segunda-feira, 21 de agosto de 2017

SUICÍDIO E ALMA - JAMES HILLMAN

   Na verdade é um livro indicado para terapeutas. Ele ensina um modo de lidar com pacientes suicidas. E fala, de uma forma interessante, corajosa, do que é esse ato.
   Hillman morreu em 2011 e foi um dos mais lidos junguianos dos anos 60-90. Neste texto ele defende a não-especialização dos psicólogos e, mais ainda, faz uma defesa apaixonada do direito à morte.
  Construímos nossa morte dia a dia. Nossa alma, parte mais importante de nós mesmos, luta por evoluir, crescer, desabrochar. Mas, na vida, só nasce aquilo que se desfaz, aquilo que morre. Para uma nova fase aparecer, para a vida se renovar, é necessário se deixar morrer. O suicida é aquele que não soube simbolizar a morte, que não entendeu a morte e que escapou do desespero. Não existe mudança sem dor, não há morte sem desespero, não se encontra nada sem que se perca tudo. É um fato radical, não existe acordo: crescemos criando mortes. A morte da infância, do amor, dos pais, do passado, das esperanças, das certezas, da fé. E renascemos somente após morrer. O suicida se poupa disso tudo. Ele mata seu corpo por não suportar a morte da alma. Ele não é o grande desesperado. Ele morre antes do grande desespero.
  Nosso mundo, científico, ama a vida. E considera que vida boa é vida longa. Prolonga-se a vida, mesmo que mal vivida. Mais que isso, poupa-se a pessoa de toda morte. Vida sem morte, sem símbolo, sem luto.
  A forma como Hillman explica a influência, nefasta, da medicina sobre a terapia de alma é instigante e esperta. Médicos lidam com sintomas e curam sintomas. Psicólogos têm a ilusão de poder curar sintomas. Se esquecem que o sintoma é a pessoa. Médicos dão diagnósticos e aliviam a dor. Psicólogos querem aliviar e diagnosticar. Diagnóstico em psicoterapia é uma piada. Cada ser é sua dor, cada ser é uma alma única. Pior de tudo, o médico deseja que o doente volte a ser o que ele era antes da doença. Um paciente em terapia não pode voltar a ser o que foi um dia. Isso seria negar sua evolução rumo à individuação. Na fantasia de ser um "médico", psicanalistas vendem a ideia de que uma pessoa é uma origem eterna, um ser criado na infância, e que todo mal vem de lá. Como patologistas, querem crer que uma pessoa pode ser reduzida a pedaços mínimos, partículas mais simples, átomos comuns. Não. O paciente é uma vida que se faz aqui e agora e não no passado. Sua dor é agora, seu sofrimento é agora, seu desespero é uma presente que não passa. Não existe volta "ao início".
  O suicida é o individualismo levado ao extremo, e por isso é tão mal visto pela sociedade. Ele morre quando e onde escolhe, é responsável por seu ato, por seu fim. E para ele esse fim é o fim da morte. A alma, ansiosa por nova vida, leva a destruição do antigo ao seu extremo. Perde o símbolo, torna tudo óbvio, sólido, imediato. Mata o corpo.
  Um terapeuta não tem como impedir um suicida. Mas pode e deve participar de seu ato. Ouvir e lhe abrir caminho para o desespero. A única chance é essa, facilitar o diálogo entre alma e consciente. Respeitando sempre a morte do ser. A sua morte.
  Eu já morri mais de quatro vezes. A última foi em 2010. Todas foram marcadas por desespero, vazio, falta de vontade, medo, sensação de prisão, desperdício. Todas terminaram em renascimento, um novo modo de sentir, de querer, de ver a vida, de aceitar as pessoas. Não há uma receita para renascer. Pois não há uma receita para morrer. O suicídio vem quando a pessoa, mais que viver, perde o dom de morrer. Ela não consegue mais morrer, não consegue sentir a agonia, o desespero, a desesperança. Ela seca dentro de seu corpo e a alma, essa nossa parte que nunca morre e desconhece o tempo, que vive em transformação, reclama a morte, seu direito a mudança radical, ao crescimento. O corpo se rompe. Morre. A alma vence. Sempre vence.
  Para Hillman toda morte é um suicídio. Construímos nossa morte ao comprar um carro, uma moto, ao tomar uma droga, ao começar uma viagem, ao tomar sol. Ao nos apaixonar.
 

