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COMO VENCER UM DEBATE SEM PRECISAR TER RAZÃO ( DIALÉTICA ERÍSTICA ) - ARTHUR SCHOPENHAUER
Schopenhauer tentou terminar este livro, tentou mas não conseguiu. A obra fora planejada como um ataque à Hegel, porém Hegel morreu e Schopenhauer perdeu sua motivação. Reencontrado, inacabado, foi lançado mesmo incompleto. Esta edição, de 1997, tem valiosos cometários e explicações de Olavo de Carvalho. O que impressiona? A atualidade terrível do texto. Vivemos em um momento histórico que despreza a verdade e valoriza a opinião. O que Schopenhauer ensina aqui, o modo de derrotar um oponente em um debate, usando para isso qualquer meio ilícito, é exibido sem pudor em nossos jornais, nas falas de pessoas famosas e até no nosso Supremo. Que armas são essas? A mais nociva é a tática de dar rótulos. Crie um rótulo para seu adversário, um rótulo que seja unanimimente detestado, cole esse rótulo no oponente e vença. A partir desse rótulo, tudo o que ele falar não será escutado. Isolado e estgmatizado, o povo, que como massa sempre segue a opinião geral, fechará toda possibilidade de diálogo. ------------------- Mas há mais, são 38 armas que Schopenhauer nos dá. Falar muito e não dizer nada, usar palavras dificeis que nada significam, atacar um pormenor que desvia a atenção do assunto principal, olhar o adversário com arrogancia, atacar o pessoal e o privado, destacar uma palavra qualquer e a dissecar como se ela significasse muito, fingir saber de um segredo, gesticular muito para que todos os olhos se fixem em voce e esqueçam o assunto tratado, gritar com indignação etc etc etc... ----------------------- Mas o melhor do livro são os comentários de Olavo. Possuidor de uma erudição que beira o fantástico, citando e dando fontes, citações que vão de Aristóteles à Husserl, Olavo nos ensina como perceber a verdade. ------------------ Do verdadeiro curso de dialética dado neste livro, destaco dois detalhes que demonstram a delicia de o ler ( atenção, Olavo jamais escreve fácil, é preciso esforço ), 1- Na modernidade o grande erro é que deixou-se de procurar a perfeição da alma e se passou a buscar a perfeição do estado. Problema insolúvel pois jamais haverá uma comunidade perfeita sem almas perfeitas. Mais ainda, a perfeição não pode nascer em vidas que são imperfeitas. A procura do estado perfeito é uma farsa, um modo perverso de anular a busca da perfeição da alma, individual. A ideologia substituiu Deus. 2- Se confunde a razão com a utilidade. Filósofos modernos acreditam que a razão é a capacidade de pensar e fazer coisas uteis, quando na verdade a razão nada mais é que a capacidade de se pensar e se analisar a si mesmo. Então se cria a ideia de estado racional, iluminista, que seria um lugar onde todos seriam uteis e bem ajustados. Na verdade não pode haver um estado racional porque o ser humano é racional e emocional, psicológico e abstrato. A mentira do estado regido pela razão é mais uma mentira que visa a dominação da individualidade. ------------------------- Como adendo, devo dizer que Olavo faz um retrato devastador de Wittgenstein. Ele praticamente o chama de idiota. A famosa frase do austríaco, a que afirma que não se deve falar sobre religião, arte, é vista por Olavo, como um típico pensamento de criança, pois são crianças que falam: se eu não consigo falar então ninguém deveria falar. A obra de Wittgenstein é vista como uma explicação incompleta de teorias futeis. ------------------- Me convenceu? Por que não? Eu passei anos sendo convencido, por causa de um rótulo colado nele, que Olavo de Carvalho era um feroz velhote que babava. Observe, seus críticos nunca comentavam ou debatiam suas ideias , apenas o atacavam como pessoa, como direitista perigoso que não deveria ser lido. E eu, bobo, o evitava sem saber porque. Então, um dia, o escutei num podcast e levei um choque! Ele transpira bondade e tem uma cultura que é rara no Brasil. É um católico racional. Quanto a Wittgenstein...gosto do que ele se propôs a fazer, mas concordo que seus resultados são pífios. Wittgenstein foi aquilo que Husserl falou dele: um místico que se envolveu e foi enredado pela matemática e pela lógica. Acabou sendo um lógico maluco e um místico calado. Como diz Olavo, nenhum místico é mudo. De Jesus à Buda, de Maomé à Lutero, todos falaram e explicaram. É isso.
SCRUTON - CONSERVADORISMO
Lançado em 2015, nesta obra Roger Scruton traça um panorama histórico, breve, do conservadorismo. Nascendo ao lado da Revolução Francesa, com Burke, o movimento conservador foi sendo modificado em seus quase três séculos de história. No início ele era inimigo dos liberais e depois, com o nascimento dos socialistas, se torna o contrário dos partidários da igualdade. Além de Burke, Scruton nos apresenta Schopenhauer, Hegel, Monstesquieu, Tocqueville, Chesterton, Lewis, Kirk, Von Mises, Rand, Leavitt, Eliot, Arnold, Orwell, toda a evolução e adaptação histórica dos conservadores. Alguns fatos me saltaram ao coração. ----------------- Liberdade, Igualdade, Fraternidade. O lema da revolução francesa é pulverizado pelo conservadorismo. A igualdade sempre leva à opressão. Como? Para atingir a igualdade, condição artificial ao ser humano, condição não natural, é preciso a vigilância do estado. As diferenças têm de ser suprimidas. É preciso que o mérito individual desapareça. A propriedade privada deve ser abolida. O ser mais inteligente precisa ser "domesticado". O rebelde, o original, o desobediente não pode existir. Pelo fato de cada ser humano ser único, a igualdade precisa sufocar a alma dos seres. Quanto à fraternidade, ela nasce naturalmente em associações livres ( igrejas, clubes, bares, vizinhos, pequenas cidades ), não pode ser ideologia de estado. slogan. Já a liberdade é um fim e não um meio. A liberdade real nasce dentro da comunidade e nunca é imposta de fora. ------------- É essa a raiz do conservadorismo, o respeito por aquilo que as pessoas comuns fazem, vivem, querem. Scruton expõe duas observações de Chateaubriand: A constituição americana, escrita por apenas 4 intelectuais, não foi jamais um projeto para o futuro. Ela foi escrita como uma compilação, simples, daquilo que o povo americano já era. Os intelectuais olharam o que a nação era e escreveram a carta magna para esse povo. Nada lá visava modificar as pessoas, a constituição as respeita e por isso o americano sempre se sentiu responsável pelo estado e pela nação. --------------- A constituição da revolução francesa ( como a da URSS ) visava construir uma nação do zero. Tudo deveria começar do nada, o passado abolido e o povo moldado nessa nova vida. Era lógico que ela não poderia durar. Ou estar eternamente sob reforma. Entenda, se os americanos de 1776 amavam sua comunidade, sua família, se amavam Deus, se queriam liberdade de culto, se queriam ficar ricos, se queriam ter armas, a constituição garantiria isso. E garantiu. Já nas revoluções pouco importa aquilo que o povo é. Os intelectuais tomam a voz do povo e ditam o que o povo deverá ser. Minha questão é: a constituição do Brasil foi feita por quem? Ela respeitou o amor do brasileiro de 1989 por sua família, sua igreja? Ela deu ao brasileiro a certeza de ser dono do documento maior, de pertencer à uma comunidade, de se sentir responsável pela lei? --------------------- Para um brasileiro causa dor saber que a divisão de poderes, criada nos EUA, legislativo, executivo e judiciário, teve por objetivo a vigilância de cada casa sobre a outra, e que o judiciário TERIA A FUNÇÃO QUE ANTES ERA DA ARISTOCRACIA, servir como exemplo moral, exibir honra, frieza, imparcialidade e retidão moral. Por isso vemos em tantos filmes americanos o juiz do supremo como uma espécie de rei benevolente e justo. Weeeeelllll........ ---------------------- Ao final do livro, Scruton fala da péssima condição dos conservadores em 2015. Impedidos de lecionar, impedidos de falar na imprensa, ridicularizados pela esquerda. ----------------- Um aluno meu, na sexta feira, foi à escola de jeans. Aquele jeans largo, típico dos skatistas de 1995. Além disso vestiu uma camisa branca, sem desenhho nenhum. E uma bota estilo montanhista. Claro que ele me imitava. Pois bem, ele reclamou comigo que os colegas, todos, ficaram todo o tempo zombando dele. Por que? Ele fugira do modelo "calça justa preta ou cinza e blusa preta ou cinza e tênis ou chinelo". Todos iguais. Como digo sempre, voce pode usar 38 tatuagens, e 22 piercings, pintar o cabelo de azul, mas não pode usar ou fazer nada que fuja do modelo "diverso". Há uma incrível e entediante falta de marca pessoal, de caráter único nas ruas, no esporte, nos novos atores, músicos, políticos. Todos moldados em 3 ou 4 moldes fixos. Permitidos. Cabe aos conservadores serem os chatos que estragam essa festinha cínica e fazer o mundo ver o que importa: voce é único. As coisas que importam são as que permanecem. Tudo que vem do estado é sempre suspeito. Comunidades nascem nas famílias. Não há civilização sem religião. E por fim, tudo que voce ama deve ser defendido contra sua decadência.
