COMO VENCER UM DEBATE SEM PRECISAR TER RAZÃO ( DIALÉTICA ERÍSTICA ) - ARTHUR SCHOPENHAUER

Schopenhauer tentou terminar este livro, tentou mas não conseguiu. A obra fora planejada como um ataque à Hegel, porém Hegel morreu e Schopenhauer perdeu sua motivação. Reencontrado, inacabado, foi lançado mesmo incompleto. Esta edição, de 1997, tem valiosos cometários e explicações de Olavo de Carvalho. O que impressiona? A atualidade terrível do texto. Vivemos em um momento histórico que despreza a verdade e valoriza a opinião. O que Schopenhauer ensina aqui, o modo de derrotar um oponente em um debate, usando para isso qualquer meio ilícito, é exibido sem pudor em nossos jornais, nas falas de pessoas famosas e até no nosso Supremo. Que armas são essas? A mais nociva é a tática de dar rótulos. Crie um rótulo para seu adversário, um rótulo que seja unanimimente detestado, cole esse rótulo no oponente e vença. A partir desse rótulo, tudo o que ele falar não será escutado. Isolado e estgmatizado, o povo, que como massa sempre segue a opinião geral, fechará toda possibilidade de diálogo. ------------------- Mas há mais, são 38 armas que Schopenhauer nos dá. Falar muito e não dizer nada, usar palavras dificeis que nada significam, atacar um pormenor que desvia a atenção do assunto principal, olhar o adversário com arrogancia, atacar o pessoal e o privado, destacar uma palavra qualquer e a dissecar como se ela significasse muito, fingir saber de um segredo, gesticular muito para que todos os olhos se fixem em voce e esqueçam o assunto tratado, gritar com indignação etc etc etc... ----------------------- Mas o melhor do livro são os comentários de Olavo. Possuidor de uma erudição que beira o fantástico, citando e dando fontes, citações que vão de Aristóteles à Husserl, Olavo nos ensina como perceber a verdade. ------------------ Do verdadeiro curso de dialética dado neste livro, destaco dois detalhes que demonstram a delicia de o ler ( atenção, Olavo jamais escreve fácil, é preciso esforço ), 1- Na modernidade o grande erro é que deixou-se de procurar a perfeição da alma e se passou a buscar a perfeição do estado. Problema insolúvel pois jamais haverá uma comunidade perfeita sem almas perfeitas. Mais ainda, a perfeição não pode nascer em vidas que são imperfeitas. A procura do estado perfeito é uma farsa, um modo perverso de anular a busca da perfeição da alma, individual. A ideologia substituiu Deus. 2- Se confunde a razão com a utilidade. Filósofos modernos acreditam que a razão é a capacidade de pensar e fazer coisas uteis, quando na verdade a razão nada mais é que a capacidade de se pensar e se analisar a si mesmo. Então se cria a ideia de estado racional, iluminista, que seria um lugar onde todos seriam uteis e bem ajustados. Na verdade não pode haver um estado racional porque o ser humano é racional e emocional, psicológico e abstrato. A mentira do estado regido pela razão é mais uma mentira que visa a dominação da individualidade. ------------------------- Como adendo, devo dizer que Olavo faz um retrato devastador de Wittgenstein. Ele praticamente o chama de idiota. A famosa frase do austríaco, a que afirma que não se deve falar sobre religião, arte, é vista por Olavo, como um típico pensamento de criança, pois são crianças que falam: se eu não consigo falar então ninguém deveria falar. A obra de Wittgenstein é vista como uma explicação incompleta de teorias futeis. ------------------- Me convenceu? Por que não? Eu passei anos sendo convencido, por causa de um rótulo colado nele, que Olavo de Carvalho era um feroz velhote que babava. Observe, seus críticos nunca comentavam ou debatiam suas ideias , apenas o atacavam como pessoa, como direitista perigoso que não deveria ser lido. E eu, bobo, o evitava sem saber porque. Então, um dia, o escutei num podcast e levei um choque! Ele transpira bondade e tem uma cultura que é rara no Brasil. É um católico racional. Quanto a Wittgenstein...gosto do que ele se propôs a fazer, mas concordo que seus resultados são pífios. Wittgenstein foi aquilo que Husserl falou dele: um místico que se envolveu e foi enredado pela matemática e pela lógica. Acabou sendo um lógico maluco e um místico calado. Como diz Olavo, nenhum místico é mudo. De Jesus à Buda, de Maomé à Lutero, todos falaram e explicaram. É isso.

