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MÚSICA QUE CONVERSA

Simon Phillips é um desses bateristas que já tocou com todo mundo. Em casa tenho um vinil em que ele toca, aos 18 anos, com Eno e Manzanera e outro com Jeff Beck. Num post recente ele diz que acha estranho o fato de que a maioria das bandas atuais tocar sem olhar um para o outro. Não há comunicação no palco entre os membros da coisa. Desse modo, a música não flui inesperada, ela não acontece naquele momento exato, ela se faz como foi ensaiado. A vida não acontece, ela está pronta. -------------- Ele recorda de ter visto um show de Chick Corea quando adolescente e do modo como Corea jamais olhava para seu piano. Colocado em um ponto do palco onde ele podia ver e ser visto, seus olhos observavam e falavam com os músicos que lá estavam. O show, completamente livre, comunicava energia entre os músicos e esparramava luz para a plateia. ---------------- Simon vai logo no ponto mais extremo, jazz não existe sem comunicação entre músicos. Mas sim, o rock tinha uma expontânea comunicação entre músicos que é rara nos dias de hoje. Cada músico é um indivíduo e isso é reflexo do fato de que vivemos em bolhas interligadas. Estamos juntos em nossa bolha, todos em um grupo que faz a mesma coisa, mas ao mesmo tempo, voltados para uma tela que nos isola do aqui e do agora. É exatamente a postura de um músico de 25 anos numa banda comum. ------------------- Uma banda é reflexo do momento em que ela nasce. Assim, Beatles era um grupo de amigos sorridentes festejando a vida porque essa era a atitude dos baby boomers nascidos na segunda guerra. Se o Led Zeppelin eram hedonistas arrogantes se exibindo em um palco, isso era reflexo da revolução do EU e do mundo de fartura e sexo de então. Sex Pistols era uma juventude entediada sem sonhos e quando nos anos 80 surge o tecnopop, aí começa um individualismo blasé. Até a revolução punk se observa a total interação no palco. Os músicos se olham, se tocam, falam um com o outro. A partir de 1980 começam a nascer grupos onde os músicos parecem sozinhos no palco. Ignoram o público e ignoram-se. Era uma atitude estética, uma busca pelo cool, hoje é uma verdade existencial, um isolamento real. Cada um toca sua parte e por favor não me atrapalhe. -------------- Músicos que possuem alguma influência de jazz ou punk ainda interagem e muito, afinal, eles querem parecer Sly Stone ou Iggy Pop. Mas é cada vez menos natural. ----------------- Eu, quando vejo um show, fico fascinado, quando noto um guitarrista solando e ao mesmo tempo mandando dicas para o baixista, sobre o lugar onde o solo irá aportar. Música, música que vale à pena, é uma conversa. Se os músicos se calam ela não tem porque.

