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GUSTAV MAHLER, O FILME DE KEN RUSSEL E A SINFONIA NÚMERO 9
É quase um milagre. O final da Sinfonia número nove de Mahler. Escrita em momento terrível, Mahler brigado com a Sinfônica de New York, a saúde muito fragilizada, ele adivinhou ou intuiu que aquela seria sua última obra. São mais de 80 minutos de despedida, de dor, de luta e de absoluta e tétrica beleza. O final desta obra prima, quase silencioso, arrasa sua alma e ao mesmo tempo te dá nova força. Por isso, um milagre. -------------------------- Aviso: se voce tem dificuldade para ouvir Brahms esqueça Mahler, ele exige ainda mais atenção. O modo como Mahler faz música é nada simples. Melodias são criadas como se fossem independentes, e então misturadas. São várias "músicas" executadas como se ao mesmo tempo, o risco de caos é imenso, mas, ninguém sabe como, Mahler harmonizava e fazia dar certo. Para quem tem dificuldades com música erudita, Mahler é torturante. A sensação é de falta de melodia, de bagunça, de música que ameaça nascer e não nasce. Na verdade há muita melodia, tudo organizado e as músicas nascem e morrem o tempo todo, sem parar. Mahler queria criar a música da Terra e por isso suas sinfonias são assim: como passear pela Terra e ver tudo: passado, futuro, animais, tempestades, mares, tragédias, mortes, nascimentos. É a mais universal das músicas e a mais terrestre entre todas. ---------------- Estranho destino teve Mahler! Ficou rico e famoso mas não como ele queria. Seu desejo era ser um grande compositor, mas sua fortuna foi como maestro. Foi um superstar no tempo em que maestros eram superstar ( entre 1880-1910 ). Regeu em New York por uma fortuna e até hoje é considerado o maior maestro da história. Mas...enquanto vivo, suas composições eram tratadas como "mera curiosidade de um grande maestro que insiste em compor". Morto ainda no auge, longe da velhice, por problemas crônicos de coração, foi chorado como maestro e apenas como tal. E então algo aconteceu... a partir da década de 1960, lentamente, primeiro apenas entre os mais cult, Mahler começou a ser descoberto como compositor e então na década de 1980 veio a virada, Mahler passou a ser visto como um dos cinco maiores músicos da história, um igual a Wagner, Bach ou Beethoven. Desde então sua fama só cresceu. Em 2026 ele é, após Beethoven, o autor mais tocado em salas de concerto. Mesmo sendo tão dificil e exigindo orquestras imensas. ------------------ Mahler fez a ponte entre a música do século XIX, a de Beethoven, Brahms e Wagner, e a do século XX, a de Debussy e Stravinsky. Ele era romântico como Liszt e moderno como Ravel. Demorou muito para eu o entender, várias vezes o escutei sem entender, sem entrar em seu universo. O filme de Ken Russel, feito em 1974, ajudo. -------------------- Tentei ver esse filme anos atrás e detestei, parei em 20 minutos. Agora fui em frente e ele me tocou. Tem um dos finais mais tristes da história e a música é sublime. O filme nos faz entender a música de Mahler e isso não é pouco. Do meio para o fim ele cresce muito e algumas cenas são memoráveis. Claro, há o velho exagero cafona de Ken Russel, a cena com a nazista é grotesca, mas é um filme belo, digno do artista. Mahler, egocêntrico, revela no final quem ele de fato foi e isso nos toca. Alma, sua esposa, finalmente entende o marido e nós sentimos o que ela sente. --------------------------- Que houve naquele canto da Europa entre 1880-1910? Entre Munique e Vienna, Praga e Budapeste? Wittgeinstein e Kafka, Musil e Klimt, Mahler e Freud, Bartok e Mann. Seria o Danúbio? A mistura de línguas? A cultura judaica colocada ao lado dos ciganos e germanos? Ninguém sabe. ----------------- O CD que ouço traz Claudio Abbado em 1999 regendo a Filarmonica de Berlin. Abbado havia quase morrido em infarto e voltava ao trabalho. O CD, gravado ao vivo, traz os aplausos finais. Gravaram dois minutos onde se escutam vários Bravo! e muitas palmas. Leio que duraram 12 minutos. 12 minutos de aplausos. A gravação é sublime.
