trombone com vara
cinema, música, livros e outras coisas roxy
MOZART, MASS IN C MINOR - FILARMÔNICA DE BERLIN, CLAUDIO ABBADO
Um amigo me diz que esta obra de Mozart, para ele a maior Missa da história, não combina com a regência de Abbado. Diz ele que falta punch, pegada nas partes do coro. Eu discordo. Não consigo imaginar nada melhor. ---------------------- Para quem não é íntimo da coisa, Missa é um tipo de obra que acompanha o sacramento da missa, ponto a ponto. Do século XVII ao XVIII foi uma forma muito usada, a partir do século XIX menos e no XX se tornou rara, embora existam obras maravilhosas feitas nos últimos cem anos. --------------------- A música surge poderosa, majestosa, celestial e se despeja de uma vez só sobre nosso corpo atingindo a alma e o espírito de imediato. Como é obra de Mozart, ela nos seduz como arte e não como religião. Faltava à Mozart a fé indiscutível de Bach. Mas o efeito musical é o mesmo, beleza ao extremo. As vozes são mais que belas, são atemporais. Me faz pensar em como a voz humana pode ser o maior e melhor dos instrumentos. A cada vez que a voz surge nos sentimos enlevados. ------------------- Mozart é o maior enigma da história musical. Ele talvez não seja o mais genial ou o mais criativo, mas ele é aquele que parece mais bem dotado. Sua música, mesmo a sacra, parece vir sem esforço, sem luta, sem preocupação. Esta obra-prima é um presente para todos nós. O que podemos fazer? Ouvir e agradecer. É tudo.
OTTORINO RESPIGHI - PINI DI ROMA, FONTANE DI ROMA, FESTE DI ROMA, NBC SYMPHONY ORCHESTRA, ARTURO TOSCANINI
É impossível dizer qual o melhor maestro da história, Furtwangler, Bruno Walter, Solti, Karajan, Abbado, Munch, Kleiber...a lista é sem fim, mas Toscanini foi o mais poderoso e o mais famoso. Italiano, ele começa sua carreira quando nasce o século XX e nos anos de 1940-50 ele ajuda a popularizar a música erudita nos EUA, fazendo transmissões ao vivo pelo rádio e depois pela TV via NBC. Era uma figura POP que vivia no mundo da mais alta cultura. Tenho aqui um CD com esta obra prima do italiano Respighi, numa gravação de 1953 com som muito bom. ----------------- Toscanini sempre rege com brio, e esse seu estilo se casa muito bem com a música que temos aqui. Se eu fosse definir a obra de Respighi eu diria a palavra VITAL. Maravilhosamente viva, é música que é água, é terra, é fogo e é gente. Os metais brilham como fossem incandescentes, mas são as cordas que trazem a sensação de magia voadora à esta obra prima. A música surge como aparição mágica e envolve nossa alma levando-a ao além do Cosmos. Giramos com ela e nos sentimos entontecidos. E perdidos, deliciosamente perdidos. --------------- Esta obra, 70 anos atrás, era extremamente popular e eu não sei se ainda a conhecem. A música, quando grande, é mais que magia ou mistério, é cura espiritual. Esta é uma das poções.
O CENTAURO - ALGERNON BLACKWOOD
Já aviso que é um livro muito ruim. Blackwood, que foi figura tão famosa na midia inglesa que foi convidado para a primeira transmissão da BBC TV, em 1936, teve uma vida muito interessante, tendo viajado muito, se envolvido em negócios que não deram certo, publicado bastante, participado do movimento exotérico que foi moda na Europa da virada do século. Seu trabalho, mesmo o de ficção é todo de divulgação de sua filosofia. O Centauro é um romance e é muito mal escrito. Ou talvez mal traduzido. De forma pretensiosa e enfadonha, somos obrigados a participar da viagem de um homem estranho, acompanhado por um amigo esquisito e que conhece no navio um russo muito soturno. Tudo isso, em conversas sem fim, para advogar a ideia de que a Terra é um organismo vivo que possui consciência e inde nós somos pequenas fagulhas da consciência universal. Se o assunto parece interessante, informo que tudo tem ar de pesadelo e tédio. Uma enorme decepção.
