UM SENTIDO PARA A VIDA - VIKTOR E. FRANKL

Frankl nasceu em 1905 e viveu até 1997. Aos 15 anos já se correspondia com Freud e aos 16 fazia conferências na Universidade de Viena. Foi prisioneiro de dois campos de concentração e viu toda sua família morrer lá. Fromado em psiquiatria e filosofia. Sua terapia, existencial, é uma crítica à Freud. Portanto se voce segue Freud cegamente, pare por aqui. -------------------- O pensamento de Frankl se baseia todo no amor. Para ele, o amor é a base de tudo que há na mente humana e com ele vem a vontade. A primeira crítica às terapias freudianas e a outras como Rank e Jung, é que elas não levam em conta a humanidade, o que existe de mais humano em uma pessoa. Todas reduzem o homem a uma coisa dirigida por forças incontroláveis. Tratam o homem como máquina, objeto ou bicho. ----------------- A questão da agressividade, por exemplo. Não há algo em mim como uma agressividade que simplesmente procure objetos para os usar como canais de expressão, vítimas. Essa teoria joga fora a intencionalidade. Ela simplefica algo que é real, a agressividade, em algo que existe porque existe e se manifesta porque DEVE se manifestar. Ela simplifica, tirando do homem sua intencionalidade. Frankl diz que o homem odeia ou agride por um motivo e por uma intenção, há uma escolha e uma ação. Ou não. Eu odeio ALGO ou ALGUÈM. Não há uma quantidade de ódio que devo manifestar, não importa porque ou em quem, mas sim algo que me faz ter ódio. Esse ódio é meu. Eu o possuo e não ele me possui. --------------------- O homem, ser autotranscendente, e Frankl nunca fala de religião, procura ir além de si mesmo, esse o sentido da vida. E nessa existência, o amor ou o desejo não é uma simples força que nasce com ele e procura um objeto para poder ser usado. Não se usa o outro para um fim. Para Frankl, o sexo é a expressão física de algo que vai além do físico. A expansão e a expressão do homem. O mal da terapia freudiana, e de outras tantas, é que elas aumentam a neurose que dizem eliminar, na medida em que reforçam a diminuição de homem como dono de si mesmo, como ser que age na vida, escolhe, se expressa e transcende aquilo que ele é. É o amor essa transcendência. Não uma masturbação a dois, mas sim o crescer rumo a algo maior que o ego, além do ego. ------------------ Frankl baseia toda sua terapia na crença de que toda doença mental parte da falta de sentido na vida e que uma neurose, um câncer ou uma fobia, criam um sentido doentio para a existência. Meu objetivo passa a ser vencer a neurose, curar um tumor ou me salvar do medo. Todo sentido, para Frankl, está no outro, sua vida só terá sentido na entrega do seu ego à uma outra pessoa ou a um grupo de pessoas. Todo infeliz é um egocêntrico. Toda saúde é ir além do ego. Isso é o transcender. -------------- Em outro post falo sobre sua noção de tempo, mas cito aqui uma frase de Heidegger, que o visitava ocasionalmente: O que passou, passou, Mas o passado está presente. ---------------- A vida nos faz perguntas que devem ser respondidas, as responder é existir. As respostas que damos são salvas no abrigo do passado, imutável. O presente é a fronteira entre a não realidade do futuro e a eternidade real do passado. ------------------- Quanto ao seu modo de fazer terapia, conto aqui um caso de um paciente seu. Um jovem estudante entrava em pânico toda vez que fazia um exame e por mais que estudasse, não conseguia fazer a prova. Frankl usou com ele seu método. Pediu para ele fazer o contrário: tentar esquecer, ir mal, tentar tirar um zero. ( isso serve para esse caso, o jovem era um bom aluno que não conseguia fazer uma prova ). O jovem então, na hora da prova, escreveu as coisas mais absurdas, compôs uma prova que, segundo ele, faria o professor rir. Um zero, com certeza. E ele tirou dez. Cito esse caso, há vários no livro, porque isso aconteceu comigo, na USP, em 2011. Exatamente do mesmo modo. E também no vestibular, quando fiz a prova para não passar, totalmente relaxado, certo do fracasso, e passei. ----------------- Isso porque a terapia de Frankl é baseada no paroxismo. Voce faz aquilo que acha que não deveria fazer, ou brinca com seu medo O EXAGERANDO até o paroxismo. O que desperta o riso. Na verdade, voce toma posse do seu mal, o usando e não sendo usado. --------------------- A crítica de Frankl à Freud se baseia no fato de que Freud não viveu nada, toda sua vida é uma teoria de alguém que existiu dentro de uma sala. Não sei se a terapia de Frankl funciona, mas também não sei se Jung ou Freud curam alguém, ou se não fazem, apenas, com que se crie um tipo de vaidade dentro da doença. Um se conformar com um esquema feito para acomodar sintomas artificiais. Não sei. --------------------- Como filosofia, toda baseada na escolha e no amor, e principalmente na originalidade de cada ser humano, o que Frankl diz é nobre. ------------------- PS: o amor que Frabkl diz não é o amor cristão. É o amor entre homem e mulher, o amor das canções. Não é caridade cristã, é o sentimento que nos faz esquecer de nós mesmos e pensar no outro. Pode ser o amor pelo bem, pela igreja, mas não necessariamente. Que cada um encontre o seu.

