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AION, ESTUDOS SOBRE O SIMBOLISMO DO SI-MESMO - JUNG

Escrito na fase mais madura de Jung, eis o texto que explicita todo o estudo do self do psicólogo suiço. Demonstrando uma erudição que nos deixa abismados, ele traça um panorama que vai desde 3000 antes de Cristo até o iluminismo. Cabala, gnosticismo, astrologia, antropologia, alquimia, politeísmo, são centenas de citações, de nomes de autores, de teorias, de experiências, de conhecimento. Começando pela simbologia do peixe e do signo de peixes, ele adentra, sem medo, em um universo que fala de deuses do Egito, entidades desconhecidas, sonhos, artes perdidas e livros enigmáticos. Tudo isso com um sentido: o encontro da alma e do self, self sendo a totalidade do ser, condição que poucos encontraram. --------------------- Jung demonstra como tanto o marxismo como o modo de vida americano são dogmas de sociedades que perderam o sentido, estilos de vida que exigem obediência e fé política, no caso da esquerda, ou ansiedade competitiva, no caso americano. Destaco isso em Jung porque em 2026 se fala de esquerda e direita como opostos, mas para Jung eles são o mesmo,apenas com personas diferentes. Ambos negam o individualismo autêntico. -------------------- Jung diz também, e nisso ele se parece com um conservador, que o encontro do consciente com o inconsciente só se dá dentro da tradição cultural do lugar onde voce nasceu e foi criado. Para um ocidental, não há como encontrar o self usando para isso o budismo ou o islamismo. São séculos de cristianismo e milênios de paganismo. Esse é o mar onde nossa alma nada, esse o caldo onde ela se alimenta, esses os símbolos que falam sua lingua. -------------------- O que Jung nos dá é a consciência da riqueza ilimitada que vive dentro de nós mesmos e de como esse tesouro é perdido ao longo de uma vida. Todos temos uma alma para ser entendida e todos temos uma vida que, pricipalmente agora, pede para que a ignoremos. Jung cavou bibliotecas inteiras atrás de apoio às ideias e intuições que brotavam em sua mente e que surgiam nos sonhos de seus pacientes. Nada ele deixava de pesquisar e nesse sentido ele foi livre de preconceitos. Sua curiosidade era sem fim. Este livro é, de tudo que dele li, o mais satisfatório.

O SONHO E O MUNDO DAS TREVAS - JAMES HILLMAN

O que a noite é pequeno, na luz do dia será grande, e aquilo que durante o dia é ínfimo, de noite será gigante. Essa frase é de Jung e serve como guia para esta obra prima de James Hillman. ------------------ Um analista quando decifra o sonho de um paciente, ele supõe o significado do que aparece no sonho. E ao supor, ele arranca a imagem de seu mundo, onírico, e a transforma em coisa do dia. Ilumina, traz ao ego. O ego então absorve a imagem e se expande. O sonho como tal não mais respira. A imagem, que é imagem e não alegoria, que é imagem e não narrativa, desaparece. ---------------------- Sonhos são a imagem da alma e alma vive no Hades. Almas, todas, vivem dentro, dentro da Terra, dentro da mente, dentro do infinito. Cavamos para a encontrar. E com ela encontramos a morte. ------------- Para entender isso é preciso deixar de lado 2000 anos de cultura critã, onde a morte é o oposto da vida, o mal o oposto do bem, onde todo oposto é uma escolha. Aqui morte e vida são uma via unida. Uma pressupõe a outra, uma existe na outra. A morte está na vida, a vida na morte. ------------ Este pensamento não é oriental, é grego, tragicamente grego. Mas, ao contrário de Nietzsche, Hillman não glorifica o heroi. O heroi, ativo, sempre fazendo algo, foge da morte, nega sua alma. Hillman demonstra em Hercules o modo como ele nega toda sua interioridade ao fugir, o tempo todo, de tudo que lembre interioridade. Ele mata, ele limpa, ele ordena, ele faz. Ele não quer morrer. -------------------- Como dizia Sócrates, nada sabemos, nada sabemos sobre a alma e sobre o sonho. Nós estamos nela e não ela em nós. Nossa sombra nos move na realidade que é uma imaginação. Parece complicado? Leia de novo. ------------------ O pai, a mãe que encontro no sonho não é meu pai, não é minha mãe. Nem mesmo é um símbolo de meu pai. É uma imagem psíquica. Devemos entrar no sonho e estar dentro dele. A questão aqui não é Por Que ou O Que, a questão é COMO? Como é meu sonho. ------------------ O cristianismo venceu a morte e transformou os seres de Hades em demonios. Desde então vivemos uma tara por explicações, por clarear as trevas. Nada mais pode ser mistério. Tudo deve ser colocado à luz. A morte é então vencida pela ressurreição, a alma se faz espírito, ela vive no céu, claro. O mundo da morte se torna tribunal. Humano. Ego. ------------- Extremamente insatisfatório descrever o texto de Hillman como aqui tento fazer. Então o que posso falar, para quem se interessa pelo tema, é que leia o livro. Hillman não desmonta a religião cristã nem a teoria de Freud ou Jung, ele aumenta. Recupera o que foi perdido usando o que agora existe. Amplia nossa visão da vida ao trazer a morte de volta ao centro.

