domingo, 17 de setembro de 2017

AVENIDA PAULISTA - JOÃO PEREIRA COUTINHO ( E JUCA CHAVES )

   Pego num sebo um livro que reúne crônicas de Coutinho escritas entre 2005 e 2008. O autor tem belo estilo: leve. E belo pensamento: conservador na tradição de Burke, que ele cita. Coutinho em nada se parece com Paulo Francis, mas o seu gosto estético recorda muito o do mestre mais velho. Ler Coutinho é adentrar o mundo do bom gosto e mais que isso entender que sem bom gosto não existe vida que valha a pena ser vivida.
  Assim ele fala de Scruton e ainda de Nelson Rodrigues, de pintura, de Woody Allen, de nazismo, da revolução francesa, do futebol, de mulheres e ao final de SP. Leitura de verão, boa e nunca tola. Coutinho é muito mais sério do que deixa se entrever. Sabe onde a Europa se rebaixa e porque os EUA salvam. Seu texto sobre a Estátua da Liberdade é o melhor entre todos. Nossa ingratidão ao ideal americano é a ingratidão do mendigo ressentido pela esmola que recebe.
  Somos todos ressentidos. Nietzsche acertou o sintoma mas errou o motivo. Não suportamos a alegria. Dos outros.
  Falo agora de Juca Chaves. Ele foi tão famoso quanto RC ou Chacrinha. E um país que produz e conhece Juca, o Juquinha, é um país nem de todo condenado. Seu humor é fino, cristalino e o modo como ele sente a mulher e a política é o mais fora de moda possível. Por isso, é superior. Ele se diz um menestrel. E como figura medieval, perdeu seu lugar no mundo de funkeiros e sertanejos óbvios. Imaginas Juca chamar sua musa de vadia ou piranha, imaginar Juca chorar a dor de ser corno, sem humor, é tão impossível como pensar na esquerda usando a ironia para falar de politica. O Brasil que deu voz a uma figura como essa era país com chance de futuro. Hoje tudo que nos resta é a chance de voltar ao começo.
  PS: Juca é o Kevin Ayers brasileiro e carioca da gema.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O VIOLÃO AZUL - JOHN BANVILLE.

   Oliver é um pintor de renome. Que não mais pinta. E ele é também um ladrão de pequenas coisas inúteis. Casado, pai de uma criança que morreu aos 3 anos de idade, ele vive um caso com a esposa de seu melhor amigo. E então acontecem algumas coisas. E Oliver deixa de ser o mesmo.
   Oliver é egoísta. É infantil. Mal tem ideia do que as pessoas querem ou daquilo que elas fazem. E volta à casa de sua infância. O livro, o mais recente de Banville, é belo. E pungente. A escrita é saltitante, o autor está em voo, domina seu dom. Frases instigantes, pensamentos agudos, e momentos de inspiração, muita inspiração. Oliver e sua amante, Polly, são comuns em seus atos. Apesar de artista, Oliver nada tem de excêntrico, brilhante, seus dramas e insights são os nossos. Banville escreve sobre a vida de pessoas banais. Mas o livro nunca é banal.
  O final do livro, após uma sequencia onírica, poética, solta, é, mais uma vez em Banville, sublime. E, mais que isso, após o final sentimos que tudo aquilo que lemos é outra coisa. Nada era o que parecia ser. Banville faz algo de muito difícil, dá uma nova leitura ao seu texto. De forma suave e simples. E terminamos o livro querendo o rememorar. Reler. Reler e reinterpretar tudo aquilo. Pois Oliver, Polly, Gloria, Marcus, Freddie, Percy, Olive, nenhum deles era o que parecia ser.
  A lição do autor é a de que a vida é sempre inacabada, precária, insolente e insofismável.
  Um grande livro.

domingo, 10 de setembro de 2017

MOZART E O SEGREDO DA MÚSICA.