CONCERTOS PARA PIANO DE BARTOK E DE PROKOFIEV
Bartok e Prokofiev nasceram e morreram quase na mesma época. Saíram de sueus países e viveram nos USA, mas nunca se encontraram. Não consigo decidir de qual dos dois eu mais gosto. Bartok tem a exuberância de sua terra, a Hungria. Ele é eslavo, ele é cigano, ele é folclórico e ao mesmo tempo é pura inteligência. Seu concerto para piano número três soturno e é violento, é festivo e é profundamente misterioso. Ele usa a orquestra como numa sinfonia e o piano é integrado ao som de cordas, metais e muita percussão. O centro não é o pianista, é a obra construída. Uma obra prima. -------------------- Prokofiev é russo até os ossos. E como russo ele não esconde nada, a música nasce como parto explosivo. Exuberante, ele usa tudo o que pode para criar vida. Prokofiev é sempre belo, mas nunca é uma beleza óbvia, ela é estridente, efusiva, vasta e cheia de defeitos bem vindos. Um gigante da música, Prokofiev é um prazer que nunca decepciona. ----------------- Georg Solti, húngaro como Bartok, rege a Filarmônica de Londres na versão do CD que consegui ( por dois dólares ). Já Prokofiev é regido pelo famoso André Previn. O pianista em ambas as obras é Vladimir Ashkenazy e não há pianista maior que ele. Nunca lento demais, jamais histérico, Ashkenazy tem volume e tempo certos. --------------- Leio que as pessoas estão voltando a comprar CDs e que os preços começam a subir. O que as motiva é querer poder ouvir aquilo que desejam onde e quando quiserem e também o fato de certas obras serem muito dificeis de se achar na net. Eu penso que o motivo principal é uma mistura de esnobismo e desejo de posse. Eu quero TER um Bartok e eu tenho vários Prokofiev, voce não. O fato desse renascimento do CD começar pelo público dos eruditos não é casual. Nós somos todos esnobes sim.
MOZART, MASS IN C MINOR - FILARMÔNICA DE BERLIN, CLAUDIO ABBADO
Um amigo me diz que esta obra de Mozart, para ele a maior Missa da história, não combina com a regência de Abbado. Diz ele que falta punch, pegada nas partes do coro. Eu discordo. Não consigo imaginar nada melhor. ---------------------- Para quem não é íntimo da coisa, Missa é um tipo de obra que acompanha o sacramento da missa, ponto a ponto. Do século XVII ao XVIII foi uma forma muito usada, a partir do século XIX menos e no XX se tornou rara, embora existam obras maravilhosas feitas nos últimos cem anos. --------------------- A música surge poderosa, majestosa, celestial e se despeja de uma vez só sobre nosso corpo atingindo a alma e o espírito de imediato. Como é obra de Mozart, ela nos seduz como arte e não como religião. Faltava à Mozart a fé indiscutível de Bach. Mas o efeito musical é o mesmo, beleza ao extremo. As vozes são mais que belas, são atemporais. Me faz pensar em como a voz humana pode ser o maior e melhor dos instrumentos. A cada vez que a voz surge nos sentimos enlevados. ------------------- Mozart é o maior enigma da história musical. Ele talvez não seja o mais genial ou o mais criativo, mas ele é aquele que parece mais bem dotado. Sua música, mesmo a sacra, parece vir sem esforço, sem luta, sem preocupação. Esta obra-prima é um presente para todos nós. O que podemos fazer? Ouvir e agradecer. É tudo.
OTTORINO RESPIGHI - PINI DI ROMA, FONTANE DI ROMA, FESTE DI ROMA, NBC SYMPHONY ORCHESTRA, ARTURO TOSCANINI
É impossível dizer qual o melhor maestro da história, Furtwangler, Bruno Walter, Solti, Karajan, Abbado, Munch, Kleiber...a lista é sem fim, mas Toscanini foi o mais poderoso e o mais famoso. Italiano, ele começa sua carreira quando nasce o século XX e nos anos de 1940-50 ele ajuda a popularizar a música erudita nos EUA, fazendo transmissões ao vivo pelo rádio e depois pela TV via NBC. Era uma figura POP que vivia no mundo da mais alta cultura. Tenho aqui um CD com esta obra prima do italiano Respighi, numa gravação de 1953 com som muito bom. ----------------- Toscanini sempre rege com brio, e esse seu estilo se casa muito bem com a música que temos aqui. Se eu fosse definir a obra de Respighi eu diria a palavra VITAL. Maravilhosamente viva, é música que é água, é terra, é fogo e é gente. Os metais brilham como fossem incandescentes, mas são as cordas que trazem a sensação de magia voadora à esta obra prima. A música surge como aparição mágica e envolve nossa alma levando-a ao além do Cosmos. Giramos com ela e nos sentimos entontecidos. E perdidos, deliciosamente perdidos. --------------- Esta obra, 70 anos atrás, era extremamente popular e eu não sei se ainda a conhecem. A música, quando grande, é mais que magia ou mistério, é cura espiritual. Esta é uma das poções.
