sexta-feira, 20 de outubro de 2017

UMA AULA SOBRE FREUD QUE HABILITA FREUD PARA MIM ( SE É QUE FREUD FOI ASSIM ).

   Vamos direto ao ponto: Nossos instintos estão relegados à simples função vegetativa. Nossos olhos piscam, nosso estômago digere, nosso coração dispara ao sentir medo. E então, falemos do medo. O medo é instintivo a qualquer animal. E quando se sente medo ou se foge ou se ataca. Mas não o homem. Nosso medo precisa ter um porque, precisa ser entendido, combatido e refletido. Então não será mais um instinto, será uma série de narrativas, uma história. O homem é então o único animal que transformou o instinto em palavras. Não se sente medo, se sente medo "de algo", "de um certo modo" e "porque tal coisa representa tal perigo". Conheço bem o medo, não o escolhi à toa. Quando vivenciei o medo sem porque, puro instinto solto, só voltei a sossegar ao saber o porque e o como desse medo "irracional".
  O homem não nega o instinto. Ele simplesmente o perdeu. Na verdade amamos o instinto, idealizamos a vida instintiva, usamos a palavra a toda hora, mas eles foram educados, racionalizados, contidos, e quando as palavras, a razão toma o instinto, ele morre.
  Um aluno pergunta se a linguagem não seria "instintiva". Não, pois instinto não se aprende, e o bebê aprende a falar. ( Instinto é aquilo que não se aprende, que não varia em tempo e lugar, que é comum a todos os homens em qualquer tempo, e que se faz sempre do mesmo modo, sem evolução ou variação. Por exemplo, todo leão caça do mesmo modo, todo lobo vive na mesma ordem social, todo elefante cria os filhos do mesmo modo, todo gato mia nas mesmas situações, não importa se em 500ac ou 2017, todos fazem tudo sempre do mesmo modo ).
  Outro aluno pergunta se os bichos seriam felizes. A resposta é que se ser feliz é viver de acordo com seu sistema vegetativo, sim, animais são plenamente adaptados e felizes, DESDE QUE não tenham contato com humanos, pois nós reprimimos seus instintos.
  Ver um gato dormir, um sabiá comer, um tigre caçar, é ver um ser plenamente livre, em uso completo de tudo aquilo que ele é. Um homem jamais terá essa chance, pois ele dorme pensando, come sonhando com outros planos ou desejos e não caça, e se o fizesse teria montes de vontades e medos misturados ao ato. Nunca somos plenos, pelo simples fato de que pensamos.
  Mas esse fato é inescapável, portanto, podemos viver razoavelmente bem apenas pelo uso das palavras. Se somos "amaldiçoados" pelo conhecimento, é esse conhecimento nossa maior arma. O que nos tirou do Eden é ao mesmo tempo nossa salvação.
  Mas há um fato que se sobressai cada vez mais: nossos instintos, tão fracos, precisam cada vez mais de motivação-pulsão. Comer precisa de variedade, temperos, novidades; o sexo precisa de aditivos, rotatividade, brinquedos, clima; e o próprio instinto de viver e de sobreviver passa a necessitar de motivações, metas e respostas. O sexo instintivo não requer troca de parceiro, ou climas ou imagens; idem para a fome ou a vontade de viver. O instinto requer satisfação simples, e se possível sem variação. Um leão será feliz com a mesma carne por toda a vida e um boi cruzará com qualquer vaca. Mas o homem, com seu instinto fraco-domesticado-mudo ( instinto não fala ), precisa de pimenta e de erotismo.
  As palavras nos levaram ao paradoxo do suicídio, à anorexia, ao tédio e a depressão. O paradoxo de querer morrer, de recusar comida, de sentir vazio perante o universo e a não sentir desejo cercado por coisas que se desejou.
  A linguagem fez de nós ETs em nosso mundo e estrangeiros em nosso corpo. A minhoca em seu jardim está em casa. Completamente em casa. Já nós, quando dizemos "casa", criamos um conceito de "casa", e perdemos essa "casa" para sempre.
  Nosso mundo é feito de palavras. E por isso voce está aqui e nunca ali.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

CS LEWIS DIZ O QUE FOI A IDADE MÉDIA.