     Quando Mozart compôs suas músicas ele não tinha em mente imagens como carruagens, perucas, espadas. Nem mesmo o teatro de Vienna ele tinha em mente. Wolfgang tinha em mente a música. Tão somente a escrita musical. E ao compor, ele pensava a música e a escrevia. Claro que sob algum sentimento, mas como todo gênio, ele transcendia esse sentimento ocasional, do momento, e compunha sua obra sob a emoção de sua vida. Não sob o fugaz, mas sob a vida em geral. Sua vida.
   Por isso, quando voce ouve a Sinfonia Jupiter, se voce começa a pensar em teatros europeus, roupas com babados ou amor romântico, sinto dizer, voce não ouviu a música, voce a usou como fundo de suas imagens pré concebidas. Voce fez cliché.
  Vamos falar de outro ponto. Se tudo o que existe é da natureza, então a música, assim como a matemática pura, são coisas naturais, fazem parte da evolução e da seleção natural. Possuem uma função para a manutenção da vida. Ok. Penso que uma canção pode atrair uma fêmea para a procriação. Estão aí o soul, o rock e o funk que provam isso. A valsa e certas canções ditas clássicas. Mas não vejo onde a Nona de Beethoven ou mesmo a Jupiter de Mozart entram nisso. Eles teriam mais fêmeas se compusessem chorosas canções de piano. Ou fáceis melodias ao violino. O mesmo com a matemática. Entender as leis do empuxo ou da gravidade nos fazem viver mais. Mas as abstrações de mundos múltiplos ou equações não verificáveis em nada garantem vida mais longa ou mais filhos fortes e espertos. Voltemos à música de Mozart.
  Como bem sabe todo compositor de talento, música sem vocal é música e apenas música. "Apenas". E em minha modesta opinião de leigo, a música não faz parte da natureza. Ela vem de outro plano e voce pode dar a esse outro mundo o nome que preferir. Ao ouvir Mozart o que escutamos é o mistério da abstração pura. Não há nela nada de útil e nenhuma narrativa escondida. Não há uma filosofia, uma proposta. É música. E ela fala de música. E o que nos toca é essa abstração, o poder que ela tem de nos levar ao mundo onde ela vive.
  Estamos perdendo esse dom. A música popular, que eu adoro, nos tornou ouvintes objetivos e realistas. Ouvimos e queremos encontrar uma história, o porque daqueles sons. Ansiamos pelos momentos sublimes, pelo refrão, pela mensagem. Não saímos do reino do romance, do livro, do personagem que nos conta alguma coisa. A música não é assim. Ela não tem o personagem. E nem uma história a contar. Ela é feita de momentos soltos que se harmonizam. E tem um tempo que ela mesma cria, o tempo de sua própria existência. Ao adentrarmos a Júpiter estamos entre notas, harmonias, cadências e acordes. E eles nada dizem, não são visíveis. São música.
  Precisamos, eu preciso, reaprender a escutar a música. Dar tempo à música. Dar espaço interno à Mozart. Abstrair.

A MORTE DO GOURMET - MURIEL BARBERY...UM LIVRO LINDO.

   O que nos agrada em um livro? Originalidade, arte em escrever bem, informações, verdades, fantasias, símbolos, impacto...Um livro pode ter tudo isso e ser chato. Ou muito ruim. Um livro pode não ser nada original, nada informativo, e mesmo assim ser brilhante.
  Gosto de dizer, para livros e para filmes, para música e para a arquitetura, que eles são bons por serem bonitos. Eis um comentário nada cool, bem fora de moda. Dizer que um filme é bonito é visto hoje como dizer que ele NÃO é relevante. A beleza pura se tornou algo como um espírito ou a honra: um valor arcaico.
  Mas, que coisa né, continuamos a nos guiar por ela. A força da beleza independe de moda ou de nossa opinião formal. No âmago das nossas opiniões é por ela que nos guiamos. Voce pode não ligar para a feiúra do Minhocão e falar que sua região é "vitalizadora" ou "instigante", mas no quarto voce prega um poster de Van Gogh e um pano da India. A beleza brota nas fendas de suas frases "ferinas".
  Este livro é lindo. E isso é tudo. Me deu o prazer que só a beleza dá. O prazer calmo e insaciável, um prazer de gozo que não se aquieta mas que ao mesmo tempo acalma. A beleza é o certo, o fim, não o meio. O alvo da arte não é a verdade. É o repouso. A conclusão. É o fim. E esse fim pode ser mais um começo.
  Um crítico de gastronomia morre. E no quarto, em sua agonia, ele tenta achar sentido em sua vida. Para isso, recorda seus grandes momentos diante de um prato ou de um copo. Ao mesmo tempo, o livro dá voz às pessoas que o conheceram. E cada uma o vê de um modo.
  Muriel escreve à francesa. Com requinte e amor à lingua. Sua prosa tem suco. Gosto de falar mal dos escritores franceses, mas a prosa da França é como seu cinema: quando acerta é divina. Pena que erre tanto. Erre tanto por vaidade. Por excesso de amor à sua habilidade.
  Amei este livro. Muriel é uma boa autora. Dá vontade de reler.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Leonard Cohen se despede de Marianne ihlen



leia e escreva já!

Leonard Cohen in his Hydra's house (1988).



leia e escreva já!

