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UM SENTIDO PARA A VIDA - VIKTOR E. FRANKL

Frankl nasceu em 1905 e viveu até 1997. Aos 15 anos já se correspondia com Freud e aos 16 fazia conferências na Universidade de Viena. Foi prisioneiro de dois campos de concentração e viu toda sua família morrer lá. Fromado em psiquiatria e filosofia. Sua terapia, existencial, é uma crítica à Freud. Portanto se voce segue Freud cegamente, pare por aqui. -------------------- O pensamento de Frankl se baseia todo no amor. Para ele, o amor é a base de tudo que há na mente humana e com ele vem a vontade. A primeira crítica às terapias freudianas e a outras como Rank e Jung, é que elas não levam em conta a humanidade, o que existe de mais humano em uma pessoa. Todas reduzem o homem a uma coisa dirigida por forças incontroláveis. Tratam o homem como máquina, objeto ou bicho. ----------------- A questão da agressividade, por exemplo. Não há algo em mim como uma agressividade que simplesmente procure objetos para os usar como canais de expressão, vítimas. Essa teoria joga fora a intencionalidade. Ela simplefica algo que é real, a agressividade, em algo que existe porque existe e se manifesta porque DEVE se manifestar. Ela simplifica, tirando do homem sua intencionalidade. Frankl diz que o homem odeia ou agride por um motivo e por uma intenção, há uma escolha e uma ação. Ou não. Eu odeio ALGO ou ALGUÈM. Não há uma quantidade de ódio que devo manifestar, não importa porque ou em quem, mas sim algo que me faz ter ódio. Esse ódio é meu. Eu o possuo e não ele me possui. --------------------- O homem, ser autotranscendente, e Frankl nunca fala de religião, procura ir além de si mesmo, esse o sentido da vida. E nessa existência, o amor ou o desejo não é uma simples força que nasce com ele e procura um objeto para poder ser usado. Não se usa o outro para um fim. Para Frankl, o sexo é a expressão física de algo que vai além do físico. A expansão e a expressão do homem. O mal da terapia freudiana, e de outras tantas, é que elas aumentam a neurose que dizem eliminar, na medida em que reforçam a diminuição de homem como dono de si mesmo, como ser que age na vida, escolhe, se expressa e transcende aquilo que ele é. É o amor essa transcendência. Não uma masturbação a dois, mas sim o crescer rumo a algo maior que o ego, além do ego. ------------------ Frankl baseia toda sua terapia na crença de que toda doença mental parte da falta de sentido na vida e que uma neurose, um câncer ou uma fobia, criam um sentido doentio para a existência. Meu objetivo passa a ser vencer a neurose, curar um tumor ou me salvar do medo. Todo sentido, para Frankl, está no outro, sua vida só terá sentido na entrega do seu ego à uma outra pessoa ou a um grupo de pessoas. Todo infeliz é um egocêntrico. Toda saúde é ir além do ego. Isso é o transcender. -------------- Em outro post falo sobre sua noção de tempo, mas cito aqui uma frase de Heidegger, que o visitava ocasionalmente: O que passou, passou, Mas o passado está presente. ---------------- A vida nos faz perguntas que devem ser respondidas, as responder é existir. As respostas que damos são salvas no abrigo do passado, imutável. O presente é a fronteira entre a não realidade do futuro e a eternidade real do passado. ------------------- Quanto ao seu modo de fazer terapia, conto aqui um caso de um paciente seu. Um jovem estudante entrava em pânico toda vez que fazia um exame e por mais que estudasse, não conseguia fazer a prova. Frankl usou com ele seu método. Pediu para ele fazer o contrário: tentar esquecer, ir mal, tentar tirar um zero. ( isso serve para esse caso, o jovem era um bom aluno que não conseguia fazer uma prova ). O jovem então, na hora da prova, escreveu as coisas mais absurdas, compôs uma prova que, segundo ele, faria o professor rir. Um zero, com certeza. E ele tirou dez. Cito esse caso, há vários no livro, porque isso aconteceu comigo, na USP, em 2011. Exatamente do mesmo modo. E também no vestibular, quando fiz a prova para não passar, totalmente relaxado, certo do fracasso, e passei. ----------------- Isso porque a terapia de Frankl é baseada no paroxismo. Voce faz aquilo que acha que não deveria fazer, ou brinca com seu medo O EXAGERANDO até o paroxismo. O que desperta o riso. Na verdade, voce toma posse do seu mal, o usando e não sendo usado. --------------------- A crítica de Frankl à Freud se baseia no fato de que Freud não viveu nada, toda sua vida é uma teoria de alguém que existiu dentro de uma sala. Não sei se a terapia de Frankl funciona, mas também não sei se Jung ou Freud curam alguém, ou se não fazem, apenas, com que se crie um tipo de vaidade dentro da doença. Um se conformar com um esquema feito para acomodar sintomas artificiais. Não sei. --------------------- Como filosofia, toda baseada na escolha e no amor, e principalmente na originalidade de cada ser humano, o que Frankl diz é nobre. ------------------- PS: o amor que Frabkl diz não é o amor cristão. É o amor entre homem e mulher, o amor das canções. Não é caridade cristã, é o sentimento que nos faz esquecer de nós mesmos e pensar no outro. Pode ser o amor pelo bem, pela igreja, mas não necessariamente. Que cada um encontre o seu.

VIKTOR E. FRANKL E A QUESTÃO DO TEMPO

O tempo, para Platão e para Santo Agostinho, é algo artificial criado pela consciência humana. Não haveria futuro, presente ou passado. O tempo seria concomitante. Para explicar melhor imagine uma ampulheta. A areia de cima é o futuro que irá acontecer. A areia do fundo é o passado, que já ocorreu e não pode retornar. O gargalo é o presente. Nossa conciência cria a divisão e vive no gargalo. Para Platão e Agostinho, o tempo é a ampulheta inteira, os três tempos são ilusórios, tudo ocorre ao mesmo tempo, a areia cai, passa e é depositada no mesmo momento ( e ela é ). Pense agora, se o futuro acontece agora, junto com passado e presente, e não conseguimos perceber isso, que poder temos sobre nossa vida? Nenhum. Nessa visão de tempo, tudo está já determinado pois o tempo futuro ocorre agora. O que será já é, e o que foi continua sendo. ----------------- Na visão de Frankl, criada nos anos de 1930, muito antes da informática, o agora é o gargalo, mas o futuro só existe quando passa por esse gargalo. Por que? Porque ele poderá jamais vir a ocorrer. Basta que a pessoa morra ou feche o gargalo. Já o passado, e isso é muito importante, permanece para sempre. Como? Porque é a areia que já passou a existir, ela já passou pelo gargalo e assim se fez real. Depositada no fundo da ampulheta, ela lá permanecerá para sempre, vivida, usufruida, real. Para Frankl, o passado nunca deixa de existir, e mesmo que voce o esqueça, ele permanece salvo. Por isso, nossa vida tem por sentido a construção de um passado que passa a ser um monumento à nossa existência. Tudo que vivemos, fazemos, sentimos, toda dor, prazer, luta, é salvo como parte dessa construção. O passado não pode ser mudado, daí sua verdade. ----------------- Essa visão de Frankl lembra muito o mundo da internet, onde podemos salvar na nuvem tudo que fizemos. Mas ao contrário do que diz Frankl, o arquivo pode ser apagado ou editado. ------------------ Começo a tomar contato com a obra de Frankl agora e devo dizer que sua visão de tempo é a que sempre tive mas não conseguia verbalizar. Nossa vida é uma obra que se realiza no passado. Somos uma fábrica de memória. E é a memória nossa vitória e nossa eternidade. Pois mesmo que ninguém mais lembre de nossa passagem pela Terra, aquilo que fizemos não pode ser apagado, aconteceu, foi feito, o ato permanece. -------------------- Frankl nasceu em 1905 e aos quinze anos já se correspondia com Freud. Formado em psiquiatria e filosofia, aos 16 anos já fazia conferências em Viena. Fundou nos anos 30 um hospital e não fugiu de Viena com a ascensão do nazismo. Judeu, foi preso em Dachau e Auschwitz. Viu seu pai morrer de exaustão e dois irmãos na câmara de gás. A mãe desapareceu. Sobreviveu e na prisão criou sua terapia, a Logoterapia, toda baseada no sentido existencial da vida. Famoso mundialmente, ele rejeita toda psicanálise por ver nela uma desumanização. --------------- Depois explico.

