tchaikovski

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A QUINTA DE TCHAIKOVSKI E A DIFERENÇA ENTRE MÚSICA RUSSA E MÚSICA DA EUROPA

O modo alemão de se escrever uma sinfonia é dominante desde o tempo de Haydn e é esse modo que faz com que tanta gente sinta dificuldade em acompanhar uma exibição sinfônica. Como é esse estilo que a crítica musical tanto adora? É um estilo em que a música vai sendo construída pouco à pouco. Lentamente, o autor acrescenta um acorde aqui, um motivo ali, e variando tom e harmonia a grande obra vai crescendo até chegar ao seu êxtase musical. Tudo feito de um modo que faça sentido, modo quase matemático. Uma frase aqui é completada por uma outra lá. -------------- Quando a música russa aparece para o resto da Europa, por volta de 1870, é um susto! Ela parecerá selvagem por um fato que hoje nos parece simples: ela vai direto ao ponto. De uma maneira brutal essa música eslava não se preocupa em construir ela se expôe. Eis aqui a melodia, eis aqui o que sinto, eis aqui meu erro, eis aqui a mensagem. Nada é disfarçado, enrolado, camuflado. Mesmo Beethoven, ao lado de um russo, irá parecer um pouco frio. ---------------------- Esse o motivo do ódio dos críticos por Tchaikovski e do amor do público por ele. O russo não faz música, ele exibe emoções. Como Rachmaninov mais tarde. ------------------- Eis o motivo de minha dificuldade em ouvir Bach por exemplo. Sua música é tão perfeita, tão matemática, tão bem acabada que não parece mais humana. Parece algo vindo de outro planeta. Bach paira acima de nós. Já gente como os eslavos Chopin e Smetana ou russos como Mussorgski são absolutamente humanos. --------------- A quinta de Tchaikovski tem momentos quase bobos, como a valsa que ele enfia no meio de um movimento, mas ao mesmo tempo é uma espécie de declaração de sentimentos fortes, sem medida, reais. Não tem sutileza, não espera para entregar os temas, joga logo tudo na sua cara, ou seja, não é alemã. Confesso que gostei bastante. ----------------- Quanto a Tchaikovski, hoje ele é bem melhor aceito pela crítica e continua sendo uma estrela entre o público.

JOYCE OU PROUST E O HÁBITO POSEUR DE QUEM QUER PARECER INTELIGENTE

Muita gente diz ler Joyce sem nunca o ter lido. Ou melhor, ter lido, talvez, o mesmo que eu, Dublinenses, O Retrato e as primeiras páginas de Ulysses. Eu cheguei à página 120, e não senti o menor prazer. Dublinenses tem um dos 3 ou 4 melhores contos que li na vida, Os Mortos e o Retrato eu achei chatíssimo. Finnegans é um livro de um linguista endoidecido. É como Pound, só tradutores e professores de linguística se divertem. Há em Joyce algo de desumano que nos afasta. Ele é frio como uma pedra de igreja irlandesa e tem o modo de falar de um jesuíta. Seu sucesso, sua representatividade se deve ao fato de que seus defeitos são os defeitos do século XX. Não há ninguém que represente melhor a confusão, o niilismo e a falta de objetivo de um tempo de ruína e finais vários. --------------- Já Proust é seu oposto. As pessoas também fingem o ler, mas eu, ao menos, falo a verdade, leio e sinto o mais absoluto prazer. Marcel Proust crê na vida apesar de tudo. E nisso, moralmente, ele é infinitamente superior ao irlandês. Escritor da sabedoria da vida, Proust nos diz todo o tempo que tudo valeu a pena. Pois, por maior que possa agora tudo parecer perdido, na memória, na vida que voce viveu e que portanto é sua para sempre, na memória tudo se salva. Mas não é só isso. Dizer que ele é o homem da memória é não dizer nada. Proust nos ensina que é na linguagem que se salva a memória e que entender o signifcado das palavras e as usar com precisão faz da vida uma realidade muito mais rica. A beleza, o saber viver, o aproveitar a vida está relacionado a saber falar, pensar, verbalizar. Por isso sua escrita tão exuberante. Proust percebe a catedral que vive latente no tijolo e enxerga a respiração que se faz provável em cada hora. Dessa maneira, ele nos ensina a sentir. --------------- Para isso ele nos pede apenas uma coisa, que usemos nossa imaginação. Há uma cena em Jean Santeuil em que Jean, o protagonista, não sente nada ao olhar o lago de Genebra. Então, através de ideias que se coordenam, Jean percebe que só sentimos a vida de fato, em tudo que ela pode nos dar, quando nossa imaginação é ativada. O lago de Genebra é uma linda mistura de água e areia, mas isso é apenas linda água e areia. Ele começa a emocionar quando Jean, sem perceber, e através da sua imaginação, começa a associar o lago ao mar que ele amava quando era criança, aos lagos que ele imaginou nos livros que leu, à tudo aquilo que, dentro de si mesmo, Genebra pode lhe despertar. É um modo de entender o prazer que se casa perfeitamente com o meu, pois eu já senti, antes de o ler, o mesmo que Proust aqui descreve. ----------------------------- Um grande autor fala aquilo que nós desejamos falar e não conseguimos. E é em Proust que mais encontro esse tipo de frase em que ele explica, com perfeição, um sentimento ou um pensamento que sempre tive mas que nunca pude o explicar. Ele vê o mundo como eu o vejo.

