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COMO SER FELIZ

Em 1950, aos 24 anos, chegado ao Brasil, meu pai viu seu primeiro filme. Até então, tudo o que ele vira fora sua aldeia em Portugal. Todas as ruas do mundo eram as ruas de sua aldeia e todas as mulheres do mundo eram aquelas poucas que ele vira. Imediatamente, meu pai descobrira que havia um lugar chamado Arizona e que cem anos antes, cowboys andavam pelo deserto. Meu pai nunca havia visto um deserto. Nunca havia visto um americano. Ele nem mesmo sabia que havia gente com 1.85 de altura. Mais importante, meu pai não sabia que havia mulher tão bonita como Rita Hayworth. ----------------------------------- Meu pai, em 1950, assim como acontecera com grande parte da humanidade a partir de 1920, entrava em um univero duplo: de um lado aquilo que era real, que ele podia tocar, sentir na pele, estar dentro, se relacionar, e de outro o mundo da imaginação, aquilo que era apenas luz, inefável, e que entrando dentro de sua mente modificava o funcionamento de seu cérebro. Não haveria volta. Depois viria a TV. ---------------------------- Uma psicóloga diz que nosso cérebro é uma Harley Davidson, ele foi feito para andar a no máximo 80 por hora. É uma máquina que aprecia o entorno, que flui devagar, que absorve em seu tempo próprio. Hoje, com a hiper conexão à tudo, nossa mente se vê obrigada a andar como um fórmula 1. O repouso é a 120 por hora, o desejo corre a 300. Em um dia, vemos mais mulheres que um homem de 1900 via em toda sua vida. Repito, em um dia, na rua, na TV, na Net, vemos mais mulheres que um homem via em toda sua vida. Nosso cérebro é o mesmo, o que o excita não. Mais enervante para ele, essas centenas de mulheres vistas em 24 horas o atraem, porque todas tentam ser atraentes. Algumas estão nuas. Em um dia ele verá mais corpos nus que Casanova viu em toda sua vida. A ansiedade se impõe. -------------------- Quem se recorda de 1960, ou mesmo 1980, sabe, as pessoas eram mais lentas. Andar era menos apressado, falar era mais pausado. Ouvia-se mais. O tempo era mais longo. Se voce duvida basta ver um filme ou uma série de então. O tempo que ali se faz é mais acelerado que o tempo real da rua e se voce acha o filme ou a série lenta, creia, na rua a lentidão era maior. Esse tempo longo era devido ao fato de que ainda se podia desligar a TV. E não ir ao cinema. Na rua, no ônibus, no trem, voce não levava a tela com voce. Nem mesmo o telefone. Então, quando voce estava na rua voce estava na vida real, queira ou não. Andar de ônibus era ouvir os companheiros de viagem, ouvir o motor, ver a rua, sentir o sol na pele, sentir o calor. Cheiros. Seu cérebro entrava no fluir da vida ao redor, real, voce a tocava, a mastigava, cheirava, ouvia. Na praia o relaxamento era total: vozes distantes, cherio de mar, de comida, ondas quebrandO, o cérebro mergulhado no beira mar. Absoluto. -------------------- Voce poderá dizer, mas e daí? Qual o problema? Que se acelere. Que se veja tudo na tela. ---------------------------- Sim, voce pode escolher isso. Pode? Escolhemos o que queremos fazer mas não escolhemos, nunca, o que desejamos. Isso é Schopenhauer. Desejamos nos ligar, nos informar, saber, e desejamos velocidade, tudo rápido, pra ontem. Produzimos. Produzimos muito. E sofremos. Como nunca antes. Por que? Porque o mundo real, pela primeira vez, parece pouco. ------------------------- As pessoas se expõe nas redes sociais porque desejam fazer parte do mundo que parece melhor, o virtual. Voce viu a menina de 18 anos que comprou um iate, voce viu o homem de 40 que fez um bilhão e voce deseja ser como eles. De repente sua vida, a real, não importa mais. Ela parece limitada, lenta, sem emoção. Voce sabe que existe Uganda e viajar para o Pantanal é pouco. Voce viu a mulher fazer sexo no porn videos e sua esposa não sabe transar. Seu pau parece pequeno. A vida dos outros, a que voce vê nas telas, é fascinante, a sua não importa. Dá pra ser feliz? ------------------------- Nossas melhores lembranças da infancia são aquelas em que estamos completamente ligados ao real. Temo que pessoas com menos de 30 anos não tenham tido essa sensação, mas se voce tem 35 ou 40 sabe do que falo. Aos 6 ou 7 anos, voce está no quintal e a chuva está chegando. Voce sente o cheiro dela e a temperatura cai. O ar fica úmido. Pássaros saem voando. Voce relaxa e ao mesmo tempo sente apreensão. Alguma coisa vai acontecer. O céu escurece, tons de roxo e de cinza. Então as gotas começam a cair. Voce corre pra casa enquanto sua cabeça molha. São esses os momentos da infancia que valem a pena. O que aconteceu? ------------------------ Nosso cérebro, seja obra Divina, seja obra da natureza, é parte deste planeta. E este planeta tem seu modo. Nossa mente, como nosso corpo, tem limites. A realidade é o que nosso cérebro é. Ele processa de um modo analógico, biológico, em seu tempo e seu lugar. Ele é envolvido por sentimentos. Ele aprecia, sente, saboreia, e procura conforto. Para esse saborear, esse conforto, ele precisa usar as mãos, os olhos, os ouvidos. Sentir. Com tempo, seu tempo. O tempo biológico e não o digital. ----------------------------- As mãos são parte central do processo e por isso existe uma diferença imensa entre pegar o papel e desenhar com uma caneta e tocar uma tela, a mesma, sempre a mesma, seja para desenhar, escrever ou ver um filme. Há uma diferença de experiência tátil entre procurar, tirar o disco da capa, ligar o aparelho, colocar o disco para rodar e ouvir a música, ou digitar uma faixa na tela. Ir à estante pegar um livro, segurar ele aberto, sentir o cheiro e o tato da folha ou olhar a mesma tela de sempre. O real é sempre uma questão de toque, de habilidade manual, de aprender a pegar. Isso é o cérebro. -------------------------- Voltando a meu pai, ele sempre soube que aquilo que via na TV era apenas TV. Ele falava isso. Só na TV isso acontece. Outra frase dele era: só em filme.... Por ser de uma geração pré cinema, o real estava sempre presente. E esse real lhe bastava. Havia nele a dor de todo ser vivo, mas em meu pai eu jamais identifiquei a ansiedade ou a depressão que são marcas comuns em todos os meus contemporâneos. Eu brigava muito com ele exatamente porque eu não aceitava seu "comodismo", comodismo que hoje sei ter sido a adaptação ao mundo como ele é, real. Eu era e sou agitado, nervoso, neurótico, sempre insatisfeito. Ele dormia relaxado e um bom almoço o fazia ser feliz. Por que diabos ele era assim? ----------------------- Poque até os 24 anos, meu pai nasceu em 1926, ele nunca fora tentado pelo virtual. Seu mundo era sua aldeia e seu mundo lhe bastava. Houve um choque ao ver o Arizona, o Alasca e Ava Gardner, mas sua mente estava ancorada no bom e velho mundo biológico. Ele não imaginava ser John Wayne. Ele adoraria ser, mas ele sabia que querer ser John Wayne era bobagem. E fim de papo. Sua atenção, e aqui encerro este texto, era toda do mundo real. Muito melhor que John Ford era o bife na mesa. Mais excitante era sua mulher na cama que uma estrela na tela. Ir andar na rua era mais bonito que imagens de Star Wars. Porque sua mente, viva no real, sabia TODO O TEMPO: isso é só um filme. ------------------ Lembro que quando eu tinha 13 anos, meu pai achou uma Playboy escondida no meu quarto. Minha mãe nem sabia que mulheres posavam nuas e meu pai veio conversar comigo. A frase que ele mais me falava era: ISTO É SÓ PAPEL. VOCÊ NÃO VÊ PAULO? SÓ PAPEL. Ah meu velho....voce era saudável....que saudade de gente como voce.....