A VIENA DE WITTGENSTEIN - ALLAN JANIK E STEPHEN TOLMIN
Quando eu li Wittgenstein me deparei, claro, com a famosa frase final de seu primeiro livro, ela diz que "sobre aquilo que a língua não comporta devemos calar". Sempre temi que meu entendimento sobre essa frase fosse errada. Para mim ela significa que o que realmente importa é aquilo que a língua não consegue dizer. Coisas como o sentido da vida, Deus, arte e sentimentos. Descubro então, agora, que Wittgenstein queria dizer exatamente aquilo que eu entendi. Sua obra é ÉTICA, a linguística entra como um modo científico de chegar ao misticismo ético. -------------- Os positivistas austríacos, na época de Wittgenstein, fizeram com que a mensagem fosse entendida em modo contrário. Espalharam que o filósofo austríaco queria enterrar tudo que não fosse percebido pelos sentidos, a frase deveria ser entendida como "aquilo que a língua não diz deve ser jogado no lixo". ------------------------ Este volume que tenho em mãos, sobre a Viena de 1880-1920 é retrato não só do filósofo como de toda uma época. Ele mergulha no mundo cultural que formou o filósofo. Vai de Karl Kraus e Mauthner à Schonberg, Rilke e Loos. Ou seja, fala de jornalismo, música, poesia e arquitetura, chegando então ao jovem filósofo, nascido numa mansão onde havia muita arte, muitas visitas, muita estética e pouca liberdade. De Kraus, um agitador cultural que editava um jornal satírico, Wittgenstein absorveu a desconfiança àquilo que a imprensa divulga. Kraus mostrava como uma frase dita em um jornal, mesmo que absurda ou mentirosa, pode moldar toda a mente de uma nação. Foi com Kraus que ele aprendeu que o grande mal feito à língua é a transformação de adjetivos em substantivos. Adjetivos como belo, justo ou democrático se tornam vazios quando transformados em coisas: o belo, a justiça ou a democracia, palavras que nada significam, pois o significado está em dizer: o edifício belo, o ato justo ou o livre pensar democrático. ---------------- Loos, o primeiro arquiteto modernista, ensinava que tudo deve ser feito em função daquilo que o homem pede. Uma cadeira é feita para o modo como um homem se senta e não deve nunca obrigar um homem a se adaptar à ela. Para isso todo artifício deve ser varrido. ----------------- Quanto a Austria, causa espanto quando ele nos diz que jamais houve reino tão artificial. O estado dos Habsburgos, que comportava Austria, Tchecos, Eslováquia, Hungria e Eslovenia durou séculos e era tão duro, tão congelado em 1840, que na virada do século XX ainda não havia telefone, trens ou luz elétrica!!!!!! O rei, Francisco José, desejava a não-mudança, queria que o mundo do conto de fadas, da valsa, jamais se fosse e para isso proibia todo progresso. Pois foi dentro desse mundo paralisado que surgiram Freud, Klimt e Mahler. Quando em 1914, na Primeira Guerra, o reino entra em colapso, não à toa, após tanta repressão, explode em Viena e Praga o modernismo. Kafka e Schonberg. --------------- Coube à Wittgenstein exibir o artificialismo da língua, em como ela funciona dentro de um limite restrito, em regras fixas, e em como palavras que são usadas sem serem pensadas nada passam a significar, nada comunicam, nada dizem, e em como é terrivelmente destrutivo quando uma nação é adormecida por discursos feitos para enganar e distrair. Wittgenstein nos diz que é a música e a poesia que dizem a verdade e o real. Como não o admirar?
RELIGIÃO SEM DEUS - RONALD DWORKIN
Dworkin foi um famoso juiz de direito americano. Este livro, lançado em 2013, pouco antes de sua morte, tem uma imensa ambição, mostrar que ateus, que não acreditam em Deus, podem ser, e a maioria é, religioso. Para conseguir demonstrar isso, Dworkin vai de Leibniz à teoria quântica, de Einstein à Russel, da Constituição americana aos mais extremos pensamentos da física atual. Dworkin não fala por falar, ele conhece ciência, filosofia e direito, história e religião. Neste livro ele não advoga nada, embora não se furte de demonstar a tolice de certas ideia bíblicas. Por outro lado ele exibe para nossos olhos o modo como a ciência se torna uma questão de fé e como a religião tem seu fundo científico. Como assim? -------------------- Ciência é indagar sobre os porques das coisas, é tentar explicar a realidade. A religião se torna ciência quando tenta explicar o que é a vida, de onde veio e qual seu sentido. Não importa se as respostas são falhas, a pergunta foi feita. Do mesmo modo, a ciência se torna fé quando deixa de perguntar e apenas encerra a questão. Ao se recusar a propor perguntas como " O que havia antes do Big Bang?", ou " O que há além do infinito?", a ciência se faz simples questão de fé. ----------------------- A atitude religiosa é aquela que vê sentido na vida e que se maravilha com o Cosmos e a natureza. Isso é básico em toda religião, mas existem ateus que têm certeza de que a vida tem um porque e se maravilham com o universo. São ateus porque não acreditam em um Deus que tenha criado a vida, mas sua atitude é a do religioso, sentem a sagrada verdade do mundo. Sem Deus, mas com beleza, sentido, verdade. O ateu sem religião fala que o universo é um acidente, a vida não faz sentido e a beleza é ilusória. ------------------ Um interessante livro de um homem interessante.
ONDE ESTÃO AS PESSOAS ORIGINAIS?
Nosso tempo odeia e teme a originalidade. Entre pessoas de 70 ou 80 anos voce ainda encontra "a figura", o excêntrico, mas não nos demais. Nos acostumamos a esperar o que se deseja, a ter aquilo que se pede, a ir ao encontro do que se acha que se precisa; e o inesperado, o desafiador foi abandonado. Em todo carro cinza ou prata, em cada roupa de cor pastel, se afirma o mais do mesmo. Mas também nos bandos que se afirmam como "diversidade" se produz o comum e o vulgar. Nas milhares de mulheres de cabelo rosa e tatuagens fofas, nas barbas que desfilam aos milhões, o que vemos é o fato de que os conhecemos antes de os conhecer. Aquele será de esquerda e como tal terá gostos e opiniões de esquerda. O mesmo com aquele de direita. Já aquela figura, uma trans, será banal até em sua voz, pois todos eles repetem não só discurso como o timbre vocal e o gestual. O que se anuncia como artista será o mais vulgar entre todos. Exporá sua fala decorada e amará aquilo que fica bem ao seu grupo. -------------- Entre os jovens, entre eles que se esperaria o invulgar, a coisa é pior. O medo de ser diferente dita tudo. Eles serão "do grupo". Em 18 anos vivendo entre eles, conto 8 ou 9 almas originais, surpreendentes, ousados. Os demais são repetições ao infinito da mesma vida e do mesmo diálogo. Se a função da vida é se individualizar criando uma alma, então posso dizer que desde a Idade Medieval não somos tão fracassados. E quando falo era medieval não falo do ano de 1.100 ou 800, pois esses foram anos de vida exarcebada, falo daquilo que se pensa ter sido erroneamente toda a idade média: massa de pessoas tementes a Deus e à Igreja e se portando-pensando como fossem uma só personalidade. Substitua Deus por ideologia e igreja por moda e vocé terá o mundo em 2026. --------------- Uma personalidade original é maravilhosa. Ela prova a realidade da alma. Ela possui vida e liberdade. Ela, que não tem consciência de ser original, pois o não vulgar de fato jamais procura ser propositalmente diferente, é uma pessoa que fertiliza. Onde ela está as coisa despertam e acordamos com elas. E talvez aí resida a atual aversão ao original. A pessoa que é ela-mesma nos acorda e nosso mundo ama o sono. Queremos ser zumbis distraídos em sonho desperto. Vivemos na nuvem da inconsciencia, balbuciando palavras sem peso e que mal sabemos para que servem. O original nos tira desse mundo vago onde esperamos e queremos mais do mesmo. --------------- Procure então voce ser diferente. Como? Ousando ser voce mesmo. É ardua tarefa mas nada justifica sua vida de modo mais nobre que isso. E é uma tarefa discreta, silenciosa. Boa sorte.
