trombone com vara
cinema, música, livros e outras coisas roxy
A PASSAGEM DO MEIO - JAMES HOLLIS. O SIGNIFICADO DA MEIA IDADE.
Hollis se dá um objetivo nobre: explicitar qual o significado da fase final da vida sem evitar falar do desagradável. Para isso ele começa falando da primeira fase da vida, a infância, época em que muitos permanecem por quase toda a vida. O que caracteriza essa fase é a magia, a preponderância do outro, a dependencia. Tudo existe em função do ego. O pai está cansado por causa de voce, a mãe ri por seu mérito, o vizinho se machucou por voce, o mundo é espelho daquilo que voce pensa, sente e deseja. A segunda fase é chamada por Hollis de fase heroica. É a primeira época adulta. A pessoa percebe que ninguém liga muito para aquilo que ele quer ou sente. Então ele se enche de heroismo e vai à vida. Os pais são deixados e o mundo se abre. Vem então a terceira fase e a segunda como adulto, a fase onde o trabalho passa a ser tudo. A pessoa esquece de seu ego e vive em função de filhos, trabalho, obter segurança. Casamentos caem na rotina, a ansiedade e a depressão rondam, a vida é uma corrida. Na meia idade surge a fase de que o livro trata. Casamento encerrado ou em fase de desilusão, filhos fora de casa, trabalho sem sentido, surge a crise. Para Hollis, e para Jung também, é esse o momento em que a vida pode obter sentido. ---------------- A vida é, até então, uma ação que busca fugir de certos pensamentos e de certas verdades. A morte e a finitude sendo a principal ideia a ser evitada. Na parte final da vida esse tema volta com força total e o ser tem duas escolhas: evitar esse pensamento, mais uma vez, usando para isso bebidas, drogas ou distrações sem fim; ou mergulhar dentro de si mesmo e descobrir, finalmente, quem voce sempre foi. A fase final da vida tem o mais nobre dos sentidos, o encontro com tudo aquilo que voce não pode ser. Ou não quis ser. Para isso é preciso a disposição para a grande viagem, aquela que nos leva rumo à alma. Nessa viagem todas as influências devem ser abandonadas. É doloroso perceber quanta coisa voce quis e fez que nada significavam para voce. O quanto do seu eu era na verdade influência de pais, meio social, arte, moda, país. O quanto sua alma, seu si mesmo foi deixado de lado. E entender aceitando sua sombra, um lado nada lisongeiro de sua alma. ----------------- É preciso perceber que não teremos e não precisamos da ajuda de ninguém. Esse encontro com o si mesmo é uma obra individual e voce tem dentro de sua alma toda força para isso. Através do reencontro com sua infância e juventude, voce revê sua vida e encontra nela aquilo que era o si mesmo e aquilo que não era seu. ----------------- Em 1939, em Londres, Jung disse que na vida moderna somos obrigados a escolher entre ideologias externas ou neuroses privadas. O que ele quis dizer é que somos distraídos por ideologias que nos dão uma paupérrima ideia da vida e de quem somos, e que quando olhamos para dentro somos bloqueados por neuroses que nos fazem fugir. A individuação, processo indesejado pelos tempos modernos, deve ser feito se penetrando no sintoma, lendo sua mensagem, mergulhando na solitude da busca. --------------------- A pergunta que importa, que deve ser feita a partir da meia idade é: Estou ligado à algo infinito? O que é essencial em mim? O que em mim nunca poderá ser de mim tirado por ser maior que eu mesmo? O que eu sou e só eu sou? -------------- Quem não faz essas perguntas não viveu de fato e quem não encontra essas respostas perdeu a essência da sua vida. Cito agora uma frase de Jung: A vida é uma pausa luminosa entre dois grandes mistérios que no entanto são um. ------------- Entre citações de Yeats, Kavafis, Kazantzakis, Rilke é o poeta mais citado neste livro. Ele termina inclusive com um trecho de um poema desse sábio poeta. Eis o trecho: vivo minha vida em orbita crescente, que voam sobre as coisas do mundo, talvez eu nunca alcance a última, mas esta é minha tentativa, circulo ao redor de Deus, ao redor da torre, circulo faz mil anos, e ainda não sei se sou falcão, tempestade ou uma canção. ------------------ Como disse Kavafis, a Odisseia não é uma vitória, é uma jornada. A vida não é um chegar é um caminhar.
