trombone com vara
cinema, música, livros e outras coisas roxy
UM LIVRINHO MUITO BOM: COMO PROUST PODE MUDAR SUA VIDA- ALAIN DE BOTTON
Dizem que no mundo há apenas dois tipos de leitores: os que conhecem Proust e os que não o leem. Aqui, Alain de Botton, um tipo de filósofo pop como há tantos hoje, escreve um bom texto sobre os benefícios que Proust pode trazer à sua vida. Se isso parece surpreendente para voce, isso se deve ao fato de que voce não lê ou não entendeu nada de Proust. Em 2010, mergulhado em mais uma onda de tristeza, eu li o segundo volume de sua obra prima e me senti vivo outra vez. Botton explica o porque disso acontecer. --------------------- Este livro, curto, delicioso, leve, apresenta Marcel como um homem doente. Morto aos 51 anos, em 1922, de gripe, ele passou um terço de sua vida na cama. Os outros dois terços em festas e visitas. Tinha muitos amigos e não era solitário, mas desconfiava da amizade como do amor. Seu pai, que se dizia o mais feliz dos homens, foi médico famoso e seu irmão um soldado condecorado. Já Marcel vivia doente. Asma, prisão de ventre, alergias, dores nos rins, gripes, febres, vertigens. Janelas sempre fechadas, ele dormia com 4 cobertores de lã e mesmo no verão saía com casacos de peles. Com as pessoas sua atitude era sempre a de agradar. Proust gastava fortunas com presentes, com gorjetas, com flores e elogiava todos. Suas críticas ele as guardava dentro de si mesmo. Já como autor, ele se via depreciativamente. ---------------- Sim, eu sou proustiano e após ler este livro o sou mais ainda. O acho infinitamente maior que Joyce. Os únicos que lhe chegam perto são Henry James e Stendhal. ----------------- E voce agora deve estar perguntando: cadê o bem que ele faz? Falo agora, mas não tudo, este livro é fácil de achar. ----------------- Proust nos ensina, acima de tudo, que a vida é uma questão mental. Não importa onde voce vive ou para onde voce viaja, é sua percepção mental que dá o valor de sua vida. E isso tem a ver com VAGAR. Com o tempo. Pegue um carro e trafegue a 80 por hora ao longo de uma avenida. Faça esse mesmo trajeto caminhando a pé. E depois andando vagarosamente. As três experiências serão completamente diferentes, e eu garanto que a mais rica será a mais lenta. Essa uma das lições do texto proustiano: o aproveitar a vida está diretamente ligado ao tempo gasto naquilo que se faz. Quanto mais rápido, menos vivencia. Por isso ler Proust, com vagar, é tão enriquecedor. Ele nos ensina a ver a vida e a sentir a beleza daquilo que nunca havíamos percebido. --------------------------- Proustiano que sou, eu sempre, sem querer, parava para ver a beleza de uma casa velha, comum, vulgar, casa que nada valia como "arte" mas que eu sentia ser ponto de beleza. Essa é uma atitude profundamente proustiana. Observar a beleza de Roma ou de uma pintura de Degas nada tem a nos revelar, porque nosso olhar jamais será puro. Olhamos São Pedro no Vaticano com todas as opiniões dadas por nossa cultura. Olhamos querendo ver o que deve ser visto. O que fica bem sentir e falar. Jamais olhamos como nós mesmos. Por outro lado, a pessoa que tem o poder de olhar "de verdade", verá a beleza de um limão aberto sobre a pia, uma meia de seda jogada numa poltrona ou um cachorro dormindo ao sol. O texto de Proust nos faz perceber isso. O gosto de uma medeleine abre todo o mistério da vida para o narrador. Essa lição do "CAMINHO DE SWANN" é preciosa. ------------------- Mas há mais, muito mais. Proust, segundo de Botton, nos ensina como fazer o amor durar, como cativar um amigo, como ler melhor, como amar a vida, como se portar. Inclusive como não mitificar o próprio Proust. Para isso de Botton usa Cambray como exemplo. Cambray é uma vila onde se passa o início de EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO. Muita gente vai lá para "sentir" as emoções de Proust. Pois bem, a cidade é comum, nada tem de diferente, é como qualquer cidade do campo normando. O que de Botton diz e Proust ensina é que a emoção proustiano pode e deve ser obtida na sua vila, no lugar onde voce viveu e não em uma vila que nada significa para voce. Nesse momento confesso que ri lendo o livro, pois notei que minha Cambray se chama Caxingui e que Proust entenderia que para mim o Caxingui é muito superior a Cambray. E é. ---------------- Falarei apenas mais uma lição, no livro são nove. A memória é incapturável. Eu