A QUINTA DE TCHAIKOVSKI E A DIFERENÇA ENTRE MÚSICA RUSSA E MÚSICA DA EUROPA
O modo alemão de se escrever uma sinfonia é dominante desde o tempo de Haydn e é esse modo que faz com que tanta gente sinta dificuldade em acompanhar uma exibição sinfônica. Como é esse estilo que a crítica musical tanto adora? É um estilo em que a música vai sendo construída pouco à pouco. Lentamente, o autor acrescenta um acorde aqui, um motivo ali, e variando tom e harmonia a grande obra vai crescendo até chegar ao seu êxtase musical. Tudo feito de um modo que faça sentido, modo quase matemático. Uma frase aqui é completada por uma outra lá. -------------- Quando a música russa aparece para o resto da Europa, por volta de 1870, é um susto! Ela parecerá selvagem por um fato que hoje nos parece simples: ela vai direto ao ponto. De uma maneira brutal essa música eslava não se preocupa em construir ela se expôe. Eis aqui a melodia, eis aqui o que sinto, eis aqui meu erro, eis aqui a mensagem. Nada é disfarçado, enrolado, camuflado. Mesmo Beethoven, ao lado de um russo, irá parecer um pouco frio. ---------------------- Esse o motivo do ódio dos críticos por Tchaikovski e do amor do público por ele. O russo não faz música, ele exibe emoções. Como Rachmaninov mais tarde. ------------------- Eis o motivo de minha dificuldade em ouvir Bach por exemplo. Sua música é tão perfeita, tão matemática, tão bem acabada que não parece mais humana. Parece algo vindo de outro planeta. Bach paira acima de nós. Já gente como os eslavos Chopin e Smetana ou russos como Mussorgski são absolutamente humanos. --------------- A quinta de Tchaikovski tem momentos quase bobos, como a valsa que ele enfia no meio de um movimento, mas ao mesmo tempo é uma espécie de declaração de sentimentos fortes, sem medida, reais. Não tem sutileza, não espera para entregar os temas, joga logo tudo na sua cara, ou seja, não é alemã. Confesso que gostei bastante. ----------------- Quanto a Tchaikovski, hoje ele é bem melhor aceito pela crítica e continua sendo uma estrela entre o público.
OFFENBACH E A JOIE DE VIVRE
Qual o problema em celebrar a vida? A mais popular das canções do século XIX é absoluta alegria. Coloca para ouvir uma execução da Filarmônica de Filadélfia sob Ormandy. É a Alegria de Paris de Jacques Offenbach. Champagne, risos e cortesãs, um tipo de universo que hoje devemos nos desculpar por apreciar. A alegria que em 2026 seria indesculpável, a alegria dos malvados eurpeus de 1870 colonialistas não é? Pois eu digo: ouse ser feliz enquanto a morte não vem, pois esses homens e essas mulheres de 1870 sofreram tudo que tinham de sofrer e estão esquecidos por seu mal e serão lembrados por seu bem. A música? Uma dançavel celebração do viver em esquecimento, por um momento. Estranho mundo! Sifilis, tuberculose, guerras e vidas que duravam quatro décadas! E por isso, e com isso, e apesar disso, a alegria de viver! Porque é necessário sofrer, sofrer no mundo lá de fora, o real, para dar valor ao estar vivo. Então celebrem! E bebam as bolhas do vinho! E se joguem nos braços delas, todas elas. Ritmo e rodopios que dizem o que é preciso ser dito. É tudo.
