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MILES DAVIS AO VIVO NO BLACKHAWK
O quinteto toca no começo dos anos 60 em um restaurante, sim, tem gente que viu Miles tocar a dois metros de si, e entrega uma atuação de gala. O clima é intimista e o trompete de Miles soa como a coisa mais cool do universo. Ele toca suave mas nunca fraco. Seu som é noturno, frio, elegante ao extremo. É o Miles Davis ainda puro jazz. O auge de seu trompete. Hank Mobley é o sax. Tortuoso, ele mostra o que é a tal blue note, o que diferencia o toque do jazz do toque erudito europeu. O acorde é sempre torto, idefinido, floreado, áspero, sem a reta perfeição do classicismo. Wynton Kelly tem o piano cristalino e Paul Chambers é um dos meus top contra baixistas. Observe seu ritmo. Fica fácil se soltar, solar à vontade quando se tem esse ritmo seguro a te apoiar. A bateria é de Jimmy Cobb, um mestre irrepreensível. É um disco perfeito. Solam com naturalidade, nunca demais, sempre o certo. All Of Me é o cume dessa cordilheira de picos. Tem de ouvir pra crer.
O SATANISMO EM MÚSICA, ON THE CORNER- MILES DAVIS
Teo Macero, junto com Miles, pegava as fitas de gravação e as editava à vontade. Cortes, colgagens, loopings. On The Corner antecipa o som moderno dos anos de 1990. Gravado em 1972, foi desprezado em seu tempo, é o disco de Miles mais odiado por seus fãs dos anos acústicos. Jack deJohnete, o batera, preste atenção, o que ele toca é a batida drum and bass de 1995. Jungle, rap, eletro, DnB, tá tudo antecipado aqui. Este disco, simples, sem solos mirabolantes, é um feitiço. O que Miles quis? Uma obra que é só ritmo. Mais nada. Onde cada instrumento é um ritmo. Michael Henderson é o coração da coisa, seu baixo leva tudo. É um disco de baixista. O resto, e esse resto tem McLaughlin, Corea, Hancock, vai na onda do baixista. E há o trompete wah wah de Miles, e que diz esse trompete? ------------------- Eu vi um túnel vermelho que leva ao fundo do planeta. É um som dos infernos. Repare: o som parece MAU. Nunca escutei nada que soasse tão mau. Miles Davis compõe música para as esquinas negras de NY e o que sai é voodoo. Ele aproveita riffs de James Brown, de Sly Stone, mas eles são transformados em Miles e em Satanismo sonoro. Os críticos tinham razão, isto não é jazz. --------------- É o disco de Miles que menos vendeu e agora, hoje, é considerado um marco sonoro. ----------------- Eu não consigo parar de o reescutar. Hipnotizado e siderado por aquele som de percussão que surge como fosse um sorriso sacana. Pelos teclados sem sentido que harmonizam com nada. Os sopros que tentam se sobressair e que saem incógnitos. E a bateria, que bate e bate e bate e bate...... ------------------- Miles aqui não fez música. Produziu uma cerimônia negra e rubra. Quente como brasa e pra sempre como uma onda. Impossível saber qual o melhor disco de Miles em sua fase madita, aquela entre 1969-1975. On The Corner é sem par, sem paralelo e sem precedente. É uma das maiores coisas que ouvi. E sim, é uma coisa.
MAN WITH A HORN - MILES DAVIS
Miles estava quieto desde 1976. Sem shows, sem discos, sumido. Em 1981 ele volta com este disco. A crítica, claro, odiou. Eu? Amei. É o disco mais balançado de Miles. Funky. Mas, ao contrário de discos como TUTU, aliás eu adoro TUTU, este disco não tem tanto teclado, a sonoridade não é tão anos 80. O destaque vai todo pro baixo, Marcus Miller, e bateria, Al Foster. O sopro de Miles está solto, esperto, renovado. Fat Man, a faixa que abre este grande disco, tem solo de guitarra de Mike Stern, arrasador. A faixa 2 tem introdução heavy metal, sim, metal, e então se transforma em jazz funk. E ainda há uma faixa cantada, uma canção de amor, veja só...---------------- Não há como não dançar com o que rola aqui e fiquei bem surpreso. Este é o melhor disco da fase final de Davis. E isso não é pouca coisa. O cara era cool, o cara era gênio. Ouça.
