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GAUGUIN - LAWRENCE E ELISABETH HANSON

Uma vasta biografia de Gauguin em edição de Portugal publicada em 1976. Felizmente eles não romantizam, o pintor francês surge como aquilo que foi, um enigma. Tendo passado cinco anos no Peru, quando criança, Gauguin jamais esqueceu a cor e o calor do país americano. Vaidoso, silencioso, ele foi corretor bem sucedido na Bolsa de Paris e se casou com uma dinamarquesa que jamais o entendeu. Pai de vários filhos, começou a pintar e não parecia ter talento. Larga tudo aos 35 anos e se faz artista como ocupação integral. A partir daí, a vida de Gauguin é uma luta sem fim por dinheiro e por reconhecimento. Dos seus contemporâneros, Monet e Renoir o desprezaram, Degas viu seu valor, Cézanne o detestava. Van Gogh o via como mestre e irmão. Gauguin não era fácil. Orgulhoso, achava que as pessoas deviam o ajudar, se via como nobre, como ser especial. Mas ao mesmo tempo, ele era sincero, fiel à família, sempre otimista, sempre crendo em sua arte e que tudo iria mudar. Tivesse vivido mais 5 anos, apenas 5 anos, teria dado a volta por cima, sua arte passou a ser apreciada quando Matisse e Picasso surgiram para o mundo. Mas ele morreu antes, no Tahiti. ------------------ Quando se fala em Gauguin logo se pensa em ilhas do sul, mas na verdade ele passou relativamente pouco tempo por lá. Gauguin era irriquieto e viveu em Paris, Copenhaguem ( odiou ), na Bretanha, no sul da França, no Tahiti e na Martinica. Ainda trabalhou no canal do Panamá e foi marujo na pós adolescência. Ele procurava a simplicidade, o básico, o real, o primitivo. Dizia que só as crianças e o selvagem entendem a vida. Era um anti intelectual, apesar de culto, um europeu que amava e odiava a Europa e nisso foi um precursor. Gauguin foi um hippie quando ainda ser hippie era um risco de vida, um absurdo, uma loucura. Quando não havia a moda de se cair na estrada, de se romper com a civilização. Ele, em 1880, 1890, inconformou-se com a sociedade, rompeu com a arte de então e viveu de acordo com aquilo que ele era: um buscador. --------------- Todo adolescente inteligente, se conhecer Gauguin irá se identificar com ele. Livre e irriquieto, ele foi e ainda é o sonho de muita gente, mesmo que sua vida tenha sido um pesadelo. Ele não posava de artista rebelde porque esse modelo ainda não existia, foi criado por ele. Mais que Manet ou Courbet, é Paul Gauguin quem cria o persoangem do pintor que se isola e cria arte. Do artista que fez fama após morto, do homem que não se vendeu. É uma figura admirável e dos poucos artistas que podem ser chamados de heroi, no caso, anti heroi.

PRA QUE SERVE A ARTE?

A arte faz a vida valer a pena. Eis tudo. A arte, mesmo quando fala da morte, da dor ou do tédio, faz a vida valer a pena ser vivida. Isso porque o artista se interessa pela morte, pela dor ou pelo tédio, e faz assim com que mesmo isso pareça ter um sentido. Nem que seja o não sentido. Observe bem o que eu disse: o artista se interessa. Essa a diferença da arte verdadeira do engodo artístico. O artista se interessa, se enamora, se atraca com seu tema. Ele o conhece, tanto quanto um apaixonado, ele o investiga, penetra, dorme e sonha com seu tema. Não há nada de blasé aqui. Como na paixão, ele "acontece", não escolhe. Ele é levado, não vai. E assim faz com que algumas pessoas, seu público, sintam que aquilo é interessante, talvez apaixonante, e a vida se revela na obra. ----------------- Quantas pessoas Matisse não guiou para o interesse? Fazendo-as simplesmente olhar e ver a vida. Apaixonar-se pela cor. Janelas, folhas, mulheres, cadeiras, cortinas, peixes, pássaros, tudo lá, mostrados para nossos olhos e assim nos ensinando a ver e ao ver nos fazendo olhar. E ver. Não via símbolo, Matisse não era simbolista, mas sim vendo o que há para se ver, a verdade da presença das coisas. Há muito para ver, duas cadeiras é muito para ver, um peixe no aquário é o bastante. Engolir com os olhos. ------------- Leio o livro da esposa de Picasso, Françoise Gilot, MATISSE E PICASSO, ela recorda os anos que esteve casada com o espanhol feroz e foi amiga do pintor francês discreto. Ela própria foi pintora e viveu até os anos de 1990. O livro, inspirador, nos dá desejos de viver e de fazer coisas. De criar. Como Gauguin, Matisse sabia que havia um paraíso dentro de si, mas ao contrário de Gauguin, ele não discursava em sua obra, ele mostrava a realidade da cor e dos volumes. Quem olhasse que sentisse a presença da vida. ----------------- Quando Gilot conheceu Matisse ele já era um velho que convaslecia de um câncer. Henri ainda viveu 20 anos pós doença, mas era uma vida dentro de casa, com muitas visitas, muito trabalho, e ocasionais viagens em busca do sol. Picasso o admirava intensamente e ao mesmo tempo sentia ciúmes. Picasso era intenso e inseguro, possessivo e expansivo, amedrontador e vulnerável. Não era fácil. Ele procurava briga e Matisse prezava a paz. ------------------ A partir de um certo momento, talvez os anos de 1920, a arte passou a se orgulhar de ser chamada de " perturbadora". Quando alguém, como eu, ousa falar na utilidade da arte, parece que o artista atual se incomoda. Como se utilitarismo fosse um valor burguês. Eles não aceitam que mesmo uma arte que ofende ou perturba tem a utilidade de nos acordar. Ou irritar. Ao odiar uma arte pornográfica eu passo a valorizar a arte refinada e isso é útil. Mas entenda que essa arte "violenta" ou pornô só será real se for feita por "interesse profundo" e não por outro motivo qualquer. Arte feita por convenção ou para vender uma ideia ou um valor é facilmente esquecida. Como um casaco, nos encanta ao ser visto na vitrine, nos alegra ao ser comprado, e logo desaparece dentro do guarda roupa. ------------------ Quando eu tinha 30 anos de idade e descobri Matisse, ele me trouxe uma vitalidade que eu necessitava muito então. Ele me despertou para a alegria do sol, das cores fortes e do poder do olho. Não foi pouca coisa.

