sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

A challenge rare book restoration project



leia e escreva já!

Inside the mystery of medieval manuscripts - BBC Newsnight



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MANUSCRITOS NOTÁVEIS - CHRISTOPHER DE HAMEL...UMA VIAGEM MARAVILHOSA...

   A mais brilhante sacada de Jung foi aquela que diz que após mil anos de era medieval, a Europa ainda carrega em seu inconsciente toda delicia e dor da idade dos santos, das guerras e do código de cavalaria. Demorei um tempo imenso em minha vida para aceitar esse fato. Leitor de Voltaire e depois ateu orgulhoso, reprimi uma herança que em mim é muito viva. Sou da primeira geração não europeia, não camponesa, não plebeia, não serva. Muitos dos hábitos e costumes que vi em minha casa seriam considerados medievais por pessoas de centros mais modernos e mais burgueses. Conheço esse mundo "das trevas". E sei que de treva nada teve. Foi uma época de busca incessante por explicações, por razão, por vitórias e por vida. Mais vida.
  O autor deste livro é paleontólogo. Ou seja, ele estuda livros antigos, letramento, rastros escritos. Feliz, bem humorado, ele nos leva numa viagem por vários países. Em cada parada ele visita uma biblioteca onde nos mostra um antigo livro medieval. Livros raros, livros delicados, livros com mais de mil anos de história. Livros que quase ninguém pode ver. Muito menos tocar.
  De Hamel começa pelo mais antigo, Os Evangelhos de Santo Agostinho, que se encontra na Inglaterra, em Canterbury. Escrito por volta de 400 DC, ele inaugura a idade média. O autor descreve sua viagem, como o livro está guardado, e a aparência da biblioteca. Depois fala da capa, tipo de escrita, iluminuras, quem foram seus donos, onde esteve. E esta edição, linda, traz ilustrações soberbas. Podemos ver a fragilidade das páginas, das capas, a beleza da escrita, dos desenhos, das iluminuras. Para quem ama livros, o objeto que define nossa civilização, é um passeio de sonho. Livros e leilões da Sothebys, livros que foram roubadas pelos nazistas, livros que sumiram e surgiram como por milagre.
  Entramos no cotidiano dos donos desses livros, nobres, reis e rainhas. Entendemos o uso desses volumes, como eram feitos, como eram comprados, o status que eles davam a seu possuidor. Por mais de 600 páginas, e numa viagem por 12 livros que abrangem mais de mil anos, nos acostumamos com esse mundo encantado, assustado e brincalhão. Um mundo distante de nós, mas sempre presente em nossos sonhos e em nossa arte.
  Senti luto quando o terminei. Foi como voltar das férias. Foi como voltar ao cotidiano banal. Um livro que vou sempre amar.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

LOGAN LUCKY, ROUBO EM FAMÍLIA, UM FILME DE STEVEN SODERBERGH

   Steven Soderbergh é a prova, assim como tantos outros, de que o nome de um diretor nada significa hoje para o povão. E quando falo povão estou elogiando esse tal povo. Sempre foi o anônimo frequentador de cinema quem garantiu a nobreza do empreendimento. Era o sucesso de Louis de Funes e de Lino Ventura que garantia a existência de Godard e de Rhomer. Era Alberto Sordi e Gina Lollobrigida que financiavam, indiretamente, Pasolini e Rosselini. Mas, diferente de hoje, onde o dinheiro de Homem de Ferro vai para acionistas e não para outros filmes; havia diretores que com seu nome produziam filas. Nem preciso falar de Hitchcock. Fellini, Kurosawa ou Truffaut eram anunciados na TV como estrelas. Sim, em 1975, no meio da novela das 9, se anunciava a estreia do novo Truffaut. Os últimos diretores com esse status foram Spielberg e Woody Allen. O único que ainda se mantém é Tarantino. ( Não vem me falar de Nolan ou Fincher. Seus sucessos são sucessos em que seus nomes mal constam na propaganda ).
  Soderbergh começou com um sucesso de jovens metidos: sex lies e videotapes ( em minúsculas, coisa de universitário metido ). Depois ele teve uma ridícula sequência de fracassos. Veio então um espertíssimo filme policial com Clooney e Lopez, ainda seu melhor filme. Foi então, 1997, que Steven entrou em sua big fase. Mas, desde 2010, ele vinha fazendo filmes sub. Sub cinema e sub arte. Este Logan Lucky é uma clara tentativa de voltar ao gosto do público. Um estilo anos 70 que ele domina como cinéfilo que é. Mas tudo dá errado. O fracasso é absoluto.
  Ele não faz um esperto filme de assalto à Don Siegel ou Lumet. Ele escolhe o "retrato da américa dos fracassados freaks", e quebra a cara. O filme, com um manco e um maneta, mulheres histéricas e estradas vazias, é chato de doer. Lembra muito os piores filmes de Friedkin ou Bogdanovich.
  O elenco tem bons nomes. Um diretor com fama ainda atrai atores que não encontram papel que preste nessa Hollywood sem boas falas e bons personagens. Daniel Craig só tem de fazer cara de mau. Tem ainda Channing Tatum, Hillary Swank, Katie Holmes e Adam Driver. Katie está assustadora de tão magra. O filme é magro como ela.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