JACK JOHNSON - MILES DAVIS
Uma faixa de cada lado do vinil. A primeira agitada, a segunda introspectiva. Quando a coisa começa o que ouvimos é John McLaughlin tocar com uma fúria como nunca visto. Ele é o destaque dos primeiros minutos e de certo modo do disco todo. Miles adorava John e o deixava livre. Após este disco, feito em 1970, John partiria para o caminho solo e a Mahavishnu Orchestra. Jeff Beck considerava-o o melhor guitar do planeta. Talvez Jeff esteja certo. ------------ Michael Henderson tem uma missão ardua aqui, manter o ritmo do baixo incessante. Um looping que dura vinte minutos. O batera é Billy Cobhan, talvez o melhor batera de jazz pós 1970. Funk, tudo é funk, mas a guitarra é semi punk e então vem Miles. -------------- Ele entra com raiva, com punch, com ferocidade. Poucas vezes ele tocou tão bem. Seu piston emite acordes longos, arpejos sem fim, o fôlego no limite. É um timbre metálico, quase desagradável. Miles está inteiro neste disco. ---------------- Iggy Pop disse numa entrevista que sua vida foi marcada por este disco. Quando ele gravou Funhouse e depois Raw Power era este o disco que ele ouvia. Se voce não percebeu o que liga o som jazz funk daqui com o pré punk de Iggy eu explico. Substitua o piston pela voz de Iggy e voce vai começar a entender. -------------- Jack Johnson era um boxeador do começo do século XX e este disco é a trilha sonora de um doc sobre o boxeur. -------------- O lado dois é languido, relaxado e muito amargo. Quase uma sinfonia íntima à decadência. Miles Davis atinge uma maestria que nenhum outro jazz man atingiu. Eu disse em outro post que Agharta era o melhor disco do século XX. Ele é. Jack Johnson é um digno contendor. GENIAL.
BOB DYLAN E O QUE É COOL
Surpreende o fato de que Bob Dylan sempre foi a muitos, muitos shows. Ele vai a Metallica ( gosta ), assim como ia a Roxy Music ( não gostava ). Numa entrevista recente, Dylan diz que a pessoa mais cool que ele já viu foi Miles Davis. Ele achava incrível o modo como ele se comportava no palco. A banda tocava durante algum tempo e quando lhe dava na telha, MIles entrava. Sem olhar para o público, ele fazia seu show de costas para a platéia. Depois, sumia. Era como se estivesse sozinho, pouco se lixando para quem havia pagado para o ver. Miles dizia que quem o assistia estava lá porque queria e que ele não devia nada à eles. Davis odiava essa coisa de dizer obrigado, fazer piadas, ser simpático. Ele tocava. A banda tocava. Isso era tudo. ------------------- Bob pegou muito dele.
SKETCHES OF SPAIN - MILES DAVIS
Se jazz é improviso não é jazz aquilo que pede partitura. Gil Evans fez os arranjos e big band mais Miles tocaram. Não é jazz. Sinto muito. É jazz tentando ser música erudita ou jazzificar o erudito. Pretensioso até a medula. Gravado logo após Kind of Blue. Não gostei. Faz dormir. --------------- Jazzistas inventam mil motivos para explicar a crise de público que se abateu sobre eles a partir dos anos 60. Falam ser culpa dos Beatles, da educação, do diabo a quatro...só não falam o óbvio: a culpa foi deles mesmos. Começaram a se levar muito a sério e viraram pedantes metidos a gênios. Jazz era sexy. Era alegria. Era surpresa. Virou teoria. Arte. Um conceito. Morreu. ------------- Miles toca bem aqui. Mas nunca se solta. Faz arte. Chato pra caramba. Demorei décadas pra ouvir porque sabia que não ia gostar. Acertei. Tchau.