LUZ ANTIGA - JOHN BANVILLE

   Um velho ator de teatro recorda um caso tórrido que viveu aos 15 anos com a mãe de seu melhor amigo. Ao mesmo tempo ele começa a rodar um filme com uma estrela internacional. E vive o luto por uma filha morta a dez anos atrás. De todas essas correntes narrativas, a que mais tem espaço é a do caso sexual aos 15 anos. E devo dizer que esse é infelizmente o mais chato dos casos. O problema é simples: não há nada de muito interessante nesse caso. Ele é um suburbano hiper excitado e ela é uma dona de casa de 35 anos bem comum. O comum, o banal pode ter encanto e genialidade, se for exposto por ângulo inusitado, mas esse não é o caso. Este livro, escrito em 2012, é o livro mais fraco de Banville, um autor dos melhores em vida.
  O subtexto é o tempo. O modo como nossa memória edita e embaralha as recordações. Confundimos lugares, datas, e mais grave, erramos os participantes de cada momento vivido. O narrador-ator tem surpresas desagradáveis. As coisa foram mais simples do que sua mente romântica quis crer.
  O final do livro, as últimas 15 páginas, são muito tocantes. Mas as outras 300 são difíceis de percorrer. Não por serem exóticas, confusas ou impenetráveis, elas são apenas chatas, terrivelmente chatas. Tão chatas como seria esse ator sessentão se vivo ele fosse.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

HAMLET, FREUD E COUTINHO.

   Vivemos num tempo sem tragédias. Temos dramas, temos azar, frustrações, mas não tragédias. Para a tragédia existir é preciso que existam deuses. É necessário o diálogo com algo de superior a voce mesmo, alguma coisa que lhe submeta. Se acima de nós existe apenas o vazio, não há tragédia, há apenas a solidão e o drama individual. Porque o trágico é uma dor que atinge todos nós. Na particularidade da tragédia individual reside a dor de todos. O drama é um drama. A tragédia é um símbolo universal. Dor comum. Comunitária.
  Um escritor da Folha diz que Freud errou porque não há nenhuma narrativa na vida humana. Que ele ( Coutinho ), teve 4 psicanalistas, e com cada um deles a narrativa foi diferente. A vida é um acidente, a narrativa é uma ficção, sempre.
  Coutinho acerta o alvo mas erra o caminho. Freud errou porque confundiu seu particular com o geral. Deu a sua vida a generalidade da verdade. Sua terapia é conversa entre amigos, apenas isso. Substituiu o pastor por um doutor. Igreja para ateus. Mas a narrativa existe, caro Coutinho. Várias narrativas e todas são válidas. Essa confusão não significa que elas sejam falsas. Elas são confusas, apenas. O próprio ato de existir sem narrativa já é um tipo de narrativa.
  Andei revendo o Hamlet de Olivier. Uma narrativa, a de Hamlet, que não é a única possível. Um modo de agir, o de Hamlet, que é apenas um entre vários possíveis. Hamlet é uma virtualidade. E Olivier escolheu o viés freudiano, viés que era moda em 1948. Um caso edipiano. Assim, toda a grandiosidade cosmológica da peça é reduzida a fricotes familiares. O filme é bom porque a fotografia, os sets e a música são sublimes. Mas Olivier errou. Seu Hamlet é um drama e nunca uma tragédia.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

AUTOBIOGRAFIA: SEMPRE EM MOVIMENTO, OLIVER SACKS, UMA VIDA.

Oliver Sacks escreve bem, dá prazer ler este livro sobre sua vida. Nasce em Londres, estuda em Oxford, se apaixona por motos. Essa primeira parte é a melhor. Sacks se descobre gay e tem uma vida sexual travada. Corre de moto pela Inglaterra e vira praticante de levantamento de pesos. E cientista. Oliver Sacks escreve diários, montes de textos, e seus livros popularizam a neurologia. Acompanhamos sua trajetória com prazer, ele parece modesto e bem humorado. Nunca é engraçadinho, mas é leve. Se muda para a California e depois para NY. Seu tempo na costa oeste é vibrante. Praia. Ele faz parte em 1960 da turma de Venice Beach. Em NY se fecha mais. O livro descreve a vida em hospitais, as descobertas sobre o cérebro, o funcionamento de drogas e de terapias. Sacks prova de tudo, se vicia em anfetaminas, larga o vicio, larga as motos após acidente, larga os pesos após muita dor. Fica 35 anos sem fazer sexo. Conhece gênios: Crick, Gunn, Edelman. Ama música, poesia, viajar. E escreve. Vira best seller. Tem um irmão esquizo, pais médicos, irmãos médicos. É uma vida útil, plena, criativa, curiosa, jovial.
Adorei ler este bom livro.
Recomendo a todos.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