O LIVRO DO PUER - JAMES HILLMAN

São conferências de Hillman reunidas em livro. Nascido em 1926, Hillman estudou com Jung nos anos 50. Professor em várias universidades americanas, falecido em 2011, Hillman levou adiante o legado do mestre suiço. Aqui temos a oposição entre Senex e Puer. Senex sendo o tipo saturno, pesado, pessimista, antigo, teimoso, construtor, e também astuto, sexual, demoníaco e pai do Olimpo. Puer, mercúrio, é o jovem eterno, irresponsável, veloz, alado, trasnformador, mentiroso, ladrão, auto destrutivo. Em nossa alma viveriam os dois tipos, tendo um predominância sobre o outro. --------------- O texto é vasto, cheio de refências, e espanta o modo como Hillman consegue ser poético sem nunca parecer raso-barateador. Ele não teme ir além. ------------------------------------------ Algumas afirmações me surpreenderam e conseguiram me convencer. Por exemplo, o fato de que todo heroi é heroi para a figura da mãe. Puer sempre, o heroi luta para dignificar a mãe. Isso me surpreendeu pois sempre vi o heroi como aquele que superou a figura da máe. Vale avisar que Hillman não advoga a complexo edipiano como fato central da psique. Para ele, apenas algumas pessoas vivem esse complexo, muitas outras tendo complexos realtivos a Marte, Vênus, Mercúrio, Hercules, Odisseu. Sim, os mitos dos deuses, todos, de toda cultura, são centrais para Hillman. Somos regidos por esses deuses e a crise de sentido de nosso tempo está ligada ao abandono de todo sentido de divino. -------------------------- A cura é a decadência. Hillman vai contra as doutrinas que pregam a paz interior, a unificação. A cura vem do conflito, da complexidade, de se ouvir as várias vozes internas. Aceitar não um Deus, mas deuses, cada um em cada recanto. O puer, para evoluir, deve apodrecer. Ficar doente fisicamente, viver sua queda. Nós não nos livramos dos complexos, eles que desistem de nós. ----------------- Ao dizer que o problema do puer é devido à mãe, a psicologia deu ao puer um complexo materno. O problema do puer não é a mãe, é a oposição senex-puer. O velho e o novo. Quando surge um complexo devemos perguntar a que deus devo sacrificar meu sintoma. ------------------- Há uma bela imagem que Hillman desenvolve: se um aborígene nos perguntasse a que servimos, o que move nossa ida à Lua, nossas cidades imensas, nossas construções, teríamos de dizer que não são os deuses, mas sim o ego asssutado pelo tédio e pelo medo da serpente, a serpente sendo o universo irracional dos deuses e da alma. ------------------- Há já ao final do livro, uma palestra onde Hillman cita E.M.Forster, o grande romancista inglês dos anos 20 e 30. Tentando diferenciar espírito de alma, Forster diz que escritores do espírito escrevem bem e constroem sentidos. Dostoievski, Tolstoi, Dickens são do espírito. Autores da alma se perdem na escrita, seus livros são cheios de digressões. O espírito não possui humor, a alma ri. O espírito é um profeta, a alma fantasia. --------------------------- Outra bela imagem deste belo livro é o contraste entre monte e vale. O espírito vive no monte, seja Olimpo, monte das Oliveiras, o Tibet. Ele vive no alto, no rarefeito, no limpo, no iluminado. A alma é do vale, do escuro, da sombra, do pântano, da névoa. O espírito é uno, a alma é multi. ---------------------- Não pergunte O Que ou Como, pergunte Quem. ------------------- Por fim, falando da Anima, Hillman fala que a alma é história, é passado, é continuidade e o espírito é o agora sem tempo. ---------------- Termino falando de uma cena histórica, crucial, que mudou o ocidente para sempre. O concelho de Niceia que em 835 criou a prioridade do espírito sobre a alma. Como? Houve um conflito entre duas fés. Um grupo pensava que as imagens eram sagradas e o outro grupo dizia que toda imagem era pagã. No concílio, os bispos e o Papa decidiram que as imagens da cruz e dos santos poderiam continuar nas igrejas, MAS elas seriam louvadas como imagens, com a consciência de serem objetos, retratos, ALEGORIAS de uma história divina. Ou seja, retirou-se da imagem seu PODER mágico. Antes, a imagem de um santo era o santo em presença. Um objeto era a morada de um poder real. Agora era somente uma obra de arte, mais nada. Foi nesse momento que a alma se retirou para o inconsciente mais profundo. Ela não mais podia ser vista, presente, diante de seus olhos, numa imagem, ou em um lugar. O espírito no alto e a alma onde? Sem saber, a igreja católica assinava alí o começo de sua dessacralização. O espírito, racional, provável, prático, vencia a alma, obscura, multipla, fantasiosa. ---------------------- O livro, este, de James Hillman, é uma obra prima.

MUNRO, HAMMETT, ZEN, GRAVES

É incrível como em seus contos, Alice Munro faz com que todos os homens pareçam alienígenas. Não são pessoas más, e nem tampouco boas, são antes seres distantes e inescrutáveis. Vencedora do Nobel de 2014, Munro está no mundo que nega Jane Austen com paixão. Austen tecia maravilhosos tetratos de homens tímidos, perdidos, tolos, havia uma tentativa sincera e muitas vezes bem sucedida, de retratar um homem com simpatia, empatia e compreensão. No universo árido de Munro, isso se foi. No mais, é aquela arte anti vital que se faz neste tempo de destruição. 90% de romances, poemas, filmes, pregam a tristeza como regra e a solidão como destino inescapável. Destruir a masculinidade criou uma raça de homens facilmente dominaveis e mulheres individualistas ficam perdidas na solidão sem rumo. Como voltaremos a ser livres? Não vejo como. ----------------- Leio também Red Harvest de Dashiel Hammett, onde um tira, por razões pessoais, tenta livrar uma cidade da corrupção que a domina. Estamos no mundo dos anos de 1930, e ao contrário de 2026, aqui se valoriza o indivíduo que realiza. O tira age por vingança pessoal. O estilo de Hammett está todo lá, seco e viril. ------------------- Mokusen Miyuki é um psicanlista japonês especialista em Jung e no Zen. A Doutrina da Flor de Ouro explica o confucionismo, o Taoísmo e o Zen. Tenho aversão pela filosofia oriental, ela é toda embrenhada na passividade e na interioridade, enquanto o ocidente sempre viveu no individualismo e na exterioridade. Basta lembrar que um cristão atinge a luz por suas obras e aqui, no Tao, a luz nasce na quietude a na indiferença. De qualquer modo, por detrás do meu mal estar, percebo a sabedoria de se sentir, se intuir a verdade dentro de si mesmo. O Tao seria a ponte que une o Eu ao inconsciente. ----------------- Começo agora a ler Eu, Claudius, uma biografia semi ficcional de Robert Graves, escrita em 1934. Para quem não sabe, Graves chegou a ter status de gênio em seu tempo e hoje é figura bem conhecida nos países de língua inglesa. Este livro é guia de obras que vieram depois, como aquelas de Yourcenar e Vidal. Parece muito bom.

ALQUIMIA - MARIE- LOUISE VON FRANZ

Acenda um cigarro. Primeiro veja a chama do isqueiro. Tire o cigarro do maço. Coloque na boca. Acenda. Solte a fumaça e veja-a subir. Respire fundo. Olhe o cigarro queimar. Observe a transformação da brasa. E pense. Sua mente, levada pelo ritual do fumo, entra em um novo modo. ------------- Isso é a alquimia, e Von Franz consegue explicar um assunto tão complicado. Para isso ela cita montes de textos árabes, egípcios, europeus medievais. O livro é uma coleção de palestras, cinco, dadas pela assistente de Jung no fim dos anos 50. Lendo este livro, longo, voce afinal começa a entender o que é a alquimia. -------------- Seria leviandade minha tentar dar uma geral em assunto tão delicado no exíguo espaço que uso aqui. Alquimia envolve a criação do mundo, o funcionamento da alma, a lingua do inconsciente, a transformação da vida. Lida com o feminino, o masculino, o racional e o intuitivo, tudo isso acontecendo dentro de uma redoma de vidro, de louça, de metal, em um laboratório, na presença de um alquimista e seu assistente. Nada há de milagroso ou de mágico, é entrar dentro da mente enquanto se faz uma transformação química, é como quando voce se percebe fora de si enquanto vê a sopa ferver, fuma um cigarro, observa uma fogueira. O que acontece fora provoca uma reação dentro de voce.

