segunda-feira, 21 de maio de 2018

CONTRA UM MUNDO MELHOR - LUIZ FELIPE PONDÉ

     Pondé é um cara de grande importância pra mim. Lendo seus escritos na Folha, lembrei, com alegria, dos textos de Paulo Francis. Não que eles se pareçam, mas Pondé compartilha com Francis o desejo de remar contra o esperado, o comum, o bem aceito. Ele consegue isso dizendo apenas aquilo que muitos pensam mas evitam dizer. Vivemos o tempo da hipocrisia, fingimos não ter preconceitos, não ter impulsos violentos, fingimos uma civilidade que na verdade não é civilizada, é apenas covardia. O espírito da manada voltou em forma de ovelha. Ovelha do bem, multicolorida.
    Ele cunhou um dos termos que mais gosto: o inteligentinho. Nada define melhor o povo que serve água aromatizada, ceviche e fala sobre ecologia light que a palavra inteligentinho. O inteligente mirim recicla lixo, não fuma e só usa drogas naturais. Ele é um carinha que respeita as mulheres, deixa os filhos livres para experimentar tudo ( desde que seja do bem ), e tem um vira lata salvo do abrigo. Há um texto neste livro, hilário, que descreve esses seres iluminados.
   O livro, curto, é composto por alguns textos. Pondé reafirma sua posição como trágico. Ser trágico é ser o anti-inteligentinho: saber que não temos poder nenhum sobre o destino e sobre nossa vida. Inclusive e principalmente sobre nosso corpo. Os gregos sabiam que éramos joguetes nas mãos dos deuses. Deuses que eram como reis temperamentais. Mudavam de humor e com isso nos castigavam ou protegiam. Nada na vida grega escapa ao humor imprevisível desse destino. Nossa vida é apenas um barco perdido num mar feito de acaso.
   Gosto desses textos, mas Pondé me conquista nos dois últimos: aquele que fala de Jó e da Biblia Hebraica. Fico espantado no modo como Pondé descobre a validade do pensamento judaico. A imagem do vazio, do deserto, do grão de areia, do nada...Somos um grão de areia no Sinai. Deus, um vazio, um nada, nos concede a graça, mas apenas quando conseguimos nos aproximar desse vazio. A solidão necessária à essa graça. Me surpreendo ao notar que essa aproximação de Pondé, essa quase aceitação da fé, se constrói do mesmo modo e pelos caminhos que a minha: o niilismo, a negação do sentido, a descoberta da beleza, o vazio cheio de nada, a graça. E o silenciar.
   Pondé diz escrever cada vez menos. Isso se deve à desconfiança em relação às palavras. Mas também à inutilidade de fazer. À preguiça que advém do nada. E, adendo meu, ao horror ao excesso de "coisas", sintoma do mundo moderno, mundo lotado de objetos, palavras e acontecimentos fúteis.
   Leia Pondé. Este é um bom começo. ( No texto acima cito alguns pontos do livrinho ).

sexta-feira, 18 de maio de 2018

TOMMY - THE WHO. EM PROCURA DE UM SENTIDO.

   O que mais nos surpreende ao ouvir o disco, duplo, de 1969, é sua mansidão. Ele é quase todo acústico, e tem uma suavidade de timbres que amortece a raiva da banda. Kit Lambert, o produtor, mixou a bateria lá no fundo, o que é um alívio para a harmonia musical, e coloca como guia o som do violão de Pete Townshend. Violão que é muito rítmico e ao mesmo tempo orquestral. O inglês genial faz a simplicidade ter ares de sinfonia.
  Tommy é um garoto que fica autista por ver o que não devia: o crime. É salvo ao quebrar o espelho e ver a verdade. Essa a história, religiosa, quase banal, mas que em 69 é um alívio. No tempo em que tudo era "revolução e loucura", o Who continua em sua busca por sentido e não por ação. Na verdade as 3 bandas mais interessantes da época, Stones, Kinks e Who, não se deixaram levar pela sanha hippie. Os Stones continuaram sexuais e individualistas, os Kinks com saudade de casa e flertando com o dandismo e o Who perseguindo a sua alma própria. Tommy é isso tudo.
   Nunca é simples ouvir esta banda. Eles exigem atenção. E esta "ópera pop" mais que tudo o que eles fizeram, tem de ser escutada em silêncio e em suspensão. Alguns momentos são sublimes em sua beleza franciscana, há dois tropeços, mas no geral é um disco admirável. Pete está no auge de sua inspiração.
  Falando do som: poucos discos têm uma sonoridade tão cristalina. Os couros da bateria de Moon parecem de veludo. Suas baquetas batem em bolhas de ar envoltas em veludo. O disco tem ecos discretos, ruídos quase imperceptíveis e harmonias vocais que conduzem ao estranhamento. Tudo isso com a dinâmica nuclear do dedilhado de Townshend. Tudo parece feito de ar. Há um vazio, um vácuo nas músicas; e essa é sua mensagem espiritual.
  Tommy, feito na era dos solos de meia hora e do barulho como protesto, é um disco quase silencioso. E que fala tudo o que se podia dizer.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