BLIND FAITH, A BANDA

Quando em 1968 um bando de caipiras do Canadá lançou um disco chamado Music From The Big Pink muita gente ficou atônita. Hoje, tanto tempo depois, nós não entendemos mais o que havia de tão diferente em um disco pop. É preciso entender. Imagine que voce tem 22 anos em 1967 e que tudo que voce escuta são coisas como The Doors, Hendrix, Cream, Traffic, Grateful Dead, Love e o soul music da costa leste. A moda era coisas groovy, ou seja, bem louco. Solos de guitarra, efeitos de estúdio, sons orientais, o mellotron, cítaras, flautas, viagens de LSD. Então no auge de tudo isso, tempo em que até Bee Gees e Neil Diamond soavam sob drogas, surge esse disco sem drogas, sem viagens astrais, sem sons esquisitos, sem solos longos, sem nada que lembrasse hippies. Eram canções que falavam de voltar pra casa, ter amigos, formar um lar. Era a sanidade em meio ao caos. Todo mundo, inclusive Beatles, absorveu The Band, e Eric Clapton mudou sua vida para sempre. Desde então toda sua carreira, de 1969 até hoje é uma homenagem à The Band. Sua mudança foi radical e começa aqui, com o grupo Blind Faith. --------------------- Clapton sai do Cream, cheio das ego trip, dos fâs que mal ouviam o som, dos solos de 15 minutos. Cansado, ele começa a fazer jams com Stevie Winwood, o cantor tecladista do Traffic. Ginger Baker aparece e pronto, surge um super grupo. Gravam um disco e fazem alguns shows e como esperado, não dá certo. Ginger continuava na trip hippie de solos longos e Winwood não abria mão das influências groovy. Eric logo pulou fora, se unindo a Delaney e Bonnie, um duo americano raiz. Este disco, caótico, chuta pra todo lado e erra alvos. Nem um produtor fera como Jimmy Miller conseguiu salvar a produção. O som é ruim, flácido, preguiçoso. Eles erram, acham que o som de The Band é light, soft, esquecem que ele é viril, musculoso. Blind Faith passa desleixo onde devia haver feeling. ----------------- A primeira faixa já entrega tudo, o riff, ótimo, precisava de mais ensaio. O vocal, de Winwood, está todo errado. E a batera de Ginger tenta dar beat a um som sem alma. Cant find my way home é puro Winwood. Bela, delicada, quase perfeita. Im all right é uma cover de Buddy Holly e é bem ok. Presence of the Lord é o grande momento de Eric na banda. O solo é sublime. As duas últimas faixas são psicodélicas. Tem até um solo de Ginger. --------------------- Acabei elogiando as faixas, mas todas juntas não funcionam. E a preguiça mata tudo. Um detalhe: a capa do LP é hoje totalmente censurada. Parece que a liberalidade de nosso tempo é de araque.

THE PRETTY THINGS - SILK TORPEDO

Voce nunca ouviu falar dos Pretty Things? São uma das bandas que deveriam ter sido famosas mas nunca foram. Não que sejam undwerground, mas a fama que tiveram nunca foi nem 20% do que mereceriam. Por que? ------------------- Eles surgiram na onda de 1964 e corriam na mesma raia que os Rolling Stones, eram do blues e eram rebeldes. Estouram na Inglaterra com Rosalyn, mas não chegaram aos EUA. Eles tinham um problema que os atrapalhava, o cantor, Phil May. ------------------ May tinha o cabelo mais longo da GB e era gay assumido. Isso em 1964. Selvagem, ele parecia feio, mal vestido, mal educado e tinha uma voz muito wild. Se tornaram uma banda quase: quase famosa, quase explodindo. Desse modo, eles foram a primeira banda de sexualidade dúbia, mas quem levou a fama foram os Stones, foram a primeira banda punk, mas os Kinks são chamados de avôs do punk, e lançaram a primeira ópera rock, PS Sorrow em 1967, mas quem levou a fama foi Tommy do The Who. ------------------------ Falidos, eles insistem e entram nos anos 70 esquecidos. O disco de covers de Bowie, Pin Ups, tem Rosalyn e isso os ajuda ( é um disco soberbo de Bowie ). E em 1974 Jimmy Page, fã do grupo, os contrata para sua gravadora Swann Song. Silk Torpedo é lançado em 1975, e claro, não vende bem. Aqui no Brasil eu o comprei na época, aos meus 12 anos. Como é o disco? Bom pra caramba! Uma mistura pop de hard rock, progressivo, ópera rock, blues, pitadas de folk e letras raivosas. Tme duas faixas com a guitarra de Jimmy Page em riffs à Led Zeppelin, mas nada há de Zeppelin aqui. Não dá pra comparar os Pretty Things com banda nenhuma. Talvez, muito de longe, algo dos Kinks de então, pop ambicioso com variedade de arranjos. Quanto a voz de Phil May...é uma questão de gosto. Experimente. Tem muita coisa dos anos de 1970 que voce jamais escutou e eu sei que vale a pena.