MALLE E GODARD, DE VOLTA À FRANÇA
Volto à pensar na França e lembro o quanto eu amava sua cultura. Isso por causa de alguns filmes policiais que vi, feitos nos anos 50 e 70. Lembrei, os vendo, dos Gitanes que eu fumava. Fiz as pazes com parte do meu passado então. E revejo dois filmes da Nouvelle Vague. ---------------------- ASCENSOR PARA O CADAFALSO é de Louis Malle. É o filme que tem uma trilha sonora, sublime, de Miles Davis. A única que ele fez na vida. Malle lhe mostrava as imagens e ele ia improvisando. Miles sabia que na França, desde os anos 20, músicos de jazz tinham o respeito que não tinham nos EUA. O filme fala de um crime que não dá certo. Tem muito suspense e é moderno. Jeanne Moreau e Maurice Ronet. As ruas de Paris de 1959 transpiram poesia, uma poesia dura, cinza, fria, maravilhosa. Os carros pequenos, os sobretudos escuros, as janelas abertas. Malle teve uma carreira invulgar. Nunca se repetiu, sabia filmar, sabia dirigir atores. A partir de 1977 virou um diretor americano. Fez obra POP e outras de absoluta vanguarda. Casou com Candice Bergen. Nasceu e morreu rico. ------------------ A BOUT DE SOUFLE, ACOSSADO de Godard. O maoísmo matou o cinema de Godard. Sua militância, feroz, castrou o cineasta que respirava amor ao cinema neste seu primeiro e disparado melhor filme. Ainda, mais de 60 anos depois, parece filme de alguém muito jovem. Ele faz o que quer, se exibe como diretor dono de sua obra, por isso, por essa liberdade de fazer e criar, é ele tão influente. Cortes abruptos que até então seriam considerados um erro fatal, atores que saem do personagem, a flagrante consciência de que aquilo que vemos é um filme, não é real, a quebra do ritmo, hora rápido hora lento, e Belmondo, exalando charme como o heroi que é um ladrão. Todo cinema brasileiro chupou TUDO desta hora e meia de Godard. Voce aponta, em cada cena, um filme brasileiro plagiando Acossado. Toda a turminha deve ter visto isto dúzias de vezes. Me divirto, é um filme bom. Detalhe, em 1960 Bogart ainda não era um mito. Belmondo quer ser ele no filme e isso foi uma percepção de Godard, a de que Bogart era um possível heroi existencial. A moda pegou. Bogart desbancaria James Dean e Marlon Brando como maior mito do cinema. A trilha sonora é perfeita e Raoul Coutard foi um monstro na câmera flutuante, isso antes da invenção da steady cam. Tivesse uma câmera leve ele voaria com ela. ------------------ Pena que a partir de 1962 Godard ficaria muito mais ligado em discurso político que em cinema. Dois bons grandes filmes. Malle é melhor.
ACONTECE OUTRA VEZ: IN A SILENT WAY, MILES DAVIS
Gravado no dia 26 de fevereiro de 1969, sim, em um dia, IN A SILENT WAY é mais uma aterradora obra prima elétrica de Miles. Na época, puristas de jazz torceram o nariz, hoje ele é unaminidade, é um ponto alto da vida do gênio Miles Davis. Aos 42 anos de idade, cercado de jovens cheios de futuro, Miles nos dá o mais simples dos discos, composto de apenas 4 ou 5 riffs que se repetem em looping enquanto os músicos tecem breves e pacatos solos. Músicos? Se por volta de 1958 Miles lançava Coltrane, Cannonbal Adderley e Sonny Rollins, aqui estão presentes todos os nomes que farão o jazz dos anos 70: Chick Corea, Herbie Hancock, Wayne Shorter, Joe Zawinul, John McLaughlin, Tony Wilians. Cool, sempre extra cool, Miles deixa que os outros brilhem. John McLaughlin, guitarrista que Jeff Beck considerava o melhor da história, é o solista que mais se destaca. Vindo do blues inglês, muito jovem, meio desconhecido, ele começa sua carreira no jazz neste disco. Daqui ele iria para o estrelato na sua Mahavishnu Orchestra. -------------------- No futuro toda nossa música será feita de modo individual. Um programa de AI, com seus dados, irá compor música só para voce, ao seu gosto. Mas, caso ainda haja espaço para música "em geral", Miles Davis será o cara a ser estudado quando se falar em música do século XX. Em meio a Bartok, Cole Porter, Beatles, Hendrix ou Rap, Miles Davis é o centro irradiador do espírito da época. Irriquieto, fértil, suave e demoníaco. --------------- Neste disco, há um momento, breve, em que Tony Willians se solta. Estranhamente a bateria é contida por quase todo o tempo, ela marca o beat de modo discreto. Então ela quebra essa regra e bate mais forte. Imediatamente meus pelos do braço se erguem e minha cabeça começa a balançar. Como em Agharta o duende se faz presente. Miles conseguiu de novo, tudo preparado para esse momento: transe. -------------- São quatro temas desenvolvidos em grooves que usam riffs curtos e simples de baixo e bateria. Três teclados rodam transitando entre e dentro desses riffs e a guitarra sola dando beleza à coisa. Os sopros, Shorter e Miles solam pouco e quando solam criam paz e equilíbrio na coisa toda. É um quase funk, um tipo de soul jazzístico. É como uma miragem. A música surge incorpórea e se desfaz em sopro. Sim, é uma viagem, mas não é música doida ou psicodélica, há controle aqui, precisão, o som é limpo, refinado. O duende surge apenas quase ao final, no momento em que Tony Willians ergue as baquetas e bate mais forte. Sublme é a palavra. ----------------- Alguns meses atrás eu falei que Agharta é o maior disco já gravado em qualquer estilo de música. In a Silent Way chega muito perto disso. E talvez seja melhor.