O CORPO DA LIBERDADE - JORGE COLI

   A editora Cosac não existe mais, compro este volume em sebo, belo sebo rico. Coli, em linguagem limpa, fala de um período da arte que é pouco lembrado por aqueles que só pensam em renascença e impressionismo, o tempo do final do classicismo até Manet, este, o primeiro impressionista. Ingres, David e Delacroix são os mais citados. Mas o melhor texto, o livro é feito de textos separados, ensaios, é sobre Manet, Edouard Manet, este, claro, conhecido por todos. Aliás Manet é mais um que foge ao chavão de que todo gênio deve ser infeliz. Ele era um piadista feliz, simpático, sorridente, de palavras gentis.
  Jorge Coli tenta mostrar, num texto final, o nascimento do espírito modernista. Quase me convence. Não sei se ele está certo, mas é sedutor. Para ser moderno seria preciso ser livre, e para ser livre é preciso produzir algo de completamente inédito, mesmo que isso seja merda. A mídia dará destaque, o sucesso virá apenas para o transgressor, não para o talento. Hummm....talvez...não sei...eu perguntaria que tipo de sucesso seria esse.
  De qualquer modo, valeu!

domingo, 13 de maio de 2018

OS EMIGRANTES - WG SEBALD

   Sebald morreu em um acidente de carro. Em 2001. Estava no auge de sua carreira. Foi professor em Cambridge. Nasceu em 1943, na Alemanha. Difícil escrever sobre um livro tão melancólico e tão bonito. Vou recomeçar.
   Sebald escreve quatro relatos. Nesses quatro relatos, de quatro pessoas e quatro famílias que não se conhecem, surgem pistas: Em todas surge um caçador de borboletas. E nós sabemos que ele é Nabokov. Por que será que Sebald usa Nabokov?
   Errado eu ter começado assim este texto! Vai parecer que o livro é sobre o autor russo e não é! Longe disso! Ele só aparece um duas breves linhas, sem fala nem nada. Sebald e Nabokov nada têm em comum mas tudo rimam entre si. Ambos são exilados. Nabokov por imposição histórica, Sebald por não aceitar seu país. Ambos têm saudade.
  A Alemanha era uma nação de judeus. Isso ninguém tem coragem de lembrar. Os nomes judaicos estavam por toda parte: Mannemann, Lubock, Goldstein, Heine...Os nazistas destruíram esse passado e assim mataram a alma alemã. Mas o livro não é sobre a guerra nem sobre os judeus. Mas no fundo, lá no fundo, é sim...
  O livro fala sobre o campo: a Suíça, as montanhas, a alegria de viver no silêncio, no alto, no espaço amplo. Fala sobre a história de Manchester, sobre a feiura, sobre a industrialização. Narra a decadência da Inglaterra.
  Será que voce nunca leu Sebald? Sua falha é imperdoável! Voce não sabe que seus livros são ficção biográfica. Ele enreda várias histórias com fatos históricos, enfeita as páginas com fotos pessoais e íntimas. Voce lê e não sabe o que é biografia e o que é ficção.
  Ler Sebald é tomar contato com o melhor tipo de romance possível após os anos 60. O romance que mistura fato e invenção, foto e texto, passado distante e presente vago. E Sebald escreve como música. O texto é sonata de piano. O texto é também uma imagem congelada: O momento em que voce abre os olhos. A primeira chuva e o primeiro inverno.
  Muitos escritores eu admiro, poucos eu gostaria de ter como amigo. Sebald é um deles.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