SOMOS BARROCOS SEM FÉ

Li dois livros sobre o Barroco, um de Tapies e outro de Bazin. A coisa é bacana e tem a ver com sua vida de hoje, então leia. ------------- A Renascença foi época de valorização da calma, da ordem, da coisa feita com pureza de linhas, limpeza. Apesar dos arroubos de Michelangelo, nada é tão definido assim, a renascença tinha a ambição de ser grega, racional. Então veio a reforma de Lutero bagunçar tudo e a igreja Católica lança a contra-reforma. Ora, protestantes limparam as igrejas de enfeites, de imagens. A relação do fiel com Deus era a mais austera possível. Nada de santos ou anjos. Era sua alma com Ele. A reação do papado foi aumentar a riqueza, impressionar fieis pela imagem, pela assomboza beleza do Divino. É claro que não é tão simples, mas basicamente foi isso. Foi nesse momento que se criou uma divisão de visões de mundo. O norte austero, dando ênfase ao trabalho, ao dever, à limpeza, a ordem. E o sul europeu entregue a inspiração, a riqueza, ao exagero, ao impulso instintivo. O mundo barroco é mundo de super população de imagens, de arabescos, de curvas e ondas, de movimento, principalmente movimento. ---------------- Não é difícil distinguir uma pintura ou uma escultura barroca de uma clássica ou renscentista. A imagem clássica está sempre parada, posando, sem ação. É o momento congelado que define uma obra. Já no barroco tudo é movimento. A escultura está se movendo, a pintura foi pega em meio a uma exaltação. Tudo não está prestes a acontecer, tudo está acontecendo. Por isso nosso mundo, de movimento de incessante, de exageros, de ruído está muito mais afinado com o barroco que com o mundo clássico. Posto duas obras primas do barroco e as duas têm o mesmo efeito. Em meio a tanta beleza seu ego como que se dissolve a voce entra em uma outra realidade. É a procura da epifania e do êxtase. Quanto ao valor da obra, ela nos humilha. A habilidade de fazer coisas assim foi perdida. Não tenho a menor dúvida de que o apogeu do gênio humano já passou. Os últimos 3 séculos são de longa agonia.

AZUL PROFUNDO E A MENTIRA DO MUNDO DA ARTE ( SÓ DA ARTE? )

Uma obra de Yves Klein acaba de ser leiloada por 27 milhões de dólares. É uma tela pintada em belo azul profundo. Voce pode fazer uma igual em casa e talvez a sua fique melhor. ----------------- Meia dúzia de jornalistas semi letrados interpretam a genial mensagem da obra. O que eles falam pode ser aplicado à minha versão feita em casa. No caso fiz em verde para dar um tom ecológico e irlandês. --------------- Faz cem anos que a arte, a literatura, a música, o cinema, a política funciona assim. Amigos ou gente bem paga tece elogios a um certo personagem. Voce fica curioso. Ao conhecer a dita figura voce sente vergonha por não o apreciar. E se convence de que DEVE HAVER ALGO ERRADO EM VOCE E NÃO NA FIGURA FAMOSA. Automaticamente, todos aqueles que desprezam o "gênio" serão taxados de incultos e o clube daqueles que entendm o "gênio" se sentirão uns super extra cool humano. No fundo da sua alma voce sabe que aquilo ou aquele não vale nada, mas querendo fazer parte da "turma legal" voce finge gostar. Finge tanto que até acredita. ------------- Isso funciona para Yves Klein mas também para 90% das figuras da mídia impressa. Seja um cantor, um autor, um político ( há centenas de figuras ridículas que são elogiadas sem jamais terem feito nada ), filósofo ou cineasta. Basta estar no clube e para estar no clube há certas características que são infalíveis. ------------------ Usar palavras que não dizem nada mas que parecem ecoar algo. Ser bastante chato. Atacar família-religião-tradição. Ter uma sexualidade indefinida. Apresentar traços óbvios de psicopatia. Ser de esquerda porém democrático. Ser irônico. Ter origem sofrida. Fazer parte de alguma minoria ( que hoje ditam a realidade social ). E principalmente, ser amigo do editor do jornal ou do cara poderoso da TV. --------------------- Habilidade, originalidade, transcendência pouco importa. Assim como no mundo político hoje não tem valor algum a competência. São considerados valores burgueses. O que tem valor é parecer ser parte do clube. --------------------- É assim que centenas de artistas realmente talentosos são colocados ao canto. Quando não, ridicularizados. Gente que produz excitação, beleza, frisson real, que exibe técnica, refinamento, conhecimento histórico, verdade. Ou seja, gente que vive fora do clube da imprensa, do press release, dos coquetéis, das bienais. Gente do mundo real, e que portanto, não contam. -------------- Não é preciso que eu diga que o clube é composto de otários.