DENNIS LEHANE E NELSON RODRIGUES

Nós somos um puxadinho do Partido Democrata dos USA. Toda nossa lacração é cópia, servil, do que os democratas fazem por lá. De um modo pobre, aculturado, ogro, nosso funk é xerox ridículo da cultura do rap de Miami. Nossas pautas esquerdistas, aborto, trans, drogas, é a mesma do Partido de lá. Até a invasão fajuta do Capitólio nós imitamos, até as datas são quase a mesma ( lá dia 5, aqui dia 8 ). A diferença é que os USA possuem ainda um STF isento e um Partido Republicano que garante alguma racionalidade. Se voce usar quatro neurônios vai perceber que a diferença entre os dois partidos é a razão. Os Republicanos se apoiam na tradição da lógica e os Democratas viajam na maionese todo o tempo. Infelizmente aqui não temos tradição nenhuma lógica, então nos úmtimos 30 anos o Brasil é um hospício onde os ladrões tomaram o poder. Mas cara, porque voce está falando isso? Explico. ---------------------- Lehane é o típico irlandês americano de Boston. Sobre Meninos e Lobos virou filme do Clint. Este livro, Coronado, tem alguns contos e uma peça de teatro. O clima é aquele, frio, raivoso, ressentido, pubs e crimes. A linguagem é aquela dos USA branco atual: crispada, seca, objetiva, com gosto de cerveja forte. Gelada. Mal se percebe algum laço familiar quente. Okay? O que acontece é que um brasileiro, que nada tem a ver com essa merda, tenta hoje escrever desse jeito. E pior, viver desse modo. A vida de gangue. A vida de briga. A frieza do sexo sem sentimento algum, apenas a vontade de ejacular. A droga. ------------------------- Nelson Rodrigues é o Brasil antigo, o de 1950, ano em que meu pai chegou por aqui. Tudo em Nelson é paixão. É quente. Ódio, inveja, desejo de posse, tesão, raiva, pecado, muito pecado. As peles escorrem suor. A linguagem faz com que a gente sinta o cheiro dos corpos. Os homens são machos egoístas ou gays disfarçados. Cornos todos o são. As mulheres têm bundas fartas e todas são putas em potencial ou em realidade. Mentem, todos mentem, para si mesmo ou para o mundo. A realidade brasileira está toda alí. A do feijão. Do ônibus. Do batom. Do trabalho ao sol de 40 graus. O bigode. As lorotas. Nelson escreve breve e fácil e sempre como só no Brasil é possível. Não é porutuguês de Portugal. Não é português que tenta parecer cool ( inglês ). É a língua do Rio de então, a língua da classe média de Copacabana. ---------------------- Isso se perdeu neste século. Não há Brasil nos livros e menos ainda no cinema, TV, música. Há uma produção cultural que cria o artificial. Uma favela de gangue de Los Angeles, uma rua de bazar de Miami, sexo como em pornô made in NY. Nossa produção não cheira porque nossa rua, nossa vida se tornou UMA FALSIDADE. Somos um sub puxadinho de Oakland USA. Nossa prosa parece tradução do inglês. --------------------- Nelson seria cancelado hoje. Completamente. Ele era reacionàrio. Um conservador perto dele parece um liberal. Dificilmente ele conseguiria publicar. E emprego em jornal, esquece. Suas peças e textos estão desaparecendo da midia. E quando são levadas a cena se foca apenas no sexo e não na moralidade do autor. Tenta se esconder seu partido. ------------------- Me pego rindo ao ler Nelson. Rindo muito. Ele faz algo difícil de se conseguir, mergulha tão fundo no drama, no patético, que a dor se torna ridícula e brota o paroxismo do humor. Surge o tal brasileiro, ser que não existe mais. O brasileiro, um caldo de vaidade, medo, insegurança, malandragem e prosa rica. O mundo de Caymmi, Cartola, Moreira da Silva e Garrincha. Nelson Gonçalves e Cauby. Zé Trindade e Costinha. Chacrinha e Ary Barroso. Gente que só no Brasil poderia existir. ---------------------- Nelson só existe aqui. E aqui agora não tem linguagem própria e sem isso nada parece único, só possível por aqui. Morou?

marcello e stefania

leia e escreva já!