OS DRÁCULA DA HAMMER - ARTHUR PENN - WARREN BEATTY

   BOX DE FILMES DA HAMMER
Quem tem entre 40-60 anos sabe bem o que é a Hammer. Uma produtora média de filmes ingleses, liderada por Michael Carreras, que entre 1956-1980 produziu filmes de terror às toneladas. Na TV dos anos 70, principalmente na Tupi, eles passavam quase toda noite, sempre com cortes. Não gosto muito desses filmes, nunca gostei. Mesmo assim assisto este box com 9 filmes feitos entre 1958-1974. Percebo logo porque eles não me agradam: a fotografia. A Hammer fazia terror sem sombras, a luz muito forte, cores claras, tudo nítido demais. Sem clima portanto, o oposto do horror da Universal americana. Os diretores neste box são Terence Fisher, bom artesão, Peter Sasdy, completamente doido e Roy Ward Baker, um preguiçoso. Ah! Tem ainda o péssimo Alan Gibson. Christopher Lee é o vampiro em quase todos eles, e sua atuação física é tão correta que Dracula passou a ter, em nossa imaginação, a cara de Lee. Peter Cushing, um grande ator, é Van Helsing em 4 filmes. Essa a dupla clássica. Dracula no Mundo da Minissaia é o mais interessante, não o melhor. Vemos aí a Londres de 1972, o satanismo dos jovens de então, e as bobeiras da moda "rebelde" da época. O filme é doentio. Críticos respeitam muito os filmes feitos por Fisher, que são os mais antigos. Os roteiros são bons, mas usam a droga de luz forte. Não espere medo. Nem clima. Muito menos erotismo.
  MICKEY ONE de Arthur Penn com Warren Beatty.
Feito em 1965, foi um fiasco na carreira de Warren e de Penn. Eles se recuperariam depois com Bonnie e Clyde. Vi este filme em 1978, na TV Cultura, na sessão da 10 da noite. Era muito legal essa sessão! O filme passava nas noites de segunda, quarta e quinta, e na sexta, quatro críticos ficavam uma hora debatendo o filme, e depois ele passava mais uma vez. Eu amava essa mesa redonda! Tinha o Rubem Biáfora, Rubens Ewald Filho...e uns caras do JT que esqueci o nome...pena...O filme, num preto e branco fantástico, e edição de video-clip, conta a paranoia de Mickey, um stand up man que foge da máfia. Stan Getz toca na trilha e é um dos filmes mais jazz que assisti na vida. Tem jeito de filme francês, é datado, mas ainda é jovem. Gostei.
  ARLO'S RESTAURANT de Arthur Penn
Feito após Bonnie e Clyde, em 1969, este é o mais hippie dos filmes. Arlo é o filho de Woody Guthrie, o ídolo dos anos 40 de Bob Dylan. No filme, Arlo é ele mesmo. Visita o pai no hospital, vive amores livres e faz parte de uma comuna jovem. Tudo é muito estranho!!!! Eles são, vistos hoje, antigos como dinossauros, mas ao mesmo tempo uma quantidade imensa de teens de 2018 ainda os imita sem saber disso. Vemos roupas, modos de andar e de pensar que remetem imediatamente aos dias de hoje. Os hippies são crianças de 12 anos. Hoje, com falsidade e nostalgia, tentam resgatar esse momento. O filme foi um fiasco em seu tempo. Odiado. Visto agora parece um filme para crianças. Fofo.
 

terça-feira, 8 de maio de 2018

O FURGÃO - RODDY DOYLE. MAIS UM TIRO NO ALVO.