   Contos e poemas fantásticos são uma parte da idade média. Assim como peças religiosas. O que Lewis destaca, em suas últimas aulas, é que o ponto central do pensamento medieval é o desejo de ordenar, catalogar, salva o universo. ( Salvar no sentido que hoje damos a "salvar um texto ou uma foto no arquivo de nosso computador ). Lewis diz que nenhuma invenção moderna deixaria o homem medieval mais feliz que a enciclopédia. Com sua ordem, índice e abrangência, ela pareceria ao medieval a realização suprema de um sonho.
  O homem medieval amava o livro. E acreditava em tudo que estava escrito. Para ele, se estava num volume, era uma verdade. Mas esse homem conhecia textos que se negavam, que brigavam entre si, e daí vinha a vontade de os ordenar, de construir um pensamento, um sistema que os abrangesse, em ordem e sem conflito. Essa é a raiz de toda filosofia medieval, a ordem, a classificação, a criação de um tipo de sistema onde tudo se encaixa. Hierarquicamente.
  Esse PANO DE FUNDO, preste atenção nessa frase, PANO DE FUNDO, criou a ordem heráldica para a guerra, criou o amor cortês para o sexo e toda a cerimônia da igreja para a religião. Um pano de fundo feito de ordem, ritos, deveres, costumes, a serem usados a fim de dar um sistema coeso àquilo que antes lhes parecia caótico.
  A Divina Comédia é o ápice desse modo de pensamento, a transformação do além em um sistema ordenado, mecânico, coeso, infalível. Longe da ideia popular, de que o homem medieval era um tipo de beberrão infantil, ele era um amante de sistemas, um buscador de ordem, um construtor de catedrais.
  PANO DE FUNDO. Lewis diz que se o pano de fundo de toda obra medieval é o sistema, no século XX é Freud. Toda obra traz as teorias de Freud como pano de fundo, como um tipo de cenário onde o drama acontece. Interessante ele observar, e acertar, que logo esse pano de fundo poderia ser trocado por Einstein. Ou seja, a relatividade e a ciência como pano de fundo às obras da arte e do pensamento.
  Outro fato é que Lewis conta que toda grande obra vai contra esse pano de fundo. Desse modo, Freud seria destruído pelos grandes pensadores ou artistas, assim como os sistemas seriam corrompidos por Shakespeare após a idade média.

domingo, 15 de outubro de 2017

trombone com vara: É PRECISO APRENDER A VER?

trombone com vara: É PRECISO APRENDER A VER?:     Crianças sabem ver. Olham.    O vidro gordo de Toddy. A cor marrom e a tampa de lata. O rótulo com a cara de um menino que ri. As letr...

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sábado, 14 de outubro de 2017

PODRES DE MIMADOS - THEODORE DALRYMPLE.