SCRUTON - CONSERVADORISMO

Lançado em 2015, nesta obra Roger Scruton traça um panorama histórico, breve, do conservadorismo. Nascendo ao lado da Revolução Francesa, com Burke, o movimento conservador foi sendo modificado em seus quase três séculos de história. No início ele era inimigo dos liberais e depois, com o nascimento dos socialistas, se torna o contrário dos partidários da igualdade. Além de Burke, Scruton nos apresenta Schopenhauer, Hegel, Monstesquieu, Tocqueville, Chesterton, Lewis, Kirk, Von Mises, Rand, Leavitt, Eliot, Arnold, Orwell, toda a evolução e adaptação histórica dos conservadores. Alguns fatos me saltaram ao coração. ----------------- Liberdade, Igualdade, Fraternidade. O lema da revolução francesa é pulverizado pelo conservadorismo. A igualdade sempre leva à opressão. Como? Para atingir a igualdade, condição artificial ao ser humano, condição não natural, é preciso a vigilância do estado. As diferenças têm de ser suprimidas. É preciso que o mérito individual desapareça. A propriedade privada deve ser abolida. O ser mais inteligente precisa ser "domesticado". O rebelde, o original, o desobediente não pode existir. Pelo fato de cada ser humano ser único, a igualdade precisa sufocar a alma dos seres. Quanto à fraternidade, ela nasce naturalmente em associações livres ( igrejas, clubes, bares, vizinhos, pequenas cidades ), não pode ser ideologia de estado. slogan. Já a liberdade é um fim e não um meio. A liberdade real nasce dentro da comunidade e nunca é imposta de fora. ------------- É essa a raiz do conservadorismo, o respeito por aquilo que as pessoas comuns fazem, vivem, querem. Scruton expõe duas observações de Chateaubriand: A constituição americana, escrita por apenas 4 intelectuais, não foi jamais um projeto para o futuro. Ela foi escrita como uma compilação, simples, daquilo que o povo americano já era. Os intelectuais olharam o que a nação era e escreveram a carta magna para esse povo. Nada lá visava modificar as pessoas, a constituição as respeita e por isso o americano sempre se sentiu responsável pelo estado e pela nação. --------------- A constituição da revolução francesa ( como a da URSS ) visava construir uma nação do zero. Tudo deveria começar do nada, o passado abolido e o povo moldado nessa nova vida. Era lógico que ela não poderia durar. Ou estar eternamente sob reforma. Entenda, se os americanos de 1776 amavam sua comunidade, sua família, se amavam Deus, se queriam liberdade de culto, se queriam ficar ricos, se queriam ter armas, a constituição garantiria isso. E garantiu. Já nas revoluções pouco importa aquilo que o povo é. Os intelectuais tomam a voz do povo e ditam o que o povo deverá ser. Minha questão é: a constituição do Brasil foi feita por quem? Ela respeitou o amor do brasileiro de 1989 por sua família, sua igreja? Ela deu ao brasileiro a certeza de ser dono do documento maior, de pertencer à uma comunidade, de se sentir responsável pela lei? --------------------- Para um brasileiro causa dor saber que a divisão de poderes, criada nos EUA, legislativo, executivo e judiciário, teve por objetivo a vigilância de cada casa sobre a outra, e que o judiciário TERIA A FUNÇÃO QUE ANTES ERA DA ARISTOCRACIA, servir como exemplo moral, exibir honra, frieza, imparcialidade e retidão moral. Por isso vemos em tantos filmes americanos o juiz do supremo como uma espécie de rei benevolente e justo. Weeeeelllll........ ---------------------- Ao final do livro, Scruton fala da péssima condição dos conservadores em 2015. Impedidos de lecionar, impedidos de falar na imprensa, ridicularizados pela esquerda. ----------------- Um aluno meu, na sexta feira, foi à escola de jeans. Aquele jeans largo, típico dos skatistas de 1995. Além disso vestiu uma camisa branca, sem desenhho nenhum. E uma bota estilo montanhista. Claro que ele me imitava. Pois bem, ele reclamou comigo que os colegas, todos, ficaram todo o tempo zombando dele. Por que? Ele fugira do modelo "calça justa preta ou cinza e blusa preta ou cinza e tênis ou chinelo". Todos iguais. Como digo sempre, voce pode usar 38 tatuagens, e 22 piercings, pintar o cabelo de azul, mas não pode usar ou fazer nada que fuja do modelo "diverso". Há uma incrível e entediante falta de marca pessoal, de caráter único nas ruas, no esporte, nos novos atores, músicos, políticos. Todos moldados em 3 ou 4 moldes fixos. Permitidos. Cabe aos conservadores serem os chatos que estragam essa festinha cínica e fazer o mundo ver o que importa: voce é único. As coisas que importam são as que permanecem. Tudo que vem do estado é sempre suspeito. Comunidades nascem nas famílias. Não há civilização sem religião. E por fim, tudo que voce ama deve ser defendido contra sua decadência.