CHOPIN E NOSSA ALMA
Jung dizia, e Hollis reafirma, que voce não encontra seu si-mesmo se viver imerso em distrações. Se voce temer o silêncio, se voce evitar pensar em solidão, se voce fugir do estar consigo mesmo, sua vida será uma farsa, um antro de ansiedade e frustração. Pois então se a música é a arte que mais chega perto da alma, é lógico constatar que essa arte nunca esteve tão distante do si-mesmo. Repetitiva, fútil, divertida, fácil, tola e cheia de horror ao que seja profundo, a música que se ouve hoje é fuga desesperada da alma. Ela, que sempre foi um convite à interioridade, nada mais é agora que mais uma distração. Histérica. --------------------- Vladimir Horowitz, um dos cinco grandes pianistas da história, seria hoje rotulado como autista. Longa carreira, seu toque era de extrema precisão e ao mesmo tempo cheio de sentimento. Romântico e bem humorado, foi uma figura única. --------------- Chopin foi um ousado harmonista. O piano era para ele como parte de sua alma. Ele criava mundos, seres e pensamentos em forma de música. E nos interiorizava. Pessoas ansiosas têm medo de Chopin, pavor. Sentem nele uma tristeza abissal. Não percebem que o que vive no abismo é sua alma que os chama e de quem eles têm panico. Chopin lhes lembra algo perdido, exilado e evitado. Cada nota, de uma beleza atemporal, é um passo para dentro, o interior que eles evitam. Exilado de sua terra, a Polonia invadida pela Russia, Chopin não falava de amor, ele falava da alma perdida. Horowitz, alma grande, recebe o polones com alegria e traduz para nós a sua existência. É um encontro. É um privilégio.
O BAIRRO MORREU
Desço do carro e olho a esquina da rua Iaiá com João Cachoeira. Derrubaram o bar do meu pai. Tapumes cobrem a esquina toda e onde estava o bar há um vazio. O lugar parece sujo. ----------------- Onde está o Extra? Um quarteirão inteiro foi destruído. Não só o Extra como todo o comércio ao redor. Noto então o que aquela região se tornou. ------------------ O comércio do Itaim está destruído. Comprados a preços de desespero, todo o bairro se transforma em imensos prédios de vidro e cimento. Onde antes se viam lojas com suas portas abertas, empregados e donos em trabalho de recepção, agora há fachadas mortas, sem vida, fechadas, anônimas. Carros que passam com pressa e poucas pessoas que andam na calçada. Buracos onde não havia, sujeira onde sempre foi limpo, pessoas indiferentes ao bairro, pois é o comércio que ama a rua, não aquele que vive no décimo oitavo andar. ------------------- Em 1984 eu fui à inauguração do Mappin Itaim, Mappin que depois virou Extra. Esse Mappin era voltado à elite e tudo nele transpirava luxo. Havia um café estilo inglês lá no alto, ao ar livre. Muito dourado, muito espelho, muito tapete macio. O Itaim queria ser Jardins e a certeza de crescimento comercial era absoluta. Quando abriram a Nova Faria Lima a festa foi total. Eis nossa Paulista. ----------------- Ninguém imaginava que a própria Paulista se tornaria India. E que o Itaim seria comprado por duas construtoras. A Faria Lima, a mais morta das avenidas, se fez cemitério com túmulos de trinta andares. O Itaim, o mais risonho dos bairros, nascido familiar e feito para ser vila, hoje é uma ruína composta por comerciantes, os últimos, desesperados, e moradores que mal conhecem a rua onde moram ( e onde não vivem ). -------------------- Saio de lá triste.
ONDE ESTÃO AS PESSOAS ORIGINAIS?