   Coloque um broche com o símbolo do combate ao câncer de mama e se sinta então parte de elite "que se importa". O livro bate forte e convence nessa característica única de nossa época: o respeito ao "fraco" e ao "oprimido", e a consequente vaidade que nasce de ser alguém que se importa com o fraco e com o oprimido.
   Dalrymple mostra de forma clara e lógica, que ao se importar com africanos famintos, chineses oprimidos e negros explorados, acabamos por não nos importar concretamente com nada. Defendemos um prisioneiro na Guatemala, mas não conseguimos ajudar nossa mãe, que sofre com a solidão no quarto ao lado. Nos indignamos com a repressão policial na favela, mas não nos indignamos com o modo como nosso pai é tratado no ônibus lotado. Nos tornamos então uma pessoa tão justa, tão correta, tão indignada, tão "boa", que não temos mais espaço interno para ser "apenas" uma pessoa real e presente. Mas nossa vaidade, essa está a salvo, pois estamos todo o tempo "do lado do mais fraco".
  Dalrymple conta alguns casos famosos deste século. Escritores que se fingiram de oprimidos e assim alcançaram o sucesso, pessoas que foram consideradas do mal por não exporem suas dores pessoais ao público. Hoje é muito mais fácil publicar e vender se voce tiver o único mérito de ser parte de uma "minoria perseguida", ou por dizerem a "sua verdade de violência e de miséria". Um escritor "apenas" branco, homem e europeu, se não for viciado, ou meio doido ou gay-sofrido, terá uma imensa dificuldade em ser publicado e comentado. O público leitor foi convencido que "vida real" significa dor e violência, sofrimento e horror, alguém que venha de um meio apenas normal será considerado um "alienado". E ao ler as experiências terríveis de pessoas oprimidas, o leitor, elite envergonhada, se sente "conhecedor da vida real e apoiador das nobres causas". O apelo do livro não mais é a beleza ou a arte da escrita, é a pura vaidade de ler e se pensar do bem.
  Somos parte de um tempo em que a vida privada está submetida ao público. Assim, uma pessoa sensível tem de chorar em público, sofrer às claras e se indignar com exagero. A discrição, que antes indicava elegância e cultura, hoje é tida como "coisa de gente fria, sem coração". É preciso nunca perder a chance de se emocionar, de exibir o coração, de se fazer de criança desprotegida, de perder a pose. Uma celebridade pode ser um crápula, mas se apoiar a causa certa e mostrar algum sofrimento em rede de TV, pronto: ele será mais um cara do bem.
  Dalrymple mostra o começo de tudo isso com o romantismo em fins do século XVIII, o momento em que perder a sofrer passou a ser "viver". Só vive quem sofre e quem sofre é uma vítima da sociedade repressora e má. Pois no âmago de todo romântico vive a certeza de que "todo homem é bom, a sociedade é que o faz mal". Portanto, nada mais heroico que ser uma vítima, ou seja, um sofredor oprimido. Desse modo, de forma lógica, todo homem ou mulher feliz e bem adaptado seria o opressor, uma pessoa que está de acordo com a sociedade que faz dos homens seres maus.
  Estamos no reino em que o mérito é não possuir mérito. " Vejam! Sou pobre e tive câncer, sou um campeão!" Dalrymple pergunta: Campeão do que? Os politicamente corretos não percebem que ao dar tanta atenção a pessoas com vitórias normais, eles próprios admitem que nada esperavam dessa pessoa.
  Nossos artistas são aqueles que trazem o estigma de serem vítimas e não gênios talentosos. Sylvia Plath, Frida Kahlo, Modigliani, Mahler, são ícones acima de tudo por terem sofrido perseguição, doenças ou se matado. Foram vítimas antes de serem artistas.
   O mundo nunca foi tão "bom". E ao mesmo tempo nunca houve tanta violência injustificada. Ele liga os dois pontos. A liberação das mulheres, justa, abriu as comportas para a loucura do ciúmes, genético e biológico, dos homens. A glorificação do gueto, compreensível, levou ao estilo gangster como algo de desejável e sexualmente atraente. Tratar viciados como vítimas indefesas, o que nunca foram, leva a passividade do próprio junkie. Despejar dinheiro em países pobres, o que seria bom, leva a criação de uma elite corrupta e violenta. E o pior de tudo: tratar as crianças como anjos que sabem por instinto o que é melhor para elas mesmas levou à falência da educação mundial. Educar se tornou vergonha igual a oprimir e julgar é hoje um pecado sem perdão.
  Em apenas 200 páginas, Dalrymple dá uma clara mensagem sobre o prazer em ser uma vítima que tomou conta do mundo. Amamos lamber feridas em público, adoramos nos importar com os cachorrinhos sem lar e os índios sem terra. Somos todos bons, e cada vez mais, que pena, crianças e iguais.
PS: É falado sobre a mentira de que a segunda guerra foi a pior guerra da história...a maior chacina da história foi nossa....a guerra do Paraguai matou 95% da população masculina de uma país inteiro.
Mas, adoramos pensar que somos herdeiros da pior guerra da história. Toda guerra é ruim, e a segunda foi mais um crime numa história que não tem fim.
 