SEXO E RISOS

Eu tinha 30 anos quando vi meu primeiro filme pornô. Era um dvd explícito. Fiquei chocado. Espantado com a tristeza daquilo. O sexo parecia em luto. ---------------- Uma amiga estava me contando, ela é jovem, de uma experiência sexual dela com um homem da minha geração. Ela adorou mas riu muito por causa das coisas que o homem falava. Foi então que me veio essa constatação: educados sexualmente com a Playboy, as piadas do Juca Chaves e do Costinha e as pornochanchadas brasileiras e italianas, minha geração vê o sexo como deboche, esbórnia, piada, carnaval de salão. Para nós o sexo foi vendido como ato de rebeldia, mas rebeldia alegre, adolescente, um alívio. ----------------- Minha amiga me diz que hoje não se brinca com sexo. É coisa séria sim. Não se ri no pornô atual. Se sofre. Se "come" a mulher. É tudo urgente. Há tensão. Há agressão. O prazer está no gozo, na ejaculação e nunca no riso, na brincadeira. ----------------- A transformação do sexo em ato sem alegria foi mais uma etapa da amortização da rebeldia no mundo. Um povo triste e com medo é fácil de ser dominado. Gente sem riso não pensa em mudar nada. Se submete à dor e a rotina. Por isso temos hoje um rock sem força, cinema sem hedonismo, arte sem sensualidade e até o sexo, veja só, sem risos. Para minha geração sexo será sempre uma alegre sacanagem.

O ANATOMISTA - FEDERICO ANDAHAZI. Eros e Pornô.

Eu estava conversando com um amigo sobre livros e ele chamou minha atenção para um fato interessante. Como os romances hoje precisam expor suas intenções explicitamente todo o tempo. O autor é obrigado a dizer, a cada capítulo, sobre o que é a obra, qual o objetivo, porque o leitor deve ler aquilo. Nossa época é a era da pornografia, onde, como em filme pornô, não se pode "perder tempo" com erotismo, sugestão, sentimentos ocultos, tudo tem de chegar logo ao orgasmo, à penetração. Gozar logo. Então todo livro é um gozo, estou lendo para obter algo rapidamente: conhecimento ou prazer. E por isso, esse prazer é sempre ralo. ----------------- Andahazi é um autor argentino atual e este livro foi premiado. Mas qual livro não tem algum prêmio? São tantos os festivais.... -------------- O tema é excelente. Um anatomista no século XVI descobre a função do clitoris. Para isso ele faz experiências com mulheres vivas, lógico. A história é do tipo que mais agrada o leitor deste século: fato romanceado. Todos os personagens são reais, exitiram de fato, mas isso não significa que tudo aqui seja verdade. Passado em Veneza, o descobridor é preso por causa de suas pesquisas. Paralelamente há a história de uma puttana da época, uma cortesã de luxo, e o autor descreve sua biografia feita de luxo e de crueldade. ------------- Belos ingredientes não? Mas o que faz o autor? Conta tudo isso em linas de quinze palavras, capítulos de três ou quatro páginas, descrições genéricas, ação que não para de correr. É quase um relatório e fica impossível ao leitor ter qualquer possibilidade de encontrar um outro sentido que não seja aquele explícito-pornô: uma novela sobre corpos e sobre poder. Nada menos e nada mais. Voce terá o que a capa promete e mais nada. Fim. -------------------- Eu adoraria então falar aqui sobre o sentido da prostituição, sobre a vida na época dos Medici, sobre a Veneza obcecada por sexo e dinheiro. Mas pra quê? Este livro fala de tudo isso, mas não elucida nada e pior, não instiga a que eu desenvolva a minha escrita. Como tudo que é pornô, ele termina em si mesmo, exaure sem dar inspiração ( quem inspira é Eros ).

CORTESÃ

leia e escreva já!

O PROFESSOR DE DESEJO - PHILIP ROTH

No final, tudo se resume a sexo. No final tudo se resume a sexo? Roth escreveu este livro nos anos de 1970 e eu o considero um fracasso. Nas memórias desse homem fictício, o que se sente é uma confusão dos diabos. Mas não é pela confusão que não gostei do livro. O motivo é a sensação fake que ele nos passa. Nada parece real. ninguém tem vida. Será de propósito? Teria Roth desejado que todos parecessem fake? ---------------- A narrativa acompanha a vida de David Kepesh, filho de um casal dono de um hotel nas montanhas. David logo cresce e se mostra um homem que vive para o sexo. Não há nada de erótico aqui, ele apenas gosta de prostitutas e depois mora em Londres com duas suecas. De volta aos EUA, tem uma história com uma loira linda e promíscua. E por fim encontra a salvação, já na maturidade, quando se casa com uma moça que parece uma criança, uma saudável mulher. No processo conhecemos seus pais, colegas de ensino ( David é professor ), o terapeuta, o desespero de David. E nada disso parece importar muito. O romance quase é salvo quando David encontra Claire e sentimos que Roth quer nos dizer que o mundo hipersexualizado dos anos 60 foi um pesadelo. Mas a epifania literária, algo tão difícil de se escrever, não ocorre. ---------------- Escrito com diálogos que se cruzam, descrições rasteiras, penso que Roth foi bem ambicioso aqui. Mas afundou na falta de direção.

