VEM UM SENTIMENTO

Se desmaiava muito no século XIX. Vemos isso nos livros do romantismo. Será verdade ou não? Provável que seja verdade. Nossos sentimentos estão cada vez mais embotados. Um homem com a minha idade sabe disso. Dou como exemplo a seleção de futebol. A emoção de uma partida é cada vez menor. Assim como se desespera menos em enterros e se protesta menos contra injustiças. Sim, claro que o Irã é excessão. Mas lá não é ocidente. Deste lado a coisa está cada vez mais fria. Uso outro exemplo do futebol. A torcida inglesa. Pesquise no youtube e assista a torcida em 1977. Somos muito menos emocionais hoje. Dizem que na idade média dois amigos ao se encontrar rolavam no chão de alegria. ----------------- Andei hoje, cedo, pela rua Padre João Manoel. Cruzo com muitos judeus ortodoxos levando os filhos pela mão. Todos com seus paletós pretos. Sempre que os olho lembro de Freud e de Kafka. São pesados e os admiro por isso. A vida para eles é grave. ---------------- A rua sobe e eu tenho andado, faz semanas, sem alegria. Não entendo o porque. Mas algo acontece. Vem para mim uma sensação. De onde vem? -------------- Andei sonhando com objetos que encontro debaixo da cama. Meu inconsciente quer me contar algo. E agora, na calçada da rua, eu penso em leva-la a um bar e entendo tudo: eu amo. E Freud, e Jung, e Adler e todos estão certos. A dor e a tristeza é um sentimento não assumido. Eu amo e não quero amar. Eu amo e não posso amar. Mas eu amo. --------------- No final de Manhattan, o filme de Woody Allen, filme que voce deveria ver, ele percebe, tarde demais, que a mulher que ele amava era a menina muito jovem e que por preconceito ele não dava valor. Esqueça a fama de Allen etc e pense no que falo. Ele afunda numa depressão braba ( é aí a cena famosa onde ele lista aquilo que faz a vida valer a pena e Groucho Marx vem logo em primeiro ), e só após essa dor tem a coragem de perceber o que sente. Corre por NY para encontrar a menina que parte em viagem. Lhe confessa seu amor mas ela se vai mesmo assim. E fala à ele a frase que define Allen mas também toda a mentalidade neurótica: Voce precisa confiar mais nas pessoas. ---------------- Welllll..... eu ia falar de mais um livro de E.T.A. Hoffmann que li mas acabei divagando. É um texto de mistério sobre assassinatos. E se desmaia muito nesse texto.