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

NO AEROPORTO

   Amamos aquilo que tememos...é um chavão e às vezes é uma verdade ( só às vezes ). Tenho receio de pegar estrada, mas quando estou nela fico doido de alegria. Estou numa agora, perdido de novo, tentando chegar no aeroporto, que fica fora da cidade. Passam campos limpos e sem fim, bichos em currais, algumas ruínas, pontes e riachos. O carro vai a 150 km por hora e eu me deixo ir com a paisagem. Nossa alma precisa de espaço.
  No aeroporto há uma alegria ansiosa. Sinto a energia do lugar assim como senti os eflúvios virulentos do IML. As pessoas aqui estão vivas, em movimento, e me dá uma vontade imensa de embarcar. Mas não para Paris ou Londres. Sinto vontade de ir ao Tahiti. De ir à Bali. Ao Congo. Lugares que podem fazer diferença em sua vida. Lugares de viajantes.
  Esperamos minha mãe que volta de Portugal. Ela acabou de perder seu filho, meu único irmão. Ele se foi porque sua alma, presa a um corpo doente, precisava voar. Ele quebrou a casca e saiu pelo ar afora. Livre afinal.
  Pessoas esperam com a gente. Uma muçulmana tem um cartaz onde se lê: I Love You Kamal. Ela usa um véu amarelo. Há outro cartaz onde se pode ler: Welcome Pravid! Um menino indiano que vem morar um tempo no Brasil. Chega um monte de gente vinda da Irlanda via Ethiópia. Uma mistura de caras com prancha de surf e negros cor de petróleo. E lindas meninas. Um grupo de hare krishnas cantam com tambores e sinos. Esperam mais um indiano.
  Minha mãe pegou o avião sozinha. Ela é forte. No voo uma menina de olhos e rosto lindos como um sonho, sentou-se ao lado dela. E veio a amparando por todo o caminho. Ela é brasileira e namora um luso. Vai lá duas vezes por ano. Ficam juntos 3 meses, e 9 separados. Minha mãe fala de seu luto. E a menina a consola, ajuda, segura sua mão.
  É noite e voltamos pelas estradas escuras. Meus primos e ela conversam. Eu sei que vamos todos sobreviver. Eu sei que a dor nunca será esquecida. Ela vai repercutir lembrando o valor da vida e da morte.
  Luzes ao longe em janelas espaçadas. A vida nasce todo minuto. Porque a gente morre a toda hora.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

The Band, Up On Cripple Creek



leia e escreva já!

RICHARD FRANCIS BURTON - EDWARD RICE. A MELHOR BIOGRAFIA QUE LI NA MINHA VIDA ATÉ AGORA.