Nosso tempo odeia e teme a originalidade. Entre pessoas de 70 ou 80 anos voce ainda encontra "a figura", o excêntrico, mas não nos demais. Nos acostumamos a esperar o que se deseja, a ter aquilo que se pede, a ir ao encontro do que se acha que se precisa; e o inesperado, o desafiador foi abandonado. Em todo carro cinza ou prata, em cada roupa de cor pastel, se afirma o mais do mesmo. Mas também nos bandos que se afirmam como "diversidade" se produz o comum e o vulgar. Nas milhares de mulheres de cabelo rosa e tatuagens fofas, nas barbas que desfilam aos milhões, o que vemos é o fato de que os conhecemos antes de os conhecer. Aquele será de esquerda e como tal terá gostos e opiniões de esquerda. O mesmo com aquele de direita. Já aquela figura, uma trans, será banal até em sua voz, pois todos eles repetem não só discurso como o timbre vocal e o gestual. O que se anuncia como artista será o mais vulgar entre todos. Exporá sua fala decorada e amará aquilo que fica bem ao seu grupo. -------------- Entre os jovens, entre eles que se esperaria o invulgar, a coisa é pior. O medo de ser diferente dita tudo. Eles serão "do grupo". Em 18 anos vivendo entre eles, conto 8 ou 9 almas originais, surpreendentes, ousados. Os demais são repetições ao infinito da mesma vida e do mesmo diálogo. Se a função da vida é se individualizar criando uma alma, então posso dizer que desde a Idade Medieval não somos tão fracassados. E quando falo era medieval não falo do ano de 1.100 ou 800, pois esses foram anos de vida exarcebada, falo daquilo que se pensa ter sido erroneamente toda a idade média: massa de pessoas tementes a Deus e à Igreja e se portando-pensando como fossem uma só personalidade. Substitua Deus por ideologia e igreja por moda e vocé terá o mundo em 2026. --------------- Uma personalidade original é maravilhosa. Ela prova a realidade da alma. Ela possui vida e liberdade. Ela, que não tem consciência de ser original, pois o não vulgar de fato jamais procura ser propositalmente diferente, é uma pessoa que fertiliza. Onde ela está as coisa despertam e acordamos com elas. E talvez aí resida a atual aversão ao original. A pessoa que é ela-mesma nos acorda e nosso mundo ama o sono. Queremos ser zumbis distraídos em sonho desperto. Vivemos na nuvem da inconsciencia, balbuciando palavras sem peso e que mal sabemos para que servem. O original nos tira desse mundo vago onde esperamos e queremos mais do mesmo. --------------- Procure então voce ser diferente. Como? Ousando ser voce mesmo. É ardua tarefa mas nada justifica sua vida de modo mais nobre que isso. E é uma tarefa discreta, silenciosa. Boa sorte.
A LEGENDA DOURADA - MARIO MEUNIER ( e Madame Blavatsky )
Fui comprar livros sobre mitologia. Claro que comprei aquele dicionário que todo mundo conhece. Então vi um livro de capa feia e o escolhi por pura intuição. Chegando em casa pesquisei sobre o autor, Mario Meunier. Ele era francês e se chamava Mario, o que é estranho. Viveu na virada dos séculos XIX e XX. E foi figura famosa e interessante. Circulou no meio dos nobres interessados em filosofia e ocultismo, nobres que existiam às dezenas e que foram extintos na Primeira Guerra. Meunier andava no mesmo meio que Proust, a princesa de Noailles e Robert de Montesquiou. Leio sobre os vários grupos exotéricos que eram fundados então. Alguns pregavam drogas, ópio e haxixe e sexo. Pois bem. Leio o livro e é uma leitura viciante. Meunier, com estilo, conta a história de deuses e herois gregos. De um modo poético sem ser piegas e exato sem parecer seco. Ler sobre mitologia é sempre frustrante porque quem escreve é sempre um escritor ruim. Meunier é excessão, ele é ótkmo. Consegue nos passar o encanto das histórias e melhor, percebemos nelas a raiz de noss inconsciente. Se então os deuses estavam em tudo, cada pedra e cada árvore tinha seu deus, hoje eles estão em nós e se manifestam em cada sintoma e em cada sonho nosso. Seria futil de minha parte tentar imaginar como se sentiam as pessoas em mundo onde tudo fazia sentido e tudo tinha vida. A alma não precisava ser buscada, ela estava exposta em todo lugar. Não há como saber o que era ser um homem então. Mas posso falar da experiência de o ler hoje, é encantadora. ----------------------- Madame Blavatsky não era do mesmo meio que Meunier. De origem ucraniana e nobre, Helena Blavatsky era mais famosa e mais mundana. Leio um livro seu e me decepciono. O que ela fala é budismo com pitadas de kardecismo. Só isso. Nada de original, nada de perigoso, nada de instigante. Era uma charlatã? Não sei. O livro é traduzido por Fernando Pessoa que foi seu fã. Yeats também o foi. E muitos mais. Blavatsky fundou sociedades teosóficas mundo afora e viveu na ìndia. E em Paris-Londres. Esqueça-a.