A LIÇÃO DO MESTRE - HENRY JAMES. A VIDA VALE MAIS QUE A ARTE?

Eu achava que havia lido tudo de Henry James, mas eis que encontro este livro em um sebo. Uma novela publicada aqui em 2004. Pouco mais de 100 páginas que me prometem prazer. E o obtenho. ---------------- Para quem não sabe, uma novela é um conto pouco maior, ou seja, se um conto pode ser lido de uma só vez, uma novela se lê em três horas. E leio então esta bela história. O estilo de James é como uma cartola de seda muito bem feita. É bonita por si mesma, é perfeita em sua forma e traz em sua presença uma associação de imagens e de lembranças. O enredo? ---------- Tive aulas de Henry James na USP e o professor sempre salientava a enorme ironia que há em James. Sua genialidade é a de mostrar como as pessoas desejam uma coisa e a dissimulam, às vezes para si mesmas. Aqui, um jovem escritor conhece numa reunião campestre, uma linda jovem. Ao mesmo tempo ele encontra O Mestre, um grande escritor mais velho que atualmente só publica livros ruins. Primeira coisa que notamos: Henry James, que permaneceu solteiro toda a vida, cria jovens mulheres que são declaração de amor à liberdade feminina. A mulher é sempre mais corajosa e mais curiosa que o homem. Pois bem, o velho escritor costuma sair, inocentemente, com a jovem menina e o escritor jovem se apaixona por ela. O Mestre, o velho escritor, é rico e casado com uma mulher doente. ------------------- O jovem sai com a menina e adora o modo como ela ama a vida e ama a arte. Ela o admira por ser um ótimo autor. Pois bem, um dia o jovem e o Mestre se encontram e têm uma longa conversa. O veterano confessa que o casamento destruiu sua inspiração. Fala que as mulheres impedem que um artista seja genial. Que filhos e um lar acomodam o escritor e matam o dom de criar. Ele lhe revela sua dor e sua impotência criativa. Então, influenciado pelo Mestre, o jovem abandona Londres e escreve um livro na Suiça. Volta dois anos depois, publicado o novo volume, à Londres. A esposa do Mestre morreu e ele irá se casar com a jovem que o escritor mais novo ainda ama. -------------- O que ocorreu? Uma armadilha? Era tudo mentira, todo o discurso do Mestre foi um modo de afastar o jovem autor da menina que o velho desejava? É isso que o escritor mais novo crê. Mas, e o leitor, crê no que? Qual a verdade? Foi um acaso? ------------------- Ao fim, Henry James faz a profissão de fê de que valeu a pena ao jovem não se casar e assim produzir uma obra prima. Mas mesmo isso, é verdade? -------------- Autor da dúvida, da ambiguidade, Henry James foi um autor perfeito. Um gênio da escrita exata. E eu não sei o que ele pensava sobre este assunto.