AMBROISE VOLLARD FALA DE SEUS ENCONTROS COM RENOIR

O amigo marchand, talvez o comerciante de arte mais mítico da história, escreve sobre suas conversas com Renoir. Agradáveis, reveladoras, solares. Como todo gênio, Renoir trabalha muito e ama seu trabalho. Para quem pensa que Renoir era um tipo de "amante da vida", uma surpresa: feliz ele foi, mas seu amor era pela pintura e ela tomava 99% do seu coração. Católico, Renoir dizia que os protestantes eram sombrios, enfadonhos, e que só conseguiam fazer coisas uteis. ( Não acho que ele estivesse errado. A alegria sensual em países como Alemanha ou USA é sempre um tipo de afronta ). Renoir, o homem que fez uma revolução, se mostra um conservador. Ele detesta carros, trens, a arte que vem depois dele, odeia a pressa, fábricas, barulho. Cercado de mulheres, principalmente a ex modelo que virou esposa, ele luta contra as visitas que não param de chegar, os compradores, a falta de tempo. Reumático, vemos o artista em sua cadeira de rodas, com os filhos Jean, o grande Jean Renoir, e Claude, que seria fotógrafo de cinema dos grandes. ------------------ Para quem não entende onde a revolução de Renoir: as cores. Eram consideradas erradas, fortes demais, não naturais. O desenho, era chamado de ruim, fraco, sem habilidade. Os temas eram chamados de vulgares. Mas ele logo venceu. Na maior parte de sua vida, quase 80 anos, foi rico. --------------------- Renoir foi o primeiro artista que chamei de favorito. Isso quando eu tinha 15 anos. Os nus voluptuosos conquistaram, óbvio, um adolescente que era meio tarado. As mulheres eram bonitas, alegres, felizes, radiantes. No livro Renoir não esconde o prazer de pintar uma bunda que reflete a luz. Seu horror era a pele opaca, sem brilho, sem cor. Depois eu descobri Gauguin, Matisse, Klee, mas Renoir foi o primeiro. ------------------- Outro fato interessante é pensar em como a pintura foi importante em certa época da história. E não foi por falta de riqueza na literatura ou na música. O impressionismo acontece no tempo de Flaubert, Mallarmée, Rimbaud, Debussy, Ravel, Bizet, isso para falar apenas da França. Entre 1860-1930, durante 70 anos, a pintura foi centro da vida intelectual. De Ingres e Delacroix até Picasso e Braque. Depois, talvez o cinema, as revistas, a popularização das câmeras fotográficas, mataram a pintura como arte central. Os novos pintores tentaram então expressar a alma ou o inconsciente e perderam o público. ------------------ Hoje volto a valorizar Renoir e não só eu. Ele se reabilita como clássico. Como monumento. Quem já viu uma tela de Renoir cara a cara sabe o efeito que ela causa. As cores parecem explodir, o desenho se move, ela nos chama, nos seduz, hipnotiza. E nos faz feliz. Era tudo o que ele queria. E venceu. Arte viva. Sensual, tem cheiro, canta, impressiona.