O ERRO QUE ACERTA

Não é a nota que voce toca que é a nota errada, é a nota que voce toca depois que faz com que soe certo ou errado. ----- Essa frase é de Miles Davis. Leia mais uma vez e entenda a profunda abrangência dessa fala. Miles fala de música. Gênios como ele erravam e transformavam o erro em acerto. Voce percebe isso ao vivo. O erro era porta de entrada para outra harmonia. Novo beat. Poucos músicos fazem isso. No rock Jimi Hendrix fazia o tempo todo. Mas, e a vida? Não é seu erro que define sua vida, é o que voce faz depois que transforma esse erro em acerto. Ou confirma o erro. Irremediável. ----------------- A maioria das pessoas insiste no erro e faz dele apenas isso, um erro. Outras tentam o consertar, e fazem desse erro apenas um remendo. Mas o gênio, esse faz do erro um acerto. É o livro que tinha tudo para ser um fracasso, mas que se torna arte. É o filme, todo cheio de erros, mas que dá certo. A pintura, que subverte normas, e vira nova tendência. E é sua vida, aquele erro que abre uma nova rota. --------------- Portanto, quando o erro acontecer, não se fixe nele. Use a criatividade para harmonizar o passo seguinte com o erro. Sem tentar remendar e sem pedir desculpas não cabíveis. Entrando no ritmo e saindo com swing. A batida certa. E dançar.

O SEGREDO ESTÁ NA COR

No livro sobre drogas que li, Portas da Percepção, Aldous Huxley, é dito pelo autor que a cor é a entrada para o mundo do "lado de lá". Ao final do livro Heaven and Hell, Huxley fala claramente que existe um mundo pós morte e que esse mundo, sem ego, é feito de cor. Assim, muito mais que Rembrandt ou Constable, artistas que Huxley admira sobre todos, é Matisse o homem que chegou mais perto do que seria o mundo do além. --------------- Isento de drama, sem ação, sem a definição rígida de espaço, de isto e aquilo, é um universo de cores puras, fortes, vivas. Huxley chega à isso através de sua própria mente, nas provas com peyote. Aquilo que ele vê são cores puras, que parecem explodir em potência. Ele não vê pessoas ou coisas, ele vê cores. O cérebro, livre das amarras da razão, bombardeado por noradrenalina, pode ser o que ele é de fato, real. A realidade ao nosso redor é isso, cores aterradoras, infernais e celestiais. Estáticas e unidas em um todo. Matisse. Buda e O Livro dos Mortos. --------------- Tenho uma mãe demente. Sofrendo de alzheimer, ela está hoje com 5 anos de idade, em termos mentais. Ou seja, por um momento que será breve, ela está livre da camada racional-escolar-utilitária da mente. E eu vejo. na minha frente, o que acontece com ela diante da cor. Andando na rua, ela para e entra em êxtase diante de flores vermelhas, diante de rosas amarelas, ao ver um pássaro laranja. Minha mãe é capaz de ver o céu em um inseto azul. Ela nunca foi assim, ou melhor, não era assim desde que eu lembre de a conhecer. --------------- Eu fui assim aos 6, 7 anos. -------------- Ando lendo sobre hedonismo e descobri que sofro de Hedofobia, medo mórbido do prazer. Não vou revelar a voces o porque e como é isso, basta falar que não consigo ter prazer pleno com nada. Minha paixão pelo hedonismo é aquela de quem não conhece o que ama. Hoje acordei as 11 da manhã. Estou tentando ser um pouco mais solto, despreocupado, hedonista. Ao lado de minha cama há uma máscara africana que comprei em 1999. Abro os olhos e me obrigo a olhar para ela por 3 minutos. Ela é de um verde profundo, uma mistura de abacate maduro com um sapo. Há traços de laranka e de vermelho. Lentamente começo a sentir calma, vagar, lentidão. Desacelero. E vem o prazer. Fazia anos, muitos anos, que eu não acordava sem o sentimento de levantar da cama depressa pois há algo a se fazer. Para gente como eu é preciso um esforço para não se fazer esforço. E garanto, 90% da minha vida foi um prazer incompleto, uma broxada. -------------------- Há também uma pequena máscara balinesa em meu quarto. E vejo vermelho e branco, traços em preto puro, laranja claro, amarelo canário. ------------------ Saiba então que olhar longamente uma obra de Matisse é uma terapia espiritual. E é por isso que sempre fui fascinado pelos grandes coloristas. ( Van Gogh não. Há mensagem ali. Ele é muito pouco abstrato ). Não se iluda. O paraíso não é uma aventura e nem uma dança. É uma cor.

PRA QUE SERVE A ARTE?

A arte faz a vida valer a pena. Eis tudo. A arte, mesmo quando fala da morte, da dor ou do tédio, faz a vida valer a pena ser vivida. Isso porque o artista se interessa pela morte, pela dor ou pelo tédio, e faz assim com que mesmo isso pareça ter um sentido. Nem que seja o não sentido. Observe bem o que eu disse: o artista se interessa. Essa a diferença da arte verdadeira do engodo artístico. O artista se interessa, se enamora, se atraca com seu tema. Ele o conhece, tanto quanto um apaixonado, ele o investiga, penetra, dorme e sonha com seu tema. Não há nada de blasé aqui. Como na paixão, ele "acontece", não escolhe. Ele é levado, não vai. E assim faz com que algumas pessoas, seu público, sintam que aquilo é interessante, talvez apaixonante, e a vida se revela na obra. ----------------- Quantas pessoas Matisse não guiou para o interesse? Fazendo-as simplesmente olhar e ver a vida. Apaixonar-se pela cor. Janelas, folhas, mulheres, cadeiras, cortinas, peixes, pássaros, tudo lá, mostrados para nossos olhos e assim nos ensinando a ver e ao ver nos fazendo olhar. E ver. Não via símbolo, Matisse não era simbolista, mas sim vendo o que há para se ver, a verdade da presença das coisas. Há muito para ver, duas cadeiras é muito para ver, um peixe no aquário é o bastante. Engolir com os olhos. ------------- Leio o livro da esposa de Picasso, Françoise Gilot, MATISSE E PICASSO, ela recorda os anos que esteve casada com o espanhol feroz e foi amiga do pintor francês discreto. Ela própria foi pintora e viveu até os anos de 1990. O livro, inspirador, nos dá desejos de viver e de fazer coisas. De criar. Como Gauguin, Matisse sabia que havia um paraíso dentro de si, mas ao contrário de Gauguin, ele não discursava em sua obra, ele mostrava a realidade da cor e dos volumes. Quem olhasse que sentisse a presença da vida. ----------------- Quando Gilot conheceu Matisse ele já era um velho que convaslecia de um câncer. Henri ainda viveu 20 anos pós doença, mas era uma vida dentro de casa, com muitas visitas, muito trabalho, e ocasionais viagens em busca do sol. Picasso o admirava intensamente e ao mesmo tempo sentia ciúmes. Picasso era intenso e inseguro, possessivo e expansivo, amedrontador e vulnerável. Não era fácil. Ele procurava briga e Matisse prezava a paz. ------------------ A partir de um certo momento, talvez os anos de 1920, a arte passou a se orgulhar de ser chamada de " perturbadora". Quando alguém, como eu, ousa falar na utilidade da arte, parece que o artista atual se incomoda. Como se utilitarismo fosse um valor burguês. Eles não aceitam que mesmo uma arte que ofende ou perturba tem a utilidade de nos acordar. Ou irritar. Ao odiar uma arte pornográfica eu passo a valorizar a arte refinada e isso é útil. Mas entenda que essa arte "violenta" ou pornô só será real se for feita por "interesse profundo" e não por outro motivo qualquer. Arte feita por convenção ou para vender uma ideia ou um valor é facilmente esquecida. Como um casaco, nos encanta ao ser visto na vitrine, nos alegra ao ser comprado, e logo desaparece dentro do guarda roupa. ------------------ Quando eu tinha 30 anos de idade e descobri Matisse, ele me trouxe uma vitalidade que eu necessitava muito então. Ele me despertou para a alegria do sol, das cores fortes e do poder do olho. Não foi pouca coisa.