A LOVE SUPREME - JOHN COLTRANE

A geração nascida nos anos de 1940 ouvia muito jazz e assim, o sax de John Coltrane se tornou uma influência enorme no rock. Roger McGuinn em Eight Miles High solou como se sua guitarra fosse o saxofone de Coltrane, mas não só ele. De Robert Fripp à Jimi Hendrix, todo guitarrista pegou a liberdade solar, as notas abundantes, as harmonias orientais do músico de jazz. A Love Supreme, um dos muitos discos da curta e rica carreira de John Coltrane é, ao lado de Kind of Blue, de Miles, o disco mais famoso e mais vendido do estilo. Ouço-o após mais de 20 anos sem o escutar.-------------------------- John Coltrane era espiritual. Ele quer que ao ouvir seu som voce entre numa espécie de meditação profunda. O que ele faz com sons é aquilo que Jung chamava de Mandala, uma paisagem sonora que expressa o inconsciente coletivo. Cada nota, e são milhares, é parte de uma paisagem de energia pura. O ideal seria que sua alma flua entre e dentro dessas partículas sonoras. -------------- Muitos críticos na época atacaram esse som. Lembro de alguns falando que Coltrane destruíra o swing, que seu som não tinha balanço. Era um ruído que destruía o swing de uma banda cheia de calor e de beat. Elvin Jones na bateria, Jimmy Garrison no baixo e McCoy Tyner no piano, realmente eles são hot. E se voce quer saber de onde Mitch Mitchell tirou seu modo tão incrível de tocar bateria, foi daqui, de Elvin Jones. ------------------------ Hoje este disco é um clássico e não há mais crítico que não o aceite. Quanto a mim, Coltrane não é meu tipo de saxofonista preferido, eu sou da turma de Lester Young, notas longas, poucas notas, a transformação de cada nota em uma melodia. Mesmo meus guitarristas favoritos são assim, econômicos. Portanto é preciso dizer que A Love Supreme é, sim, uma obra prima, mas me incomoda sua sonoridade pouco Thelonious Monkiana. De qualquer modo, seria um despedício voce passar pela vida sem ter conhecido este album.

LIVROS SOBRE JUNG E FREUD QUE NÃO FAZEM JUSTIÇA A SUA OBRA

Leio um livro ridículo sobre Jung. Escrito em 2021, no Brasil, ele perde um tempo imenso falando "da volta do fascismo" e discutindo se Jung era nazi ou não. O autor é fã de Jung, mas o chama de Carl e não de Jung e dá umas espetadas no machismo do suiço. Não há o que comentar sobre obra tão imbecil. O mundo, em termos intelectuais, regride horrivelmente e não é o pseudo fascismo que faz isso, mas sim a uniformidade de opiniões, a preguiça em pensar, os slogans simplistas e a empáfia auto sufuciente daqueles que dominam TV, Jornais e modos tradicionais de divulgação de opinião. Weeeelllll...... O livro sobre Freud é bem melhor. Alain de Mijolla, um psicanalista francês, reuniu 600 frases ou aforismos ditos por Freud em cartas ou livros. Freud foi genial, nunca irei negar isso, e suas frases nunca são óbvias ou sensacionais. Elas revelam, sim, um homem pessimista, imerso na cultura judaica, preocupado com o futuro da cultura ocidental, corajoso e nunca choroso. Mas, apesar de revelar esse homem, o livro não se sustenta, isso porque as frases parecem aquilo que são, trechos incompletos. Freud não era autor de frases, era desenvolvedor de raciocínios. Cortar linhas de pensamento para extrair aforismos não funciona aqui. O mestre de Vienna fica parecendo barato. ----------------- Enquanto leio as frases, todas tem data e fonte, vejo que muitas são de 1926, e esse ano me diz algo...1926.... é o ano em que meu pai nasceu! 1926. Freud e Jung eram vivos quando meu pai veio à este mundo. Meu pai respirou o ar e andou no mesmo mundo dos dois. Mas também o de Joyce, Eliot, Yeats, Mann, Hesse, Huxley, Einstein, Bohr, Pauli, Stravinsky, Bartok, Picasso, Matisse, Chagall, Klee, Kandinski... Meu pai viveu no tempo dessa gente e eu não consigo imaginar o que ficará de 2025 para 2125. -------------- Ele era meu pai e portanto eu convivi com um homem desse tempo. Ele tinha o "espírito da época" de Heminguay e de Pound. Ele não entenderia nada da flacidez geral de hoje. ---------------- A vida é sábia. Ela nos prepara para nossa partida ao nos fazer sentir que o mundo onde estamos não é mais o nosso. Freud dizia que pessoas ligadas à vida falam da morte e as não ligadas evitam o assunto por pavor. Pois sinto e vejo que meu mundo, o que recebi em 1962, das mãos de meu pai, nascido em 1926, não existe mais. Pois se o planeta dele tinha Buster Keaton e Buñuel, o meu, em 62, tinha John Coltrane, Monk e Miles. Aliás, Miles nascido em 1926. No mundo em que nasci havia Warhol, Kerouac, Nabokov, Nureyev, Miró, Dali, Bergman, Fellini, Peckimpah e tanta coisa que voces ainda lembram, mas não viram. Havia tempo porque a gente tinha de inventar o que fazer. Hoje voce faz o que está pronto para voce. Pensa nisso. ---------------- Em 1926 TUDO o que conhecemos e usamos estava por fazer. O cinema ainda teria som, cor, tela grande, nudez, violência, CGI. As casas ainda não tinham TV, geladeira, e mesmo rádio. Na literatura ainda iria nascer o existencialismo, o beat, o novo romance, a escrita automática. Em 26 o surrealismo estava por nascer. Na música o jazz começava, ninguém conhecia blues e tanta coisa estava pra ser inventada! Gershwin e Cole Porter criando em seu auge. ---------------- E hoje?

CARL GUSTAV JUNG , O PROFETA ATORMENTADO. BIO DE PAUL J. STERN

Leio que Stern foi professor em Harvard e terapeuta. Esta biografia de Jung, achada em sebo, 1977, é uma crítica dura ao psicólogo suiço. Stern o trata como um aspirante a profeta e um fracasso em sua tentativa de unir opostos. Alma fendida, Jung nada mais fez que tentar se consolar. Deus foi colocado dentro do inconsciente, fazendo assim com que todas suas visões fossem obra divina. Homem medroso, ele era incapaz de manter uma amizade e tinha ares de arrogancia e impaciência. -------------- Não, ele não tinha hábito de manter relações sexuais com pacientes, ele era um puritano. Filho de pai pastor, seu interesse era religioso e apenas religioso. Vaidoso, ele agradava clientes ricos e sua produção escrita é ilegível. Falta mais alguma crítica? Ah sim, ele trabalhou com nazistas. ----------------- Para que um homem tem o trabalho de escrever uma biografia com tanto rancor? Não é preciso ser puxa saco, mas há que se evitar o uso do fígado. De qualquer modo, e por incrível que pareça, é leitura divertida porque todos nós adoramos uma fofoca. Criticar ídolos é sempre saudável e Jung está longe de ser perfeito, sua insistência na alquimia é forçada, ele evita demais falar de sexo, mas negar a validade e o poder de cura de seu método é exagerar. --------------- Será verdade tudo o que ele diz? Psicologia não é ciência exata e nem mesmo empírica. O que funciona hoje pode ser um erro amanhã. São verdades filosóficas, cabe a cada um aceitar ou não. A pessoa crê de acordo com sua experiência pessoal. Jung é tão válido como é Freud, Lacan ou Binot, depende do que voce experimentou em vida. Minha vivência e minha cultura me fazem pensar em Lacan como um idiota e em Jung como um homem real. E será sempre assim.