COMO SER UM HOMEM E COMO SER UM JOVEM
Na enfermaria do hospital. Uma enfermeira, bonita, me dá toda sua atenção. Sou o único paciente. Ela me dá duas injeções e espero. Logo começam a chegar mais pacientes, todos homens. Quatro marmanjos esperando para fazer uma biópsia de próstata. Eu, que sempre falo muito, puxo assunto com meus companheiros. Falo do exame de cólon que fiz vinte anos atrás, do efeito hilário de uma anestesia. Adoro anestesias, todas. Rimos, todos nós. E esperamos. Sou o primeiro a fazer o exame. ------------------- Logo penso na trincheira das antigas guerras. Nos homens fumando um cigarro e esperando, esperando a ação que se adia. As piadas para disfarçar o medo. Homens pensam hoje que lhes faz falta uma mulher, que a felicidade vive nos braços de uma amada, e esquecem que antes de ter a mulher é preciso conhecer o homem, saber ser homem. --------------- Um menino nascia e ia ao campo lavrar com seu pai, seus tios. Ou aprendia a ser sapateiro, vender pão, ou fazer uma ferradura, com seu pai, seu avô, seus tios. Esses homens o levavam ao mundo deles, onde ele sentia dentro de si o apelo da masculinidade. Aprendia a ser ele-mesmo. Na grande mudança que se inicia no século XIX, o menino vai à escola e quando chega em casa encontra a mãe. E mesmo que ele precise trabalhar, não será com seu pai, será entre estranhos. O que seu pai terá para lhe ensinar? Esse pai terá de criar um laço que os una, não mais será uma coisa natural, terá de ser inventada. Os papeis se perderam. ----------------- Meu pai, desajeitado, me levava ao seu trabalho. Mas nada me ensinava. Ele queria me levar porque sentia que tinha de ser assim. Mas já era um homem do século XX, numa cidade imensa, e se perdia no meio do caminho. Queria seu filho a seu lado, queria o tirar de casa, mas não sabia o que falar, como falar, ensinar. O que seria para mim uma honra se fazia um castigo. ------------------- Eu lembro então. Homens, meu pai entre eles, numa mesa fumando cigarros fedidos. A fumaça invadia tudo e um deles tossia. Jogavam cartas e falavam alto. Eu andava no chão, entre os sapatos amarrados, marrons. Eu sentia uma segurança absoluta e queria ser um deles. Porque eram grandes, fortes, imensos. Eram homens. ----------------- Tempos depois, aos 13 anos, meu pai me levou na fazenda de um primo rico. Lá, o primo de meu pai me deu um copo de vinho. Meu pai pediu para ele servir pouco, mas eu pedi para encher. O primo riu e disse: Esse é dos meus! Bebi todo o copo de uma só vez. Quis me exibir e meu pai notou isso. Fiz força para não cair, a tontura veio forte. O primo falou: Já é um homem! ---------------------- Não, eu não era. Sendo um garoto pós baby boomer, eu não queria ser homem. Fui ensinado a odiar homens porque homens faziam guerra e traíam as esposas. Fui ensinado a querer ser jovem para sempre, sempre em crescimento, sempre me auto inventando. Eu consegui ser esse jovem. E o que ganhei com isso?