HEMINGUAY- NATALIE PORTMAN- PIERCE BROSNAN- GUARDIÕES DA GALÁXIA

   AMELIA de Mira Nair com Hilary Swank e Richard Gere.
Ela foi uma pioneira da aviação dos anos 20. E o filme é um lixo xaroposo dos anos 2000. Não tem aventura, não tem suspense. É apenas um bombom com música exagerada e cenas óbvias.
   ALÉM DA ILUSÃO de Zlotowski com Natalie Portman, Emmanuel Salinger e Lily-Rose Depp.
Miss Portman é sempre um mal sinal. Ela faz uma quantidade absurda de filmes pretensiosos, bregas, infantis. Ela é irmã de uma vidente e faz shows na França da segunda guerra. O filme tenta falar de judaísmo, cinema e "o obscuro". Fala apenas de perda de tempo, ver esta coisa é perder tempo.
   GUARDIÕES DA GALÁXIA VOLUME 2 de James Gunn com Chris Pratt e Zoe Saldana.
Não é tão delicioso como o volume 1. Mas é ainda uma diversão que entrega aquilo que promete. O segredo são seus personagens, criações inspiradas. Cinema teen, cinema pop, cinema pipoca, quando bem feito não tem pra ninguém.
   UM LUGAR QUALQUER de Sofia Coppola com Stephen Dorff e Elle Fanning.
Uma Ferrari roda em círculos e voce fica de saco cheio de ver isso. Essa é a primeira cena do filme. É um filme sobre a rotina de um ator. E essa rotina não tem alma. Sua vida é uma espera vazia por alguma coisa que nunca vai ocorrer. O filme tem a cena de sexo menos erótica da história. Sofia, uma pessoa fascinada pelo vazio e pela inocência, consegue mostrar que todo aquele sexo, toda aquela vaidade, é profundamente infantil.
   UMA LONGA QUEDA de Pascal Chaumeil com Pierce Brosnan, Toni Collette, Imogen Potts e Aaron Paul.
Em Londres 4 pessoas se encontram acidentalmente no alto de um prédio. Todas as 4 pensam em pular de lá. Sim, é uma comédia amarga sobre o suicídio. E não é ruim. Imogen Potts é a mais interessante nova atriz da Inglaterra e Brosnan esbanja seu charme costumeiro. A gente gosta de ver esses atores em cena.
   UM HOMEM DE FAMÍLIA de Mark Willians com Gerard Butler, Gretchen Moll e Alison Brie.
Butler é um executivo hiper competitivo. Sua vida muda quando seu filho fica doente. Pois é...mais um filme pra chorar. Butler tá ficando feio. A idade está destruindo seu rosto. O filme é esquecível...tanto que já o esqueci.
   A ILHA DO ADEUS de Franklyn J. Schaffner com George C. Scott e Claire Bloom.
Baseado no último livro de Heminguay, é um filme que fala sobre a perda e sobre a maturidade. Bonito, com bela trilha sonora, sabe lidar com o vazio que há no livro. Revejo-o pela quarta vez e ele ainda me agrada.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

A ALMA DO MUNDO- ROGER SCRUTON. MÚSICA, PRÉDIOS E ROSTOS.

   Roger Scruton se tornou o autor que mais leio. Fácil entender porque. Seu pensamento coincide muito com o meu e então posso dizer que sou um "scrutoniano". Chesterton tem um lado de frequentador de igreja que não bate com minha preguiça, mas Scruton alcança a fé sem negar a ciência. Ele faz perguntas, perguntas incômodas.
   De todos os livros dele que li, este é o menos acessível por ser o mais puramente filosófico. Ele fala de Kant, Hegel, Kierkegaard, Locke, e de Darwin, Freud, Marx, as vozes dominantes de hoje. Se voce conhece Scruton, sabe que ele aponta como "o mal do tempo atual", a morte da beleza, da fé e do humanismo. Para ele, tudo isso pode ser dito com uma palavra, a "morte de Deus". Entendido isso como o fim do sentimento de continuidade, de se viver e trabalhar para a eternidade, o senso de se fazer parte de um passado vivo no presente e carregado ao futuro.
  Dentre os vários assuntos Scruton fala de música, um de seus mais caros temas. Ele diferencia ouvir de escutar. Hoje se escuta música, mas pouco se ouve. Ouvir pressupõe tempo, silêncio, atenção e lugar apropriado. Com a vulgarização do escutar se perde a chance de encarar a música como uma experiência de crescimento, de refinamento dos sentidos e de beleza. E nesse texto interessantíssimo, Scruton levanta a questão de que a música é uma coisa inexplicável. Encadeamento de sons que dizem muito sem falar nada, que mostram um mundo sem ser visível, que nascem do nada, que não têm matéria, que não se pode explicar. Voce pode analisar e saber tudo sobre tom, timbre, notas, mas mesmo assim não sabe porque esses sons conseguem falar, mostrar, levar e embelezar. São harmonias, crescendos, combinações que revelam porquês jamais explicados.
  Daí Scruton vai ao mistério do rosto e ao maior dos mistérios, a empatia. O olhar olho no olho que mostra a alma. Nossa procura por algo de escondido no olho do nosso amor. Pornografia é a destruição do rosto, a transformação de sexo em pernas e bundas. O amor e o erotismo são faces, rostos, olhares. O rosto que fala sem falar, eis a revelação da alma. Olhamos o rosto de uma pessoa e não vemos olhos e nariz, boca e orelhas, vemos um sujeito que ansia por ser revelado.
  E daí vem a arquitetura e de forma esperta Scruton revela que a boa arquitetura tem rosto e a má tem objetos. Boas construções são como rostos, têm vida, são únicas, revelam o que se esconde por trás. Más construções nada revelam. São corpos sem rostos. Não falam, não mostram e nada comunicam. São mortas, frias, indiferentes.
  Fiz um resumo apenas, o livro é vasto, grande, colossal. É preciso o ler.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

