aprender. Fazer a cama pode ser um aprendizado para quem nunca o fez. Varrer a calçada. Escrever uma carta. Há milhares de pequenas coisas para serem aprendidas. ( Bill Gates adorava pintar paredes. Pintar mesmo, como um pintor comum ).
É um livro legal.
PS: quem é Victor Frankl ?

O BRASIL DE 2018 E A ARTE DO SÉCULO XX

   A mania por ideologia que o Brasil vive hoje, uma mistura pesada e rancorosa de politicamente correto, esquerdismo mofado e direitismo de fantasia, me fez, afinal, perceber algo que sempre ocorreu durante todo o século XX: o viés ideológico em toda forma de crítica artística.
  Sim, foi ingenuidade minha, mas crescendo em um país sob censura dura, os críticos de arte não podiam dar nome aos bois, e então atacavam Howard Hawks por exemplo, sem dizer o porquê de tal esnobada. No fim do século, nas décadas de 80 e 90, essa patrulha ideológica arrefeceu, mas agora, na segunda década do século XXI, ela tem voltado. Dessa vez travestida de feminismo, ecologia e de "igualitarismo".
  Hoje há um movimento que volta a desvalorizar os filmes de Sam Peckimpah, de John Ford ou de Clint Eastwood. Dentre muitos outros. São os mesmos que eram preteridos em 1970 em favor de Antonioni, Pasolini ou de Welles. Hoje eu sei que se amava tanto esses diretores ( e Godard, e Cassavetes, e Rosselini, e Varda ) , por serem todos eles anticapitalistas, quando não comunistas assumidos. Nesse mundo patrulhado, Frank Capra era taxado de fascista, e apesar desses críticos gostarem de seus filmes, Capra era sempre considerado um "artista menor".
  A lista de diretores e atores desvalorizados por não serem de esquerda é imensa. Vai de Ford e Hawks à Malle, Chabrol, Clouzot, Bresson e Carné. Muito da "genialidade" de Chaplin se deve ao fato dele ser do PC. Buster Keaton, tão genial como ele, era visto apenas como um americano alienado. Brando era maior que qualquer outro por ser visto como um antiamericano. ( Ele era mesmo? ).
  Muitos foram hiper valorizados por esse perfil PC. Picasso, claro que genial em qualquer tom, foi colocado acima de Matisse ( que seria apenas um burguês colorido ), quando na verdade os dois são do mesmo patamar. Não pense que o status de Frida Kahlo se deve apenas à sua pintura.
  Percebo então, com certo aturdimento, um óbvio que demorou muito a me atingir, a de que a crítica e o valor em toda a arte é muitas vezes poluído pela opinião política. Um artista de direita, como Eliot ou Yeats, tem de ter uma genialidade imensa para poder ser aceito por um crítico de esquerda. Para esse crítico, Sartre sempre parecerá maior que Camus e Genet será mais considerado que Saint-Exupéry.
  Tenho amigos que não conseguem mais ver um filme com John Wayne. Para eles, que antes o assistiam com amor, ele é hoje o símbolo do mal. Em sua mente Wayne é um Trump no faroeste.
  Tenho a certeza que se vivo, Nelson Rodrigues e Paulo Francis seriam atacados o tempo todo, sem parar, e seu valor seria diminuído ao burlesco.
  Uma pena.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

