INTELIGÊNCIA PODE SER CULTIVADA?

Os países do norte europeu estão trazendo o lápis e o caderno de volta à sala de aula. Perceberam que tablets não desenvolvem a inteligência. Quando as pessoas vão aceitar que quando uma coisa existe por tanto tempo é porque há uma ótima razão para ela existir? Nossa civilização cresceu com textos feitos à mão. Nosso cérebro cresceu unido ao uso das mãos. É óbvio que escrever manualmente é um exercício cerebral melhor que a digitação. ---------------- Assim como ler livro de papel. O contato com a página impressa é a ginástica que construiu a mente da era moderna. Um filósofo que gosto muito diz que ler, ouvir música erudita e ver filmes é tudo que voce precisa para desenvolver sua mente. Mas há uma regra: não seja interrompido. Quando voce lé, ouve música séria ou mergulha em um filme, seu cérebro se expande em outro universo. A interrupção destroi aquilo que era construído dentro de voce. Isole-se, escolha seu canto e entre nesse outro mundo. -------------- Na internet não existe isso, pois voce será interrompido pela conexão que cai, um comercial ou o apelo do próprio meio, a internet pede que voce mude logo de página e pesquise alguma coisa ligada ao que voce faz ( tentei ouvir ópera no youtube e logo me vi pesquisando o maestro, a soprano e o tema da obra ). ---------------- O cérebro é alma a alma é cérebro e ele, como a alma, vive em ambiente etéreo. A criatividade embala-o e faz com que ele respire. Como ato de amor ele pode ser perdido em qualquer ruído. A inteligência nasce e cresce no idílio, você e a obra, voce e o texto. É ass

FANNY E ALEXANDER, UM OUTRO MODO DE OLHAR UM GRANDE FILME

Escrevi sobre este filme centenas de posts atrás, se quiser veja no índice. Feito em 1982, revi-o ontem de noite e encarei as 3 horas com grande tranquilidade. Como todo grande filme, cada novo encontro é como se fosse uma outra obra. O que vi dessa vez eu não vi antes. -------------- A base do filme, que é a base da vida de Bergman, é a guerra entre arte e religião. No mundo da arte temos cores fortes, tapetes, pinturas, exuberância; já o mundo da religião é austero, minimalista, cinza. Bergman, claro, toma o partido da arte e lhe dou total razão. Mas quero aqui fazer um adendo. A religião de que Bergman fala, que é aquela onde ele foi criado, é o luteranismo puro da Suécia. Mundo onde apenas a música era tolerada. E mesmo assim deveria ser música que glorifica Deus. Penso que se ele houvesse nascido na Itália por exemplo, sob o catolicismo, sua visão de religião seria bem outra. Pois no catolicismo cores, pinturas, exageros barrocos, panos, ouro, carnes fartas, tudo está presente e é permitido. O catolicismo promovia e patrocinava arte, de Michelangelo à Rafael. E essa arte era tão viva como o mundo da arte que Bergman mostra em seu filme. O luteranismo era reação contra aqueles anjos com bundas redondas de fora. ---------------- Há uma cena no filme que eu havia esquecido totalmente, é toda a sequência na casa do judeu. E é a melhor do filme. A exuberância visual daquela casa é ainda maior que na casa da viúva ligada às artes. Naquela velha religião Bergman mostra magia e dubiedade, medo e suspense. E é nela que surge aquele ser hermafrodita que não consigo entender porque. ( Um anjo? ). ---------------- Ingmar Bergman exemplifica a teoria do livro que li recentemente. Ele é um ateu, pois não crê em Deus, mas é religioso, pois sabe que a vida é mistério e magia. Bergman olha para o universo e percebe a beleza, terrível e assustadora, que há nele. É portanto um universo religioso, pois é algo que fica além da razão. Mas, para ele, sem Deus. Talvez no judaísmo, raiz de toda religião do Ocidente, Bergman veja a união, rompida, de arte e fé, de tradição e medo, de repressão e criação. Talvez... Bergman foi um grande artista, e por isso, muita coisa que ele criou nem ele mesmo pode entender. Aconteceu e ele registrou.

BELA BARTOK

leia e escreva já!

PROKOFIEV

leia e escreva já!