johnny hartman john coltrane

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JOHN COLTRANE E JOHNNY HARTMAN. A BELEZA É UM PRAZER ETERNO

John Keats escreveu que a thing of beauty is a joy for ever. É o que pensei assim que esse disco começou a rodar. --------------- A voz de Johnny Hartman parece vir de outro mundo, um mundo melhor. O timbre tem a ressonância do âmago do cosmos. Surge entre névoa estelar, ecoa como memórica. Penso: o que perdemos quando deixamos de dar valor a voz como essa? Perdemos beleza e com isso entramos no vazio do não-valor. ----------- John Coltrane se contém. Nada dos solos febris ou das mirabolantes evoluções religiosas, é um Coltrane belo, puro, suave, de uma perfeição apolinea. A banda também se contém, McCoy Tyner dedilha breve, um pianista de bar, Jimmy Garrison está sóbrio e Elvin Jones, mesmo o diabólico Jones, toca seus tambores com suavidade. Tudo é feito para o brilho da canção, e que canções! Hartman tem a voz para fazer justiça ao repertório, a balada romântica americana. Ouvir este album é se apaixonar. Pelo som e pela garota ao seu lado. Não tem como não se deixar seduzir. ---------------- Por falar em sedução, a música do século XXI, em sua imensa maioria, não seduz, ela se exibe em balcão de boteco. Ela exige atenção, implora reconhecimento, se faz presente em histeria. Nada menos cool. ( Alguém sabe o que é cool? Usar roupa cara e botar os peitos pra fora não é cool. Fumar charuto e andar num Bentley é cool? Não é. ). Cool é o oposto do século atual, é não estar nem aí. É fazer pouco caso do hype. É não querer chamar a atenção de ninguém. Este disco é o mais cool dos discos. --------------- Dizem que Coltrane o gravou para ajudar Johnny Hartman que estava em baixa. Pois Trane acabou ajudando todos nós. O disco nos eleva e nos faz melhores. Uma obra prima de apenas 31 minutos. Joia das mais raras. Um monumento.