O SEGREDO DA FLOR DE OURO - C.G. JUNG e R.W. WILHELM

A Flor de Ouro é uma antiga coleção de textos chineses e aqui Jung, com auxílio do mestre em cultura chinesa Wilhelm, analisa o significado psicológico do Tao, símbolo central desse modo de pensar. ----------------- Jung tem várias boas sacadas sendo uma delas o fato de que um ocidental pode e deve conhecer as religiões do oriente, mas ele jamais poderá fazer parte daquele mundo. A melhor estrada seria mergulhar na crença de sua cultura ancestral, absorvendo ao mesmo tempo algo da fé do oriente. ------------------- Deixar chegar. Deixar ir. Deixar iluminar. Deixar acontecer. Deixar-se. Essa a postura da mente diante do inconsciente. Não fazer, deixar acontecer. Aguardar. Entender que não se elimina uma neurose, antes, se cria um interesse maior que ela, dentro de voce mesmo. Se o sintoma é como uma montanha, cria-se uma outra montanha ainda maior. -------------- Na visão do Tao, o kosmos é a imagem de nossa mente e nossa mente é o kosmos inteiro. O fora vive dentro e o que é dentro se vê fora. Parece conversa de hippie velho? Pois é isso mesmo, e daí?

FUNDAMENTOS DE PSICOLOGIA ANALÍTICA , as conferências de Tavistock - CARL GUSTAV JUNG

Ler Jung não é fácil. Sua didática é falha e a gente nunca entende direito o que é Imaginação Criativa ou Sincronicidade. ----------- Jung relaizou na Inglaterra cinco conferências na década de 1930. Diante de uma platéia hostil, ele expõe as diretrizes gerais de seu método, sempre com algum humor, simpatia, e absoluta clareza. Se você quer compreender Jung, é este seu livro. Nunca li nada tão cristalino sobre O Mestre. Conceitos complexos se tornam nítidos, teorias complicadas são destrinchadas. Ao final de cada dia, de cada conferência, professores e psicanalistas da platéia fazem perguntas e Jung as responde com infinita paciência. O que surge após a leitura deste livro, é um Jung claro. Não é pouca coisa. ------------------ Haveria muito o que ressaltar, mas eu falo apenas do final, onde Jung, em pleno florescimento do nazismo, explica a irrupção do movimento fascista como o caminho, irresistível, da história. E a história é feita pelo INCONSCIENTE COLETIVO. Jung diz, objetivamente, que nosso ego, nosso Édipo, nossas dores concientes, são apenas uma leve película, pois o que há de mais profundo, urgente, atemporal em nós é a marca da nossa história comum, do nosso passado mítico, do grupo social em que vivemos. Nós somos GUIADOS inconscientemente pelo momento histórico em que vivemos e pela herança cultural onde nascemos. É essa mistura que faz de nós aquilo que somos de fato, que guia nossos atos e humores. O que nos é INDIVIDUAL é quase nada. Nosso ego é uma migalha. ----------------- É como se meu EU, Paulo, fosse quase inteiramente aquilo que é o Brasil de 2025, acrescido daquilo que foram meus antepassados, mais o clima cultural do lugar onde nasci e vivo. Em meio a toda essa ENERGIA imensa, vive meu ego, um quase nada, PERECÍVEL, precário, no oceano do inconsciente coletivo. ------------------ Povos primtivos têm uma mente formada unicamente pelo INCONSCIENTE COLETIVO. A noção de EU quase inexiste. ( Isso me lembra aulas da USP, literatura, em que o professor nos ensinava que no mundo de Homero a noção de autor, de UM homem autor de UMA obra não existia, por isso hinos e cantos de então não possuem assinatura. O cantor compunha uma obra que era feita pelo grupo, pelos deuses, pelo INCONCIENTE e não pelo ego que mal existia então. Mais: índios brasileiros, segundo meu professor, nunca falam eu fui pescar, dizem ELE foi pescar. Há ausência do eu ). ------------------------- É o livro certo para quem nunca entendeu Jung.

A ENERGIA PSÍQUICA - JUNG

Há tribos na América, na Austrália, que usam a mesma palavra para designar o sol, a lua, o fogo assim como a magia, um amuleto e uma pessoa morta. Essa palavra tem sido traduzida erroneamente como alma ou espírito, quando na verdade é energia. Para os primitivos, havia uma energia universal, não humana, que fluía entre coisas que tinham poder. Jung chama esse PODER de libido, não a libido de Freud, puramente sexual, mas a ENERGIA que vive em todo lugar e que no caso humano está entranhada no inconsciente. ------------------- Eis aqui minha visão do que Jung diz: Observe um bicho. Pode ser seu cão. Note como tudo que ele faz é PLENO. Em brincar, farejar, ou comer, toda sua energia está sendo concentrada e gasta naquilo. Observe agora uma criança e veja como chorando ou brincando ela nunca economiza energia, é ela inteira ali. ----------------- Quanto mais civilizado o humano é, mas sobra energia que teria sido gasta em viver plenamente. A neurose é excesso de energia não gasta, retida, que sai em forma de sintoma ou dor. A cura seria canalizar essa energia para algo que não faça o paciente sofrer. --------------------- A vida moderna nos poupa do gasto energético e assim, cheios de excedentes, gastamos na academia, em vicios ou em doenças. Jung estava certo. O bicho ou o homem primitivo gastava toda energia para se manter vivo, nós não. Somos poupados dessa aflição. Mas a energia está lá, em nós, e ela explode de desejos, de vitalidade, de poder. Cabe a cada um entender como a usar.

ADIVINHAÇÃO E SINCRONICIDADE - MARIE-LOUISE VON FRANZ

Von Franz foi a mais querida discípula de Jung. Este é o segundo livro dela que leio, o primeiro tendo sido sobre contos de fadas. Ela escreve muito bem. Ao contrário de Jung, que tem um texto tortuoso, Von Franz tem ritmo, é clara, se lê com gosto. Neste volume, ele se constitui de cinco palestras dadas nos anos de 1950, ela fala sobre o tempo, os dois tempos, o linear e o eterno, o tempo do consciente e o tempo do inconscinete e em como, historicamente, os jogos de advinhação sempre tentaram lidar com a conjunção desse dois tempos encontrando o tempo UNO. --------------- Citando o I Ching e mais dezenas de culturas antigas, dos aborígenes da Austrália à tribos norte americanas, Von Franz, de forma enciclopédica, nos apresenta fatos, jamais caindo na crença individualista. A física, a matemática, a teoria dos números também são muito citadas, de Pauli à Eddington. Ela questiona, o que são números, para que foram criados, qual sua realidade? --------------------- Existem brechas na realidade, brechas por onde a energia do inconscinete pode fluir e nos revitalizar, mais que isso, pode fazer com que sintamos a situação temporal, o tempo como corte transversal, como matriz e não como linha. Nosso inconsciente seria o mundo onde tudo está interligado num eterno presente que abrange toda a totalidade. Nosso consciente seria apenas um modo de lidar com aquilo que nossos sentidos podem perceber. Ele é subordinado à visão, audição etc. A realidade é muito mais e ela é intuída em jogos de adivinhação e na sincronicidade. ------------------ Ela está certa? Por que não ?