A JORNADA DE TODOS SE DIRIGE A SUA PERFEIÇÃO....Mantiq Ut Tayr.
  No último capítulo da vida de Burton, ele, doente, deprimido, traduz As Mil e Uma Noites. E escreve 500 páginas de notas sobre a obra. Segundo Burton, a vida é uma jornada, uma PEREGRINAÇÃO. Daí o fato de que todas as obras literárias que valem a pena, são viagens, são trajetos, são peregrinações. ( mesmo que interiores ).
  Mais que islâmico, Burton foi um seguidor do sufismo, o mais sutil dos ramos do islã. Não há como saber se Burton realmente acreditava em Allah, ou se ele apenas era um curioso. Mas, e isso é certo e verdadeiro, ele seguia a Tariq, o acobertamento da fé, o disfarce, o não revelar aquilo que se sabe de mais íntimo. No centro da fé islâmica mora o segredo. Não se deve dizer o que se sabe, o que se é e o que se deseja. Burton seguiu isso. Mais, viveu isso.
 O Nós e o Tú são um só. Assim se começa a explicação de todo segredo. Por detrás de todo ego há um Nós. E voce, o Tú, é Nós. O eu é a ilusão. Morremos quando morre o eu. Vivemos quando sabemos o Nós. Burton chegou até aí. Havia muito mais.
  O pai de Richard Francis Burton viajava. Inglês, era um irrequieto. Roma foi onde mais ficaram. Lá, o jovem Burton conheceu o calor, a sujeira, a balbúrdia, a vida solta e vadia. Se misturava na rua. Depois veio Oxford, Cambridge, mundo que o matava de tédio. Ele jamais amou a Inglaterra. Seu mundo era quente.
  Virou militar e diplomata. India. Sexo, muitas mulheres, caçadas, e o hinduísmo. O interesse de Burton pela religião era o do viajante. Ele ansiava por saber, por encontrar, por entender. Se transformava. Fisicamente ele se tornou cada local onde viveu. Virou hindu na India. Cigano entre ciganos. Depois Egito. Afeganistão. Muçulmano.
 Seu respeito permaneceu islâmico. Sua família era católica. Peregrinou à Meca, e nessa jornada ele poderia ter morrido. Era heresia um branco ir à Meca. Mas ele não era mais branco. Era um negro para os ingleses. Um renegado. Um maluco. Foi a Medina. Damasco. Amava as mulheres do oriente. Mulheres que amavam o sexo, que faziam sexo, que tinham prazer. Burton traduziu e levou o Kama Sutra ao ocidente. Escrevia 11 livros ao mesmo tempo. Lançou mais de 80 em vida. Um deles sobre seu grande ídolo: Luis Vaz de Camões. Burton achava que Camões era seu eu anterior. Se via nele. Traduziu o poeta luso para o inglês.
  Burton falia sempre. E viajava sem parar. Goa. Brasil. Paraguai. Argentina. Perú. Percorreu o Pantanal de cavalo. Navegou pelo rio São Francisco. Procurou ouro em Minas Gerais. Morou em SP e em Santos. Odiou o clima. Fez amizade com Pedro II.
  África. Andou selvas a pé. Aprendeu mais línguas nativas. ( Sabia mais de 70 línguas. Do persa ao tupi ). Conheceu florestas onde brancos nunca haviam pisado. Febre, feridas, bichos, infecções, uma lança que perfurou sua face de lado a lado. E ele continuava. A pé. Meses, meses e anos. Era 1870, o auge do mito do viajante inglês, do descobridor de lugares isolados, do civilizador de negros, do caçador branco, do pesquisador afiado. Muitos morreram em florestas, geleiras, desertos. Burton sobreviveu e sempre voltou.
  Amou o deserto. Deus vive no deserto. No silêncio. No nada. Nas estrelas do deserto. No frio da noite e o calor do dia. No limite da vida. Entre os beduínos que ele amava. Sempre em marcha. Sempre sem casa. Porque a casa era tudo. Todo lugar.
  Casou e não teve filho. A esposa era um romântica católica. Ela queimou documentos secretos dele. Sim, pois Burton era um agente do governo inglês. Um James Bond real. Abria caminho para o imperialismo. Mas disso quase nada se sabe. Ela queimou tudo. O que a rainha não esperava era que o James Bond se tornasse um negro, um nativo, um árabe.
  Burton dizia que só o islã salvava India e África da sujeira, da imundície, da crueldade completa e total. Havia limpeza, clareza e ética no islã. Todo um modo de ser que civilizava. E ele advertia que a Europa pouco tentava entender isso. A beleza do islamismo.
  Ele morreu feito sir. E famoso. Um dos símbolos do Império. Mas isso só veio no fim da vida. Porque na maior parte do tempo ele era o esquisito, o pornógrafo, o imoral, o negro, o escândalo. Foi traído, foi enganado, foi roubado. Seguiu sua jornada.
  Estava escrito. Tinha de ser assim. E assim foi.
  Nunca li melhor biografia.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