STOOOOOOPID !

   São 10 LPs vindos diretos de Kookaburra, Australia! Edições de 1980, eles seguem adiante do lugar onde Lenny Kaye havia parado. Sim, voce sabe né, Lenny Kaye era crítico de rock e guitarrista da banda de Patti Smith e em 1972 ele conseguiu lançar um disco chamado Peebles. Era uma coletânea de bandas americanas que tinham desaparecido sem deixar rastro. Mais importante, eram bandas de garagem e em 1972 NINGUÉM MAIS lembrava do que era uma banda de garagem!
   Garagem era o tipo de som mal tocado, mal gravado e mal divulgado. Todas as bandas bebiam na fonte de Yardbirds e Them. E por causa da sinceridade, da energia, do desejo a flor da pele, era rock na mais pura alma. A molecada, alguns com 14 anos de idade, botava o fígado pra fora. Pois bem, esse som ameaçou estourar nas paradas entre 1966 e começo de 1967, mas a história foi cruel com eles. Veio em junho de 67 o sargento Pimenta e o rock mudou. Agora a moda era som pretensioso, bem arranjado ou solos longos inacabáveis. Faixas de dois minutos eram velharia agora...
  Em 1972, no auge do rock sinfônico e do hard rock hedonista, Lenny lança então esse Peebles. Fazia apenas 6 anos que aquilo tudo fora gravado, mas parecia um século. O mundo das garagens ficava a anos luz de Steely Dan e Roxy Music ( as grandes novidades de 72, e eu amo as duas ). Era tosco. Era juvenil. Era sublime.
  Peebles não vendeu nada, mas certos críticos amaram. E muito moleque de Akron, Detroit, Los Angeles e Londres pirou ao ouvir aquilo. Era exatamente o que eles queriam ouvir. Era um som que eles podiam fazer.
  Em 1979 um maluco Aussie, um tal de Seltzer, sai pelos USA a procura de discos perdidos em coleções, lojas antigas, porões cheios de tralhas. E nessa procura ele encontra material para 10 LPs!!! Todas as bandas que ele encontra têm em comum, além da sonoridade pré-punk, o fato de não terem vendido quase nada e nunca terem gravado um LP. Fizeram apenas um ou três singles, venderam de mão em mão, sonharam com o sucesso e sumiram sem deixar pistas.
  Algumas faixas têm péssimo som. Discos que foram achados semi destruídos, riscados, jogados em meio a vitrolas e bikes abandonadas. Um tipo de aventura de garimpo impossível de ser feita hoje. Uma aventura atrás de pérolas, de pepitas.
  A edição, os 10 discos com lindas capas acondicionados em uma pasta de vinil, com poster e uma carta de Lenny Kaye, é linda.
  Andei pensando se na história do rock existe um só nome que seja amado por todas as tribos. Um nome que possa ser escutado com gosto por góticos, hippies, punks, metaleiros, folks, indies, eletrônicos, blueseiros, rockabillies, countries, e etc sem fim...pensei que Hendrix chega perto dessa unaminidade...mas acho que uma banda como essa The 12 a.m. tem esse poder. O som vai de Sonic Youth e Mudhoney à Buddy Holly e Monkees. Ninguém sabe quem são, para onde foram, nada. Ficou o disco. Um milagre.

The Beaver Patrol - E.S.P. (FUZZ 60'S GARAGE)



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THE 12 A M - THE WAY I FEEL



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domingo, 14 de janeiro de 2018

QUINQUILHARIAS NAKANO - HIROMI KAWAKANI. A discreta beleza da banalidade.