A VIENA DE WITTGENSTEIN - ALLAN JANIK E STEPHEN TOLMIN

Quando eu li Wittgenstein me deparei, claro, com a famosa frase final de seu primeiro livro, ela diz que "sobre aquilo que a língua não comporta devemos calar". Sempre temi que meu entendimento sobre essa frase fosse errada. Para mim ela significa que o que realmente importa é aquilo que a língua não consegue dizer. Coisas como o sentido da vida, Deus, arte e sentimentos. Descubro então, agora, que Wittgenstein queria dizer exatamente aquilo que eu entendi. Sua obra é ÉTICA, a linguística entra como um modo científico de chegar ao misticismo ético. -------------- Os positivistas austríacos, na época de Wittgenstein, fizeram com que a mensagem fosse entendida em modo contrário. Espalharam que o filósofo austríaco queria enterrar tudo que não fosse percebido pelos sentidos, a frase deveria ser entendida como "aquilo que a língua não diz deve ser jogado no lixo". ------------------------ Este volume que tenho em mãos, sobre a Viena de 1880-1920 é retrato não só do filósofo como de toda uma época. Ele mergulha no mundo cultural que formou o filósofo. Vai de Karl Kraus e Mauthner à Schonberg, Rilke e Loos. Ou seja, fala de jornalismo, música, poesia e arquitetura, chegando então ao jovem filósofo, nascido numa mansão onde havia muita arte, muitas visitas, muita estética e pouca liberdade. De Kraus, um agitador cultural que editava um jornal satírico, Wittgenstein absorveu a desconfiança àquilo que a imprensa divulga. Kraus mostrava como uma frase dita em um jornal, mesmo que absurda ou mentirosa, pode moldar toda a mente de uma nação. Foi com Kraus que ele aprendeu que o grande mal feito à língua é a transformação de adjetivos em substantivos. Adjetivos como belo, justo ou democrático se tornam vazios quando transformados em coisas: o belo, a justiça ou a democracia, palavras que nada significam, pois o significado está em dizer: o edifício belo, o ato justo ou o livre pensar democrático. ---------------- Loos, o primeiro arquiteto modernista, ensinava que tudo deve ser feito em função daquilo que o homem pede. Uma cadeira é feita para o modo como um homem se senta e não deve nunca obrigar um homem a se adaptar à ela. Para isso todo artifício deve ser varrido. ----------------- Quanto a Austria, causa espanto quando ele nos diz que jamais houve reino tão artificial. O estado dos Habsburgos, que comportava Austria, Tchecos, Eslováquia, Hungria e Eslovenia durou séculos e era tão duro, tão congelado em 1840, que na virada do século XX ainda não havia telefone, trens ou luz elétrica!!!!!! O rei, Francisco José, desejava a não-mudança, queria que o mundo do conto de fadas, da valsa, jamais se fosse e para isso proibia todo progresso. Pois foi dentro desse mundo paralisado que surgiram Freud, Klimt e Mahler. Quando em 1914, na Primeira Guerra, o reino entra em colapso, não à toa, após tanta repressão, explode em Viena e Praga o modernismo. Kafka e Schonberg. --------------- Coube à Wittgenstein exibir o artificialismo da língua, em como ela funciona dentro de um limite restrito, em regras fixas, e em como palavras que são usadas sem serem pensadas nada passam a significar, nada comunicam, nada dizem, e em como é terrivelmente destrutivo quando uma nação é adormecida por discursos feitos para enganar e distrair. Wittgenstein nos diz que é a música e a poesia que dizem a verdade e o real. Como não o admirar?