SHOSTAKOVICH - SINFONIA NÚMERO 5
Shostakovich sempre foi um enigma. Para quem é de direita, ele sempre foi chamado de serviçal da esquerda. Para os comunistas, era um problema, talvez demasiado burguês. Provavelmente sua única preocupação era compor e assim eu o chamaria de artista independente. ------------ Apesar dos austríacos, alemães, ingleses, eslavos e franceses, e da Itália, lógico, a Russia é para mim a nação que faz a melhor música pós Wagner. E Shostakovich não desmerece a genialidade de Prokofiev e Stravinski. Sempre surpreendente, sua música explode de vitalidade. As orquestras são usadas em tudo aquilo que podem oferecer aos nossos ouvidos. Ele é agressivo e belo. Esta Sinfonia foi condenada pelo Partido, considerada pouco proletária, não tinha mensagem alguma às massas ( sim, Stalin era desse jeito ). Shostakovich viveu sempre nessa corda bamba, sendo às vezes silenciado e outras vezes festejado. Na URSS não havia meio termo, ou voce elogiava o regime ou era calado. Sua arte precisava ser sempre útil, à serviço do Estado. Shostakovich tentava parecer bem conformado ao Poder, fazia o que podia. ------------------- Ouça esta sinfonia no volume máximo que voce puder. O efeito será imediato. Mestre em orquestrar, ele colore a música utilizando todos os timbres da orquestra. Não teme a percussão e não teme os metais, coloca o piano como aquilo que ele é: percussivo. Se voce de deixar invadir pelo som sua alma irá bem longe. Um imenso prazer. --------------- Charles MacKerras rege a Royal Philarmonic na versão que ouvi.
CHARLES IVENS-SINFONIA 4. SIM, ELE É GENIAL
Nesta fase da minha vida só o que é belo, no sentido italiano, ou o que surpreende me importa. Charles Ivens foi o maior gênio da música americana. Ouça a sua Sinfonia 4 ( ouço com a Sinfônica de Chicago, regida por Tilson Thomas ), ela é uma porrada na cara. Por pouco mais de 30 minutos voce é supreendido por tudo aquilo que ele cria. A orquestra, imensa, despeja em seus ouvidos uma potência sonora oceânica. O piano, usado como instrumento não solista, mas como parte da massa, pontua essa obra prima composta nos anos de 1930. O barulho, harmônico, despudorado, cita canções populares dos USA, trechos de bandas marciais, fragmentos de arranjos. Ivens não teme nada, sua obra é construída como uma catedral de sabedoria musical. ------------------ Mas não espere sentir algo que remeta à uma narração verbal. O som é tudo e ele é uma linguagem que vai muito além da lingua verbal. São massas que despencam com sua percussão atômica. Ivens não procura demonstrar nada, ele faz som. Épico. E assim minha voz se cala. Ouça.
BACH NO DOMINGO
Experimente ouvir o Terceiro Concerto de Brandenburgo imaginando cenas aleatórias de sua vida. Sem sentimento nenhum em especial, sem procurar pensar nada de relevante, reveja mentalmente sua mão segurando um lápis, um beijo aos 15 anos, seu carro em 2005, um jantar de dia dos pais, sua sala, uma montanha, uma dor, uma febre. Imagine essa cenas em coisas que possuem, ou são possuídas, um sentido. Pronto. A música de Bach casa à perfeição com essas cenas. Mas, muito cuidado agora, vá um pouco além e note uma pequena coisa encantadora: faz sentido. E então, estando dentro da música, voce percebe que há um ritmo nessas cenas, ou melhor, uma harmonia na aparente aleatoriedade da vida. O destino, o azar ou a sorte, a dor e o gozo, todos são harmônicos se vistos em conjunto. Pois sim, a música é a vida e sua linguagem é não verbal. --------------- Se isso não fez sentido para voce, se nada aqui te importa, então digo que sempre, desde sempre, ao ouvir os primeiros acordes do concerto terceiro, um sorriso nasce no meu rosto, e não é um riso, é um sorriso de satisfação. Esse sorriso diz, é isso. -------------- Bach, que viveu a vida pré romântica, em que um artista era um trabalhador e não um ego a procura de afirmação, fazia música como um dever e um talento dado por Deus. Toda sua música tinha uma função e o próprio Bach disse isso, ele compunha e tocava por glória de Deus. Sua arte não visava erguer sua alma acima da do homem comum, nem mesmo visava fama e fortuna, ele queria honrar a Deus. Claro que ele lutou por condições confortáveis de vida, teve muitos filhos e amava-os, mas o que ele mais queria era bons instrumentos e tempo para poder compor. Seu trabalho, imenso, produtivo, constante, ao glorificar a Divindade nos glorifica. ---------------- Ele não é romântico e é por isso que sua música não emociona a quem não consegue se abstrair e apenas escutar a música como música. Acostumados ao romantismo, queremos sentir a expressão de uma alma que se faz ouvir. Queremos a emoção do gênio gritando ao universo. Bach não é assim. Ele expressa ideias musicais, ele fala por som e não conta nada de modo verbal. Em suas missas e oratórios ele se comove por Jesus Cristo e não por um amor sofrido ou um desejo ideal. Voce não vê Bach em sua obra. A obra está além de Bach.