PSICOLOGIA DO INCONSCIENTE, JUNG, E O TRANSTORNO DA PERSONALIDADE BORDERLINE

Ela me pareceu, à primeira vista, alguém com personalidade pobre, vazia, sem nada a exibir. Depois, pouco tempo depois, comecei a perceber algo de falso nessa imagem. Ela escondia alguma coisa. Essa coisa escondida, em 5 anos de contato íntimo, não foi exibida. Existe tal mistério? --------------- Lidar com uma pessoa border é mais difícil que lidar com um esquizo. Pois do esquizo se espera incoerência, delírio, e momentos de relativa paz. Do border não há o que esperar. Ele é como uma mentira. --------------- Ontem ela surgiu com o corpo cheio de hematomas. Numa crise de ansiedade, ela se surrou. Foi ela mesma, pois não havia hematoma onde ela não podia alcançar. A mentira, em borders, é sempre a possibilidade número um. A segunda possibilidade é a chantagem emocional. ---------------- Após tamanha crise, seria de se esparar um abatimento, o rosto triste. Mas não. Poucas horas depois ela é a mesma de sempre. Inclusive sorri. O rosto controlado, bem maquiado, tudo no lugar certo. Não há sinal de emoção. Nenhum tremor. Psicopatia? Borders eram considerados psicopatas antigamente. Mas não são. Ela tem emoções. Ela é dependente. Ciumenta. Possessiva. Controladora. E de repente, não é mais nada disso. E diz: Eu nunca senti nada. Eu nunca amei. Dizendo isso com uma ponta de orgulho e vaidade. --------------------- Se acha um lixo. Mas só por dez segundos. No resto do tempo ela tem a certeza de poder seduzir todo homem do mundo. E quando voce a provoca, ela não reage. Mas quando ela te provoca, muito, ela espera que voce diga: Sim, eu errei. Mesmo que voce nem saiba do que ela fala. ------------------ Sua mente é uma guerra. Do eu contra o outro eu. Do eu contra o mundo de fora. Por isso, ela mal percebe que voce ou voces existem. Está distraída com sua dor. Que é real. O medo da rejeição. O medo da solidão. Mas tudo que ela-eles fazem é provocar rejeição. Flertar com a solidão. ------------- Sexo também é parte da guerra. O outro é um objeto a ser seduzido e dominado. Posse. Para isso ela se dá totalmente. Mas não se iluda. Ela deixa seu corpo mas nunca sua alma. Enquanto voce tem prazer naquele corpo que se doa, a alma está longe, muito longe. Onde nem ela mesma sabe. -------------- Em seu livro Jung fala do quanto é preciso entender, desvendar o inconsciente, Reconciliar consciente e inconsciente. Mas o que eu pergunto à Jung é: Como fazer a terapia de alguém que mente todo o tempo? Mentiras que têm o objetivo de proteger uma alma que não deseja se revelar. Como desreprimir alguém que faz sexo com a facilidade de alguém que chupa um sorvete? E que ama com a fúria de um bebê que chora? --------------------- Ama, porém dois dias depois volta de uma orgia com gente semi desconhecida. Diz nada sentir, só vaidade e raiva. Mas se surra com a culpa de quem deve algo a si mesma. Raiva do que? Culpa por que? ----------------- O problema do borderline é que por mais que pesquisemos, não há para eles um tratamento padrão, como há para um neurótico, mesmo o mais complicado ( faça-o falar e então assumir seus sentimentos ). Não há para o border uma droga como há para o deprimido ou o esquizo ( anti depressivos podem piorar o border ). O que fazer com ele? ----------------- Aturar sua indiferença ofensiva. Ouvir suas mentiras sem objetivo. Não fugir do peso de sua energia destrutiva. Suporta-lo. Mas haverá cura?

A INTERPRETAÇÃO DOS CONTOS DE FADAS - MARIE LOUISE VON FRANZ

Ler Jung, mesmo que voce seja entendido em sua psicologia, nunca é simples. Isso porque sua didática é ruim. Jung não escrevia bem, e por mais interessante e válido seja aquilo que ele diz, ler seus livros é um esforço, que sempre vale à pena. Marie Louise Von Franz é uma das maiores discípulas de Jung, e este livro, um clássico, faz por Jung mais que eu esperava. ----------------- Von Franz analisa alguns contos folclóricos do norte da Europa, nenhum muito conhecido, todos curtos, e assim, ela nos explica com uma clareza maravilhosa, conceitos como ânima, inconscinete coletivo, sombra, arquétipod, individuação. Mestra em escrever de modo objetivo, eu aconselho muito este livro para aqueles que leram Jung e se sentiram confusos. Analisando os contos, todos fantásticos, Von Franz vai descobrindo os segredos da história ali exposta, e desse modo usando as ferramentas de Jung. Eu, que li muito Jung, nunca vi com tanta nitidez, aquilo que cada conceito significa e quer dizer. Em apenas 200 páginas, ela nos dá um conhecimento precioso. -------------- Procure e leia.