UM SHOW DE ROCK

Foi no fim dos anos de 1980 que bandas como Pixies e Replacements deixaram carisma e estilo visual de lado e começaram a se apresentar no palco com a mesma roupa que um moleque usa na rua ou na escola. Eu odiei. Crescido vendo Mick Jagger, Roxy Music e Bowie, rock pra mim era visual. O apelo sexual ou a estranheza eram tão importantes quento a música. Nos festivais de música dos anos 90 e até hoje, 2025, me dá extrema aversão ver uma banda sobre um palco com absoluta ausência de mensagem visual. Rock nunca foi apenas ouvido, sempre foi olho e cintura. De Little Richard e Elvis até Kraftwerk e Prince, a imagem é 50% da coisa. ------------------ Paulão, cantor do Velhas Virgens me surpreende por isso, ele tem quase dois metros, e usa e abusa de adereços visuais. Sempre no limite do gosto, nunca brega. Sim, este texto é sobre uma noite em que fui ver essa velha banda de velho humor. Fui para sair com uma amiga, não para ver a banda, e acabei gostando da banda. Porque eles conseguem ser ainda divertidos, mas acima de tudo rocknroll. Eles possuem garra. Transmitem imenso prazer no que fazem. E amam seu público. Falei amor? ------------------------- Pessoas que olham o rock como apenas música não entendem que um dos maiores segredos do bom show é o amor. Bandas recebem amor e o devolvem. Esse foi o segredo de bandas musicalmente não tão brilhantes e que mesmo assim se tornaram mitos. Penso em Ramones, ACDC ou Status Quo. Os fãs eram sócios de um clube cujo estatuto era o amor. A banda os amava, eles a amavam. Isso era explícito. E real. Várias bandas falharam e falham nisso, geralmente por cansaço, quebraram essa regra, e se tornaram prostitutas, amor fake, mecãnico. Poucas conseguiram prosseguir dentro desse halo amoroso. O Velhas Virgens conseguem. O público vibra e eles vibram de volta, há uma troca honesta, de verdade. Paulão brinca, sacaneia, faz de Chacrinha, pula, dança, provoca, aponta para os fãs mais fieis. Cavallo, o guitar base, mantém a pose de rocker, óculos escuros, pé sobre a caixa de som, a vocalista faz folia e ela realmente parece amar o que faz. Há ainda um contrabaixista sisiduo e o batera, muito bom e que toca pesado. O guitarrista solo parece tímido, é o Mick Taylor da banda. ---------------------- Quem já foi em show comigo sabe, eu sou contido. Não me movo, sou aquele cara que fica parado prestando atenção. Aqui não. Eu sorrio e preciso retribuir o amor. Então interajo com a banda, aceno, mando mensagens, me envolvo. ( Lembro agora do show do Iggy Pop que vi a vários anos atrás e em como aquilo não me tocou em nada. Adoro Iggy, mas era uma puta velha fazendo amor mecânico ). ------------------------ Quando o show termina há uma sensação de que tudo foi entregue, a promessa foi cumprida. Eles saem do palco cansados e o público está cansado também, o cansaço bom, do pós sexo e não o do tédio. Voce percebe que a banda se revigorou sobre o palco e que o público, ao notar isso, se revigora junto. Esse o segredo do rock. Voce dá e recebe, voce recebe dando. Saio pra rua, zonzo, minha amiga detonada, e tudo parece menos complicado. Isso é só rocknroll e eu gosto sim. Exatamente assim. E claro, penso em achar um belo buraquinho pra me esbaldar.

Keith Richards - I'm Waiting For The Man (Lou Reed Cover) (Official Video)

SEM CONTRA-BAIXO NÃO DÁ!