   Li no ano passado, em janeiro, A Valise do Professor, livro desta mesma autora. Achei que havia ali alguma coisa. Então, agora neste janeiro, termino de ler este Quinquilharias Nakano. E posso dizer: eis uma escritora que permanecerá.
  Hiromi Kawakami é da minha geração. Ganhou prêmios no Japão. E possui um segredo: sua escrita é mágica. Temos uma história simples, quase simplória. Há um local que vende quinquilharias. Coisas que não chegam a ser de antiquário. O dono namora algumas mulheres. Sua irmã é uma artista que faz bonecas. Na loja temos dois funcionários, um rapaz tímido e a narradora da história, uma jovem de 25 anos. Nada acontece de extraordinário. Clientes entram e saem, casos amorosos começam e terminam, gente morre, leilões ocorrem, faz frio e faz calor. Mas a autora faz com que nada disso pareça chato. O livro é de uma leveza e de um humor delicado que conquistam. É uma escrita erótica. Não por falar de sexo, mas porque a autora nos seduz com suas frases objetivas, refinadas, exatas.
  Quando um livro é bem traduzido, este é por Jefferson José Teixeira, temos contato com ritmo da língua original. Desse modo, um livro bem traduzido do francês, traz aquele caráter divagante e ao mesmo tempo racional da língua. Do russo se mantém a cadência dura, e do alemão a perspectiva sempre analítica. Pois aqui, do japonês, percebemos a delicadeza da linguagem. Há nas frases um pudor que não vejo em nenhuma outra. O que se fala é 90% referente a imagens e objetos. Pouco se fala sobre estados mentais. Mal se analisa o que se sente. Isso cria encanto. Respiramos as imagens. Nos sentimos livres do excesso de psicologismo da literatura do ocidente moderno.
  Nos apaixonamos pela loja e pelos quatro personagens centrais. Sentimos pena quando o livro termina. São apenas 220 páginas que poderiam ser 500. Poderia ser uma série. Poderia ser cartoon. Poderia ficar décadas no ar.
  Preciso de mais traduções dessa autora encantadora. É um livro-tesouro.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

O PARAÍSO À PORTA ( ENSAIO SOBRE UMA ALEGRIA QUE DESCONCERTA ) - FABRICE HADJADJ

   Fechado dentro de si mesmo, o homem procura em seu interior uma luz. Nesse processo de busca, ele vence o ego.
 Adorando à Deus, o crente se ajoelha e em reza se isola do mundo.
 Dizendo que caminhamos para o nada absoluto, o ateu se livra da responsabilidade perante o além. Sua personalidade, mutável, encara o nada como férias eternas. Esse seu desejo.
 Frequentador de ONGS do bem, ele dá grandes contribuições para as crianças da Etiópia. Mas finge não perceber que sua mãe chora no quarto.
 Temente à Deus, ela troca sua obediência por um bom lugar no Céu.
 Hadjadj não poupa os crentes e os ateus, os agnósticos e os gnósticos, os new age e os budistas. Ele segue uma linha clara, nítida, mas não simples, ele fala do judaísmo e do cristianismo. Mas não do que sabemos, dessa simplificação abjeta, supermercado que vende a dor como se fosse o prazer. Ele mostra que na crença judaico-cristã, nasce, pela primeira vez, a aceitação do mundo real, do mundo como ele é. E mais ainda, nasce a aceitação do tempo linear, do começo, do meio e do fim.
 Para os orientais, para os deuses do Olimpo, para os egípcios, zoroastristas e new ages de hoje, o tempo é cíclico. Tudo se repete, as coisas voltam em estações e o tempo linear é uma ilusão. ( New ages adoram pensar assim porque esse modo de ver a vida promete uma segunda chance em tudo ). Com os judeus o tempo começa a correr como o conhecemos. Há um começo do mundo e haverá um fim. As coisas nascem e morrem. E com Jesus Cristo se parte a linha em uma semi-reta, o tempo recomeça, não como ciclo, como nova vida.
 Hadjadj diz que encontrar Deus é encontrar o outro. A iluminação se dá no amor ao vizinho, ao filho, ao desconhecido, à amada. Deus não está neles, mas eles são obras de Deus. Nossa religião, a do ocidente, nunca nega a materialidade e a verdade das coisas. Elas são reais. Uma montanha é uma montanha e um minuto é irrecuperável. Cada pessoa é única. Nunca houve e nem haverá um outro eu. E o paraíso está no presente, neste agora e neste aqui.
 Não descreverei as longas histórias sobre a Bíblia e sobre a história. Leia o livro. Ele é maravilhoso. Hadjadj nunca se exibe. Ele escreve fácil e tem humor. Mas não vulgariza. O pensamento é exigente.
 Belíssimo o retrato de Mozart que ele faz. A dificuldade que temos em aceitar arte feliz feita por um gênio que foi pessoa feliz. Hadjadj defende sua ideia: o mundo tem dor e tem feiúra, mas o fundo da vida é sempre belo e alegre. Não somos infelizes com momentos de alegria. Somos alegres que se deixam levar pelo orgulho, pela vaidade e pelo medo. A vida é inesgotável, é farta, borbulhante, infinita.
 A ideia de vida eterna é amplamente discutida. Ele é radical: a vida é eterna e somos nós mesmos no além. Nada da perda de memória do oriente. Nada de reencarnar. Ele vê nessas crenças um modo comodista de adiar tudo e não fazer nada. E responde aos ateus: acreditar no nada nos livra de toda responsabilidade. Mais, sem Deus nos tornamos donos de nosso corpo e de nossa vida. Nada mais mimado que pensar assim. Para muitos, nada mais assustador que pensar que após a morte há uma continuação. Voce continua tendo de aturar voce-mesmo, sua esposa, seu pai, seus inimigos. No mundo que ama a extrema liberdade de escolha, o nada absoluto se afigura muito mais tranquilo que o Céu infinito.
 Pois o Céu é uma atividade. Uma entrega ao movimento. Um descobrir sem fim. Um agora que se eterniza em usufruto e um aqui que se estende numa observação sem final. Podemos provar um pouco desse mel em nossos raros momentos de êxtase, em que sentimos nossa infinita alegria. A vida e o mundo como possibilidades que não param de se renovar.
 Para Fabrice Hadjadj, todos somos filhos de Deus e portanto todos temos nosso começo Nele. Olhar para uma pessoa é olhar para esse começo. Amar uma pessoa é amar esse começo. Esse é o mistério.
 ( PS: Faz séculos que a Bíblia é lida, relida, interpretada e reinterpretada...lendo este livro começo a entender o porque...o assunto é eterno... )