H.L.MENCKEN FALA O QUE VOCE SENTE MAS TEM VERGONHA DE FALAR

Leio Mencken falando das "artes menores": pintura, escultura, arquitetura, dança, teatro, poesia. Sim, voce leu certo. E ele explica o porque dessa sua opinião. ------ Homens das cavernas desenhavam e pintavam. E o que deixaram, segundo os próprios artistas, é fascinante. Eles também dançavam e faziam algum tipo de batuque com tambores e talvez flautas de osso. Esses homens edificaram casas e totens. E logo criaram cerimônias teatrais-religiosas. Por milhares de anos isso foi tudo. ------------- Claro que todas essas artes evoluíram. Há uma diferença abismal entre Rubens e uma pintura tribal. Mas o que Mencken diz é que a pintura tribal ainda é válida para quem as dá valor. Já a música romana ou mesmo a medieval é rudimentar. Vale apenas como aquilo que é: lembrança primitiva. Mesmo para aqueles que a estudam. Mas não se engane, o motivo principal de Mencken as desprezar tem ligação com o TEMPO de fruição. ----------- Quem fica mais de 5 minutos diante de um quadro está se exibindo. Essa a verdade. As artes plásticas dependem em 100% da vaidade de quem as sustenta. Numa exposição o que vemos são exibicionistas à procura de seus iguais. Tudo lá é um engodo. --------------- O mesmo ocorre com a poesia. Segundo Mencken, não há uma só pessoa alfabetizada que um dia não tenha feito uma poesia passável, principalmente na infância. Assim como não há um pianista de fim de semana que não consiga criar uma pop song, mesmo que sem querer. Mas construir um romance ou uma sinfonia é um trabalho estafante, inervante e abnegado. É para muito poucos. E só ocorre em civilizações que atingem seu apogeu. ------------------ Para Mencken, Prosa e Música são as maiores artes também porque são as que exigem mais do receptor. Para ler um romance ou ouvir Bach é preciso silêncio, tempo e uma certa dose de cultura. Um poema pode ser dito aos berros no metrô e uma pintura requer uma olhada de 30 segundos. Há muito charlatão que posa de pintor ou de poeta, alguns até ganharam o Nobel. Mas um romancista ruim não engana ninguém. Principalmente a ele mesmo. Ele trabalha duro. Trabalha muito. E sabe exatamente onde chegou. ---------------------- Mencken fala também que teatro e cinema mal podem ser chamados de arte. Assim como a ópera mal é música. São produtos feitos para multidões e por isso são sempre vulgares. E é nesse ponto que eu discordo de Mencken. A vulgaridade do cinema e do teatro, se comparados ao romance e à música, se deve ao fato não de serem feitos tendo em vista um grande público, mas principalmente por dependerem da figura do ator. E TODO ator é um pavão. Então, Checov pode ter escrito o mais sincero texto para umas 50 pessoas. Mas em 2021 ele dependerá da boa vontade de um diretor vaidoso e do talento de um ator estrela. Se Beethoven também depende de uma orquestra, no teatro ou no cinema, a obra depende da cara, da voz, da luz, da velocidade de uma produção feita, normmalmente, por centenas de pessoas sem nenhum talento. Ter podido existir arte no cinema, não vou citar nomes, é quase um milagre. O teatro é bem mais vulnerável. Um grande filme está preservado. Ibsen terá de ser salvo toda noite. Acabará por ser morto em palcos da Praça Roosevelt. ------------- Eu adoro Mencken. E apesar de amar Klee ou Kandisnki, sim, eles não podem ser comparados a Tolstoi ou Henry James.

O CORPO DA LIBERDADE - JORGE COLI

   A editora Cosac não existe mais, compro este volume em sebo, belo sebo rico. Coli, em linguagem limpa, fala de um período da arte que é pouco lembrado por aqueles que só pensam em renascença e impressionismo, o tempo do final do classicismo até Manet, este, o primeiro impressionista. Ingres, David e Delacroix são os mais citados. Mas o melhor texto, o livro é feito de textos separados, ensaios, é sobre Manet, Edouard Manet, este, claro, conhecido por todos. Aliás Manet é mais um que foge ao chavão de que todo gênio deve ser infeliz. Ele era um piadista feliz, simpático, sorridente, de palavras gentis.
  Jorge Coli tenta mostrar, num texto final, o nascimento do espírito modernista. Quase me convence. Não sei se ele está certo, mas é sedutor. Para ser moderno seria preciso ser livre, e para ser livre é preciso produzir algo de completamente inédito, mesmo que isso seja merda. A mídia dará destaque, o sucesso virá apenas para o transgressor, não para o talento. Hummm....talvez...não sei...eu perguntaria que tipo de sucesso seria esse.
  De qualquer modo, valeu!