THE DEATH OF A LADIES MAN - LEONARD COHEN E PHIL SPECTOR
Alguém disse que pessoas que não conseguem separar a música da emoção pessoal não entenderam o que significa a linguagem musical. Dou exemplo. Com a idade, várias emoções ou lembranças de emoções perderam o valor para mim. Não é um tipo de alzheimer não, é a proximidade do fim. Diante da morte voce peneira o que importa e percebe então que muita coisa não tinha importância. Centenas de canções que eu amava nada mais significam. Por que? Porque o valor delas não residia na música em si, mas sim em alguma emoção que a canção despertava. ----------------- Então eu adorava ouvir o pobre homem chorando o amor que passou. Ou a saudade da rua que não existe mais. Ou a morte de seu cavalo. Também havia aquele que gritava de desejo ou berrava contra a guerra. Eram emoções que nasciam da "literatura" da mensagem, de uma historinha, de identificação. Nunca da música pura. ----------------------- Amar a arte musical é penetrar dentro dela e se deixar ser levado pelos sons. Abstração pura. A emoção não vem de uma lembrança ou de uma mensagem que pareça um conto ou poema, ela vem do som que se escuta. ------------------- Atom Heart Mother é meu disco favorito de Pink Floyd e Satanic é o disco dos Stones que mais me toca ( mas não é meu favorito ). Por que? Porque são abstratos. Som e ruído que é na verdade apenas isso, som e ruído. E é por isso que Death of a Ladies Man é não apenas um ótimo disco, é o único de Leonard Cohen que me satisfaz. Por obra de Phil Spector. ---------------------- Fãs de Cohen detestam este disco. Porque não se parece com os discos de Cohen. Este lembra muito os discos de John Lennon. Principalmente a obra prima que é Walls and Bridges. Spector era influência imensa sobre Lennon e nele havia o exagero, a loucura típica de Phil Spector. É o que acontece aqui. Nada de violão e voz, são 3 guitarras, dois baixos, duas baterias, dois teclados, e um monte de percussão, violinos, sopros, coros femininos, xilofone, a breguice sem medo que se torna fascinante. A voz de Cohen fica lá no fundo. -------------- Entenda, eu gosto de Cohen mas sua obra é a de um poeta. Aqui não, é música. Dizem que Spector gravou tudo com uma 38 em cada mão. O pó voava pelo estúdio. O disco é delicioso. E às vezes genial. --------------- Phil Spector mudou o rock por volta de 1963, aos vinte anos, quando começou a produzir discos. Ele trouxe a sinfonia para o Pop e fazia Wagner em 2 minutos. Não haveria Brian Wilson sem ele e nem a parte orquestral dos Beatles. Alguns singles de Phil são genialidade absoluta e aqui ele fez o inusitado, uniu o mais discreto dos cantores ao mais expansivo dos estilos. O mundo não gostou. Eu amei.