A PORNOGRAFIA
Não há nada mais chato que a pornografia. Meu limite é 10 minutos. Logo me cansa e entedia aquela repetição de atos, corpos e rostos sempre iguais. Se voce deseja excitação, irá se iludir com o cardápio pornô que promete variedade mas que na verdade é sempre mais do mesmo. Nada é menos erótico que a falta de criatividade. Nada menso excitante que a ausência de surpresa. Por isso procuro, e não acho, algo que traga narrativa, história, surpresa, o suspense do sexo. Mas não é isso que o consumidor de pornografia típico quer. Ele deseja mais do mesmo. --------------- Então é daí que nasce o vício. O viciado em pornografia, como o viciado em alcool ou jogo, finge desejar a quebra da rotina da vida, mas na verdade ele procura o anestesiamento, a completa ausência do inesperado, do novo. Há na pornografia a repetição infindável da rotina, e assim, penso, a mente e o desejo do adicto se livram do pavor do risco e do inesperado. Esse pavor é tão grande que não admite risco-surpresa-quebra do óbvio, mesmo no universo virtual. A pornografia conforta aquele que quer mais do mesmo.
SE FOI A CASA DAS ROSAS
Derrubaram a casa cor de rosa da esquina. Ela tinha uma linda janelas com losangos de ferro e um jardim bem cuidado, cheio de rosas brancas e vermelhas. Havia uma cadeira onde uma senhora tomava sol e as janelas estavam sempre abertas para deixar o sol entrar. Passei lá ontem e vi no lugar um terreno vazio. A terra lisa, sem um só capim e os tijolos retirados e levados embora. O silêncio agora tomou conta daquela esquina. --------------- Antes: Passei em frente aquela mesma casa e eu andava pelas ruas com uma canção na cabeça. Eu a cantava baixo, entre os dentes. Uma menina saía da casa acenando para a mãe. No outro lado da rua, em frente, um homem lavava seu carro, água de mangueira. Era setembro. Três mulheres vinham trazendo o pão nas mãos e uma delas mancava. Dois meninos se deixavam levar pelas bicicletas. Mais adiante a grama era cortada e um caminhão estava quebrado. Pela porta da sala se podia ver a mesa posta para o café da tarde e em outra porta se via a televisão ligada. Um cachorro pulava o portão voltando de alguma fuga. A menina que eu conhecia vinha pela calçada com os livros contra o peito. Ali um garoto gritava o nome Walter. Lá a mãe, de quem?, chamava o moleque para apanhar de cinto. Na rua de baixo estavam jogando taco, ouvia os gritos. A velha japonesa andava devagar com a sombrinha aberta. Eu parava pra ver o sapateiro martelar a sola de uma bota. Esses bairros tinham um tesouro, suas crianças, e por isso todos cuidavam delas. O filho da Fernanda, o filho do Mario, a filha da Clélia. Todo lugar era estar em casa, toda casa era o lugar certo para estar. Quando o calor apertava havia o porão de casa ou a beira do córrego. Sempre havia água por perto, lagoa, bica, poço. Dentro de casa era chato. ------------------- Mas agora a esquina está vazia e o que farão lá não vai ter água e nem porão. Nem rosas e muito menos velhas com pão. O bairro não terá tesouro algum. E quando derrubarem, no futuro, o que lá agora irão fazer, ninguém haverá de lamentar.