CONCERTOS PARA PIANO DE BARTOK E DE PROKOFIEV

Bartok e Prokofiev nasceram e morreram quase na mesma época. Saíram de sueus países e viveram nos USA, mas nunca se encontraram. Não consigo decidir de qual dos dois eu mais gosto. Bartok tem a exuberância de sua terra, a Hungria. Ele é eslavo, ele é cigano, ele é folclórico e ao mesmo tempo é pura inteligência. Seu concerto para piano número três soturno e é violento, é festivo e é profundamente misterioso. Ele usa a orquestra como numa sinfonia e o piano é integrado ao som de cordas, metais e muita percussão. O centro não é o pianista, é a obra construída. Uma obra prima. -------------------- Prokofiev é russo até os ossos. E como russo ele não esconde nada, a música nasce como parto explosivo. Exuberante, ele usa tudo o que pode para criar vida. Prokofiev é sempre belo, mas nunca é uma beleza óbvia, ela é estridente, efusiva, vasta e cheia de defeitos bem vindos. Um gigante da música, Prokofiev é um prazer que nunca decepciona. ----------------- Georg Solti, húngaro como Bartok, rege a Filarmônica de Londres na versão do CD que consegui ( por dois dólares ). Já Prokofiev é regido pelo famoso André Previn. O pianista em ambas as obras é Vladimir Ashkenazy e não há pianista maior que ele. Nunca lento demais, jamais histérico, Ashkenazy tem volume e tempo certos. --------------- Leio que as pessoas estão voltando a comprar CDs e que os preços começam a subir. O que as motiva é querer poder ouvir aquilo que desejam onde e quando quiserem e também o fato de certas obras serem muito dificeis de se achar na net. Eu penso que o motivo principal é uma mistura de esnobismo e desejo de posse. Eu quero TER um Bartok e eu tenho vários Prokofiev, voce não. O fato desse renascimento do CD começar pelo público dos eruditos não é casual. Nós somos todos esnobes sim.

RELIGIÃO SEM DEUS - RONALD DWORKIN

Dworkin foi um famoso juiz de direito americano. Este livro, lançado em 2013, pouco antes de sua morte, tem uma imensa ambição, mostrar que ateus, que não acreditam em Deus, podem ser, e a maioria é, religioso. Para conseguir demonstrar isso, Dworkin vai de Leibniz à teoria quântica, de Einstein à Russel, da Constituição americana aos mais extremos pensamentos da física atual. Dworkin não fala por falar, ele conhece ciência, filosofia e direito, história e religião. Neste livro ele não advoga nada, embora não se furte de demonstar a tolice de certas ideia bíblicas. Por outro lado ele exibe para nossos olhos o modo como a ciência se torna uma questão de fé e como a religião tem seu fundo científico. Como assim? -------------------- Ciência é indagar sobre os porques das coisas, é tentar explicar a realidade. A religião se torna ciência quando tenta explicar o que é a vida, de onde veio e qual seu sentido. Não importa se as respostas são falhas, a pergunta foi feita. Do mesmo modo, a ciência se torna fé quando deixa de perguntar e apenas encerra a questão. Ao se recusar a propor perguntas como " O que havia antes do Big Bang?", ou " O que há além do infinito?", a ciência se faz simples questão de fé. ----------------------- A atitude religiosa é aquela que vê sentido na vida e que se maravilha com o Cosmos e a natureza. Isso é básico em toda religião, mas existem ateus que têm certeza de que a vida tem um porque e se maravilham com o universo. São ateus porque não acreditam em um Deus que tenha criado a vida, mas sua atitude é a do religioso, sentem a sagrada verdade do mundo. Sem Deus, mas com beleza, sentido, verdade. O ateu sem religião fala que o universo é um acidente, a vida não faz sentido e a beleza é ilusória. ------------------ Um interessante livro de um homem interessante.

