A LIÇÃO DO MESTRE - HENRY JAMES. A VIDA VALE MAIS QUE A ARTE?

Eu achava que havia lido tudo de Henry James, mas eis que encontro este livro em um sebo. Uma novela publicada aqui em 2004. Pouco mais de 100 páginas que me prometem prazer. E o obtenho. ---------------- Para quem não sabe, uma novela é um conto pouco maior, ou seja, se um conto pode ser lido de uma só vez, uma novela se lê em três horas. E leio então esta bela história. O estilo de James é como uma cartola de seda muito bem feita. É bonita por si mesma, é perfeita em sua forma e traz em sua presença uma associação de imagens e de lembranças. O enredo? ---------- Tive aulas de Henry James na USP e o professor sempre salientava a enorme ironia que há em James. Sua genialidade é a de mostrar como as pessoas desejam uma coisa e a dissimulam, às vezes para si mesmas. Aqui, um jovem escritor conhece numa reunião campestre, uma linda jovem. Ao mesmo tempo ele encontra O Mestre, um grande escritor mais velho que atualmente só publica livros ruins. Primeira coisa que notamos: Henry James, que permaneceu solteiro toda a vida, cria jovens mulheres que são declaração de amor à liberdade feminina. A mulher é sempre mais corajosa e mais curiosa que o homem. Pois bem, o velho escritor costuma sair, inocentemente, com a jovem menina e o escritor jovem se apaixona por ela. O Mestre, o velho escritor, é rico e casado com uma mulher doente. ------------------- O jovem sai com a menina e adora o modo como ela ama a vida e ama a arte. Ela o admira por ser um ótimo autor. Pois bem, um dia o jovem e o Mestre se encontram e têm uma longa conversa. O veterano confessa que o casamento destruiu sua inspiração. Fala que as mulheres impedem que um artista seja genial. Que filhos e um lar acomodam o escritor e matam o dom de criar. Ele lhe revela sua dor e sua impotência criativa. Então, influenciado pelo Mestre, o jovem abandona Londres e escreve um livro na Suiça. Volta dois anos depois, publicado o novo volume, à Londres. A esposa do Mestre morreu e ele irá se casar com a jovem que o escritor mais novo ainda ama. -------------- O que ocorreu? Uma armadilha? Era tudo mentira, todo o discurso do Mestre foi um modo de afastar o jovem autor da menina que o velho desejava? É isso que o escritor mais novo crê. Mas, e o leitor, crê no que? Qual a verdade? Foi um acaso? ------------------- Ao fim, Henry James faz a profissão de fê de que valeu a pena ao jovem não se casar e assim produzir uma obra prima. Mas mesmo isso, é verdade? -------------- Autor da dúvida, da ambiguidade, Henry James foi um autor perfeito. Um gênio da escrita exata. E eu não sei o que ele pensava sobre este assunto.

OFFENBACH E A JOIE DE VIVRE

Qual o problema em celebrar a vida? A mais popular das canções do século XIX é absoluta alegria. Coloca para ouvir uma execução da Filarmônica de Filadélfia sob Ormandy. É a Alegria de Paris de Jacques Offenbach. Champagne, risos e cortesãs, um tipo de universo que hoje devemos nos desculpar por apreciar. A alegria que em 2026 seria indesculpável, a alegria dos malvados eurpeus de 1870 colonialistas não é? Pois eu digo: ouse ser feliz enquanto a morte não vem, pois esses homens e essas mulheres de 1870 sofreram tudo que tinham de sofrer e estão esquecidos por seu mal e serão lembrados por seu bem. A música? Uma dançavel celebração do viver em esquecimento, por um momento. Estranho mundo! Sifilis, tuberculose, guerras e vidas que duravam quatro décadas! E por isso, e com isso, e apesar disso, a alegria de viver! Porque é necessário sofrer, sofrer no mundo lá de fora, o real, para dar valor ao estar vivo. Então celebrem! E bebam as bolhas do vinho! E se joguem nos braços delas, todas elas. Ritmo e rodopios que dizem o que é preciso ser dito. É tudo.