A REALIDADE

As pessoas evitam a realidade. Li um livro sobre isso. De um tal de Keppe que eu não conhecia. Ele me parece um charlatão, mas essa ideia é boa. Acho ele charlatão porque ele não fala o porque de evitarmos a realidade. Consegue demonstrar que realmente a evitamos, mas não diz o motivo. Penso que isso acontece porque o homem é o bicho que teme a morte. Tentamos esquecer dela e para isso criamos distrações. Aterrorizados, somos o único bicho que entende o fim de tudo, lutamos para esquecer a morte e no processo negamos a vida real, a vida onde a morte espreita. Explicação simples, ele evita falar isso e acaba não dando motivo algum. Mas o resto de sua exposição é válida. ------------------ Toda infelicidade decorre da não aceitação da realidade e quanto mais vivemos na fantasia, na imaginação, mais infelizes somos. Toda alegria vive no mundo real, o mundo onde vive nosso corpo. Toda tristeza doentia é fruto de criação cerebral, invenção. Eis a armadilha: desenvolvemos a imaginação para evitar sofrer, e sofremos por perder a vida real. Hoje isso se radicalizou. As pessoas não só imaginam a vida, elas tentam criar uma vida imaginária. Se a realidade é a vida do corpo, e as crianças vivem isso em plena alegria, cada vez mais o corpo é negado, a evidência do que se vê é cancelada em favor de algo criado na mente. Não há a menor possibilidade de alegria nessa condição. Pelo fato, cruel, de que a pessoa passa o tempo todo brigando com o que seu corpo diz. Os olhos dizem: Belo, mas a mente cria um discurso para provar que o belo não existe. O corpo saliva de fome, mas a mente diz que aquilo não é bom para o fígado. O corpo diz quero, a mente dá argumentos para não querer. O corpo vê azul, a mente não aceita e fala verde. -------------- Se voce não entendeu, corpo é seu olho, seu ouvido, sua mão. Corpo é também seu sistema nervoso, seu desejo, seus genes, sua química interna, seus hormônios. Tudo isso fala sem precisar inventar nada e essa liberdade de se inserir na realidade é a única maneira de ser feliz. O corpo adoece e sente dor, morre, sim, isso é triste, mas não é absurdo, não é sem sentido, não é loucura ou neurose. O corpo, como a realidade, tem uma narrativa, um modo de contar o tempo, uma dança. A imaginação apressa isso, ou pior, ignora. Aí a infelicidade. --------------- Então caia na realidade neste novo ano. E não tema ver o que está aí, na sua frente. A verdade.

COMO SER FELIZ

Em 1950, aos 24 anos, chegado ao Brasil, meu pai viu seu primeiro filme. Até então, tudo o que ele vira fora sua aldeia em Portugal. Todas as ruas do mundo eram as ruas de sua aldeia e todas as mulheres do mundo eram aquelas poucas que ele vira. Imediatamente, meu pai descobrira que havia um lugar chamado Arizona e que cem anos antes, cowboys andavam pelo deserto. Meu pai nunca havia visto um deserto. Nunca havia visto um americano. Ele nem mesmo sabia que havia gente com 1.85 de altura. Mais importante, meu pai não sabia que havia mulher tão bonita como Rita Hayworth. ----------------------------------- Meu pai, em 1950, assim como acontecera com grande parte da humanidade a partir de 1920, entrava em um univero duplo: de um lado aquilo que era real, que ele podia tocar, sentir na pele, estar dentro, se relacionar, e de outro o mundo da imaginação, aquilo que era apenas luz, inefável, e que entrando dentro de sua mente modificava o funcionamento de seu cérebro. Não haveria volta. Depois viria a TV. ---------------------------- Uma psicóloga diz que nosso cérebro é uma Harley Davidson, ele foi feito para andar a no máximo 80 por hora. É uma máquina que aprecia o entorno, que flui devagar, que absorve em seu tempo próprio. Hoje, com a hiper conexão à tudo, nossa mente se vê obrigada a andar como um fórmula 1. O repouso é a 120 por hora, o desejo corre a 300. Em um dia, vemos mais mulheres que um homem de 1900 via em toda sua vida. Repito, em um dia, na rua, na TV, na Net, vemos mais mulheres que um homem via em toda sua vida. Nosso cérebro é o mesmo, o que o excita não. Mais enervante para ele, essas centenas de mulheres vistas em 24 horas o atraem, porque todas tentam ser atraentes. Algumas estão nuas. Em um dia ele verá mais corpos nus que Casanova viu em toda sua vida. A ansiedade se impõe. -------------------- Quem se recorda de 1960, ou mesmo 1980, sabe, as pessoas eram mais lentas. Andar era menos apressado, falar era mais pausado. Ouvia-se mais. O tempo era mais longo. Se voce duvida basta ver um filme ou uma série de então. O tempo que ali se faz é mais acelerado que o tempo real da rua e se voce acha o filme ou a série lenta, creia, na rua a lentidão era maior. Esse tempo longo era devido ao fato de que ainda se podia desligar a TV. E não ir ao cinema. Na rua, no ônibus, no trem, voce não levava a tela com voce. Nem mesmo o telefone. Então, quando voce estava na rua voce estava na vida real, queira ou não. Andar de ônibus era ouvir os companheiros de viagem, ouvir o motor, ver a rua, sentir o sol na pele, sentir o calor. Cheiros. Seu cérebro entrava no fluir da vida ao redor, real, voce a tocava, a mastigava, cheirava, ouvia. Na praia o relaxamento era total: vozes distantes, cherio de mar, de comida, ondas quebrandO, o cérebro mergulhado no beira mar. Absoluto. -------------------- Voce poderá dizer, mas e daí? Qual o problema? Que se acelere. Que se veja tudo na tela. ---------------------------- Sim, voce pode escolher isso. Pode? Escolhemos o que queremos fazer mas não escolhemos, nunca, o que desejamos. Isso é Schopenhauer. Desejamos nos ligar, nos informar, saber, e desejamos velocidade, tudo rápido, pra ontem. Produzimos. Produzimos muito. E sofremos. Como nunca antes. Por que? Porque o mundo real, pela primeira vez, parece pouco. ------------------------- As pessoas se expõe nas redes sociais porque desejam fazer parte do mundo que parece melhor, o virtual. Voce viu a menina de 18 anos que comprou um iate, voce viu o homem de 40 que fez um bilhão e voce deseja ser como eles. De repente sua vida, a real, não importa mais. Ela parece limitada, lenta, sem emoção. Voce sabe que existe Uganda e viajar para o Pantanal é pouco. Voce viu a mulher fazer sexo no porn videos e sua esposa não sabe transar. Seu pau parece pequeno. A vida dos outros, a que voce vê nas telas, é fascinante, a sua não importa. Dá pra ser feliz? ------------------------- Nossas melhores lembranças da infancia são aquelas em que estamos completamente ligados ao real. Temo que pessoas com menos de 30 anos não tenham tido essa sensação, mas se voce tem 35 ou 40 sabe do que falo. Aos 6 ou 7 anos, voce está no quintal e a chuva está chegando. Voce sente o cheiro dela e a temperatura cai. O ar fica úmido. Pássaros saem voando. Voce relaxa e ao mesmo tempo sente apreensão. Alguma coisa vai acontecer. O céu escurece, tons de roxo e de cinza. Então as gotas começam a cair. Voce corre pra casa enquanto sua cabeça molha. São esses os momentos da infancia que valem a pena. O que aconteceu? ------------------------ Nosso cérebro, seja obra Divina, seja obra da natureza, é parte deste planeta. E este planeta tem seu modo. Nossa mente, como nosso corpo, tem limites. A realidade é o que nosso cérebro é. Ele processa de um modo analógico, biológico, em seu tempo e seu lugar. Ele é envolvido por sentimentos. Ele aprecia, sente, saboreia, e procura conforto. Para esse saborear, esse conforto, ele precisa usar as mãos, os olhos, os ouvidos. Sentir. Com tempo, seu tempo. O tempo biológico e não o digital. ----------------------------- As mãos são parte central do processo e por isso existe uma diferença imensa entre pegar o papel e desenhar com uma caneta e tocar uma tela, a mesma, sempre a mesma, seja para desenhar, escrever ou ver um filme. Há uma diferença de experiência tátil entre procurar, tirar o disco da capa, ligar o aparelho, colocar o disco para rodar e ouvir a música, ou digitar uma faixa na tela. Ir à estante pegar um livro, segurar ele aberto, sentir o cheiro e o tato da folha ou olhar a mesma tela de sempre. O real é sempre uma questão de toque, de habilidade manual, de aprender a pegar. Isso é o cérebro. -------------------------- Voltando a meu pai, ele sempre soube que aquilo que via na TV era apenas TV. Ele falava isso. Só na TV isso acontece. Outra frase dele era: só em filme.... Por ser de uma geração pré cinema, o real estava sempre presente. E esse real lhe bastava. Havia nele a dor de todo ser vivo, mas em meu pai eu jamais identifiquei a ansiedade ou a depressão que são marcas comuns em todos os meus contemporâneos. Eu brigava muito com ele exatamente porque eu não aceitava seu "comodismo", comodismo que hoje sei ter sido a adaptação ao mundo como ele é, real. Eu era e sou agitado, nervoso, neurótico, sempre insatisfeito. Ele dormia relaxado e um bom almoço o fazia ser feliz. Por que diabos ele era assim? ----------------------- Poque até os 24 anos, meu pai nasceu em 1926, ele nunca fora tentado pelo virtual. Seu mundo era sua aldeia e seu mundo lhe bastava. Houve um choque ao ver o Arizona, o Alasca e Ava Gardner, mas sua mente estava ancorada no bom e velho mundo biológico. Ele não imaginava ser John Wayne. Ele adoraria ser, mas ele sabia que querer ser John Wayne era bobagem. E fim de papo. Sua atenção, e aqui encerro este texto, era toda do mundo real. Muito melhor que John Ford era o bife na mesa. Mais excitante era sua mulher na cama que uma estrela na tela. Ir andar na rua era mais bonito que imagens de Star Wars. Porque sua mente, viva no real, sabia TODO O TEMPO: isso é só um filme. ------------------ Lembro que quando eu tinha 13 anos, meu pai achou uma Playboy escondida no meu quarto. Minha mãe nem sabia que mulheres posavam nuas e meu pai veio conversar comigo. A frase que ele mais me falava era: ISTO É SÓ PAPEL. VOCÊ NÃO VÊ PAULO? SÓ PAPEL. Ah meu velho....voce era saudável....que saudade de gente como voce.....