COMO TRATAR AS MULHERES - WILLIAM CAMUS

William Camus tem uma bigrafia ótima. Lutou na resistência na Segunda Guerra, depois foi militar na Indichina. Se tornou piloto de stock car. Fotógrafo e afinal, escritor. Mas, sinto dizer, este livro é bobo como só um ego inchado pode ser. Tenta ser engraçado e se faz chatinho. Ele fala de como as mulheres são, usando para isso a antropologia. Sim, somos macacos, nós homens caçamos e nos sacrificamos, elas ficam em casa e nos esperam. Ficando em casa se tornaram mais inteligentes e mais exigentes. Homens querem sexo, mulheres trocam sexo por bens ou proteção. Hoje elas trabalham e não precisam mais dos bens e da proteção, mas mesmo assim, nós, homens, continuamos pedindo sexo em troca de um favor. Será? ------------------------- A coisa é bem mais complicada que isso e esse papo não cola. O mundo pode ter sido assim até o meio do século XX, mas em 2024 o papel da mulher deixou de ser esse. Ela também quer sexo. Sempre quis, mas hoje ela assume isso. E, pelo fato do homem saber que ela quwr, toda essa situação se modificou. A negociação se complicou muito. E às vezes essa troca nem é percebida. Às vezes ela é apenas sentimental e não mais material. ----------------- Claro que há mulheres que continuam usando sexo como moeda e claro que há homens que gostam de ver as coisas nesse ponto. Mas isso não é mais a única condição. O macaco e macaca ficaram um pouco mais para trás. ---------------- Camus insiste na tese de que continuamos sendo macacos. Agimos e sentimos como símios agem e sentem. Penso que não.

JOSÉ ANGELO GAIARSA

Entre 1980-1986, o psiquiatra e terapeuta, José Angelo Gaiarsa aparecia na TV com frequência. Além de participar de vários programas, ele tinha horário próprio, na hora do almoço na Tv Bandeirantes. Junto com Gikovate e Mascarenhas, era ele o cara que popularizava a psicologia no Brasil. Era uma época em que na visão do povo, tratar da mente era coisa de louco. Ou de rico desocupado. ----------------- Sua simpatia era total. Ele parecia um Buda sorridente. Para mim, um jovem cheio de inibições, medos, neuroses, ouvir Gaiarsa era ver luz no fim do túnel. Seu discurso, libertário, era um alívio, e naqueles anos de abertura absoluta no costumes, uma benção. Gaiarsa não tinha medo de falar, em pleno horário de donas de casa, que as mães destruíam os filhos, que elas os ensinavam a se reprimir, que crianças imitavam adultos, e que as mães costumavam ser um exemplo nada saudável. Gaiarsa era a favor do gozo sem culpa, do casamento aberto, do tesão livre, da destruição da máscara de bom cidadão que nos obrigavam a usar. ------------------- Tenho lido seus livros, muitos. São simples mas jamais simplistas. Ele é POP, mas não charlatão. Nunca sai da competência psiquiátrica, na qual ele é muito bem treinado. Crianças são livres, adultos as destroem, elas carrega a vida toda a culpa por serem....crianças. Fingem ser adultos. Os mais doentes acreditam no fingimento geral. Cabe ao terapeuta liberar a criança reprimida. Parece terapia hippie de 1970? Parece sim. Mas como discordar? Se hoje o discurso é de que houve um excesso de liberalismo, o que pergunto é: houve mesmo? Tem certeza? ---------------- O que houve foi uma liberação das drogas e uma desvalorização do sexo. Consume-se droga, muita, mas seu uso não busca a iluminação, busca-se apenas um prazer rápido e inofensivo. E quanto ao sexo, sim, se trepa mais, mas se desafia a ordem social muito menos. O casamento monogâmico continua sendo lei, o desejo ainda é restrito ao amor ou ao compromisso, ainda se maquia sexo com as cores da poesia mais adocicada. Namora-se como se namorava em 1970. Se hoje namorados dormem na casa da menina, com as bençãos dos pais, é exatamente isso, com as bençãos dos pais. Não há sexo mais inofensivo que esse: transar na casa da mãe da namorada, ao lado do quarto do pai dela. O sexo em 2024 é livre, e ao mesmo tempo, por ser livre, é pouco excitante e muito bobo. Até os antes muito perigosos gays se tornaram tias de programas de TV. Sexo castrado. Sexo brinquedinho. ---------------------- Gaiarsa, se vivo, teria muito o que falar. A liberdade do corpo, que ele tanto pregava, para ele toda cura é corporal, se tornou obrigação. Temos de transar bem, transar gostoso, mas não podemos ter segredos, tem de ser tudo limpo, às claras, assumido perante a sociedade. Pois é ela, a sociedade, que faz o papel da mãe em 2024. Ela dita, ela vigia, ela cobra, ela corrige. Ser livre em 2024 é enfrentar a sociedade da midia-moda, como em 1970 era enfrentar pai-mãe. Se antes o sexo, feito por puro tesão, era a bandeira da liberdade, hoje, sexo não é mais liberdade, é antes, um quase dever. -------------------- Não estou dizendo que devemos não transar, que a castidade é o novo modo de ser rebelde. NÃO. O que digo é que transar e anunciar isso à todos, assumir sua homossexualidade, nada mais tem de libertário. É apenas uma gracinha futil. Talvez sexo como liberdade seja simplesmente manter tudo no privado, nada anunciar, nada compartilhar, ter uma vida interior. Manter a escuridão. -------------------------------- Nunca brincamos tanto e nunca fomos tão pouco crianças.

HISTÓRIA DO OLHO - GEORGES BATAILLE

Em 1928 Bataille lançou este livro sob pseudônimo. È um conto de fadas obsceno. Conto de fadas porque tudo acontece em tempo e em lugar nenhum. As ações são irreais, ocorrem sem esforço em mundo onde nada parece fazer sentido. Não há ação e reação, age-se. Ele faz sexo com ela, duas quase crianças. As cenas de sexo não são eróticas pois não se descreve o ato com intuito de excitar. Acontece. Ele gozou nela. Simples. ------------------ Há uma fixação pelo anus. Estouram-se ovos no cu. Essa palavra é motor do que se conta: cu. Tudo é cu. Há estupros que não são estupros, olhos que são cegos. Adultos nada percebem, o sexo do livro existe só para os muito jovens. Todo adulto é velho. Sexo como jogo brincadeira, sexo como destino. O livro é surralista porque cria um mundo onírico. O livro é ainda chocante por ser profundamente amoral. E não me deu o menor prazer. Então que os intelectuais encontrem seus sentidos na obra, quando querem eles sempre o encontram. Eu não.