Leio uma matéria onde se diz que a música feita hoje não tem contra-baixo. Na mixagem atual o som do baixo é eliminado. Agudos em volume ao máximo e sons graves mal definidos, é esse o timbre dos anos 2020. Waaaaaaallllll ( esse Waaaaalllll eu roubei do Paulo Francis ), eu ouvia hoje uma faixa maravilhosa do Wheater Report pré Pastorius, era Miroslav Vituous no baixo. A coisa é um frenesi erótico. E nessa hora percebi algo bem óbvio ( o óbvio demora para ser percebido ): toda música boa tem um som de baixo sublime. E provo: Beatles. Sim, Beatles. Repare. Tudo é guiado e embelezado por Paul. Abbey Road pode ser chamado de uma obra prima do contra baixo. Rolling Stones. Note o som do baixo em Jumpin Jack Flash, Gimmie Shelter, Under My Thumb, todos os clássicos. Não vou falar da música negra, eles sabem do valor do baixo. Eles sabem que o som do baixo não entra pelo ouvido, ele entra pelo umbigo, vem do chão e sobe para dentro do seu corpo. Mas veja Led Zeppelin. Deep Purple. As linhas de baixo do Iron Maiden. O modo como Bowie usou o baixo nas suas mais modernas canções. Os grandes baixistas do progressivo. Cream. E mesmo um grupo sem um baixista, como os Doors, tinham um som grave que era o que levava tudo adiante. No começo da década de 80 os baixos pulsavam influenciados pela disco music e pelo reggae. Mesmo que esse baixo fosse um teclado. E nos anos 90 Flea dos Chilli Peppers deu a dica: o baixo era o rei. Nas raves o que levantava o povo era o momento em que o som grave ficava em looping infinito. Uma festa para umbigos e outras partes íntimas. ---------------------------- Mas de repente, mais ou menos em 2010, isso mudou. O som baixado em phones não comportava o grave e se apostou nos agudos e nos sons de lata. A música virou uma sopa de sons compactados em alto volume. O estéreo morreu. A alta definição, cada timbre limpo em seu canto não fazia mais sentido: para que ficar dias mixando uma faixa se ninguém vai prestar atenção? E súbito desabou. A música se tornou uma voz e uma massa de som. E só isso. ------------------ Stanley Clarke toca agora em meu quarto e eu me balanço sem saber. É o contra baixo que me toma pela barriga. E eu deixo ir.

E A DESPEDIDA DE OZZY TONY GEEZER BILL É A DESPEDIDA DE UM MUNDO

Quem poderia dizer que a mais bela despedida da história do rock fosse a do Black Sabbath. E quem diria que este homem que aqui escreve, este homem cheio de Bartok, Monk, Sinatra, Lou Reed e Roxy Music, diria que foi absolutamente merecido? ----------------- Isso porque eles são inatacàveis. Tony Iommi é um gentleman, querido por todos. Geezer, além de ser um grande baixista, é uma figura icônica. Todo contra baixista imita seu gestual desde....1970!!!!! E Bill é o cara. Ter tocado sem camisa, ao contrário de Iggy Pop, que aos 75 não faz mais sentido, para Bill fez muito sentido. Ele tinha de estar sem camisa. -------------- Ozzy cantou sentado no trono que lhe é de direito. Ele lá estava para receber homenagem e a melancolia se misturou à alegria: acabou gente. Acabou. ---------------- Quando comecei a comprar discos, em 1974, com 12 anos, Black Sabbath era a coisa mais pesada que havia. A guitarra era a mais saturada, e o som era soturno. Mais que gótico, era maldito. Eles pareciam maus. Meu primeiro Sabbath foi Bloody Sabbath e eu me apaixonei pelo album. Da primeira à última faixa, eu pulava cantando cada verso. Mas a coisa desandou logo depois. Comecei a ler "os críticos" e joguei esse disco no lixo. Um cara com pretensões a intelctualidade não poderia gostar de Tony e Ozzy. Parti para Bowie e Zappa. Neil e Lou. --------------------- O tempo passou e então percebi que eu podia ouvir o que eu queria. ( não pense que só eu fui domesticado desse modo...muita gente foi e é sem perceber ). Rock é música de adolescente, graças a Deus, e o que lhe dá valor é o quanto ele emociona, traz alegria, fogo, rebeldia, prazer carnal com 3 acordes e duas frases simples mas diretas. Não se procura no rock emoção complexa, profunda, difícil, exotérica. Sua nobreza é a do animal, ele é puro e instintivo. -------------- E então voltei a ouvir o Sabbath como se fosse novidade. E para mim era, pois não o escutava desde os 14 anos! E senti nas veias o fogo da vontade livre. O cavalo corria e saltava ainda! -------------- O fim do Sabbath marca o fim do rock como forma de arte central. Sim, o rock ainda existe e sempre irá estar por aí. Mas ele nunca mais será aquilo que ditava moda, comportamento e mais que tudo, influenciava todas as artes, do cinema às artes plásticas. Era o rock a coisa central, os olhos do mundo voltados para ele. Nunca mais isso acontecerá. Desde os anos 90 isso se encerrou. Adeus.