OS DOIS NEURÔNIOS

Há gente que tem apenas dois neurônios, e por isso enxerga tudo em termos de SER contra ou SER a favor. Explico. ---------------- José mora em Goiás. Nada contra. Ele pegou seu carro, e foi prestar ajuda aos moradores da cidade do Paraná que sofreu a tragédia do tornado. José é bolsonarista. Como pensa o ser com dois neurônios? Sou contra bolsonaro, portanto, sou contra esse tal José. Foda-se ele. A mesma coisa acontece com Pedro. Ele ajuda cães abandonados. E o cara de dois neurônios é contra Pedro porque ele votou em Lula. --------------- Para entender um ser humano, tentar o conhecer, são precisos bilhões de conexões cerebrais e mais uma imensa dose de intuição e de educação. Sim, voce tem todo direito de odiar qualquer um dos dois, mas dê motivo para isso, um bom motivo. --------------- Pensar em termos de contra ou a favor é pensar em termos de futebol, sou contra o Vasco porque sou Flamengo. Fim. Isso serve para torcer, mas não para julgar nada. -------------- Falei em julgar? Eis um belo exemplo! Juizes julgam, mas no STF eles torcem sempre. Tanto que eu tenho a certeza de que voce sabe o veredito antes do julgamento começar. Aliás, até a pena já se sabe. Eles a anunciam em jantares cheios de risos. --------------- Usar dois neurônios também favorece sua paz de espírito, paz hipócrita, mas é um tipo de paz de avestruz. Se centenas de pessoas estão presas por terem invadido um prédio público, sem armas, sem feridos, e pegaram 14 anos de pena sem direito à recurso, voce fica em paz e nem sente pena ao pensar que eles são DO OUTRO LADO e portanto, inimigos. Veja, voce não os conhece, voce não os individualiza, são como ratos, todos iguais. ------------------ Por outro lado, voce pede a individualização de gente armada que atirou na polícia. Voce grita para que cada um fosse julgado individualmente. Na realidade voce apenas torce, não pensa. Eles são dos meus, e são dos meus porque meus rivais não gostam deles. Fim. ----------------------- Eu gosto de Jung. De Henry James e de Nabokov. Adoro Bergman. Cinema francês e Bartok. Bergson e Wittgeinstein. Bebo e nada tenho contra erva em si, odeio o modo como ela é vendida. Sexualmente não creio em fidelidade. Não tenho religião definida. E sou bastante anti esquerda. Porque usando meu cérebro vejo que ela nunca funciona, e no caso brasileiro, é tragicamente mentirosa e desonesta. Me identifico com Milei e Meloni. Acho Trump um cara eficiente e sei que Bolsonaro foi apenas um bobo e isso não é crime. Mas veja, se voce tem dois neurônios eu sou apenas UM CARA FASCISTA. Não interessa meu discurso ou o que faço. Pouco interessa minha história e minha moralidade. Eu sou Vasco e voce é Flamengo. Vamos morrer nos ofendendo. --------------------- Para quem se interessar, a teoria dos dois neurônios é de Olavo de Carvalho, aquele cara que foi me ensinado ser um perigoso nazista e que ao o conhecer descobri ele ser antes de tudo um humanista cristão. Olavo adivinhou tudo que aconteceria no Brasil após a queda da Dilma. Na mosca. --------------------------- Humanos são complexos. Conheça-os antes de os julgar.

eliot e norton

A verdade, utilidade e a beleza. Ao conferenciar numa universidade americana, T.S. Eliot disse, citando o reitor Norton, que a vida de uma pessoa será justificada se ela se guiar por esses três valores. Falar a verdade e viver com a aceitação do que é verdadeiro, fazer coisas que sejam uteis para si mesmo e para os outros, e admirar e dar valor supremo aquilo que é belo. Intelectuais complicaram tudo que ele falou, relativizando a s coisas e questionando o que seria a verdade, o que teria utilidade e qual a importância do belo. A tática é sempre a mesma, derrubar uma realidade transformando o real em simples jogo de palavras. Nós sabemos o que é a verdade, e conseguimos traduzir isso em palavras. Mas não é difícil brincar com frases, inverter sentidos e fazer parecer que a verdade é relativa. ---------------- Para dar valor ao que Eliot disse, seria interessante inverter os valores a título de demonstração. Vamos imaginar que voce se guie pelo que é mentira, o que é inútil e o que é feio. Provavelmente sua vida será mais fácil, voce a princípio irá rir e se divertir muito, mas não vejo como essa falsa alegria possa durar. O grupo do revolucionários de sofá que abundam no mundo de 2025 são exatamente assim. Cultuam o feio, usam a mentira como opção váLida, algo que se escolhe, que tanto faz, e apesar de se imaginarem vitais para a sociedade, são completamente inuteis. Na verdade toda sua vida se resume em ódio aos antepassados, seres que segundo eles, criaram um mundo onde somos obrigados a trabalhar, a envelhecer, a ter deveres. ---------------- Quando Eliot advoga a verdade ele irrita o revolucionário porque a verdade é simples, foge do idealismo vazio, ela é o que se sabe desde sempre. Ser util vai pelo mesmo caminho. Util é tirar o mato da calçada da USP ou arrumar as cadeiras após a aula e não fazer uma reunião de apoio aos palestinos ou sujar as paredes com desenhos pornô. Do mesmo modo, o belo é aquilo que dá dignidade às coisas e às pessoas, que nos faz crer no caráter especial e invulgar da vida. A beleza nos acorda. E para quem faz questão de estar sempre em berço, nada pode ser pior que acordar.