A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS - SIGMUND FREUD. A SAUDADE DA ÉPOCA DA RAINHA VITÓRIA

A popularidade de Freud se deve a um fato muito simples, é divertido ler seu livro. Ele tem tudo aquilo que fazia e faz o sucesso de um volume, tem suspense, sexo, mistério e algum horror. E parece moderno. É uma leitura voluptuosa. Como é a leitura de seu contemporâneo Sherlock Holmes. Freud é o Holmes da alma e como tal deve ser lido. Ele vai ao local do crime, recolhe pistas e soluciona o mistério. Por ser o autor do livro, é claro que ele sempre consegue resolver o problema. Freud, como dizia Bloom, é um romancista. A psicanálise, longe de ser uma ciência, é tentativa de transformar romance em vida real. Ela é aquilo que Freud dizia ser a religião, um consolo para a dor. E como tal, tem sua validade, pois às vezes ela alivia. Mesmo que para isso devamos crer naquilo que o autor narra. ----------------------- Meu amor pela psicologia foi conscientizada na noite em que vi, aos 15 anos, o filme Freud de John Huston pela primeira vez. O que me atraiu no filme foi sua ambientação tão vitoriana ( não conheço filme mais Europa 1890 que esse ), seu clima de filme de Sherlock Holmes e o heroísmo destemido de Freud. Ele parece um heroi. O heroi feito sob medida para um pensador, um heroi que age pela palavra. -------------------- Dizer que um sonho é SEMPRE a realização de um desejo é tão arbitrário quanto dizer que um sonho é a materialização de lembranças de outra vida. Não, não ria. Eu posso dizer que essas lembranças foram transformadas e censuradas e que surgem, em sua verdade, apenas com a ajuda de um xamã. É isso que incomoda em Freud. Tudo o que ele diz nos seduz, e algumas coisas eu julgo muito verdadeiras ( o ódio entre irmãos, a rivalidade entre machos, a criança capeta ), mas são verdades conhecidas desde sempre, Freud apenas as sexualizou. Ele poderia ter dito que uma criança tem um instinto de duende, ou de bicho selvagem, o resultado seria o mesmo que dizer que ela já tem desejo sexual. A criança se apega ao seio da mãe porque é macio e doce, não necessariamente porque ela tem desejos incestuosos. Assim como mostra o pênis como ato que faz os adultos reagirem à ela. Claro, essa é apenas minha visão. Mas o que lemos é também apenas a visão de um homem, Freud. A diferença é que ele é um gênio da escrita, e eu não. --------------------- Freud cria um mundo onde tudo faz sentido. Como Conan Doyle ou Henry James, as coisas se encaixam e aquilo que não se encaixaria é jogado fora. Se a doença mental é a perda da capacidade de fazer sentido, entrar no mundo de Freud pode ser curativo. Ele te dará um sentido. Ou não. Depende de sua disposição a crer nele. Há um momento em que ele fala de que Édipo fora interpretado erroneamente como uma parábola que descreve o poder do destino sobre os homens...well...qual a prova de que a visão de Freud seja a correta? ----------------- Jung perto de Freud é incomparavelmente pior autor. Nada há nele de romancista. E nem de cientista ( nenhum dos dois faz ciência ). Mas eu me acostumei a ver cada dado dito por Jung ser exaustivamente demonstrado por N relatos buscados na mitologia, religião, antropologia e filosofia. Jung é tão chato por isso, ele não narra nada, apenas enfileira suposições. Freud é totalmente o oposto. Ele pesquisa casos, encontra pistas e ilumina soluções. É o heroi de seu livro. ---------------- Não pense que estou, como fazem Nabokov ou Scrutton, condenando a arte do psicanalista. Eles são extremamente uteis e fiz terapia por anos. Admiro muito aqueles que são corretos. Um bom profissional traz consolo, sentido, faz com que o kaos mental se organize rumo a um objetivo. Não importa se Freud descreveu nossa mente como aquilo que ela é de fato. O que interessa é saber que ele inaugura algo que tem ajudado muita gente. ------------------- Se lido como uma interessante peça de arte da escrita, este é um grande livro. Lido como a verdade revelada, não faz muito sentido.

ASPECTOS DO MASCULINO - C.G. JUNG

Li este e o outro volume, o que fala sobre os aspectos femininos. Para mim não foi uma leitura muito instigante, isso porque os dois volumes são coletâneas editadas de Jung sobre o tema da força masculina e feminina no inconsciente. Anima, a força impessoal feminina que habita o inconsciente do homem, e o animus, equivalente da mulher, sendo essa uma força masculina. Grosso modo, é o lado mulher que habita a psique dos homens e o lado homem que vive na psique da mulher. Mas não vulgarize, meu lado feminino não é um eu travestido de mulher, nem mesmo é um eu mais sensível. A Anima não é uma pessoa, é, como o inconsciente, um espírito coletivo, comum a todos, puro instinto, puro hábito, pura força sem começo e sem fim. Anima que não fala, não se vê, que age como natureza, não humana e também super humana. É o desejo que sentimos pela MULHER, aquela imagem feminina que não tem rosto ou voz, a síntese de todas as mulheres e que é nenhuma sendo tudo. Procuramos em toda mulher essa MULHER e não a encontramos, pois ela vive dentro de nós mesmos, é a força que nos faz viver. Não é o que nos falta, pois ela é nós mesmos, mas é o que queremos encontrar. ------------------ Jung, como sempre faz, cita milhares de referências, filosofia hermética acima de tudo. Hermes-Mercúrio, como símblo de transformação, pois o encontro com a anima transforma o homem de dentro para fora. Jung enfatiza a necessidade desse encontro, do entrar dentro para poder haver a individuação, o encontro consigo mesmo que faz de um homem natural um homem ele-mesmo, um homem racional. Para isso é preciso criar uma ponte que faça o inconsciente ser entendido e assim reavivar toda a força da vida. ---------------- Pois vive no mais fundo caminho a força que criou vida e que existirá para sempre. Eis um tema junguiano: o inconsciente é a digital, eterma e imaterial, do criador, seja ele Deus, deuses ou o que for. O inconsciente é portanto imortal, pois ele existe em toda vida e a vida existirá após a minha ou a sua morte. Meu inconsciente, como minha anima, é igual a sua, pois ela é a sua. Apenas a sinto diferente de voce, pois é meu ego que a percebe ou a nega, e meu ego, que perecerá, sou eu e não voce. Minha história é meu ego, minha memória consciente é meu ego. O que não é ego é eterno, ou seja, a história da vida, a memória da vida, o tempo da vida. ---------------- Jung foi um suiço de língua alemã, portanto impregnado de filosofia alemã. Schopenhauer é uma influência imensa, como foi em Freud, mas Freud pega de Schopenhauer o conceito de Vontade como força que move a vida e o transforma em libido. Jung é mais sutil, ele mistura Kant e faz da vontade uma força inconsciente sem nome, uma espécie de vida surgida antes da vida, um imperativo. ----------------- Sempre bom o ler.