IRMÃO

   Nós rodamos pela estrada e nos perdemos. Isso foi ontem, após o enterro. Caímos no rodoanel e entramos na Imigrantes. O tempo cor de chumbo e a conversa dentro do carro que nunca cessa. Porque temos de falar. Temos de falar muito. Palavras não expressam a verdade, mas o ato da fala, a força que nos faz emitir sons, esse ato diz muito. Verbo, sujeito e conjunção nada significam, mas soltar um som, um uivo, um blá blá blá, uma canção sublime, isso tem significado. A gente sabe.
   Cruzamos imensidões de água. Espelho cinzento, frio, retrato. Cada segundo gasto olhando a água era um prazer melancólico para mim. A natureza entende a morte e o que há de natureza em nós a aceita. A ajuda vem. Ela vem. Ela vem.
   Tomamos café numa padaria. Quando o liquido quente cai no meu estômago eu sinto que tudo está como precisa estar. Há um encaixe. E o carro corre muito, corta caminhões agressivos, segue a BMW do meu primo, e uma BMW corre muito mais que um simples GM econômico. Mas o carrinho se esforça.
   Não. Meu irmão não foi um samurai. E nem um inventor maluco. Meu irmão foi um homem que amava sua esposa. E que vivia só para ela e ela só para ele. Nunca o vi mentir. Nunca o vi esquecer. E só o vi chorar uma vez. A doença, a doença que destrói aquilo que ela pensa proteger, destruiu a vontade de meu irmão. Ele sabia que estava em auto-rebelião. Suas forças de defesa se voltavam contra ele mesmo.
  Mas não mais falarei de doença. Ela morre com ele e eu vi o fundo da cova onde ele está. A vinte metros de meu pai. Entre grama, pássaros que voam, vento em árvores. Um banco verde de madeira. Espaço para abrir as asas.
  Meu irmão era bonito. Tão bonito que me dava inveja. Ciúmes. Chegou à vida chorando, um bebê que não dormia e não comia. E que pegou laringite e quase morreu. Depois se tornou o que tinha de ser, alegria do meu pai, suporte da minha mãe. Era o favorito do pai. Jamais brigaram e falavam a mesma língua. Se entendiam como amigos. Com minha mãe havia um atrito. Ele pensava ser eu dela o favorito. Não era. Eu apenas sabia mais como falar com ela. Ela o admirava e respeitava. Por mim ela tinha preocupação.
  Fomos amigos. Muito amigos. Futebol nas tardes de domingo, no Morumbi, quase virei torcedor do SP por ele. Jogar bola na chuva. Rir do Chacrinha, do Carnaval na TV, de videoclips ruins, de desenhos animados bobos. A gente gozava as coisas, inventava novas palavras, tinha códigos secretos, rimas, ataques de riso sem fim.
  Ele bebia néctar de flores. É verdade. E engolia bananas até vomitar. Eu falava muito. Ele agia. Eu tinha melancolia. Ele brincava sem parar. Eu tinha insônia. Ele roncava. Eu falava. Ele se movia. Corria. Pulava. E às vezes a gente brigava...
  Agora é ir em frente. Pedir ajuda à meu pai, à ele, à meus deuses. Agora é abrir as asas. Voar, navegar, seguir pela água, pela Serra do Mar. Levar sua lembrança como uma das penas mais claras. Sua seriedade adulta que se desfazia em brincadeiras de bebê. Ele sabia amar. E por isso foi amado. ( Mas houve a doença... ).
  É cedo, muito cedo para não sofrer por ele.
  Ainda falo com ele dentro de mim.
  O BMW pega um desvio, e acena. Eu e minha prima seguimos rumo à casa. Minha mãe chega amanhã.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