CÈST LA VIE

Ansiamos por um prazer e quando o obtemos tememos o perder. A vida é dor e saber isso pode te ajudar a viver. Estoicismo? Sim. A vida toda tentei ser hedonista mas desde a infância, por causa de minha asma, eu soube que a vida era uma luta para respirar. -------------------- Sentimos dor todo o tempo e só não temos consciência disso porque, felizmente, nos distraimos. O prazer é a distração da dor. E do medo, pois também nos distraimos do medo através do trabalho, do amor, da arte, da filosofia. -------------- Olhe o mundo animal e voce vai entender o que falo. Para a caça viver é temer o ataque. Causa incômdo o olho de um herbívoro. Arregalado, ele está alerta o tempo todo. E o predador não foge dessa sina. Seu final será a fome de não poder mais caçar. A vida do predador é caçar até morrer. Uma guerra sem possibilidade de paz. Nós criamos a civilização para negar a dor. ------------------ Voce pode estar pensando: cara, voce está mal hein? E eu respondo, nada mais que o de sempre. Eu sou assim e já fui bem pior. Desde os 15 anos eu penso que o amor é uma distração da morte. E que não há nada mais doentio que escrever uma obra ou pintar uma carreira para tentar ser imortal. Um homem que passa oito ou dez horas por dia escrevendo tem algum problema, provavelmente uma radical negação da vida. ------------------ Mas não deixa de ser "bonito" e é aí que a coisa surge em seu mistério. ------------------- Pois eu tenho a absoluta certeza de que não é a religião, a arte, o trabalho ou a filosofia que nos redime ou que dá um sentido a tudo isto. É o senso da beleza. A única coisa que justifica a dor é conseguir ver nela não um sentido ou uma expiação, mas sim a beleza que pode haver dentro dela. Eis o mistério do homem, bicho que para sua luta para olhar um amanhecer ou a beleza de um rosto. Pois é a beleza de um pensamento que dá dignidade à filosofia e é o senso estético de uma fé que constroi uma religião. Nada mais belo que a manhã em que voce olha as ruas após sair do hospítal. ----------------- Dizer. definir o que seria a beleza se torna assim fácil: belo é o que não nega a dor, mas faz com que ela seja suportável. Drogas, distrações, negam a dor, mas não são belos em si mesmas. O belo real é o que diz: Isto é um prazer mesmo em meio a dor. ---------------- E por amar a beleza paro por aqui antes que este texto se torne feio.

A TERRA DOS HOMENS OCOS

Começo a ler o vasto livro de Russell Kirk sobre Eliot e seu tempo, e como sempre acontece quando leio sobre um irmão espiritual, me sinto inspirado. Kirk foi um intelectual americano conservador. Como pessoa ele se definia um conservador boêmio, anti burguês. Modesto, ele recusou todo convite para entrar no sistema, seja cultural, seja político. --------------- Voce deve estar perguntando: Um conservador anti burguês? Boêmio? Como pode? ................ Ora, não seja ingênuo! A burguesia do século XX e mais ainda do XXI é aliada à esquerda em todo o mundo. É a burguesia mais poderosa, banqueiros, industriais, artistas bem sucedidos, que mantém a tara moderna por CONTROLE E DESTRUIÇÃO DO PASSADO. Como vemos no Brasil hoje, de uma forma tão despudorada que chega a ser pornográfica, a união do estado, da justiça e do dinheiro graúdo, faz de uma nação uma teia de opressão a qualquer um que ainda pense em DIGNIDADE, LIBERDADE E TRADIÇÃO. Ontem, dia 16 de julho, o congresso mais uma vez foi fechado, um juiz sozinho ( sozinho? Quem o financia? ), calou a boca de mais de 500 parlamentares eleitos pelo voto. Esse é o ato estatal-esquerdista feito pelo mais anti conservador dos sistemas, o brasileiro atual. E ato esse, aplaudido por aqueles que Eliot chamava de OS HOMENS OCOS. Mas quem são esses homens ocos? ------------------ O filósofo espanhol Ortega y Gasset dizia que EU SOU EU E SOU MINHAS CIRCUNSTANCIAS. O que isso quer dizer? Eu, Paulo, sou aquilo que sou: Homem, brasileiro, filho de portugueses, filho de minha família, heterossexual, conservador em política e em economia, amante das artes eternas, pensador, indagador, chato. Mas eu sou também a minha circunstância, ou seja, sou o lugar onde cresci, onde vivo, sou tudo que me cerca, sou o que ouço, o que vejo, o que me toca. Sou isto que escrevo, sou voce que me lê, sou quem me conhece, quem pensa em mim. Ora, o conservador se apega a todas essas circunstâncias. Ele luta pela preservação dos laços afetivos com aquilo que é seu passado, seu ambiente, seu meio, seja o prédio da esquina, o hábito religioso, a peça de arte inviolável. Ele sabe que ao se destruir qualquer objeto que é parte de sua circunstância, parte dele é destruído ao mesmo tempo. Daí nasce o HOMEM OCO. É aquele ser, geralmente da esquerda, mas é também o alegre propagador do " derrube e construa" do capitalismo, que destroi tudo o que seja "antigo e inútil". Fazendo isso ele mata, sem saber, a si mesmo e se torna um HOMEM OCO, sem vínculos sólidos com nada ao seu redor, tendo apenas dentro de si o vazio do desejo de destruir. Não há retrato mais perfeito da esquerda brasileira que essa sanha por acabar com tudo que remeta à tradição e costume. Família, hábito e história. -------------------- Eliot percebeu isso já após a segunda guerra, quando observou que o trauma da guerra levou os ingleses à ansia de mudar e negar. E Kirk sentiu isso nos EUA, quando a partir dos anos 50 tomou lugar o sentimento de que todos somos seres sem raiz. Logo cooptado pelo sistema, esse sentimento "rebelde", boêmio, de ser livre para se auto construir, se transformou em abjeto ato de negar a realidade do passado e assim perder contato com toda a realidade presente. A cultura do século XXI é uma cultura da doença, do homem sem interior, do ato sem história, do gratuito, do sem permanência. --------------- Ao mostrar de modo pornográfico que o congresso nada representa, que o voto é apenas uma brincadeira vazia de poder real, os juízes fazem com que o interior de todo cidadão se torne ainda mais oco, sem referência e sem significado. O simbólico- voto e representatividade- se torna futilidade. A alma morre. Assim, cada brasileiro se torna oco, apenas um corpo vazio em busca de comida, andando em meio ao caos bem organizado e a pobreza externa e interna. Eliot chamava isso de inferno. Voce sabe o que é.

A EVOLUÇÃO CRIADORA - HENRI BERGSON

Este é o livro que deu o Nobel a Bergson. Se o século XIX foi aquele que endeusou a razão, a mecânica e o ateísmo, o começo do XX voltou seus olhos ao oculto. Henri Berson, filósofo francês, foi central nesse movimento. O que ele faz aqui, de modo sedutor, rigoroso, detalhista, é mostrar as falhas e limites na explicação da vida, na evolução darwinista e na própria definição do que seja vida. Ele explica o que é a inteligência, a diferença entre vegetal e animal e a importância da manutenção da memória para assim haver duração, sendo a duração o sentido do humano. ------------------------- O impulso que fez com que o não vivo se fizesse vida é uma das várias questões matreiramente evitadas pelos evolucionistas. Mas não só isso. Se um peixe sai da mar e se torna terrestre, movimento feito pela adaptação ou pela evolução, nada se fala sobre COMO ele entendeu que fora do mar haveria melhor vida. É o velho problema da ciência, ela lida com a morte e nunca com a vida. Para se estudar qualquer objeto, seja animal ou um mineral, é preciso o separar do TODO. A ciência estuda uma estrela ou uma galáxia, mas não o UNIVERSO inteiro. Isso corta toda linha vital, é estudado o coração mas não o corpo inteiro. A física estuda cada ponto percorrido pelo objeto, mas não a trajetória inteira em movimento. ----------------- Isso porque nossa inteligência entende apenas coisa a coisa e não tudo em conjunto. Isso se aplica até em relações humanas, haja visto que vemos um amigo como uma pessoa com características definidas, uma a uma, e não como um conjunto vivo de contradições sempre em mudança. --------------------- Para Bergson a vida é mais que movimento, ela é criação. Há um impulso criativo naquilo que é vivo, o impulso que cria guelras, asas, pés e olhos. A evolução é como uma explosão criativa, milhões de luzes que se dividem no céu ( como um fogo de artifício ). O simples cada vez mais complexo, e isso sem que jamais possamos tocar no segredo: de onde vem esse impulso vital. De onde o fogo que acendeu o pavio. E porque havia tal possibilidade de vida, quem fez o pavio. ------------------ Sim, pássaros de pernas longas caçam rãs em charcos. Mas ele formou uma perna longa enquanto tentava pegar rãs? Ou ele foi atrás das rãs por ter pernas longas? A criação das pernas longas nos é incompreensível, porque não explicamos os milhares de anos de ação para tal mudança ( me parece cômico uma ave ficar milênios tentando pegar rãs enquanto suas pernas se alongam. Seria mais lógico ela desenvolver um bico para pegar minhocas ). ------------------ Usamos um teclado que faz nossos dedos se alongarem ou temos dedos longos e por isso inventamos um teclado? A resposta é óbvia.