AS ONZE MIL VARAS - GUILLAUME APOLLINAIRE

Apollinaire foi um poeta, famoso, do começo do século XX. Amigo de Picasso, morreu cedo, no campo de batalha, na Primeira Guerra. Como Cocteau, ele procurava atuar em várias frentes, e uma delas foi a pornografia. Apollinaire escreveu dois pequenos livros pornô e o mais famoso foi este. ---------------- Pornografia em 2024 não tem mais o sentido que tinha antes. Hoje é apenas um produto, inofensivo, geralmente de mal gosto. Ao contrário do erotismo, que dá dignidade e beleza ao sexo, a pornografia é agressão. O pornô torna o corpo um obejto de uso prático. Substituível. O erótico faz do corpo uma beleza maior, a pornografia faz do corpo nada mais que carne. O texto de Apollinaire usa todas as armas da pornografia. É sujo, é muito violento e abusa do mal gosto. Os corpos se tornam carne de açougue. As pessoas são abusadas, humilhadas, mortas. Sangue, fezes, podridão. O objetivo de Apollinaire era chocar, ir ao exagero máximo para assim liberar o amor real. Não deu certo, hoje o sabemos, mas em 1910 parecia um caminho provável. ------------------- Como leitura, em 2024, é pura perda de tempo. Não excita, não diverte e é insuportável nas suas cenas de sadismo. Tudo que voce imaginar tem aqui. É Deep Web em forma de livro. Eu odiei.

ASPECTOS DO MASCULINO - C.G. JUNG

Li este e o outro volume, o que fala sobre os aspectos femininos. Para mim não foi uma leitura muito instigante, isso porque os dois volumes são coletâneas editadas de Jung sobre o tema da força masculina e feminina no inconsciente. Anima, a força impessoal feminina que habita o inconsciente do homem, e o animus, equivalente da mulher, sendo essa uma força masculina. Grosso modo, é o lado mulher que habita a psique dos homens e o lado homem que vive na psique da mulher. Mas não vulgarize, meu lado feminino não é um eu travestido de mulher, nem mesmo é um eu mais sensível. A Anima não é uma pessoa, é, como o inconsciente, um espírito coletivo, comum a todos, puro instinto, puro hábito, pura força sem começo e sem fim. Anima que não fala, não se vê, que age como natureza, não humana e também super humana. É o desejo que sentimos pela MULHER, aquela imagem feminina que não tem rosto ou voz, a síntese de todas as mulheres e que é nenhuma sendo tudo. Procuramos em toda mulher essa MULHER e não a encontramos, pois ela vive dentro de nós mesmos, é a força que nos faz viver. Não é o que nos falta, pois ela é nós mesmos, mas é o que queremos encontrar. ------------------ Jung, como sempre faz, cita milhares de referências, filosofia hermética acima de tudo. Hermes-Mercúrio, como símblo de transformação, pois o encontro com a anima transforma o homem de dentro para fora. Jung enfatiza a necessidade desse encontro, do entrar dentro para poder haver a individuação, o encontro consigo mesmo que faz de um homem natural um homem ele-mesmo, um homem racional. Para isso é preciso criar uma ponte que faça o inconsciente ser entendido e assim reavivar toda a força da vida. ---------------- Pois vive no mais fundo caminho a força que criou vida e que existirá para sempre. Eis um tema junguiano: o inconsciente é a digital, eterma e imaterial, do criador, seja ele Deus, deuses ou o que for. O inconsciente é portanto imortal, pois ele existe em toda vida e a vida existirá após a minha ou a sua morte. Meu inconsciente, como minha anima, é igual a sua, pois ela é a sua. Apenas a sinto diferente de voce, pois é meu ego que a percebe ou a nega, e meu ego, que perecerá, sou eu e não voce. Minha história é meu ego, minha memória consciente é meu ego. O que não é ego é eterno, ou seja, a história da vida, a memória da vida, o tempo da vida. ---------------- Jung foi um suiço de língua alemã, portanto impregnado de filosofia alemã. Schopenhauer é uma influência imensa, como foi em Freud, mas Freud pega de Schopenhauer o conceito de Vontade como força que move a vida e o transforma em libido. Jung é mais sutil, ele mistura Kant e faz da vontade uma força inconsciente sem nome, uma espécie de vida surgida antes da vida, um imperativo. ----------------- Sempre bom o ler.