JAMES HOLLIS E JACK LONDON
Termino de ler o livro de James Hollis e, apesar de às vezes quase resvalar para a auto ajuda, é um texto interessante. O que destaco de mais forte é sua afirmação, com a qual concordo, pois a senti na pele, de que não há dor maior em um homem do que a de não ser aceito por seu pai. O pai representa para um homem o mundo lá de fora, a lei, a realidade, a coragem na vida, a tomada do destino. O pai, o bom pai, deve ser capaz de levar e conduzir o filho para longe da mãe e para longe da casa. Para fazer isso é necessário que esse pai seja amoroso e duro, tenha autoridade e experiência, transmita o conhecimento prático. O homem que não tem esse pai, todos nós no mundo de hoje, terá uma inadaptação à realidade, procurará o pai em outros homens, será inseguro como homem, e tentará provar a si mesmo sua masculinidade, que será caricata. Um eterno menino. -------------------------- Leio em seguida, sem querer, Jack London, O Lobo do Mar. Um intelectual é salvo de naufrágio por um capitão de navio que caça focas. Esse intelctual passa a ser um quase escravo desse capitão brutal. E assim se torna homem aos 35 anos de idade. Eis aí um rito de passagem. O livro, do começo do século XX, foi escrito ao mesmo tempo que Freud e Jung lançavam suas teses e London não leu nenhum dos dois. Mas voce nota no texto o embate entre ego e inconsciente, entre instinto e razão, entre carne e alma. O capitão é um seguidor de Nietzsche e Darwin, o intelctual um idealista. -------------- Jack London nasceu muito pobre e fez de tudo na vida. Com 19 anos já havia sido operário, mineiro, marinheiro, ladrão, vagabundo e vaqueiro. Auto didata, começou a escrever contos e ficou rico. Mas perdia cada fortuna que ganhava em planos utópicos. Morreu aos 40 numa overdose de morfina. Percorreu meio mundo e casou duas vezes. Sua prosa, simples, inaugura, mais que Poe, a prosa americana. Realista, cruel,violenta, dura. Às vezes me desagrada o modo como ele expõe de modo didático suas teses filosóficas, e até nisso ele é bem americano, mas ele cria ação e me fez ler suas 250 páginas em uma tarde. ------------------- Lembro que aos 15 anos eu li O Chamado da Floresta e dei à meu cachorro o nome de Buck, o mesmo do heroi do livro, um cão civilizado que se torna selvagem. O livro apaixonou a mim e a meu irmão que o leu em seguida. Jack London é ótimo para se aprender e adquirir amor aos livros.
SER ADULTO
Ele entrou no time de futebol americano do college, ou seja, aos 11 anos. Logo no primeiro treino ele quebrou a unha de um dedo. Doeu muito e ele se sentou à beira do campo. Um veterano veio ao seu lado, e sem qualquer desejo de o diminuir, lhe disse: Daqui para a frente só vai piorar. ------------------------- Aquela ferida, o dedo, passou então a ter um sentido. Ele estava entrando no mundo da dor que precisa ser sentida. A infância, a doce proteção materna ( ou em muitos casos, a raiva da mãe ) ficava para trás. Ele estava desprotegido da dor e teria de aprender a tolerar essa ferida. Nesse novo mundo, vasto como aquele campo de futebol, cabia a ele cumprir um papel, ele era um homem. ----------------- James Hollis jogou futebol até os 21 anos e aprendeu muito com dedos quebrados e costelas trincadas. Psicólogo seguidor de Jung, ele sabe que a saída do lar é o momento crucial na vida de um homem. Sociedades espalhadas por todo o planeta sempre tiveram ritos de passagem, o momento em que uma criança se torna homem. É quando ela deixa a mãe de forma simbólica e passa a viver o mundo adulto, mundo composto por feridas, perigos e auto afirmação. ------------------ A unha quebrada de Hollis teve um significado por causa do aluno mais velho que lhe falou uma frase carregada de simbolismo. O problema é que hoje nenhum jovem tem essa sorte. Suas feridas, seja um acidente de moto, uma briga ou um coração partido, serão sentidos apenas como dor inutil, absurdos evitáveis, azares futeis. Não há um velho sábio, uma tradição a ser seguida, um pai atento, para lhe orientar. O jovem, sempre assustado e tentando parecer valente ou frio, irá mergulhar numa confusão em que se misturam saudades da infância, desejo ansioso por carinho, emoções reprimidas e muito medo. Suas dor nada irá lhe contar. ------------------- Estou lendo James Hollis e acho que esse ponto levantado no livro é central para se entender o jovem de hoje. Preso nesse mundo de ninguém, onde ele não é nem criança e jamais adulto, ele se debate e procura se livrar do medo via drogas, sexo, trabalho frenético, ideologias. Escrevo mais em outro post.