PSICOLOGIA E RELIGIÃO ORIENTAL - JUNG

Uma das coisas mais populares hoje no instagram é a série de vídeos onde se mostra a confecção da comida de rua na Ìndia. O objetivo é fazer rir com a sujeira, a inocência e a falta de noção do indiano. Montes de ervas, pós, ovos, leite, são misturados sem medida ou comedimento em imensas frigideiras ou caldeirões amassados. Tudo no chão, com as mãos, à vista da rua. O que o ocidental não consegue ver é a imensa confiança que há no processo. Não se pesa ou se mede o ingrediente porque se sabe que não importa como, a coisa ao fim dará certo. Não se cuida do visual pois se foca apenas no sabor. A higiene é insignificante, afinal, ninguém morreu por comer aquilo. Seu avô o prova. ( Nenhum indiano morreu ). Há imensa certeza naquela comida. -------------------------------- Jung disseca neste belo livro vários aspectos do oriente em comparação ao ocidente. O mais louvável é que ele não tece elogios exagerados ao oriente, ele diz que cada povo falha em algo e vence em outro fator. O ocidente optou pelo modo grego: observar com os olhos, medir, anotar, crer apenas no que pode ser descrito. A linguagem racional como único modo de entender e apreciar a vida. Somos aquilo que aprendemos e apreendemos. O que há dentro de nós VEIO DE FORA. ---------------- No modo oriental ( e não se engane, em 2023 eles copiam o ocidente, mas por debaixo da casca made in USA continuam os mesmos ), somos aquilo que nascemos sendo. O que há em nós NASCEU CONOSCO. A vida não se apreende, ela é aquilo que vive dentro de nosso espírito. O oriente é, portanto, introvertido, tudo vive dentro das coisas, o ocidente é extrovertido, a vida acontece lá fora. ----------------- Em religião, no ocidente, a salvação e a iluminação descem sobre nós. Deus, Ser externo, nos concede uma graça. No oriente a graça vem de dentro de voce mesmo. Deus mora dentro de cada um e de todos. Não pense que isso é tão simples. Para nós ocidentais, por mais que digamos que Deus é tudo, a certeza absoluta nos é impossível. Somos agnósticos sempre. ------------------- Um dos temas mais interessantes do livro é aquele que trata do LIVRO TIBETANO DOS MORTOS. É um texto obscuro que ensina ao monge aquilo que ele irá entoar ao corpo do recém morto. E o que é isso? Instruções de tudo aquilo que lhe irá acontecer nos 49 dias de existência na morte. ( 49 dias em tempo de outra realidade ). Jung se surpreende logo de cara: O que explica culturas tão distantes, o que explica Swedenborg, que jamais soube deste livro, também começar dizendo que "mortos não sabem que morreram" ? ---------------- A jornada é basicamente uma queda ao sofrimento. Para depois dessa "segunda morte" , vir afinal a reencarnação. A alma tem a chance de ascender à Luz, mas raramente isso ocorre. Uma das coisas mais surpreendentes é o momento da reentrada na vida. No ponto final da queda, a alma recorda do sexo e fica obcecada pela sexualidade. Procura então uma entrada para o sexo. Literalmente a alma caça um corpo a ser desejado. "Seduzida" pelo ato sexual que presencia, ela entra dentro da futura mãe, apaixonado por aquela mulher que copula. ----------------- Sim, pode ficar chocado. Jung se lembra de Freud aqui e diz que O LIVRO TIBETANO explica aquilo que Freud não quis explicar: o que vem antes da paixão do filho pela mãe e da filha pelo pai. ------------ É uma escolha. Vagando pela vida, a alma, desejando sexo, no ponto mais baixo de sua condição, penetra na futura mãe e se faz filho. --------------- Jung diz que o ocidental deveria ler o livro de traz para a frente: a história da vida começando no nascimento, e se dirigindo à morte. O LIVRO TIBETANO faz o caminho oposto, o início é o momento da morte, momento de luz e de transição sem dor, e o nascimento é o final, o desejo sexual puro e absoluto e a volta ao mundo da matéria em dor. ------------------- Me seduz uma mente tão inquisidora e insaciável como a de Jung. Intelectualmente ele não temia nada. É fácil rirmos dessa imagem de cópula e espíritos e filho e mãe. Somos ocidentais, zombamos de tudo que a ciência não chancela ou que um filósofo não elocubrou de modo lógico. Na crença nessa "jornada dos mortos", o tibetano não duvida, ele sabe. Se é verdade não faz a menor diferença. O que tem valor é a imensa margem espiritual que se abre, ao ocidental, ao se imaginar tal realidade. ----------------- Quando criança, cercado de japoneses, meu bairro era uma colônia nipônica, lembro que minha mãe dizia, não sei de onde ela soube isso, que o japonês chorava no nascimento e comemorava a morte. Sei hoje que não é bem assim. Mas o que importa é: de onde veio essa ideia? Nós, ocidentais, cremos realmente no mundo do além? Penso que o exagero, a inflação na cultura POP de fantasmas, bruxas, duendes, realidade paralela sci fi, física quântica simplificada, vampiros, mostra exatamente a falta de crença real e um desejo infantil e impotente de recuperar algo dessa fé perdida.

FALEMOS DE CAETANO E DE RITA

Eu não odeio Caetano e Rita. Mas hoje eu sei que eles me odeiam. E isso mudou tudo. --------------- Jung dizia que a individuação acontece quando vemos, inclusive, que nossos ídolos são falíveis. Eles eram apenas imagens-guias, muletas para minorar a dor de uma alma fraturada. Quando nos individuamos não mais precisamos deles. O processo é longo mas aqui no Brasil ele se encerra de modo violento. ------------------ As máscaras caíram nos últimos anos e os ídolos revelaram suas almas sem pudor. A imagem que hoje eles passam possui uma mistura de vaidade ditatorial e indiferença ao diferente. Pior: aquilo que eles chamam de democracia nada mais é que orgulho por comandar. Democrata é quem me segue. Aquele que se recusa a me obedecer não é democrata. ------------------- Diz também Jung que a alma individuada perde muitos dos "amigos" mas em compensação passa a fazer parte da "massa". Nada representa melhor meu estado atual que essa afirmação. Eu tinha dezenas de amigos, mas me via sempre como um ser superior à massa, portanto, fora dela. Hoje tenho apenas 3 ou 4 amigos, mas me vejo e me entendo como parte de uma comunidade planetária, a comunidade do "homem comum". ------------------ Caetano, assim como Rita, Cazuza, Gil, ficaram para trás. Dentro de mim eles vivem em um limbo, um tempo distante, mundo que aceito como parte de meu passado, mas que jamais poderá ser revivido. Olhar para eles é ver tudo que mais odeio no mundo: a aliança com a bandidagem, o relativismo do bem, o desprezo por valores que são eternos, o deboche. --------------- Eles me odeiam e eu sei que esse ódio é a confirmação do meu acerto. --------------- Por fim, li em algum lugar que nós somos aquilo de onde nascemos. Eu sou meu pai, meu avô, meu bisavô e minha mãe. E não há como ser diferente. Pois somos feitos do material, físico e espiritual, dos que nos precederam. O tijolo que nos fez, a pedra que nos sustenta veio da olaria e da pedreira que nos precedeu. A foto postada acima, alguns homens portugueses almoçando em pausa do trabalho, exibe em rostos e em alma a minha formação. Foi um longo caminho para os encontrar e uma árdua batalha para os amar. Me vejo neles. Adeus Cazuza. Voce não deixa a menor saudade.

