johnny hartman john coltrane

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JOHN COLTRANE E JOHNNY HARTMAN. A BELEZA É UM PRAZER ETERNO

John Keats escreveu que a thing of beauty is a joy for ever. É o que pensei assim que esse disco começou a rodar. --------------- A voz de Johnny Hartman parece vir de outro mundo, um mundo melhor. O timbre tem a ressonância do âmago do cosmos. Surge entre névoa estelar, ecoa como memórica. Penso: o que perdemos quando deixamos de dar valor a voz como essa? Perdemos beleza e com isso entramos no vazio do não-valor. ----------- John Coltrane se contém. Nada dos solos febris ou das mirabolantes evoluções religiosas, é um Coltrane belo, puro, suave, de uma perfeição apolinea. A banda também se contém, McCoy Tyner dedilha breve, um pianista de bar, Jimmy Garrison está sóbrio e Elvin Jones, mesmo o diabólico Jones, toca seus tambores com suavidade. Tudo é feito para o brilho da canção, e que canções! Hartman tem a voz para fazer justiça ao repertório, a balada romântica americana. Ouvir este album é se apaixonar. Pelo som e pela garota ao seu lado. Não tem como não se deixar seduzir. ---------------- Por falar em sedução, a música do século XXI, em sua imensa maioria, não seduz, ela se exibe em balcão de boteco. Ela exige atenção, implora reconhecimento, se faz presente em histeria. Nada menos cool. ( Alguém sabe o que é cool? Usar roupa cara e botar os peitos pra fora não é cool. Fumar charuto e andar num Bentley é cool? Não é. ). Cool é o oposto do século atual, é não estar nem aí. É fazer pouco caso do hype. É não querer chamar a atenção de ninguém. Este disco é o mais cool dos discos. --------------- Dizem que Coltrane o gravou para ajudar Johnny Hartman que estava em baixa. Pois Trane acabou ajudando todos nós. O disco nos eleva e nos faz melhores. Uma obra prima de apenas 31 minutos. Joia das mais raras. Um monumento.

VIKTOR E. FRANKL E A QUESTÃO DO TEMPO

O tempo, para Platão e para Santo Agostinho, é algo artificial criado pela consciência humana. Não haveria futuro, presente ou passado. O tempo seria concomitante. Para explicar melhor imagine uma ampulheta. A areia de cima é o futuro que irá acontecer. A areia do fundo é o passado, que já ocorreu e não pode retornar. O gargalo é o presente. Nossa conciência cria a divisão e vive no gargalo. Para Platão e Agostinho, o tempo é a ampulheta inteira, os três tempos são ilusórios, tudo ocorre ao mesmo tempo, a areia cai, passa e é depositada no mesmo momento ( e ela é ). Pense agora, se o futuro acontece agora, junto com passado e presente, e não conseguimos perceber isso, que poder temos sobre nossa vida? Nenhum. Nessa visão de tempo, tudo está já determinado pois o tempo futuro ocorre agora. O que será já é, e o que foi continua sendo. ----------------- Na visão de Frankl, criada nos anos de 1930, muito antes da informática, o agora é o gargalo, mas o futuro só existe quando passa por esse gargalo. Por que? Porque ele poderá jamais vir a ocorrer. Basta que a pessoa morra ou feche o gargalo. Já o passado, e isso é muito importante, permanece para sempre. Como? Porque é a areia que já passou a existir, ela já passou pelo gargalo e assim se fez real. Depositada no fundo da ampulheta, ela lá permanecerá para sempre, vivida, usufruida, real. Para Frankl, o passado nunca deixa de existir, e mesmo que voce o esqueça, ele permanece salvo. Por isso, nossa vida tem por sentido a construção de um passado que passa a ser um monumento à nossa existência. Tudo que vivemos, fazemos, sentimos, toda dor, prazer, luta, é salvo como parte dessa construção. O passado não pode ser mudado, daí sua verdade. ----------------- Essa visão de Frankl lembra muito o mundo da internet, onde podemos salvar na nuvem tudo que fizemos. Mas ao contrário do que diz Frankl, o arquivo pode ser apagado ou editado. ------------------ Começo a tomar contato com a obra de Frankl agora e devo dizer que sua visão de tempo é a que sempre tive mas não conseguia verbalizar. Nossa vida é uma obra que se realiza no passado. Somos uma fábrica de memória. E é a memória nossa vitória e nossa eternidade. Pois mesmo que ninguém mais lembre de nossa passagem pela Terra, aquilo que fizemos não pode ser apagado, aconteceu, foi feito, o ato permanece. -------------------- Frankl nasceu em 1905 e aos quinze anos já se correspondia com Freud. Formado em psiquiatria e filosofia, aos 16 anos já fazia conferências em Viena. Fundou nos anos 30 um hospital e não fugiu de Viena com a ascensão do nazismo. Judeu, foi preso em Dachau e Auschwitz. Viu seu pai morrer de exaustão e dois irmãos na câmara de gás. A mãe desapareceu. Sobreviveu e na prisão criou sua terapia, a Logoterapia, toda baseada no sentido existencial da vida. Famoso mundialmente, ele rejeita toda psicanálise por ver nela uma desumanização. --------------- Depois explico.