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

EM SÃO PAULO À MODA DE ORHAN PAMUK

   Escrevo agora sobre minha cidade à moda de Pamuk. Istambul NADA tem a ver com São Paulo, mas tem muito a ver...
  A ruptura em SP não se deu com a perda de um império. Foi a perda de uma ilusão. A cidade cresceu na ideia de ser uma filial europeia em meio a falta de estilo e de elegância brasileira. SP negava o Brasil. Não se pensava negra como a Bahia e nem tropical como o Rio. Também não era fechada entre montanhas como Minas e nem caipira como era o sul do país. SP sonhava ser Milano.
  Esse sonho se desfez a partir da década de 70. Os negros saíram da periferia e tomaram o centro da cidade e depois os bairros mais classe média. As favelas cresceram e então veio a imensa onda vazia que baixou sobre a cidade. SP não era Milano. Nem Napoli dava pra ser. SP era Brasil.
  Mas não é. Porque o Brasil também se "esvaziou" com SP. E se Istambul vive na tristeza de não ser Europa e não poder voltar a ser Império Otomano, o Brasil vive o pesadelo de não ser Europa ou Miami, e ao mesmo tempo ter deixado de ser Brasil.
  O que era então esse Brasil?
  Sigo os passos de Pamuk: Como ele, eu também sinto fascinação pelos restos da São Paulo de 1920 até 1960. O pouco que ainda vive de uma cidade que era dividida entre os ricos muito chiques e os pobres bem caipiras. Nesse mundo perdido, o mundo brasileiro, eu respiro em paz e feliz. E penso que todo brasileiro traz dentro de si esse ser que sente melancolia por alguma coisa que se deixou perder.
  Um mundo feito de muita preguiça, sem hora pra voltar pra casa. Mundo de botecos onde todo mundo sabia o nome de todo mundo e onde se tinha crédito na caderneta. Mundo de macumba, de igrejas em festa, de fogueira e de namoros no escuro das ruas. Rádios ligados alto, jogo do bicho, cães vadios e vendedores de bijú. Papagaios no céu, bolinha de gude e futebol de capotão. Pescarias e sono na rede. Café e bolo de fubá. Um Brasil longe do Brasil de hoje, longe da Europa e dos EUA, longe de qualquer pretensão a ser protagonista. Portanto, sem ansiedade.  
  Hoje o que vemos é um país perdido numa briga que não é dele. De um lado os PC e de outro os Reacionários. Uns querem uma ideologia de esquerda à americana, ou seja, politicamente correta e libertária; os outros querem a preservação de algo que eles nem sabem o que é: família e religião.
  Ambos não entendem que o que eles precisariam era reencontrar o modo brasileiro de viver. Entendam, modo de viver, de sentir, de querer; não falo de um isolacionismo bobo e burro, falo de alma, de costume de deixar ser. Consumir filmes americanos, rock inglês, livros japoneses, mas saboreando tudo ao modo brasileiro, o modo lânguido, meio ingênuo meio malicioso, o jeito brasileiro de ser.
  Então não me interesso por essas ruas e esses prédios que são cópias mortas de coisas de segunda do primeiro mundo. Me interesso por aquilo que SÓ EXISTE AQUI. A entrada daquela padaria ( padaria que era uma coisa que só aqui existia ), o jardinzinho daquele sobrado, os 4 andares daquele hotel derrotado e sujo, o sabiá sobre o ipê. Recantos de uma cidade que não é Istambul e não é Miami nem Sevilla. Lugares como Engenheiro Marsillac, a Serra do Mar, a Cantareira, as ruas esquecidas de Pinheiros, da Lapa, do Brooklyn ou da Vila Mariana. Ruas que só existem aqui e não em Londres ou em Montevideo.
  Meu ódio por SP é proporcional ao amor por essas ruas.