CHOPIN E NOSSA ALMA
Jung dizia, e Hollis reafirma, que voce não encontra seu si-mesmo se viver imerso em distrações. Se voce temer o silêncio, se voce evitar pensar em solidão, se voce fugir do estar consigo mesmo, sua vida será uma farsa, um antro de ansiedade e frustração. Pois então se a música é a arte que mais chega perto da alma, é lógico constatar que essa arte nunca esteve tão distante do si-mesmo. Repetitiva, fútil, divertida, fácil, tola e cheia de horror ao que seja profundo, a música que se ouve hoje é fuga desesperada da alma. Ela, que sempre foi um convite à interioridade, nada mais é agora que mais uma distração. Histérica. --------------------- Vladimir Horowitz, um dos cinco grandes pianistas da história, seria hoje rotulado como autista. Longa carreira, seu toque era de extrema precisão e ao mesmo tempo cheio de sentimento. Romântico e bem humorado, foi uma figura única. --------------- Chopin foi um ousado harmonista. O piano era para ele como parte de sua alma. Ele criava mundos, seres e pensamentos em forma de música. E nos interiorizava. Pessoas ansiosas têm medo de Chopin, pavor. Sentem nele uma tristeza abissal. Não percebem que o que vive no abismo é sua alma que os chama e de quem eles têm panico. Chopin lhes lembra algo perdido, exilado e evitado. Cada nota, de uma beleza atemporal, é um passo para dentro, o interior que eles evitam. Exilado de sua terra, a Polonia invadida pela Russia, Chopin não falava de amor, ele falava da alma perdida. Horowitz, alma grande, recebe o polones com alegria e traduz para nós a sua existência. É um encontro. É um privilégio.
MÚSICA QUE CONVERSA
Simon Phillips é um desses bateristas que já tocou com todo mundo. Em casa tenho um vinil em que ele toca, aos 18 anos, com Eno e Manzanera e outro com Jeff Beck. Num post recente ele diz que acha estranho o fato de que a maioria das bandas atuais tocar sem olhar um para o outro. Não há comunicação no palco entre os membros da coisa. Desse modo, a música não flui inesperada, ela não acontece naquele momento exato, ela se faz como foi ensaiado. A vida não acontece, ela está pronta. -------------- Ele recorda de ter visto um show de Chick Corea quando adolescente e do modo como Corea jamais olhava para seu piano. Colocado em um ponto do palco onde ele podia ver e ser visto, seus olhos observavam e falavam com os músicos que lá estavam. O show, completamente livre, comunicava energia entre os músicos e esparramava luz para a plateia. ---------------- Simon vai logo no ponto mais extremo, jazz não existe sem comunicação entre músicos. Mas sim, o rock tinha uma expontânea comunicação entre músicos que é rara nos dias de hoje. Cada músico é um indivíduo e isso é reflexo do fato de que vivemos em bolhas interligadas. Estamos juntos em nossa bolha, todos em um grupo que faz a mesma coisa, mas ao mesmo tempo, voltados para uma tela que nos isola do aqui e do agora. É exatamente a postura de um músico de 25 anos numa banda comum. ------------------- Uma banda é reflexo do momento em que ela nasce. Assim, Beatles era um grupo de amigos sorridentes festejando a vida porque essa era a atitude dos baby boomers nascidos na segunda guerra. Se o Led Zeppelin eram hedonistas arrogantes se exibindo em um palco, isso era reflexo da revolução do EU e do mundo de fartura e sexo de então. Sex Pistols era uma juventude entediada sem sonhos e quando nos anos 80 surge o tecnopop, aí começa um individualismo blasé. Até a revolução punk se observa a total interação no palco. Os músicos se olham, se tocam, falam um com o outro. A partir de 1980 começam a nascer grupos onde os músicos parecem sozinhos no palco. Ignoram o público e ignoram-se. Era uma atitude estética, uma busca pelo cool, hoje é uma verdade existencial, um isolamento real. Cada um toca sua parte e por favor não me atrapalhe. -------------- Músicos que possuem alguma influência de jazz ou punk ainda interagem e muito, afinal, eles querem parecer Sly Stone ou Iggy Pop. Mas é cada vez menos natural. ----------------- Eu, quando vejo um show, fico fascinado, quando noto um guitarrista solando e ao mesmo tempo mandando dicas para o baixista, sobre o lugar onde o solo irá aportar. Música, música que vale à pena, é uma conversa. Se os músicos se calam ela não tem porque.