O ANIVERSÁRIO DO PRESENTE

O Natal, para muitos, é como um aniversário onde se celebra o presente que se dá ou se ganha, o feriado, mas se ignora o aniversariante. Obra do mundo moderno, uma pessoa típica de 2024 irá dizer que ela comemora o que quiser e que a verdade de um fato É AQUILO QUE ELA QUISER, PORQUE TUDO TEM MAIS DE UMA VERDADE. -------------------- Weeeeelllll....eis a imensa diferença entre o pensamento da direita e da esquerda. Diante de um fato histórico a direita diz, sim, é verdade. Já a esquerda dirá, não, tudo é relativo. Em extremo isso leva ao relativismo moral. Diante de um assassino a direita dirá, ele é culpado porque matou. A esquerda dirá, veja bem, nem sempre matar é um crime. Incesto, roubo, aborto aos 6 meses, a mentira, tudo pode ser relativizado, dependendo de quem o pratice e de quando o fez. ---------------- Isso leva á que? A destruição de qualquer possibilidade de convívio social. Se tudo pode ser discutido, então tudo deixa de ser seguro. A vida se torna um lodaçal onde nenhum passo é firme. ----------------- Antonio Gramsci percebeu que a revolução comunista não se faria mais pelas armas mas sim pela destruição interna da sociedade capitalista. Como? Tomando escolas e meios de comunicação e fazendo do relativismo uma nova lei. Uma lei cínica que tem por alvo aniquilar o convívio pacífico. No extremo, o único crime sem relativismo passa a ser CRER NA LEI. -------------- Roubar é sempre errado e matar é um crime em qualquer situação. Quando a polícia ou um soldado mata, isso é um ato terrível que tem, no caso da manutenção da lei, a permissão da sociedade se for uma morte sem escolha, para manter a saúde do todo. Dez milhões eliminam um para salvar a segurança do todo. É um ato de horror, mas é necessário. --------------------- Para a esquerda nada disso faz sentido. O homem que rouba e mata é tão justificável como o policial que o elimina. Não há lógica alguma nesse modo de pensar esquerdista, pelo simples fato de que se for levado em conta, nada mais irá funcionar numa cidade. Mas é esse o ponto. O objetivo é exatamente esse, destruir a velha sociedade e dos escombros construir o novo, o socialismo sem classes, portanto, sem crime. ( Na verdade haverão três classes, o povo, o burocrata e a classe dirigente, mas isso é ignorado na utopia ). ----------------- O Natal é símbolo dessa luta entre os dois grupos. A esquerda apaga da memória o nascimento do Cristo e a direita tenta manter essa verdade. A esquerda diz bobagens, inclusive erros absurdos como dizer que Jesus era muçulmano. ( O Islã foi criado 600 anos após Jesus nascer ). A mentira é usada quando é pela "boa causa" da destruição das certezas. ------------------- Eu disse certezas? Como é a mente de alguém que não tem certeza de nada a não ser da absolita infalibilidade de sua ideologia? ---------------- Ontem de noite eu tive uma epifania. Ao ver o rosto de Jesus numa tela algo disse em minha mente: é verdade, é verdade, é verdade. Imediatmante meu peito se aqueceu e minha pele se arrepiou. É verdade. È real. É tudo. Bom Natal para aqueles que lutam pela verdade no mundo.

CONVERSANDO COM ROGER SCRUTON - ROGER SCRUTON E MARK DOOLEY. ELE NÃO É NADA DO QUE PENSEI.

Mark Dooley encontra Scruton em sua fazenda na Inglaterra e conversa alguns dias com ele no seu escritório. Essa conversa se torna este livro e este livro vale como uma biografia de Scruton. ---------------- Roger Scruton, homem que mudou minha vida, não é aquilo que voce pensa. Seus pais eram opostos. A mãe, um tipo de ex aristocrata oprimida. Ele a adorava. O pai, um raivoso representante da velha classe trabalhadora de Manchester. Uma esquerda patriota, saudosista, irada, um tipo de esquerda que não existe mais. Scruton, sempre bom aluno, nunca pensou em ser filósofo. Ele queria ser poeta e romancista. E estudou ciências. Em Cambridge, ele entrou por mérito, descobriu um ambiente filosófico. Ao contrário dos outros, ele começou pela filosofia do século XX. Se apaixonou por Wittgeinstein. Depois Aristóteles, para ele o maior de todos e por fim, se deixou tomar por Kant e Hegel. ------------------ Eu disse que ele não é como voce pensa? Não, não é. Scruton morou na França nos anos 60 e principalmente em Roma. Leu Sartre, que ele admira, acha O Ser e O Nada uma obra prima, e foi boêmio. Em Roma ele descobriu ser um conservador, isso aos 25 anos. Até então ele pouco pensava em política, seu amor era a estética, a arte, a escrita. Lia muito Nietzsche. Mas em Roma ele conviveu com os radicais comunistas italianos de então e percebeu que nada tinha a ver com eles. O mesmo fato ocorreu comigo aos 18 anos, se aqueles caras eram de esquerda, bem, eu nada tinha e nada queria ter a ver com eles! Scruton fala uma coisa certeira sobre os hippies americanos que conheceu: " Gente de classe média que achava que se rebelar contra seus pais JUSTIFICAVA SUA VIDA" Toda a vida de um hippie era resumida a odiar seus pais. Scruton diz que tinha motivos de sobra para odiar seu pai, eles jamais se deram, mas não fez disso um projeto de vida e nem saiu pelo mundo se orgulhando disso. ----------------------------- Eu não terminei de ler o livro, mas estou gostando tanto que tive de escrever este pequeno texto. Estou na parte em que Roger volta para a Inglaterra e descobre que a educação inglesa, é 1980, se encontra tomada pela esquerda. O ensino passa a ser encher a cabeça dos jovens com frases revolucionárias que não fazem sentido nenhum. --------------- Depois conto mais.

DOGMA E RITUAL DA ALTA MAGIA - ELIPHAS LEVI

Não é um livro satânico. Editado no meio do século XIX, reeditado várias vezes, é provável ser este o mais sério e enciclopédico livro já escrito sobre o tema. Ele fala de todos os temas mágicos: fantasmas, adivinhações, maldições. Sua filosofia é esta: o poder é atingido pelo absoluto controle da mente, pela fé que é foco, pela certeza total e completa. Magia é vontade. E para se ter essa vontade irresistível é necessário dominar seus pensamentos, sentimentos, atitudes. O universo, cheio de almas, de seres, é comandado por quem detém essa força. Nada mais que isso. Por 500 páginas, ele destila exemplos, lendas, histórias, fatos. A imaginação é real, essa uma de suas frases que parecem tolas mas que revelam uma verdade. O que imaginamos já é real pelo fato de ser pensado, pois pensamentos fazem o mundo, assim como palavras modificam a realidade. É um livro inspirador, pois mesmo que voce despreze tudo que ele fala, há algo de tão vasto, tão grande, tão desafiador aqui, que voce se vê entrar numa outra onda, outro ponto de vista. Prove-o.

A NATUREZA HUMANA - ROGER SCRUTTON . E SOBRE UM TURCO.