A COPA DO MUNDO HOJE

Todo esporte reflete o tempo em que ele é praticado, e assim, todo esporte muda de acordo com seu momento. Talvez nenhum mudou mais que o tênis, mas não existe um só que não tenha se adaptado ao clima contemporâneo. ( Penso que o rugby é o que menos mudou ). Desse modo, o futebol americano, por exemplo, é hoje jogado muito mais a base de lançamentos, o QB se tornou primordial e a violência diminuiu muito, ao ponto das defesas quase não poderem mais jogar. O basquete, com a regra de 3 pontos, matou o jogo de pivô, ele hoje é muito mais ofensivo, um tipo de exibição para a Tv e por isso não me interessa mais. --------------------- O futebol tomou a velocidade nervosa do mundo em que somos obrigados a viver. Tenho assistido a Copa do Mundo e os jogos são divertidos e ao mesmo tempo profundamente frustrantes. Por que frustrante? Olhe com olhos de crítico e voce perceberá. ----------------- O jogo tomou influências de dois outros esportes: o basquete e o rugby. Do basquete a ansiedade pela velocidade e a defesa onde todos devem defender ( okay, é o basquete dos anos 90, hoje se defende mal no basquete ). Do rugby o jogo em bloco e a obediência cega ao técnico. Mas há mais. Note quantos cruzamentos na área são feitos. 90% talvez dos ataques têm sempre o mesmo roteiro: zagueiros tocam a bola, o meia pega essa bola e faz o que? Procura levar à ponta. O ponta volta ao zagueiro, ele toca ao meia que toca à ponta. Até que se possa cruzar. São dezenas de chances de invadir a defesa pelo meio, chances de chutar ou correr pelo centro, que são ignoradas pela mania de jogar a bola para a ponta. -------------- A defesa se tornou a mesma do basquete. Corpo a corpo. Se pode agarrar, pegar, bloquear, tocar. Os escanteios, centenas, são cômicos. Não fazem sentido. O jogo é hoje extremamente ansioso, febril, quase histérico. ------------------- Quanto ao modo de jogar, esqueça. A maior beleza da Copa era ver maneiras diferentes de jogar. O cadenciado jogo alemão, o raçudo modo argentino, os ingleses e sua organização, o Brasil e seus dribles. Eu falei drible? ---------------- Um drible comum faz de qualquer jogador um craque e dois dribles fazem dele um gênio. Eu vi lançamento de 15 metros ser chamado de genial. Nesse esporte hiper veloz e obediente não há espaço para o indivíduo. Claro que Messi é uma excessão, mas é o último, seu jogo é aquele dos anos de 2002, 2003. Um cara que joga sozinho. Os novos craques, M'Bappé ou Olise, óbvio que são ótimos jogadores, mas brilham em conta gotas. Jogassem em 2005 seriam como Ronaldinho ou Zidane, um show de 90 minutos, individualistas ao extremo. ------------------ Isso me leva a falar do tempo e do saudosismo. Se fala muito que Pelé ou Maradona não jogariam contra as defesas de hoje, 9 jogadores bloqueando o espaço. Eu vou mudar a questão, CR7 ou Rodri jogariam em 1970? Claro que sim. O grande jogador joga com o cérebro e o corpo é formatado para o jogo que se joga então. CR7 em 1970 faria gols às dezenas e seria menos atleta e mais habilidoso. O mesmo para Pelé ou George Best. Tivessem nascido em 1998, eles seriam super atletas com o mesmo talento natural que tinham em 1970. O grande jogador é grande em qualquer tempo porque ele tem talento, seja isso o que for. A atleticidade ele adquire na escolinha e no clube. M'Bappé faria gols em 1958 e jogaria como Garrincha, Jairzinho faria gols em 2026 e jogaria como Yamal. ------------------------- Como disse, o esporte, comoa arte, reflete seu tempo. E assim como Mozart, se tivesse hoje 40 anos talvez não fizesse música mas fosse um fenômeno da mídia, Bjorn Borg, no tênis, teria a força de um canhão e a habilidade que ele sempre teve. A dele mesmo. ------------------- A Copa em 2026 é uma diversão típica de 26: veloz, estridente, barulhenta e febril. Estamos na Era da pressa, e tem de ser assim.

SHOSTAKOVICH

leia e escreva já!