posso recordar que em 2002fui à tal praia e que lá amei tal mulher. Que comi um prato de peixe e vi um entardecer roxo. Mas por mais que eu esmiuce esses detalhes, essa memória é sem alma. A alma dessa lembrança virá apemas de modo inesperado, surpreendente. E isso ocorrerá com o encontro com um lença a muito esquecido, uma melodia jamais escutada outra vez, um perfume original. A lembrança racional, evocada, consciente é como uma fotografia, a memória inesperada é um caminhar novamente no passado. Entramos nessa época sem querer e sem saber o porque. ---------------- Por fim, quero dizer que vivemos no menos proustiano dos tempos pois tudo agora é velocidade, desejo imediato e memórias fotográficas. Por isso nossa vida parece e parecerá cada vez mais sem cor, sem sabor e entediante. E sem qualquer rastro de perfume. ------------------- PS. Não ia falar do desejo, mas falarei. Para Proust, o segredo do desejo é mental. Uma mulher rica, que deseja um vestido e imediatamente compra oito modelos desse vestido jamais terá o prazer de uma mulher que DESEJOU esse mesmo vestido, e por não ter o dinheiro, cultivou esse desejo por meses, até poder o comprar. O segredo do desejo é desejar, não obter. E isso é ainda mais forte no amor. Esperar pelo Natal para ganhar um brinquedo é uma experiência muito mais profunda que ganhar o mesmo presente no dia em que ele é desejado. Do mesmo modo, a grande paixão de sua vida será aquela que mais foi adiada, esperada, sonhada. ---------------- Sim, Proust sabia da vida e quando perguntado porque uma pessoa tão infeliz podia ajudar tanta gente, Marcel respondia que um médico se infecta a todo momento e mesmo assim cura seus doentes. Ele tinha absoluta consciência de que ajudava seus muitos amigos com conselhos e com seus escritos, e sabia dolorosamente o quanto sua vida era miserável. Rico desde sempre, cercado de luxo e de amigos aristocratas, e infeliz até morrer. Obrigado Marcel Proust.
... E JEAN GABIN CRIOU O HOMEM DO CINEMA
O cinema sempre teve um poder imenso para moldar o mundo físico. E, ocasionalmente, o espiritual. Esse poder foi transferido na década de 60 para a TV e neste século para as redes sociais. Homens da internet são modelos para meninos, mulheres para as meninas, já que pais e tios não conseguem ou não podem mais fazer o papel de modelo de vida. Sim, os modelos hoje são fracos como nunca antes, eles vão de um cantor hesitante à uma celebridade sem obra. -------------- Nos tempos em que o cinema era rei, Cary Grant nos ensinava a ser elegante, John Wayne a parecer forte e Humphrey Bogart a encarar a vida de modo estoico. Claro que voce podia ter outros modelos, parecer alegre e destemido como Errol Flynn, um cara do bem como James Stewart ou um outsider tipo James Cagney. Creia, do terno a ser vestido ao modo de comer um bife, da paquera ao jeito de beber e fumar, tudo era ensinado pelos filmes. A última geração a ter tamanho poder foi aquela que reinou por volta de 1960-1970, onde apesar de haver modelos no rock como Jagger ou Morrison, e na TV, como Johnny Carson ou Dick Van Dyke, os garotos ainda se guiavam pelo modo cool de Steve McQueen ou o charme perigoso de Alain Delon. -------------------- Se voce quiser saber o lado feminino da história substitua Cary Grant por Grace Kelly, John Wayne por Marilyn Monroe e James Stewart por Audrey. ----------------- Ontem vendo um filme de Jean Gabin eu recordei que esse francês meio feio e meio bonito, meio gordo e meio magro, meio calado e meio paradão foi o produto original. Em 1935 ele já fazia Bogart antes de Bogart e era John Wayne de um modo muito mais realista. -------------------- Gabin surge em cena e voce, se for um homem, sente imediatamente que ali está o tio que voce sempre quis ter. No rosto dele nasce a certeza de que ele viu tudo, sabe o que dizer, e está pronto para te ensinar. Ele, no primeiro momento passa autoridade, em seguida força e coragem e então, eis o segredo, vulnerabilidade sem auto piedade. Gabin parece arauto do destino, estoico como uma ordem divina. Em vários filmes ele morre por amor, em outros é corneado, mas nunca jamais parece fraco. Não há como saber se Gabin é humano ou se vejo hoje Gabin como modelo do humano por causa dele mesmo ter existido, mas nada no cinema parece mais seguramente sábio que sua presença e a maneira como ele age. ----------------- Veja a maneira como ele