UM SENTIDO PARA A VIDA - VIKTOR E. FRANKL
Frankl nasceu em 1905 e viveu até 1997. Aos 15 anos já se correspondia com Freud e aos 16 fazia conferências na Universidade de Viena. Foi prisioneiro de dois campos de concentração e viu toda sua família morrer lá. Fromado em psiquiatria e filosofia. Sua terapia, existencial, é uma crítica à Freud. Portanto se voce segue Freud cegamente, pare por aqui. -------------------- O pensamento de Frankl se baseia todo no amor. Para ele, o amor é a base de tudo que há na mente humana e com ele vem a vontade. A primeira crítica às terapias freudianas e a outras como Rank e Jung, é que elas não levam em conta a humanidade, o que existe de mais humano em uma pessoa. Todas reduzem o homem a uma coisa dirigida por forças incontroláveis. Tratam o homem como máquina, objeto ou bicho. ----------------- A questão da agressividade, por exemplo. Não há algo em mim como uma agressividade que simplesmente procure objetos para os usar como canais de expressão, vítimas. Essa teoria joga fora a intencionalidade. Ela simplefica algo que é real, a agressividade, em algo que existe porque existe e se manifesta porque DEVE se manifestar. Ela simplifica, tirando do homem sua intencionalidade. Frankl diz que o homem odeia ou agride por um motivo e por uma intenção, há uma escolha e uma ação. Ou não. Eu odeio ALGO ou ALGUÈM. Não há uma quantidade de ódio que devo manifestar, não importa porque ou em quem, mas sim algo que me faz ter ódio. Esse ódio é meu. Eu o possuo e não ele me possui. --------------------- O homem, ser autotranscendente, e Frankl nunca fala de religião, procura ir além de si mesmo, esse o sentido da vida. E nessa existência, o amor ou o desejo não é uma simples força que nasce com ele e procura um objeto para poder ser usado. Não se usa o outro para um fim. Para Frankl, o sexo é a expressão física de algo que vai além do físico. A expansão e a expressão do homem. O mal da terapia freudiana, e de outras tantas, é que elas aumentam a neurose que dizem eliminar, na medida em que reforçam a diminuição de homem como dono de si mesmo, como ser que age na vida, escolhe, se expressa e transcende aquilo que ele é. É o amor essa transcendência. Não uma masturbação a dois, mas sim o crescer rumo a algo maior que o ego, além do ego. ------------------ Frankl baseia toda sua terapia na crença de que toda doença mental parte da falta de sentido na vida e que uma neurose, um câncer ou uma fobia, criam um sentido doentio para a existência. Meu objetivo passa a ser vencer a neurose, curar um tumor ou me salvar do medo. Todo sentido, para Frankl, está no outro, sua vida só terá sentido na entrega do seu ego à uma outra pessoa ou a um grupo de pessoas. Todo infeliz é um egocêntrico. Toda saúde é ir além do ego. Isso é o transcender. -------------- Em outro post falo sobre sua noção de tempo, mas cito aqui uma frase de Heidegger, que o visitava ocasionalmente: O que passou, passou, Mas o passado está presente. ---------------- A vida nos faz perguntas que devem ser respondidas, as responder é existir. As respostas que damos são salvas no abrigo do passado, imutável. O presente é a fronteira entre a não realidade do futuro e a eternidade real do passado. ------------------- Quanto ao seu modo de fazer terapia, conto aqui um caso de um paciente seu. Um jovem estudante entrava em pânico toda vez que fazia um exame e por mais que estudasse, não conseguia fazer a prova. Frankl usou com ele seu método. Pediu para ele fazer o contrário: tentar esquecer, ir mal, tentar tirar um zero. ( isso serve para esse caso, o jovem era um bom aluno que não conseguia fazer uma prova ). O jovem então, na hora da prova, escreveu as coisas mais absurdas, compôs uma prova que, segundo ele, faria o professor rir. Um zero, com certeza. E ele tirou dez. Cito esse caso, há vários no livro, porque isso aconteceu comigo, na USP, em 2011. Exatamente do mesmo modo. E também no vestibular, quando fiz a prova para não passar, totalmente relaxado, certo do fracasso, e passei. ----------------- Isso porque a terapia de Frankl é baseada no paroxismo. Voce faz aquilo que acha que não deveria fazer, ou brinca com seu medo O EXAGERANDO até o paroxismo. O que desperta o riso. Na verdade, voce toma posse do seu mal, o usando e não sendo usado. --------------------- A crítica de Frankl à Freud se baseia no fato de que Freud não viveu nada, toda sua vida é uma teoria de alguém que existiu dentro de uma sala. Não sei se a terapia de Frankl funciona, mas também não sei se Jung ou Freud curam alguém, ou se não fazem, apenas, com que se crie um tipo de vaidade dentro da doença. Um se conformar com um esquema feito para acomodar sintomas artificiais. Não sei. --------------------- Como filosofia, toda baseada na escolha e no amor, e principalmente na originalidade de cada ser humano, o que Frankl diz é nobre. ------------------- PS: o amor que Frabkl diz não é o amor cristão. É o amor entre homem e mulher, o amor das canções. Não é caridade cristã, é o sentimento que nos faz esquecer de nós mesmos e pensar no outro. Pode ser o amor pelo bem, pela igreja, mas não necessariamente. Que cada um encontre o seu.
VIKTOR E. FRANKL E A QUESTÃO DO TEMPO
O tempo, para Platão e para Santo Agostinho, é algo artificial criado pela consciência humana. Não haveria futuro, presente ou passado. O tempo seria concomitante. Para explicar melhor imagine uma ampulheta. A areia de cima é o futuro que irá acontecer. A areia do fundo é o passado, que já ocorreu e não pode retornar. O gargalo é o presente. Nossa conciência cria a divisão e vive no gargalo. Para Platão e Agostinho, o tempo é a ampulheta inteira, os três tempos são ilusórios, tudo ocorre ao mesmo tempo, a areia cai, passa e é depositada no mesmo momento ( e ela é ). Pense agora, se o futuro acontece agora, junto com passado e presente, e não conseguimos perceber isso, que poder temos sobre nossa vida? Nenhum. Nessa visão de tempo, tudo está já determinado pois o tempo futuro ocorre agora. O que será já é, e o que foi continua sendo. ----------------- Na visão de Frankl, criada nos anos de 1930, muito antes da informática, o agora é o gargalo, mas o futuro só existe quando passa por esse gargalo. Por que? Porque ele poderá jamais vir a ocorrer. Basta que a pessoa morra ou feche o gargalo. Já o passado, e isso é muito importante, permanece para sempre. Como? Porque é a areia que já passou a existir, ela já passou pelo gargalo e assim se fez real. Depositada no fundo da ampulheta, ela lá permanecerá para sempre, vivida, usufruida, real. Para Frankl, o passado nunca deixa de existir, e mesmo que voce o esqueça, ele permanece salvo. Por isso, nossa vida tem por sentido a construção de um passado que passa a ser um monumento à nossa existência. Tudo que vivemos, fazemos, sentimos, toda dor, prazer, luta, é salvo como parte dessa construção. O passado não pode ser mudado, daí sua verdade. ----------------- Essa visão de Frankl lembra muito o mundo da internet, onde podemos salvar na nuvem tudo que fizemos. Mas ao contrário do que diz Frankl, o arquivo pode ser apagado ou editado. ------------------ Começo a tomar contato com a obra de Frankl agora e devo dizer que sua visão de tempo é a que sempre tive mas não conseguia verbalizar. Nossa vida é uma obra que se realiza no passado. Somos uma fábrica de memória. E é a memória nossa vitória e nossa eternidade. Pois mesmo que ninguém mais lembre de nossa passagem pela Terra, aquilo que fizemos não pode ser apagado, aconteceu, foi feito, o ato permanece. -------------------- Frankl nasceu em 1905 e aos quinze anos já se correspondia com Freud. Formado em psiquiatria e filosofia, aos 16 anos já fazia conferências em Viena. Fundou nos anos 30 um hospital e não fugiu de Viena com a ascensão do nazismo. Judeu, foi preso em Dachau e Auschwitz. Viu seu pai morrer de exaustão e dois irmãos na câmara de gás. A mãe desapareceu. Sobreviveu e na prisão criou sua terapia, a Logoterapia, toda baseada no sentido existencial da vida. Famoso mundialmente, ele rejeita toda psicanálise por ver nela uma desumanização. --------------- Depois explico.