LEONARDO DA VINCI - WALTER ISAACSON

   Isaacson é autor de uma muito vendida bio de S. Jobs. Ele diz, logo no início, que tudo o que guardamos na net será perdido em no máximo 50 anos, mas que o que Da Vinci escreveu, milhares e milhares de páginas não publicadas, permanecem conosco 500 anos depois de sua morte. Leonardo escrevia muito, cadernos enormes onde vemos desenhos de cadáveres ao lado de fórmulas para evitar enchentes, flores ao lado de esquemas solares, rascunhos de pinturas com modelos de armas. Leonardo amava o mundo e sua curiosidade não tinha um limite. Se ele via o azul do céu, ele queria saber porque ele é azul, se via uma bolha de sabão, queria entender porque ela é redonda. Nesse desejo de saber, ele antecipou muito, publicou nada e deixou algumas pinturas geniais.
  Leonardo nunca organizou nada para publicar. O seu prazer era descobrir, saber, entender e planejar. Os cadernos, um deles é hoje de Bill Gates, são uma mistura caótica de tinta e giz. E são lindos de se ver. Canhoto, ele escrevia de trás pra frente, era mais fácil e evitava que a mão sujasse a escrita. Gay, andava pelos palácios com roupas rosa, roxas e escarlate. Não foi um artista sofrido, foi feliz. Respeitado pelos nobres italianos e pelo rei da França, era vegetariano, amigo de Maquiavel, vaidoso e inquieto.
  O livro se foca em analisar suas obras. Não só as pinturas, mas a engenharia, a medicina, a arquitetura, a astronomia, a química. Ele não acreditava em magia e nem em astrologia, e o livro derruba mitos populares sobre o gênio. Inclusive sobre a palavra gênio. Da Vinci foi um gênio, e o gênio é alguém que une arte com ciência, matemática com teatro. E que nunca desiste de tentar aprender, saber, descobrir. O gênio cria e imagina e aprende. Faz e no fazer existe todo seu prazer. Leonardo escrevia e criava para si mesmo. Sua vida é a vida de um aluno genial.
  O tempo de Leonardo, a Itália de 1450-1519, é tempo de luta, de guerra, de traição, mas é também o tempo de arquitetura, ciência e filosofia. Da Vinci foi o centro-vórtice desse mundo. Mais que Michelangelo, seu rival e oposto em tudo, é ele quem conjuga tudo o que seu tempo teve de melhor. E nada do pior.
  Vivia cercado por discípulos, amigos, amantes, odiava a solidão, amava falar, trocar informações, não tinha vergonha de perguntar. A vida é pouco dramática e por isso a opção pela biografia das obras. É um belo livro.

GUSTAV KLIMT, AQUELE MUNDO QUE PERDEMOS.

   Viena não foi o mundo. Não era o mundo. Não é o mundo. Viena era um mundo de burgueses muito ricos que amavam a Kultura. Um grupo de judeus que lutava para ser e ter o melhor da Europa. Viena era católica. E tinha o rigor dos luteranos. Era sensual. E hipócrita. Bonita e dourada. Acima de tudo, Viena era Wittgeinstein, Mahler, Freud e Klimt. Essa cidade não irá ser repetida. Morreu em 1914.
  Klimt pintava mulheres. Porque as mulheres são Tudo. A coisa era religiosa: a Arte era aquilo que iria salvar o homem. Era a única coisa real que nos poderia reencontrar o inefável. E a mulher era o símbolo da beleza. E do mal. Ele cria a Mulher Fatal. A mulher como manipuladora de homens. O convite à morte. E a porta para a Vida. Toda arte é erótica - esse o lema de Klimt.
  Seus quadros são montanhas de símbolos. Ouro e sexo. Deuses e morte. Mas sempre a afirmação da vida. Klimt ama seu jardim. Com o tempo será chamado de "decorativo", superficial, secundário. Hoje é central. O tempo é seu amigo.
  Em seu tempo foi famoso. E ficou rico. Fazia duas estradas: retratos para os ricos judeus, pinturas provocantes e escandalosas para as galerias. Mas não pense que os retratos eram simples comércio: são geniais. Klimt pintou alguns dos quadros mais eróticos do mundo. E as mulheres mais belas de seu tempo ( inclusive a irmã de Wittgeinstein ).
  Dânae é a mulher mais linda já pintada. Digna de Zeus.
  Dúbio e misterioso o mundo que deu vida à Klimt.
  Sorte ainda termos seus quadros.
  ( Escrito após a leitura de um dos livros da Taschen sobre o artista. )

Helen Mirren on Vasily Kandinsky



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Matemáticas Kandinsky - Video birografia.m4v



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DO ESPIRITUAL NA ARTE - KANDINSKY

   Abstração. Para Kandinsky ela acontece quando um pintor copia uma floresta, um rosto ou uma cena no mar. Pois a realidade é abstraída da pintura e ela finge ser uma floresta, um rosto ou uma cena no mar.
  Concreta. A pintura de Kandinsky não deveria, segundo ele, ser chamada de abstrata. Pois ela nada abstrai, ela é concretamente aquilo que ela é: cor e forma.
  Mas se um pintor tira de uma paisagem seu motivo para pintar, de onde vem o motivo da nova pintura? Segundo Wassily Kandisnky, da alma. Uma pintura concreta reflete a alma de quem a pinta, isso se ela for pintada com verdade e entrega absoluta.
  Kandinsky criou sozinho aquilo que conhecemos como pintura abstrata. Mais radical que Picasso ou Matisse, ele deu a pintura sua liberdade: uma tela é feita de cor e de forma, nada mais que isso. A cor canta uma emoção, a forma dita um ritmo. Diante de seus quadros vemos a verdade.
  Este livro foi escrito por Kandinsky em 1912. Nele ele explica e defende sua arte. E elogia a música. Para ele, toda arte quer ser música. Porque a música é a mais espiritual de todas as artes. Inexplicável e etérea. Ela nada copia da natureza, ela é pura alma. A pintura que ele faz, ao não copiar nada da natureza, se aproxima da linguagem musical por meio de cor e forma. Suas telas cantam.
  Kandinsky é para mim o maior artista plástico do século XX. E penso que só Paul Klee chega perto dele. O russo pintou a música da alma, e o suíço o sonho do espírito.