se serve de um Pernod. Ele pega a garrafa e derrama alguns goles na taça, em seguida o garçon lhe dá água e Gabin bebe. Sentimos que desejamos aquele Pernod ( e eu odeio aniz ), porque somos convencidos de que um homem real precisa beber um Pernod. Não há ator que beba como Gabin, como também ninguém puxa um cigarro e o acende como ele. Sentimos o cheiro do Gauloise, a fumaça pula da tela para nossos olhos. Quando ele corta uma baguete com a faca e enche o pão de salame nossa boca saliva. Sim, é preciso ter uma faca pequena e cortar uma baguete como Gabin o faz. --------------- Mas o principal é o seguinte: ele é um monumento! Sua presença não pode ser derrubada. Basta que voce o veja em cena para sentir isso! Seu corpo, não muito alto, mas pesado, é imenso! Sólido, inescapável. As mãos, duras como de pedreiro, podem obstruir a presença de qualquer outro ator. E a voz, masculina e musical, sempre à beira da irritação gaulesa, cala qualquer outra voz. ---------------- Vejo nos extras de PEPE LE MOKO, que os bandidos da França e da Itália começaram a imitar o jeito de Gabin em seus filmes policiais. As pessoas acham hoje que Gabin imitava nos filmes o modo de andar, de vestir, de falar dos bandidos, mas na verdade foram os bandidos que passaram a o imitar. Dentre as invenções de Gabin que perduram até hoje, a gravata clara com camisa preta, o sobretudo solto, o chapéu cobrindo os olhos, o lenço no pescoço. -------------- Por fim, quando eu tinha 35 anos eu achava Gabin bem desagradável, provavelmente devido aos meus problemas com a masculinidade. Hoje, aos 64, acho-o um ser fascinante. Sim, mais que Bogey ou Clint Eastwood, Gabin é o artigo mais refinado.
THE DEATH OF A LADIES MAN - LEONARD COHEN E PHIL SPECTOR
Alguém disse que pessoas que não conseguem separar a música da emoção pessoal não entenderam o que significa a linguagem musical. Dou exemplo. Com a idade, várias emoções ou lembranças de emoções perderam o valor para mim. Não é um tipo de alzheimer não, é a proximidade do fim. Diante da morte voce peneira o que importa e percebe então que muita coisa não tinha importância. Centenas de canções que eu amava nada mais significam. Por que? Porque o valor delas não residia na música em si, mas sim em alguma emoção que a canção despertava. ----------------- Então eu adorava ouvir o pobre homem chorando o amor que passou. Ou a saudade da rua que não existe mais. Ou a morte de seu cavalo. Também havia aquele que gritava de desejo ou berrava contra a guerra. Eram emoções que nasciam da "literatura" da mensagem, de uma historinha, de identificação. Nunca da música pura. ----------------------- Amar a arte musical é penetrar dentro dela e se deixar ser levado pelos sons. Abstração pura. A emoção não vem de uma lembrança ou de uma mensagem que pareça um conto ou poema, ela vem do som que se escuta. ------------------- Atom Heart Mother é meu disco favorito de Pink Floyd e Satanic é o disco dos Stones que mais me toca ( mas não é meu favorito ). Por que? Porque são abstratos. Som e ruído que é na verdade apenas isso, som e ruído. E é por isso que Death of a Ladies Man é não apenas um ótimo disco, é o único de Leonard Cohen que me satisfaz. Por obra de Phil Spector. ---------------------- Fãs de Cohen detestam este disco. Porque não se parece com os discos de Cohen. Este lembra muito os discos de John Lennon. Principalmente a obra prima que é Walls and Bridges. Spector era influência imensa sobre Lennon e nele havia o exagero, a loucura típica de Phil Spector. É o que acontece aqui. Nada de violão e voz, são 3 guitarras, dois baixos, duas baterias, dois teclados, e um monte de percussão, violinos, sopros, coros femininos, xilofone, a breguice sem medo que se torna fascinante. A voz de Cohen fica lá no fundo. -------------- Entenda, eu gosto de Cohen mas sua obra é a de um poeta. Aqui não, é música. Dizem que Spector gravou tudo com uma 38 em cada mão. O pó voava pelo estúdio. O disco é delicioso. E às vezes genial. --------------- Phil Spector mudou o rock por volta de 1963, aos vinte anos, quando começou a produzir discos. Ele trouxe a sinfonia para o Pop e fazia Wagner em 2 minutos. Não haveria Brian Wilson sem ele e nem a parte orquestral dos Beatles. Alguns singles de Phil são genialidade absoluta e aqui ele fez o inusitado, uniu o mais discreto dos cantores ao mais expansivo dos estilos. O mundo não gostou. Eu amei.