FILMES NOIR, ALTMAN, DR WHO E OUTRAS COISINHAS MAIS

   RINCÃO DAS TORMENTAS de John Boulting com Richard Attenborough
Graham Greene escreveu uma obra-prima sobre um psicopata bandido que espalha violência em Brighton. É um filme extremamente invulgar. Richard tem uma atuação brilhante e o filme é perturbador. Greene gostou do filme e ele se tornou um pequeno clássico inglês.
   O AMANHÃ QUE NÃO VIRÁ de Gordon Douglas com James Cagney
Rápido e direto, eis um filme policial do velho estilo, simples e cheio de fúria. Cagney dá um show como um bandido que foge da prisão e volta logo a vida de crime. Vaidoso e violento, seu personagem é repulsivo. O filme é muito divertido.
  SANGUE DO MEU SANGUE de Joseph L. Mankiewicz com Edward G. Robinson, Richard Conte, Susan Hayward.
Quase uma obra prima. Mankiewicz foi roteirista e produtor nos anos 30 e 40, e esta é uma de suas primeiras direções. Um drama realista com altas doses de simbolismo, ele fala de um pai-mafioso que tem um filho favorito. Esse filho é preso e ao sair da prisão enfrenta a traição dos irmãos invejosos. Os atores brilham e o filme nos prende, é grande, sério, magistral. Um ano depois Mankiewicz receberia seu segundo Oscar por A Malvada.
  SEM SOMBRA DE SUSPEITA de Michael Curtiz com Claude Rains
O box 9 de Filmes Noir continua em alto nível com este filme do diretor de Casablanca. Rains é um radialista que é suspeito de assassinato. Um filme de suspense, cheio de clima. Muito bom.
  CILADA MORTÍFERA de Irving Lerner com Vince Edwards
Eis um filme duro de classificar. Voce vai achar que ele é um lixo ou uma maravilha. Lerner fez um filme barato que bebe nos filmes franceses policiais que se faziam então. É um filme boêmio, jazzy, cheio de estilo, seco e muito cool. Ou talvez seja apenas um filme muito amador.
  O PERIGOSO ADEUS de Robert Altman com Elliot Gould e Sterling Hayden.
Talvez seja este o melhor filme de Altman. Há uma alegria que paira sobre este filme, uma leveza que ilumina cada cena. Altman pega Philip Marlowe e o imagina na California de 1974. Ou seja, é o detetive moral de Chandler em meio ao sexo livre e às drogas da época. A primeira cena do filme, Marlowe e seu gato fujão, é deliciosa! Elliot Gould faz um detetive que transita pelo mundo new age da época como se estivesse sonâmbulo. Ele fala sozinho, não toca em mulheres e não gosta da violência. O filme, grande como todo filme de Altman, é original.
  RENEGADOS ATÉ A ÚLTIMA RAJADA de Robert Altman com Keith Carradine
Um bando de caipiras ladrões dos anos 30. Altman foca no dia a dia banal deles. São burros, são pobres, são limitados. E sujos. O filme tem ar de saudade, de foto amarelada. É bonito e é diferente, bem diferente. Feito em 1974, ele tem o estilo dos filmes feitos 40 anos depois.
  DENTRO DA NOITE de Raoul Walsh com George Raft, Ida Lupino, Humphrey Bogart e Ann Sheridan.
Uma obra prima. Raft é o ator principal, Bogey na época ainda não fizera O Falcão Maltês. Os dois são irmãos donos de um caminhão e a primeira parte do filme é um maravilhoso quase doc sobre a vida nas estradas. Bem realista, o filme mostra lanchonetes, policiais, cargas, toda a vida de trabalhadores pobres das rodovias. Depois Walsh se concentra numa trama de assassinato e ciúmes, o filme vira um drama noir. É um dos melhores filmes de um cara que dirigiu mais de 80 produções. Grande diversão!
  DR WHO E A GUERRA DOS DALEKS de Gordon Flemyng com Peter Cushing
Feito em 1965, este filme aproveita o sucesso da série da BBC. Mas é um filme pobre e meio brega. Uma decepção colorida.
  A DIVORCIADA de Robert Z. Leonard com Norma Shearer, Chester Morris e Robert Montgomery
Uma esposa pega o marido no flagra e  se divorcia dele. Este dramalhão deu um Oscar à Norma Shearer, uma das estrelas dos anos 30 menos lembradas hoje. Mas ela foi grande! Se casou com o produtor Thalberg e ao ficar viúva desistiu do cinema aos 30 anos. Ela era sexy e pudica ao mesmo tempo, a voz era linda e seu estilo ainda era meio cinema mudo. Exagerado. O filme é bem antiquado.
  UMA ALMA LIVRE de Clarence Brown com Norma Shearer, Lionel Barrymore e Clark Gable.
Uma moça mimada, filha de um juiz, tem um caso com um bandido. Gable esbanja mal caratismo e machismo e Norma está bem sexy. O filme é moralista, claro, mas ao mesmo tempo estranhamente safado. Não é muito bom.