SHOSTAKOVICH - SINFONIA NÚMERO 5

Shostakovich sempre foi um enigma. Para quem é de direita, ele sempre foi chamado de serviçal da esquerda. Para os comunistas, era um problema, talvez demasiado burguês. Provavelmente sua única preocupação era compor e assim eu o chamaria de artista independente. ------------ Apesar dos austríacos, alemães, ingleses, eslavos e franceses, e da Itália, lógico, a Russia é para mim a nação que faz a melhor música pós Wagner. E Shostakovich não desmerece a genialidade de Prokofiev e Stravinski. Sempre surpreendente, sua música explode de vitalidade. As orquestras são usadas em tudo aquilo que podem oferecer aos nossos ouvidos. Ele é agressivo e belo. Esta Sinfonia foi condenada pelo Partido, considerada pouco proletária, não tinha mensagem alguma às massas ( sim, Stalin era desse jeito ). Shostakovich viveu sempre nessa corda bamba, sendo às vezes silenciado e outras vezes festejado. Na URSS não havia meio termo, ou voce elogiava o regime ou era calado. Sua arte precisava ser sempre útil, à serviço do Estado. Shostakovich tentava parecer bem conformado ao Poder, fazia o que podia. ------------------- Ouça esta sinfonia no volume máximo que voce puder. O efeito será imediato. Mestre em orquestrar, ele colore a música utilizando todos os timbres da orquestra. Não teme a percussão e não teme os metais, coloca o piano como aquilo que ele é: percussivo. Se voce de deixar invadir pelo som sua alma irá bem longe. Um imenso prazer. --------------- Charles MacKerras rege a Royal Philarmonic na versão que ouvi.

A CULTURA DO RENASCIMENTO NA ITÁLIA - JACOB BURCKHARDT

A leitura é muito agradável. Lançado em 1860, este estudo é de uma popularidade imorredoura. A tese central que rege este trabalho é a de que foi na Itália, entre Dante e Ariosto, Bocaccio e Boiardo que a individualidade moderna teve nascimento. Para isso, o suiço Burckhardt analisa, em capítulos breves, todos os aspectos da vida de então. Política, arte, moda, religião, guerras, geografia, crendices, tudo é contado de um modo delicioso. O autor nunca parece erudito demais, e ao mesmo tempo não se aproxima da vulgaridade simplificada do best seller. -------------- A melhor parte é a política. A história dos vários príncipes, nobres, papas, prelados que se enfrentavam na península é saborosamente agitada. Ao contrário do resto da Europa, onde a nobreza hereditária vivia distante da massa, enclausurada em caçadas e guerras, torneios e banquetes, a dita nobreza italiana era volúvel, a nobreza se dava por dinheiro, poder, influência, e não por linhagem. Desse modo, o duque ou barão, dividia a vida com comerciantes, navegadores, soldados e mesmo gente do povo. A nobreza, que na Alemanha ou Inglaterra se dava pelo sangue, na Itália se devia à honra, à cultura, aos bons modos e aos contatos escusos. Nesse caldo de rostos e vozes, de acordos e traições, nasce o homem moderno: o indivíduo. O homem não é mais parte de um estado ou descendente de uma linhagem. Ele é um homem. ----------------- A consciência de ser herdeiro de um império, o de Roma, a língua nobre, o latim, o amor aos livros ( várias histórias de nobres ricos que gastavam tudo o que tinham para a construção de uma biblioteca ), tudo isso teria fim por volta de 1540, quando a Espanha tomaria a Itália para si e poria fim à Itália do renascimento em prol da Itália dos jesuítas. O espírito italiano, exportado para toda a Europa, estaria morto dentro da própria Itália até o início do século XIX. Trezentos anos de servidão à Espanha e depois à França e a Austria. --------------------- Claro que há o lado cruel da cultura italiana da renascença. Os inimigos envenenados, a oposição destruída, a tirania de juizes corruptos, a compra de papas, mas, por outro lado, há impostos mais baixos que em qualquer outro local europeu de então, cidades como Veneza e Milão têm um nível de vida mais alto que qualquer lugar, incluindo o Oriente, o asseio e a higiene são incrivelmente elevados, todo esse dinheiro obtido pela ação do comércio, atividade em que cidades da Italia dominam o globo. Ferrara, Bolonha, Napoli, Bari, Verona, todas tentando ser mais educadas, mais cultas, mais luxuosas que sua rival, um tecido de províncias, de países minúsculos que se diferenciam não pela língua, mas sim pelo costume, pelo que cada uma tem de individual. O cidadão, vivendo em meio a esse caldo de cores e brilhos, desenvolve lentamente a ideia de que ele não só pode como deve desenvolver algo que o diferencie dos outros. Eis o homem moderno. Assim, enquanto na França ou na Espanha mal se precebe qualquer particularidade em um rei como Luis ou Afonso, na Italia há uma marca, uma cor única na alma de um Lorenzo de Medicis ou um Cellini. Bello!