O ERRO QUE ACERTA
Não é a nota que voce toca que é a nota errada, é a nota que voce toca depois que faz com que soe certo ou errado. ----- Essa frase é de Miles Davis. Leia mais uma vez e entenda a profunda abrangência dessa fala. Miles fala de música. Gênios como ele erravam e transformavam o erro em acerto. Voce percebe isso ao vivo. O erro era porta de entrada para outra harmonia. Novo beat. Poucos músicos fazem isso. No rock Jimi Hendrix fazia o tempo todo. Mas, e a vida? Não é seu erro que define sua vida, é o que voce faz depois que transforma esse erro em acerto. Ou confirma o erro. Irremediável. ----------------- A maioria das pessoas insiste no erro e faz dele apenas isso, um erro. Outras tentam o consertar, e fazem desse erro apenas um remendo. Mas o gênio, esse faz do erro um acerto. É o livro que tinha tudo para ser um fracasso, mas que se torna arte. É o filme, todo cheio de erros, mas que dá certo. A pintura, que subverte normas, e vira nova tendência. E é sua vida, aquele erro que abre uma nova rota. --------------- Portanto, quando o erro acontecer, não se fixe nele. Use a criatividade para harmonizar o passo seguinte com o erro. Sem tentar remendar e sem pedir desculpas não cabíveis. Entrando no ritmo e saindo com swing. A batida certa. E dançar.
O SEGREDO ESTÁ NA COR
No livro sobre drogas que li, Portas da Percepção, Aldous Huxley, é dito pelo autor que a cor é a entrada para o mundo do "lado de lá". Ao final do livro Heaven and Hell, Huxley fala claramente que existe um mundo pós morte e que esse mundo, sem ego, é feito de cor. Assim, muito mais que Rembrandt ou Constable, artistas que Huxley admira sobre todos, é Matisse o homem que chegou mais perto do que seria o mundo do além. --------------- Isento de drama, sem ação, sem a definição rígida de espaço, de isto e aquilo, é um universo de cores puras, fortes, vivas. Huxley chega à isso através de sua própria mente, nas provas com peyote. Aquilo que ele vê são cores puras, que parecem explodir em potência. Ele não vê pessoas ou coisas, ele vê cores. O cérebro, livre das amarras da razão, bombardeado por noradrenalina, pode ser o que ele é de fato, real. A realidade ao nosso redor é isso, cores aterradoras, infernais e celestiais. Estáticas e unidas em um todo. Matisse. Buda e O Livro dos Mortos. --------------- Tenho uma mãe demente. Sofrendo de alzheimer, ela está hoje com 5 anos de idade, em termos mentais. Ou seja, por um momento que será breve, ela está livre da camada racional-escolar-utilitária da mente. E eu vejo. na minha frente, o que acontece com ela diante da cor. Andando na rua, ela para e entra em êxtase diante de flores vermelhas, diante de rosas amarelas, ao ver um pássaro laranja. Minha mãe é capaz de ver o céu em um inseto azul. Ela nunca foi assim, ou melhor, não era assim desde que eu lembre de a conhecer. --------------- Eu fui assim aos 6, 7 anos. -------------- Ando lendo sobre hedonismo e descobri que sofro de Hedofobia, medo mórbido do prazer. Não vou revelar a voces o porque e como é isso, basta falar que não consigo ter prazer pleno com nada. Minha paixão pelo hedonismo é aquela de quem não conhece o que ama. Hoje acordei as 11 da manhã. Estou tentando ser um pouco mais solto, despreocupado, hedonista. Ao lado de minha cama há uma máscara africana que comprei em 1999. Abro os olhos e me obrigo a olhar para ela por 3 minutos. Ela é de um verde profundo, uma mistura de abacate maduro com um sapo. Há traços de laranka e de vermelho. Lentamente começo a sentir calma, vagar, lentidão. Desacelero. E vem o prazer. Fazia anos, muitos anos, que eu não acordava sem o sentimento de levantar da cama depressa pois há algo a se fazer. Para gente como eu é preciso um esforço para não se fazer esforço. E garanto, 90% da minha vida foi um prazer incompleto, uma broxada. -------------------- Há também uma pequena máscara balinesa em meu quarto. E vejo vermelho e branco, traços em preto puro, laranja claro, amarelo canário. ------------------ Saiba então que olhar longamente uma obra de Matisse é uma terapia espiritual. E é por isso que sempre fui fascinado pelos grandes coloristas. ( Van Gogh não. Há mensagem ali. Ele é muito pouco abstrato ). Não se iluda. O paraíso não é uma aventura e nem uma dança. É uma cor.
PRA QUE SERVE A ARTE?
A arte faz a vida valer a pena. Eis tudo. A arte, mesmo quando fala da morte, da dor ou do tédio, faz a vida valer a pena ser vivida. Isso porque o artista se interessa pela morte, pela dor ou pelo tédio, e faz assim com que mesmo isso pareça ter um sentido. Nem que seja o não sentido. Observe bem o que eu disse: o artista se interessa. Essa a diferença da arte verdadeira do engodo artístico. O artista se interessa, se enamora, se atraca com seu tema. Ele o conhece, tanto quanto um apaixonado, ele o investiga, penetra, dorme e sonha com seu tema. Não há nada de blasé aqui. Como na paixão, ele "acontece", não escolhe. Ele é levado, não vai. E assim faz com que algumas pessoas, seu público, sintam que aquilo é interessante, talvez apaixonante, e a vida se revela na obra. ----------------- Quantas pessoas Matisse não guiou para o interesse? Fazendo-as simplesmente olhar e ver a vida. Apaixonar-se pela cor. Janelas, folhas, mulheres, cadeiras, cortinas, peixes, pássaros, tudo lá, mostrados para nossos olhos e assim nos ensinando a ver e ao ver nos fazendo olhar. E ver. Não via símbolo, Matisse não era simbolista, mas sim vendo o que há para se ver, a verdade da presença das coisas. Há muito para ver, duas cadeiras é muito para ver, um peixe no aquário é o bastante. Engolir com os olhos. ------------- Leio o livro da esposa de Picasso, Françoise Gilot, MATISSE E PICASSO, ela recorda os anos que esteve casada com o espanhol feroz e foi amiga do pintor francês discreto. Ela própria foi pintora e viveu até os anos de 1990. O livro, inspirador, nos dá desejos de viver e de fazer coisas. De criar. Como Gauguin, Matisse sabia que havia um paraíso dentro de si, mas ao contrário de Gauguin, ele não discursava em sua obra, ele mostrava a realidade da cor e dos volumes. Quem olhasse que sentisse a presença da vida. ----------------- Quando Gilot conheceu Matisse ele já era um velho que convaslecia de um câncer. Henri ainda viveu 20 anos pós doença, mas era uma vida dentro de casa, com muitas visitas, muito trabalho, e ocasionais viagens em busca do sol. Picasso o admirava intensamente e ao mesmo tempo sentia ciúmes. Picasso era intenso e inseguro, possessivo e expansivo, amedrontador e vulnerável. Não era fácil. Ele procurava briga e Matisse prezava a paz. ------------------ A partir de um certo momento, talvez os anos de 1920, a arte passou a se orgulhar de ser chamada de " perturbadora". Quando alguém, como eu, ousa falar na utilidade da arte, parece que o artista atual se incomoda. Como se utilitarismo fosse um valor burguês. Eles não aceitam que mesmo uma arte que ofende ou perturba tem a utilidade de nos acordar. Ou irritar. Ao odiar uma arte pornográfica eu passo a valorizar a arte refinada e isso é útil. Mas entenda que essa arte "violenta" ou pornô só será real se for feita por "interesse profundo" e não por outro motivo qualquer. Arte feita por convenção ou para vender uma ideia ou um valor é facilmente esquecida. Como um casaco, nos encanta ao ser visto na vitrine, nos alegra ao ser comprado, e logo desaparece dentro do guarda roupa. ------------------ Quando eu tinha 30 anos de idade e descobri Matisse, ele me trouxe uma vitalidade que eu necessitava muito então. Ele me despertou para a alegria do sol, das cores fortes e do poder do olho. Não foi pouca coisa.