ISTAMBUL - ORHAN PAMUK

   O oriente e sua melancolia, o ocidente e sua ansiedade. A Europa e sua fascinação pelo UM, pela verdade e pela ordem, o oriente e sua fixação no múltiplo, na multi visão.
 Orhan Pamuk anda pelas ruas de Istambul e conta sua infância. Anos 50, 60 e 70. Há uma estranha coincidência entre eu e ele: Pamuk, como eu, sente a melancolia pairando sobre uma cidade que perdeu sua alma. Istambul foi sede de um império e desde sua perda, nos anos 20, decai sem parar. As pessoas tentam imitar a Europa, lutam por se sentir europeus, mas tudo o que conseguem é ser um vazio, nem otomano e nem ocidental. No começo do livro o jovem Orhan é como os ricos de Istambul são, europeus no visual, otomanos derrotados na alma. Ele mata aulas e anda pela cidade. E começa a sentir amor-paixão pela velha Istambul.
 Os palácios que viraram ruínas, as ruas dos pobres, sujas, confusões de casas que se desmontam e pedras em calçamentos antigos. Ruas escuras, mal iluminadas, pessoas desconfiadas. Orhan finge ser feliz, finge ser amigo, finge ser estudante, mas é um barco a deriva. Pinta, sonha, lê, e anda. Névoa, neve, frio, fuligem e o mar. A cidade dobrada sobre o mar, os navios que passam, a sujeira.
 Orhan se reconcilia com a vida ao entender que ele é aquela cidade suja. Que ele ama aquela confusão de ruas imundas. A pobreza. Mas não a nova Istambul, uma cópia ridícula de uma cidade europeia que nunca existiu. Um lugar feito para pessoas que fingem ser do ocidente e que assim jogam ao lixo seu verdadeiro ser.
  A linguagem de Orhan é tortuosa e seu Nobel em 2007 acaba por ser uma confirmação dessa crise. Hoje ele vive nos EUA, teve de sair de sua casa por ter sido ameaçado de morte. Para quem lê este livro, imaginar Orhan nos EUA é quase uma piada. Ou não.
 

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

LES DOGS. França avec le punk rock.

   Mesmo entre as bandas francesas surgidas na onda punk e new wave de 1977-79, DOGS ou LES DOGS, não é uma das mais conhecidas. Mas ela se tornou objeto de cult neste século nascido já cansado. Entre as coisas que meu irmão me deixou de herança, e que vou apreciando aos poucos, o primeiro disco desses franceses é um surpresa nada surpreendente. Adorei.
  Quando o punk surgiu eu já ouvia rock a 5 anos. E o que mais nos deixava surpresos com as bandas punk era o fato de que eles nada pareciam ter de novo. A gente se surpreendia com a simplicidade franciscana do som. Entenda, em 1975-76 a onda era complicar tudo ao máximo. Então, ao ouvir falar de coisa nova a gente logo imaginava uma hiper complicação muito louca. Mas não. O punk era a simplificação radical. A ausência de enfeites. A alma do rock exposta nua.
  Les Dogs são energia pura. Dá pra dizer que não envelheceu um dia. É uma batida simples, um baixo forte e uma guitarra ágil. O som é Stones e Them com anfetamina. Os Stones de 1965, bem dito seja.
  No banquete que me ofereço, entre discos e discos que nunca escutei, onde descubro sabores novos e apimentados, Les Dogs é uma deliciosa delícia.

Algomania -DOGS- French killer PUNK ROCK (1980)



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domingo, 8 de outubro de 2017