OFFENBACH E A JOIE DE VIVRE

Qual o problema em celebrar a vida? A mais popular das canções do século XIX é absoluta alegria. Coloca para ouvir uma execução da Filarmônica de Filadélfia sob Ormandy. É a Alegria de Paris de Jacques Offenbach. Champagne, risos e cortesãs, um tipo de universo que hoje devemos nos desculpar por apreciar. A alegria que em 2026 seria indesculpável, a alegria dos malvados eurpeus de 1870 colonialistas não é? Pois eu digo: ouse ser feliz enquanto a morte não vem, pois esses homens e essas mulheres de 1870 sofreram tudo que tinham de sofrer e estão esquecidos por seu mal e serão lembrados por seu bem. A música? Uma dançavel celebração do viver em esquecimento, por um momento. Estranho mundo! Sifilis, tuberculose, guerras e vidas que duravam quatro décadas! E por isso, e com isso, e apesar disso, a alegria de viver! Porque é necessário sofrer, sofrer no mundo lá de fora, o real, para dar valor ao estar vivo. Então celebrem! E bebam as bolhas do vinho! E se joguem nos braços delas, todas elas. Ritmo e rodopios que dizem o que é preciso ser dito. É tudo.

A COPA DO MUNDO HOJE

Todo esporte reflete o tempo em que ele é praticado, e assim, todo esporte muda de acordo com seu momento. Talvez nenhum mudou mais que o tênis, mas não existe um só que não tenha se adaptado ao clima contemporâneo. ( Penso que o rugby é o que menos mudou ). Desse modo, o futebol americano, por exemplo, é hoje jogado muito mais a base de lançamentos, o QB se tornou primordial e a violência diminuiu muito, ao ponto das defesas quase não poderem mais jogar. O basquete, com a regra de 3 pontos, matou o jogo de pivô, ele hoje é muito mais ofensivo, um tipo de exibição para a Tv e por isso não me interessa mais. --------------------- O futebol tomou a velocidade nervosa do mundo em que somos obrigados a viver. Tenho assistido a Copa do Mundo e os jogos são divertidos e ao mesmo tempo profundamente frustrantes. Por que frustrante? Olhe com olhos de crítico e voce perceberá. ----------------- O jogo tomou influências de dois outros esportes: o basquete e o rugby. Do basquete a ansiedade pela velocidade e a defesa onde todos devem defender ( okay, é o basquete dos anos 90, hoje se defende mal no basquete ). Do rugby o jogo em bloco e a obediência cega ao técnico. Mas há mais. Note quantos cruzamentos na área são feitos. 90% talvez dos ataques têm sempre o mesmo roteiro: zagueiros tocam a bola, o meia pega essa bola e faz o que? Procura levar à ponta. O ponta volta ao zagueiro, ele toca ao meia que toca à ponta. Até que se possa cruzar. São dezenas de chances de invadir a defesa pelo meio, chances de chutar ou correr pelo centro, que são ignoradas pela mania de jogar a bola para a ponta. -------------- A defesa se tornou a mesma do basquete. Corpo a corpo. Se pode agarrar, pegar, bloquear, tocar. Os escanteios, centenas, são cômicos. Não fazem sentido. O jogo é hoje extremamente ansioso, febril, quase histérico. ------------------- Quanto ao modo de jogar, esqueça. A maior beleza da Copa era ver maneiras diferentes de jogar. O cadenciado jogo alemão, o raçudo modo argentino, os ingleses e sua organização, o Brasil e seus dribles. Eu falei drible? ---------------- Um drible comum faz de qualquer jogador um craque e dois dribles fazem dele um gênio. Eu vi lançamento de 15 metros ser chamado de genial. Nesse esporte hiper veloz e obediente não há espaço para o indivíduo. Claro que Messi é uma excessão, mas é o último, seu jogo é aquele dos anos de 2002, 2003. Um cara que joga sozinho. Os novos craques, M'Bappé ou Olise, óbvio que são ótimos jogadores, mas brilham em conta gotas. Jogassem em 2005 seriam como Ronaldinho ou Zidane, um show de 90 minutos, individualistas ao extremo. ------------------ Isso me leva a falar do tempo e do saudosismo. Se fala muito que Pelé ou Maradona não jogariam contra as defesas de hoje, 9 jogadores bloqueando o espaço. Eu vou mudar a questão, CR7 ou Rodri jogariam em 1970? Claro que sim. O grande jogador joga com o cérebro e o corpo é formatado para o jogo que se joga então. CR7 em 1970 faria gols às dezenas e seria menos atleta e mais habilidoso. O mesmo para Pelé ou George Best. Tivessem nascido em 1998, eles seriam super atletas com o mesmo talento natural que tinham em 1970. O grande jogador é grande em qualquer tempo porque ele tem talento, seja isso o que for. A atleticidade ele adquire na escolinha e no clube. M'Bappé faria gols em 1958 e jogaria como Garrincha, Jairzinho faria gols em 2026 e jogaria como Yamal. ------------------------- Como disse, o esporte, comoa arte, reflete seu tempo. E assim como Mozart, se tivesse hoje 40 anos talvez não fizesse música mas fosse um fenômeno da mídia, Bjorn Borg, no tênis, teria a força de um canhão e a habilidade que ele sempre teve. A dele mesmo. ------------------- A Copa em 2026 é uma diversão típica de 26: veloz, estridente, barulhenta e febril. Estamos na Era da pressa, e tem de ser assim.