MAIS CONSIDERAÇÕES SOBRE AGHARTA
Há uma cidade dentro da Terra e seu nome é Agharta. Uma lenda, uma crença, um folclore ancião. Miles pega esse nome e faz dois shows no Japão que serão a descoberta de uma cidade dentro de nossa alma. Esse o sentido do nome do disco. E a música, arte imaterial, a mais espiritual das atividades humanas, é a ferramenta para chegar até lá. Mas, que música? Miles sabe e intui: voce não irá falar com sua cidade profunda por meio de um mapa. Nem por um discurso. Não haverá um caminho, apenas um deixar ir. Ou seja, um ritmo. Uma percussão. E não será um avanço ou uma construção, mas sim uma repetição em círculo de um ritmo, um groove. Porque não se quer ir ao longe, mas sim ir onde se está, porém, para dentro. A música deverá girar sem se mover, perfurar e assim adentrar. O corpo ajuda. Como ajuda? Se tornando vazio. Perde-se e pede-se que o corpo abra mão de sua solidez. Ele se desmancha em dança. Esvai-se. Primeiro a cabeça que se faz um átomo em movimento circular. Depois as mãos que viram cometas. E o ritmo leva os quadris ao modo sexual. Não é mais voce ouvindo, é voce parte da música. Não há garantia, o êxtase pode não ocorrer, ele é raro. Mas haverá o perigo. Duende-dionísio. Frenesi-perder-se-deixar ir-entrar. A coisa gira. --------------------------------------- Eis a imagem da coisa girando.
O MAIOR DISCO GRAVADO EM TODOS OS TEMPOS: AGHARTA, MILES DAVIS, O MAIS PERIGOSO DOS SONS
lar Era 1975 e Miles estava no Japão. Em Osaka, ele resolveu gravar dois shows. Um de tarde e outro à noite, no mesmo dia. O disco da tarde seria este, Agharta, e o da noite seria Pangea, o seu disco seguinte. Voce acha muito? Pois saiba que Miles estava com problemas de coração, dores horíveis nas pernas e ombros, viciado em morfina, cocaína e ansiolíticos. A dor era tanta que ele se ajoelhava para poder apertar os pedais do trompete. E mesmo assim...Agharta é, para mim, o mais poderoso disco já gravado. -------------- Lançado em 1976, album duplo, uma faixa por lado, ele foi massacrado pela crítica. Dizem hoje que Agharta é, ao lado do Metal Machine Music de Lou Reed, o disco mais divisor de águas, mais anti-fãs habituais, um dia lançados. Odiaram Agharta. Odiaram muito. Chamaram de "insuportável", "Monótono", "apenas um som sem inspiração que se estica por hora e meia". Disseram não ter melodia, nem harmonia, falaram que Miles não compusera nada, não criara nada, o disco era um desperdício de vinil. A resposta de Miles foi exemplar: "Eu faço o que eu quero." ---------------- Após este disco Miles Davis ficou 6 anos sumido. Voltou em 1981, mais POP, mais comportado, quase yuppie. Ao mesmo tempo começou a ressurreição de Agharta. Toda uma geração de punks, funks, avant garders elogiavam o esquecido disco de Davis. Os Beastie Boys sempre o citavam. David Byrne. Prince. Beck. E eu então o escuto num sábado. Ouço domingo. Ouço segunda. Ouço terça, ouço hoje. Ele é inesgotável. O melhor disco que ouvi na vida. -------------- Ele começa e eu me sacudo todo. Não posso parar. Transe. Hipnose. É funk. É jazz. É noise. É absurdo. E é simples. Miles disse que é o disco que ele ia gravar com Hendrix. Mas ele morreu. Então ele chama dois guitarristas: Peter Cosey e Reggie Lucas. Baixo, Michael Henderson. Batera, Al Foster. Percussão, Mtume. Sax é Sonny Fortune. Dizem que a plateia japonesa adorou. Aplaudiram por 15 minutos. Em 1975 só eles gostaram. Porque viram a coisa nascer na hora. ------- A bateria funkeia e o baixo vai junto. E o resto segue atrás. É um disco afro, a batida manda. É diabólico. O