WITTGENSTEIN AMAVA FAROESTES

Wittgenstein gostava muito de cinema, mas apenas de faroestes. Isso porque ele achava fascinante o mundo ético dos westerns. Para ele, como para mim, o western exibia, como nenhum outro tipo de arte, a natureza do mal e a luta do bem contra essa força. Qual o modo de vencer a maldade? O faroeste mostra. ------------------ Estou começando a ler uma obra que fala sobre a cultura de Viena centrada em Wittgenstein. O filósofo austríaco viveu até 1951, mas o livro enfoca os anos entre 1880-1918. O Império austro húngaro termina com a Primeira Guerra, e estranhamente, nada irá restar dessa nação. É como se tal civilização, imensa, jamais houvesse existido. Ficou a herança, da psicanálise à arquitetura moderna, da literatura à pintura e principalmente a filosofia de Wittgenstein. -------------- Linguista e lógico? Sim, ele foi um gênio que mudou esses dois campos, mas os autores, o livro foi feito em co-autoria, falam que os ingleses sempre simplificam o que vem da Europa Oriental. Seja a filosofia alemã ou a prosa tcheca, as universidades e a imprensa inglesa torna tudo mais pé no chão, mais prático, mais simples. Nietzsche por exemplo, é tratado na Inglaterra como um niilista ateu e na verdade ele não é nem niilista e nem ateu. Wittgenstein em Oxford ou Cambridge é um grande linguista e um lógico matemático, quando na verdade ele é um filósofo ético e moral. Eu nunca havia pensado nisso e agora noto essa característica no cinema inglês por exemplo, eles não têm um equivalente a Bergman, Fritz Lang, Max Ophuls ou Murnau, e mesmo gênios como Hitchcock são artistas que produziam malabarismos, alta diversão e não estudos profundos ( o que não os deiminui. Mas...Hitchcock era fã de Lang e Michael Powell trabalhava com Pressburger que era austríaco e tinha toda uma equipe alemã ). Penso num grupo POP como o Kraftwerk e isso exemplifica à perfeição a diferença. Compare Kraftwerk com Pet Shop Boys, Depeche Mode ou mesmo o Bowie de 1977. Eles pegaram apenas o mood e nunca a filosofia. Não existe um Schoppenhauer inglês como não há um John Locke da Europa danubiana-renana. ----------------- O pensamento daquela região do mundo, hungaros, Tchecos, austros, alemães, romenos, é sempre idealista. É um pensamento abstrato, que investiga o invisível, a mente em si. Já o modo anglo saxão tem sempre um pé no chão, é prático, se guia pelo visível. Parece ser este um ótimo livro.

BEETHOVEN

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O QUE BEETHOVEN FEZ?