A REALIDADE
As pessoas evitam a realidade. Li um livro sobre isso. De um tal de Keppe que eu não conhecia. Ele me parece um charlatão, mas essa ideia é boa. Acho ele charlatão porque ele não fala o porque de evitarmos a realidade. Consegue demonstrar que realmente a evitamos, mas não diz o motivo. Penso que isso acontece porque o homem é o bicho que teme a morte. Tentamos esquecer dela e para isso criamos distrações. Aterrorizados, somos o único bicho que entende o fim de tudo, lutamos para esquecer a morte e no processo negamos a vida real, a vida onde a morte espreita. Explicação simples, ele evita falar isso e acaba não dando motivo algum. Mas o resto de sua exposição é válida. ------------------ Toda infelicidade decorre da não aceitação da realidade e quanto mais vivemos na fantasia, na imaginação, mais infelizes somos. Toda alegria vive no mundo real, o mundo onde vive nosso corpo. Toda tristeza doentia é fruto de criação cerebral, invenção. Eis a armadilha: desenvolvemos a imaginação para evitar sofrer, e sofremos por perder a vida real. Hoje isso se radicalizou. As pessoas não só imaginam a vida, elas tentam criar uma vida imaginária. Se a realidade é a vida do corpo, e as crianças vivem isso em plena alegria, cada vez mais o corpo é negado, a evidência do que se vê é cancelada em favor de algo criado na mente. Não há a menor possibilidade de alegria nessa condição. Pelo fato, cruel, de que a pessoa passa o tempo todo brigando com o que seu corpo diz. Os olhos dizem: Belo, mas a mente cria um discurso para provar que o belo não existe. O corpo saliva de fome, mas a mente diz que aquilo não é bom para o fígado. O corpo diz quero, a mente dá argumentos para não querer. O corpo vê azul, a mente não aceita e fala verde. -------------- Se voce não entendeu, corpo é seu olho, seu ouvido, sua mão. Corpo é também seu sistema nervoso, seu desejo, seus genes, sua química interna, seus hormônios. Tudo isso fala sem precisar inventar nada e essa liberdade de se inserir na realidade é a única maneira de ser feliz. O corpo adoece e sente dor, morre, sim, isso é triste, mas não é absurdo, não é sem sentido, não é loucura ou neurose. O corpo, como a realidade, tem uma narrativa, um modo de contar o tempo, uma dança. A imaginação apressa isso, ou pior, ignora. Aí a infelicidade. --------------- Então caia na realidade neste novo ano. E não tema ver o que está aí, na sua frente. A verdade.
COMO SER FELIZ
Em 1950, aos 24 anos, chegado ao Brasil, meu pai viu seu primeiro filme. Até então, tudo o que ele vira fora sua aldeia em Portugal. Todas as ruas do mundo eram as ruas de sua aldeia e todas as mulheres do mundo eram aquelas poucas que ele vira. Imediatamente, meu pai descobrira que havia um lugar chamado Arizona e que cem anos antes, cowboys andavam pelo deserto. Meu pai nunca havia visto um deserto. Nunca havia visto um americano. Ele nem mesmo sabia que havia gente com 1.85 de altura. Mais importante, meu pai não sabia que havia mulher tão bonita como Rita Hayworth. ----------------------------------- Meu pai, em 1950, assim como acontecera com grande parte da humanidade a partir de 1920, entrava em um univero duplo: de um lado aquilo que era real, que ele podia tocar, sentir na pele, estar dentro, se relacionar, e de outro o mundo da imaginação, aquilo que era apenas luz, inefável, e que entrando dentro de sua mente modificava o funcionamento de seu cérebro. Não haveria volta. Depois viria a TV. ---------------------------- Uma psicóloga diz que nosso cérebro é uma Harley Davidson, ele foi feito para andar a no máximo 80 por hora. É uma máquina que aprecia o entorno, que flui devagar, que absorve em seu tempo próprio. Hoje, com a hiper conexão à tudo, nossa mente se vê obrigada a andar como um fórmula 1. O repouso é a 120 por hora, o desejo corre a 300. Em um dia, vemos mais mulheres que um homem de 1900 via em toda sua vida. Repito, em um dia, na rua, na TV, na Net, vemos mais mulheres que um homem via em toda sua vida. Nosso cérebro é o mesmo, o que o excita não. Mais enervante para ele, essas centenas de mulheres vistas em 24 horas o atraem, porque todas tentam ser atraentes. Algumas estão nuas. Em um dia ele verá mais corpos nus que Casanova viu em toda sua vida. A ansiedade se impõe. -------------------- Quem se recorda de 1960, ou mesmo 1980, sabe, as pessoas eram mais lentas. Andar era menos apressado, falar era mais pausado. Ouvia-se mais. O tempo era mais longo. Se voce duvida basta ver um filme ou uma série de então. O tempo que ali se faz é mais acelerado que o tempo real da rua e se voce acha o filme ou a série lenta, creia, na rua a lentidão era maior. Esse tempo longo era devido ao fato de que ainda se podia desligar a TV. E não ir ao cinema. Na rua, no ônibus, no trem, voce não levava a tela com voce. Nem mesmo o telefone. Então, quando voce estava na rua voce estava na vida real, queira ou não. Andar de ônibus era ouvir os companheiros de viagem, ouvir o motor, ver a rua, sentir o sol na pele, sentir o calor. Cheiros. Seu cérebro entrava no fluir da vida ao redor, real, voce a tocava, a mastigava, cheirava, ouvia. Na praia o relaxamento era total: vozes distantes, cherio de mar, de comida, ondas quebrandO, o cérebro mergulhado no beira mar. Absoluto. -------------------- Voce poderá dizer, mas e daí? Qual o problema? Que se acelere. Que se veja tudo na tela. ---------------------------- Sim, voce pode escolher isso. Pode? Escolhemos o que queremos fazer mas não escolhemos, nunca, o que desejamos. Isso é Schopenhauer. Desejamos nos ligar, nos informar, saber, e desejamos velocidade, tudo rápido, pra ontem. Produzimos. Produzimos muito. E sofremos. Como nunca antes. Por que? Porque o mundo real, pela primeira vez, parece pouco. ------------------------- As pessoas se expõe nas redes sociais porque desejam fazer parte do mundo que parece melhor, o virtual. Voce viu a menina de 18 anos que comprou um iate, voce viu o homem de 40 que fez um bilhão e voce deseja ser como eles. De repente sua vida, a real, não importa mais. Ela parece limitada, lenta, sem emoção. Voce sabe que existe Uganda e viajar para o Pantanal é pouco. Voce viu a mulher fazer sexo no porn videos e sua esposa não sabe transar. Seu pau parece pequeno. A vida dos outros, a que voce vê nas telas, é fascinante, a sua não importa. Dá pra ser feliz? ------------------------- Nossas melhores lembranças da infancia são aquelas em que estamos completamente ligados ao real. Temo que pessoas com menos de 30 anos não tenham tido essa sensação, mas se voce tem 35 ou 40 sabe do que falo. Aos 6 ou 7 anos, voce está no quintal e a chuva está chegando. Voce sente o cheiro dela e a temperatura cai. O ar fica úmido. Pássaros saem voando. Voce relaxa e ao mesmo tempo sente apreensão. Alguma coisa vai acontecer. O céu escurece, tons de roxo e de cinza. Então as gotas começam a cair. Voce corre pra casa enquanto sua cabeça molha. São esses os momentos da infancia que valem a pena. O que aconteceu? ------------------------ Nosso cérebro, seja obra Divina, seja obra da natureza, é parte deste planeta. E este planeta tem seu modo. Nossa mente, como nosso corpo, tem limites. A realidade é o que nosso cérebro é. Ele processa de um modo analógico, biológico, em seu tempo e seu lugar. Ele é envolvido por sentimentos. Ele aprecia, sente, saboreia, e procura conforto. Para esse saborear, esse conforto, ele precisa usar as mãos, os olhos, os ouvidos. Sentir. Com tempo, seu tempo. O tempo biológico e não o digital. ----------------------------- As mãos são parte central do processo e por isso existe