A MINHA PREGUIÇA

   Entre 2 e 7 anos de idade. Eu me exibia. Cantava na sala para meus primos e tias e era aplaudido. Vaidoso, eu dormia muito e comia demais. Minha vida de príncipe era um sonho. Eu despertei meu ser no olhar. Eu via rostos femininos que me olhavam e sorriam para mim. E eu cantava para elas. Ao mesmo tempo eu via. Olhava o mundo com amor porque o mundo me amava. Desenvolvi o olhar então. Mais que a linguagem da fala, aprendi a ler com os olhos. Com eles eu podia gozar o amor por tudo o que eu via. E recebia de volta a luz entre a cortina, o azul da capa de um livro, o branco das nuvens que corriam.
  Mas veio a perda do público. Fui destronado e de príncipe me tornei pajem. Meu irmão veio como um furacão instituindo a república do ruído. Ele chorava, ele nunca dormia, ele ficava doente. Impedia meus pais de dormir. Pior, roubou de mim os olhares que eram só meus. Nasceu em mim a imagem do "herdeiro deserdado", do "nobre decadente". Meu público se foi. Eu não cantava mais. Me vi gaguejando por meses. Perdi a música e perdi a fala. Mas ainda olhava. Amava o mundo com olhos agora melancólicos. Mas ainda amava.
  Então não mais me pus a prova. Pois ao fim, eu sinto sem saber, virá a perda. Escrever um livro infindável é jamais o perder. Nunca sair de uma escola é continuar nela. Esticar a canção para não perder o público. Não encerrar o recital para não correr o risco de ver rostos virados.
  Isto não explica minha depressão. Muito menos minha SP. Mas dá uma luz sobre esse manto de vaidade destronada. Sou essa mistura esquisita de egocentrismo envergonhado e orgulho aviltado. Me sinto roubado. Sempre roubado. E roubo de mim mesmo o que me é de direito.
  Saboto-me.
  É assim.

3 MOMENTOS DA MÚSICA E DA MENTE.

   Esta postagem é feita apenas de suposições. Li algumas coisas sobre música, conheço a história da ciência e da filosofia, mas não sei tocar instrumento algum. Pior, não leio música...
   Me parece que podemos brincar e usar os 3 vídeos que postei abaixo para entender as mudanças de mentalidade que aconteceram no mundo ocidental nos últimos 250 anos. Meu professor de psicologia diz que o homem de 1800 nada tem a ver com o homem de 2017. Penso que ele usa esse pensamento para poder dizer que a religião é obsoleta. O que tenho certeza é que a mente racional muda, o costume muda, mas nossas necessidades vitais e nossos medos são os mesmos. Seja em 2020 seja em 200 AC.
  Começo por Haydn, mas antes devo dizer que o século luminoso começa com Bach. Ele escreveu para a igreja luterana, para Deus, e se via como um simples funcionário. Mas Bach cria a afinação que conhecemos, inventa a arte da fuga e a harmonia moderna. Ele vivia como um homem do século XVII, mas sua arte, pura invenção, pura fórmula, é do século XVIII. E Haydn é, com Mozart e Haendel, o gênio do século.
  Se eu tivesse que explicar a mente do século XVIII diria que é a inteligência racional à procura da beleza. E belo era aquilo que iluminava. Ou seja, é um tempo que ama a clareza. Podemos colocar aí o amor pelo espelho, o ouro, as fontes, os lagos, o sol e as cores claras. Mas devemos destacar acima de tudo a ARTE DA CONVERSA. Dizer com clareza aquilo que se pensa e expor com brilho o que se sente. É o tempo do nascimento do romance, é o tempo da luz. A música de Haydn é toda esse mundo. Ela é clara, leve, limpa, correta. Se desenvolve racionalmente, sem exagero na emoção, em busca da beleza. E a beleza se chama perfeição. A união da inspiração com a técnica.
  Em fins do século, com Goethe, Napoleão e Beethoven, se anuncia a mudança. A beleza será sublime e o sublime significa o exagero. A emoção deve ser exagerada, amplificada, esticada e ampliada. A música se torna grande, oceânica, vasta. É tempo que ama a sombra, o inverno, a lua, o oceano e o veludo negro. A beleza se confunde com a expressão do coração. O compositor escreve para si mesmo. Seu desejo é mostrar sua alma ao mundo.
  Coloco Schonberg como o homem do século XX. A beleza ainda existe, mas ela vem dentro da angústia. O belo agoniza no âmago da alma e a alma está dilacerada. A busca não é mais pelo belo, é pela verdade. A Verdade se torna o fetiche. O artista busca expressar a verdade total. E por não poder compreender a vida, expressa a incompreensão. A música se torna a busca de uma verdade final. Tudo é tentado porque essa verdade pode estar inclusive no ruído, ou no silêncio absoluto. É um tempo que pensa ser corajoso, verdadeiro, profundo. Mas talvez seja apenas assustado. Desamparado.
 