Gauguin: Maker of Myth: Part 1

GAUGUIN - LAWRENCE E ELISABETH HANSON

Uma vasta biografia de Gauguin em edição de Portugal publicada em 1976. Felizmente eles não romantizam, o pintor francês surge como aquilo que foi, um enigma. Tendo passado cinco anos no Peru, quando criança, Gauguin jamais esqueceu a cor e o calor do país americano. Vaidoso, silencioso, ele foi corretor bem sucedido na Bolsa de Paris e se casou com uma dinamarquesa que jamais o entendeu. Pai de vários filhos, começou a pintar e não parecia ter talento. Larga tudo aos 35 anos e se faz artista como ocupação integral. A partir daí, a vida de Gauguin é uma luta sem fim por dinheiro e por reconhecimento. Dos seus contemporâneros, Monet e Renoir o desprezaram, Degas viu seu valor, Cézanne o detestava. Van Gogh o via como mestre e irmão. Gauguin não era fácil. Orgulhoso, achava que as pessoas deviam o ajudar, se via como nobre, como ser especial. Mas ao mesmo tempo, ele era sincero, fiel à família, sempre otimista, sempre crendo em sua arte e que tudo iria mudar. Tivesse vivido mais 5 anos, apenas 5 anos, teria dado a volta por cima, sua arte passou a ser apreciada quando Matisse e Picasso surgiram para o mundo. Mas ele morreu antes, no Tahiti. ------------------ Quando se fala em Gauguin logo se pensa em ilhas do sul, mas na verdade ele passou relativamente pouco tempo por lá. Gauguin era irriquieto e viveu em Paris, Copenhaguem ( odiou ), na Bretanha, no sul da França, no Tahiti e na Martinica. Ainda trabalhou no canal do Panamá e foi marujo na pós adolescência. Ele procurava a simplicidade, o básico, o real, o primitivo. Dizia que só as crianças e o selvagem entendem a vida. Era um anti intelectual, apesar de culto, um europeu que amava e odiava a Europa e nisso foi um precursor. Gauguin foi um hippie quando ainda ser hippie era um risco de vida, um absurdo, uma loucura. Quando não havia a moda de se cair na estrada, de se romper com a civilização. Ele, em 1880, 1890, inconformou-se com a sociedade, rompeu com a arte de então e viveu de acordo com aquilo que ele era: um buscador. --------------- Todo adolescente inteligente, se conhecer Gauguin irá se identificar com ele. Livre e irriquieto, ele foi e ainda é o sonho de muita gente, mesmo que sua vida tenha sido um pesadelo. Ele não posava de artista rebelde porque esse modelo ainda não existia, foi criado por ele. Mais que Manet ou Courbet, é Paul Gauguin quem cria o persoangem do pintor que se isola e cria arte. Do artista que fez fama após morto, do homem que não se vendeu. É uma figura admirável e dos poucos artistas que podem ser chamados de heroi, no caso, anti heroi.

Henri Matisse in 60 seconds

PRA QUE SERVE A ARTE?

A arte faz a vida valer a pena. Eis tudo. A arte, mesmo quando fala da morte, da dor ou do tédio, faz a vida valer a pena ser vivida. Isso porque o artista se interessa pela morte, pela dor ou pelo tédio, e faz assim com que mesmo isso pareça ter um sentido. Nem que seja o não sentido. Observe bem o que eu disse: o artista se interessa. Essa a diferença da arte verdadeira do engodo artístico. O artista se interessa, se enamora, se atraca com seu tema. Ele o conhece, tanto quanto um apaixonado, ele o investiga, penetra, dorme e sonha com seu tema. Não há nada de blasé aqui. Como na paixão, ele "acontece", não escolhe. Ele é levado, não vai. E assim faz com que algumas pessoas, seu público, sintam que aquilo é interessante, talvez apaixonante, e a vida se revela na obra. ----------------- Quantas pessoas Matisse não guiou para o interesse? Fazendo-as simplesmente olhar e ver a vida. Apaixonar-se pela cor. Janelas, folhas, mulheres, cadeiras, cortinas, peixes, pássaros, tudo lá, mostrados para nossos olhos e assim nos ensinando a ver e ao ver nos fazendo olhar. E ver. Não via símbolo, Matisse não era simbolista, mas sim vendo o que há para se ver, a verdade da presença das coisas. Há muito para ver, duas cadeiras é muito para ver, um peixe no aquário é o bastante. Engolir com os olhos. ------------- Leio o livro da esposa de Picasso, Françoise Gilot, MATISSE E PICASSO, ela recorda os anos que esteve casada com o espanhol feroz e foi amiga do pintor francês discreto. Ela própria foi pintora e viveu até os anos de 1990. O livro, inspirador, nos dá desejos de viver e de fazer coisas. De criar. Como Gauguin, Matisse sabia que havia um paraíso dentro de si, mas ao contrário de Gauguin, ele não discursava em sua obra, ele mostrava a realidade da cor e dos volumes. Quem olhasse que sentisse a presença da vida. ----------------- Quando Gilot conheceu Matisse ele já era um velho que convaslecia de um câncer. Henri ainda viveu 20 anos pós doença, mas era uma vida dentro de casa, com muitas visitas, muito trabalho, e ocasionais viagens em busca do sol. Picasso o admirava intensamente e ao mesmo tempo sentia ciúmes. Picasso era intenso e inseguro, possessivo e expansivo, amedrontador e vulnerável. Não era fácil. Ele procurava briga e Matisse prezava a paz. ------------------ A partir de um certo momento, talvez os anos de 1920, a arte passou a se orgulhar de ser chamada de " perturbadora". Quando alguém, como eu, ousa falar na utilidade da arte, parece que o artista atual se incomoda. Como se utilitarismo fosse um valor burguês. Eles não aceitam que mesmo uma arte que ofende ou perturba tem a utilidade de nos acordar. Ou irritar. Ao odiar uma arte pornográfica eu passo a valorizar a arte refinada e isso é útil. Mas entenda que essa arte "violenta" ou pornô só será real se for feita por "interesse profundo" e não por outro motivo qualquer. Arte feita por convenção ou para vender uma ideia ou um valor é facilmente esquecida. Como um casaco, nos encanta ao ser visto na vitrine, nos alegra ao ser comprado, e logo desaparece dentro do guarda roupa. ------------------ Quando eu tinha 30 anos de idade e descobri Matisse, ele me trouxe uma vitalidade que eu necessitava muito então. Ele me despertou para a alegria do sol, das cores fortes e do poder do olho. Não foi pouca coisa.