Beethoven é muito mais importante do que voce pensa. E, como acontece com Dante ou Shakespeare, ele é tão grande que não é o favorito de ninguém, ele é um mundo à parte, não entra em rankings. --------------- Por que ele é assim tão especial? Explico. Ouço uma sonata, começo do século XIX. Entenda: Mozart, Haydn, Haendel, Bach eram gênios. Nas suas obras voce percebe, às vezes, uma voz que foge do molde, que clama por individualidade total absoluta. Por exemplo, no concerto número 20 de Mozart voce ouve uma voz trágica em meio ao primeiro movimento, movimento que deveria ser um allegro. Se voce ouvir tudo feito antes de Beethoven perceberá que havia um esquema fixo, um tipo de molde para cada estilo musical que era seguido, voce criava dentro desse molde ( claro que estou simplificando ). A habilidade maior de um compositor era criar uma novidade dentro desse esquema rígico. Beethoven arrebentou com isso. Ele fazia o que desejava. ------------------ A sonata começa trágica. Não tem allegro nenhum. O número de movimentos não precisam ser três. Podem ser dois ou quatro. A duração pode variar à vontade. Beethoven ousou não seguir regra e assim funda o romantismo na música. O artista faz o que quer. E para quem quer, ele mesmo. Mozart fazia música para nobres que o pagassem, Haendel para o rei e Bach para a igreja. Beethoven, pela primeira vez, compunha para si mesmo, não por encomenda, por sua vontade, por coração. Seu sustento vinha de quem queria pagar para o escutar, nasce com ele o público burguês, o público pagante. Beethoven exibe sua música para quem quiser a ouvir e assim exibe suas emoções publicamente. Schubert, Liszt, Chopin, Schumann, Berlioz e tantos mais o seguirão. É aí que a música e o compositor passa a ser aquilo que conhecemos até hoje, um artista que se exibe ao público. E que cria com seu coração. Livremente. ----------------- Beethovem fez isso. É pouco?

UMA MULHER - PÉTER ESTERHÁZY

Compro esse livro porque o húngaro Esterházy é autor central nas letras da Europa neste século. Descendente dos Esterházy que voce já ouviu falar, a família mais nobre da Hungria, ele tem a cultura vasta e natural, não afetada, que os intelectuais da Europa central costumam ter. Nesta obra ele fala de mulheres, são flashs de mulheres que o amam, amaram ou que o odeiam, odiaram. Momentos de sexo, de viagens, de refeições, sono, conversas, pensamentos. São 99 mulheres e 99 capítulos de uma ou duas páginas. Okay. Mas eu acho chato, é um livro chato. E as mulheres, estarei certo?, são a Hungria, todas são a Hungria, o país que Péter odiou e amou, a ditadura comunista, a liberdade caótica a partir dos anos 90 e o crescimento a partir de 2010. É a literatura que se pode fazer hoje? Essa literatura sem cenários, sem descrições, quase sem personagens, apenas uma narrativa que se parece com aquela que se ouvem em terapia, um tipo de confissão. É só isso?

MAHLER, 9TH SINFONIA

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MAHLER, A NONA SINFONIA. POR QUE VIENA MORREU E NÃO CONSEGUE RENASCER?