BRIAN WILSON

Ele não é um cara do rock. Nunca foi. Brian Wilson foi um homem do POP. como foram Phil Spector ou Neil Diamond. Gênio? Talvez. ------------------ Surgiu em 1961 com deliciosos pop surfistas. Os Beach Boys, maior grupo vocal do Pop rock, criaram aquilo que até hoje nos recorda Hawaii e Surf de long board. Surfin USA é uma jogada de mestre e Get Around, de 1964, foi a primeira canção ambiciosa. O vocal engrena como um hot rod e a melodia tem arranjo de supremo talento. Ela gruda na memoria e é linda. Help me Rhonda de 1965 é sua obra prima. Sim, eu gosto muito mais de Rhonda que de Good Vibrations. Rhonda é uma das maiores obras primas de seu tempo, tempo cheio de obras primas. O refrão tem ecos de desespero misturados à leveza juvenil. Wilson atinge o Everest. ------------------ Mas vieram os Beatles e as drogas e Wilson pirou. Ele jamais foi rival dos Beatles, sua produção não os ameaçava nas paradas, os rivais eram os caras da Motown e Stax, mas havia uma admiração entre Brian e MacCartney e concorrência também. Wellll....... um cara que concorra com Paul em 1965-1966 precisava ser meio louco e Brian era. Após Pet Sounds sua mente explodiu. Como artista top ele termina aí. -------------------- Pet Sounds é um album hiper valorizado, mas sim, é muito bom. ------------------ Penso naquilo que Brian Wilson teria produzido nos anos 70 se sua mente não tivesse afundado. Assim como sei que Syd Barret teria sido artista de ponta em 1975-79 se tivesse alguma saúde mental. Mas eles eram isso aí, uma mente que deu tudo em poucos anos e então ruiu. ----------------- Nada triste pela morte de Brian. Ele precisava a muito tempo partir.

THE IDIOT - IGGY POP

Não é um disco de Iggy Pop. É um disco de David Bowie. Foi Bowie quem compôs as faixas, produziu e teve toda a ideia. Iggy canta e fez as letras. Por isso, este é o disco que faz a ponte entre o pop lunar de Station to Station e a genialidade glacial de Low. Dito isso, em 1977, The Idiot antecipava o gótico que dominaria os anos de 1980. De Ultravox à Siouxssie, de Bauhaus à Dead Can Dance, tudo está aqui. Dum Dum Boys é atemporal. Sister Midnight aterradora. Mass Production é industrial. Funtime esquisita. E Nightclubbing um hino soturno. Baby diz tudo. E Tiny Girls é de uma beleza triunfante. --------------------- Se em 1977 ele parecia hiper moderno, assustador, como é o escutar hoje? ------------ Moderno. Ainda parece moderno e China Girl incomoda. A mixagem é suja, errada, crispada. Na verdade Bowie mixou sem saber mixar e Tony Visconti teve que arrumar tudo. Ficou assim: único. O disco não é uma obra prima. Low é. Mas chega perto. Não o chamo de obra prima porque ele parece curto, não tem a imensidão continental que toda obra prima tem. Mas é uma obra que permanece. Pra sempre. ---------------- Iggy canta como nunca e transmite uma coisa wild que Bowie nunca tem. Por outro lado, Bowie faz de Iggy algo mais que o "cara primal". Se completam, mas também há atrito. Bowie disse que esta era sua homenagem ao Kraftwerk. Iggy fala que é um casamento entre rock alemão e blues. Não é nada disso. É gótico. -------------- Era para Fripp ter tocado aqui. Não pode. Veio Phil Palmer. E ele se sai bem. Batera e baixo são os de Bowie: Davis e Murray. E Alomar. O sax, ótimo em Tiny Girls, uma canção que Jacques Brel assinaria, é tocado por Bowie. Fantástico. E é isso. 77 foi um grande ano para se gostar de rock e se ter 15 anos.