CHARLES IVENS-SINFONIA 4. SIM, ELE É GENIAL

Nesta fase da minha vida só o que é belo, no sentido italiano, ou o que surpreende me importa. Charles Ivens foi o maior gênio da música americana. Ouça a sua Sinfonia 4 ( ouço com a Sinfônica de Chicago, regida por Tilson Thomas ), ela é uma porrada na cara. Por pouco mais de 30 minutos voce é supreendido por tudo aquilo que ele cria. A orquestra, imensa, despeja em seus ouvidos uma potência sonora oceânica. O piano, usado como instrumento não solista, mas como parte da massa, pontua essa obra prima composta nos anos de 1930. O barulho, harmônico, despudorado, cita canções populares dos USA, trechos de bandas marciais, fragmentos de arranjos. Ivens não teme nada, sua obra é construída como uma catedral de sabedoria musical. ------------------ Mas não espere sentir algo que remeta à uma narração verbal. O som é tudo e ele é uma linguagem que vai muito além da lingua verbal. São massas que despencam com sua percussão atômica. Ivens não procura demonstrar nada, ele faz som. Épico. E assim minha voz se cala. Ouça.

CHARLES IVENS

leia e escreva já!

ABBADO E BACH

leia e escreva já!

BACH NO DOMINGO

Experimente ouvir o Terceiro Concerto de Brandenburgo imaginando cenas aleatórias de sua vida. Sem sentimento nenhum em especial, sem procurar pensar nada de relevante, reveja mentalmente sua mão segurando um lápis, um beijo aos 15 anos, seu carro em 2005, um jantar de dia dos pais, sua sala, uma montanha, uma dor, uma febre. Imagine essa cenas em coisas que possuem, ou são possuídas, um sentido. Pronto. A música de Bach casa à perfeição com essas cenas. Mas, muito cuidado agora, vá um pouco além e note uma pequena coisa encantadora: faz sentido. E então, estando dentro da música, voce percebe que há um ritmo nessas cenas, ou melhor, uma harmonia na aparente aleatoriedade da vida. O destino, o azar ou a sorte, a dor e o gozo, todos são harmônicos se vistos em conjunto. Pois sim, a música é a vida e sua linguagem é não verbal. --------------- Se isso não fez sentido para voce, se nada aqui te importa, então digo que sempre, desde sempre, ao ouvir os primeiros acordes do concerto terceiro, um sorriso nasce no meu rosto, e não é um riso, é um sorriso de satisfação. Esse sorriso diz, é isso. -------------- Bach, que viveu a vida pré romântica, em que um artista era um trabalhador e não um ego a procura de afirmação, fazia música como um dever e um talento dado por Deus. Toda sua música tinha uma função e o próprio Bach disse isso, ele compunha e tocava por glória de Deus. Sua arte não visava erguer sua alma acima da do homem comum, nem mesmo visava fama e fortuna, ele queria honrar a Deus. Claro que ele lutou por condições confortáveis de vida, teve muitos filhos e amava-os, mas o que ele mais queria era bons instrumentos e tempo para poder compor. Seu trabalho, imenso, produtivo, constante, ao glorificar a Divindade nos glorifica. ---------------- Ele não é romântico e é por isso que sua música não emociona a quem não consegue se abstrair e apenas escutar a música como música. Acostumados ao romantismo, queremos sentir a expressão de uma alma que se faz ouvir. Queremos a emoção do gênio gritando ao universo. Bach não é assim. Ele expressa ideias musicais, ele fala por som e não conta nada de modo verbal. Em suas missas e oratórios ele se comove por Jesus Cristo e não por um amor sofrido ou um desejo ideal. Voce não vê Bach em sua obra. A obra está além de Bach.

