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A COPA DO MUNDO HOJE

Todo esporte reflete o tempo em que ele é praticado, e assim, todo esporte muda de acordo com seu momento. Talvez nenhum mudou mais que o tênis, mas não existe um só que não tenha se adaptado ao clima contemporâneo. ( Penso que o rugby é o que menos mudou ). Desse modo, o futebol americano, por exemplo, é hoje jogado muito mais a base de lançamentos, o QB se tornou primordial e a violência diminuiu muito, ao ponto das defesas quase não poderem mais jogar. O basquete, com a regra de 3 pontos, matou o jogo de pivô, ele hoje é muito mais ofensivo, um tipo de exibição para a Tv e por isso não me interessa mais. --------------------- O futebol tomou a velocidade nervosa do mundo em que somos obrigados a viver. Tenho assistido a Copa do Mundo e os jogos são divertidos e ao mesmo tempo profundamente frustrantes. Por que frustrante? Olhe com olhos de crítico e voce perceberá. ----------------- O jogo tomou influências de dois outros esportes: o basquete e o rugby. Do basquete a ansiedade pela velocidade e a defesa onde todos devem defender ( okay, é o basquete dos anos 90, hoje se defende mal no basquete ). Do rugby o jogo em bloco e a obediência cega ao técnico. Mas há mais. Note quantos cruzamentos na área são feitos. 90% talvez dos ataques têm sempre o mesmo roteiro: zagueiros tocam a bola, o meia pega essa bola e faz o que? Procura levar à ponta. O ponta volta ao zagueiro, ele toca ao meia que toca à ponta. Até que se possa cruzar. São dezenas de chances de invadir a defesa pelo meio, chances de chutar ou correr pelo centro, que são ignoradas pela mania de jogar a bola para a ponta. -------------- A defesa se tornou a mesma do basquete. Corpo a corpo. Se pode agarrar, pegar, bloquear, tocar. Os escanteios, centenas, são cômicos. Não fazem sentido. O jogo é hoje extremamente ansioso, febril, quase histérico. ------------------- Quanto ao modo de jogar, esqueça. A maior beleza da Copa era ver maneiras diferentes de jogar. O cadenciado jogo alemão, o raçudo modo argentino, os ingleses e sua organização, o Brasil e seus dribles. Eu falei drible? ---------------- Um drible comum faz de qualquer jogador um craque e dois dribles fazem dele um gênio. Eu vi lançamento de 15 metros ser chamado de genial. Nesse esporte hiper veloz e obediente não há espaço para o indivíduo. Claro que Messi é uma excessão, mas é o último, seu jogo é aquele dos anos de 2002, 2003. Um cara que joga sozinho. Os novos craques, M'Bappé ou Olise, óbvio que são ótimos jogadores, mas brilham em conta gotas. Jogassem em 2005 seriam como Ronaldinho ou Zidane, um show de 90 minutos, individualistas ao extremo. ------------------ Isso me leva a falar do tempo e do saudosismo. Se fala muito que Pelé ou Maradona não jogariam contra as defesas de hoje, 9 jogadores bloqueando o espaço. Eu vou mudar a questão, CR7 ou Rodri jogariam em 1970? Claro que sim. O grande jogador joga com o cérebro e o corpo é formatado para o jogo que se joga então. CR7 em 1970 faria gols às dezenas e seria menos atleta e mais habilidoso. O mesmo para Pelé ou George Best. Tivessem nascido em 1998, eles seriam super atletas com o mesmo talento natural que tinham em 1970. O grande jogador é grande em qualquer tempo porque ele tem talento, seja isso o que for. A atleticidade ele adquire na escolinha e no clube. M'Bappé faria gols em 1958 e jogaria como Garrincha, Jairzinho faria gols em 2026 e jogaria como Yamal. ------------------------- Como disse, o esporte, comoa arte, reflete seu tempo. E assim como Mozart, se tivesse hoje 40 anos talvez não fizesse música mas fosse um fenômeno da mídia, Bjorn Borg, no tênis, teria a força de um canhão e a habilidade que ele sempre teve. A dele mesmo. ------------------- A Copa em 2026 é uma diversão típica de 26: veloz, estridente, barulhenta e febril. Estamos na Era da pressa, e tem de ser assim.