MARQUÊS DE SADE

Acima de tudo ele escreve mal. Os escritos do Marquês são chatos de ler e secos como lixa de unha. Pior, ele exemplifica a diferença entre pornografia e erotismo. Como acontece com Sade, a pornografia tem apenas um objetivo: explicitar um ato. Já o erotismo procura valorizar um sentimento e um desejo. Em Sade nada nos faz sentir excitação. Tudo que sentimos é mistura de irritação, pela ruindade do estilo, e espanto, pela surpresa de conhecer alguém com modo de pensar tão....adolescente! ------------------- Pois Sade lembra sempre um adolescente de 14 anos escrevendo pornografia para aliviar seu ódio aos pais. Seus ataques à Igreja, se comparados aos de Voltaire, são imbecis, suas "ofensas" à família são as mesmas de um bêbado de boteco e suas descrições do pecado são dignas de moleques falando besteiras em quarto escuro. Um homem, o alpha maximus, surra uma mulher. Ela agradece. Depois vem o resto, como esperado: sexo lésbico, sexo entre fezes, sexo com sangue, sexo grupal, incesto etc. Tudo escrito em modo pseudo científico, ou seja, chato demais. ----------------- Qual o valor de Sade então? Pois se trata de autor muito famoso! ..... Simples explicar: o valor é de quem o divulgou e o usou como ferramenta, não é um valor "de Sade", mas sim de quem propagandeou Sade. E por que o propagandeou? --------------- Autor morto a muito tempo, usar Sade não era risco de processo. Sua pornografia, se exibida ao público, liberava a pornografia feita então, contemporaneamente. Sade era um tipo de espantalho, escudo protetor e salvo conduto. Ao popularizar Sade, os surrealistas, simbolistas e góticos liberavam seus escritos. Eles sabiam que havia muita pornografia antes do tempo de Sade, e que nem mesmo um pioneiro ele era, mas o escolheram porque o próprio nome, Marquês de Sade, dava à pornografia uma aura de salas refinadas e castelos sinistros. O fato dele ter morrido preso em hospício também ajudou a ser o escolhido. -------------------- Okay, tudo isso é fato, mas ao ler sua obra o que nos aparece é um dos piores escritores famosos da história. E não deixo de pensar ser o maior crime de Sade ter recebido tal fama em lugar de tanta gente esquecida que merecia maior memória. -------------- Sade é tão ruim que nos faz ver o sexo como tédio. Impotente. Esse era seu segredo.

O DIA EM QUE PLATÃO CALOU A BOCA

Eu percebi que o mundo havia regredido em 2012. Era uma aula de teoria literária e logo no início um aluno ergueu a voz. Bradou que era absurdo ainda se estudar Platão, pois Platão era branco, grego, europeu, de uma sociedade de escravos, portanto ele nada tinha de válido para alunos de hoje. Não consegui ficar calado e a discussão foi ridícula. Isso aconteceu na USP, curso noturno, e foi por isso que me transferi para a manhã, onde a censura é bem menor. ------------- Na época achei aquilo um ato isolado mas com o tempo entendi o que se passa desde então. É a NOVA CIVILIZAÇÃO, aquela onde a única força válida é o seu desejo. Tento explicar. -------------- Platão não pode ser aceito nesse universo novo porque para ser aceito é preciso que voce entenda que uma voz vinda de 2.500 anos atrás pode ainda ser universal. E ao aceitar isso voce precisa admitir a possibilidade de seu desejo estar errado. Ou pior, ser irrealizável. Pois a cultura, a alta cultura, sempre nos ensina a humildade. Para ler Platão voce precisa aceitar o fato de que um homem sem internet, sem TV, sem rocknroll ou RAP possa estar certo. Mais ainda, só aceita a cultura quem admite estar vazio, com fome, necessitado de sabedoria. O desejo não pensa jamais estar errado ( se é que pensa ), ele está certo em querer. Ele deseja e desejar é ter sempre certeza de um objetivo. É saber. Um saber pueril, tolo, básico, animal, uma eterna auto afirmação da vontade. ------------------- O aluno que odeia Platão está se colocando acima de toda uma cultura. O que faz com que ele faça isso não é o fato dele ter estudado Platão e ter percebido suas falhas, que são muitas, mas sim o fato de que esse aluno DESEJA que Platão nada signifique. Ele anula aquilo que não quer entender. Aquilo que não lhe parece útil para realizar seus desejos. --------------- Que desejos? Muitos, aparentemente muitos, mas na verdade apenas um: SER AQUILO QUE VOCE QUISER. É a civilização da DITADURA DE PETER PAN. --------------- Uma das mais bonitas frases do livro de James Barrie é quando Peter diz que basta imaginar para ser. Eu, se quiser imaginar, posso ser um escritor ( mesmo sem publicar nada ), um filósofo ( mesmo sem criar filosofia alguma ), Posso ser aquilo que minha fantasia-desejo declarar. Desse modo, nada se torna mais odiado e ofensivo que alguém que diga: NÃO, VOCE NÃO PODE. CRESÇA! ------------------ Essa civilização se torna deserta de adultos e de herois. Pois adulto é aquele que trabalha limites, que entende regras, que é realista. E o heroi é o que luta contra o impossível, e para vencer o impossível, o limite, é preciso que voce o entenda, que voce trabalhe contra tal limite. Nesse mundo infantil, uma pessoa pode ser sacrificada por dizer coisas óbvias, como que um filho só pode ser gerado por um macho e uma fêmea, ou falar que não existe sociedade ideal. Essas verdades irão ofender os desejos de quem quer brincar de pai e mãe ou quem vê na natureza uma sociedade do bem. ------------- Para alguém mergulhado em cultura ocidental como eu, a coisa é bastante ridícula. E perigosa. Pois o que vejo é o nascimento do momento em que toda cultura será reduzida ao utilitarismo infantil mais simples e óbvio. Livros, filmes ou música só será aceita se for útil para ajudar alguém que esteja precisando de "uma luz", uma luz para realizar seu desejo. ----------------- Desejo que é sempre uma fantasia rósea e sem perigo. ---------------- Por fim digo que nunca na história se falou e usou tanto a palavra amor. Crianças precisam de amor todo o tempo. Então vemos bancos que são do amor, cosméticos do bem, lojas que vendem amizade, fraternidade em anúncios de cerveja. É um amor bobo, vazio, castrado. É o amor da tia do jardim de infância pelo aluno. É o amor que finge anular o lucro, o comércio, o uso do desejo. Pode-se dizer que nunca fomos tão hipócritas.