SE VOCE NÃO SUPORTA ASTROLOGIA NÃO LEIA ISTO
Não há como um planeta, por exemplo Vênus, influenciar a vida aqui nesta Terra. Eu jamais cheguei perto de crer nisso. Porém há algo de simbólico na astrologia que me diverte ( divertir é a palavra exata e nela nada há de irônico ). Por uma estranha coincidência, ou sabedoria antiga, existem pessoas que são taurinas ou cancerianas, que apresentam o perfil como o do dito signo. Jamais penso que isso se deve ao fato de fazeram aniversário dia 12 ou dia 31, o que imagino é que ocorra aí alguma espécie de intuição ou coincidência que não tenho como entender ou provar. Me envergonho de gastar tempo pensando nesse assunto? Não. Na pior da hipóteses se trata de um brinquedo, na melhor é uma intuição arcaica. ----------------- Na astrologia, talvez a mais interessante das coisas, é que eles dividem os ciclos da história em períodos de 2 mil anos e esses ciclos caminham no sentido inverso ao astrológico. Cada 2 mil anos um signo começa a reger a história humana e esse relógio caminha em sentido inverso. Então desde o ano zero de nossa era, o nascimento de Cristo, estivemos sob a regência de peixes, e agora começamos o caminho de aquário, que durará 2 mil anos. É interessante observar isso. Antes de Cristo vivemos dois mil anos sob o signo de aries e isso faria da vida na Terra algo radicalmente diferente do que conhecemos. História, religião, arte, política, tudo teria sido tingido pelas cores de Marte, ou seja, militarismo e guerra. Os maiores nomes seriam os de guerreiros, as relações humanas se dariam por valores como dever, honra e coragem e tanto o mundo do espírito como o da carne teriam a prevalência da agressividade egoísta de aries. Coincide? Parece que sim e eu não sei o porque. ------------------ Já sob peixes teria havido uma virada. O militarismo deixa de ser o centro da vida ( continua a haver, lógico, mas de outro modo ), a religião passa a ser o assunto central do planeta. Teríamos vivido dois mil anos de auto sacrifício, de humildade, de culto da passividade, de humanismo espiritualizante. Em peixes se encontra criatividade e fé, mas também preguiça e medo. Teria sido a mais frágil das eras. Será? --------------------- Agora estaríamos adentrando um mundo absolutamente diferente de peixes, radicalmente oposto ao que vivemos até aqui. E talvez venha daí nosso mal estar. Religião, arte, amor, guerra continuarão a existir como sempre existiram, mas tudo isso terá um caráter aquariano e como seria esse caráter? Inumano. O amor aquariano é um amor ao geral e uma completa frieza ao indivíduo. Aquário ama conceitos, a humanidade e não o homem como ser separado do todo. A religião seria científica, assim como a arte teria de possuir uma função social. Entenda, nada do que entendemos como arte seria "a arte" desta nova era. A arte de peixes é a arte da alma, do espírito, e agora a arte seria do bem comum, de todos. Se algo no que falo faz voce pensar em ditadura voce acertou. Para aquario ditadura ou democracia não faz sentido, o que importa é o funcionamento do organismo social como ser vivo. Não importa a liberdade ou mesmo a felicidade, o que interessa é o conceito de progresso. Progresso como vitória sobre as necessidades e carências biológicas. Aquário criará o pós humano, o homem que não mais é escravo da biologia. -------------- Será? Parece que sim e não deixa de ser bela coincidência observar que aquário casa com isso.
BARTLEBY, O ESCRIVÃO - HERMAN MELVILLE. EU PREFIRO NÃO.
O autor de Moby Dick tem reconhecido este conto como um dos maiores da história. O que o deixaria surpreso pois em vida Melville não era reconhecido. Era visto como simples autor de aventura ( como se isso fosse pouca coisa ). Imediatamente após sua morte, Melville foi esquecido e não era verbete em texto nenhum sobre literatura. Então à partir dos anos de 1920 começou sua reavaliação e hoje é autor central. Muito de sua sobrevida se deve a Joseph Conrad pois os contos de Conrad, que se tornaram moda na virada do século, têm clima parecido aos de Melville. Conrad fala da luta do homem para existir e essa luta sempre tem o absuro como sombra e destino. ---------------- Bartleby surge em um escritório de advocacia e ele é ninguém. É um homem que se recusa a viver. Cada tarefa dada tem a mesma resposta: eu preferia não fazer. E o absurdo se faz porque seu chefe, narrador do conto, não consegue se livrar dele. Bartleby mora no escritório e fica o dia todo olhando a parede. ----------------- Humor negro ao extremo, kafkianismo, existencialismo, Ionesco, horror, tudo já foi dito sobre este conto. E continuamos sem entender porque Melville o escreveu. Não se parece com nada escrito em seu tempo e antecipa em décadas o tipo de texto que seria moda no século XX.