AGONIA E ÊXTASE, FILME DE CAROL REED SOBRE UM INDIVÍDUO. E O FILME DE NOLAN.
Li recentemente a afirmação de que a Reanscença criou o homem como indivíduo. Claro que Julio César e Platão foram personalidades completas, mas é na renascença que pela primeira vez o Homem se vê sozinho diante do Universo. Crendo em Deus ou não, ele está só com sua vida e deve fazer dela aquilo que lhe é reservado. Isso, em 1350, era novo, único, inusitado e isso dura mais ou menos até hoje. ------------ No digno filme de Reed ( Carol Reed foi um grande diretor inglês ), Michelangelo se vê às voltas com a pintura da Capela Sistina e com o Papa Julio, um papa guerreiro. Charlton Heston faz o artista, e faz com mérito. Tememos o tempo todo que ele imite Kirk Douglas fazendo Van Gogh, mas não. De todo modo, Rex Harrison engole e janta Heston. Estupendo ator, Harrison faz um Julio delicioso. É maravilhoso prazer ver ator como Rex Harrison. Ele parece ter gosto em atuar e assim temos gosto em olhar para ele. ---------------- Mas eu preciso falar de uma produção atual que obviamente não irei assistir. É a nova versão da Ilíada, feita por Nolan. A linguagem será a mesma de uma versão POP tipo HQ e Aquiles será feito por Ellen Page que agora é Elliot. Já Helena será, óbvio, negra. E realmente feia. WEEELLLL....leio o crítico dizendo que o objetivo é desmerecer a cultura branca, machista etc etc etc. Mas dá pra ir mais fundo. O que acontece é a destruição da Renascença. -------------------- Tudo no wokismo pede a vulgarização da pessoa. Não mais herois, não mais personalidades imensas, não mais INDIVÍDUOS ÚNICOS. Diversidade que possui cardápio, voce pode ter mil sexos, mas não pode sair do woke. Quando voce coloca Helena, a mulher tão bela que provocou uma guerra, como uma mulher comum, voce está dizendo que a mulher mais linda do mundo não existe, ou melhor, ela NÃO DEVE EXISTIR. Do mesmo modo, o heroi, Aquiles, é uma pessoa frágil, assim como o mais frágil dos meninos do ensino médio. Aquiles nada tem de especial. ------------------- A mensagem é clara ( desculpe pelo clara ), ninguém é especial, ninguém é único. Jung deve estar irritado se pode nos ver. --------------------- O filme de Carol Reed tem efeito contrário. Ele afirma a certeza de que existem gênios, que seres humanos podem ser gigantes e de que devemos e podemos ser como eles. Ou tentar ser. Voce termina o filme se sentindo um pouco artista e um pouco menos banal. E se sentir especial e único é tudo que nosso tempo não quer que sintamos.
PIETR, O LETÃO - GEORGES SIMENON. Maigret e Gabin como modelos de homem adulto.