Como acontece com Bruckner e Brahms, Mahler exige muito do ouvinte, mas a recompensa é inestimável. Ele exige atenção. A música de Mahler é composta por detalhes, centenas de sons que se combinam, surgem e logo desaparecem, crescem, diminuem. É música feita de silêncios, crescendos, falsos finais. Se sua atenção não é total voce perde tudo e a sinfonia irá parecer apenas uma massa sonora sem definição ou rumo. -------------- Quando a Nona Sinfonia surgiu, Mahler estava doente e pessimista. Compor uma número nove era um tabu, Beethoven e Schubert morreram após a nona, e o coração de Mahler fraquejava. A Nona é uma sinfonia sobre a morte, mas não morta. Não deprimente, triste, e às vezes festiva. É uma despedida. O primeiro movimento é longo e melancólico, o segundo festivo e com um final que atinge alturas de obra prima ( Mahler é mestre em finais ), o terceiro movimento é esquisito e o quarto é a verdadeira despedida. São 80 minutos de música que passeia, voa, mergulha e se transforma. Sua alma, respirando e ouvindo, agradece. --------------------- Estou lendo um autor húngaro contemporaneo e tomo consciência da riqueza que havia nessa região do mundo, o triângulo composto por Viena, Budapeste e Praga. Guerras e ditaduras destruíram essa cultura, mas Praga e Budapeste voltam a respirar e Viena fica para trás. A Russia também não consegue ainda voltar a ser culturalmente relevante, mas Viena, a Viena de Mahler, é um caso a ser explicado. Lançada em 1907, no auge da vida vienense, a Nona Sinfonia é antecipação da morte da cidade que se daria na guerra de 1914. O que aconteceu? Seria a vida cultural de Viena a vida cultural do judeu de Viena? E com o extermínio dessa etnia, tornada proscrita na Primeira Guerra e destruída em 1936, a vida de Viena teria ficado restrita aos austríacos que Thomas Bernhard tanto odeia? Mahler era judeu, como eram Freud e Wittgeinstein. Teria sido Viena a capital judaica da Europa? E por isso tinha de ser lá o nascimento de sua sombra? A Nona Sinfonia antecipa tudo o que penso aqui e muito mais.

REVEJO WOODY ALLEN

Andei revendo alguns filmes de Woody Allen. O Dorminhoco é uma comédia muito engraçada. E que antecipa muito do mundo onde hoje vivemos ( o Estado vigiando tudo, a cultura da droga, o sexo como higiene mental ). Revi também Manhattan, filme que em sua época foi chamado de obra prima, mas que hoje está relegado ao ostracismo da hipocrisia. Nunca achei Manhattan tudo isso e continuo não o adorando. E sim, o romance com a quase criança me incomoda, Mariel Heminguay é inocente demais e se comporta como se tivesse 11 anos. Já A ÚLTIMA NOITE DE BORIS GRUSHENKO....é uma obra prima absoluta. Não tem uma só cena que não seja puro prazer. Faz rir, muito, e toca em coisas muito sérias. Ode de amor à literatura russa, usa maravilhosamente a música de Prokofiev e emociona em seu final soberbo. ----------------- Claro que sinto saudades de diretores como Woody Allen, gente que unia humor à profundidade, inteligência à chanchada, sexo e morte.