A LOVE SUPREME - JOHN COLTRANE

A geração nascida nos anos de 1940 ouvia muito jazz e assim, o sax de John Coltrane se tornou uma influência enorme no rock. Roger McGuinn em Eight Miles High solou como se sua guitarra fosse o saxofone de Coltrane, mas não só ele. De Robert Fripp à Jimi Hendrix, todo guitarrista pegou a liberdade solar, as notas abundantes, as harmonias orientais do músico de jazz. A Love Supreme, um dos muitos discos da curta e rica carreira de John Coltrane é, ao lado de Kind of Blue, de Miles, o disco mais famoso e mais vendido do estilo. Ouço-o após mais de 20 anos sem o escutar.-------------------------- John Coltrane era espiritual. Ele quer que ao ouvir seu som voce entre numa espécie de meditação profunda. O que ele faz com sons é aquilo que Jung chamava de Mandala, uma paisagem sonora que expressa o inconsciente coletivo. Cada nota, e são milhares, é parte de uma paisagem de energia pura. O ideal seria que sua alma flua entre e dentro dessas partículas sonoras. -------------- Muitos críticos na época atacaram esse som. Lembro de alguns falando que Coltrane destruíra o swing, que seu som não tinha balanço. Era um ruído que destruía o swing de uma banda cheia de calor e de beat. Elvin Jones na bateria, Jimmy Garrison no baixo e McCoy Tyner no piano, realmente eles são hot. E se voce quer saber de onde Mitch Mitchell tirou seu modo tão incrível de tocar bateria, foi daqui, de Elvin Jones. ------------------------ Hoje este disco é um clássico e não há mais crítico que não o aceite. Quanto a mim, Coltrane não é meu tipo de saxofonista preferido, eu sou da turma de Lester Young, notas longas, poucas notas, a transformação de cada nota em uma melodia. Mesmo meus guitarristas favoritos são assim, econômicos. Portanto é preciso dizer que A Love Supreme é, sim, uma obra prima, mas me incomoda sua sonoridade pouco Thelonious Monkiana. De qualquer modo, seria um despedício voce passar pela vida sem ter conhecido este album.

IN THE COURT OF THE CRIMSON KING - KING CRIMSON

Tem a fama de ser o maior album prog da história. Não é. ------------------ Comecei a ouvir prog, tinha imenso preconceito, fui amestrado pela crítica punk que odiava prog, somente após meus 50 anos de idade. Então, para mim, todo esse mundo é novidade. Hoje gosto muito, adoro prog. E King Crimson está longe de ser o que mais admiro. ------------------ Este é o primeiro album deles, 1969, e na época foi um choque. Greg Lake cantava e tocava baixo, Robert Fripp fazia seu nome na guitarra e efeito de teclado. Primeira decepção: Fripp sola pouco. O disco é dos teclados, dos sopros, da voz. Estranheza: sim, o som deles é esquisito. Ele varia entre o barulho e o quase silêncio. Usam a variação de volume ao limite. Surpresa: são ótimos em baladas POP. E o baterista é excelente, Ian McDonald. ---------------- Ouvir pela primeira vez um disco com fama de obra prima é sempre complicado, por isso minha crítica pode ser injusta. Eu esperava arrebatamento. Ouço também Islands e Poseidon, dois outros albums do grupo. Há algo de medieval neles. Um lirismo aquoso, sideral e pastoral. E a pesquisa sonora que Fripp desenvolveria com Eno e Bowie. Longe de ser um disco comum, ele me agrada, mas sem a emoção ansiada.