PEDAÇO DE PLÁSTICO

Eu vi um homem descendo a Serra com um pedaço de plástico na frente do rosto. Assim como um outro de frente ao mar com um outro pedaço de plástico na frente dos olhos. Diante de um show, onde coisas aconteciam no palco, uma mulher manteve a cara detrás do plástico todo o tempo. E vi um casal, à mesa, olhando cada um para seu plástico enquanto não observava mais nada. O poder, esse adora o pedaço de plástico, porque logo notaram que as pessoas não iriam querer mais nada. Nem livros, nem carro, nem casa, nem posse nenhuma, apenas um pedaço de plástico na frente da cara para dar a sensação de se ter tudo. ---------------- Não, voce nunca esteve na Koreia e não é modelo, pois jamais posou para nada a não ser para o pedaço de plástico. Voce não é um escritor pois escreve apenas no plástico, ninguém te paga, não te criticam, não pensam naquilo que voce escreve. Quando voce morrer voce deixará de ser. Não, fora do plástico voce é apenas um homem vestido de mulher, são seus amigos do plástico que te chamam de ELA, mas na vida biológica voce é o que nasceu. Voce jamais deu um tiro, por mais que esteja em guerras virtuais, é apenas um pedaço de plástico, e voce não é um jogador de poker, pois nunca pisou em um cassino. É só o plástico onde voce olha. -------------------- Suas emoções nascem e morrem nesse plástico, nessa tela, nesse pedacinho de nada. Olhe pra fora dele e veja que voce não tem nada, não fez nada, não vê nada. É só lixo plástico, não é mais nada.

MOZART, MASS IN C MINOR - FILARMÔNICA DE BERLIN, CLAUDIO ABBADO

Um amigo me diz que esta obra de Mozart, para ele a maior Missa da história, não combina com a regência de Abbado. Diz ele que falta punch, pegada nas partes do coro. Eu discordo. Não consigo imaginar nada melhor. ---------------------- Para quem não é íntimo da coisa, Missa é um tipo de obra que acompanha o sacramento da missa, ponto a ponto. Do século XVII ao XVIII foi uma forma muito usada, a partir do século XIX menos e no XX se tornou rara, embora existam obras maravilhosas feitas nos últimos cem anos. --------------------- A música surge poderosa, majestosa, celestial e se despeja de uma vez só sobre nosso corpo atingindo a alma e o espírito de imediato. Como é obra de Mozart, ela nos seduz como arte e não como religião. Faltava à Mozart a fé indiscutível de Bach. Mas o efeito musical é o mesmo, beleza ao extremo. As vozes são mais que belas, são atemporais. Me faz pensar em como a voz humana pode ser o maior e melhor dos instrumentos. A cada vez que a voz surge nos sentimos enlevados. ------------------- Mozart é o maior enigma da história musical. Ele talvez não seja o mais genial ou o mais criativo, mas ele é aquele que parece mais bem dotado. Sua música, mesmo a sacra, parece vir sem esforço, sem luta, sem preocupação. Esta obra-prima é um presente para todos nós. O que podemos fazer? Ouvir e agradecer. É tudo.

MOZART, ABBADO, MISSA EM C MENOR

leia e escreva já!

OTTORINO RESPIGHI - PINI DI ROMA, FONTANE DI ROMA, FESTE DI ROMA, NBC SYMPHONY ORCHESTRA, ARTURO TOSCANINI

É impossível dizer qual o melhor maestro da história, Furtwangler, Bruno Walter, Solti, Karajan, Abbado, Munch, Kleiber...a lista é sem fim, mas Toscanini foi o mais poderoso e o mais famoso. Italiano, ele começa sua carreira quando nasce o século XX e nos anos de 1940-50 ele ajuda a popularizar a música erudita nos EUA, fazendo transmissões ao vivo pelo rádio e depois pela TV via NBC. Era uma figura POP que vivia no mundo da mais alta cultura. Tenho aqui um CD com esta obra prima do italiano Respighi, numa gravação de 1953 com som muito bom. ----------------- Toscanini sempre rege com brio, e esse seu estilo se casa muito bem com a música que temos aqui. Se eu fosse definir a obra de Respighi eu diria a palavra VITAL. Maravilhosamente viva, é música que é água, é terra, é fogo e é gente. Os metais brilham como fossem incandescentes, mas são as cordas que trazem a sensação de magia voadora à esta obra prima. A música surge como aparição mágica e envolve nossa alma levando-a ao além do Cosmos. Giramos com ela e nos sentimos entontecidos. E perdidos, deliciosamente perdidos. --------------- Esta obra, 70 anos atrás, era extremamente popular e eu não sei se ainda a conhecem. A música, quando grande, é mais que magia ou mistério, é cura espiritual. Esta é uma das poções.

ARTURO TOSCANINI - RESPIGHI

leia e escreva já!