High Speed Chase

Blow

MILES DAVIS - DOO-BOP

Mais que o beat, aquilo que define o jazz é o diálogo entre os músicos. Eles tocam e conversam, ou brigam, ou fazem amor. Pois bem, aqui não há diálogo nenhum. Sobre uma base eletrônica fixa, Miles sola. A impressão não é a de um diálogo, é de um discurso. Mas o que digo é: So what? ------------------------ É preciso ser mais humilde. Miles Davis sempre falou que nunca olharia para trás. Mercurial até a alma, ele não queria saber de nada que lembrasse seus tempos de cool jazz, bop ou mesmo as improvisações livres funk dos anos de 1970. Em 1991, ao lado do rapper Easy Mo Bee, Miles queria fazer dançar. ---------------- O disco é assustadormante bom. Demorou para eu o escutar porque todos diziam ser bem ruim. Gravado pouco antes da morte de Miles, foi lançado quando ele já havia se ido. Easy Mo Bee pouco aparece como rapper, o que há são bases, funcionais, de funk, para os solos, bons, de Miles. Em 1991 eu teria adorado esse disco. Combinava com aquilo que eu ouvia então: C and C Music Factory, Snap!, Soul II Soul, Neneh Cherry. Ouvindo isso em 2026 ele não faz feio. É boa música Pop. Nada lembra o Miles elétrico de 1975. ----------------- Miles Davis morreu em 1991 com 65 anos de idade. As pessoas gostam de imaginar o que ele teria feito se tivesse vivido mais 10 anos. O certo é que ele não teria tentado fazer nada que fez nos anos 80 ou 70 ou 60 ou 50. Então esqueçam o disco acústico, o disco com Prince ou um disco com Santana. Eu acho que ele seguiria uma estrada parecida com aquela de Jeff Beck. Discos de house, jungle, drum and bass. Mas não aconteceu. Pena.

O LIVRO DOS ESNOBES - W.M. THACKERAY

Escrito em um modo delicioso, este livro é composto por uma série de artigos que Thackeray escreveu para a revista Punch. Thackeray foi, durante a era vitoriana, um dos dois ou três autores mais famosos em língua inglesa. Hoje ele é lembrado por causa do filme de Kubrick, Barry Lyndon, Lyndon é um romance de Thackeray. ------------------- Há muita influência de Thackeray em gente que escreve ou escrevia bem. Paulo Francis tentava parecer com ele, e com Shaw também. Toda a leva de escritores satíricos americanoa dos anos 20 e 30 tem muito de Thackeray. Isso porque ele era leitura obrigatória para gente culta. Divertido e extremamente bem escrito. --------------------- Como disse, o que temos aqui são artigos de revista, cada um descrevendo um snob. Assim, um capítulo se chama " Sobre snobs do campo", outro "Snobs de clube" e por aí vai. Mas o que vem a ser um snob? ------------------ Acima de tudo é preciso ser rico. E desejar chamar atenção. Não se importar com os sentimentos dos outros. O snob não é necessariamente brega, mas não possui bom gosto, pois não é discreto. Fala muito ou fica emburrado. Costuma reclamar da vida e pouco ri. Pode gostar de arte, mas exibe isso como fosse uma bandeira. Preocupa-se com dinheiro e acha todos os outros tolos ou revanchistas. Na verdade vê a vida como uma guerra, onde ele precisa ser o general. ------------------ O snob de hoje é chamado de "celebridade". Isso porque todo snob em 2025 une às descrições de Thackeray, o desejo imperioso de ser famoso. O milionário que foge da mídia não é snob. Aquele que sorri para câmeras e transforma tudo em evento social é um snob. Ele vê os outros não como pessoas, mas como fãs ou rivais. --------------- Leve e divertido, é uma leitura que civiliza.