VIKTOR E. FRANKL E A QUESTÃO DO TEMPO

O tempo, para Platão e para Santo Agostinho, é algo artificial criado pela consciência humana. Não haveria futuro, presente ou passado. O tempo seria concomitante. Para explicar melhor imagine uma ampulheta. A areia de cima é o futuro que irá acontecer. A areia do fundo é o passado, que já ocorreu e não pode retornar. O gargalo é o presente. Nossa conciência cria a divisão e vive no gargalo. Para Platão e Agostinho, o tempo é a ampulheta inteira, os três tempos são ilusórios, tudo ocorre ao mesmo tempo, a areia cai, passa e é depositada no mesmo momento ( e ela é ). Pense agora, se o futuro acontece agora, junto com passado e presente, e não conseguimos perceber isso, que poder temos sobre nossa vida? Nenhum. Nessa visão de tempo, tudo está já determinado pois o tempo futuro ocorre agora. O que será já é, e o que foi continua sendo. ----------------- Na visão de Frankl, criada nos anos de 1930, muito antes da informática, o agora é o gargalo, mas o futuro só existe quando passa por esse gargalo. Por que? Porque ele poderá jamais vir a ocorrer. Basta que a pessoa morra ou feche o gargalo. Já o passado, e isso é muito importante, permanece para sempre. Como? Porque é a areia que já passou a existir, ela já passou pelo gargalo e assim se fez real. Depositada no fundo da ampulheta, ela lá permanecerá para sempre, vivida, usufruida, real. Para Frankl, o passado nunca deixa de existir, e mesmo que voce o esqueça, ele permanece salvo. Por isso, nossa vida tem por sentido a construção de um passado que passa a ser um monumento à nossa existência. Tudo que vivemos, fazemos, sentimos, toda dor, prazer, luta, é salvo como parte dessa construção. O passado não pode ser mudado, daí sua verdade. ----------------- Essa visão de Frankl lembra muito o mundo da internet, onde podemos salvar na nuvem tudo que fizemos. Mas ao contrário do que diz Frankl, o arquivo pode ser apagado ou editado. ------------------ Começo a tomar contato com a obra de Frankl agora e devo dizer que sua visão de tempo é a que sempre tive mas não conseguia verbalizar. Nossa vida é uma obra que se realiza no passado. Somos uma fábrica de memória. E é a memória nossa vitória e nossa eternidade. Pois mesmo que ninguém mais lembre de nossa passagem pela Terra, aquilo que fizemos não pode ser apagado, aconteceu, foi feito, o ato permanece. -------------------- Frankl nasceu em 1905 e aos quinze anos já se correspondia com Freud. Formado em psiquiatria e filosofia, aos 16 anos já fazia conferências em Viena. Fundou nos anos 30 um hospital e não fugiu de Viena com a ascensão do nazismo. Judeu, foi preso em Dachau e Auschwitz. Viu seu pai morrer de exaustão e dois irmãos na câmara de gás. A mãe desapareceu. Sobreviveu e na prisão criou sua terapia, a Logoterapia, toda baseada no sentido existencial da vida. Famoso mundialmente, ele rejeita toda psicanálise por ver nela uma desumanização. --------------- Depois explico.

herbie mann

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HERBIE MANN

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HERBIE MANN - HOLD ON, I'M COMIN'

Herbie Mann é o cara. E eu falo sério. Ele tocava flauta e era o rei do groove. Sua música era muito simples. A banda atacava um ritmo, simples e cheio de swing, e ele ia improvisando em cima. Parece a descrição da fase anos 70 de Miles, mas Mann fez isso antes. Miles fazia de um modo mais barulhento, mais quebrado, Mann era pra balançar. ------------------ Esse disco é ao vivo e foi feito em 1972. Já de cara a banda joga o jogo explicitamente. É pra dançar. Os solos de Mann nunca são excessivos. Elegância é o nome do cara. Na segunda faixa eles baixam o peso e fazem o som sexy dos anos 70. Tipo trilha de filme cult. Mas na última faixa a coisa fica genial. Eles botam pra quebrar tudo e um guitarrista chamado Sonny Sharrock, eu não o conhecia, faz um dos solos mais foda que ouvi na minha vida. Curto, grosso, potente, barulhento, diabólico e inesquecível. ----------------- Depois pesquisei sobre Sharrock e vi que nos anos de 1990 ele virou figura de conhecedor. Selvagem ele era. Vanguarda. E casa bem com o jazz funk de Herbie Mann. ------------- Herbie Mann teve uma longa carreira de sucesso. Desde o fim dos anos 50 até os anos 90, ele navegou por vários mares. De Bill Evans à Disco Music em 1975. Aberto a toda influência, manteve sempre o compromisso com a excitação. É músico para se colecionar, para se pesquisar, para se descobrir. Um arraso! Posto uma faixa do disco acima. Ouça e saia pela rua pulando. Aproveita bb.

ARRASTADO NA TORRENTE - AGATHA CHRISTIE. SUPREMO PRAZER EM LER.

Christie é, após a Bibilia, a autora ou autor mais lido na história. São dois bilhões de cópias de seus livros. Isso até 1995. Eu não li essa autora tão inglesa, até minha maturidade. Preconceito? Sim. Leio agora. É absolutamente fantástico. Ela merece todo o sucesso. É mais autora que Conan Doyle. Tem um estilo mais apurado. --------------- Best sellers costumam ser um problema. A maioria tem uma escrita pobre, simples demais, e se falamos desse problema sempre alguém dirá que somos esnobes. Mas é fato. Doi na minha alma ler 99.9% dos autores que vendem ou venderam muito. Os diálogos são atrozes, as descrições óbvias, o enredo forçado. Tudo lembra um tio narrando algo ao menino de 12 anos. Mas Christie não. Ela escreve para um leitor adulto, um leitor de boa educação que deseja se divertir sem ser tratado como idiota. E ela é mágica. Nós mergulhamos no clima, entramos na mente dos personagens. --------------- Poirot não se parece em nada com Holmes. Poirot deduz usando a psicologia. É um mestre em desvendar sinais de personalidade. Ele analisa o caráter de cada um. E Christie não esquece algum humor, aquilo que tanto falta em Simenon por exemplo. Leiam Christie. Sua fama é merecida.