A QUINTA DE TCHAIKOVSKI E A DIFERENÇA ENTRE MÚSICA RUSSA E MÚSICA DA EUROPA
O modo alemão de se escrever uma sinfonia é dominante desde o tempo de Haydn e é esse modo que faz com que tanta gente sinta dificuldade em acompanhar uma exibição sinfônica. Como é esse estilo que a crítica musical tanto adora? É um estilo em que a música vai sendo construída pouco à pouco. Lentamente, o autor acrescenta um acorde aqui, um motivo ali, e variando tom e harmonia a grande obra vai crescendo até chegar ao seu êxtase musical. Tudo feito de um modo que faça sentido, modo quase matemático. Uma frase aqui é completada por uma outra lá. -------------- Quando a música russa aparece para o resto da Europa, por volta de 1870, é um susto! Ela parecerá selvagem por um fato que hoje nos parece simples: ela vai direto ao ponto. De uma maneira brutal essa música eslava não se preocupa em construir ela se expôe. Eis aqui a melodia, eis aqui o que sinto, eis aqui meu erro, eis aqui a mensagem. Nada é disfarçado, enrolado, camuflado. Mesmo Beethoven, ao lado de um russo, irá parecer um pouco frio. ---------------------- Esse o motivo do ódio dos críticos por Tchaikovski e do amor do público por ele. O russo não faz música, ele exibe emoções. Como Rachmaninov mais tarde. ------------------- Eis o motivo de minha dificuldade em ouvir Bach por exemplo. Sua música é tão perfeita, tão matemática, tão bem acabada que não parece mais humana. Parece algo vindo de outro planeta. Bach paira acima de nós. Já gente como os eslavos Chopin e Smetana ou russos como Mussorgski são absolutamente humanos. --------------- A quinta de Tchaikovski tem momentos quase bobos, como a valsa que ele enfia no meio de um movimento, mas ao mesmo tempo é uma espécie de declaração de sentimentos fortes, sem medida, reais. Não tem sutileza, não espera para entregar os temas, joga logo tudo na sua cara, ou seja, não é alemã. Confesso que gostei bastante. ----------------- Quanto a Tchaikovski, hoje ele é bem melhor aceito pela crítica e continua sendo uma estrela entre o público.
JOYCE OU PROUST E O HÁBITO POSEUR DE QUEM QUER PARECER INTELIGENTE
Muita gente diz ler Joyce sem nunca o ter lido. Ou melhor, ter lido, talvez, o mesmo que eu, Dublinenses, O Retrato e as primeiras páginas de Ulysses. Eu cheguei à página 120, e não senti o menor prazer. Dublinenses tem um dos 3 ou 4 melhores contos que li na vida, Os Mortos e o Retrato eu achei chatíssimo. Finnegans é um livro de um linguista endoidecido. É como Pound, só tradutores e professores de linguística se divertem. Há em Joyce algo de desumano que nos afasta. Ele é frio como uma pedra de igreja irlandesa e tem o modo de falar de um jesuíta. Seu sucesso, sua representatividade se deve ao fato de que seus defeitos são os defeitos do século XX. Não há ninguém que represente melhor a confusão, o niilismo e a falta de objetivo de um tempo de ruína e finais vários. --------------- Já Proust é seu oposto. As pessoas também fingem o ler, mas eu, ao menos, falo a verdade, leio e sinto o mais absoluto prazer. Marcel Proust crê na vida apesar de tudo. E nisso, moralmente, ele é infinitamente superior ao irlandês. Escritor da sabedoria da vida, Proust nos diz todo o tempo que tudo valeu a pena. Pois, por maior que possa agora tudo parecer perdido, na memória, na vida que voce viveu e que portanto é sua para sempre, na memória tudo se salva. Mas não é só isso. Dizer que ele é o homem da memória é não dizer nada. Proust nos ensina que é na linguagem que se salva a memória e que entender o signifcado das palavras e as usar com precisão faz da vida uma realidade muito mais rica. A beleza, o saber viver, o aproveitar a vida está relacionado a saber falar, pensar, verbalizar. Por isso sua escrita tão exuberante. Proust percebe a catedral que vive latente no tijolo e enxerga a respiração que se faz provável em cada hora. Dessa maneira, ele nos ensina a sentir. --------------- Para isso ele nos pede apenas uma coisa, que usemos nossa imaginação. Há uma cena em Jean Santeuil em que Jean, o protagonista, não sente nada ao olhar o lago de Genebra. Então, através de ideias que se coordenam, Jean percebe que só sentimos a vida de fato, em tudo que ela pode nos dar, quando nossa imaginação é ativada. O lago de Genebra é uma linda mistura de água e areia, mas isso é apenas linda água e areia. Ele começa a emocionar quando Jean, sem perceber, e através da sua imaginação, começa a associar o lago ao mar que ele amava quando era criança, aos lagos que ele imaginou nos livros que leu, à tudo aquilo que, dentro de si mesmo, Genebra pode lhe despertar. É um modo de entender o prazer que se casa perfeitamente com o meu, pois eu já senti, antes de o ler, o mesmo que Proust aqui descreve. ----------------------------- Um grande autor fala aquilo que nós desejamos falar e não conseguimos. E é em Proust que mais encontro esse tipo de frase em que ele explica, com perfeição, um sentimento ou um pensamento que sempre tive mas que nunca pude o explicar. Ele vê o mundo como eu o vejo.