transe está presente por todo tempo. E Miles usa um equipamento eletrônico que produz ruídos, que distorce o trompete, que assombra e tempera tudo com cores de pesadelo. Dá medo. E é sexy. O duende desceu naquele palco e graças aos deuses isso foi gravado. O duende tomou Miles e Miles conduziu os músicos. Falam que ele os regia com os olhos. Cada olhar era uma nova mudança. Tocava de costas para a platéia. Sem agradecer aplausos, sem apresentar os músicos, sem estar ali. A guitarra de Cosey, um negro misterioso que sumiu na história, solando todo o tempo, vudu na tarde do Japão. O sax de Fortune, Coltrane solto, os timbres metálicos do synth sem teclas, botões que produzem fantasmas, o trompete que é angústia, morte, dor, sangue e orgulho. E eu? ------------- Eu ouço e no meio do disco me sinto na beira do abismo. Algo de Miles e de seu duende me é ofertado. Sinto que basta um passo para eu entrar no transe. O disco é como uma noite na selva sem possibilidade de manhã. ------------ O maior disco porque ele é Stravinski e é Duke Ellingoton. É Sly Stone e é Psicodélico. É Can e é Velvet. É negro ao máximo. É 1975 e é algo que não nasceu. Um aborto. Após este disco não haveria como Miles continuar. Morte ou mudança. Ele morreu 6 anos e depois mudou. De novo. Sim, um gênio. ----------------- Eu quero o escutar de novo. O carnaval de eletricidade dionisíaca. O duende me chamando outra vez. Ao mesmo tempo tenho medo. Pois há um perigo nele, a despersonalização de Dionísio. O disco é uma droga, um alucinógeno. E é pra dançar, porque toda arte quer ser música e toda música quer ser corpo. Eis o fato: ESTE DISCO É CORPO. CARNE E SANGUE. Não o ouça com a razão. Não o sinta no coração. Ele é carne sexual, carne que se come, canibal e assassino. Por isso seu perigo. Por isso sua enganosa monotonia. Pois ele é INSTINTO. E instinto É. Ele É. A hora e meia não é tempo é lugar. O disco não anda e não passa, ele permanece. É um momento imortal e imorrível. E eu posso o escutar eternamente. E falar dele pra sempre.
PRÉLUDES VOLUME 1. CLAUDE DEBUSSY POR ARTURO BENEDETTI MICHELANGELI
Debussy chegou perto do segredo. Há um mistério na música que nunca iremos descobrir. Como se ela estivesse aqui antes. Fosse componente primeiro do que é o todo. Música que é colhida pelas pessoas, não criada. Como a luz ou o calor, ela está. Debussy intuiu isso sem precisar pensar, pois não se pensa o impensável. A música é a realidade básica. Debussy colhendo música. ------- Os Prelúdios são pequenas peças que exploram tudo aquilo que o piano pode dar. São ventos pianísticos. São névoas em teclas. Sol sobre as mãos. Ouvir é voltar à um mundo não perdido. Mundo hoje obscurecido, porém sempre presente, permanente para além de nós mesmos. Mundo de Claude Debussy, aquele de cristal, da luz sobre e entre o cristal, das vozes abafadas pelo veludo das cortinas e almofadas. ----------- Quando vejo essas novas fotos de Plutão, vermelho com nuances de azul turquesa, ouço no distante mundo a música de Debussy. Porque ela está lá e além de lá. E é esse o segredo de toda música. A digital da criação. A respiração do começo e do que será fim. ------------- Arturo Michelangeli é um dos dois grandes pianistas da Italia, o que não é pouco. Seu Debussy evita a armadilha do excesso de delicadeza. É um Debussy viril. Bravíssimo! --------- Como adendo eu percebo aqui o toque de Kind of Blue de Miles Davis. Eis o jazz impressionista modal. Bill Evans bebeu tudo daqui e Miles levou isso para seu sopro. Como eu disse, a música é um segredo e Miles também o intuiu.