OUVIR SINATRA É ATO DE REBELDIA
O mundo de 2025, profundamente doentio, passa a ideia de que não existe verdade, que o certo é relativo e que tudo pode ser feito e aceito, desde que seja "para o bem". Que bem é esse? Aquele ditado por quem detém o poder cultural. Aí está a loucura. Tudo é free e tudo é válido, DESDE QUE DITADO PELA CULTURA WOKE. Eles pergam uma liberdade DELES MESMOS, uma liberdade que tem dono. --------------- O que isso tem a ver com música? Tudo. A trilha sonora oficial deste tempo é tão falsamente livre quanto sua política. Há um limite muito estreito onde se pode fazer o que será um hit. E aquilo que foge desse padrão será considerado insignificante. E que música é essa? A repetição do mesmo, uma monotonia de timbres e ritmos, uma espécie de hipnose que impede a apreciação e com ela o pensamento livre. Tenho um aluno de 16 anos fã do Tim Maia. Ele me surpreendeu ao dizer que hoje não existe mais "instrumento". Que toda a música é feita com uma batida programada e mais nada. A riqueza de sons e a variação de andamentos se perdeu. Pior, todas as vozes parecem ser a mesma ( e são ). ------------------- Então voce coloca Sinatra com Basie e a primeira coisa que voce nota: a virilidade. Nada no mundo woke é mais odiado que a virilidade pois ela é perigosa por ser violentamente individualista. Os metais soam como machos que andam na rua com um cigarro nos dedos. E a voz de Sinatra surge como a confirmação de uma VONTADE. Mesmo quando sofre, ele sofre como homem. Mas há mais. --------------------- A arrumação. Neal Hefti fez os arranjos e ele é o cara do Batman...Batman...Batman....ou seja, ritmo a serviço do punch. Ouvimos um grupo de homens tocando em arrumação, tocando em ordem e ao mesmo tempo soltos, livres, à vontade. Eis aquilo que nosso mundo jogou fora, a ordem dando base para a liberdade. Livre com segurança e dentro de uma força que mantém a própria liberdade. É isso que torna o cool possível. Ordem e liberdade ao mesmo tempo, unidas e fazendo sinergia. Somar ordem e liberdade traz como resultado segurança. Voce é livre dentro de um padrão que mantém suas certezas. Isso foi destruído em 2025. -------------------------- Cigarros, mulheres, jogo, bebida, amigos, carros, ternos. Esse o mundo de então, 1962. Há um tipo de pseudo cool de 2025 que usa tudo isso para parecer cool. Mas é uma farsa. Porque nem ele mesmo crê nos valores que eram agregados à esses objetos. São hoje apenas brinquedos e não modos de viver. Voce fuma, bebe, joga, anda com mulheres e dirige um Cadillac para parecer cool e não porque é natural em voce. ------------------- Ouvir Sinatra é um ato de rebeldia hoje.
PIERROT LUNAIRE - SCHOENBERG. NASH ESEMBLE- SIMON RATTLE.
Pleno modernismo do começo do século XX. A voz, de Jane Manning, paira como uma assombração. Música feita de fragmentos que pipocam como meteoros de ilusão. Ouço e sinto que tudo aqui é um ponto de interrogação. A música é não emocional ou pós emocional? De onde vem esse estilo de compor e mais importante: como devo a escutar? Fascina. Mas o prazer existe aqui? Talvez um outro tipo de prazer, pois a vontade de ouvir mais uma vez existe. É preciso penetrar nesta música, como? eu não sei. Schoenberg ainda é guia da música dita moderna, cem anos passados. Diziam que ela anunciava as guerras mundiais. Não. Ela anunciava nosso tempo. Aparente desordem que esconde ordem absoluta. Sim, há seus clichés: não há como ouvir isto sem pensar nos filmes expressionistas de então. Voce vê os postes com sombras negras e as ruas com pessoas sinistras. Desconfiança. E paranoia. Sim, é a trilha sonora da neurose, a velha neurose clássica, pesada, soturna, freudiana. Minhas neuroses soavam exatamente assim. Caminhar com frio nas noites de 1980, na avenida Paulista, era assim. Isso percutia na minha mente. Exatamente Schoenberg, que eu nunca ouvira até então. --------------- Necessário.
SINFONIA 9 DE GUSTAV MAHLER, SOB A REGÊNCIA DE ESCHENBACH COM A SINFÕNICA NDR.