Quando vemos uma pessoa temos a imediata certeza de que somos um EU e que ela é um VOCE. Mas ao mesmo tempo, sabemos que ela nos vê como um VOCE e que ela é um EU. Mais que desejar, travamos contato com o interior dessa pessoa, o exterior após um primeiro momento se torna aquilo que ele é, uma persona. Mais que a razão, o que define um Humano é essa certeza de ser um Eu e de estar vivendo em meio a VOCES. E assim, saber que há dentro deles a mesma realidade que há dentro do meu EU pois eles são seus próprios EUS. Este é o livro mais curto de Scrutton, e ao mesmo tempo seu texto mais difícil. Psicologia é o que norteia seu pensamento, e ele cita Wittgeinstein e Husserl, Descartes e Schoppenhauer. ------------ No mundo deste século há um movimento, proposital, de se quebrar essa corrente humana. A redução de todo fenômeno humano a simples hábitos evolutivos, faz com que a interioridade se reduza à um composto de genes e a subjetividade se torne mera evolução. O humano é aquele que ansia por ser livre e ao mesmo tempo participante de grupo, é o que se submete à lei por vontade própria e o que deseja aquilo que se esconde. Reduzir tudo isso à mera adaptação ao meio é matar aquilo que nos faz imensos. ---------------- Repare que tudo na modernidade tenta nos diminuir. Desde uma frase como " Diante do cosmos somos nada", até " Eis onde termina toda ambição", não há slogan que não procure incutir a certeza de nossa insignificância. Pior ainda, movimentos organizados como o que coloca um boxeador homem, que se acha mulher, em um ringue com uma mulher nascida mulher, reduz tudo à aparência, um tipo de brincadeira onde se ele se maquiar e usar roupas de mulher, será magicamente uma mulher. Não há modo mais eficiente de matar nossa interioridade que repetir incessantemente que a cor da pele me diferencia de voce, que o modo como me visto me faz diferente do que sou por nascimento, que posso ser me produzindo por fora hoje e agora. ----------------- Nessa absurda olimpíada, um atirador turco ganhou uma medalha de prata, e estranhamente ninguém fala do vencedor, mas apenas do turco. Dikec Yusuf. Isso porque ele competiu de chinelos, sem óculos e mira especiais ultra modernas, fuma durante a prova, tem barriga, e começou a atirar para ter o que fazer com seus filhos. Esse homem nada mais é que um macho de 1980 e por isso causa impressão ( Messi antes de conhecer Neymar era também um cara típico de 1980 e isso causava impressão ). Há nas pessoas uma saudade não assumida do pai típico, do chefe, do líder despretensioso. Mais que isso, da simplicidade sem afetação. Dikec parece adorável porque a imagem dele, um VOCE que vive dentro de nós, tem encontrado poucos Dikec por aí. Ele fumou um cigarro, tossiu e fez seu trabalho. Sem discurso, sem parecer inumano, sem representar grupo nenhum.

A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS - SIGMUND FREUD. A SAUDADE DA ÉPOCA DA RAINHA VITÓRIA

A popularidade de Freud se deve a um fato muito simples, é divertido ler seu livro. Ele tem tudo aquilo que fazia e faz o sucesso de um volume, tem suspense, sexo, mistério e algum horror. E parece moderno. É uma leitura voluptuosa. Como é a leitura de seu contemporâneo Sherlock Holmes. Freud é o Holmes da alma e como tal deve ser lido. Ele vai ao local do crime, recolhe pistas e soluciona o mistério. Por ser o autor do livro, é claro que ele sempre consegue resolver o problema. Freud, como dizia Bloom, é um romancista. A psicanálise, longe de ser uma ciência, é tentativa de transformar romance em vida real. Ela é aquilo que Freud dizia ser a religião, um consolo para a dor. E como tal, tem sua validade, pois às vezes ela alivia. Mesmo que para isso devamos crer naquilo que o autor narra. ----------------------- Meu amor pela psicologia foi conscientizada na noite em que vi, aos 15 anos, o filme Freud de John Huston pela primeira vez. O que me atraiu no filme foi sua ambientação tão vitoriana ( não conheço filme mais Europa 1890 que esse ), seu clima de filme de Sherlock Holmes e o heroísmo destemido de Freud. Ele parece um heroi. O heroi feito sob medida para um pensador, um heroi que age pela palavra. -------------------- Dizer que um sonho é SEMPRE a realização de um desejo é tão arbitrário quanto dizer que um sonho é a materialização de lembranças de outra vida. Não, não ria. Eu posso dizer que essas lembranças foram transformadas e censuradas e que surgem, em sua verdade, apenas com a ajuda de um xamã. É isso que incomoda em Freud. Tudo o que ele diz nos seduz, e algumas coisas eu julgo muito verdadeiras ( o ódio entre irmãos, a rivalidade entre machos, a criança capeta ), mas são verdades conhecidas desde sempre, Freud apenas as sexualizou. Ele poderia ter dito que uma criança tem um instinto de duende, ou de bicho selvagem, o resultado seria o mesmo que dizer que ela já tem desejo sexual. A criança se apega ao seio da mãe porque é macio e doce, não necessariamente porque ela tem desejos incestuosos. Assim como mostra o pênis como ato que faz os adultos reagirem à ela. Claro, essa é apenas minha visão. Mas o que lemos é também apenas a visão de um homem, Freud. A diferença é que ele é um gênio da escrita, e eu não. --------------------- Freud cria um mundo onde tudo faz sentido. Como Conan Doyle ou Henry James, as coisas se encaixam e aquilo que não se encaixaria é jogado fora. Se a doença mental é a perda da capacidade de fazer sentido, entrar no mundo de Freud pode ser curativo. Ele te dará um sentido. Ou não. Depende de sua disposição a crer nele. Há um momento em que ele fala de que Édipo fora interpretado erroneamente como uma parábola que descreve o poder do destino sobre os homens...well...qual a prova de que a visão de Freud seja a correta? ----------------- Jung perto de Freud é incomparavelmente pior autor. Nada há nele de romancista. E nem de cientista ( nenhum dos dois faz ciência ). Mas eu me acostumei a ver cada dado dito por Jung ser exaustivamente demonstrado por N relatos buscados na mitologia, religião, antropologia e filosofia. Jung é tão chato por isso, ele não narra nada, apenas enfileira suposições. Freud é totalmente o oposto. Ele pesquisa casos, encontra pistas e ilumina soluções. É o heroi de seu livro. ---------------- Não pense que estou, como fazem Nabokov ou Scrutton, condenando a arte do psicanalista. Eles são extremamente uteis e fiz terapia por anos. Admiro muito aqueles que são corretos. Um bom profissional traz consolo, sentido, faz com que o kaos mental se organize rumo a um objetivo. Não importa se Freud descreveu nossa mente como aquilo que ela é de fato. O que interessa é saber que ele inaugura algo que tem ajudado muita gente. ------------------- Se lido como uma interessante peça de arte da escrita, este é um grande livro. Lido como a verdade revelada, não faz muito sentido.