SHOSTAKOVICH

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SHOSTAKOVICH - SINFONIA NÚMERO 5

Shostakovich sempre foi um enigma. Para quem é de direita, ele sempre foi chamado de serviçal da esquerda. Para os comunistas, era um problema, talvez demasiado burguês. Provavelmente sua única preocupação era compor e assim eu o chamaria de artista independente. ------------ Apesar dos austríacos, alemães, ingleses, eslavos e franceses, e da Itália, lógico, a Russia é para mim a nação que faz a melhor música pós Wagner. E Shostakovich não desmerece a genialidade de Prokofiev e Stravinski. Sempre surpreendente, sua música explode de vitalidade. As orquestras são usadas em tudo aquilo que podem oferecer aos nossos ouvidos. Ele é agressivo e belo. Esta Sinfonia foi condenada pelo Partido, considerada pouco proletária, não tinha mensagem alguma às massas ( sim, Stalin era desse jeito ). Shostakovich viveu sempre nessa corda bamba, sendo às vezes silenciado e outras vezes festejado. Na URSS não havia meio termo, ou voce elogiava o regime ou era calado. Sua arte precisava ser sempre útil, à serviço do Estado. Shostakovich tentava parecer bem conformado ao Poder, fazia o que podia. ------------------- Ouça esta sinfonia no volume máximo que voce puder. O efeito será imediato. Mestre em orquestrar, ele colore a música utilizando todos os timbres da orquestra. Não teme a percussão e não teme os metais, coloca o piano como aquilo que ele é: percussivo. Se voce de deixar invadir pelo som sua alma irá bem longe. Um imenso prazer. --------------- Charles MacKerras rege a Royal Philarmonic na versão que ouvi.