   Há a porra de um c  aralho de poesia de merda no uso de palavrões. Porque se poesia é atingir a expressão no alvo, porra, o palavrão atinge o cú do sentido.
   Este é o terceiro livro de Roddy Doyle que leio. E, se não é tão maravilhoso como Paddy Clarke Ha Ha Ha, é este um fodido de um livro do caralho sobre uma amizade entre homens. Se Roddy fosse um diretor de cinema, ele seria um Ken Loach de bom humor. Este livro virou filme em 1993. Stephen Frears, um Ken Loach com bom gosto, o dirigiu.
   Jimmy e Bimbo e Bertie são amigos. Têm 40 e tantos anos, um monte de filhos e estão desempregados. Espero que pelos nomes voce já saiba que estamos na Irlanda do Sul. Em 1989. Desempregados, vivem do seguro desemprego e passam o dia bebendo umas e jogando golfe. Bimbo compra um furgão velho e abre um carro que vende fritas e burgers. Só isso. Nada acontece mais, mas acontece tudo. Roddy constrói seu romance em diálogos, mais de 75% do livro são conversas. E ele consegue escrever com perfeição, e sem afetação, a linguagem das ruas da Irlanda. Piadas e palavrões, o bom humor do país mais feliz do mundo. ( As estatísticas dizem isso e não me pergunte como um país tão frio e tão pequeno pode ser tão alegre ). Mais o que tudo, Doyle faz um retrato quase comovente da amizade entre homens.
  Jimmy e Bimbo nunca falam de sentimentos, são pouco letrados, simples, mas sofrem e têm medo como qualquer bundão de merda. O afeto entre os dois é real, sólido, simples, instintivo. E nisso, assim como nas relações deles com esposas, filhos e vizinhos, o romance chega a ser sublime. Há dor, frustração e raiva neles. Mas a esperança e o amor nunca morrem.
  Os ingleses tentam desde sempre escrever assim. Como um irlandês fodido. Não conseguem. Lhes falta o lastro da miséria absoluta ( que mora nos genes irlandeses ) e a fé católica ( que é parte vital da paisagem da ilha ). Não que os ingleses sejam piores, eles apenas nunca convencem quando tentam ser "povão". Sempre há uma consciência "fora" do povo a observar tudo.
  Roddy Doyle é bom pra caralho. Tem cheiro de cerveja e cor de manhã com sol. E isso é uma puta coisa do caralho.
 

sábado, 5 de maio de 2018

ARETHA FRANKLYN SOUL 69

   Em 1969, no auge do movimento hippie, quando até o povo da soul music misturava sua música com som freak, Aretha, a maior cantora negra, mas não a de maior sucesso, essa era Diana Ross, lança Soul 69. E fazendo isso vai contra tudo o que se fazia no Pop de então.
   Acompanhada por músicos que tocavam com Miles Davis, e outros que tocaram com John Coltrane e Charles Mingus, ela canta aqui canções de jazz-blues, com big band e arranjos jazzísticos. Ela é produzida pelos cobras da gravadora Atlantic, a mesma de Ray Charles, a gravadora que criou a black music moderna: Tom Dowd, Jerry Wexler ( o boss ) e Arif Mardin. Vamos ouvir o disco então ( que vendeu bem, chegando ao segundo lugar em abril de 69 ):
   O som é redondo, viril, com destaque para a bateria, sempre em estilo jazz, Grady Tate, um cara que fez discos com Oscar Peterson, Mingus, Sonny Rollins. Pulsa, como pulsa o baixo de Ron Carter, ele mesmo, o homem de Miles. Os metais são ao estilo Sinatra, irrompem para dar mais gás, mais ritmo, mais fogo à coisa. E temos a voz de Aretha.
  Sim, ela é  a melhor cantora de soul da história, uma voz que estala nos ouvidos e bota fogo em tudo que canta. Respect é o Kilimanjaro do Pop feminino. Mas...a gente percebe que jazz...bom, jazz é outro mundo né meu nego...
  Ella Fitzgerald. Ouço o disco, que é excelente, e noto o quanto Ella é grande. E Sinatra também. O jazz revela cada canto do canto, até a respiração aparece, e Aretha não erra, mas também não chega lá. A dicção, o fôlego, ir lá do alto até lá embaixo, mudar de tom, voltar ao ritmo depois de improvisar, Aretha nem tenta nada disso e quando quase tenta perde a confiança. Sabiamente depois deste disco ela nunca mais tentou o jazz. Deixou a coisa para Ella, a cantora que em 50 anos jamais errou, em disco ou em palco.
  Mas este é um grande disco. Te dá um prazer do cacete. Tem bossa. Tem fogo e tem negritude. É fogo na jaca. Ouça. Voce vai amar. E se voce não gosta de jazz, vai gostar. E se voce gosta de jazz, vai amar.