JUNG E O TARÔ - SALLIE NICHOLS

Não vou falar especificamente sobre o tarô, deixarei para outro post. O que prefiro dizer agora é o conceito de individuação de Jung, o modo como ele vê no tarô uma espécie de mapa de vida, uma trilha e bússola que nos auxilia no encontro de nosso EU. ---------------- EU que não deve ser confundido com Ego. Pois o Ego é algo que construímos na vida que vivemos, enquanto o Eu nasce conosco e permanece sendo ele mesmo ao infinito. O Ego é uma espécie de identidade, máscara, modo de agir, modo de ser e de sentir, algo portanto que se modifica com o tempo e o espaço, que evolui ou se encolhe. ================= O EU é o que é, e pouco importa nosso tempo ou o que fizemos, ele permanece, daí seu caráter de eternidade. pois ele não existe como algo que muda com o tempo ou que existe em certo lugar. O EU, ponto mais profundo da alma, ponto que não é ponto, pois ele se move em todo lugar e em lugar algum, é ele aquilo que nos traz paz, verdade, sossego, pois do encontro do Ego com o Eu surge a sua Individualidade. -------------------- Jung não nos ilude. Não há plano ou método para se encontrar esse Eu. O que faz a vida é a sua busca. Estamos aqui para isso, para tentar o encontrar. Estamos aqui para nos individualizar. Somos ùnicos, cada um de nós uma pessoa sem par, e o tarô exemplifica a busca, a procura e mais que isso, ele nos apresenta os personagens e as situações que vivemos em nosso íntimo. Do LOUCO, carta Zero, até a carta 25, as imagens nos mostram aquilo que enfrentamos, nossas mortes e nossas renascenças. ---------------------- Jung sabe que em mundo que cobra união, associação, todos juntos e iguais, a individuação se torna mais difícil. Ser alguém fora do grupo e fora do costume se faz ato de coragem e de estranheza, mas por outro lado, a recompensa é ainda maior. O mundo e a vida são atos de indivíduos solitários que influenciam o grupo dos não individuados. Sem a busca do EU não há ação significativa. Um mundo onde todos ficassem estáticos, conformados numa uniformidade banal, seria um mundo sem história. O sentido do tarô aponta sempre para a frente. E al fim há o Eu, o seu Eu. Único.

EM BUSCA DA SOLIDÃO

O movimento mais importante da história humana é aquele que nos levou à solidão. Essa frase é de Nietzsche e eu ando o lendo com um prazer sublime. Irei então desenvolver essa ideia. ------------------ Se voce observar, mesmo hoje, um adolescente, irá notar que estar só é para ele um tipo de vergonha. de constrangimento. Esse é, pois, um sentimento arcaico que ainda sobrevive dentro dele. Observe agora uma favela. Por falta de escolha, a vida lá é totalmente comunitária. Todos vivem unidos a todos, e mesmo que voce não queira, sua vida é invadida pelas vozes, sons e atos dos vizinhos. Se então voce for a lugares onde o passado é mais vivo, aldeias indígenas, cidades da India ou núcleos tibetanos, irá perceber que ser excluído da comunidade é o pior castigo possível. Mais que isso, ser só é inimaginável, pois aquilo que cada membro da comunidade deseja, faz e teme é aquilo que o grupo deseja, faz e teme. ---------------------- Por 99% da história do homem a solidão foi o mais temido dos infernos. Mais que temer a solidão, era inimaginável que alguém pudesse a desejar. Desse modo, podemos dizer, com certeza, que a filosofia e a arte como as conhecemos, nascem no momento em que o homem se INDIVIDUALIZA. Em certo momento ele começou a ler em voz baixa ( a leitura durante séculos era feita apenas em voz alta, lia-se para ser ouvido por alguém ), morar com portas fechadas, falar em segredo, querer comer algo diferente do vizinho, e então pensar por si próprio. Esse movimento rumo à solidão começa mais ou menos em 500 AC no Ocidente. Artistas e escritores passam a fazer algo impensável: assinam sua obra! Se individualizam. ---------------------- O movimento é irrefreável. Estamos caminhando rumo à solidão total. Para isso nos livramos da corte de reis, das ruas com portas abertas, da Igreja como rebanho de ovelhas, e vemos agora o fim na família e das nações. Quando o GLOBALISMO fala em criar um mundo UNO ele não percebe estar criando um mundo UNO de pessoas distantes umas das outras. Se voce não tem uma nação, uma fé que te una á seu vizinho, se até mesmo seu sexo biológico é só seu, NADA fará de voce membro de uma comunidade. --------------- É por isso que todo movimento comunitário moderno acaba em Kaos ou decepção: Hippies, punks, veganos, e até mesmo socilistas. São movimentos que nascem como UNIÃO E IRMANDADE e se vêm depois numa espécie de SOLIDÃO EM GRUPO CADA UM NA SUA. --------------- A Direita mundial perdeu muito terreno por pregar a volta à família, à igreja, às velhas comunidades, quando na verdade seu apelo, seu Charme deveria ser falar, sem medo, daquilo que ela tem REALMENTE, no DNA, a solidão do EU Individualizado. Cada um criando sua vida e seu destino, o mais distante possível de governos, sindicatos ou modismos. --------------------- A riqueza e o poder de uma pessoa hoje é medida pelo quanto ela pode ter de solidão. Gente pobre TEM de viver em grupo. Gente rica usufrui do silêncio e da distância. Basta voltar 200 anos para ver que em 1823 gente rica NUNCA estava só e gente pobre vivia como numa granja. -------------- Toda invenção da tecnologia nos leva à solidão. Preciso citar exemplos? E no futuro, breve, a vida se fará em células auto suficientes e mesmo o trabalho e o ensino serão exercidos a sós. Quem quiser escrever um livro de sci fi relevante, que narre um momento revolucionário do futuro, passado em 2.200, que fale de um homem que ousa falar com um outro homem. Cara a cara. Se hoje ler em voz alta parece absurdo, falar com alguém será visto do mesmo modo. ---------------------- Nietzsche de certo modo elogia essa individualização. ( E essa é mais uma prova do quanto ele nunca foi fascista ). Mas ele sonha com a mesma individualização de Jung, a consciência de que há em voce uma originalidade criativa que deve ser libertada. E para isso é preciso negar o grupo. Nietzsche, como Jung, é sempre um aristocrata. O que ele pede é um movimento de aristocratização das massas, embora nenhum dos dois admita isso. O problema é que poucas pessoas têm o dom ou o interesse em se aristocratizar. Então o que vemos é que essa solidão atual e futura é aquela do ser vulgar, não criativo, comum. Uma solidão feita de depressão, negação, sem consolo. Uma solidão obrigatória, dada pela história do mundo, nunca escolhida e usufruida. Pior, solidão negada, vendida como "grupo social", " escolha", modernidade. ----------------- Se a Direita pode se vender como ideia de individualização, a Esquerda terá de trair a si mesma e inventar um tipo de socialismo de indivíduos, ideia que na verdade eles já vinculam, ideia que nada tem de socialista e muito tem de mera propaganda. ---------------------- Vale à pena tentar lutar contra esse movimento? Não, não vale. As forças da história são irrefreáveis. Mas por instinto haverá sempre aqueles que defenderão a família, a igreja, a vida em comunidade. Deveriam então perceber que são famílias sem pai ou mãe, sem refeições em grupo, sem proteção. Igrejas sem sentimento de doação e pertencimento e comunidades sem vínculos de gerações. O que digo é que o que nos resta de "velhas comunidades" já foi comido por dentro e delas só há a aparência. -------------- Melhor educar cada um para ser um Homem Criativo, um ser que ergue sua chama e constroi uma solidão só sua. ---------------- É isso.....