ESTUDOS SOBRE ARTE- GOETHE

   Não preciso falar do estilo de Goethe, é sempre prazeroso e admirável; mas preciso contar que este livro é árduo. Ler sobre as opiniões de Goethe sobre arquitetura e pintura, escultura e estética, é em seu melhor entender que mesmo uma mente titânica como a do alemão, erra e erra muito; e por outro lado observar que todos somos vítimas de nosso tempo; por maior que seja nosso espírito ele se molda a sua época.
  Goethe começa elogiando a correção dos gregos, depois elogia o exagero gótico e por fim retorna a clareza dos antigos. Beleza para ele é equilíbrio, perfeição é exatidão e nobreza vem do saber fazer. Talvez seja isso mesmo, mas as ideias se repetem a exaustão. E depois ele se contradiz, conscientemente, ao elogiar o caráter alemão gótico.
  Certo é que ele mantém sempre seus olhos em Atenas e isso evita sua confusão.
  Nada prazeroso, este é um livro que, vergonha minha, já joguei fora.

MICHELANGELO by MARTIN GAYFORD

   Essa biografia de Michelangelo, lançada recentemente pela Cosac, tem um problema terrível! Ela nos causa uma horrível obsessão. Portanto, fujam dela! Como café, a beleza ou o banho frio, ela vicia. E muito!
   Eu não consigo parar de ler. Estou na metade e tenho de fazer força para lembrar de outras atividades. Escrevo isto na esperança de me libertar. ( Mas já sinto saudades do livro...)
  A escrita de Gayford é leve, agradável, e consegue ao mesmo tempo nunca parecer fútil ou superficial. Ele não doura, mas também seduz. Dá a justa medida do biografado. Não cai em erros que vemos em tantas bios: a de endeusar o homem o transformando num tipo de profeta inefável. ( Freud por Peter Gay é o exemplo pior. ) Michelangelo criou arte genial, mas nem sempre. Era um homem insuportável, mas nem tanto.
  Grosseiro, agressivo, pão duro, cheio de culpa. E ao mesmo tempo arrogante, vulnerável e generoso. Gayford não faz dele um mártir. Nunca. Faz dele um cara como eu e como você. Apenas com uma diferença, ele tinha um talento que ninguém nunca mais teve. E a teimosia de lutar para o expressar.
  Viveu muito. Numa época em que mesmo os ricos morriam aos 40 anos, ele viveu 90. E produziu até o fim. Nascido em família empobrecida, se via como um nobre caído ( não era ). Seu talento precoce o levou ao convívio com os poderosos. E lá virou uma celebridade.
  Firenze e Roma. O que mais seduz e vicia é o elenco do livro. Além de Michelangelo temos os Medici, vários Papas, Maquiavel, Bramante, Botticelli, Pico dela Mirandola, Ficino, e seu rival, Leonardo. Mais ainda: os Borgia, Rafael, Lippi, Julio...Foi o explendor máximo da alma humana, a hora da virada, da mudança, da descoberta, da confiança plena. ( Segundo Yeats o mundo vira a cada 500 anos. 1500 foi o mais recente auge. 2000 o ponto baixo. 2500 o próximo auge. )
  Um fato é que deverei mudar meu conceito sobre Beethoven. Foi Michelangelo o primeiro artista a não se submeter. Se Beethoven foi o primeiro a trabalhar para si mesmo, fazer só o que queria fazer, Michelangelo, apesar de trabalhar sob encomenda, fazia o acordado como queria e quando queria. Se quisesse.
  Em vida foi o homem mais famoso do mundo. E depois de morto nunca teve um só momento de ostracismo. Nossa cultura sempre foi, e até a invasão do Islã, sempre será guiada por sua concepção do que deve ser o corpo humano perfeito. Ele inventou aquilo que entendemos como "belo talhe". E mais ainda, deu aparência física a nossa ideia de heroísmo e de santidade. Criou sozinho os sonhos que nos encantam até hoje.
  Este livro é obrigatório. Se você quer diversão ele tem. História ele tem. E arte, muita arte.

Pablo Picasso HD Interview with The Father of Modern Art



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PRA PABLO

   "Tudo aquilo que conseguimos imaginar é real".
   Pablo é o antídoto para Schoppenhauer, para o pessimismo. Ele é vital.
   Pablo é solar. Ele vivia ao sol, torso nú, criando. Pegava pedra e fazia bicho. Pegava lixo e criava sonho. Mas tudo em Pablo é real. Nada nele parece etéreo. A criação mais absurda é de verdade. Tem peso. Pablo ama o peso, a solidez, a dureza do toque.
   Seu sexo é aquele do fauno. Meio deus e meio besta. Deitado ao sol, pelado, ele exala desejo. Ama a carne. O cheiro. É um touro.
   Nenhum artista é mais carnal que Pablo. E nenhum outro mergulhou mais fundo no onírico explícito. Ele viu que o sonho está no aparente. Aquilo que vemos é surreal. Ele pescava absurdos no comum.
   Pablo era também cruel, duro, egoísta, vaidoso, isolado e sedento de elogios. Vingativo. Ele era ruim. Maldoso como todo criador é. Criar é um ato de vingança contra o comum, o ordinário, o tédio, o banal. O objetivo pode ser bom, mas a energia é aquela do mal.
  Ninguém viveu tanto como Pablo.