terça-feira, 1 de maio de 2018

RITUAIS DE CEES NOOTEBOOM

   Acho que li uns 4 ou 5 livros desse autor holandês. Gostei de todos. Mas este, se eu o tivesse escrito teria vergonha. Este romance, lançado no meio dos anos 90, segue todos os chavões da literatura existencial, fria, "maldita", da época e das épocas passadas.
   O livro não descreve cenas, apenas estados de espírito, claro, e falas, falas que são lamentáveis, uma macarronada azeda que mistura existencialismo adolescente com niilismo banal, e, tudo isso, desaguando em uma "japonezice" jeca. Somos obrigados, obrigados?, a acompanhar a vida de um holandês rico que tem como único motivo de vida a caça às mulheres. As cenas de sexo são tristes e brochantes, os pensamentos do personagem óbvios. Tudo dentro daquele estilo "fim dos tempos"...argh
  Ele encontra dois solitários, um que nega todo sentido da vida, e um outro que é budista. Não, a coisa não melhora, temos mais do mesmo, uma chuva torrencial de chavões.
  Temo agora reler Cees Nooteboom. Será que ele sempre foi tão ruim e eu me enganei? Ou será que superei faz muito tempo esse mundinho de pessoas movidas a Sartre e whisquinho?

segunda-feira, 30 de abril de 2018

A TERRÍVEL INTIMIDADE DE MAXWELL SIM, UM LIVRO DELICIOSO DE JONATHAN COE.

   Adeus Maxwell Sim, sentirei muito sua falta. Este é daqueles livros que te fazem ter pena de terminar de ler. Estar em companhia de Sim é uma delícia. Apesar de ele ser um covarde. Um bobalhão. Uma besta.
  Escrito em 2010, ele acompanha dois meses na vida deste recém divorciado, pai de uma menina, filho de um pai distante e frio que mora na Austrália, de uma mãe morta na juventude. Ele viaja pela Inglaterra não por prazer, antes por desespero. Sua missão é vender escovas de dente ecológicas, mas nem isso ele conseguirá fazer. Sim, o livro é cômico, mas a comédia vem do desespero.
  Existem personagens que nos assombram por serem sobre humanos. Sem perder sua verdade, sua proximidade, eles nos mostram aquilo que poderíamos ser se fossemos maiores. Como Heathcliff ou Fausto. E existem aqueles que nos tocam por serem como nós. Personagens como O Coelho de Updike ou este Maxwell Sim. Ele é totalmente diferente de mim, mas é como eu. Ele odeia poesia, não gosta de falar, não ama bichos, pouco liga pra música, e é um chato cinzento. Mas mesmo assim, ele é como eu. E tenho certeza que é como você.
  Jonathan Coe escreve uma quase obra prima. E me recorda que a esquerda, ele é "de esquerda", nascido em 1961, foi um dia o partido daqueles que odiavam o progresso, a tecnologia, a mudança dos tempos. Nisso eles se pareciam muito comigo. Os métodos de ação e de pensamento é que eram diferentes dos que acredito. Não, não divago, este romance critica o facebook e as cidades feitas para o consumo. Ele abomina os apartamentos de 30 metros quadrados. Odeia o trabalho feito para gerar coisas virtuais e não a boa e velha "mercadoria". É um livro ácido de um autor ácido, mas à inglesa, ou seja, escrito com aparente modéstia, calma e humor. Voce precisa o ler!