ISLÃ

   Doze anos depois estou relendo a biografia que Edward Rice escreveu sobre o aventureiro inglês Richard Francis Burton. Aventureiro é modo de dizer, pois Burton foi soldado, filósofo, escritor, descobridor e o primeiro ocidental a se tornar mestre do sufismo, corrente mais sofisticada e sutil do islã. Mas não vou falar do maravilhoso livro agora ( é a mais fascinante biografia que li e deveria ser obrigatória em dias como os de hoje ). Vou falar do islã.
   Uma das coisas mais legais deste volume é que ele fala do islamismo antes do 11 de setembro. Rice o escreveu nos anos 80. E Burton esteve na India, no Egito, na Somália, em Meca por anos e anos. Ele viu os mestres, ele fez os sacrifícios, ele viveu com mulheres de lá. Ele se tornou um deles. Por curiosidade e por fé. Era um europeu gnóstico. Entrou de cabeça na cabala e depois na religião de Maomé.
  Burton criticava o hinduísmo. O cristianismo. Mas nunca o islã. E um dos preceitos do sufismo é calar sobre sua fé. Não se mostrar diante dos infiéis. Ser invisível.
  O cristianismo, segundo Burton, errou muito em seus primeiros séculos. Errou por não insistir na reza diária como caminho para a concentração e a iluminação. Errou por não observar os horários do dia como momentos sagrados. Errou por não seguir uma receita de alimentos impuros. Errou por divulgar a dúvida e não a absoluta certeza. E exatamente em sua primeira grande crise, o século VI, surge o islã. Maomé traz de volta tudo aquilo que o cristianismo perdera.
  Para o seguidor do islã, a vida não tem questões a serem respondidas. Não há dúvidas. Vivemos num vale de lágrimas. Mas esta vida significa apenas um ponto, uma pulga, em vista da imensidão da eternidade. Estamos aqui para orar à Deus e para amar à Deus. Não para O questionar. Jamais. Todas a respostas estão no Corão. E só nele. Devemos ser limpos. E seguir os preceitos.
  Claro que existem as correntes que se detestam e se negam. Burton conheceu todas elas. E Rice as explica. É um intrincamento de caminhos sutis ou não. Mas o islã tem algo que o cristianismo tenta esconder : proibições. O cristianismo, sempre politico, fez concessões para poder crescer. O islã cresce por apresentar um mundo que não muda nunca. Ele é o que é e nunca mudará. Nega o tempo. Tempo que o cristianismo ama e venera.
  Neste momento de preconceitos de ambos os lados, ler este livro é acima de tudo um ato de paz.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

A MORTE DO AMERICANO...SAM SHEPARD IS DEAD NOT.

"Querida, eu vou lá fora quebrar a barreira do som e já volto...eu quero bacon and eggs hoje".
Foi gente assim que fez o maior país do mundo. Essa frase de cima exemplifica Chuck Yeager. E CY foi feito por Sam Shepard no cinema. E tinha de ser Sam.
Não nascerão mais americanos como ele. Porque hoje o modelo de homem que mistura intelectualismo com virilidade cowboy se perdeu.
Mas foi esse tipo de cara que fez o país. Emerson, Lincoln, Whitman, Melville.
Não vou dizer nada sobre ele.
Vou falar que Patti Smith está rezando agora. E com velas acesas.
Vou falar que Jessica Lange está chorando agora. E se veste de preto.
Ele foi Chuck Yeager mas foi também o fazendeiro impotente no melhor filme de Malick.
E escreveu roteiros.
"Querida vai dar comida as galinhas hoje que eu tou acabando um conto fodido de bom aqui".
Isso é América.

Patti Smith and Sam Shepard live at the Abbey Theatre, Dublin



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THE RIGHT STUFF Chuck Yeager (Sam Shepard) breaks The Sound Barrier