CONSIDERAÇÕES FILOSÓFICAS DE ARAQUE SOBRE A COPA DO MUNDO DE 2022

Se tornou emblemática a imagem do goleiro da Argentina usando o troféu como um pênis. Como todo ato não pensado, ele fala muito mais do que aquilo que o goleiro imaginou. Numa copa protagonizada por times castrados, o único time viril venceu. Essa copa exemplificou a situação vexatória da civilização ocidental em 2022. Todos tentando jogar o futebol bonitinho e bem comportado da Premier League ( ninguém chegou nem perto do brilho de Manchester City ou Liverpool de 2019, mas tentaram ). Venceu o time que jogou de acordo com suas tradições nacionais: a Argentina. O time de Messi jogou um River x Boca. Mostrou cara feia sem pudor, xingou, não cumprimentou adversários, bateu no calcanhar, fez cera, pressionou o juiz, venceu. Com um falo do tamanho do Quatar, a Argentina jogou como o time de Passarela e Kempes de 1978. Um futebol de cuspe, de carrinho, de dividias sem receio de cartão, um futebol portenho. Mas não foi apenas isso. ------------------- Messi foi, facilmente, o melhor jogador. E o fato de um cara "velho" ter brilhado exibe a crise do esporte. Cito alguns nomes: Iniesta. Pirlo. Snejder. Zidane. Totti. Vieira. Toni Kroos. Schweisteiger. Kaká-Rivaldo-Ronaldinho Gaúcho. Onde o meio campo foi parar? Alex e Djalminha nunca tiveram chances por causa do excesso de camisas 10 e 8 no Brasil. Nesta copa, o péssimo técnico do Brasil obrigou nosso único craque a começar o jogo e terminar na área também. Neymar teria de fazer funções de volante, armador e finalizador. Somente Crujff fazia isso. E Neymar está longe de ser o gênio holandês. ------------------ O Brasil jogou sem meio campo. Um vazio imenso. Perdeu a chance de vencer a copa mais fácil de ser vencida da história. Marrocos, o único outro time com falo ereto, chegou às semis. Isso prova a fraqueza do torneio. Quanto a França...sem Pogbá e Kanté ela perdeu o meio campo. Griezmann teve de ser o 10. Nunca foi. Preciso ser dito que se jogasse em 2005 Mbappé seria apenas mais um. É um "pontinha driblador", algo banal em outros tempos e que hoje parece genial. O fato dele poder ser cogitado a melhor do mundo testemunha tudo que falo aqui: o esporte está banalizado. ---------------- No jogo final a Argentina partiu pra cima como o Boca dos velhos tempos. Pressão e intimidação. A tática era simples: vamos fazer eles sentirem medo. Deu certo. À França faltou talento. Um chapéu de Zidane desmoralizaria a pressão e inverteria os papéis. Faltou um passe longo de Pirlo. O domínio de bola de Iniesta. Uma linha assustadora tipo Ronaldo-Roberto Carlos- Adriano ( Deus...já tivemos esses caras! ). A pressão alucinada é vencida com a técnica fria. Esta copa não teve técnica e nem frieza. Venceu o time mais macho. E isto é um elogio. ------------------ Eu gostaria que a Argentina servisse de exemplo. Mas não como modo de jogar. Que ela lembrasse a Itália que para vencer é preciso ser Itália e não uma cópia pálida de Espanha de 2010. Lembrasse a Inglaterra que o modo inglês de jogar lhes deu uma copa. Fizesse a Alemanha voltar a valorizar o preparo físico, a velocidade, a raça, tudo aquilo que sempre foi seu caráter. E lembrasse ao Brasil que não somos espanhois ou franceses. Somos o país de meio campistas. Ou éramos. ( um adendo: a Espanha deveria esquecer o time de 2010 e voltar a acrescentar alguma fúria à receita...o time espanhol é frouxo como uma banana podre ). ------------------ O futebol evolui e aquilo que em 2012 ou 2018 parecia moderno cheira hoje a derrota. Tenho plena convicção que um time à Muricy estilo 2006, com 3 volantes e um armador, venceria essa copa facilmente. A França, ingenuamente acreditando no talento que não tem, nem mesmo designou alguém para seguir Messi. Foram vaidosos e soberbos. Foram bonzinhos. O argentino com a camisa 10, mesmo não sendo nem sombra do que já foi, brincou de jogar à vontade. Porque estava cercado por um time de Muricys. De River x Boca. E com um goleiro que não teme exibir sua masculinidade ao mundo. Como dizia Michael Jordan: finais são vencidas por homens. Meninos se encolhem.

CHRISTMAS IS OVER

Na Universidade do Sul da Inglaterra está proibido dizer que os feriados serão de Natal. Deve-se dizer que são Feriados de Inverno. Dizer Christmas ofende alunos que não são cristãos. Nos anos de 1990 houve o começo da Era da Hipocrisia, e agora, 2022, temos a Ditadura da Minoria. Ao se proibir uma palavra, ao se proibir um costume, ignora-se o fato de que eu me sinto ofendido, magoado, oprimido e injustiçado. Mas por ser branco e filho de europeus, mesmo toda minha família sendo originária de pobres analfabetos explorados, faz de conta que eu venho de uma classe social privilegiada. ----------------- Não se engane achando que foram os tais alunos que se sentem excluídos no Natal que moveram essa ação. Assim como não são negros oprimidos que regem a vingança contra a escravidão, não são pobres ateus que comandam a ação contra as tradições cristãs. A coisa é perversa. ----------------- Operários contra patrões ou camponeses contra donos de terra são movimentos sociais que perderam todo apelo revolucionário. Então descobriram que o modo de perturbar-agitar-convulsionar o mundo capitalista ocidental seria substituir a equação pobre X rico por negro X branco, hetero x lgbts ou cristão x ateu. O objetivo é o mesmo dos tempos do comunismo clássico: dividir para conquistar, desmoralizar para derrubar. --------------- Eu fui aluno de professores partidários da velha esquerda de Brizola, e em sala de aula eles diziam abertamente que a filosofia era uma só: quanto pior melhor. Era preciso esfacelar a "sociedade injusta" para a partir daí, do zero, construir uma sociedade justa. Quando vejo ações tão radicais, tão absurdas, gratuitas em sua agressividade desnecessária, percebo logicamente que o objetivo não é reparar ou consertar, antes é provocar, ferir, criar uma guerra cultural e moral. -------------- Triste observar que nós, os que conservam, não temos muita escolha. Por crermos na não destruição, na ação de reparo e jamais de destruição, ficamos atados. Assistimos a guerra e nada conseguimos ou podemos fazer a não ser denunciar o absurdo e pedir equilíbrio e justiça. Orar por lógica. Tentamos crer ter tempo, que ele coloca tudo em seu lugar, que o tempo traz a verdade. Não trará e não será. O estrago é irreversível.