TRAMA MACABRA um filme de Paul Thomas Anderson

   Uma vez, quando era criança, eu entrei na Maison de Dener Pamplona. Fui levado por uma prima mais velha que trabalhava para ele. A casa, toda branca, ficava na Paulista e hoje é um prédio banal, mais um. Recordo que minha mãe não comprava roupa, mandava fazer. A costureira tirava as medidas em casa, depois mandava a roupa quase pronta. Minha mãe a provava e eram feitos os ajustes finais. Era um tempo em que toda roupa tinha forro, se usava anágua, liga, e os paletós masculinos eram ajustados para o tamanho de braços e pescoços.
 Meu pai fazia a barba com navalha. Ele a afiava com calma e cuidado. A pele ficava lisa, e depois era aparado o bigode. Ele usava um bigode à William Powell. Camiseta para não sujar a camisa por dentro. Os cabelos eram escovados. Pessoas ricas não dirigiam um automóvel, para isso havia o chauffeur. Só os playboys malucos gostavam de dirigir. O imenso Landau era levado pelas ruas semi vazias. Descer a Rebouças era olhar uma fila de casas imensas com jardins bem cuidados. Da avenida Europa eu recordo das babás com os carrinhos de bebês, conversando calmamente com os guardas da rua.
 O início deste filme é um tipo de relembramento deste tempo. O último suspiro da calma e da beleza. A gente, nesses primeiros minutos, tem a esperança de ver um tipo de Michael Powell ou de Max Ophuls revisitado. Bem, a elegância dura todo o filme, mas o foco é outro. Logo notamos que o roteiro foca na relação entre arte e musa. O artista, ser que não pode e não deve viver no mundo real, é enredado pela musa, ser exigente que luta por tê-lo só para si. Nesse precário equilíbrio se cria a arte. A beleza, a mais dura das musas, tem um preço alto.
 O filme é chato. Digo que seu tema  se torna muito pouco atraente. Não posso dizer que é um filme ruim. Longe disso. Como dizer isso de um filme tão refinado e com uma trilha sonora tão bonita? Mas ele não emociona, não seduz e não nos toca. É frio. Seria melhor fosse gelado.
 ( Uma falha: a musa não é fascinante...ok, voce pode dizer um milhar de motivos obscuros para essa escolha, mas ela TINHA de ser fascinante...um esteta jamais se deixaria pegar por uma mulher tão comum ).
 

domingo, 29 de abril de 2018

JOHN WAYNE- KENNETH BRANAGH- HELEN MIRREN- RUSSELL CROWE

   CHISUM de Andrew V. McLaglen com John Wayne e Ben Johnson
Voce fica um tempo sem ver um filme de Wayne e se assusta quando revê sua presença. Ele surge com autoridade, força, carisma, com o tamanho de um gigante, o que ele é. John Wayne nunca foi um ator, como Gary Cooper ou James Stewart, ele foi um tipo de aparição, ícone, interpretando sem nenhum esforço, fazendo com que os heróis se adaptem a seu tamanho. Aqui o vemos, já em fim de carreira, num roteiro digno, interessante. Ele é o dono de vasto território no Novo Mexico, que se vê desafiado por um competidor desonesto. McLaglen nunca foi bom diretor, mas teve a sorte de ser filho de Victor McLaglen, e por isso, crescer no clã de John Ford. Dirigiu toneladas de filmes, e este talvez seja seu melhor. Tem ação, tem humor, tem drama. Atenção: seus primeiros minutos são fracos, mas ele cresce cada vez mais. Merle Haggard canta a música título.
  ADEUS, CHRISTOPHER ROBIN de Simon Curtis com Margot Robin e Domhall Gleeson.
A vida, muito triste, do criador do ursinho Puff. O filme, passado entre 1919-1945, mostra o autor como um neurótico de guerra, distante do filho, e o usando como modelo de Robin, o menino de 100 Acres, o mundo de Pooh e Tigrão. Não é um grande filme, mas tem algo de revelador aqui: o nascimento de um certo platonismo que rege nosso mundo. Veja e entenda o que digo. PS: os atores são um tipo de anti-John Wayne, uma presença nula.
  ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE de Kenneth Branagh com Penelope Cruz, Willem Dafoe, Michelle Pfeiffer, Johnny Depp, Judi Dench...
O que dizer de um filme em que o melhor desempenho é de Johnny Depp? Em 1974 Sidney Lumet fez um luxuoso filme sobre este mesmo livro de Agatha Christie. Tinha Sean Connery, Ingrid Bergman e até Lauren Bacall. Branagh, um pavão sempre, usa um bigode que destrói o filme. A gente fica olhando para seus dois quilos de pelos e se esquece do filme. O filme de 74 já era uma decepção, este é ainda pior. Não tem o menor traço de suspense, de mistério, de nada.
  A ODISSÉIA de Jerome Sálle
Este filme conseguiu um milagre!!!! Fazer da vida de Jacques Cousteau um tédio! Que mais posso dizer? Claro que a fotografia é linda, mas qual o filme que na era digital não tem boa fotografia?
  A LUTA PELA ESPERANÇA de Ron Howard com Russell Crowe e Renée Zellweger.
Acredite, houve um tempo em que Crowe era um ator. Este história interessante, sobre um boxeador que dá a volta por cima, tem tudo o que um filme precisa: drama, bons atores e cenas emocionantes. Claro que voce já viu tudo isso antes, mas so what? São duas horas de competência total.
 O COZINHEIRO, O LADRÃO, A MULHER E O AMANTE de Peter Greenway com Helen Mirren, Michael Gambom e Alan Howard.
É a última chance que dou a Greenway. Queridinho da crítica nos anos 80, hoje está merecidamente esquecido. Seu estilo é teatral, barroco, exagerado, cheio de sexo, nudez, raiva dos ricos, mensagens toscas, pretensão exagerada, breguice chique. Não vou falar da história boba desta coisa. Helen Mirren está desperdiçada.
  A MANSÃO MACABRA de Dan Curtis com Karen Black e Oliver Reed.
Uma família se hospeda numa mansão e a esposa começa a ficar doida. Funciona sim. O filme é sem sentido, tosco e previsível, mas a gente assiste, nem que seja para odiar Karen Black e xingar Oliver Reed por ser tão bundão.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