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

A VIDA É MARAVILHOSA

   Conheço um intelectual que passou os últimos vinte anos amaldiçoando a vida. Entre goles de bom conhaque e nacos de boeuf bourguignon, ele diz em altos brados que a vida é um buraco sem sentido. Conheço também um professor de filosofia que diz desde seus 15 anos que o homem é mofo sobre laranja podre. Hoje ele tem 60 anos e se aposentou. Mora com seus netos em Bertioga. Pesca todo dia.
  A questão que me sempre deixou pasmo é: Por que eles não se mataram? Se a vida é tão maldita, por que eles não viraram bêbados e ainda mais insistiram em ter filhos?
  Há algo de profundamente estranho em Beckett, Bergman ou Sartre, entre vários outros. Eles exibem para nós um mundo tenebroso. Sartre chega a dizer que o inferno são os outros... Mas eles viveram nessa escuridão? Como conseguiram criar em meio a tanta dor?
  Guarde esses exemplos e vamos em frente...
  Numa barraca na Siria, um pai que teve dois filhos mortos na guerra sorri de uma anedota contada por um primo. Antes, numa favela brasileira, uma mãe que tem dois filhos desaparecidos, gargalha enquanto vê uma novela na tv. Mais antes, num campo de concentração polonês, um judeu sorri ao ver um companheiro esconder uma foto erótica num buraco entre pedras. O mundo é um inferno. Será?
  Falo de mim agora... Ferido em minha vaidade por um amor que não deu certo, eu afirmo em bom som "Que ninguém merece sofrer tanto como eu". Então, colando os fragmentos de minha auto estima covarde, digo para todos que "sou auto suficiente". O inferno são os outros, não é? Para não sofrer, me fecho como ostra. Tudo que preciso para ser feliz eu posso comprar, posso criar ou posso imaginar. Estou, finalmente, CONTENTE.
  Fabrice Hadjadj diz que contentamento é a porta do inferno. Vamos ver por que?
  Crianças conhecem a alegria, mas não o contentamento. Toda criança, solta em suas descobertas, conhece a alegria de estar conhecendo sons, cheiros e cores, e a felicidade de ter alguém que cuide dela. Esse estado de alegria pode durar anos ou apenas dias, mas ele é marca que fica. Modo simples de provar essa verdade: se nunca tivéssemos conhecido o céu não daríamos nome ao inferno. A dor existe em contraste com sua ausência, a escuridão na falta de luz. A tristeza é ausência de alegria. Alegria que é a condição da vida.
  Mas então por que tanta gente triste no mundo?
  Sacada genial de Hadjadj: Para ser triste basta estar só. Na tristeza não dependemos de ninguém. Nem mesmo da sorte. Se a tristeza é uma ausência, ser triste é um conforto. Dispensamos a sorte. Dispensamos os outros. Nos tornamos blasé. Cool. Frios e distantes. É o charme da modernidade. A solidão tristonha e o auto contentamento distante. Sexo, coisas e viagens. Ficamos contentes. Mas nunca alegres.
  A alegria independe de nossa vontade. Ela acontece. E para acontecer há um mandamento único: estar aberto e disposto. O alegre é ridículo. Ele ri. Ele tropeça. Ele fala bobagens. E principalmente, ele se expõe diante dos outros. Para a alegria, o inferno é ter vergonha. O céu são os outros. Aberto, o alegre chora quando triste, e ri quando tem vontade. Vive a angústia da perda da alegria. Mas não se fecha. Espera. Ele possui ESPERANÇA.
  Pessoas frágeis temem se expor. Não riem. Se garantem. E controlam sua vida. Independem do acaso. E se sentem que a alegria é obra do acaso, desistem. Zombam da esperança que perderam. Se contentam em não sofrer. Se distraem.
  O alegre descobre. Vê a beleza numa folha de mangueira. E se deixa seduzir pelas pessoas. Se não sentíssemos a proximidade dessa alegria, a beleza inerente em tudo aquilo que existe, não insistiríamos na vida. Essa a crença de Hadajdj.
 