FIRENZE E ROMA

   Tenho uma amiga que está cruzando a Itália. Ele me envia fotos de Roma e de Firenze. Nunca estive na Itália e olho as fotos.
   Ela sabe fotografar. E sabe escolher seus alvos. Olho as fotos de noite, dentro da escola onde trabalho, numa pausa. Há uma colega ao meu lado em outro computador. São nove horas da noite e faz calor. O ventilador está ligado.
   Uma sequência de fotos: túmulos. Dante. Machiavelli. Petrarca. Galileo. Michelangelo. ...alguma coisa acontece aqui.
   Desce sobre mim. Os pelos de meus braços se erguem. O calor me meu rosto aumenta. Fico vermelho. Uma onda de frio varre o lugar onde estou sentado. Meus olhos se arregalam. Meu coração NÃO dispara. Estou calmo. E ao mesmo tempo emocionado. Uma emoção que não acelera. Abraça. Tento me controlar mas logo desisto. A sensação é deliciosa. Sou tomado. A visão do mármore que envolve Michelangelo me dá um desmaio que não me apaga, antes me ergue.
  Continuo vendo as fotos nesse estado do sublime enlevo. Firenze se mostra e se abre para mim. Ela é fatal. Um pensamento: eu morreria em Firenze. E seria a mais bela morte. Pois eu renasceria em Firenze.
  Palavras a partir daqui não mais podem ser ditas.
  ...
 

DUCHAMP- CALVIN TOMKINS....O ARTISTA NÃO É DONO DAQUILO QUE FAZ.