uma diferença imensa entre pegar o papel e desenhar com uma caneta e tocar uma tela, a mesma, sempre a mesma, seja para desenhar, escrever ou ver um filme. Há uma diferença de experiência tátil entre procurar, tirar o disco da capa, ligar o aparelho, colocar o disco para rodar e ouvir a música, ou digitar uma faixa na tela. Ir à estante pegar um livro, segurar ele aberto, sentir o cheiro e o tato da folha ou olhar a mesma tela de sempre. O real é sempre uma questão de toque, de habilidade manual, de aprender a pegar. Isso é o cérebro. -------------------------- Voltando a meu pai, ele sempre soube que aquilo que via na TV era apenas TV. Ele falava isso. Só na TV isso acontece. Outra frase dele era: só em filme.... Por ser de uma geração pré cinema, o real estava sempre presente. E esse real lhe bastava. Havia nele a dor de todo ser vivo, mas em meu pai eu jamais identifiquei a ansiedade ou a depressão que são marcas comuns em todos os meus contemporâneos. Eu brigava muito com ele exatamente porque eu não aceitava seu "comodismo", comodismo que hoje sei ter sido a adaptação ao mundo como ele é, real. Eu era e sou agitado, nervoso, neurótico, sempre insatisfeito. Ele dormia relaxado e um bom almoço o fazia ser feliz. Por que diabos ele era assim? ----------------------- Poque até os 24 anos, meu pai nasceu em 1926, ele nunca fora tentado pelo virtual. Seu mundo era sua aldeia e seu mundo lhe bastava. Houve um choque ao ver o Arizona, o Alasca e Ava Gardner, mas sua mente estava ancorada no bom e velho mundo biológico. Ele não imaginava ser John Wayne. Ele adoraria ser, mas ele sabia que querer ser John Wayne era bobagem. E fim de papo. Sua atenção, e aqui encerro este texto, era toda do mundo real. Muito melhor que John Ford era o bife na mesa. Mais excitante era sua mulher na cama que uma estrela na tela. Ir andar na rua era mais bonito que imagens de Star Wars. Porque sua mente, viva no real, sabia TODO O TEMPO: isso é só um filme. ------------------ Lembro que quando eu tinha 13 anos, meu pai achou uma Playboy escondida no meu quarto. Minha mãe nem sabia que mulheres posavam nuas e meu pai veio conversar comigo. A frase que ele mais me falava era: ISTO É SÓ PAPEL. VOCÊ NÃO VÊ PAULO? SÓ PAPEL. Ah meu velho....voce era saudável....que saudade de gente como voce.....
OS DOIS NEURÔNIOS
Há gente que tem apenas dois neurônios, e por isso enxerga tudo em termos de SER contra ou SER a favor. Explico. ---------------- José mora em Goiás. Nada contra. Ele pegou seu carro, e foi prestar ajuda aos moradores da cidade do Paraná que sofreu a tragédia do tornado. José é bolsonarista. Como pensa o ser com dois neurônios? Sou contra bolsonaro, portanto, sou contra esse tal José. Foda-se ele. A mesma coisa acontece com Pedro. Ele ajuda cães abandonados. E o cara de dois neurônios é contra Pedro porque ele votou em Lula. --------------- Para entender um ser humano, tentar o conhecer, são precisos bilhões de conexões cerebrais e mais uma imensa dose de intuição e de educação. Sim, voce tem todo direito de odiar qualquer um dos dois, mas dê motivo para isso, um bom motivo. --------------- Pensar em termos de contra ou a favor é pensar em termos de futebol, sou contra o Vasco porque sou Flamengo. Fim. Isso serve para torcer, mas não para julgar nada. -------------- Falei em julgar? Eis um belo exemplo! Juizes julgam, mas no STF eles torcem sempre. Tanto que eu tenho a certeza de que voce sabe o veredito antes do julgamento começar. Aliás, até a pena já se sabe. Eles a anunciam em jantares cheios de risos. --------------- Usar dois neurônios também favorece sua paz de espírito, paz hipócrita, mas é um tipo de paz de avestruz. Se centenas de pessoas estão presas por terem invadido um prédio público, sem armas, sem feridos, e pegaram 14 anos de pena sem direito à recurso, voce fica em paz e nem sente pena ao pensar que eles são DO OUTRO LADO e portanto, inimigos. Veja, voce não os conhece, voce não os individualiza, são como ratos, todos iguais. ------------------ Por outro lado, voce pede a individualização de gente armada que atirou na polícia. Voce grita para que cada um fosse julgado individualmente. Na realidade voce apenas torce, não pensa. Eles são dos meus, e são dos meus porque meus rivais não gostam deles. Fim. ----------------------- Eu gosto de Jung. De Henry James e de Nabokov. Adoro Bergman. Cinema francês e Bartok. Bergson e Wittgeinstein. Bebo e nada tenho contra erva em si, odeio o modo como ela é vendida. Sexualmente não creio em fidelidade. Não tenho religião definida. E sou bastante anti esquerda. Porque usando meu cérebro vejo que ela nunca funciona, e no caso brasileiro, é tragicamente mentirosa e desonesta. Me identifico com Milei e Meloni. Acho Trump um cara eficiente e sei que Bolsonaro foi apenas um bobo e isso não é crime. Mas veja, se voce tem dois neurônios eu sou apenas UM CARA FASCISTA. Não interessa meu discurso ou o que faço. Pouco interessa minha história e minha moralidade. Eu sou Vasco e voce é Flamengo. Vamos morrer nos ofendendo. --------------------- Para quem se interessar, a teoria dos dois neurônios é de Olavo de Carvalho, aquele cara que foi me ensinado ser um perigoso nazista e que ao o conhecer descobri ele ser antes de tudo um humanista cristão. Olavo adivinhou tudo que aconteceria no Brasil após a queda da Dilma. Na mosca. --------------------------- Humanos são complexos. Conheça-os antes de os julgar.
eliot e norton
A verdade, utilidade e a beleza. Ao conferenciar numa universidade americana, T.S. Eliot disse, citando o reitor Norton, que a vida de uma pessoa será justificada se ela se guiar por esses três valores. Falar a verdade e viver com a aceitação do que é verdadeiro, fazer coisas que sejam uteis para si mesmo e para os outros, e admirar e dar valor supremo aquilo que é belo. Intelectuais complicaram tudo que ele falou, relativizando a s coisas e questionando o que seria a verdade, o que teria utilidade e qual a importância do belo. A tática é sempre a mesma, derrubar uma realidade transformando o real em simples jogo de palavras. Nós sabemos o que é a verdade, e conseguimos traduzir isso em palavras. Mas não é difícil brincar com frases, inverter sentidos e fazer parecer que a verdade é relativa. ---------------- Para dar valor ao que Eliot disse, seria interessante inverter os valores a título de demonstração. Vamos imaginar que voce se guie pelo que é mentira, o que é inútil e o que é feio. Provavelmente sua vida será mais fácil, voce a princípio irá rir e se divertir muito, mas não vejo como essa falsa alegria possa durar. O grupo do revolucionários de sofá que abundam no mundo de 2025 são exatamente assim. Cultuam o feio, usam a mentira como opção váLida, algo que se escolhe, que tanto faz, e apesar de se imaginarem vitais para a sociedade, são completamente inuteis. Na verdade toda sua vida se resume em ódio aos antepassados, seres que segundo eles, criaram um mundo onde somos obrigados a trabalhar, a envelhecer, a ter deveres. ---------------- Quando Eliot advoga a verdade ele irrita o revolucionário porque a verdade é simples, foge do idealismo vazio, ela é o que se sabe desde sempre. Ser util vai pelo mesmo caminho. Util é tirar o mato da calçada da USP ou arrumar as cadeiras após a aula e não fazer uma reunião de apoio aos palestinos ou sujar as paredes com desenhos pornô. Do mesmo modo, o belo é aquilo que dá dignidade às coisas e às pessoas, que nos faz crer no caráter especial e invulgar da vida. A beleza nos acorda. E para quem faz questão de estar sempre em berço, nada pode ser pior que acordar.