 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

FABRICE HADJADJ.

   Não há palavra mais usada nos últimos 200 anos que a palavra ILUSÃO. Voce chama uma coisa de ilusão, de ilusória e pronto!, magicamente a questão está resolvida. Ora, não está não! Se a coisa é realmente uma ilusão, como a roupa do rei nú, ao ser apontada ela deixa de existir. Mais importante ainda, uma verdadeira ilusão não se presta a ser descoberta. Ninguém, nem um só homem consegue apontar uma ilusão verdadeira. Exatamente por ser ilusória.
  Temos aqui dois pontos de vista antagônicos. Um diz que a ilusão se desfaz como miragem descoberta. Outro que uma ilusão não pode ser descoberta pois sendo descoberta não é mais ilusão. Nunca foi. Mas continuamos a usar essa palavra levianamente...
  Exponho este ponto, apenas um grão, para mostrar à voce como se dá o pensamento de Fabrice Hadjadj. Ele pega uma imagem e mostra seus lados, seus ângulos possíveis, para só então arriscar uma terceira via. Imenso, ainda estou o lendo, o livro é uma das coisas mais brilhantes que já li. Ele vai fundo. A tese mais ousada, mas não inédita, é a que diz que vivemos num LIMIAR. Nem aqui e ainda não lá. Nem agora e nem depois. Na tensão desse momento que se prolonga por toda a vida, tentamos quando fracos, parecer fortes. Para isso dizemos que o limiar é o destino possível. Que o limiar é um agora eterno. E que o depois não existe. Quando fortes, parecemos fracos, e trêmulos, temos consciência de que o limiar é um momento e lugar precário, que há um depois desconhecido e que a insegurança é necessária para que haja um depois.
  Sim, o livro fala da morte, do paraíso e das ilusões. E dá um golpe mortal ao me convencer de que o paraíso existe no aqui e agora, mas que esse aqui e agora só se revela quando quer, sem que possamos o invocar. Quanto mais queremos esse paraíso, mais longe ficamos dele. Quanto mais queremos a alegria, mais ilusória ela se faz. Nossa reação é então o ressentimento: já que não o tenho, ele não pode existir.
  Hadjadj apresenta um fato: todo animal funciona perfeitamente bem sem as "ilusões" de paraíso, amor ou caridade. Somente nós, não se sabe porque, precisamos dessas "ilusões" para poder funcionar. Se torna fácil crer na química do amor, no design da natureza, ou até num erro do acaso que nos fez "esquisitos". Mas a própria evolução nega o acaso, o erro, a falha. Um animal mal feito desaparece sem vestígios. Se somos a elite dos animais, bem, porque precisamos de muletas como amor, Deus ou pós-vida? Bastaria nossa força e nossa engenhosidade. A consciência da morte seria totalmente inútil.
  Um cético dirá agora: ilusão. E assim, orgulhoso e "forte", realista e moderno, coloca um fim à questão. Mas a tal ilusão persiste, não se desvanece. Persiste até nele mesmo, que por mais niilista que seja, cria paraísos novos, em forma de drogas, sexo ou utopias politicas, para assim suportar viver. E eu então lhe pergunto: Se somos tão superiores, porque criamos essa ideia estranha e sem sentido, de que pode haver algo melhor e maior que este mundo? De onde veio essa imagem?
  Hadjadj diz que não a criamos, que no limiar convivemos com esse paraíso como suspeita ou sombra. E o vemos por segundos, uma ou duas vezes na vida. E que nesse momento em que o vemos, em que o vivemos, sentimos a certeza do paraíso. Céu que não é lá ou mais tarde, é aqui e é já.
  Não há prece, remédio ou ritual que o traga. Que nos faça senti-lo. Há muitos, os mais ocupados em ser felizes e alegres, ele jamais irá se apresentar. Porque ele está, a fenda, a passagem está, no lugar mais banal, mais simples, menor possível. Naquela hora em que percebemos que tudo é sem explicação. Que nada tem uma razão ou um motivo quando procuramos.
  Mas não pense que esse caminho é ficar parado em concentração ou se afastar da ação e viver em zen. Para Hadjadj, esse limiar pode ser visto no convívio com os outros, no amor, na ação dentro da vida. Ou não.
  Olhar para as coisas, para as chaves do seu carro, para o controle remoto, e perceber o mistério que há neles e a alegria que existe no fato deles existirem ao seu lado.
  Esse pode ser um começo.
 