herbie mann

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HERBIE MANN

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HERBIE MANN - HOLD ON, I'M COMIN'

Herbie Mann é o cara. E eu falo sério. Ele tocava flauta e era o rei do groove. Sua música era muito simples. A banda atacava um ritmo, simples e cheio de swing, e ele ia improvisando em cima. Parece a descrição da fase anos 70 de Miles, mas Mann fez isso antes. Miles fazia de um modo mais barulhento, mais quebrado, Mann era pra balançar. ------------------ Esse disco é ao vivo e foi feito em 1972. Já de cara a banda joga o jogo explicitamente. É pra dançar. Os solos de Mann nunca são excessivos. Elegância é o nome do cara. Na segunda faixa eles baixam o peso e fazem o som sexy dos anos 70. Tipo trilha de filme cult. Mas na última faixa a coisa fica genial. Eles botam pra quebrar tudo e um guitarrista chamado Sonny Sharrock, eu não o conhecia, faz um dos solos mais foda que ouvi na minha vida. Curto, grosso, potente, barulhento, diabólico e inesquecível. ----------------- Depois pesquisei sobre Sharrock e vi que nos anos de 1990 ele virou figura de conhecedor. Selvagem ele era. Vanguarda. E casa bem com o jazz funk de Herbie Mann. ------------- Herbie Mann teve uma longa carreira de sucesso. Desde o fim dos anos 50 até os anos 90, ele navegou por vários mares. De Bill Evans à Disco Music em 1975. Aberto a toda influência, manteve sempre o compromisso com a excitação. É músico para se colecionar, para se pesquisar, para se descobrir. Um arraso! Posto uma faixa do disco acima. Ouça e saia pela rua pulando. Aproveita bb.

ARRASTADO NA TORRENTE - AGATHA CHRISTIE. SUPREMO PRAZER EM LER.

Christie é, após a Bibilia, a autora ou autor mais lido na história. São dois bilhões de cópias de seus livros. Isso até 1995. Eu não li essa autora tão inglesa, até minha maturidade. Preconceito? Sim. Leio agora. É absolutamente fantástico. Ela merece todo o sucesso. É mais autora que Conan Doyle. Tem um estilo mais apurado. --------------- Best sellers costumam ser um problema. A maioria tem uma escrita pobre, simples demais, e se falamos desse problema sempre alguém dirá que somos esnobes. Mas é fato. Doi na minha alma ler 99.9% dos autores que vendem ou venderam muito. Os diálogos são atrozes, as descrições óbvias, o enredo forçado. Tudo lembra um tio narrando algo ao menino de 12 anos. Mas Christie não. Ela escreve para um leitor adulto, um leitor de boa educação que deseja se divertir sem ser tratado como idiota. E ela é mágica. Nós mergulhamos no clima, entramos na mente dos personagens. --------------- Poirot não se parece em nada com Holmes. Poirot deduz usando a psicologia. É um mestre em desvendar sinais de personalidade. Ele analisa o caráter de cada um. E Christie não esquece algum humor, aquilo que tanto falta em Simenon por exemplo. Leiam Christie. Sua fama é merecida.