SUICÍDIO E ALMA - JAMES HILLMAN

   Na verdade é um livro indicado para terapeutas. Ele ensina um modo de lidar com pacientes suicidas. E fala, de uma forma interessante, corajosa, do que é esse ato.
   Hillman morreu em 2011 e foi um dos mais lidos junguianos dos anos 60-90. Neste texto ele defende a não-especialização dos psicólogos e, mais ainda, faz uma defesa apaixonada do direito à morte.
  Construímos nossa morte dia a dia. Nossa alma, parte mais importante de nós mesmos, luta por evoluir, crescer, desabrochar. Mas, na vida, só nasce aquilo que se desfaz, aquilo que morre. Para uma nova fase aparecer, para a vida se renovar, é necessário se deixar morrer. O suicida é aquele que não soube simbolizar a morte, que não entendeu a morte e que escapou do desespero. Não existe mudança sem dor, não há morte sem desespero, não se encontra nada sem que se perca tudo. É um fato radical, não existe acordo: crescemos criando mortes. A morte da infância, do amor, dos pais, do passado, das esperanças, das certezas, da fé. E renascemos somente após morrer. O suicida se poupa disso tudo. Ele mata seu corpo por não suportar a morte da alma. Ele não é o grande desesperado. Ele morre antes do grande desespero.
  Nosso mundo, científico, ama a vida. E considera que vida boa é vida longa. Prolonga-se a vida, mesmo que mal vivida. Mais que isso, poupa-se a pessoa de toda morte. Vida sem morte, sem símbolo, sem luto.
  A forma como Hillman explica a influência, nefasta, da medicina sobre a terapia de alma é instigante e esperta. Médicos lidam com sintomas e curam sintomas. Psicólogos têm a ilusão de poder curar sintomas. Se esquecem que o sintoma é a pessoa. Médicos dão diagnósticos e aliviam a dor. Psicólogos querem aliviar e diagnosticar. Diagnóstico em psicoterapia é uma piada. Cada ser é sua dor, cada ser é uma alma única. Pior de tudo, o médico deseja que o doente volte a ser o que ele era antes da doença. Um paciente em terapia não pode voltar a ser o que foi um dia. Isso seria negar sua evolução rumo à individuação. Na fantasia de ser um "médico", psicanalistas vendem a ideia de que uma pessoa é uma origem eterna, um ser criado na infância, e que todo mal vem de lá. Como patologistas, querem crer que uma pessoa pode ser reduzida a pedaços mínimos, partículas mais simples, átomos comuns. Não. O paciente é uma vida que se faz aqui e agora e não no passado. Sua dor é agora, seu sofrimento é agora, seu desespero é uma presente que não passa. Não existe volta "ao início".
  O suicida é o individualismo levado ao extremo, e por isso é tão mal visto pela sociedade. Ele morre quando e onde escolhe, é responsável por seu ato, por seu fim. E para ele esse fim é o fim da morte. A alma, ansiosa por nova vida, leva a destruição do antigo ao seu extremo. Perde o símbolo, torna tudo óbvio, sólido, imediato. Mata o corpo.
  Um terapeuta não tem como impedir um suicida. Mas pode e deve participar de seu ato. Ouvir e lhe abrir caminho para o desespero. A única chance é essa, facilitar o diálogo entre alma e consciente. Respeitando sempre a morte do ser. A sua morte.
  Eu já morri mais de quatro vezes. A última foi em 2010. Todas foram marcadas por desespero, vazio, falta de vontade, medo, sensação de prisão, desperdício. Todas terminaram em renascimento, um novo modo de sentir, de querer, de ver a vida, de aceitar as pessoas. Não há uma receita para renascer. Pois não há uma receita para morrer. O suicídio vem quando a pessoa, mais que viver, perde o dom de morrer. Ela não consegue mais morrer, não consegue sentir a agonia, o desespero, a desesperança. Ela seca dentro de seu corpo e a alma, essa nossa parte que nunca morre e desconhece o tempo, que vive em transformação, reclama a morte, seu direito a mudança radical, ao crescimento. O corpo se rompe. Morre. A alma vence. Sempre vence.
  Para Hillman toda morte é um suicídio. Construímos nossa morte ao comprar um carro, uma moto, ao tomar uma droga, ao começar uma viagem, ao tomar sol. Ao nos apaixonar.
 