VÁRIOS ASSUNTOS: MILES DAVIS, DINHEIRO, PC ...
Miles Davis: o duende. O máximo de força com o mínimo de esforço. O calor que exala de uma garrafa térmica. Uma nota, uma única nota, transmitindo mais que 3000 palavras. Duende: Conceito: Poder de dar muito fazendo quase nada. Quente e exuberante, porém sem exceder. Akira Kurosawa. O movimento do samurai. O romantismo de Bryan Ferry. ------------------------------------------------- O Politicamente Correto, PC, é a morte do duende. É o mínimo que nada fala. Percebo agora: o que me abisma em tantos filmes atuais é seu PC. Tudo dentro do molde. Isto não pode, aquilo não se deve fazer, esta frase não pega bem, este cartáter vai pegar mal. Censura do bem. O bem aceita censura? Não é o bem. É o bobo. ----------------------------- Partidários de Keynes, economistas, juro que é verdade, estão pregando um novo modelo econômico: o governo imprime dinheiro para sustentar o povo. O povo não precisa mais trabalhar. Assombroso mas essa teoria é fato. A loucura está se espalhando pelo globo. Comentário singelo de um amigo meu: O motoqueiro do ifood, o cara que planta a alface, o químico do remédio, ficam parados também? ------------------------------------------------- Imprimir dinheiro significa imprimir papel pintado. Não há mágica economia. ---------------------------------- HG Wells, em A MÁQUINA DO TEMPO, criou um futuro onde os Eloys não precisavam trabalhar. Doceis, bonitos, sempre jovens, eles eram sustentados pelo estado. Acreditavam que a noite era má, e se escondiam ao escurecer. De dia esqueciam o medo, voltavam ao contentamento passivo. No subterrâneo, uma raça de monstros produzia aquilo que alimentava os eloys. Na verdade os eloys eram gado a ser comido. -------------------- Máscaras serão usadas para sempre. Mesmo com vacina. Os shows onde voce ia, só com distanciamento. E máscaras. Nunca mais veremos casais se beijando na rua. Nossas crianças crescerão sentindo medo.--------------------- O mundo se torna o sonho de todo ditador light. ----------------- Se voce deixar.
THE BIRTH OF COOL - MILES DAVIS ( E UM CERTO PILOTO )
Em 1949 foi lançado um disco de Miles Davis chamado O Nascimento do Cool. Nesse disco, Miles se unia à galera
da costa oeste e gravava aquilo que seria chamado de cool jazz. É o primeiro uso popular do adjetivo cool.
Até então Jazz era Hot. Charlie Parker e Dizzy, ambiente onde Miles surgiu, era hot. Count Basie era hot.
Hot é grito. Hot é exibir fôlego nos solos. Hot é dar seu máximo todo o tempo. Hot é fazer força.
Assim fica mais fácil definir cool. É o contrário do hot. Economizar. Nunca dar o máximo. Ameaçar ir longe e se conter.
No hot voce transpira. No cool voce não amassa a roupa.
Ficou fácil definir o cool agora...Duke Ellington já era cool antes do cool.
Vejo numa revista inglesa uma lista dos esportistas mais cool do século XX. Imaginei Bjorn Borg em primeiro. Ele
jogava tênis sem jamais emitir grito. Nunca perdia a calma. Imaginei que poderia ser algum piloto tipo James Hunt
ou Gilles Villeneuve, esportistas que pareciam não ligar em perder ou ganhar.
Mas sabe quem venceu?
Pelé. Nosso tão mal amado Pelé. Por que venceu? Por conseguir tudo sem nunca parecer fazer força. Por jamais ser
visto mal vestido, bêbado ou gritando com a imprensa. Por vencer tudo como se tudo fosse nada.
Não se esqueça. Chuck Yeager, lendário piloto, quebrava recordes de velocidade toda manhã. Após mais uma quase morte,
ele ia a seu café favorito e dizia: Manhã normal. Fui lá e quebrei mais um recorde...os Yankees venceram ontem?
Ser cool é acima de tudo pouco ligar pra nada.
Principalmente a seus próprios feitos.