PARAMOUNT, JOHN DOUGLAS EAMES

   Tem uma série de livros ingleses, enormes, de luxo, que contam a história dos grandes estúdios de Hollywood. Li os da Columbia, Universal e agora encontrei o da Paramount. Das grandes, fica faltando a MGM, a Warner e a Fox. Ah! Tem a RKO e a United Artists, que eram médias. Hoje a produção é pulverizada e as maiores seriam a Marvel e a Disney, mas tudo é feito por seis ou sete empresas juntas, e dessas, a maioria nem é de filmes, é apenas uma associação de acionistas. A Weinstein foi a última a pensar só em cinema.
  Cada empresa, nos golden years, tinha sua cara, voce sabia que um filme era MGM só de olhar cinco minutos de ação. A Warner era dos policiais escuros, da violência e dos dramas sórdidos. A Fox fazia filmes hiper coloridos, fantasiosos, alegres. A MGM era glamorosa, grande, bem careta, chique. A Columbia era tosca, feia de se olhar, mas rica em roteiros. A Universal era a dos filmes de horror, das aventuras no espaço. E a Paramount, a produtora das estrelas mais sexy, dos filmes mais "adultos". Cada uma tinha sua estrela da casa: Warner tinha Bogart e Bette Davis; a MGM Clark Gable e Garbo; a FOX tinha Tyrone Power e Jennifer Jones; a Columbia James Stewart e Frank Capra; a Universal era a casa do Dracula e do Frankenstein e a Paramount tinha Marlene Dietrich e Gary Cooper.
  O livro mostra, um por um, e com fotos, todas as produções da empresa. Desde Cecil B. de Mille em 1919 até Eddie Murphy nos anos 80. Chegaram a fazer 40 filmes por ano nos anos 30, até os 14 de 1985. É uma bela viagem, dos irmãos Marx até O Poderoso Chefão, de Jerry Lewis e Bob Hope até O Homem Elefante, de Alan Ladd e Preston Sturges até Al Pacino e Indiana Jones. Sim, o livro vai só até 1985, mas é correto isso. A partir de então não faz sentido falar de uma empresa. Warner ou Fox, o que as diferencia é apenas o logo no começo do filme. Talvez apenas a Universal ainda continuou sendo uma marca de personalidade graças a George Lucas. Mas logo perdeu o caráter também.
  O autor escreve com graça e ironia. E confessa ser fã da MGM. Bem, eu sou da Warner e mesmo assim gostei do livro.