O EROTISMO, CONCLUSÃO

Homens e mulheres vêm o sexo de forma diferente, e a maior infantilidade do mundo atual é querer crer que eles são iguais. Mesmo um trans, um ex-homem, mantém muitas características do sexo masculino, sendo a principal delas o modo como vê o erotismo. Mulheres são, nesse ponto, muito mais sutis, detalhistas, percebem o todo, enquanto o homem percebe apenas um detalhe. ------------- No relacionamento, homens tendem a recomeçar todo dia. Cada momento de sexo tem por objetivo parecer com o primeiro. Quando ejacula, é como se tudo zerasse. O romance, na visão masculina, o romance ideal, não teria passado, o estado de novidade, de surpresa seria eterno. Mulheres não querem isso. Elas observam, e secretamente estão o tempo todo testando o homem. Elas não esquecem, esquecimento seria imaturidade. O romance ideal, para elas, é uma longa história em crescimento dia a dia. Não importa a surpresa ou a novidade, o que importa é o acúmulo. A mulher guarda. ------------- Ao nos apaixonarmos nos tornamos eróticos. Desejo atrai desejo e é por isso que namorados recentes atraem pessoas ao redor. Ironia: quando mais atraimos pessoas, eroticamente, é quando menos as queremos. Cheios de desejo pelo amado ou amada, exalamos energia, vitalidade. Mesmo um amor sofrido, em seu começo, tem essa carga erótica que atrai. Triste ironia, isso passa. A rotina mata o amor do homem e a decepção mata o da mulher. Ao amar matamos o amor. O que era novo se torna flácido, os testes são abandonados. A relação continua por hábito, por medo, por esperança. --------------- Outra diferença: homens quando deixam de amar ignoram a mulher. Podem continuar a viver com ela, mas não sentem mais nada. A outra pessoa se torna um fantasma. Mulheres quando deixam de amar criam nojo. O homem deve sumir de sua vista. Sua presença a exaspera. --------------- As lembranças dos homens, aquelas de ex namoradas, contêm falhas. Eles recordarão apenas o que foi divertido. E dessas memórias, 90% são sexo. Já a mulher irá lembrar de tudo que não deu certo. E dessas memórias, quase nada é sexo. Se preciso for, ela fará um relatório detalhado de cada dia do namoro. Já o homem irá recordar do corpo da mulher. Do cheiro. E quase mais nada. ------------------- Homens amam com os olhos e só com os olhos. O amor faz da mulher feia, bonita. Ele focará algo de belo nela, nem que seja apenas um dedo ou uma orelha. O resto será ignorado. Na hora do erotismo, ele como que esquece dos defeitos dela. É tomado. Quase um transe. Após o gozo, cai na razão e vem a melancolia, o desejo de fugir. Mas, se apaixonado, ele logo recomeça o jogo. Um homem que ama é capaz de ficar horas e horas olhando o corpo da mulher que ele adora. Nada lhe dá maior prazer que o olhar. -------------- Já a mulher ama com a pele. Com o ouvido. Com o nariz. O que mais a seduz é o cheiro do homem. O cheiro do corpo e o hálito. Esse o primeiro teste. Se o cheiro não agrada, nada mais agradará. Depois a voz. Mulheres são seduzidas pela voz certa, o timbre grave, o falar correto. E afinal vem a pele, o toque, o calor do corpo, o envolver. Como se fosse uma casa, a mulher abre ao homem uma porta de cada vez. Mesmo tendo já dormidos juntos, mesmo já tendo feito tudo que há para se fazer, muitas portas podem ainda estar fechadas. Ela as abrirá quando quiser e se ele o merecer. Homens não são casas. São estradas abertas. ------------------------------- Por fim o ciúme. Não o neguemos, amar é ter ciúmes. Quem deseja sabe que o outro é desejado. Por instinto sabemos que amando deixamos ela mais linda, mais viva, mais forte. E ela sabe que com ela voce é mais atraente. Situação sem solução: eu a faço mais atraente, a faço porque quero que ela seja cada vez mais bela. E assim, eu faço com que os outros homens a desejem. Aí é igual para a mulher. Ela sabe que ele é agora melhor, com ela, e sabe que assim as outras o desejam, agora. A verdade: eu a quero para mim, mas me agrada, me excita saber que outros a querem. O erotismo tem sempre um componente social. Desejamos aquilo que tem valor. E quem dá valor são os outros, não eu. ----------------------- Por fim: erotismo é alegria, sempre alegria.

O EROTISMO - FRANCESCO ALBERONI

Leia a postagem abaixo antes de ler esta. ---------------- Seduzir para o homem não significa produzir na mulher uma sensação indelével. Significa ir para a cama. Isso não quer dizer que homens não apreciem o amor, a história do casal, a emoção que inebria. Isso significa sim que para o homem o amor passa, sempre, pelo sexo. Homens têm uma clareza sobre o que seja amizade e o que seja amor, que as mulheres muitas vezes não têm. A fantasia erótica masculina reside na cama. A fantasia feminina reside no mundo inteiro. -------------- O autor italiano fala de Foucault. Diz que o francês, como quase sempre, errou feio ao dizer que " no mundo gay masculino, a promiscuidade existe porque o namoro entre homens foi reprimido por muito tempo". Ora, diz Alberoni, mulheres lésbicas não são promíscuas com a mesma frequência que se observa no mundo gay. Porque? O motivo seria a condição do homem. Homens, heteros, sonham com mulheres que dizem sempre sim. Há no homem uma fantasia de que o sexo, o desejo, pode e deveria ser automático. Quem diz não é a mulher. O homem está quase sempre querendo desnudar, ver, conhecer, transar com a mulher. No mundo gay, onde dois homens se encontram, não há o componente feminino que diz quase sempre não. O homem se libera. O sexo se faz sem amarras. ------------- Claro que há casais gays recatados. Mas mesmo esses, em muitos casos, viveram uma inciação orgiástica. No sexo lésbico nada disso existe. Inclusive é enorme o número de lésbicas que vivem juntas toda uma vida com carinho, cuidado e proteção, mas não com aquilo que um homem chama de sexo. ------------- Será tudo isso fato? Tendo a concordar por aquilo que conheço entre meus amigos gays. Mas acho Alberoni mais incisivo quando foge do mundo do erótico e invade o mundo da sociedade como um todo. Por exemplo, quando ele diz que a diferença básica entre a sociedade americana e européia é que na América, é preciso e até se exige, que todos tenham um objetivo, um fim a ser alcançado. Na Europa esse objetivo é vago. Se valoriza mais o caminho que a chegada. Isso se reflete no erotismo. Entre americanos há pouco erotismo visível. Isso porque o sexo se torna uma meta, um goal, uma vitória a ser obtida. Na Europa se dá mais valor ao ritual, a conquista, o flerte. Não há clareza no que se quer, há apenas um querer que pode ser transitório. Na América compromissos são sempre firmados, mesmo que depois sejam oficialmente rompidos. Na Europa o compromisso pode mudar a qualquer momento. Há entre americanos o horror a mentira, e por isso o adultério é ainda muito mal aceito. Não se mente sob um contrato firmado. Esse modo objetivo e prático faz com que nos EUA exista algo que não há na Europa: o bairro gay, o bar de solteiros, o bairro de famílias. Se voce tem por ALVO o mundo gay, more onde tudo fica a mão. Se voce quer sexo casual, vá a um single bar. ---------------------------- Uma alfinetada do autor em FREUD ( pobre Freud, todo mundo anda o alfinetando )... sexo não é a base da vida. Sexo é apenas um meio que os humanos usam para obter o que mais desejam: TRANSCENDÊNCIA. Animais são dominados pelo impulso sexual. Humanos não, podem o controlar. Usam o erotismo, o amor e o sexo para tentar obter uma experiência significativa. Transcender a vida banal. No amor vive a promessa de se viver uma vida maior. --------------- Belíssimas páginas sobre a paixão amorosa. O modo como no começo do amor, e só no começo, nos tornamos maiores, mais vivos, mais inteligentes e atraímos todos porque somos profundamente interessantes. Nossa voz ganha brilho, nossa pele fica mais macia, nosso olhar seduz. Em estado de excitação, prometemos excitação para os outros e optamos por nos conter. Pelo amor somos fieis. ---------------- Um livro bom.