CÈST LA VIE
Ansiamos por um prazer e quando o obtemos tememos o perder. A vida é dor e saber isso pode te ajudar a viver. Estoicismo? Sim. A vida toda tentei ser hedonista mas desde a infância, por causa de minha asma, eu soube que a vida era uma luta para respirar. -------------------- Sentimos dor todo o tempo e só não temos consciência disso porque, felizmente, nos distraimos. O prazer é a distração da dor. E do medo, pois também nos distraimos do medo através do trabalho, do amor, da arte, da filosofia. -------------- Olhe o mundo animal e voce vai entender o que falo. Para a caça viver é temer o ataque. Causa incômdo o olho de um herbívoro. Arregalado, ele está alerta o tempo todo. E o predador não foge dessa sina. Seu final será a fome de não poder mais caçar. A vida do predador é caçar até morrer. Uma guerra sem possibilidade de paz. Nós criamos a civilização para negar a dor. ------------------ Voce pode estar pensando: cara, voce está mal hein? E eu respondo, nada mais que o de sempre. Eu sou assim e já fui bem pior. Desde os 15 anos eu penso que o amor é uma distração da morte. E que não há nada mais doentio que escrever uma obra ou pintar uma carreira para tentar ser imortal. Um homem que passa oito ou dez horas por dia escrevendo tem algum problema, provavelmente uma radical negação da vida. ------------------ Mas não deixa de ser "bonito" e é aí que a coisa surge em seu mistério. ------------------- Pois eu tenho a absoluta certeza de que não é a religião, a arte, o trabalho ou a filosofia que nos redime ou que dá um sentido a tudo isto. É o senso da beleza. A única coisa que justifica a dor é conseguir ver nela não um sentido ou uma expiação, mas sim a beleza que pode haver dentro dela. Eis o mistério do homem, bicho que para sua luta para olhar um amanhecer ou a beleza de um rosto. Pois é a beleza de um pensamento que dá dignidade à filosofia e é o senso estético de uma fé que constroi uma religião. Nada mais belo que a manhã em que voce olha as ruas após sair do hospítal. ----------------- Dizer. definir o que seria a beleza se torna assim fácil: belo é o que não nega a dor, mas faz com que ela seja suportável. Drogas, distrações, negam a dor, mas não são belos em si mesmas. O belo real é o que diz: Isto é um prazer mesmo em meio a dor. ---------------- E por amar a beleza paro por aqui antes que este texto se torne feio.
A TERRA DOS HOMENS OCOS
Começo a ler o vasto livro de Russell Kirk sobre Eliot e seu tempo, e como sempre acontece quando leio sobre um irmão espiritual, me sinto inspirado. Kirk foi um intelectual americano conservador. Como pessoa ele se definia um conservador boêmio, anti burguês. Modesto, ele recusou todo convite para entrar no sistema, seja cultural, seja político. --------------- Voce deve estar perguntando: Um conservador anti burguês? Boêmio? Como pode? ................ Ora, não seja ingênuo! A burguesia do século XX e mais ainda do XXI é aliada à esquerda em todo o mundo. É a burguesia mais poderosa, banqueiros, industriais, artistas bem sucedidos, que mantém a tara moderna por CONTROLE E DESTRUIÇÃO DO PASSADO. Como vemos no Brasil hoje, de uma forma tão despudorada que chega a ser pornográfica, a união do estado, da justiça e do dinheiro graúdo, faz de uma nação uma teia de opressão a qualquer um que ainda pense em DIGNIDADE, LIBERDADE E TRADIÇÃO. Ontem, dia 16 de julho, o congresso mais uma vez foi fechado, um juiz sozinho ( sozinho? Quem o financia? ), calou a boca de mais de 500 parlamentares eleitos pelo voto. Esse é o ato estatal-esquerdista feito pelo mais anti conservador dos sistemas, o brasileiro atual. E ato esse, aplaudido por aqueles que Eliot chamava de OS HOMENS OCOS. Mas quem são esses homens ocos? ------------------ O filósofo espanhol Ortega y Gasset dizia que EU SOU EU E SOU MINHAS CIRCUNSTANCIAS. O que isso quer dizer? Eu, Paulo, sou aquilo que sou: Homem, brasileiro, filho de portugueses, filho de minha família, heterossexual, conservador em política e em economia, amante das artes eternas, pensador, indagador, chato. Mas eu sou também a minha circunstância, ou seja, sou o lugar onde cresci, onde vivo, sou tudo que me cerca, sou o que ouço, o que vejo, o que me toca. Sou isto que escrevo, sou voce que me lê, sou quem me conhece, quem pensa em mim. Ora, o conservador se apega a todas essas circunstâncias. Ele luta pela preservação dos laços afetivos com aquilo que é seu passado, seu ambiente, seu meio, seja o prédio da esquina, o hábito religioso, a peça de arte inviolável. Ele sabe que ao se destruir qualquer objeto que é parte de sua circunstância, parte dele é destruído ao mesmo tempo. Daí nasce o HOMEM OCO. É aquele ser, geralmente da esquerda, mas é também o alegre propagador do " derrube e construa" do capitalismo, que destroi tudo o que seja "antigo e inútil". Fazendo isso ele mata, sem saber, a si mesmo e se torna um HOMEM OCO, sem vínculos sólidos com nada ao seu redor, tendo apenas dentro de si o vazio do desejo de destruir. Não há retrato mais perfeito da esquerda brasileira que essa sanha por acabar com tudo que remeta à tradição e costume. Família, hábito e história. -------------------- Eliot percebeu isso já após a segunda guerra, quando observou que o trauma da guerra levou os ingleses à ansia de mudar e negar. E Kirk sentiu isso nos EUA, quando a partir dos anos 50 tomou lugar o sentimento de que todos somos seres sem raiz. Logo cooptado pelo sistema, esse sentimento "rebelde", boêmio, de ser livre para se auto construir, se transformou em abjeto ato de negar a realidade do passado e assim perder contato com toda a realidade presente. A cultura do século XXI é uma cultura da doença, do homem sem interior, do ato sem história, do gratuito, do sem permanência. --------------- Ao mostrar de modo pornográfico que o congresso nada representa, que o voto é apenas uma brincadeira vazia de poder real, os juízes fazem com que o interior de todo cidadão se torne ainda mais oco, sem referência e sem significado. O simbólico- voto e representatividade- se torna futilidade. A alma morre. Assim, cada brasileiro se torna oco, apenas um corpo vazio em busca de comida, andando em meio ao caos bem organizado e a pobreza externa e interna. Eliot chamava isso de inferno. Voce sabe o que é.