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

NO AEROPORTO

   Amamos aquilo que tememos...é um chavão e às vezes é uma verdade ( só às vezes ). Tenho receio de pegar estrada, mas quando estou nela fico doido de alegria. Estou numa agora, perdido de novo, tentando chegar no aeroporto, que fica fora da cidade. Passam campos limpos e sem fim, bichos em currais, algumas ruínas, pontes e riachos. O carro vai a 150 km por hora e eu me deixo ir com a paisagem. Nossa alma precisa de espaço.
  No aeroporto há uma alegria ansiosa. Sinto a energia do lugar assim como senti os eflúvios virulentos do IML. As pessoas aqui estão vivas, em movimento, e me dá uma vontade imensa de embarcar. Mas não para Paris ou Londres. Sinto vontade de ir ao Tahiti. De ir à Bali. Ao Congo. Lugares que podem fazer diferença em sua vida. Lugares de viajantes.
  Esperamos minha mãe que volta de Portugal. Ela acabou de perder seu filho, meu único irmão. Ele se foi porque sua alma, presa a um corpo doente, precisava voar. Ele quebrou a casca e saiu pelo ar afora. Livre afinal.
  Pessoas esperam com a gente. Uma muçulmana tem um cartaz onde se lê: I Love You Kamal. Ela usa um véu amarelo. Há outro cartaz onde se pode ler: Welcome Pravid! Um menino indiano que vem morar um tempo no Brasil. Chega um monte de gente vinda da Irlanda via Ethiópia. Uma mistura de caras com prancha de surf e negros cor de petróleo. E lindas meninas. Um grupo de hare krishnas cantam com tambores e sinos. Esperam mais um indiano.
  Minha mãe pegou o avião sozinha. Ela é forte. No voo uma menina de olhos e rosto lindos como um sonho, sentou-se ao lado dela. E veio a amparando por todo o caminho. Ela é brasileira e namora um luso. Vai lá duas vezes por ano. Ficam juntos 3 meses, e 9 separados. Minha mãe fala de seu luto. E a menina a consola, ajuda, segura sua mão.
  É noite e voltamos pelas estradas escuras. Meus primos e ela conversam. Eu sei que vamos todos sobreviver. Eu sei que a dor nunca será esquecida. Ela vai repercutir lembrando o valor da vida e da morte.
  Luzes ao longe em janelas espaçadas. A vida nasce todo minuto. Porque a gente morre a toda hora.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

The Band, Up On Cripple Creek



leia e escreva já!

RICHARD FRANCIS BURTON - EDWARD RICE. A MELHOR BIOGRAFIA QUE LI NA MINHA VIDA ATÉ AGORA.