O EROTISMO, FANTASIAS E REALIDADES DO AMOR E DA SEDUÇÃO - FRANCESCO ALBERONI

O autor é ainda vivo. Tem 91 anos. Jornalista, sociólogo e professor. Lançou este livro em 1986. É um de seus mais vendidos livros. Mas, será que o que ele diz é ainda válido em 2021? ----------------------- Primeiro fato dito por ele: Em todo produto pornográfico masculino, em todo sonho erótico masculino, o homem é sempre um ser que seduz as mulheres por sua simples presença. No sonho do homem, as mulheres oferecem seu sexo sem que ele precise fazer nada. A mulher é, nesse mundo, um tipo de prostituta. Ela abre as pernas apenas porque ele está ali. Na verdade o homem vê a mulher, na pornografia, como uma espécie de homem-mulher. Ela age com a disponibilidade que o homem tem ao sexo. Pois não se engane, homens sonham com sexo sem ritual, sem exigências, sem o sim ou o não. É a mulher quem diz não. É ela quem decide. E em 99% das vezes ele escutará não. ---------------- Mulheres não gostam de pornografia ( ainda? será? ). Costumam rir de cenas pornô masculinas. Acham aquilo tudo tão absurdo, tão idiota que caem no riso. O equivalente ao filme pornô masculino, no mundo feminino, aquilo que as excita, é a novela de TV, a série romântica, o drama romântico, e o romance literário água com açucar. A mulher não espera mais um príncipe, mas no seu sonho "pornô", continua existindo o homem poderoso, o heroi ferido, o misterioso com um passado secreto. Observe que no mundo feminino não excita o que é rápido e objetivo. O que excita é o todo, o ambiente, o enredo, a história que anda e se desenvolve. Mulheres não se excitam com a visão do corpo fazendo sexo. Ela se excita com um cheiro, um toque, um som, e principalmente um enredo. ----------------- Isso porque o desejo masculino é como seu gozo. Ele vem em jatos. O homem se excita, atinge o gozo e então esfria, quer cessar tudo, sumir e repousar. Seu desejo e seu amor são fragmentos, que podem contar uma hsitória, mas sempre em forma fracionada. Homens amam o começo, o início, o conquistar, o conhecer. Seu desejo por infidelidade, que existe sempre, mas nem sempre se manifesta, é o desejo por algo que sempre começa, sempre é novo, pela caça. ---------------- O desejo da mulher persiste. Ela após o gozo continua quente, e após o coito deseja o abraço, o contato, o estar unido. Seu desejo, como seu amor, não é fragmentado, é uma história, um acúmulo, um progredir. Ela não ansia pelo novo, ela quer o seguro. ------------------ Mas o que eles querem? O homem quer um corpo. Por uma mulher bonita ele pode se forçar a ignorar todos os defeitos dessa bela mulher. A neurose dela será compreendida. O ciùmes suportado. Até a falta de inteligência será esquecida. Uma mulher realmente bonita será perdoada por tudo, até pela infidelidade. ----------- Já a mulher ama o poder. Basta observar que mulheres realmente bonitas se casam com quem tem algum tipo de poder ( não necessariamente dinheiro ). O político. O esportista. O milionário. O ator famoso. Mas também o homem mais popular do bairro. O chefe do crime. O palestrante de uma seita. O chefe religioso. A mulher se excita com o homem de poder porque ele tem história, mistério e autoridade. E também porque ele dá à ela algo que mora fundo em sua alma: a segurança contra o estupro. ---------------- Milan Kundera diz em um livro que Homens amam mulheres bonitas. Mulheres não amam homens bonitos. Amam homens que tiveram mulheres bonitas. ----------------- Há na mulher o medo do estupro. Sempre. Por isso o homem que mais a atrai é aquele que parece forte, intimidador, mas que ao lado dela é sempre suave, confiável, paciente. Ele afasta os estupradores, mas jamais lhe ameaça com violência. A aceitação, absurda, do marido violento, é a garantia de ser estuprada apenas por ele, e por mais ninguém. ------------------------ Continuarei a falar do livro em post próximo.