HOLLYWOOD E O GLOBO DE OURO

   Para quem, como eu, é um joe doe ou um zé mané, assistir a entrega dos Golden Globe é como estar de penetra numa festa. Hollywood cava sua sepultura ao dirigir todas as suas reuniões à agenda liberal. O que vemos são prêmios dados a filmes que ninguém vai ver, atores com discursos politico partidários e atrizes que a cada suspiro afirmam a força das mulheres. Nada tenho contra a agenda liberal, nada tenho contra gays e etc, mas o cinema fica em segundo plano. Prega-se a liberdade, ok, mas nunca se fala do amor ao cinema.
   E no meio de tudo, vemos a rainha Meryl Streep, sorridente, posando como um tipo de totem da dignidade balofa. É medíocre. Pior, é pornograficamente auto adulatório.
   2017 teve as piores bilheterias desde 1992. É só o começo.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

MINOTAURO - BENJAMIN TAMMUZ...MESTRE!

   Vixi que livro bom da porra!
   Eis uma expressão que adoro e a uso para exaltar este livro. É uma expressão direta, clara, que fala tudo aquilo que tem de ser dito. E para isso, usa o número exato de palavras, nem a mais, nem a menos. Como faz o autor deste livro. Uma escrita seca, nem uma palavra sobra. Se um editor cortar uma só expressão, uma vírgula for retirada, pronto!, o sentido se perde. É uma escrita quase telegráfica. E nessa secura, bela. Atinge o alvo sempre e conta uma história bela. E amarga.
  São quatro capítulos, e cada um fala de uma personagem. Temos um homem de mais de quarenta anos, uma moça de 21, um grego de 35 e um velho patriarca russo. Estamos em Israel, em Londres e na Suíça. Estamos entre 1900-1970. O livro, de apenas cento e poucas páginas, da série da Rádio Londres, é um enigma. E é claro ao mesmo tempo.
  Cartas que se trocam durante anos. Cartas de amor. Espiões de Israel. O mundo árabe. Escolas de Londres. E mais: almas destinadas a se encontrar, corpos que não têm dono, a alegria que houve na cultura do Mediterrâneo, a perda dessa cultura.
  Tammuz foi escultor, pintor, adido cultural, jornalista. Morreu em 1989. A se julgar por este livro, foi grande. Leia. É uma beleza.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

MINHA COZINHA EM PARIS - DAVID LEIBOVITZ

   David é um dos mais agradáveis escritores sobre comida de hoje. Este é o terceiro livro dele que leio e é o mais delicioso. Morando a mais de dez anos em Paris, ele nos dá receitas enquanto fala de como é viver e comer na cidade. Com fotos, capa dura, é um livro bacana da Zahar. Lemos e aprendemos sobre entradas, queijos, sobremesas, pratos principais e também sobre os hábitos verdadeiramente parisienses.
  Dei este livro de presente e é uma bela sugestão. Mas, ops, o Natal já se foi! Então o oferte para voce mesmo. Acho que seria merecido.