LIÇÕES DE PROUST

Estou relendo à SOMBRA DAS RAPARIGAS EM FLOR ( odeio esse título, por que não Sob a sombra das jovens meninas? ). Escrevi em outro post que Proust é um tipo de médico de almas. Mostro aqui, em meio a tão vasta obra, dois exemplos retirados do volume acima citado. ---------- Em toda minha vida, cerca de 90% dos discos que mais amei foram decepções em sua primeira audição. Let It Bleed é o melhor exemplo, mas posso citar obras primas como Siren, Low ou Houses of The Holy, todos discos que me decepcionaram na primeira audição. Mais recentemente eu achei In The Court of Crimson King algo muito ruim, para depois da terceira audição começar a o achar fascinante. Proust explica isso. Como? -------------------- O narrador frequenta a casa dos Swann e lá ouve a dona da casa, a volúvel Odette, tocar ao piano uma obra que todos na casa adoram. O narrador se surpreende pois nada entende do que é tocado. Para ele aquilo parece uma confusão de notas sem nenhum sentido. Pois bem, ao escutar a dita peça pela segunda vez eis que o narrador entende o que acontece ( e começa aí a lição do mestre Proust ), a obra só faz sentido quando ela já vive em algum canto da memória. Ao a escutar de novo e de novo e de novo todas as notas começam a se arrumar e a fazer sentido, isso porque a memória já fez seu trabalho de as identificar e arrumar. Os trechos mais sublimes se destacam em meio a multidão de acordes e a melodia se encontra em reencontro. ----------- Então posso dizer que as músicas que amamos de primeira são aquelas que MESMO SEM TER JAMAIS SIDO ESCUTADAS NOS RECORDAM ALGO JÁ OUVIDO! E que tudo que seja novo deverá ser confortado na memória antes que possa ser entendido, ou seja, pedirá a reescuta. A primeira para deixar a música entrar na memória, e a segunda para começar a recordar e assim apreciar. ------------- Na minha atual fase, em que ouço Bruckner e Mahler, sinto na alma a verdade dessa tese. Nada entendi de nehum dos dois, e os ouvi antes de reler Proust, a música de ambos me pareceu uma orgia de fragmentos de melodia sem nenhum sentido. Mas eis que na terceira audição, ao reconhecer certos trechos, tudo se iluminou: eis a música! A beleza assombrosa dos dois surgiu inteira. Sem esforço nenhum, apenas se deixando ouvir. ------------------- A segunda lição de Proust é sobre o ciúmes. A febre do ciúmes como um desejo voluntário de esquecimento, ao sentir ciúme eu esqueço de meus problemas, da vida ao meu redor e me distraio com o objeto que me deixa febril. O fim do ciúmes é sempre o mesmo, se for vivido até seu destino terminará na indiferença. Não importa mais se ela ou ele traíam ou não, não interessa mais o que é feito, o objeto amado se torna algo sem nenhum valor. Isso porque ele jamais foi amado de fato, foi apenas perseguido como miragem. Swann, que viveu o inferno com Odette, não se importa mais em saber se ela mentia ou não, e nota que ela nem mesmo era seu tipo de mulher. Sim, ele se casa com ela, e é provável que ela o traia, mas isso pouco lhe importa agora. Ele a trai também e em todas essas traições há a verdade da ausência de amor real. O desejo almeja a posse e o ciúme é a posse impossível, o desejar possuir completamente. O amor é o conhecer autêntico. ------------- Todas essas lições em apenas 20 páginas de Proust.

JOHN LENNOX

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O NÁUFRAGO - THOMAS BERNHARD

Ontem li na net um post onde um homem escreve sobre livros chatos que são bons. Os leitores do post citam entre os livros chatos que leram com imensa dificuldade coisas como O VELHO E O MAR, RUMO AO FAROL e IRMÃOS KARAMAZOV. Devo ser um bom leitor porque gente que acha esses livros dificeis deve ter lido muito pouco. Dificil é ler Laurence Sterne, Moby Dick e Ulysses. --------------- Amigo leitor, Bernhard é dificil apesar de não longo. Ele procura escrever como nós pensamos e isso tem um motivo, seu profundo pessimismo. Seus personagens não dialogam de fato, eles pensam. Para Bernhard o homem não é um bicho que fala ou que cria, ele é um ser que pensa sem parar. Daí a solidão de labirinto, daí o texto que roda em círculo, se repete, reprisa informações como tivesse alzheimer, titubeia, se perde, volta ao ponto de partida, é nosso modo de pensar. ------------- Aqui temos basicamente três homens, o narrador, seu amigo que acabou de se matar e Glenn Gould, sim, o famoso mito do piano, aqui transformado em personagem de ficção. Todos nasceram muito ricos, todos se conheceram no Mozateum de Salzburgo, no curso de piano de Horowitz. Todos são excelentes no piano mas Glenn é um gênio. O narrador para de tocar, após fazer 4 concertos, ótimos, porque nunca quis tocar, ser pianista foi ato de rebeldia contra a família. O amigo para de tocar também, pois se sente aniquilado pelo talento de Glenn. E Gould se torna Gould. O narrador recorda tudo isso enquanto viaja pela Austria, país onde nasceu e odeia. Bernhard odeia muito, odeia natureza, que ele vê como inimiga do homem ( concordo ), odeia o socialismo que ele vê como a corrente política que vulgarizou e aniquilou a Europa ( concordo ), odeia a Austria, que ele considera a morte do talento, odeia o piano, uma máquina que escraviza. Mas há uma coisa que Bernhard ama e ama muito, o homem, e para voce notar isso tem que pescar certas frases que ele deixa escapar, frases como "todo homem é único mas não vive sua indivdualidade", ou : " é o homem a obra de arte da natureza". ------------------ Boas histórias é o que procuro em livros policiais ou em biografias mas em romances eu procuro a surpresa, o estilo, a originalidade e isso Thomas Bernhard tem, tem muito. É um imenso autor.