SOBRE UM FILME MUITO RUIM, NINGUÉM SEGURA ESSAS MULHERES, E PORQUE ELE HOJE TEM UM VALOR IMENSO

Esse filme, que postei abaixo, era impossível de ser achado, mas foi disponibilizado no youtube. Até quando? Não é uma pornochanchada, ele é um dos muitos filmes em episódios que se fazia então, cópias do cinema que a Italia fazia desde os anos 50. Filmes que tinham um pouco de humor, drama e uma pitada de sexo. Produzido por Silvio Santos, em 1976, o cinema era então um bom negócio no Brasil, mesmo sem ajuda financeira estatal, a Embrafilme fazia apenas filmes dificeis, é um filme bem ruim. Mas que agora, passados 50 anos, meio século!, se tornou um documentário sobre um mundo que não existe mais. Há a curiosidade de se ver Tony Ramos em papel de malandro sexy, ou Miele fazendo Miele. O elenco é todo de famosos de então, inclusive com a mãe de Luciana Gimenez, Vera. Mas as histórias são bobas, óbvias, sem porque. O que vale, hoje, é o que não se dava valor então. ----------------- Eu, em 1976, ano do filme, tinha 14 anos, então é humanamente compreensível, haver saudade de um tempo em que eu era tão jovem. Mas não pense que eu era feliz. Passei toda a adolescência sofrendo com uma timidez mortal e uma neurose que me fazia sentir e pensar como fosse um velho. Memórias de minha adolescência são cinzentas e sempre invernais. Mas... não há conhecimento nenhum, entre jovens, do que foi o Brasil de 1976. Ao contrário da Europa ou dos EUA, onde há uma imensa profusão de filmes, séries, clips, discos do período, aqui há quase nada sobre a época, e quando há é sempre uma visão que coloca a ditadura como centro da vida. O Brasil era imenso, bem maior que hoje, e a vida era muito vasta. Jovens irão estranhar tudo neste filme. ---------------- Havia praia livre e gente sorria nas calçadas. Se andava mais devagar e se falava com menos ansiedade. Não tinha tanque do exército nas ruas e nem polícia ostensiva. Sim, se podia fazer festas e não havia toque de recolher. Gente reconhecidamente de esquerda, Caetano, Gil, Dias Gomes, Saldanha, Jorge Amado, ia à praia sem o menor constrangimento. Não eram xingados ou vaiados pelos conservadores. Apesar da repressão contra a guerrilha, o brasileiro ainda ostentava o rótulo de cordial. Sabíamos que havia uma luta entre militares de direita e guerrilheiros de esquerda. Onde? Sei lá. Em 1976 a guerrilha já havia sido sufocada e o regime relaxava. Por pressão de Jimmy Carter, os generais começariam a deixar os líderes radicais, aqueles que pegaram em armas, voltar. Brizola pedira por uma guerra civil, Gabeira sequestrara um embaixador. Dilma participara do fuzilamento de um soldado. Todos seriam zerados. Limpos. E indenizados. -------------- Esse era o Brasil que vemos nesse filme, por detrás das histórias bobas. Parecia que ainda poderia dar certo. Coreanos do sul ainda vinham para cá, em fuga da miséria se seu país. De Taiwan também. Quem imaginaria que em mais 20 anos eles nos passariam? ------------------ Basta olhar o filme e ver o Rio ainda com chances de ser aquilo que nasceu para ser, aquilo que Dom João plantou quando veio para cá: civilizado. Gentil. Da paz. -------------- Experimente pegar um filme de 1985, por exemplo, um filme bobo como este. Popular. E note como tudo mudou em apenas 9 anos. O humor parece mais agressivo. As pessoas mais ansiosas. O Rio já tem algo de incivilizado, de perda de rumo, de descontrole. Não há mais a figura do gozador, agora é o aproveitador. Saudade? Não é uma questão de saudade. O Brasil de então estava muito longe de ser uma maravilha. Hospítais eram tão ruins como sempre. Os transportes eram pavorosos. Mas tinhamos algo que se perdeu para sempre, esperança. Sabíamos que íamos dar certo. Era inevitável. Não tinha como dar errado. Em 1990 seríamos primeiro mundo. Para isso não acontecer, algo de muito errado teria de ser feito. O Brasil teria de fazer muita força para dar errado. ------------------- Fez. Ele fez. PS: O gozador, marca maior do brasileiro de então, é um ser que não leva nada a sério. Irresponsável, leva tudo na brincadeira. Seu objetivo único é se divertir. Rir. E conquistar mulheres. Ele espalha confusão. O aproveitador, que toma poder nos anos 80, é um faminto por dinheiro. Usa tudo que pode para se dar bem. Tudo nele é uma questão de status. Ele quer parecer rico, parecer poderoso, parecer ter muitas mulheres. Se vê como líder inatacável. Blindado. É um destruidor.