A EVOLUÇÃO CRIADORA - HENRI BERGSON
Este é o livro que deu o Nobel a Bergson. Se o século XIX foi aquele que endeusou a razão, a mecânica e o ateísmo, o começo do XX voltou seus olhos ao oculto. Henri Berson, filósofo francês, foi central nesse movimento. O que ele faz aqui, de modo sedutor, rigoroso, detalhista, é mostrar as falhas e limites na explicação da vida, na evolução darwinista e na própria definição do que seja vida. Ele explica o que é a inteligência, a diferença entre vegetal e animal e a importância da manutenção da memória para assim haver duração, sendo a duração o sentido do humano. ------------------------- O impulso que fez com que o não vivo se fizesse vida é uma das várias questões matreiramente evitadas pelos evolucionistas. Mas não só isso. Se um peixe sai da mar e se torna terrestre, movimento feito pela adaptação ou pela evolução, nada se fala sobre COMO ele entendeu que fora do mar haveria melhor vida. É o velho problema da ciência, ela lida com a morte e nunca com a vida. Para se estudar qualquer objeto, seja animal ou um mineral, é preciso o separar do TODO. A ciência estuda uma estrela ou uma galáxia, mas não o UNIVERSO inteiro. Isso corta toda linha vital, é estudado o coração mas não o corpo inteiro. A física estuda cada ponto percorrido pelo objeto, mas não a trajetória inteira em movimento. ----------------- Isso porque nossa inteligência entende apenas coisa a coisa e não tudo em conjunto. Isso se aplica até em relações humanas, haja visto que vemos um amigo como uma pessoa com características definidas, uma a uma, e não como um conjunto vivo de contradições sempre em mudança. --------------------- Para Bergson a vida é mais que movimento, ela é criação. Há um impulso criativo naquilo que é vivo, o impulso que cria guelras, asas, pés e olhos. A evolução é como uma explosão criativa, milhões de luzes que se dividem no céu ( como um fogo de artifício ). O simples cada vez mais complexo, e isso sem que jamais possamos tocar no segredo: de onde vem esse impulso vital. De onde o fogo que acendeu o pavio. E porque havia tal possibilidade de vida, quem fez o pavio. ------------------ Sim, pássaros de pernas longas caçam rãs em charcos. Mas ele formou uma perna longa enquanto tentava pegar rãs? Ou ele foi atrás das rãs por ter pernas longas? A criação das pernas longas nos é incompreensível, porque não explicamos os milhares de anos de ação para tal mudança ( me parece cômico uma ave ficar milênios tentando pegar rãs enquanto suas pernas se alongam. Seria mais lógico ela desenvolver um bico para pegar minhocas ). ------------------ Usamos um teclado que faz nossos dedos se alongarem ou temos dedos longos e por isso inventamos um teclado? A resposta é óbvia.
O ANIVERSÁRIO DO PRESENTE
O Natal, para muitos, é como um aniversário onde se celebra o presente que se dá ou se ganha, o feriado, mas se ignora o aniversariante. Obra do mundo moderno, uma pessoa típica de 2024 irá dizer que ela comemora o que quiser e que a verdade de um fato É AQUILO QUE ELA QUISER, PORQUE TUDO TEM MAIS DE UMA VERDADE. -------------------- Weeeeelllll....eis a imensa diferença entre o pensamento da direita e da esquerda. Diante de um fato histórico a direita diz, sim, é verdade. Já a esquerda dirá, não, tudo é relativo. Em extremo isso leva ao relativismo moral. Diante de um assassino a direita dirá, ele é culpado porque matou. A esquerda dirá, veja bem, nem sempre matar é um crime. Incesto, roubo, aborto aos 6 meses, a mentira, tudo pode ser relativizado, dependendo de quem o pratice e de quando o fez. ---------------- Isso leva á que? A destruição de qualquer possibilidade de convívio social. Se tudo pode ser discutido, então tudo deixa de ser seguro. A vida se torna um lodaçal onde nenhum passo é firme. ----------------- Antonio Gramsci percebeu que a revolução comunista não se faria mais pelas armas mas sim pela destruição interna da sociedade capitalista. Como? Tomando escolas e meios de comunicação e fazendo do relativismo uma nova lei. Uma lei cínica que tem por alvo aniquilar o convívio pacífico. No extremo, o único crime sem relativismo passa a ser CRER NA LEI. -------------- Roubar é sempre errado e matar é um crime em qualquer situação. Quando a polícia ou um soldado mata, isso é um ato terrível que tem, no caso da manutenção da lei, a permissão da sociedade se for uma morte sem escolha, para manter a saúde do todo. Dez milhões eliminam um para salvar a segurança do todo. É um ato de horror, mas é necessário. --------------------- Para a esquerda nada disso faz sentido. O homem que rouba e mata é tão justificável como o policial que o elimina. Não há lógica alguma nesse modo de pensar esquerdista, pelo simples fato de que se for levado em conta, nada mais irá funcionar numa cidade. Mas é esse o ponto. O objetivo é exatamente esse, destruir a velha sociedade e dos escombros construir o novo, o socialismo sem classes, portanto, sem crime. ( Na verdade haverão três classes, o povo, o burocrata e a classe dirigente, mas isso é ignorado na utopia ). ----------------- O Natal é símbolo dessa luta entre os dois grupos. A esquerda apaga da memória o nascimento do Cristo e a direita tenta manter essa verdade. A esquerda diz bobagens, inclusive erros absurdos como dizer que Jesus era muçulmano. ( O Islã foi criado 600 anos após Jesus nascer ). A mentira é usada quando é pela "boa causa" da destruição das certezas. ------------------- Eu disse certezas? Como é a mente de alguém que não tem certeza de nada a não ser da absolita infalibilidade de sua ideologia? ---------------- Ontem de noite eu tive uma epifania. Ao ver o rosto de Jesus numa tela algo disse em minha mente: é verdade, é verdade, é verdade. Imediatmante meu peito se aqueceu e minha pele se arrepiou. É verdade. È real. É tudo. Bom Natal para aqueles que lutam pela verdade no mundo.
CONVERSANDO COM ROGER SCRUTON - ROGER SCRUTON E MARK DOOLEY. ELE NÃO É NADA DO QUE PENSEI.
Mark Dooley encontra Scruton em sua fazenda na Inglaterra e conversa alguns dias com ele no seu escritório. Essa conversa se torna este livro e este livro vale como uma biografia de Scruton. ---------------- Roger Scruton, homem que mudou minha vida, não é aquilo que voce pensa. Seus pais eram opostos. A mãe, um tipo de ex aristocrata oprimida. Ele a adorava. O pai, um raivoso representante da velha classe trabalhadora de Manchester. Uma esquerda patriota, saudosista, irada, um tipo de esquerda que não existe mais. Scruton, sempre bom aluno, nunca pensou em ser filósofo. Ele queria ser poeta e romancista. E estudou ciências. Em Cambridge, ele entrou por mérito, descobriu um ambiente filosófico. Ao contrário dos outros, ele começou pela filosofia do século XX. Se apaixonou por Wittgeinstein. Depois Aristóteles, para ele o maior de todos e por fim, se deixou tomar por Kant e Hegel. ------------------ Eu disse que ele não é como voce pensa? Não, não é. Scruton morou na França nos anos 60 e principalmente em Roma. Leu Sartre, que ele admira, acha O Ser e O Nada uma obra prima, e foi boêmio. Em Roma ele descobriu ser um conservador, isso aos 25 anos. Até então ele pouco pensava em política, seu amor era a estética, a arte, a escrita. Lia muito Nietzsche. Mas em Roma ele conviveu com os radicais comunistas italianos de então e percebeu que nada tinha a ver com eles. O mesmo fato ocorreu comigo aos 18 anos, se aqueles caras eram de esquerda, bem, eu nada tinha e nada queria ter a ver com eles! Scruton fala uma coisa certeira sobre os hippies americanos que conheceu: " Gente de classe média que achava que se rebelar contra seus pais JUSTIFICAVA SUA VIDA" Toda a vida de um hippie era resumida a odiar seus pais. Scruton diz que tinha motivos de sobra para odiar seu pai, eles jamais se deram, mas não fez disso um projeto de vida e nem saiu pelo mundo se orgulhando disso. ----------------------------- Eu não terminei de ler o livro, mas estou gostando tanto que tive de escrever este pequeno texto. Estou na parte em que Roger volta para a Inglaterra e descobre que a educação inglesa, é 1980, se encontra tomada pela esquerda. O ensino passa a ser encher a cabeça dos jovens com frases revolucionárias que não fazem sentido nenhum. --------------- Depois conto mais.
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