1973, UM ANO FODA PARA A MPB ( AINDA NÃO LI ESTE LIVRO, VERSÃO BRAZUCA DO 1965 )

   1973 foi um ano foda. Escolheram esse ano pra fazer um livro. Os gringos optaram por 1965. Sim, para o pop estrangeiro eu teria escolhido 1972, mas ok, 65 foi foda também. Pra MPB tem de ser 73, não tem opção. Foi o ano dos Secos e Molhados e isso justifica tudo. Mas foi também o ano do Steve McLean, que era brasileiro, do samba dito "joia", do Benito di Paula, do Martinho e dos Originais do Samba. Da Clara Nunes. Foi o ano da Rita Lee e do Raul Seixas. Maracatu Atômico e Antonio Carlos e Jocafe. Foi ano do brega legal de Odair José. "Irmão, vamos seguir com fé, tudo que ensinou, o homem de Nazaré..." essa é do Antonio Marcos. " De onde ela veio pra onde ela vai...oooo não tem ninguém...", foi um ano muito romântico!
  Fora do Brasil foi ano do Dark Side of The Moon, do Houses of The Holy, do Billion Dollar Babies, do Berlin, do For Your Pleasure, do Alladin Sane, do Sabbath Bloody Sabbath, do Goodbye Yellow Brick Road, isso só em rock branco. A banda revelação do ano foi o Queen. 1973 foi mais foda ainda porque eu liguei o rádio pela primeira vez.
  Estava sozinho em casa numa manhã de sábado e pela primeira vez girei o botão, ele fez clic, e ouvi rádio por vontade própria pela primeira vez. Mais ainda, girei o dial até a Difusora! E escutei " Leve...muito leve leve leve pluma....muito leve leve pluuuumaaaa...." Agora eu era dono do meu gosto musical.
  Diz um psicólogo que aquilo que a gente ama aos 11 anos a gente ama pra sempre. Então 1973 é pra sempre.

The Zombies - This Will Be Our Year



leia e escreva já!

quarta-feira, 25 de abril de 2018

ODESSEY AND ORACLE - THE ZOMBIES E A INFANTILIZAÇÃO DO MUNDO.

   As crianças nascidas entre 1940-1950 foram salvas de Hitler por seus pais e seus avôs. E, crescidas no momento mais rico da história do planeta ( falo de Europa, EUA e Japão ), passaram a não precisar se matar de trabalho e passar fome por toda a vida. Nunca antes tanta gente teve tanto, seja em bens materiais, seja em tempo livre. Ócio leva ao tédio, tédio leva à raiva e raiva trouxe a liberação dos desejos. O mundo dos pais passa a ser o mundo errado, o mundo dos jovens é o mundo da paz e do amor infinitos. Hippies se chamam de "crianças da flor", a consequência desse "mundo mágico de neverland" vemos hoje. Desejo não é poder, mas para "as crianças da revolução", é sim.
   O rock conduziu essa revolução e este disco é um retrato do momento. Os Zombies, banda inglesa, faz no final de 1967 um disco, hoje cult absoluto, que condensa os 3 momentos chave das crianças inocentes: Beach Boys, Love e Mammas and Pappas. Cada faixa é uma citação, nunca plágio, de uma faixa das bandas de LA, a terra do sonho. Harmonias vocais doces e sinceras, arranjos flutuantes, sensibilidade à flor da pele, inocência assexualizada, bosques sem feras. Eles jamais atingem a glória de Brian Wilson e muito menos a acidez que torna Arthur Lee tão perfeito ( o Love tem uma agressividade que nenhuma dessas bandas tem, por isso é de longe a melhor ), os Zombies são belos, nunca instigantes.
  Hoje seu som é o som indie. Seu disco ficaria muito bem num set de uma banda "nova" em um festival de 2018. Por isso este é um disco tão cult agora. Infantil todo o tempo.
  Claro que Bowie, Lou ou Cale nada têm de infantil. São irônicos com tudo aquilo. Mas são minoria e representam um momento fugaz. O RAP também surge adulto e logo se torna uma brincadeira com armas e videos pornô. O querer é poder se instala em todo meio e serve para justificar tudo, do terrorismo ao pansexualismo. Este disco mostra o parto desse espírito do tempo. Nunca mais seremos adultos. A não ser que uma catástrofe nos jogue no mundo real outra vez. Coisa que pode ter certeza, eu não desejo.