Se voce viu algum filme com Jean Gabin fazendo o inspetor Maigret voce nunca mais deixará de ver um no outro. É uma das raras vezes em que ator e personagem literário casam perfeitamente. A tragédia de filmes como O Morro dos Ventos Uivantes é que não houve, em tantas versões, nenhum ator ou atriz digno dos personagens ( houve a chance, Vivien Leigh nasceu para ser Cathy, mas quando fizeram o filme ela optou por fazer teatro em Londres, deixando seu marido, Laurence Olivier, ao lado de Merle Oberon, no filme de 1938 ). ------------------- Falando do livro: é este o primeiro onde aparece Maigret e é um clássico da literatura. Simenon não é um grande escritor policial, ele é um grande escritor amado por gente como Faulkner, Gide, Banville e Muriel Spark. Aqui vemos Maigret tentando encontrar Pietr, um vigarista internacional. O que Simenon escreve é estilo. Não importa quem é quem, quem fez o que, o que nos seduz é o clima e Maigret. Estoico até o osso, ele segue as pistas como fossem destino. O clima é fatalista. Chove e faz frio por todo o livro e voce sente a chuva e o frio em voce, Maigret fuma um cachimbo e voce sente a fumaça. Ele come u sanduíche e beve uma cerveja e voce quer o mesmo. A chuva o encharca e voce se sente molhado. E claro, compartilha do fatalismo de Maigret. -------------- Escrevi sobre Adultos e sobre a Passagem da infância à vida adulta. Ler Maigret ajuda a ser adulto. Ajuda muito. Ele se move, imenso, pelos lugares como um modelo de masculinidade não violenta e de coragem sem vaidade. Graças a Deus Simenon, como Agatha Christie, escreveu mais de 80 livros. Poderei então os ler até me fartar. ( Incrível a diferença entre Christie, Simenon e Chandler. Cada um representa seu país à perfeição. Christie é lenta, metódica, elegante, charmosa. Simenon, um belga francês, é pessimista, realista, quase comum, e Chandler prima pelo entretenimento, pela ação, pela surpresa ). Leiam.
A PASSAGEM DO MEIO - JAMES HOLLIS. O SIGNIFICADO DA MEIA IDADE.
Hollis se dá um objetivo nobre: explicitar qual o significado da fase final da vida sem evitar falar do desagradável. Para isso ele começa falando da primeira fase da vida, a infância, época em que muitos permanecem por quase toda a vida. O que caracteriza essa fase é a magia, a preponderância do outro, a dependencia. Tudo existe em função do ego. O pai está cansado por causa de voce, a mãe ri por seu mérito, o vizinho se machucou por voce, o mundo é espelho daquilo que voce pensa, sente e deseja. A segunda fase é chamada por Hollis de fase heroica. É a primeira época adulta. A pessoa percebe que ninguém liga muito para aquilo que ele quer ou sente. Então ele se enche de heroismo e vai à vida. Os pais são deixados e o mundo se abre. Vem então a terceira fase e a segunda como adulto, a fase onde o trabalho passa a ser tudo. A pessoa esquece de seu ego e vive em função de filhos, trabalho, obter segurança. Casamentos caem na rotina, a ansiedade e a depressão rondam, a vida é uma corrida. Na meia idade surge a fase de que o livro trata. Casamento encerrado ou em fase de desilusão, filhos fora de casa, trabalho sem sentido, surge a crise. Para Hollis, e para Jung também, é esse o momento em que a vida pode obter sentido. ---------------- A vida é, até então, uma ação que busca fugir de certos pensamentos e de certas verdades. A morte e a finitude sendo a principal ideia a ser evitada. Na parte final da vida esse tema volta com força total e o ser tem duas escolhas: evitar esse pensamento, mais uma vez, usando para isso bebidas, drogas ou distrações sem fim; ou mergulhar dentro de si mesmo e descobrir, finalmente, quem voce sempre foi. A fase final da vida tem o mais nobre dos sentidos, o encontro com tudo aquilo que voce não pode ser. Ou não quis ser. Para isso é preciso a disposição para a grande viagem, aquela que nos leva rumo à alma. Nessa viagem todas as influências devem ser abandonadas. É doloroso perceber quanta coisa voce quis e fez que nada significavam para voce. O quanto do seu eu era na verdade influência de pais, meio social, arte, moda, país. O quanto sua alma, seu si mesmo foi deixado de lado. E entender aceitando sua sombra, um lado nada lisongeiro de sua alma. ----------------- É preciso perceber que não teremos e não precisamos da ajuda de ninguém. Esse encontro com o si mesmo é uma obra individual e voce tem dentro de sua alma toda força para isso. Através do reencontro com sua infância e juventude, voce revê sua vida e encontra nela aquilo que era o si mesmo e aquilo que não era seu. ----------------- Em 1939, em Londres, Jung disse que na vida moderna somos obrigados a escolher entre ideologias externas ou neuroses privadas. O que ele quis dizer é que somos distraídos por ideologias que nos dão uma paupérrima ideia da vida e de quem somos, e que quando olhamos para dentro somos bloqueados por neuroses que nos fazem fugir. A individuação, processo indesejado pelos tempos modernos, deve ser feito se penetrando no sintoma, lendo sua mensagem, mergulhando na solitude da busca. --------------------- A pergunta que importa, que deve ser feita a partir da meia idade é: Estou ligado à algo infinito? O que é essencial em mim? O que em mim nunca poderá ser de mim tirado por ser maior que eu mesmo? O que eu sou e só eu sou? -------------- Quem não faz essas perguntas não viveu de fato e quem não encontra essas respostas perdeu a essência da sua vida. Cito agora uma frase de Jung: A vida é uma pausa luminosa entre dois grandes mistérios que no entanto são um. ------------- Entre citações de Yeats, Kavafis, Kazantzakis, Rilke é o poeta mais citado neste livro. Ele termina inclusive com um trecho de um poema desse sábio poeta. Eis o trecho: vivo minha vida em orbita crescente, que voam sobre as coisas do mundo, talvez eu nunca alcance a última, mas esta é minha tentativa, circulo ao redor de Deus, ao redor da torre, circulo faz mil anos, e ainda não sei se sou falcão, tempestade ou uma canção. ------------------ Como disse Kavafis, a Odisseia não é uma vitória, é uma jornada. A vida não é um chegar é um caminhar.