sábado, 30 de dezembro de 2017

SOBRE GATOS - DORIS LESSING

   Se não me engano Lessing ganhou o Nobel em 2007. Não é meu estilo. Ela é feminista demais para meu gosto. Mas aqui lhe dou uma chance. Porque ela fala de gatos. Dos gatos que teve, ou que a tiveram. E leio com muito gosto. Ela tem um estilo simples, sintético, exato. Ela nunca embeleza e nem se estende. Conta as histórias. E elas não são extraordinárias. São ótimas.
  É melhor que o livro sobre gatos de Virginia Woolf? Não dá pra comparar. Difícil ver duas escritoras tão diferentes. Este livro começa na Africa, na infância de Doris, e lá sua família, numa fazenda, tem dezenas de gatos. Ela descreve cenas cruéis. Só quem já viveu em meio aos bichos sabe: a vida próxima à natureza é vida junto à morte. Depois ela vai para Londres e lá tem mais alguns gatos.
  Que maravilha o modo como ela descreve a pobreza da Londres do pós-guerra! Que lindo o modo como ela fala do movimento de um gato, do olhar, da comunicação que se faz entre bicho e humano.
  Não, ela não os humaniza. O foco é no humano em relação ao gato. O humano pensa aquilo que o gato poderia estar sentindo ou tentando dizer. O centro não é o animal porque ele não tem voz. Mas isso não nos impede de amar esses gatos. Gatos filhotes, gatos da rua, gatos estropiados.
  Para o dono de gatos é uma festa. Para quem não os tem é um convite.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

CINEMA

Vejo alguns filmes...e sinto saudades do tempo em que formava minha coleção e via pelo menos uma obra-prima por semana...
   O GOLEM DE LIMEHOUSE de Juan Carlos Medina com Bill Nighy, Olivia Cooke e Douglas Booth.
Nada mal. Fala de uma série de crimes em Londres, 1880. Bom clima vitoriano, um bom ator e um final interessante.
   CORPO E ALMA de Ildiko Enyeki
Da Hungria, um filme que fala do flerte de um casal que trabalha num matadouro. Cenas de vacas sendo mortas e personagens zumbis. Pretensioso, glacial, chato, bobo.
   OS BELOS DIAS DE ARANJUEZ de Wim Wenders
E a carreira de todos os grandes revolucionários dos anos 60-70 tem terminado assim: filmes muito baratos, assuntos de auto reflexão, chatice onanística. Um casal conversa à mesa em um belo jardim. Falam de sexo. E é só isso.
   O GERENTE NOTURNO de esqueci de quem com Hugh Laurie, Tom Hiddleston, Tom Hollander
Thriller tolíssimo, veloz, rápido, cheio de bossas, sobre um ex soldado que toma conta de gente num hotel. Deus! Eu sei que o cinema acabou, mas suas cinzas não precisam ser tão opacas!
   PIRATAS DO CARIBE, A VINGANÇA DE SALAZAR
Esta série começou bem. Trazia Erroll Flynn para o século XXI. Para isso, dividia Flynn em duas partes: seu lado canastrão-carismático era de Depp, ótimo, e o lado heroico era feito pelo outro ator ( quem? ). Mas este filme dá vergonha. Depp passa do ponto e faz um tipo de imitação barata de um Bozo drunk. O roteiro é de uma pobreza infantil e a produção parece barata, vulgar. Chega!
   PARIS PODE ESPERAR de Eleanor Copolla com Diane Lane, Arnaud Viard e Alec Baldwin.
Que filme simples e que filme bom! Mais uma Copolla em um filme ótimo de olhar e delicado de observar. Não podia ser mais simples. Diane Lane, ainda bonita, é a esposa de Alec. Ele não tem tempo livre e deixa seu sócio, Viard, levar sua esposa a Paris. Eles vão de carro, e ele alonga a viagem parando em toda cidade do caminho. E é só isso. Lindas paisagens, flerte sutil, comida e vinho e leveza plena. É um grande filme? Claro que não! Mas a gente vê e crê naquilo tudo. Pode assistir.
   CLUBE DOS CINCO de John Hughes com Molly Ringwald, Ally Sheedy e Judd Nelson.
Que boa surpresa! O filme ainda é relevante! Teens tratados como gente em um filme que os ama e os compreende. Os atores estão excelentes, Ally apaixonante e as falas se tornaram icônicas. Não se faz mais um filme assim porque o cinema não é mais assim. Mas os jovens ainda são. Eu sempre gostei deste filme, mas nesta terceira vez eu o adorei.
   UM MILHÃO DE ANOS ANTES DE CRISTO de Hal Wallis
Uma raridade. Um filme de 1940 com um tema caro aos dias de hoje: monstros e trogloditas em ação sem falas. E é só isso. Incrível é que os efeitos são bons ( para a época ).
   A BRIGADA DO MAL de Andrew V. McLaglan com William Holden.
Nos anos 60 era moda fazer filmes assim. Sobre grupos de homens em uma missão arriscada. Todos esses filmes são filhos dos Samurais de Kurosawa. Este é bem banal. Um grupo de rebeldes deve criar disciplina para lutar contra os nazis. Hoje eles seriam um grupo de heróis de HQ.
   JARDIM DO PECADO de Henry Hathaway com Gary Cooper, Richard Widmark e Susan Hayward.
Produção classe A em um western standard. Cooper e Widmark vão ao México salvar o marido de Hayward, que está preso numa mina  de ouro. Tem índios, tem romance e tem Cooper. Mas há pouco Widmark e falta um bom vilão.
   O HOMEM COM A MORTE NOS OLHOS de Burt Kennedy com Henry Fonda.
As séries de TV de western mataram os faroestes de cinema. E saturaram os fãs. Houve um tempo em que 23 séries estavam no ar semanalmente nos EUA!!! Mas filmes ruins como este também ajudaram. Um filme dos anos 70 que imita a violência dos spaguetti western. É triste, chato, sem porque.
  