LIVROS QUE DURAM E LIVROS QUE MORREM

Se um livro hoje for lembrado ou relevante por 5 anos pode ter certeza que se trata de coisa fora do padrão. Obras Primas são eternas e grandes livros duravam por volta de 50 anos, agora 5 anos é um bom limite. Qual o sinal de que o livro ainda está vivo? Reedições são a melhor pista, mas também há a adaptação para cinema, TV ou até mesmo citações em HQs ou músicas. Um bom sinal é também a procura em sebos, na net, em leilões de primeiras edições. Um livro respira enquanto é estudado em universidades, quando um novo autor fala de sua admiração por ele, ou quando dois amigos falam dessa obra. Autores que se fizeram eternos jamais perdem sua condição atemporal e esses eu creio que não preciso citar. São mais de 300 nomes e menos de 1000. Mas há aqueles que foram muito, muito respeitados e que hoje parecem afundar no mar do esquecimento. Sempre há a possibilidade de ressureição, isso aconteceu algumas vezes, mas esse renascimento é raro e nunca é inesperado para quem conhece literatura. ------------ Tennessee Willians e Arthur Miller eram figuras centrais do mundo cultural por 40 anos e hoje estão bastante anêmicos. Eugene O'Neill, primeiro americanos a ganhar o Nobel, ícone do teatro é figura morta em 2026. No teatro inglês há a múmia Bernard Shaw, o escritor mais famoso das letras inglesas do século XX, nome que festejou em fama por cerca de 60 anos e que hoje é mais antigo que Galsworthy ou Longfellow, outros dois nomes que sumiram. ------------------- Nenhum desses autores me causam nenhuma saudade, não lamento seu ostracismo. Mas fico triste por ver que livros como Zorba, O Grego ou No Fio Da Navalha não serem mais lidos. Kazantzakis foi famoso por 30 anos e Maugham por 40. A lista é infinita: onde se lê o nome de Dorothy Parker ser citado hoje? Sinclair Lewis, Upton Sinclair, John dos Passos, todos autores amados por antigos intelectuais e em 2026 encalhados em sebos. André Gide parece estar retornando, ele merece, mas cadê o ótimo Lawrence Durrel? Seus livros são fascinantes, exóticos, diabólicos, belos e terríveis, porque saíram de moda? Entre 1960-1980 ele vendeu como pão e era amado como Huxley. ------------- Mais recentemente, lembro que Martin Amis era O Cara da nova literatura inglesa, muito à frente de Ian McEwan ou Julian Barnes, seus colegas de geração, mas hoje quem leva Amis em conta? Assim como Tom Wolfe ou Vonnegut eram mitos nas letras da América nos anos 70 e hoje são desconhecidos por leitores sem cabelos brancos. Saul Bellow caiu após 40 anos de glória e temo que Updike e Roth sigam seu caminho. Mulheres como Iris Murdoch e Yourcenar têm a vantagem hoje de serem mulheres, mas mesmo elas perderam gás. Parece que há uma barreira de 40 anos de fama que só os gigantes conseguem ultrapassar. ---------------- E há as zebras, claro. Quando falei de Shaw lembrei que em seu início, por volta de 1890, Conan Doyle era aposta certa para o esquecimento, e eis que em 2026 Doyle continua sendo editado, já Shaw desapareceu. O que mostra que ser chamado de gênio não garante imortalidade à ninguém.