A GUERRA DE HOJE

Muitas pessoas, a maioria, ainda estão pensando a guerra em termos de século XX. A Russia na Ucrânia luta uma guerra de invasão típica de 1970. Ou 90. Uma luta estúpida, dura, cara. Os Estados Unidos têm nos mostrado que a guerra do século XXI é uma guerra inteligente. Não se coloca soldados em luta para invadir a capital e capturar seu comando. Se vai direto ao comando após meses de espionagem e planejamento. Não se usa uma bateria de 100 tanques. Se usa uma arma construída para aquele fim. Se a Russia estivesse em 2026 já teria a muito matado o presidente ucraniano e destroçado o comando de guerra. ------------------ Todo século tem um novo estilo de guerra e as pessoas acham feio, hoje, falar de guerra. É como se ao falar disso eu compactuasse com a guerra. Primeiro fato, guerra é como um vírus ou a fome, ela existe. Sempre existiu e sempre vai acontecer. É um mal porque mata, porque causa dor, mas ela é parte de nosso DNA. Então é bom estar preparado para ela e saber algo sobre o assunto. -------------------- A guerra do século XX é a mais estúpida da história da humanidade porque ela era feita de aço e fogo. O exército era feito para esmagar o adversário, com o máximo de peso e de brutalidade possível. O que importava era o tamnho da armada, a quantidade de bombas e de balas. Essa guerra, a de 1970 ou 1940, era totalmente diferente daquela de 1870 ou 1890. No século XIX tudo se baseava no cavalo, na rapidez da cavalaria e na ordem do pelotão. O grupo mais disciplinado vencia. O soldado era como um tijolo, ele tinha de se manter firme e cumprir sua função dentro do pelotão. O objetivo não era esmagar, era cercar e capturar uma posição. -------------- Quem trouxe a guerra de esmagamento, de destruição total, a guerra do século XX, foi a formação de blindados e a aeronáutica. Quem criou a guerra do século XIX foi a cavalaria de Napoleão. E quem cria a guerra de hoje é Israel. Os EUA a ampliaram. ------------------- Não se despejam toneladas de bombas a esmo. Se jogam 20 misseis no alvo. Não se envia um grupo de 40 aviões, se envia um avião com quatro a escoltar. Não se matam 20 mil soldados para então entrar na capital e fazer o lider se render. Se mata o líder e se ignora a capital. Não se esmaga. Se atinge o alvo e se captura ou destroi o cérebro do inimigo. ----------------- O Irã irá lançar montes de bombas a esmo para todo lado. A maioria vai atingir o deserto, outras atingirão pessoas civis que não farão a menor diferença. E por sorte, algumas irão acertar um quartel ou um avião. Essa é a guerra antiga, e ela só poderá vencer, hoje, se houver material o bastante para manter tanto despedício de munição. E se o adversário lutar também a guerra antiga. Caso contrário a derrota é certa e o desespero fará com que as bombas, inuteis, continuem a ser lançadas até o fim. Novos tempos, eis os novos tempos.

COOL STRUTTIN - SONNY CLARK

Cool Struttin de Sonny Clark, gravado em 1958 na Blue Note. Tem Art Farmer no trompete, Jackie McLean no sax e a dupla Paul Chambers e Philly Joe Jones no baixo e bateria. Elegante ao extremo, o disco inteiro é aula de cool. O piano de Clark é discreto, exato, nada em excesso. Farmer é um super pistonista e McLean um dos grandes do sax. Os sopros dominam o Lp. Chambers e Joe Jones eram da bande Miles Davis e Jones é meu batera favorito. Ele sacode. A palavra é essa, ele sacode. Cool Struttin é trilha sonora do tempo em que se podia fumar em paz, se matar em baforadas e beber como ato de existência. Tudo com swing. A capa, como acontece com todo acervo da Blue Note, é uma obra de arte. Apaga a luz e escute com alma livre.

sonny clark

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RITUAIS - CEES NOOTEBOOM.