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

APRENDIZ DE COZINHEIRO - BOB SPITZ

   Que façam logo o filme. Este é um dos muitos livros escritos tendo em vista uma futura filmagem. Pode dar um bom filme, ótimo até, mas está longe de ser um bom livro.
  Quem me conhece sabe que graças a Peter Mayle, adoro livros sobre a arte de viver. Livros que unem viagens e comida, ou bebidas com construção. Li vários que são aulas de escrita e de bom humor. São livros de luxo, para ter e reler. Dei três de Peter Mayle de presente este Natal, e sei que serão apreciados com o mesmo espírito que nos faz apreciar um bom espumante. Ou queijo.
  Muita gente escreve livros nesse estilo. Vendem bem, são ideais para férias. Passados sempre na Toscana ou na Provence, levam aos americanos e japoneses a exoticidade domesticada do que é latino e antigo. Livros yuppie.
  Este mostra a saga de um escritor que perde a esposa e vai estudar culinária ( gastronomia soa mais in ), na França e na Itália. Bob Spitz escreveu uma bio sobre os Beatles e este livro é autobiográfico. E meio chato. Spitz é verborrágico e ao contrário de Mayle e de Mayes, não tem humor. Pouco observa das pessoas ao seu redor.
 O segredo do bom livro de viagens ou de joie de vivre, é o entorno. Não a paisagem ou a casa em ruínas, são as pessoas. Destacar bons personagens. Spitz nunca faz isso. O livro, além dele, tem apenas sombras.
 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

NATAL

   Nada revela melhor o rancor dos inteligentinhos que o Natal. Eles assumem o papel do ex-namorado que foi ao casamento de sua antiga amada. Ele está lá, bebe, come e ri, mas fica o tempo todo cortando o barato de quem estiver por perto. E "sabe", em seu rancor pobre e ácido, que o casamento nunca dará certo. Incapaz de aceitar o amor dos noivos, ele nega esse amor usando sua "inteligência".
  Recebi ontem, dia 24, um texto de um amigo ateu. Ateu do tipo que prega e que tem fé na não-fé. O texto diz que Elon Musk descobriu que somos programados por ETs. Que eles dirigem nossas vidas. Que vivemos em um mundo ilusório. Virtual. Weeelll....
  Crer nisso é tão absurdo quanto crer na concepção virginal. Com uma diferença que para o ateu faz todo sentido: parece ciência. Mas não é. Trata-se apenas de fé religiosa sem ética. Nessa crença de Elon há muito de budismo, muito de cristianismo e até judaísmo. É uma forma pretensamente nova de contar o que é tão antigo quanto o homem.
  O Natal significa natalidade. É o dia em que se comemora o dom da vida. A capacidade de nascer todo ano. Sobreviver. É a vida nascendo da virgindade. Da pureza. É a realeza se curvando diante da simplicidade. É a benção dos animais na manjedoura. 
  Na verdade o Natal simboliza o sentido que existe na própria vida. Nascer, dar, crer, abraçar, olhar o céu, esperar, unir, seguir, ser humilde, permanecer.
  Elon e meu amigo são apenas crianças.
  Criam fés pretensamente novas.
  Prefiro as antigas. Séculos e multidões podem estar mais próximas da verdade.