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

UMA LEITURA ENCANTADORA: A ELEGÂNCIA DO OURIÇO- MURIEL BARBERY

   Primeiro o ethos: uma concierge, feia, de 54 anos, viúva, é considerada uma pessoa banal e anônima pelos outros. Porque a imagem que ela passa, consciente e proposital, é de uma concierge típica. Mas nós sabemos que ela lê muito. E pensa. E vê todos os detalhes de todos que vivem naquele elegante prédio em Paris.
 Há também uma menina de 12 anos. Que sente que o mundo não tem lugar para ela. E que escreve um livro sobre coisas em movimento. Porque ela percebe que o movimento é uma das coisas mais belas do mundo.
 Muriel Barbery divide os capítulos entre essas duas pessoas. E nós nos encantamos com as duas. O livro fala de Japão, de arte, de Tolstoi, de morte, da solidão, de comida. E nunca cansa, jamais se perde, ele se movimenta. Sim, ele é fofo. Sim, ele é pop. Mas consegue ser um ótimo exemplo de um tipo de literatura popular digna, bela, elevada, estimada. Barbery sabe escrever, e melhor que isso, sabe ver. Os retratos da elite francesa são agudos e simples. Exatos. O retrato do modo como essa elite vê os outros é caricato. E de verdade.
 Os dois capítulos finais catapultam o livro para cima e além. O que é raro nos dias de hoje: um livro que sabe onde e como terminar. A moral do texto diz que o único sentido da vida é encontrar coisas e momentos de beleza. Sem isso perdemos toda nossa humanidade.
 Quando estou inteiro e me sinto eu-mesmo, é assim que penso. A educação é conseguir perceber a beleza do mundo. Pois a feiura independe de cultura, ela é dominante. É certo que bichos não apreciam o por do sol ou uma onda do mar. É certo que muita gente se esqueceu disso.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Tom Waits - "Downtown Train"



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O BURACO NEGRO

   Nossa realidade é feita de tempo, espaço e gravidade. Nossa morte precisa desses 3 componentes para ocorrer. A gravidade nos mata, dia a dia. E é ela quem constrói o tempo e ordena o espaço.
  Mas se a gravidade crescer a um valor absurdo, tempo e espaço perdem o sentido. O tempo deixa de ser uma reta e se torna um feixe de tendências. E o espaço se reduz a um infinito aqui. Todas as distâncias desaparecem.
  Parece que o cosmos é um tipo de matriz. O modelo que ele apresenta é o mesmo do infinitamente pequeno. Dentro de nossas células nervosas há um design que repete o desenho do universo. Isso nada tem a ver com inteligência Divina ou Criador Universal. Digamos ser apenas um padrão.
  Então posso dizer que se no cosmos existem buracos negros, pontos escuros e invisíveis, mas que possuem uma energia descomunal; posso dizer que dentro do nosso organismo, no ínfimo de uma partícula nervosa, pode haver o buraco negro, uma força poderosa que suga nossa vida e que ao mesmo tempo é um caminho para um ponto onde a lei da realidade não se aplica.
  Físicos não podem e não devem lidar com aquilo que não cabe numa lei da matemática. Mas a própria matemática é uma belíssima criação humana que por lidar com infinitos e zeros, tem a condição de quase impossível.

domingo, 1 de outubro de 2017

HUMPHREY BOGART- 6 FILMES...LAURENCE OLIVIER- 1 FILME.