A LIÇÃO DO MESTRE - HENRY JAMES. A VIDA VALE MAIS QUE A ARTE?
Eu achava que havia lido tudo de Henry James, mas eis que encontro este livro em um sebo. Uma novela publicada aqui em 2004. Pouco mais de 100 páginas que me prometem prazer. E o obtenho. ---------------- Para quem não sabe, uma novela é um conto pouco maior, ou seja, se um conto pode ser lido de uma só vez, uma novela se lê em três horas. E leio então esta bela história. O estilo de James é como uma cartola de seda muito bem feita. É bonita por si mesma, é perfeita em sua forma e traz em sua presença uma associação de imagens e de lembranças. O enredo? ---------- Tive aulas de Henry James na USP e o professor sempre salientava a enorme ironia que há em James. Sua genialidade é a de mostrar como as pessoas desejam uma coisa e a dissimulam, às vezes para si mesmas. Aqui, um jovem escritor conhece numa reunião campestre, uma linda jovem. Ao mesmo tempo ele encontra O Mestre, um grande escritor mais velho que atualmente só publica livros ruins. Primeira coisa que notamos: Henry James, que permaneceu solteiro toda a vida, cria jovens mulheres que são declaração de amor à liberdade feminina. A mulher é sempre mais corajosa e mais curiosa que o homem. Pois bem, o velho escritor costuma sair, inocentemente, com a jovem menina e o escritor jovem se apaixona por ela. O Mestre, o velho escritor, é rico e casado com uma mulher doente. ------------------- O jovem sai com a menina e adora o modo como ela ama a vida e ama a arte. Ela o admira por ser um ótimo autor. Pois bem, um dia o jovem e o Mestre se encontram e têm uma longa conversa. O veterano confessa que o casamento destruiu sua inspiração. Fala que as mulheres impedem que um artista seja genial. Que filhos e um lar acomodam o escritor e matam o dom de criar. Ele lhe revela sua dor e sua impotência criativa. Então, influenciado pelo Mestre, o jovem abandona Londres e escreve um livro na Suiça. Volta dois anos depois, publicado o novo volume, à Londres. A esposa do Mestre morreu e ele irá se casar com a jovem que o escritor mais novo ainda ama. -------------- O que ocorreu? Uma armadilha? Era tudo mentira, todo o discurso do Mestre foi um modo de afastar o jovem autor da menina que o velho desejava? É isso que o escritor mais novo crê. Mas, e o leitor, crê no que? Qual a verdade? Foi um acaso? ------------------- Ao fim, Henry James faz a profissão de fê de que valeu a pena ao jovem não se casar e assim produzir uma obra prima. Mas mesmo isso, é verdade? -------------- Autor da dúvida, da ambiguidade, Henry James foi um autor perfeito. Um gênio da escrita exata. E eu não sei o que ele pensava sobre este assunto.
OFFENBACH E A JOIE DE VIVRE
Qual o problema em celebrar a vida? A mais popular das canções do século XIX é absoluta alegria. Coloca para ouvir uma execução da Filarmônica de Filadélfia sob Ormandy. É a Alegria de Paris de Jacques Offenbach. Champagne, risos e cortesãs, um tipo de universo que hoje devemos nos desculpar por apreciar. A alegria que em 2026 seria indesculpável, a alegria dos malvados eurpeus de 1870 colonialistas não é? Pois eu digo: ouse ser feliz enquanto a morte não vem, pois esses homens e essas mulheres de 1870 sofreram tudo que tinham de sofrer e estão esquecidos por seu mal e serão lembrados por seu bem. A música? Uma dançavel celebração do viver em esquecimento, por um momento. Estranho mundo! Sifilis, tuberculose, guerras e vidas que duravam quatro décadas! E por isso, e com isso, e apesar disso, a alegria de viver! Porque é necessário sofrer, sofrer no mundo lá de fora, o real, para dar valor ao estar vivo. Então celebrem! E bebam as bolhas do vinho! E se joguem nos braços delas, todas elas. Ritmo e rodopios que dizem o que é preciso ser dito. É tudo.
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