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Z, A CIDADE PERDIDA de James Gray com Tom Holland e Robert Pattinson.
O coronel Fawcett, soldado aventureiro inglês que se perdeu nas terras do Mato Grosso ganha um filme que não foi bem de bilheteria. A crítica gostou, eu achei este filme apenas morno. Li o livro e sei que Fawcett tinha uma personalidade muito mais rica do que o filme mostra. Falta mistério, falta o senso de desconhecido da loucura dele. Andar por onde ele andou quando andou é muito mais do que aparece aqui.
LOUCOS E PERIGOSOS de Mark Cullen com Bruce Willis e John Goodman.
Nas primeiras cenas Bruce Willis anda de skate pelado na rua. O filme é isso. Willis é um cara legal, mas sem nenhuma ambição como ator. Nunca teve. Penso que isso depõe a seu favor. Penso que ele viu a muito a futilidade de uma carreira. Ele ganha uma grana, paga as contas e tudo ok. Eu me diverti vendo o filme porque gosto do Bruce. Mas sei que o filme é uma zona.
UMA SUAVE MANHÃ de Neil LaBute com Stanley Tucci e Alice Eve.
Um cara e uma moça discutem. E falam. E se agridem. E enquanto isso voce morre de tédio. Não entendo pra que um filme desses!
MARIA ANTONIETA de Sofia Coppolla com Kirsten Dunst, Jason Schwartzmann e Steve Coogan.
Ótimo filme. A rainha fútil vira uma menina inocente dos anos 2000. E nossa identificação com ela aumenta muito. O filme tem uma trilha anos 80 muito boa. É melancólico, é belo e é um ato de coragem. Escrevi mais sobre ele abaixo. Procurem.
AS CRÔNICAS DE NARNIA de Andrew Adamson e Michael Apted
Janeiro de 2014 foi um tempo delicioso em que li os livros de CS Lewis. Os filme vejo agora. São como eu pensava, uma aventura Disney bem infantil. Aumentam o papel do Rato, dão alguns toques teens e jogam fora parte imensa do simbolismo cristão. Pois é.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Sumer is icumen in



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"Death Be Not Proud" Tenth Holy Sonnet by John Donne in the movie "WIT" ...



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ELEGIAS AMOROSAS - JOHN DONNE. SEXO, ESCRITA E MADRIGAIS.

   Temos a ilusão de que 2017 é tempo de sexo. Que nunca se transou tanto. Bem, no mundo da NET provavelmente sim. No mundo real...
   John Donne é um poeta e padre inglês do mesmo tempo que Shakespeare. Na primeira metade de sua vida ele foi um poeta que escrevia basicamente sobre sexo e sobre a beleza. Sua pena era ferina, satírica e sempre feliz. Na segunda metade de sua vida ele se fez padre católico. Não por culpa ou por revelação espiritual. Sua decisão foi apenas um modo de ganhar a vida. John Donne sempre foi crente e nessa segunda fase ele se torna um escritor de sermões. Os melhores de sua língua. Este livro que acabo de reler tem sua obra profana. E devo dizer que poucas vezes li algo tão feliz, exultante, risonho, satírico e bonito. Donne escreve com profusão de imagens. Ele pinta com palavras e todas essas pinturas são enfeitiçantes. Lemos cantando. Rindo e rangendo os dentes. Seu tema é a mulher. O amor que ele tem por elas. Amor que é sempre carnal. Ele pode começar falando da Lua, da floresta ou das flores, mas logo percebemos que é tudo introdução, pois logo ele fala dos seios, do sexo e das pernas. Ao mesmo tempo ele escarnece das mulheres feias, das ciumentas, das fofoqueiras, dos maridos cornos, das fétidas, das que possuem doenças venéreas. É o mesmo mundo de Chaucer, a Inglaterra alegre e impulsiva de antes da revolução industrial.
  Para onde foi esse mundo cantante...Sobrevive claro. Está presente em estádios de futebol, em ruas cheias de cockneys, na região norte do país. Mas é reprimido. Desde mais ou menos 1800, quando a nova riqueza inglesa trouxe de sopetão a obrigação de ser "inglês". E esse novo rico inglês impôs ao mundo a imagem de um povo frio, indiferente, algo snob. Para onde foi esse mundo cantante...Ele surgia em bandas de rock sujas ( Keith Richards e Joe Strummer estariam em casa no mundo de Donne e de Ben Jonson ). Ele surgia em astros do esporte como Paul Gascoigne e George Best.
  Ler os poemas de John Donne é uma alegria. E o que define a Inglaterra de 1600 é uma encantadora alegria de viver. Terra de piratas, ela vive solta em estradas ruins e tabernas escuras. E como se faz sexo!!! 99% do tempo os homens pensam em fornicar e no resto do tempo fogem de maridos cornudos. Estamos longe, muito longe do mundo romântico. Em Shelley, Keats e Wordsworth há a dor de se ter perdido o mundo de Donne. Em Donne há a alegria por ser o que se é. 200 anos que parecem 2000.
  Antes de Donne andei dando mais uma olhada em Wittgenstein. Nada pode ser mais estranho. O filósofo decreta o fim da palavra viva. Donne faz partos diários de palavras risonhas e fedidas. Amo os dois, mas Donne é maior.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Bruce Springsteen - "Stayin' Alive" (Brisbane, 02/26/14)



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AS ALTAS MONTANHAS DE PORTUGAL - YANN MARTEL.