   Como posso escrever um texto sobre um artista que desgostava de textos! Além do mais, um homem que não fazia discursos e que lutou a vida toda para ser anônimo! É muito duro escrever sobre ele sem o trair. Como transmitir a quem não leu o livro, brilhante, aquilo que Duchamp foi. É.
  Talvez eu deva começar falando de Picasso. Picasso foi o gênio. Picasso era a personalidade gigante. O Homão. O arrogante. O super macho. O artista que tem a potência.
  Talvez eu deva falar de Matisse. O trabalhador genial. O artista que labuta e produz sem parar. Eu também posso falar do sofrido van Gogh, do anti-social Gauguin, do sábio Chagall. Pois bem, Duchamp rompe com todos eles. TODOS eles.
  Porque Duchamp não tolera egos imensos. Não suporta trabalho sem fim. Ele não gosta de esforço. Ele nunca sofre. Não rompe com a sociedade. E jamais tenta ser sábio. Ele não dá conselhos. Jamais tentou criar escola, filosofia ou moda. Não fugiu do mundo e não seguiu ninguém.
  Então agora podemos começar a dizer o que ele foi. Quieto. Frio. Distante. Em paz. Calmo. Preguiçoso. Sem ambição. Solitário. Cheio de casos de amor. facilidade para fazer amigos, simpático. Otimista. Calado. Bonito. Modesto. Feliz.
  Vamos adiante. Ao contrário de Picasso, ele diz que o artista não faz nada. Tudo o que ele faz é feito inconscientemente. O artista tem uma intenção, mas durante o processo acontece o acaso, e é esse acaso que dá vida à obra. Arte é a união do artista, de quem vê a obra e do ato sem intenção. Nenhum artista é senhor de sua arte.
  Palavras não explicam a arte. Como também não explicam sentimentos. E a arte é como um sentimento. Todos os têm. Cada um a seu modo. Tudo o que o homem faz é arte. No contato com o povo é que essa arte se torna completa. Sua capacidade de dialogar com as pessoas faz dela uma obra para durar ou não. O artista é apenas um instrumento da arte.
  O trabalho do artista não é criar, é pegar as coisas e ver o que elas querem ser. Os materiais escolhem com o artista. O artista, calmamente, tenta ouvir o que a vida e as coisas dizem.
  Quando nada de novo há para ser dito se deve calar. A arte manda. O artista espera.
  O sofrimento não faz de um artista melhor ou pior. O sofrimento, a vida do artista, nada tem a ver com sua arte. Ele produz apesar da dor, e não com a dor. Herói-artista. Isso não existe.
  A arte falhou. Ela tentou criar um mundo. Esse mundo é da ciência. Ela venceu. Não há arte que possa rivalizar com uma viagem ao espaço.
  Esse é Duchamp. Mas ele é mais que isso. E menos.
  Nasceu numa família de classe média. Se dava com os irmãos e com o pai. Os irmãos, os dois, viraram artistas. Famosos. A mãe era muda. Dura e distante. O pai era caloroso. Dono do cartório da cidade.
  Nada há de dramático na vida de Duchamp. Estudou em Paris. Pintava. Amigo de Picabia. De Roché ( o autor de Jules e Jim ). Namorava. Duchamp nunca perseguiu mulheres, elas o encontravam. Nunca quis a fama, ela veio. Saiu de Paris porque odiava os egos, as fofocas, o mundinho...e foi o primeiro europeu modernista a ir para New York. Ele intuiu que o futuro estava lá. Amou a cidade e ao fim da vida virou americano. Duchamp trouxe sozinho o modernismo para a América. Em 1912. Se tornou famoso primeiro em NY, e muito depois na Europa. Deu a faísca que acendeu a arte de Pollock ( que com sua pose de herói sofrido, logo esqueceu Duchamp ). Seus herdeiros são os Pop Art, o minimalismo, a arte americana feita a partir de 1960. Uma arte sem discurso, sem a figura do gênio sofrido, sem heróis.
  John Cage, Motherwell, Merce Cunningham...a arte do acaso. O Zen.
  Duchamp nunca falou sobre o zen. Mas ele era Zen. Sem o saber. Amante do silêncio, do estar só. Viajava sem bagagem. Vivia só com o necessário. Pouca ambição. Sabia usar o tempo. Tinha paciência. E jogava xadrez. Muito e bem. Venceu campeonatos.
  O que era a arte para Duchamp afinal... ele nunca fala de religião. Diz que a arte é uma fé. E que a vida é uma fé. Quando você diz que sabe alguma coisa você tem fé em saber aquilo. Quando você faz você tem fé em que vai fazer. Tudo é uma fé.
  Isso é o mais perto que ele chegou de falar de sua filosofia. Viver é ter fé. Deus ou o ateísmo não lhe interessam. São discursos e discursos são falsos. Dizer que Deus existe ou que não existe é ficar rodando em círculos de palavras. Não importa.
  Duchamp era magro. Entretia a todos e não havia quem não gostasse dele. Poderia ter ficado milionário se aceitasse o jogo do espetáculo. Mas escolheu, e isso ele disse, ser dono de seu tempo. Dizia que o tempo era o maior investimento que um homem podia fazer.
  Bem...nunca li sobre um artista que me parecesse tão simpático. Isento de pretensão, cheio de bom humor. Suas obras eram ironias, piadas, trocadilhos, surpresas. Ele deu voz a milhares de charlatões. Mas não teve culpa. Se vários pequenos Duchamp foram uma farsa, ele nunca foi. Produziu muito pouco porque foi honesto consigo mesmo. E quando nada tinha a dizer ia jogar xadrez, ficava anos sem fazer nada, como ele dizia: Respirava.
  O autor do livro, Calvin Tomkins, é o mesmo de VIVER BEM É A MELHOR VINGANÇA. O delicioso livro sobre os Murphy nos anos 20. Este é tão delicioso quanto.
  Man Ray foi outro grande amigo de Duchamp. E entre seus amores, um dos maiores foi a esposa de um embaixador do Brasil: Maria Martins. Duchamp viveu um caso forte com ela, que era escultora, festeira e muito chique. Ela daria uma ótima biografia!
  Aos 62 anos Duchamp se casou oficialmente pela primeira vez. E foi feliz. Morreu em 1968, velho e famoso.
  Acho que ele mudou, agora, minha forma de ver todas as artes.
  Enfim...
   O mundo de 2015 ainda está atrás de Marcel Duchamp. E eu também.
  Faz muito tempo que leio e vejo arte. E comecei como todo mundo começa, pelo mais simples. Renoir. Monet. Manet e Degas. Coloridos, bonitos de forma hoje convencional. O mundo alcançou o impressionismo em 1920. Todo o mundo. E esse mundo, todo, alcançou esse impressionismo e ficou estacionado aí.
  Depois eu cheguei em Gauguin. Chagall. E Matisse. O mundo todo nunca chegou aí. Ainda. Mas o mundo do tal "bom gosto" chegou à eles por volta de 1930. Há algo de disforme neles. E isso começa a incomodar.
  Só depois dos 30 anos comecei a me encantar por Kandinski e Klee, por Picasso e Braque. De certo modo me encantei pelo motivo errado. Pela liberdade de sentir. Errado. A coisa é mais profunda. Agora, com Duchamp, eu entendo.
  A pintura sempre foi feita para a retina. E aqui estou falando aquilo que Duchamp diz. A tela fala à retina e apenas à retina. A retina apreende as duas dimensões da pintura e transforma essa imagem em informação que vira sensação ou sentimento. No pior dos casos vira narração. Pois bem, a arte moderna deve falar não à retina, mas sim ao homem inteiro. Olhamos e criamos sobre aquilo que é dado. O que vejo não é o que você vê. Eu vejo com meu todo, e vejo o que apenas eu posso ver.
  A arte moderna, ora vejam, é a busca pela quarta dimensão, a dimensão daquilo que não se vê. Daquilo que nossa razão desconhece. Não aquilo que a retina pega, e sim aquilo que a intuição intui. O mundo de 2015 está longe disso.
  Ainda.