MILES DAVIS, A AUTOBIOGRAFIA

Vou escrever aqui no estilo deste livro. " Às vezes enche o saco a paranoia do Miles. Mas eu entendo. Tudo pra ele é racismo, os brancos nunca reconhecem o valor de um preto. Mas foda-se. Miles pelo menos não é como Mingus que nem sequer aceitava tocar com um branco. Miles respeitava Gil Evans, John McLauglin, Bill Evans e mais uma porrada de caras brancos filhos da puta. Mas que esse papo de racismo enche o saco isso enche. ------------------ Miles nasceu em 1926, e seu pai era rico. Dentista, tinha fazenda com gado premiado, casa grande, carros chiques. Miles nunca teve de se preocupar com dinheiro. Legal pra porra ver negros de 1926 que já eram ricos. Então ele foi pra Julliard estudar música, mas saiu com ano e meio porque os professores não sabiam nada a música de preto. Caiu na vida. Foi tocar com Charlie Parker e Dizzy Gillespie e o resto é lenda. ----------------------- Charlie era chato. Não era o preto bobo do filme do Clint, era um malandro que roubava grana dos amigos pra comprar droga. Mentia. Era furão. Irrepsonsável. Dizzy não. Dizzy era disciplinado. Profissional. Miles caiu na droga quando voltou de Paris. Lá ele foi tratado como rei e se apaixonou por Juliette Greco, a musa do existencialistas. Quando voltou teve o choque. De novo, nos EUA, ele era só um negrinho e a saudade de Greco apertava. Heroina virou paixão. ---------------- O livro descreve bem o que é um junkie. Se drogar, passar mal, se drogar pra não passar mal. Miles conseguia grana com o pai, tocando em clubes, pendurando roupas, instrumentos, tudo. Chegou a ser gigolô de duas putas. Foram 6 anos de heroína. A carreira decaiu. Em 1953 ninguém o levava à sério. Um decadente aos 27 anos. Então ele parou, sozinho. O livro mostra o quanto Miles é decidido. Se ele quer ele faz. Ele quis ser descolado, e foi o maior descolado do mundo. Ele quis ser junkie e foi. Quis ser famoso e foi. Sua vida, cheia de ambição, foi feita de música, acima de tudo a música, e muitas, muitas mulheres. Nunca foi fiel e nunca prometeu que seria. ------------- Sobre sua arte, ele nunca se acomodou. Queria estar sempre na onda, queria gente vendo seu trabalho, mas nunca concedeu nada. Seu foco era a bateria, o centro de seu som sempre foi o baterista. Por isso ele dá crédito imenso à Philly Joe Jones e depois à Tony Willians. Ficamos sabendo o quanto Sonny Rollins era viciado, como Coltrane era calado, que Monk era estranhíssimo, mas não maluco, que Mingus era um preto chato, Bud Powell um esquizo doce, e que Max Roach foi seu grande amigo. Miles aprendeu a frasear ouvindo a voz de Sinatra e ele dava valor a modulação, falar muito com pouco, menos notas e mais informação. ------------- Miles não tem vergonha de mostrar seu lado ruim, vaidoso, egoísta. Mas ele não foi um cara ruim. Era um homem com raiva, com amor e com toque de gênio. Um grande cara.