   São 3 capítulos longos. Em cada um, uma história com tempo e personagens diferentes. Todas se passam em Portugal.
  A primeira é em 1903. Um rapaz vai de carro de Lisboa até o norte do país. Automóveis são novidades e a viagem é um pesadelo. Esse rapaz quer encontrar uma relíquia numa igreja esquecida. O texto, detalhista às vezes, outra vez apressado, parece árido. Difícil de ler.
  A segunda história é a de um patologista. Na noite de ano novo de 1939 ele vivencia o horror. É dos textos mais perturbadores que já li. Chego a pensar que não deveria ter lido. Não contarei detalhes.
  O terceiro justifica as falhas dos outros dois. É encantador. Fala de um senador do Canadá que adota um chimpanzé. Riquíssimo em sentido e em diversão, é um primor em termos de conto filosófico. A única coisa que posso dizer é que a mensagem é sublime.
  Yann Martel escreveu a Vida de Pi, e este novo livro não faz a metade do sucesso daquele. Penso que seja porque este começa de um modo muito antipático. E também porque Portugal não é tão exótico como a India. Os dois têm paralelos: viagens, busca, sofrimento intenso, algum humor e Deus como uma presença escondida em animais. Penso que este livro daria um filme ainda melhor que PI. Só que bem mais difícil de se fazer.
  Há um momento, sublime, no livro, em que o personagem entende que melhor seria aprender a ser um bicho, que ensinar um bicho a parecer gente. Senti isso, intuitivamente, em 1991, com meu cachorro Nicky. Aprendi com ele a ser um bicho. E ser um bicho não é fazer palhaçadas ou aprender a brigar. É aprender a NÃO FAZER NADA. A ignorar o tempo e ficar simplesmente VIVO.
  Essa descoberta, que parece enganosamente simples, é de uma dificuldade imensa. Nossa razão nos impele a aproveitar o tempo, usar o tempo, a viver a vida. Mas na verdade viver é simplesmente esquecer de viver.
  Não é um livro fácil e não é bem escrito.
  Mas todos vocês deveriam tentar o ler.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

MARIA ANTONIETA É UM APURADO RETRATO DE 1999.