A GUERRA DE HOJE

Muitas pessoas, a maioria, ainda estão pensando a guerra em termos de século XX. A Russia na Ucrânia luta uma guerra de invasão típica de 1970. Ou 90. Uma luta estúpida, dura, cara. Os Estados Unidos têm nos mostrado que a guerra do século XXI é uma guerra inteligente. Não se coloca soldados em luta para invadir a capital e capturar seu comando. Se vai direto ao comando após meses de espionagem e planejamento. Não se usa uma bateria de 100 tanques. Se usa uma arma construída para aquele fim. Se a Russia estivesse em 2026 já teria a muito matado o presidente ucraniano e destroçado o comando de guerra. ------------------ Todo século tem um novo estilo de guerra e as pessoas acham feio, hoje, falar de guerra. É como se ao falar disso eu compactuasse com a guerra. Primeiro fato, guerra é como um vírus ou a fome, ela existe. Sempre existiu e sempre vai acontecer. É um mal porque mata, porque causa dor, mas ela é parte de nosso DNA. Então é bom estar preparado para ela e saber algo sobre o assunto. -------------------- A guerra do século XX é a mais estúpida da história da humanidade porque ela era feita de aço e fogo. O exército era feito para esmagar o adversário, com o máximo de peso e de brutalidade possível. O que importava era o tamnho da armada, a quantidade de bombas e de balas. Essa guerra, a de 1970 ou 1940, era totalmente diferente daquela de 1870 ou 1890. No século XIX tudo se baseava no cavalo, na rapidez da cavalaria e na ordem do pelotão. O grupo mais disciplinado vencia. O soldado era como um tijolo, ele tinha de se manter firme e cumprir sua função dentro do pelotão. O objetivo não era esmagar, era cercar e capturar uma posição. -------------- Quem trouxe a guerra de esmagamento, de destruição total, a guerra do século XX, foi a formação de blindados e a aeronáutica. Quem criou a guerra do século XIX foi a cavalaria de Napoleão. E quem cria a guerra de hoje é Israel. Os EUA a ampliaram. ------------------- Não se despejam toneladas de bombas a esmo. Se jogam 20 misseis no alvo. Não se envia um grupo de 40 aviões, se envia um avião com quatro a escoltar. Não se matam 20 mil soldados para então entrar na capital e fazer o lider se render. Se mata o líder e se ignora a capital. Não se esmaga. Se atinge o alvo e se captura ou destroi o cérebro do inimigo. ----------------- O Irã irá lançar montes de bombas a esmo para todo lado. A maioria vai atingir o deserto, outras atingirão pessoas civis que não farão a menor diferença. E por sorte, algumas irão acertar um quartel ou um avião. Essa é a guerra antiga, e ela só poderá vencer, hoje, se houver material o bastante para manter tanto despedício de munição. E se o adversário lutar também a guerra antiga. Caso contrário a derrota é certa e o desespero fará com que as bombas, inuteis, continuem a ser lançadas até o fim. Novos tempos, eis os novos tempos.

COOL STRUTTIN - SONNY CLARK

Cool Struttin de Sonny Clark, gravado em 1958 na Blue Note. Tem Art Farmer no trompete, Jackie McLean no sax e a dupla Paul Chambers e Philly Joe Jones no baixo e bateria. Elegante ao extremo, o disco inteiro é aula de cool. O piano de Clark é discreto, exato, nada em excesso. Farmer é um super pistonista e McLean um dos grandes do sax. Os sopros dominam o Lp. Chambers e Joe Jones eram da bande Miles Davis e Jones é meu batera favorito. Ele sacode. A palavra é essa, ele sacode. Cool Struttin é trilha sonora do tempo em que se podia fumar em paz, se matar em baforadas e beber como ato de existência. Tudo com swing. A capa, como acontece com todo acervo da Blue Note, é uma obra de arte. Apaga a luz e escute com alma livre.