JEAN SANTEUIL - MARCEL PROUST, NÃO IMPORTA O QUE VOCE VIVE MAS SIM COMO VOCE SENTE O QUE VIVE

Virginia Woolf desistiu de escrever após ler Proust. Ela ficou tão chocada e admirada com aquilo que lera que sentia sua escrita como coisa fútil. Claro que ela acabou por superar essa crise, mas comigo aconteceu ontem algo que um leitor sente. ------------ Lendo as 700 páginas de Jean Santeuil, romance de Proust escrito quando ele tinha 24 anos e só publicado décadas após sua morte, mergulho no modo como ele apreende a vida. Sua escrita, inimitável, profunda, sensível ao ponto do espirtual puro, faz com que todo outro autor pareça superficial e até mesmo apressado. O choque é inevitável. O universo de Proust parece infinito. -------------- Então vou à uma feira de livros e como sempre faço, antes de comprar um novo volume abro as paginas ao acaso e leio qualquer frase. para pegar o tom do autor. Fazer isso após ler o francês é injusto. Todo trecho que eu lia na dita feira parecia mal escrito, quase estúpido. ---------------- Jean Santeuil foi guardado por Proust como simples exercício literário, indigno de figurar ao lado de sua obra. Weeeelllll.....claro que não chega ao nível do Em Busca, mas é explendoroso. E aproveito para tentar, mais uma vez, explicar o modo de Proust escrever. --------------- Proust melhora nossa vida porque ele nos mostra, e ele advogava isso, que não importa sobre o que voce escreve, o que dá valor à uma obra ( e à uma vida ), é o modo como voce a olha, sente e descreve. Voce pode ter viajado por 30 nações e amado 200 mulheres, e por pressa, ou impaciência, ou miopia, nada obter de valioso daquilo que foi vivido. Por outro lado, um espírito afinado pode ver Deus ou o porque da vida numa simples rosa que brota em um jardim público. Ao lado da sua casa. Proust redige sentenças tão longas e tão elaboradas porque ele demonstra esse modo de viver a vida. Um escritor vulgar, ao descrever um almoço na casa de seus avôs, falará sobre aquilo que as pessoas falaram e fizeram. Um bom escritor descreverá sentimentos e intenções. Um ótimo autor tirará filosofia e poesia do almoço. Proust não. Ele descreverá o cérebro do narrador que vive aquilo que lá acontece. Então, se esse narrador pensa ser a prima linda, ele descreverá o porque dela ser linda, o que a beleza é, de onde vem o senso de beleza do narrador, o que a prima lhe recorda, onde essa recordação vive dentro dele e o que esse passado significa hoje. Nada é deixado ao acaso, se uma emoção ou sensação acontece, Proust a segue até o fundo da alma. Por isso ler Proust melhora a vida. Nós passamos a ver com mais profundidade e a apreciar com menos precipitação. Ele dá um valor à vida e assim dá valor à vida que voce vive. Ele te dá a dignidade de viver. Inteiro, vasto e completo. Na alma.

paris anos 20

leia e escreva já!