Ao terminar este livro, veio um pensamento à mim: entre o que somos antes, e aquilo que seremos mais tarde, a vida é um ritual, cada gesto um rito. Mas não sabemos. ------------------- Ser o maior escritor holandês do século XX significa não muita coisa. A Holanda é um país tão morto que suas realizações artísticas se tornam vergonhosas quando comparadas aos vizinhos. Nooteboom fala sobre a realidade fria, vazia, dessa Holanda sem alma. Inni, o personagem central, é rico, e passa a vida entre sexo fácil, bolsa de valores, vendas em leilão. Ele, Inni, recorda duas pessoas que conheceu, um homem, Arnold Taads, nos anos 50, e um outro, Philip Taads, filho de Arnold, nos anos 70. -------------- Arnold é um cético que vive longe dos homens. Muito rico, a vida desse homem é ditada pelo rigor do relógio. Cada ato seu tem sua hora e seu tempo de duração e o único afeto é pelo seu cão. Odiando toda a humanidade, ele passeia por montanhas e encontra seu fim entre elas. -------------- Philip cruza a vida de Inni em uma loja, uma galeria de objetos refinados. Um pote japonês, perfeito, é exposto na vitrine e Philip, que vive como um monge zen, em um cubículo no centro pobre de Amsterdã, irá possuir esse objeto raro, executar a cerimônia do chá e morrer como sempre quis. ------------------ Pai e filho nunca se encontraram, Philip foi não aceito por Arnold que abandonou a mãe do bebâ. ------------- Nooteboom tem muito a dizer e o que fica é a sensação de que ele não diz porque não pode. É holandês. Todos são presos em um ritual, seja de caminhadas com seu cão, seja a do chá, seja a vida de Inni, um nada que se distrai com prazeres cada vez mais efêmeros. Sobretudo Cees Nooteboom testemunha o fim de uma civilização, a falta de espírito de pessoas sem rumo e o grito, sempre mudo, que exibe raiva e dor. É um autor ateu que sente saudade da fé.

O ERRO QUE ACERTA

Não é a nota que voce toca que é a nota errada, é a nota que voce toca depois que faz com que soe certo ou errado. ----- Essa frase é de Miles Davis. Leia mais uma vez e entenda a profunda abrangência dessa fala. Miles fala de música. Gênios como ele erravam e transformavam o erro em acerto. Voce percebe isso ao vivo. O erro era porta de entrada para outra harmonia. Novo beat. Poucos músicos fazem isso. No rock Jimi Hendrix fazia o tempo todo. Mas, e a vida? Não é seu erro que define sua vida, é o que voce faz depois que transforma esse erro em acerto. Ou confirma o erro. Irremediável. ----------------- A maioria das pessoas insiste no erro e faz dele apenas isso, um erro. Outras tentam o consertar, e fazem desse erro apenas um remendo. Mas o gênio, esse faz do erro um acerto. É o livro que tinha tudo para ser um fracasso, mas que se torna arte. É o filme, todo cheio de erros, mas que dá certo. A pintura, que subverte normas, e vira nova tendência. E é sua vida, aquele erro que abre uma nova rota. --------------- Portanto, quando o erro acontecer, não se fixe nele. Use a criatividade para harmonizar o passo seguinte com o erro. Sem tentar remendar e sem pedir desculpas não cabíveis. Entrando no ritmo e saindo com swing. A batida certa. E dançar.

LIVROS E HISTÓRIAS SEM FIM

O primeiro é inesquecível. Eu abri o celofane transparente e senti o cheiro de tinta impressa. Um navio, um bote ao lado, e alguns piratas. Céu noturno. A Ilha do Tesouro, Robert Louis Stevenson. Hoje, 55 anos depois, tenho outro livro nas mãos. E lendo o que leio agora, tomo consciência de que este livro, em 2026, é consequência daquele, em 1971. Uma família composta de tios filosóficos, primos divertidos, trágicos avôs, e uma infinidade de agregados esquecidos. Teia de capas, de vozes, de afinidades. O que os une é a consciência de quem os lê. ------------ A História sem Fim, de Michael Ende, fala sobre isso, a narração que nunca termina, que passa de livro para livro, que nasce no chamado, apelo, do primeiro livro que surge, sedutor, à sua frente. Com esse primeiro, flui então a profusão de vozes e de gente, de lugares e de situações, de atos que repercutem, sem fim. É a maior invenção da história, essa de registrar em sinais aquilo que acontece, aquilo que se imagina, aquilo que se pensa. A maior ferramenta, o melhor brinquedo, o mais inescrutável segredo. O maior amor da minha vida? Talvez não, pois felizmente amores vivo outros. Porém é um amor que fala de amor, que explica amores, que registra nascimentos e mortes do amor. ------------ Naquele dia, fazia sol em 1971, na cozinha, lugar onde meu pai me deu o presente, uma história sem final começou.