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RITUAIS - CEES NOOTEBOOM.

Ao terminar este livro, veio um pensamento à mim: entre o que somos antes, e aquilo que seremos mais tarde, a vida é um ritual, cada gesto um rito. Mas não sabemos. ------------------- Ser o maior escritor holandês do século XX significa não muita coisa. A Holanda é um país tão morto que suas realizações artísticas se tornam vergonhosas quando comparadas aos vizinhos. Nooteboom fala sobre a realidade fria, vazia, dessa Holanda sem alma. Inni, o personagem central, é rico, e passa a vida entre sexo fácil, bolsa de valores, vendas em leilão. Ele, Inni, recorda duas pessoas que conheceu, um homem, Arnold Taads, nos anos 50, e um outro, Philip Taads, filho de Arnold, nos anos 70. -------------- Arnold é um cético que vive longe dos homens. Muito rico, a vida desse homem é ditada pelo rigor do relógio. Cada ato seu tem sua hora e seu tempo de duração e o único afeto é pelo seu cão. Odiando toda a humanidade, ele passeia por montanhas e encontra seu fim entre elas. -------------- Philip cruza a vida de Inni em uma loja, uma galeria de objetos refinados. Um pote japonês, perfeito, é exposto na vitrine e Philip, que vive como um monge zen, em um cubículo no centro pobre de Amsterdã, irá possuir esse objeto raro, executar a cerimônia do chá e morrer como sempre quis. ------------------ Pai e filho nunca se encontraram, Philip foi não aceito por Arnold que abandonou a mãe do bebâ. ------------- Nooteboom tem muito a dizer e o que fica é a sensação de que ele não diz porque não pode. É holandês. Todos são presos em um ritual, seja de caminhadas com seu cão, seja a do chá, seja a vida de Inni, um nada que se distrai com prazeres cada vez mais efêmeros. Sobretudo Cees Nooteboom testemunha o fim de uma civilização, a falta de espírito de pessoas sem rumo e o grito, sempre mudo, que exibe raiva e dor. É um autor ateu que sente saudade da fé.

O ERRO QUE ACERTA

Não é a nota que voce toca que é a nota errada, é a nota que voce toca depois que faz com que soe certo ou errado. ----- Essa frase é de Miles Davis. Leia mais uma vez e entenda a profunda abrangência dessa fala. Miles fala de música. Gênios como ele erravam e transformavam o erro em acerto. Voce percebe isso ao vivo. O erro era porta de entrada para outra harmonia. Novo beat. Poucos músicos fazem isso. No rock Jimi Hendrix fazia o tempo todo. Mas, e a vida? Não é seu erro que define sua vida, é o que voce faz depois que transforma esse erro em acerto. Ou confirma o erro. Irremediável. ----------------- A maioria das pessoas insiste no erro e faz dele apenas isso, um erro. Outras tentam o consertar, e fazem desse erro apenas um remendo. Mas o gênio, esse faz do erro um acerto. É o livro que tinha tudo para ser um fracasso, mas que se torna arte. É o filme, todo cheio de erros, mas que dá certo. A pintura, que subverte normas, e vira nova tendência. E é sua vida, aquele erro que abre uma nova rota. --------------- Portanto, quando o erro acontecer, não se fixe nele. Use a criatividade para harmonizar o passo seguinte com o erro. Sem tentar remendar e sem pedir desculpas não cabíveis. Entrando no ritmo e saindo com swing. A batida certa. E dançar.