AION, ESTUDOS SOBRE O SIMBOLISMO DO SI-MESMO - JUNG
Escrito na fase mais madura de Jung, eis o texto que explicita todo o estudo do self do psicólogo suiço. Demonstrando uma erudição que nos deixa abismados, ele traça um panorama que vai desde 3000 antes de Cristo até o iluminismo. Cabala, gnosticismo, astrologia, antropologia, alquimia, politeísmo, são centenas de citações, de nomes de autores, de teorias, de experiências, de conhecimento. Começando pela simbologia do peixe e do signo de peixes, ele adentra, sem medo, em um universo que fala de deuses do Egito, entidades desconhecidas, sonhos, artes perdidas e livros enigmáticos. Tudo isso com um sentido: o encontro da alma e do self, self sendo a totalidade do ser, condição que poucos encontraram. --------------------- Jung demonstra como tanto o marxismo como o modo de vida americano são dogmas de sociedades que perderam o sentido, estilos de vida que exigem obediência e fé política, no caso da esquerda, ou ansiedade competitiva, no caso americano. Destaco isso em Jung porque em 2026 se fala de esquerda e direita como opostos, mas para Jung eles são o mesmo,apenas com personas diferentes. Ambos negam o individualismo autêntico. -------------------- Jung diz também, e nisso ele se parece com um conservador, que o encontro do consciente com o inconsciente só se dá dentro da tradição cultural do lugar onde voce nasceu e foi criado. Para um ocidental, não há como encontrar o self usando para isso o budismo ou o islamismo. São séculos de cristianismo e milênios de paganismo. Esse é o mar onde nossa alma nada, esse o caldo onde ela se alimenta, esses os símbolos que falam sua lingua. -------------------- O que Jung nos dá é a consciência da riqueza ilimitada que vive dentro de nós mesmos e de como esse tesouro é perdido ao longo de uma vida. Todos temos uma alma para ser entendida e todos temos uma vida que, pricipalmente agora, pede para que a ignoremos. Jung cavou bibliotecas inteiras atrás de apoio às ideias e intuições que brotavam em sua mente e que surgiam nos sonhos de seus pacientes. Nada ele deixava de pesquisar e nesse sentido ele foi livre de preconceitos. Sua curiosidade era sem fim. Este livro é, de tudo que dele li, o mais satisfatório.
O SONHO E O MUNDO DAS TREVAS - JAMES HILLMAN
O que a noite é pequeno, na luz do dia será grande, e aquilo que durante o dia é ínfimo, de noite será gigante. Essa frase é de Jung e serve como guia para esta obra prima de James Hillman. ------------------ Um analista quando decifra o sonho de um paciente, ele supõe o significado do que aparece no sonho. E ao supor, ele arranca a imagem de seu mundo, onírico, e a transforma em coisa do dia. Ilumina, traz ao ego. O ego então absorve a imagem e se expande. O sonho como tal não mais respira. A imagem, que é imagem e não alegoria, que é imagem e não narrativa, desaparece. ---------------------- Sonhos são a imagem da alma e alma vive no Hades. Almas, todas, vivem dentro, dentro da Terra, dentro da mente, dentro do infinito. Cavamos para a encontrar. E com ela encontramos a morte. ------------- Para entender isso é preciso deixar de lado 2000 anos de cultura critã, onde a morte é o oposto da vida, o mal o oposto do bem, onde todo oposto é uma escolha. Aqui morte e vida são uma via unida. Uma pressupõe a outra, uma existe na outra. A morte está na vida, a vida na morte. ------------ Este pensamento não é oriental, é grego, tragicamente grego. Mas, ao contrário de Nietzsche, Hillman não glorifica o heroi. O heroi, ativo, sempre fazendo algo, foge da morte, nega sua alma. Hillman demonstra em Hercules o modo como ele nega toda sua interioridade ao fugir, o tempo todo, de tudo que lembre interioridade. Ele mata, ele limpa, ele ordena, ele faz. Ele não quer morrer. -------------------- Como dizia Sócrates, nada sabemos, nada sabemos sobre a alma e sobre o sonho. Nós estamos nela e não ela em nós. Nossa sombra nos move na realidade que é uma imaginação. Parece complicado? Leia de novo. ------------------ O pai, a mãe que encontro no sonho não é meu pai, não é minha mãe. Nem mesmo é um símbolo de meu pai. É uma imagem psíquica. Devemos entrar no sonho e estar dentro dele. A questão aqui não é Por Que ou O Que, a questão é COMO? Como é meu sonho. ------------------ O cristianismo venceu a morte e transformou os seres de Hades em demonios. Desde então vivemos uma tara por explicações, por clarear as trevas. Nada mais pode ser mistério. Tudo deve ser colocado à luz. A morte é então vencida pela ressurreição, a alma se faz espírito, ela vive no céu, claro. O mundo da morte se torna tribunal. Humano. Ego. ------------- Extremamente insatisfatório descrever o texto de Hillman como aqui tento fazer. Então o que posso falar, para quem se interessa pelo tema, é que leia o livro. Hillman não desmonta a religião cristã nem a teoria de Freud ou Jung, ele aumenta. Recupera o que foi perdido usando o que agora existe. Amplia nossa visão da vida ao trazer a morte de volta ao centro.
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