RETRATOS DE MEMÓRIA E OUTROS ENSAIOS - BERTRAND RUSSELL

Encontro um livro da Companhia Editora Nacional, publicado em 1958. Primeira surpresa, vejo que a editora tem 22 livros de Russell em catálogo. Outros tempos... ----------------- Russell nasceu em 1872 numa família de longa linhagem aristocrata. Estudou matemática e filosofia em Cambridge e ao longo de quase 100 anos, ele viveu até 1970!!!!, lúcido e produtivo, Bertrand Russell foi o intelectual central na cultura da Inglaterra. É famoso por sua obra, mas tembém por sua defesa da liberdade, da paz, da civilização. Estes textos, escitoe por ele aos 80 anos de idade, versam não só sobre fatos de sua vida, como também sobre política, educação, psicologia, filosofia e lógica. Ele fala também sobre pessoas que conheceu, seu avô que nasceu na época da queda da Bastilha e foi ministro, e gente como John Stuart Mill, Hegel, Lawrence, Shaw, Orwell, Wells. ------------- É pedagógico ler Russell porque ele escreve usando algo que atualmente não se usa: a lógica. Em estilo simples e conciso, ele nunca joga frases sem sentido, tudo tem de possuir um sentido claro e único. Quando ele fala de Liberdade, por exemplo, ele explica que liberdade é essa. ( No caso, a possibilidade de ter, fazer, falar e se mudar ). Socialista Fabiana, ou seja, não marxista, Russell faz ataques demolidores contra o comunismo. " Não posso aceitar nenhuma linha de pensamento que nasce no ódio. E tudo no comunismo é movido pelo ódio. Eles têm por objetivo a destruição e nunca apresentam nenhuma ideia sobre como construir. Não têm amor pelos pobres, mas antes um imenso desejo de destruir a riqueza". Depois dessa, nada mais há se falar sobre a coisa. -------------------- Russell não concorda com Hegel, que acha obscuro e metafísico, nem com Kant, que faz mero jogo de palavras. E talvez o melhor texto seja sobre Descartes. De uma maneira lógica ele demonstra que a frase " Penso, logo existo", não faz qualquer sentido. Russell demonstra, de modo sempre elegante, como se define o pensamento em um mundo pós quântico. -------------- Ele defende o tempo, antes da Primeira Guerra, em que se acreditava que o mundo evoluiria de modo lento, gradual e ordenado. Tempos felizes, otimistas, em que se acreditava que o destino do mundo era se tornar todo um tipo de Inglaterra, nações de parlamentos liberais. Russell diz que para ele é difícil aceitar um mundo tão diferente de sua juventude ( ele foi jovem em 1890-1910 ), um mundo, em 1958, que sofria a ameaça da Bomba, do totalitarismo, da falta de liberdade. ------------------ Várias vezes Russell fala de horrores de 1958 que são realidades ainda mais horrorosas hoje. Já na época ele percebia que " quanto mais organizada uma sociedade, mais pergio corre a liberdade, pois a vigilância aumenta, alimentada por burocratas que vivem dessa organização". Mas Russell é um otimista e diz que a vitória final é sempre do bem, isso porque o mal necessita de opressão e o homem só atinge alguma felicidade quando livre. Ele foi um grande, grande homem. PS: Socialismo Fabianista é uma corrente econômica que almeja e distribuição do bem estar sem a destruição da classe média. É um tipo de distribuição de lucros. Os socialistas marxismos os acham ingênuos. Os fabianistas achavam os marxistas utópicos e maldosos.

VOCE AINDA VAI TER SAUDADES DA REALIDADE...E NÃO HAVERÁ VOLTA

Recebi hoje um texto de um amigo e ele fala sobre a realidade, sobre o risco, sobre as relações reais. O que me inspirou a isto que agora escrevo. ----------------------------- Me relaciono com uma mulher muito, muito mais jovem que eu. Ela tem 26 anos. Ou seja, em 2008 ela tinha apenas 10. Falo 2008 porque foi quando entrei no orkut. Para ela, orkut é coisa da infancia, como era a TV para mim. ------------------- Pessoas com grande diferença de idade sempre enfrentam o choque de gerações. Mas entre eu e ela existe mais que um choque, nós somos de mundos tão diferentes que o choque nem acontece. Tento explicar o que acontece. -------------------- Mesmo a conhecendo tão bem, há algo nela que eu não consigo captar e nem mesmo dar um nome. Não brigamos e levamos tudo na razoável paz, mas falta alguma coisa. Nunca senti isso com mulher nenhuma. Já sofri, fui apaixonado, enganado, já me perdi, mas agora sinto algo vago, sem força, algo fantasmático. Como se uma sombra, mancha, algo que está mas não está. Me incomoda, mas não há como resolver com ela, pois ela nem percebe sua existência. ------------------- Então, ao ler o texto que me foi enviado, sinto algo. Algo que tem a ver não só com ela, como com todas as pessoas com menos de 30 anos com quem me relaciono. Eles têm POUCO CONTATO COM A REALIDADE. ----------------- Isso pode parecer tolice minha, afinal, é a geração que mais vê crimes ao vivo na rede, tragédias em tempo real, é a geração que mais fala da fome no mundo, da ecologia, dos direitos das minorias etc etc etc. Mas....isso tudo é informação, não é vivência. Mesmo que ela vá à guerra na Ucrânia, essa será uma experiência midiática, pois ela irá lá embuída de discursos já feitos e sentirá, e aí está a tragédia de sua geração, ela sentirá aquilo que ela ACHA QUE SE DEVE SENTIR. ------------------------ Mesmo sendo inteligente e tendo vindo da classe social mais sacrificada, eu sinto, e agora percebo, que ela vive com um pé SEMPRE fora da realidade. Ou melhor, uma perna fora. ---------------- Assim, quando vejo um por do sol, o que ela vê é a chance de uma foto. Quando servem um belo jantar, enquanto eu começo a comer, ela noticia nas redes o jantar. No meio de uma conversa séria, em que ela chora e o assunto é ela mesma, ela vê o que acabaram de mandar para ela, e então volta ao assunto do agora. É uma pessoa que nunca está aqui 100%, e pior, ela não sabe disso. Lendo sua mente espera saber o que está acontecendo lá longe, viajando ela pensa no que ficou aqui e aqui ela pensa no que vai ver além. Sua presença é leve como gás. Não há solidez, não há entrega absoluta ao momento, não há realidade. Desse modo, a sensação que tenho é que preciso, para estar com ela, jogar fora uma parte imensa de mim mesmo, e a falta que sinto é a falta disso, do mundo real, o mundo que acontece diante de meus olhos e não aquele intermediado por uma tela. ---------------- É irrecuperável. Pois assim como minha geração não tem consciência de sua pressa e do barulho em que vive e viveu sempre, eles não sabem que o mundo onde vivem nunca é o AGORA, mas sim o OUTRO LUGAR. ----------------------- Pior, aquele que vive ainda em uma razoável dose de realidade tende a irritar profundamente os FORA DO AGORA. Para eles, alguém como eu parece histérico, emocionado demais, sólido, pesado, uma presença que ameaça por parecer "violento", a violência do que vive aqui, na solidez sem fantasia. --------------------- No mundo real quando chove voce se molha e procura um abrigo. No mundo deles, quando chove voce se alegra pelas plantinhas, se preocupa com enchentes, pensa nas nuvens e na possível gripe. No meio de tanta coisa, voce não sente que está "apenas" molhado. O aqui da chuva e o agora da água fria. ------------------- O texto que li quase nada tem a ver com aquilo que falei aqui, mas ele catalizou esta minha percepção. ------------------ Quanto ao sexo...bem...para ela o sexo é apenas um gozo. Para mim é a coisa mais misteriosa do universo. E estranhamente, ele é mais real para mim, por ter peso e custo, e é quase nada para ela, por significar apenas o mesmo que comer um hamburger ou ir ao cinema. ------------------- Termino dizendo que as gerações futuras sentirão uma estranha tristeza de alguma coisa que não saberão o que é. Assim como nós sentimos uma vaga tristeza sem nome, talvez saudade de Deus ou do mundo da caça, eles sentirão algo pior: saudades da realidade. Saudades de quando se vivia e não se via.

O NASCIMENTO DA TRAGÉDIA - NIETZSCHE

Puxar a longa gaveta de ferro e aspirar o cheiro das fichas velhas, cada uma com as informações e o código de cada livro. Entregar a ficha à bibliotecária e pegar então o livro, no caso um pequeno, velho e gordo livro de capa marrom, dura, onde se lia O NASCIMENTO DA TRAGÉDIA. eRA 1992, e eu saía da biblioteca da FIAM, minha faculdade, rumo ao quintal da minha casa, onde debaixo do sol pálido de maio, vento frio, eu leria o texto em duas tardes. ----------------- Releio hoje, tanto tempo depois e é claro que ele não causa o mesmo efeito que causou naquele jovem, eu, dos anos 90. Nietzsche é romântico, mesmo odiando o romantismo, e sua empolgação apaixonada não me atinge como então. Um filósofo que nunca parece frio, eis sua grande diferença. Quem procurar esse calor em outros filósofos ficará perdido. Pois o alemão é dionisíaco, ou procura ser, é aqui que ele faz a distinção entre arte de Dionísio e a de Apolo. Uma sendo solar, correta, ingênua, otimista, e a outra pessimista e do transe orgiástico. Os gregos teriam se tornado cultores do belo e da harmonia apenas após viver o mundo de Dionísio, e o teatro teria sido o instrumento a fazer esse percurso. --------------- A música, a mais dionisíaca das artes, é reflexo da condição espiritual de um povo e de uma nação. -------------- Basicamente é isso, mas tudo escrito na prosa, ainda não poética, de Nietzsche. É seu primeiro e mais acessível livro.