LIVROS E HISTÓRIAS SEM FIM

O primeiro é inesquecível. Eu abri o celofane transparente e senti o cheiro de tinta impressa. Um navio, um bote ao lado, e alguns piratas. Céu noturno. A Ilha do Tesouro, Robert Louis Stevenson. Hoje, 55 anos depois, tenho outro livro nas mãos. E lendo o que leio agora, tomo consciência de que este livro, em 2026, é consequência daquele, em 1971. Uma família composta de tios filosóficos, primos divertidos, trágicos avôs, e uma infinidade de agregados esquecidos. Teia de capas, de vozes, de afinidades. O que os une é a consciência de quem os lê. ------------ A História sem Fim, de Michael Ende, fala sobre isso, a narração que nunca termina, que passa de livro para livro, que nasce no chamado, apelo, do primeiro livro que surge, sedutor, à sua frente. Com esse primeiro, flui então a profusão de vozes e de gente, de lugares e de situações, de atos que repercutem, sem fim. É a maior invenção da história, essa de registrar em sinais aquilo que acontece, aquilo que se imagina, aquilo que se pensa. A maior ferramenta, o melhor brinquedo, o mais inescrutável segredo. O maior amor da minha vida? Talvez não, pois felizmente amores vivo outros. Porém é um amor que fala de amor, que explica amores, que registra nascimentos e mortes do amor. ------------ Naquele dia, fazia sol em 1971, na cozinha, lugar onde meu pai me deu o presente, uma história sem final começou.

O SEGREDO ESTÁ NA COR

No livro sobre drogas que li, Portas da Percepção, Aldous Huxley, é dito pelo autor que a cor é a entrada para o mundo do "lado de lá". Ao final do livro Heaven and Hell, Huxley fala claramente que existe um mundo pós morte e que esse mundo, sem ego, é feito de cor. Assim, muito mais que Rembrandt ou Constable, artistas que Huxley admira sobre todos, é Matisse o homem que chegou mais perto do que seria o mundo do além. --------------- Isento de drama, sem ação, sem a definição rígida de espaço, de isto e aquilo, é um universo de cores puras, fortes, vivas. Huxley chega à isso através de sua própria mente, nas provas com peyote. Aquilo que ele vê são cores puras, que parecem explodir em potência. Ele não vê pessoas ou coisas, ele vê cores. O cérebro, livre das amarras da razão, bombardeado por noradrenalina, pode ser o que ele é de fato, real. A realidade ao nosso redor é isso, cores aterradoras, infernais e celestiais. Estáticas e unidas em um todo. Matisse. Buda e O Livro dos Mortos. --------------- Tenho uma mãe demente. Sofrendo de alzheimer, ela está hoje com 5 anos de idade, em termos mentais. Ou seja, por um momento que será breve, ela está livre da camada racional-escolar-utilitária da mente. E eu vejo. na minha frente, o que acontece com ela diante da cor. Andando na rua, ela para e entra em êxtase diante de flores vermelhas, diante de rosas amarelas, ao ver um pássaro laranja. Minha mãe é capaz de ver o céu em um inseto azul. Ela nunca foi assim, ou melhor, não era assim desde que eu lembre de a conhecer. --------------- Eu fui assim aos 6, 7 anos. -------------- Ando lendo sobre hedonismo e descobri que sofro de Hedofobia, medo mórbido do prazer. Não vou revelar a voces o porque e como é isso, basta falar que não consigo ter prazer pleno com nada. Minha paixão pelo hedonismo é aquela de quem não conhece o que ama. Hoje acordei as 11 da manhã. Estou tentando ser um pouco mais solto, despreocupado, hedonista. Ao lado de minha cama há uma máscara africana que comprei em 1999. Abro os olhos e me obrigo a olhar para ela por 3 minutos. Ela é de um verde profundo, uma mistura de abacate maduro com um sapo. Há traços de laranka e de vermelho. Lentamente começo a sentir calma, vagar, lentidão. Desacelero. E vem o prazer. Fazia anos, muitos anos, que eu não acordava sem o sentimento de levantar da cama depressa pois há algo a se fazer. Para gente como eu é preciso um esforço para não se fazer esforço. E garanto, 90% da minha vida foi um prazer incompleto, uma broxada. -------------------- Há também uma pequena máscara balinesa em meu quarto. E vejo vermelho e branco, traços em preto puro, laranja claro, amarelo canário. ------------------ Saiba então que olhar longamente uma obra de Matisse é uma terapia espiritual. E é por isso que sempre fui fascinado pelos grandes coloristas. ( Van Gogh não. Há mensagem ali. Ele é muito pouco abstrato ). Não se iluda. O paraíso não é uma aventura e nem uma dança. É uma cor.