COPA DO MUNDO

Não vamos ser hipócritas, a Copa não é mais tão importante. O que a diferenciava de todo torneio de futebol era a chance de unir todos os grandes jogadores em um único mês. Era somente nela que voce podia ver Pelé contra Beckembauer. A cada 4 anos os maiores se mediam. Mesmo que aquele jogo não fosse tão bom, ele era único. Em junho de 1970 o Brasil venceu a Inglaterra no jogo do século. A gente sabia, era coisa única. ----------------- Hoje não pode e não há como ser assim. A Champions League é muito melhor como show e como esporte. O charme da Copa era o fato de que Rivellino, Tostão e Gerson nunca haviam jogado contra Bobby Charlton, Banks e Lee. Eram estranhos dentro do campo. Mais ainda, ver a Inglaterra jogar, ou a Italia ou o Uruguai, era ver outro modo de jogar. Uma Copa era a chance de tomar contato com vários estilos de jogo diferentes. Quando a bola rolava voce sabia que aquilo que voce ia ver era inédito. ----------------- A Copa perde o sentido a partir do momento em que o jogador da Argentina joga o ano inteiro com 5 jogadores da Espanha e enfrentou todos os outros 4 vezes no último campeonato. Esse jogador, argentino, é treinado por um francês, mora em Madrid e cresceu jogando em Portugal. Seu estilo é espanhol. E o estilo espanhol é holandês. A Copa passa a parecer mais do mesmo. Com apenas uma diferença: os jogos são muito piores. ------------------------- Por isso temos a impressão, verdadeira, que a Copa da Espanha em 82 foi a última pra valer. Ali ainda havia a estranheza de se ver um time desconhecido, de se testemunhar a primeira vez que Eder, Oscar, Serginho, Junior, Leandro, jogavam contra Rossi, Antognoni e Conti. Eram "primeiros encontros". Tudo parecia inédito. O Brasil tinha apenas um jogador que jogava fora do país. Nosso jogo era 100% brasileiro. E o italiano 100% calcio. Cada seleção era uma cultura, um modo de jogar, um planeta futebol. Isso dava ao evento seu caráter de festa, de exibição mundial, de coisa RARA. ------------------ Ver o Japão vencer a Espanha apenas testemunha a surpresa que não causa tanto espanto assim. Isso porque tanto Japão como Espanha são mais do mesmo. Modos de jogar que são conhecidos, copiados, estudados, dissecados, até virarem rotina. O jogo, divertido, jamais poderá ser histórico. A lembrança será tênue. A lenda nunca será construída. Ele marca um momento engraçado, mas nunca um momento decisivo. Como esporte Real Madrid e Barcelona é muito maior. Como produto a Premier League é mais excitante. Como fato histórico....bem, Brasil e Inglaterra será sempre maior. E parecerá cada vez mais mítico. -------------- A FIFA, pensando na sua rivalidade com a UEFA, tudo que importa é só isso, irá aumentar ainda mais o número de seleções. Ou seja, nunca mais haverá chance de Itália ou mesmo o Uruguai ficarem de fora. Veremos muitos Bolivia x Coreia ou Gana x Irlanda do Sul. E a imprensa fingirá, claro, que tudo aquilo é relevante. Eles precisam honrar o salário pago pela Coca Cola. Bilhões irão assistir sentindo saudades de um bom Corinthians x Ituano. Ou um Stoke City x Newcastle. Messi fará um gol comum e para manter a audiência dirão que foi gol de gênio. ------------- Falo com conhecimento de causa. Eu era do tipo que via todos os jogos, prestando total atenção. Esta é a primeira Copa que asssito quase nada e pouco me importa quem vai vencer. E na escola observo que a molecada também pouco se importa. Botam a blusa amarela, fazem festa, mas não ligam para o jogo. Voce ficaria surpreso em saber que os 20 garotos mais ligados em esporte da escola são todos fãs da NBA.