Ninguém Segura Essas Mulheres (1976)

MÚSICA QUE CONVERSA

Simon Phillips é um desses bateristas que já tocou com todo mundo. Em casa tenho um vinil em que ele toca, aos 18 anos, com Eno e Manzanera e outro com Jeff Beck. Num post recente ele diz que acha estranho o fato de que a maioria das bandas atuais tocar sem olhar um para o outro. Não há comunicação no palco entre os membros da coisa. Desse modo, a música não flui inesperada, ela não acontece naquele momento exato, ela se faz como foi ensaiado. A vida não acontece, ela está pronta. -------------- Ele recorda de ter visto um show de Chick Corea quando adolescente e do modo como Corea jamais olhava para seu piano. Colocado em um ponto do palco onde ele podia ver e ser visto, seus olhos observavam e falavam com os músicos que lá estavam. O show, completamente livre, comunicava energia entre os músicos e esparramava luz para a plateia. ---------------- Simon vai logo no ponto mais extremo, jazz não existe sem comunicação entre músicos. Mas sim, o rock tinha uma expontânea comunicação entre músicos que é rara nos dias de hoje. Cada músico é um indivíduo e isso é reflexo do fato de que vivemos em bolhas interligadas. Estamos juntos em nossa bolha, todos em um grupo que faz a mesma coisa, mas ao mesmo tempo, voltados para uma tela que nos isola do aqui e do agora. É exatamente a postura de um músico de 25 anos numa banda comum. ------------------- Uma banda é reflexo do momento em que ela nasce. Assim, Beatles era um grupo de amigos sorridentes festejando a vida porque essa era a atitude dos baby boomers nascidos na segunda guerra. Se o Led Zeppelin eram hedonistas arrogantes se exibindo em um palco, isso era reflexo da revolução do EU e do mundo de fartura e sexo de então. Sex Pistols era uma juventude entediada sem sonhos e quando nos anos 80 surge o tecnopop, aí começa um individualismo blasé. Até a revolução punk se observa a total interação no palco. Os músicos se olham, se tocam, falam um com o outro. A partir de 1980 começam a nascer grupos onde os músicos parecem sozinhos no palco. Ignoram o público e ignoram-se. Era uma atitude estética, uma busca pelo cool, hoje é uma verdade existencial, um isolamento real. Cada um toca sua parte e por favor não me atrapalhe. -------------- Músicos que possuem alguma influência de jazz ou punk ainda interagem e muito, afinal, eles querem parecer Sly Stone ou Iggy Pop. Mas é cada vez menos natural. ----------------- Eu, quando vejo um show, fico fascinado, quando noto um guitarrista solando e ao mesmo tempo mandando dicas para o baixista, sobre o lugar onde o solo irá aportar. Música, música que vale à pena, é uma conversa. Se os músicos se calam ela não tem porque.