SLOW TRAIN COMING - BOB DYLAN

Foi em 1979, após alguns anos de silencio que Dylan lançou este disco que desconcertou fãs e críticos. Um disco gospel. Ele se cerca da banda mais afinada que já teve ( Mark Knopfler faz aqui alguns de seus mais elegantes solos, e tem ainda Barry Beckett, Pick Withers, Tim Drummond e os Memphis Horns ), e compõe canções que falam do cristianismo. Dylan presta graças à Deus. ---------------- O som lembra J.J.Cale. É um tipo de country cristalino, simples e nunca óbvio. A mixagem ressalta a bateria, perfeita. Mas foram as letras que despertaram a ira de muitos. O ex judeu Dylan, o socialista Dylan, o ateu Dylan fala de Deus como se Nele acreditasse. Muitos críticos diziam que era uma piada de Dylan, se recusavam a acreditar na " traição " de seu ídolo. Lembro que apenas um disse a verdade, Dylan deveria ter passado por uma crise existencial terrível e vira no Deus cristão o seu alívio. --------------- Essa fé duraria em disco 4 anos e 3 LPs. Este é o melhor e é hoje um clássico. É meu disco favorito de Bob Dylan e finalmente encontrei um vinil. Eu o comprara em dezembro de 1979 e o detestara. Me livrara dele nos anos 80 e nunca mais o escutara. Dando uma nova chance agora ele revela o que sempre foi: belíssimo. Procure o escutar. É uma grande obra. Uma afirmação de fé. Um reencontro.

ALICE COOPER - KILLER

Felizmente se fez justiça à Alice Cooper ainda em vida. Entre 1971 e 1975 ele foi um dos reis do rock e os críticos só sabiam de falar mal do cara. Tratavam ele como se fosse infantil, um palhaço que apelava para truques, nunca um artista. Não percebiam que ele unia as duas correntes mais novas e legais do rock de então: o glam e o pré metal. John Lydon acha Killer o maior disco de rock de todos os tempos. Não só ele. Lester Bangs achava perfeito. Eu prefiro Billion Dollar Babies, mas sim, o rock cru, virulento, pesado de Killer tem algo de punk, de foda-se nele. E a produção do mago Bob Ezrin entende à perfeição tudo que Alice quer. ---------------- Pra quem não sabe, Alice Cooper era o nome da banda e o vocal acabou pegando o nome pra si. Cheios de make up e atitude gay, eles eram o glam do T.Rex em estilo americano, menos afetado e mais rocknroll. Dizem que Iggy Pop inventou o glam rock, pode até ser, mas foi Alice quem o vendeu para as massas. Meu irmão tinha apenas 9 anos de idade quando se tornou fã do cara. De Alice ele saltou para Bowie e de Bowie para Sex Pistols. Muita gente fez esse mesmo caminho na mesma época com a mesma idade. ( Eu era bastante sem rumo, de Monkees fui para Elton John, depois Stones e Led ). O album, Killer, é um tipo de roteiro para um filme sem imagem. Cada faixa é um ato ou uma cena. Um flash em som exultante. Tantos anos depois, que bom, ele se mantém divertido e instigante. É só rocknroll, mas é bom e é de verdade.

A NOD IS AS GOOD AS A WINK TO A BLIND HORSE - THE FACES

Em 1967 havia uma banda inglesa, mod, muito inglesa, chamada Small Faces. O sucesso na Europa era do tipo que faz as meninas berrarem na rua. Mas então, o líder, Steve Marriott se encanta pelos USA. Como aconteceu com tanto inglês, a imensidão da América o hipnotiza e ele abandona os Small Faces para fazer um som menos inglês, mais USA. Forma o Humble Pie. Uma banda de hard rock. O resto dos Small Faces se vêm desempregaod e com contratos de show para cumprir. ------------------ Enquanto isso, Jeff Beck, o melhor guitarrista inglês de sua época e de todas as épocas, faz sucesso com seu Jeff Beck Group. Porém, irriquieto como sempre, Jeff desfaz a banda em 1968, após apenas um ano e meio de estrada. Rod Stewart, o cantor da banda, e Ron Wood, o baixista, estão sem emprego. ----------------- Steve Marriott era o cantor e o guitarrista dos Small Faces. Por que não chamar Rod e Ronnie para cobrir essa vaga? Ronnie sabe tocar guitarra, era baixista para Jeff Beck porque ao lado de Jeff qualquer guitarrista vira base. Rod e Ron Wood aceitam. Pronto! Nasce The Faces! ----------------------- Ao vivo a banda é uma festa, o tema é bebida e mulheres e os shows explodem em sucesso. A Nod... é o terceiro album e é o melhor. Miss Judys Farm, a faixa um, já dá o tom: rocknroll de pub. gasolina, juventude, alegria vital. Stewart e Wood formam uma bela dupla de compositiores, mas Ronnie Lane também é um grande talento, e o disco tem 3 composições de Lane, o destaque sendo Debris. As faixas de Lane são sempre as mais adultas. Too Bad se tornou um clássico ao vivo, a versão de Memphis de Chuck Berry é sublime e é aqui que Stay With Me foi lançada. ------------------ Ao mesmo tempo, Rod Stewart levava adiante sua carreira solo. E o azar dos Faces é que como cantor solo, Rod vendia muito mais que no papel de vocal dos Faces. Naturalmente a banda foi abandonada por Rod e em 1974 os Faces acabaram. --------------- Lembro que nos anos 70 eles eram considerados um grupo muito Pop. Não eram hard rock e nem progressivo, então ficavam em um meio termo que não agradava o povo radical do rock. Mas a partir dos anos 90 a banda foi reabilitada, e hoje tem seu justo posto de grande banda do rock dos anos 1970. ------------------- Uma folia. Um bando de rockers adoráveis.