A CULTURA DO RENASCIMENTO NA ITÁLIA - JACOB BURCKHARDT

A leitura é muito agradável. Lançado em 1860, este estudo é de uma popularidade imorredoura. A tese central que rege este trabalho é a de que foi na Itália, entre Dante e Ariosto, Bocaccio e Boiardo que a individualidade moderna teve nascimento. Para isso, o suiço Burckhardt analisa, em capítulos breves, todos os aspectos da vida de então. Política, arte, moda, religião, guerras, geografia, crendices, tudo é contado de um modo delicioso. O autor nunca parece erudito demais, e ao mesmo tempo não se aproxima da vulgaridade simplificada do best seller. -------------- A melhor parte é a política. A história dos vários príncipes, nobres, papas, prelados que se enfrentavam na península é saborosamente agitada. Ao contrário do resto da Europa, onde a nobreza hereditária vivia distante da massa, enclausurada em caçadas e guerras, torneios e banquetes, a dita nobreza italiana era volúvel, a nobreza se dava por dinheiro, poder, influência, e não por linhagem. Desse modo, o duque ou barão, dividia a vida com comerciantes, navegadores, soldados e mesmo gente do povo. A nobreza, que na Alemanha ou Inglaterra se dava pelo sangue, na Itália se devia à honra, à cultura, aos bons modos e aos contatos escusos. Nesse caldo de rostos e vozes, de acordos e traições, nasce o homem moderno: o indivíduo. O homem não é mais parte de um estado ou descendente de uma linhagem. Ele é um homem. ----------------- A consciência de ser herdeiro de um império, o de Roma, a língua nobre, o latim, o amor aos livros ( várias histórias de nobres ricos que gastavam tudo o que tinham para a construção de uma biblioteca ), tudo isso teria fim por volta de 1540, quando a Espanha tomaria a Itália para si e poria fim à Itália do renascimento em prol da Itália dos jesuítas. O espírito italiano, exportado para toda a Europa, estaria morto dentro da própria Itália até o início do século XIX. Trezentos anos de servidão à Espanha e depois à França e a Austria. --------------------- Claro que há o lado cruel da cultura italiana da renascença. Os inimigos envenenados, a oposição destruída, a tirania de juizes corruptos, a compra de papas, mas, por outro lado, há impostos mais baixos que em qualquer outro local europeu de então, cidades como Veneza e Milão têm um nível de vida mais alto que qualquer lugar, incluindo o Oriente, o asseio e a higiene são incrivelmente elevados, todo esse dinheiro obtido pela ação do comércio, atividade em que cidades da Italia dominam o globo. Ferrara, Bolonha, Napoli, Bari, Verona, todas tentando ser mais educadas, mais cultas, mais luxuosas que sua rival, um tecido de províncias, de países minúsculos que se diferenciam não pela língua, mas sim pelo costume, pelo que cada uma tem de individual. O cidadão, vivendo em meio a esse caldo de cores e brilhos, desenvolve lentamente a ideia de que ele não só pode como deve desenvolver algo que o diferencie dos outros. Eis o homem moderno. Assim, enquanto na França ou na Espanha mal se precebe qualquer particularidade em um rei como Luis ou Afonso, na Italia há uma marca, uma cor única na alma de um Lorenzo de Medicis ou um Cellini. Bello!

CHARLES IVENS-SINFONIA 4. SIM, ELE É GENIAL

Nesta fase da minha vida só o que é belo, no sentido italiano, ou o que surpreende me importa. Charles Ivens foi o maior gênio da música americana. Ouça a sua Sinfonia 4 ( ouço com a Sinfônica de Chicago, regida por Tilson Thomas ), ela é uma porrada na cara. Por pouco mais de 30 minutos voce é supreendido por tudo aquilo que ele cria. A orquestra, imensa, despeja em seus ouvidos uma potência sonora oceânica. O piano, usado como instrumento não solista, mas como parte da massa, pontua essa obra prima composta nos anos de 1930. O barulho, harmônico, despudorado, cita canções populares dos USA, trechos de bandas marciais, fragmentos de arranjos. Ivens não teme nada, sua obra é construída como uma catedral de sabedoria musical. ------------------ Mas não espere sentir algo que remeta à uma narração verbal. O som é tudo e ele é uma linguagem que vai muito além da lingua verbal. São massas que despencam com sua percussão atômica. Ivens não procura demonstrar nada, ele faz som. Épico. E assim minha voz se cala. Ouça.

CHARLES IVENS

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ABBADO E BACH

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BACH NO DOMINGO

Experimente ouvir o Terceiro Concerto de Brandenburgo imaginando cenas aleatórias de sua vida. Sem sentimento nenhum em especial, sem procurar pensar nada de relevante, reveja mentalmente sua mão segurando um lápis, um beijo aos 15 anos, seu carro em 2005, um jantar de dia dos pais, sua sala, uma montanha, uma dor, uma febre. Imagine essa cenas em coisas que possuem, ou são possuídas, um sentido. Pronto. A música de Bach casa à perfeição com essas cenas. Mas, muito cuidado agora, vá um pouco além e note uma pequena coisa encantadora: faz sentido. E então, estando dentro da música, voce percebe que há um ritmo nessas cenas, ou melhor, uma harmonia na aparente aleatoriedade da vida. O destino, o azar ou a sorte, a dor e o gozo, todos são harmônicos se vistos em conjunto. Pois sim, a música é a vida e sua linguagem é não verbal. --------------- Se isso não fez sentido para voce, se nada aqui te importa, então digo que sempre, desde sempre, ao ouvir os primeiros acordes do concerto terceiro, um sorriso nasce no meu rosto, e não é um riso, é um sorriso de satisfação. Esse sorriso diz, é isso. -------------- Bach, que viveu a vida pré romântica, em que um artista era um trabalhador e não um ego a procura de afirmação, fazia música como um dever e um talento dado por Deus. Toda sua música tinha uma função e o próprio Bach disse isso, ele compunha e tocava por glória de Deus. Sua arte não visava erguer sua alma acima da do homem comum, nem mesmo visava fama e fortuna, ele queria honrar a Deus. Claro que ele lutou por condições confortáveis de vida, teve muitos filhos e amava-os, mas o que ele mais queria era bons instrumentos e tempo para poder compor. Seu trabalho, imenso, produtivo, constante, ao glorificar a Divindade nos glorifica. ---------------- Ele não é romântico e é por isso que sua música não emociona a quem não consegue se abstrair e apenas escutar a música como música. Acostumados ao romantismo, queremos sentir a expressão de uma alma que se faz ouvir. Queremos a emoção do gênio gritando ao universo. Bach não é assim. Ele expressa ideias musicais, ele fala por som e não conta nada de modo verbal. Em suas missas e oratórios ele se comove por Jesus Cristo e não por um amor sofrido ou um desejo ideal. Voce não vê Bach em sua obra. A obra está além de Bach.