Mahler não é fácil. Sua obra, hiper valorizada hoje, dá enfase à orquestração e nunca à melodia. Isso nos aliena. Precisamos de tanta concentração para a penetrar que acabamos por nos cansar. A Nona, mais de hora e meia de música, é uma massa pós romântica que o tempo todo parece ir mergulhar num wagnerismo século XX, mas escapa se fazendo universo de células sugestivas. De tudo que ouvi de Mahler, é a mais difícil e por isso confesso ter sentido tédio, um tédio digno de...Mahler. ----------------- Ele não comunica, é música que nasce e caminha da alma do artista para dentro da mesma alma. Ela como que cozinha nas profundezas do ego e não lança um anzol para fisgar outro coração. Eu sei que no mundo erudito de 2024, criticar Mahler parece heresia. Mas sou o que sou, e digo que dificilmente irei escutar esta obra novamente.
TOMMY, NA VERSÃO PARA ORQUESTRA DE 1972
2021, o ano que passei ouvindo música erudita mudou meu modo de escutar os sons. Entenda, eu ouço Liszt ou Mozart desde os 15 anos, mas em 2021, a coisa chegou mais ao fundo. Tanto que após esse ano citado eu tenho imensa dificuldade em escutar música muito simples ou mal tocada. Bem...então vamos à Tommy. --------------- Voce conhece a versão original, de 1969, maravilhosamente semi acústica e com ataques de bateria vibrantes. Talvez conheça a trilha do cinema, no geral bem pior que a original, apesar de Sally Simpson e Sparks estarem melhoradas em 1975. Mas provavelmente voce desconheça a versão luxuosa, lançada em caixa com libreto de 1972. Saiba que ela atingiu o segundo posto nas paradas inglesas e a versão de I'M Free exitente aqui chegou a tocar no rádio do Brasil. ---------------------- Em 1972 o mega produtor Lou Reizner pegou a partitura de Tommy e convenceu Pete Townshend a autorizar a versão sinfônica da obra. LP e CDs são dificeis de achar, mas ontem o comprei e logo escutei. Eu esperava uma coisa divertida e brega e me deparo com uma obra divertida e maravilhosamente linda. ----------------- Primeiro o som. Logo de cara voce tem um choque. O disco foi gravado em quadrifonico e isso lhe deixou um ataque que mesmo em cd se mateve algum vestígio. A orquestra soa límpida, poderosa, imensa. Sim, quem conhece música erudita percebe a extrema simplicidade que a música POP tem. Numa peça clássica, qualquer uma, notamos que a orquestra é usada em sua totalidade, o ilimitado poder de seus sons é explorado. Não aqui. Como acontece com trilhas de cinema, a melodia é simples e a orquestra faz seu trabalho sem qualquer esforço. But....simples sim, porém belíssimo!!!!! Amazing Journey, Sparks, Welcome, têm aqui suas melhores versões. elas crescem e atingem uma riqueza magnífica. O elenco tem Ringo Starr fazendo o jogador, um John Entwistle assustador cantando uma versão de terror assustador de Fiddle About. Stevie Winwood, do Traffic, faz o padastro, e Rod Stewart, no auge da fama, canta Pinball Wizzard. Aliás, era para Rod fazer Tommy, mas Roger Daltrey, que não punha fé no projeto, voltou atrás e pegou Tommy, graças a Deus, Rod é ótimo mas Tommy é de Roger forever. --------------- Qual Wizzard é melhor? Elton no filme ou Rod com sinfônica? Empate. São tão diferentes uma da outra que é impossível comparar. ---------------- Maggie Bell, grande cantora da época faz a mãe e Marry Clayton, a cantora negra que em Let It Bleed cantou Gimme Shelter com Jagger, humilha Tina Turner. Acid Queen com Clayton é uma das coisas mais belas já gravadas. -------------- Eu tinha certeza que o desastre viria com a faixa Sally Simpson, minha música favorita na versão em filme 1975. Cantada por Pete e com guitarra de Clapton, ela é imbatível. Como transpor açgo tão rock para uma sinfônica? Seria ridículo!!!!! Mas...funciona!!!!!! Como? Pete canta a melodia exatamente como no original de 1969, mas o acompanhamento se faz uma outra coisa. A orquestra não tenta imitar uma banda de rock, ela teve um novo arranjo a seu dispor e o que ouvimos é soberbamente lindo. Eu postei a versão de 1975 e a orquestral. As duas são perfeitas. ---------------- Após ouvir este Tommy minha admiração por Pete é ainda maior. Quanto prazer em escutar isto!!!!!
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