O CENTAURO - ALGERNON BLACKWOOD

Já aviso que é um livro muito ruim. Blackwood, que foi figura tão famosa na midia inglesa que foi convidado para a primeira transmissão da BBC TV, em 1936, teve uma vida muito interessante, tendo viajado muito, se envolvido em negócios que não deram certo, publicado bastante, participado do movimento exotérico que foi moda na Europa da virada do século. Seu trabalho, mesmo o de ficção é todo de divulgação de sua filosofia. O Centauro é um romance e é muito mal escrito. Ou talvez mal traduzido. De forma pretensiosa e enfadonha, somos obrigados a participar da viagem de um homem estranho, acompanhado por um amigo esquisito e que conhece no navio um russo muito soturno. Tudo isso, em conversas sem fim, para advogar a ideia de que a Terra é um organismo vivo que possui consciência e inde nós somos pequenas fagulhas da consciência universal. Se o assunto parece interessante, informo que tudo tem ar de pesadelo e tédio. Uma enorme decepção.

A PORNOGRAFIA

Não há nada mais chato que a pornografia. Meu limite é 10 minutos. Logo me cansa e entedia aquela repetição de atos, corpos e rostos sempre iguais. Se voce deseja excitação, irá se iludir com o cardápio pornô que promete variedade mas que na verdade é sempre mais do mesmo. Nada é menos erótico que a falta de criatividade. Nada menso excitante que a ausência de surpresa. Por isso procuro, e não acho, algo que traga narrativa, história, surpresa, o suspense do sexo. Mas não é isso que o consumidor de pornografia típico quer. Ele deseja mais do mesmo. --------------- Então é daí que nasce o vício. O viciado em pornografia, como o viciado em alcool ou jogo, finge desejar a quebra da rotina da vida, mas na verdade ele procura o anestesiamento, a completa ausência do inesperado, do novo. Há na pornografia a repetição infindável da rotina, e assim, penso, a mente e o desejo do adicto se livram do pavor do risco e do inesperado. Esse pavor é tão grande que não admite risco-surpresa-quebra do óbvio, mesmo no universo virtual. A pornografia conforta aquele que quer mais do mesmo.

SE FOI A CASA DAS ROSAS

Derrubaram a casa cor de rosa da esquina. Ela tinha uma linda janelas com losangos de ferro e um jardim bem cuidado, cheio de rosas brancas e vermelhas. Havia uma cadeira onde uma senhora tomava sol e as janelas estavam sempre abertas para deixar o sol entrar. Passei lá ontem e vi no lugar um terreno vazio. A terra lisa, sem um só capim e os tijolos retirados e levados embora. O silêncio agora tomou conta daquela esquina. --------------- Antes: Passei em frente aquela mesma casa e eu andava pelas ruas com uma canção na cabeça. Eu a cantava baixo, entre os dentes. Uma menina saía da casa acenando para a mãe. No outro lado da rua, em frente, um homem lavava seu carro, água de mangueira. Era setembro. Três mulheres vinham trazendo o pão nas mãos e uma delas mancava. Dois meninos se deixavam levar pelas bicicletas. Mais adiante a grama era cortada e um caminhão estava quebrado. Pela porta da sala se podia ver a mesa posta para o café da tarde e em outra porta se via a televisão ligada. Um cachorro pulava o portão voltando de alguma fuga. A menina que eu conhecia vinha pela calçada com os livros contra o peito. Ali um garoto gritava o nome Walter. Lá a mãe, de quem?, chamava o moleque para apanhar de cinto. Na rua de baixo estavam jogando taco, ouvia os gritos. A velha japonesa andava devagar com a sombrinha aberta. Eu parava pra ver o sapateiro martelar a sola de uma bota. Esses bairros tinham um tesouro, suas crianças, e por isso todos cuidavam delas. O filho da Fernanda, o filho do Mario, a filha da Clélia. Todo lugar era estar em casa, toda casa era o lugar certo para estar. Quando o calor apertava havia o porão de casa ou a beira do córrego. Sempre havia água por perto, lagoa, bica, poço. Dentro de casa era chato. ------------------- Mas agora a esquina está vazia e o que farão lá não vai ter água e nem porão. Nem rosas e muito menos velhas com pão. O bairro não terá tesouro algum. E quando derrubarem, no futuro, o que lá agora irão fazer, ninguém haverá de lamentar.