  Ando lendo um livro que em certo momento conta que o cinema popular mudou todo o conceito que se tinha do que seria arte. Foi através de filmes populares que se percebeu que o aparentemente comum poderia esconder coisas perturbadoras, profundas e originais dentro de si. Faço para mim mesmo um pequeno festival Bogart. Todos os filmes feitos entre 1941-1948.
THE BIG SLEEP ( A BEIRA DO ABISMO ) de Howard Hawks com Lauren Bacall e Martha Vickers.
A prosa de Raymond Chandler é considerada hoje alta arte, mas em 1944 era chamado de pulp, lixo. Bogart vira Philip Marlowe, detetive mais leve que Spade. O crime que ele investiga é apenas uma desculpa para um exercício típico de Hawks, ou seja, um filme que lança seu olhar sobre aquilo que quase ninguém repara: chistes, conversas fúteis, movimentos aparentemente banais. O centro de tudo é o flerte entre Marlowe e duas irmãs, uma ninfomaníaca e outra fria como gelo. O filme não tem uma só cena "sensacional", e ao mesmo tempo ele é inteiramente memorável.
KEY LARGO de John Huston com Lionel Barrymore, Lauren Hutton, Edward G. Robinson.
Um grupo de bandidos está isolado em um hotel na Florida. Um furacão se aproxima e Bogey é um ex-soldado que vai lá conhecer a viúva de um colega morto na Italia. A tensão cresce sem parar, os bandidos humilham e pressionam os outros hospedes. Huston faz um de seus filmes sérios e isso torna-o desagradável. O ar de denuncia, de simbolismo politico o destrói. Não é um grande filme, mas tem um final bem legal em termos de aventura.
O ÚLTIMO REFÚGIO de Raoul Walsh com Ida Lupino.
Maravilhoso filme! Bogey é um gangster que ao sair da prisão percebe que o mundo mudou, ele não é aceito pelo modo de se cometer crimes nos anos 40. É uma das melhores atuações da vida de Bogart. Nada glamuroso, ele mostra um rosto de raiva, aturdimento e inadaptação. Walsh foi grande diretor de épicos no cinema mudo. Depois se tornou mestre em aventuras e westerns. Sua carreira, sempre interessante, começa em 1922 e vai até 1964. Este é um filme imperdível.
PRISIONEIRO DO PASSADO de Delmer Daves com Lauren Bacall.
Os moderninhos adoram este filme. Talvez por ser tão absurdo. Bogey faz uma cirurgia para mudar de rosto e assim escapar da policia. O filme, maneiroso, cheio de toques esquisitinhos, é bem bobo, mas nunca fica chato.
UMA AVENTURA NA MARTINICA de Howard Hawks com Lauren Bacall e Walter Brennan.
Hawks em sua raiz mais típica, um filme onde coisas acontecem, mas nenhuma delas tem muita importância. O que interessa são as relações, os diálogos, e todos parecem comuns, banais. Mas não são. O que Hawks faz é dar relevo à vida nossa de cada dia, mesmo que o cenário pareça exótico, o que mostra é a vida de quem assiste o filme. Uma vida simples, de pouco alcance e mesmo assim encantadora, cheia de significado. Bogey, relax como nunca, é um pescador. Bacall uma prostituta. Brennan um bebum. Eles se envolvem em algo a ver com nazis. O filme é o oposto de Casablanca. Tem quase o mesmo elenco, mas se naquele o clima é de heroísmo e renuncia, aqui tudo é indecisão e preguiça.
O FALCÃO MALTÊS de John Huston com Mary Astor e Peter Lorre.
O mítico noir de Dashiell Hammett recebe tintas escuras na estreia de Huston como diretor. O foco é na relação entre Astor e Bogey, um duelo de mentiras. O filme foi revolucionário na época por ser amoral, ninguém é bom e nenhuma moral é esposada. Visto hoje fica longe de ser uma obra-prima, mas continua interessante, o nascimento de um tipo de filme dark que sobrevive até hoje.
HAMLET de Laurence Olivier
E aqui o anti-Bogart, o artista que se pensa artista, que arrota arte e filme Shakespeare em viés Freudiano. O filme, longo, solene, belo, pesado, rígido, nunca nos dá prazer. As imagens são lindas, mas o ritmo é frouxo e não há um segundo em que Olivier não grite: Olhem como sou incrível!