A JORNADA DE TODOS SE DIRIGE A SUA PERFEIÇÃO....Mantiq Ut Tayr.
  No último capítulo da vida de Burton, ele, doente, deprimido, traduz As Mil e Uma Noites. E escreve 500 páginas de notas sobre a obra. Segundo Burton, a vida é uma jornada, uma PEREGRINAÇÃO. Daí o fato de que todas as obras literárias que valem a pena, são viagens, são trajetos, são peregrinações. ( mesmo que interiores ).
  Mais que islâmico, Burton foi um seguidor do sufismo, o mais sutil dos ramos do islã. Não há como saber se Burton realmente acreditava em Allah, ou se ele apenas era um curioso. Mas, e isso é certo e verdadeiro, ele seguia a Tariq, o acobertamento da fé, o disfarce, o não revelar aquilo que se sabe de mais íntimo. No centro da fé islâmica mora o segredo. Não se deve dizer o que se sabe, o que se é e o que se deseja. Burton seguiu isso. Mais, viveu isso.
 O Nós e o Tú são um só. Assim se começa a explicação de todo segredo. Por detrás de todo ego há um Nós. E voce, o Tú, é Nós. O eu é a ilusão. Morremos quando morre o eu. Vivemos quando sabemos o Nós. Burton chegou até aí. Havia muito mais.
  O pai de Richard Francis Burton viajava. Inglês, era um irrequieto. Roma foi onde mais ficaram. Lá, o jovem Burton conheceu o calor, a sujeira, a balbúrdia, a vida solta e vadia. Se misturava na rua. Depois veio Oxford, Cambridge, mundo que o matava de tédio. Ele jamais amou a Inglaterra. Seu mundo era quente.
  Virou militar e diplomata. India. Sexo, muitas mulheres, caçadas, e o hinduísmo. O interesse de Burton pela religião era o do viajante. Ele ansiava por saber, por encontrar, por entender. Se transformava. Fisicamente ele se tornou cada local onde viveu. Virou hindu na India. Cigano entre ciganos. Depois Egito. Afeganistão. Muçulmano.
 Seu respeito permaneceu islâmico. Sua família era católica. Peregrinou à Meca, e nessa jornada ele poderia ter morrido. Era heresia um branco ir à Meca. Mas ele não era mais branco. Era um negro para os ingleses. Um renegado. Um maluco. Foi a Medina. Damasco. Amava as mulheres do oriente. Mulheres que amavam o sexo, que faziam sexo, que tinham prazer. Burton traduziu e levou o Kama Sutra ao ocidente. Escrevia 11 livros ao mesmo tempo. Lançou mais de 80 em vida. Um deles sobre seu grande ídolo: Luis Vaz de Camões. Burton achava que Camões era seu eu anterior. Se via nele. Traduziu o poeta luso para o inglês.
  Burton falia sempre. E viajava sem parar. Goa. Brasil. Paraguai. Argentina. Perú. Percorreu o Pantanal de cavalo. Navegou pelo rio São Francisco. Procurou ouro em Minas Gerais. Morou em SP e em Santos. Odiou o clima. Fez amizade com Pedro II.
  África. Andou selvas a pé. Aprendeu mais línguas nativas. ( Sabia mais de 70 línguas. Do persa ao tupi ). Conheceu florestas onde brancos nunca haviam pisado. Febre, feridas, bichos, infecções, uma lança que perfurou sua face de lado a lado. E ele continuava. A pé. Meses, meses e anos. Era 1870, o auge do mito do viajante inglês, do descobridor de lugares isolados, do civilizador de negros, do caçador branco, do pesquisador afiado. Muitos morreram em florestas, geleiras, desertos. Burton sobreviveu e sempre voltou.
  Amou o deserto. Deus vive no deserto. No silêncio. No nada. Nas estrelas do deserto. No frio da noite e o calor do dia. No limite da vida. Entre os beduínos que ele amava. Sempre em marcha. Sempre sem casa. Porque a casa era tudo. Todo lugar.
  Casou e não teve filho. A esposa era um romântica católica. Ela queimou documentos secretos dele. Sim, pois Burton era um agente do governo inglês. Um James Bond real. Abria caminho para o imperialismo. Mas disso quase nada se sabe. Ela queimou tudo. O que a rainha não esperava era que o James Bond se tornasse um negro, um nativo, um árabe.
  Burton dizia que só o islã salvava India e África da sujeira, da imundície, da crueldade completa e total. Havia limpeza, clareza e ética no islã. Todo um modo de ser que civilizava. E ele advertia que a Europa pouco tentava entender isso. A beleza do islamismo.
  Ele morreu feito sir. E famoso. Um dos símbolos do Império. Mas isso só veio no fim da vida. Porque na maior parte do tempo ele era o esquisito, o pornógrafo, o imoral, o negro, o escândalo. Foi traído, foi enganado, foi roubado. Seguiu sua jornada.
  Estava escrito. Tinha de ser assim. E assim foi.
  Nunca li melhor biografia.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