MILES DAVIS, A AUTOBIOGRAFIA

Vou escrever aqui no estilo deste livro. " Às vezes enche o saco a paranoia do Miles. Mas eu entendo. Tudo pra ele é racismo, os brancos nunca reconhecem o valor de um preto. Mas foda-se. Miles pelo menos não é como Mingus que nem sequer aceitava tocar com um branco. Miles respeitava Gil Evans, John McLauglin, Bill Evans e mais uma porrada de caras brancos filhos da puta. Mas que esse papo de racismo enche o saco isso enche. ------------------ Miles nasceu em 1926, e seu pai era rico. Dentista, tinha fazenda com gado premiado, casa grande, carros chiques. Miles nunca teve de se preocupar com dinheiro. Legal pra porra ver negros de 1926 que já eram ricos. Então ele foi pra Julliard estudar música, mas saiu com ano e meio porque os professores não sabiam nada a música de preto. Caiu na vida. Foi tocar com Charlie Parker e Dizzy Gillespie e o resto é lenda. ----------------------- Charlie era chato. Não era o preto bobo do filme do Clint, era um malandro que roubava grana dos amigos pra comprar droga. Mentia. Era furão. Irrepsonsável. Dizzy não. Dizzy era disciplinado. Profissional. Miles caiu na droga quando voltou de Paris. Lá ele foi tratado como rei e se apaixonou por Juliette Greco, a musa do existencialistas. Quando voltou teve o choque. De novo, nos EUA, ele era só um negrinho e a saudade de Greco apertava. Heroina virou paixão. ---------------- O livro descreve bem o que é um junkie. Se drogar, passar mal, se drogar pra não passar mal. Miles conseguia grana com o pai, tocando em clubes, pendurando roupas, instrumentos, tudo. Chegou a ser gigolô de duas putas. Foram 6 anos de heroína. A carreira decaiu. Em 1953 ninguém o levava à sério. Um decadente aos 27 anos. Então ele parou, sozinho. O livro mostra o quanto Miles é decidido. Se ele quer ele faz. Ele quis ser descolado, e foi o maior descolado do mundo. Ele quis ser junkie e foi. Quis ser famoso e foi. Sua vida, cheia de ambição, foi feita de música, acima de tudo a música, e muitas, muitas mulheres. Nunca foi fiel e nunca prometeu que seria. ------------- Sobre sua arte, ele nunca se acomodou. Queria estar sempre na onda, queria gente vendo seu trabalho, mas nunca concedeu nada. Seu foco era a bateria, o centro de seu som sempre foi o baterista. Por isso ele dá crédito imenso à Philly Joe Jones e depois à Tony Willians. Ficamos sabendo o quanto Sonny Rollins era viciado, como Coltrane era calado, que Monk era estranhíssimo, mas não maluco, que Mingus era um preto chato, Bud Powell um esquizo doce, e que Max Roach foi seu grande amigo. Miles aprendeu a frasear ouvindo a voz de Sinatra e ele dava valor a modulação, falar muito com pouco, menos notas e mais informação. ------------- Miles não tem vergonha de mostrar seu lado ruim, vaidoso, egoísta. Mas ele não foi um cara ruim. Era um homem com raiva, com amor e com toque de gênio. Um grande cara.