HEAD - BOB RAFELSON, THE MONKEES AND JACK NICHOLSON

Jack Nicholson faz uma falta imensa. A vitalidade explosiva que ele possuía não existe hoje em ator nenhum. Perto de Jack, todos parecem lombrigas. Gente sem osso. E sem tesão. Provável que Jack seria cancelado em 2024. Vigoroso demais. Falo dele porque Jack foi roteirista deste filme, obra que revejo desde sempre e que não consigo enquadrar em nada. Não há filme parecido com este. ---------------------- Bob Rafelson vinha da TV e a série de imenso sucesso The Monkees era ideia sua. A banda, formada na TV, um tipo de sátira aos Beatles ou a versão made in California dos ingleses, sofria pressão dos executivos da emissora. David Jones, Peter Tork, Mickey Dolens e Michael Nesmith sabiam tocar e sabiam compor, mas os executivos queriam músicos de estúdio e compositores de encomenda. Por dois anos a banda lutou contra a TV e conseguiu nesse tempo fazer 4 ótimos albuns e contrabandear ideias próprias. Eu, aos 9 anos de idade, era totalmente apaixonado pela série e foram eles que me fizeram amar rock. ----------------------------- Em 1968 o grupo resolveu fazer um longa metragem de "despedida". E que despedida! Fracasso absoluto, HEAD assustou seus fãs ( Monkees vendia quase tanto quanto Beatles, em 1967 seu segundo disco vendeu mais que Sgt Peppers ), e não atingiram o povo hippie, pois hippies não gostavam de Monkees. Mal sabiam os doidos dos shows de Grateful Dead e Airplane que HEAD era o filme mais freak de sua época. ------------------- Não há como falar da história do filme pois ele não tem enredo. Se voce acha os filmes do Monty Python sem sentido, este é Monty Python com LSD. São cenas que falam de momentos na vida de uma banda perseguida por fãs e por imprensa, uma bande destruída por dúvidas, uma banda numa trip sem fim. Até Frank Zappa está no filme, conduzindo uma vaca numa rua de L.A. ------------------ A trilha sonora é fascinante e eu me apaixonei pelas músicas já aos 12 anos de idade. ----------------- Bob Rafelson faria em seguida o melhor filme sobre a crise existencial dos anos 70, CADA UM VIVE COMO QUER, com um Jack Nicholson milagroso. Os Monkees se separariam e se perderiam nas décadas seguintes. No século XXI se tornariam cult. HEAD permanece como um tipo de obra sem sentido e que vista hoje faz a gente pensar em como devia ser bom ter 25 anos em 1968. Pois o que salta aos olhos é a alegria de criar e filmar e a sensação de que tudo pode ser feito, pois nada ainda foi tentado. --------------------------- PS: Circle Sky é uma das maiores canções do rock. Ver David Jones cantar Daddys Song, composição de Harry Nilsson, sempre me toca fundo, e olhar os rostos dos Monkees sempre me leva de volta à minha infância. É mágico.