UM LIVRINHO MUITO BOM: COMO PROUST PODE MUDAR SUA VIDA- ALAIN DE BOTTON

Dizem que no mundo há apenas dois tipos de leitores: os que conhecem Proust e os que não o leem. Aqui, Alain de Botton, um tipo de filósofo pop como há tantos hoje, escreve um bom texto sobre os benefícios que Proust pode trazer à sua vida. Se isso parece surpreendente para voce, isso se deve ao fato de que voce não lê ou não entendeu nada de Proust. Em 2010, mergulhado em mais uma onda de tristeza, eu li o segundo volume de sua obra prima e me senti vivo outra vez. Botton explica o porque disso acontecer. --------------------- Este livro, curto, delicioso, leve, apresenta Marcel como um homem doente. Morto aos 51 anos, em 1922, de gripe, ele passou um terço de sua vida na cama. Os outros dois terços em festas e visitas. Tinha muitos amigos e não era solitário, mas desconfiava da amizade como do amor. Seu pai, que se dizia o mais feliz dos homens, foi médico famoso e seu irmão um soldado condecorado. Já Marcel vivia doente. Asma, prisão de ventre, alergias, dores nos rins, gripes, febres, vertigens. Janelas sempre fechadas, ele dormia com 4 cobertores de lã e mesmo no verão saía com casacos de peles. Com as pessoas sua atitude era sempre a de agradar. Proust gastava fortunas com presentes, com gorjetas, com flores e elogiava todos. Suas críticas ele as guardava dentro de si mesmo. Já como autor, ele se via depreciativamente. ---------------- Sim, eu sou proustiano e após ler este livro o sou mais ainda. O acho infinitamente maior que Joyce. Os únicos que lhe chegam perto são Henry James e Stendhal. ----------------- E voce agora deve estar perguntando: cadê o bem que ele faz? Falo agora, mas não tudo, este livro é fácil de achar. ----------------- Proust nos ensina, acima de tudo, que a vida é uma questão mental. Não importa onde voce vive ou para onde voce viaja, é sua percepção mental que dá o valor de sua vida. E isso tem a ver com VAGAR. Com o tempo. Pegue um carro e trafegue a 80 por hora ao longo de uma avenida. Faça esse mesmo trajeto caminhando a pé. E depois andando vagarosamente. As três experiências serão completamente diferentes, e eu garanto que a mais rica será a mais lenta. Essa uma das lições do texto proustiano: o aproveitar a vida está diretamente ligado ao tempo gasto naquilo que se faz. Quanto mais rápido, menos vivencia. Por isso ler Proust, com vagar, é tão enriquecedor. Ele nos ensina a ver a vida e a sentir a beleza daquilo que nunca havíamos percebido. --------------------------- Proustiano que sou, eu sempre, sem querer, parava para ver a beleza de uma casa velha, comum, vulgar, casa que nada valia como "arte" mas que eu sentia ser ponto de beleza. Essa é uma atitude profundamente proustiana. Observar a beleza de Roma ou de uma pintura de Degas nada tem a nos revelar, porque nosso olhar jamais será puro. Olhamos São Pedro no Vaticano com todas as opiniões dadas por nossa cultura. Olhamos querendo ver o que deve ser visto. O que fica bem sentir e falar. Jamais olhamos como nós mesmos. Por outro lado, a pessoa que tem o poder de olhar "de verdade", verá a beleza de um limão aberto sobre a pia, uma meia de seda jogada numa poltrona ou um cachorro dormindo ao sol. O texto de Proust nos faz perceber isso. O gosto de uma medeleine abre todo o mistério da vida para o narrador. Essa lição do "CAMINHO DE SWANN" é preciosa. ------------------- Mas há mais, muito mais. Proust, segundo de Botton, nos ensina como fazer o amor durar, como cativar um amigo, como ler melhor, como amar a vida, como se portar. Inclusive como não mitificar o próprio Proust. Para isso de Botton usa Cambray como exemplo. Cambray é uma vila onde se passa o início de EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO. Muita gente vai lá para "sentir" as emoções de Proust. Pois bem, a cidade é comum, nada tem de diferente, é como qualquer cidade do campo normando. O que de Botton diz e Proust ensina é que a emoção proustiano pode e deve ser obtida na sua vila, no lugar onde voce viveu e não em uma vila que nada significa para voce. Nesse momento confesso que ri lendo o livro, pois notei que minha Cambray se chama Caxingui e que Proust entenderia que para mim o Caxingui é muito superior a Cambray. E é. ---------------- Falarei apenas mais uma lição, no livro são nove. A memória é incapturável. Eu posso recordar que em 2002fui à tal praia e que lá amei tal mulher. Que comi um prato de peixe e vi um entardecer roxo. Mas por mais que eu esmiuce esses detalhes, essa memória é sem alma. A alma dessa lembrança virá apemas de modo inesperado, surpreendente. E isso ocorrerá com o encontro com um lença a muito esquecido, uma melodia jamais escutada outra vez, um perfume original. A lembrança racional, evocada, consciente é como uma fotografia, a memória inesperada é um caminhar novamente no passado. Entramos nessa época sem querer e sem saber o porque. ---------------- Por fim, quero dizer que vivemos no menos proustiano dos tempos pois tudo agora é velocidade, desejo imediato e memórias fotográficas. Por isso nossa vida parece e parecerá cada vez mais sem cor, sem sabor e entediante. E sem qualquer rastro de perfume. ------------------- PS. Não ia falar do desejo, mas falarei. Para Proust, o segredo do desejo é mental. Uma mulher rica, que deseja um vestido e imediatamente compra oito modelos desse vestido jamais terá o prazer de uma mulher que DESEJOU esse mesmo vestido, e por não ter o dinheiro, cultivou esse desejo por meses, até poder o comprar. O segredo do desejo é desejar, não obter. E isso é ainda mais forte no amor. Esperar pelo Natal para ganhar um brinquedo é uma experiência muito mais profunda que ganhar o mesmo presente no dia em que ele é desejado. Do mesmo modo, a grande paixão de sua vida será aquela que mais foi adiada, esperada, sonhada. ---------------- Sim, Proust sabia da vida e quando perguntado porque uma pessoa tão infeliz podia ajudar tanta gente, Marcel respondia que um médico se infecta a todo momento e mesmo assim cura seus doentes. Ele tinha absoluta consciência de que ajudava seus muitos amigos com conselhos e com seus escritos, e sabia dolorosamente o quanto sua vida era miserável. Rico desde sempre, cercado de luxo e de amigos aristocratas, e infeliz até morrer. Obrigado Marcel Proust.