ARETHA FRANKLYN SOUL 69
Em 1969, no auge do movimento hippie, quando até o povo da soul music misturava sua música com som freak, Aretha, a maior cantora negra, mas não a de maior sucesso, essa era Diana Ross, lança Soul 69. E fazendo isso vai contra tudo o que se fazia no Pop de então.
Acompanhada por músicos que tocavam com Miles Davis, e outros que tocaram com John Coltrane e Charles Mingus, ela canta aqui canções de jazz-blues, com big band e arranjos jazzísticos. Ela é produzida pelos cobras da gravadora Atlantic, a mesma de Ray Charles, a gravadora que criou a black music moderna: Tom Dowd, Jerry Wexler ( o boss ) e Arif Mardin. Vamos ouvir o disco então ( que vendeu bem, chegando ao segundo lugar em abril de 69 ):
O som é redondo, viril, com destaque para a bateria, sempre em estilo jazz, Grady Tate, um cara que fez discos com Oscar Peterson, Mingus, Sonny Rollins. Pulsa, como pulsa o baixo de Ron Carter, ele mesmo, o homem de Miles. Os metais são ao estilo Sinatra, irrompem para dar mais gás, mais ritmo, mais fogo à coisa. E temos a voz de Aretha.
Sim, ela é a melhor cantora de soul da história, uma voz que estala nos ouvidos e bota fogo em tudo que canta. Respect é o Kilimanjaro do Pop feminino. Mas...a gente percebe que jazz...bom, jazz é outro mundo né meu nego...
Ella Fitzgerald. Ouço o disco, que é excelente, e noto o quanto Ella é grande. E Sinatra também. O jazz revela cada canto do canto, até a respiração aparece, e Aretha não erra, mas também não chega lá. A dicção, o fôlego, ir lá do alto até lá embaixo, mudar de tom, voltar ao ritmo depois de improvisar, Aretha nem tenta nada disso e quando quase tenta perde a confiança. Sabiamente depois deste disco ela nunca mais tentou o jazz. Deixou a coisa para Ella, a cantora que em 50 anos jamais errou, em disco ou em palco.
Mas este é um grande disco. Te dá um prazer do cacete. Tem bossa. Tem fogo e tem negritude. É fogo na jaca. Ouça. Voce vai amar. E se voce não gosta de jazz, vai gostar. E se voce gosta de jazz, vai amar.
Acompanhada por músicos que tocavam com Miles Davis, e outros que tocaram com John Coltrane e Charles Mingus, ela canta aqui canções de jazz-blues, com big band e arranjos jazzísticos. Ela é produzida pelos cobras da gravadora Atlantic, a mesma de Ray Charles, a gravadora que criou a black music moderna: Tom Dowd, Jerry Wexler ( o boss ) e Arif Mardin. Vamos ouvir o disco então ( que vendeu bem, chegando ao segundo lugar em abril de 69 ):
O som é redondo, viril, com destaque para a bateria, sempre em estilo jazz, Grady Tate, um cara que fez discos com Oscar Peterson, Mingus, Sonny Rollins. Pulsa, como pulsa o baixo de Ron Carter, ele mesmo, o homem de Miles. Os metais são ao estilo Sinatra, irrompem para dar mais gás, mais ritmo, mais fogo à coisa. E temos a voz de Aretha.
Sim, ela é a melhor cantora de soul da história, uma voz que estala nos ouvidos e bota fogo em tudo que canta. Respect é o Kilimanjaro do Pop feminino. Mas...a gente percebe que jazz...bom, jazz é outro mundo né meu nego...
Ella Fitzgerald. Ouço o disco, que é excelente, e noto o quanto Ella é grande. E Sinatra também. O jazz revela cada canto do canto, até a respiração aparece, e Aretha não erra, mas também não chega lá. A dicção, o fôlego, ir lá do alto até lá embaixo, mudar de tom, voltar ao ritmo depois de improvisar, Aretha nem tenta nada disso e quando quase tenta perde a confiança. Sabiamente depois deste disco ela nunca mais tentou o jazz. Deixou a coisa para Ella, a cantora que em 50 anos jamais errou, em disco ou em palco.
Mas este é um grande disco. Te dá um prazer do cacete. Tem bossa. Tem fogo e tem negritude. É fogo na jaca. Ouça. Voce vai amar. E se voce não gosta de jazz, vai gostar. E se voce gosta de jazz, vai amar.
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