PRIMAVERA DE CÃO - PATRICK MODIANO

Um moço e sua namorada são fotografados por um artista. O moço passa a organizar o arquivo desse artista. O tal artista é um fotógrafo da Magnum, foi amigo de Robert Capa. Mas esse homem é um solitário, enigma que escapa da vida. Se ausenta até desaparecer no México. Trinta anos depois, o moço recorda. ---------------- Modiano, prêmio Nobel de 2014, o que hoje nada significa, escreve um livro breve sobre breves momentos. O que ele tenta mostrar é a importância de uma ausência. Como cães, somos pessoas que esperam aquele que partiu e sem ele ficamos perdidos em conjecturas. O ausente cresce em nós. ----------------- Modiano escreve como um francês, frio, analítico. É uma tese. O livro não é ruim e pode-se o ler em uma manhã de ócio. Ou de espera?

A ERVA DO DIABO - CARLOS CASTANEDA

O Brasil de 1975 era muito estranho. Havia uma ditadura, pois não podíamos votar para presidente. Havia censura, alguns filmes não podiam ser exibidos, mas ao mesmo tempo voce achava Karl Marx exposto em vitrines, cantores contra o regime tinham músicas em novelas e ganhavam milhões e nas escolas as aulas davam um viés marxista a tudo. Como disse um filósofo de direita, o regime militar perseguiu e executou a guerrilha, mas deixou a esquerda tomar conta da cultura à vontade. Eram ditadores burros. Foi uma ditadura à brasileira. ---------------- Basta dizer que eles exilaram JK, Janio e destruíram Carlos Lacerda, nomes de direita ou no mínimo liberais. Mas o que eu via, em 1975 eu tinha 13 anos, eram bancas de jornais cheias de livros como este, A ERVA DO DIABO. Hippies liam isso. Sidharta também. Nelson Rodrigues, Jorge Amado, Erico Verissimo, pareciam estar em todo canto. Até supermercados vendiam livros. Eu lia outras coisas. -------------------- Lançado em 1968, por um antropólogo peruano que vivia na California, este livro vendeu milhões e milhões de exemplares. No lançamento foi bastante elogiado. Ele acertava em cheio o espírito da época, o desejo de explorar a mente e ver outras realidades. Mas a coisa mudou a partir de 1972, quando se percebeu que tudo ali era ficção. Vendido como experiência real, ao descobrirmos que tudo é invenção, vemos em nossas mãos o livro perder todo valor. Fosse testemunho de efeito real de uma droga haveria um interesse jornalístico. Como história inventada, é fraco, bem fraco. ---------------- Um jovem conhece Dom Juan ( tão óbvio que esse homem é inventado ), um índio mexicano. Esse índio lhe administra peyote e o livro narra as viagens mentais do jovem. Welllll..... eu li esperando algo de poético, ou místico, ou plástico, ou sei lá. Mas não. As viagens são monótonas, estranhamente entediantes. E as descrições são escritas sem nenhum sendo de poesia. Filosoficamente ele não tem nada de nada. É um livro banal. Nada maluco, nada ousado, nada instigante. Então porque em 1968, 1970, hippies o amavam? Porque fala de drogas. Só isso. Assim como nos anos de 1930 qualquer livro que falasse de sexo parecia bom, em 1968 tudo que falasse de drogas era considerado relevante. Desse modo, muitos discos, filmes e livros ruins foram alçados ao status de cult só por terem relação com a cultura da droga alucinógena. É certo que em 2025 há muita coisa ruim sendo vista como cult por tocas no assunto desta época. ----------------------- Esqueçam Carlos Castaneda.