Não é um filme feito em 1999. Ele é deste século. Mas Sofia Coppolla faz um dos mais perfeitos retratos da geração que tinha 20 anos em 99. Mas vamos por itens...
Um dos mais exaustivos problemas em estudos literários, e que serve para tudo mais, é o fato de que jamais vamos saber o que significava ler Dante em 1400 ou assistir Wagner em 1860. Nós somos, em nossa parte mais profunda e básica, os mesmos homens de 1400 ou de 1860, mas jamais saberemos o que era SER um homem desses tempos. Sabemos o que um leitor de Dickens queria, temia, pensava, mas não sabemos "como ele se sentia lendo Dickens". Aquilo lhe era engraçado, triste, perturbador, tolo, mero passatempo, inesquecível...não há como saber. Basta dizer que um livro que voce leu aos 15 anos não é o mesmo aos 40 anos. Voce é o mesmo leitor. Mas sua experiência de leitura é outra.
Sofia Coppolla foi esperta. Um dos grandes problemas das adaptações literárias e dos filmes históricos é que os personagens se tornam "limbo". Não são figuras da época retratada porque não sabemos como elas andavam, falavam ou riam. E não são de nosso tempo, pois isso pareceria "tolo". ( Game of Thrones é um exemplo desse limbo ). Sofia teve a sacada de fazer da princesa da Austria uma menina de 1999. Isso faz com que o público de hoje SINTA o que seria ser uma princesa em meio a um ambiente hostil. Ninguém no filme tem atitudes ou gestos de 1780. Eles falam, agem e pensam como nós. O rei Luis é apenas um boa vida velho, o herdeiro real é um nerd virgem e a princesa é uma patricinha gastadora e de bom coração. Eles, os verdadeiros, eram desse jeito...Impossível saber como eles eram. Então, já que tudo na história oficial é uma convenção, que se faça aqui mais uma convenção.
Kirsten Dunst mereceria o Oscar do ano. Ela consegue ser crível em um papel impossível. Seu rosto de maravilhamento e de deslumbramento é sublime. Ela quase não atua, o que sempre, como Cary Grant dizia, é o mais difícil. Atuar, super atuar é simples. Dar um show de atuação, maquiagem e trejeitos, isso é muito mais fácil e óbvio que atuar "quase" como se não se atuasse. Quem subiu em um palco sabe disso. Dunst faz isso. O filme é uma linda oferta para ela. A gift.
Muito se falou da beleza estética do filme e do fiasco que ele foi. Nem isso e nem aquilo. Hoje ele está se tornando cult e a beleza não se compara aquela de Ophuls. Quem já viu um filme histórico de Ophuls sabe que a beleza de Coppolla é simples. Nunca suntuosa.
A crítica atual é tão mal preparada que chega a dar desgosto. Ninguém percebeu que toda vez que a princesa acorda e tem seu ritual da manhã, a música que toca é a mesma de ALL THAT JAZZ. A peça de Vivaldi. Só faltou ela dizer "Showtime!", como faz Joe Giddeon no filme genial de Bob Fosse. Esse é o paralelo genial de Coppolla. Giddeon fuma, bebe, transa muito e se arrebenta. Ele é o cara de 1960-1970, o cara do século XX. Quando no futuro olharem esse século todos os historiadores dirão que foi um século onde todos eram Joe Giddeon: Loucos. O que Maria Antonieta diz, e por isso a mesma música, é que ela aposta que este século será visto no futuro como um tempo parecido com Versalhes 1780. Luxo, futilidade, festas, inocência infantil e consumo. Jogo, drogas e risos em MEIO À RUINA TOTAL. Algum crítico notou isso...Não lembro de ter visto.
A revolução francesa venceu. Nosso tempo é o tempo que ama a liberdade, a fraternidade e a igualdade. Poucos percebem que elas são miragens e que sempre vão ser. Isso porque a liberdade não existe, pois somos limitados pela natureza, a igualdade nunca pode ser completa, pois nascemos diferentes e desejamos diferente, e a fraternidade é uma mentira. Somos naturalmente competitivos. Mas, nunca tanta gente viveu bem. O mundo ocidental tem uma fartura que não foi sonhada em tempo algum. E disso o filme também trata. Pois 200 anos de capitalismo moderno fez dos ricos pessoas menos ricas ( ainda ricas demais, mas muito menos que os ricos de antes ) e fez dos pobres pessoas com um estilo de vida inimaginável em 1780. ( Falo do mundo que contava em 1780 ). Milhões de pessoas vivem hoje a vida de Maria Antonieta. Jogo, droga, festa e sapatos novos. E inocentemente ajudam os pobres lhes dando brioches.
Por fim, o filme começa com Gang of Four. Uma obra prima do rock de esquerda dos anos 80. Isso faz voce esperar um filme sobre a revolução. Mas é um blefe. A trilha sonora, maravilhosa, é sobre melancolia. Pois junto às festas, há todo o tempo a sombra cinza da tristeza que flutua. Muito anos 80. Muito 1999. Muito hoje. Nada 1780. ( Incrível como para a geração nascida nos anos 60 a trilha sonora é tão importante quanto o filme em si. Culpa dos maravilhosos hits feitos entre 1963-1983 ). A trilha tem Sioussie, Cure, New Order, Bow wow wow e até Adam Ant. É um clipão chic dos anos 80. Muita gente disse isso. Mas provo aqui que é mais, muito mais.
Enjoy it!