IRMÃO

   Nós rodamos pela estrada e nos perdemos. Isso foi ontem, após o enterro. Caímos no rodoanel e entramos na Imigrantes. O tempo cor de chumbo e a conversa dentro do carro que nunca cessa. Porque temos de falar. Temos de falar muito. Palavras não expressam a verdade, mas o ato da fala, a força que nos faz emitir sons, esse ato diz muito. Verbo, sujeito e conjunção nada significam, mas soltar um som, um uivo, um blá blá blá, uma canção sublime, isso tem significado. A gente sabe.
   Cruzamos imensidões de água. Espelho cinzento, frio, retrato. Cada segundo gasto olhando a água era um prazer melancólico para mim. A natureza entende a morte e o que há de natureza em nós a aceita. A ajuda vem. Ela vem. Ela vem.
   Tomamos café numa padaria. Quando o liquido quente cai no meu estômago eu sinto que tudo está como precisa estar. Há um encaixe. E o carro corre muito, corta caminhões agressivos, segue a BMW do meu primo, e uma BMW corre muito mais que um simples GM econômico. Mas o carrinho se esforça.
   Não. Meu irmão não foi um samurai. E nem um inventor maluco. Meu irmão foi um homem que amava sua esposa. E que vivia só para ela e ela só para ele. Nunca o vi mentir. Nunca o vi esquecer. E só o vi chorar uma vez. A doença, a doença que destrói aquilo que ela pensa proteger, destruiu a vontade de meu irmão. Ele sabia que estava em auto-rebelião. Suas forças de defesa se voltavam contra ele mesmo.
  Mas não mais falarei de doença. Ela morre com ele e eu vi o fundo da cova onde ele está. A vinte metros de meu pai. Entre grama, pássaros que voam, vento em árvores. Um banco verde de madeira. Espaço para abrir as asas.
  Meu irmão era bonito. Tão bonito que me dava inveja. Ciúmes. Chegou à vida chorando, um bebê que não dormia e não comia. E que pegou laringite e quase morreu. Depois se tornou o que tinha de ser, alegria do meu pai, suporte da minha mãe. Era o favorito do pai. Jamais brigaram e falavam a mesma língua. Se entendiam como amigos. Com minha mãe havia um atrito. Ele pensava ser eu dela o favorito. Não era. Eu apenas sabia mais como falar com ela. Ela o admirava e respeitava. Por mim ela tinha preocupação.
  Fomos amigos. Muito amigos. Futebol nas tardes de domingo, no Morumbi, quase virei torcedor do SP por ele. Jogar bola na chuva. Rir do Chacrinha, do Carnaval na TV, de videoclips ruins, de desenhos animados bobos. A gente gozava as coisas, inventava novas palavras, tinha códigos secretos, rimas, ataques de riso sem fim.
  Ele bebia néctar de flores. É verdade. E engolia bananas até vomitar. Eu falava muito. Ele agia. Eu tinha melancolia. Ele brincava sem parar. Eu tinha insônia. Ele roncava. Eu falava. Ele se movia. Corria. Pulava. E às vezes a gente brigava...
  Agora é ir em frente. Pedir ajuda à meu pai, à ele, à meus deuses. Agora é abrir as asas. Voar, navegar, seguir pela água, pela Serra do Mar. Levar sua lembrança como uma das penas mais claras. Sua seriedade adulta que se desfazia em brincadeiras de bebê. Ele sabia amar. E por isso foi amado. ( Mas houve a doença... ).
  É cedo, muito cedo para não sofrer por ele.
  Ainda falo com ele dentro de mim.
  O BMW pega um desvio, e acena. Eu e minha prima seguimos rumo à casa. Minha mãe chega amanhã.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

ISLÃ

   Doze anos depois estou relendo a biografia que Edward Rice escreveu sobre o aventureiro inglês Richard Francis Burton. Aventureiro é modo de dizer, pois Burton foi soldado, filósofo, escritor, descobridor e o primeiro ocidental a se tornar mestre do sufismo, corrente mais sofisticada e sutil do islã. Mas não vou falar do maravilhoso livro agora ( é a mais fascinante biografia que li e deveria ser obrigatória em dias como os de hoje ). Vou falar do islã.
   Uma das coisas mais legais deste volume é que ele fala do islamismo antes do 11 de setembro. Rice o escreveu nos anos 80. E Burton esteve na India, no Egito, na Somália, em Meca por anos e anos. Ele viu os mestres, ele fez os sacrifícios, ele viveu com mulheres de lá. Ele se tornou um deles. Por curiosidade e por fé. Era um europeu gnóstico. Entrou de cabeça na cabala e depois na religião de Maomé.
  Burton criticava o hinduísmo. O cristianismo. Mas nunca o islã. E um dos preceitos do sufismo é calar sobre sua fé. Não se mostrar diante dos infiéis. Ser invisível.
  O cristianismo, segundo Burton, errou muito em seus primeiros séculos. Errou por não insistir na reza diária como caminho para a concentração e a iluminação. Errou por não observar os horários do dia como momentos sagrados. Errou por não seguir uma receita de alimentos impuros. Errou por divulgar a dúvida e não a absoluta certeza. E exatamente em sua primeira grande crise, o século VI, surge o islã. Maomé traz de volta tudo aquilo que o cristianismo perdera.
  Para o seguidor do islã, a vida não tem questões a serem respondidas. Não há dúvidas. Vivemos num vale de lágrimas. Mas esta vida significa apenas um ponto, uma pulga, em vista da imensidão da eternidade. Estamos aqui para orar à Deus e para amar à Deus. Não para O questionar. Jamais. Todas a respostas estão no Corão. E só nele. Devemos ser limpos. E seguir os preceitos.
  Claro que existem as correntes que se detestam e se negam. Burton conheceu todas elas. E Rice as explica. É um intrincamento de caminhos sutis ou não. Mas o islã tem algo que o cristianismo tenta esconder : proibições. O cristianismo, sempre politico, fez concessões para poder crescer. O islã cresce por apresentar um mundo que não muda nunca. Ele é o que é e nunca mudará. Nega o tempo. Tempo que o cristianismo ama e venera.
  Neste momento de preconceitos de ambos os lados, ler este livro é acima de tudo um ato de paz.