CHOPIN E NOSSA ALMA
Jung dizia, e Hollis reafirma, que voce não encontra seu si-mesmo se viver imerso em distrações. Se voce temer o silêncio, se voce evitar pensar em solidão, se voce fugir do estar consigo mesmo, sua vida será uma farsa, um antro de ansiedade e frustração. Pois então se a música é a arte que mais chega perto da alma, é lógico constatar que essa arte nunca esteve tão distante do si-mesmo. Repetitiva, fútil, divertida, fácil, tola e cheia de horror ao que seja profundo, a música que se ouve hoje é fuga desesperada da alma. Ela, que sempre foi um convite à interioridade, nada mais é agora que mais uma distração. Histérica. --------------------- Vladimir Horowitz, um dos cinco grandes pianistas da história, seria hoje rotulado como autista. Longa carreira, seu toque era de extrema precisão e ao mesmo tempo cheio de sentimento. Romântico e bem humorado, foi uma figura única. --------------- Chopin foi um ousado harmonista. O piano era para ele como parte de sua alma. Ele criava mundos, seres e pensamentos em forma de música. E nos interiorizava. Pessoas ansiosas têm medo de Chopin, pavor. Sentem nele uma tristeza abissal. Não percebem que o que vive no abismo é sua alma que os chama e de quem eles têm panico. Chopin lhes lembra algo perdido, exilado e evitado. Cada nota, de uma beleza atemporal, é um passo para dentro, o interior que eles evitam. Exilado de sua terra, a Polonia invadida pela Russia, Chopin não falava de amor, ele falava da alma perdida. Horowitz, alma grande, recebe o polones com alegria e traduz para nós a sua existência. É um encontro. É um privilégio.
O BAIRRO MORREU
Desço do carro e olho a esquina da rua Iaiá com João Cachoeira. Derrubaram o bar do meu pai. Tapumes cobrem a esquina toda e onde estava o bar há um vazio. O lugar parece sujo. ----------------- Onde está o Extra? Um quarteirão inteiro foi destruído. Não só o Extra como todo o comércio ao redor. Noto então o que aquela região se tornou. ------------------ O comércio do Itaim está destruído. Comprados a preços de desespero, todo o bairro se transforma em imensos prédios de vidro e cimento. Onde antes se viam lojas com suas portas abertas, empregados e donos em trabalho de recepção, agora há fachadas mortas, sem vida, fechadas, anônimas. Carros que passam com pressa e poucas pessoas que andam na calçada. Buracos onde não havia, sujeira onde sempre foi limpo, pessoas indiferentes ao bairro, pois é o comércio que ama a rua, não aquele que vive no décimo oitavo andar. ------------------- Em 1984 eu fui à inauguração do Mappin Itaim, Mappin que depois virou Extra. Esse Mappin era voltado à elite e tudo nele transpirava luxo. Havia um café estilo inglês lá no alto, ao ar livre. Muito dourado, muito espelho, muito tapete macio. O Itaim queria ser Jardins e a certeza de crescimento comercial era absoluta. Quando abriram a Nova Faria Lima a festa foi total. Eis nossa Paulista. ----------------- Ninguém imaginava que a própria Paulista se tornaria India. E que o Itaim seria comprado por duas construtoras. A Faria Lima, a mais morta das avenidas, se fez cemitério com túmulos de trinta andares. O Itaim, o mais risonho dos bairros, nascido familiar e feito para ser vila, hoje é uma ruína composta por comerciantes, os últimos, desesperados, e moradores que mal conhecem a rua onde moram ( e onde não vivem ). -------------------- Saio de lá triste.
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