Mostrando postagens com marcador ezra pound. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ezra pound. Mostrar todas as postagens

EZRA POUND OS CANTOS

Num de seus imensos livros, Harold Bloom dá uma lista daquilo que é importante na literatura. São centenas de autores e fiquei surpreso ao não ver Pound citado. Poe também não está, mas eu sabia que americanos e ingleses acham Poe bastante secundário. Mas Ezra foi uma surpresa para mim. Leio então Os Cantos, sua imensa obra, um calhamaço de mais de 1000 páginas. E tenho uma confirmação, a obra é uma bobagem sem fim. ---------------- admirável por sua erudição, mas como poema é um nada. Triste perceber que o homem que ajudou Eliot a encontrar seu estilo e que despertou Yeats para o modernismo, tem um valor como criador tão limitado. ----------------- Basicamente a obra é um desfilar de citações, de momentos da história universal, de filosofia requentada. -------------- Então o porque de os modernistas brasileiros o idolatrarem tanto? Não tenho dúvida que muito se deve ao seu esnobismo enciclopédico. Entender Pound e amar Pound dá status de intelectual moderno a quem o segue. Típica psicologia de terceiro mundo. De gente que sente ter de provar seu valor. Sim, talvez não gostar de Pound seja também esnobismo, mas aí iremos entrar numa conversa sem fim. De qualquer modo, senti decepção. Pound no more.

EZRA POUND

Aqui no Brasil, graças aos irmãos Campos, achamos Pound maior do que ele realmente foi. Quem acompanha as resenhas/textos/antologias de poesia moderna achará que Ezra é do tamanho de Yeats, Eliot ou Stevens. Que nada!
Pound fez um troço bem estranho: ele pegava um poeta arcaico, tipo Arnaut Daniel ( séc. xii ) e escrevia como ele escrevia. Entenda, não era uma citação ou uma homenagem, Pound se tornava aquele autor, e escrevia no estilo, com a sintaxe, com o sentimento e com o tema daquele autor.
Ele foi assim em toda sua primeira e melhor fase. Cada poema é um poema "escrito" por algum poeta antigo. Depois, com Os Cantos, ele passa a misturar tudo. Ele se torna um mix de autor chinês com provençal, grego e latino. Um vale tudo.
Mas às vezes ele é grande. Embora a gente nunca saiba se aquela bela frase é uma tradução, uma adaptação ou criação própria.

"TUDO PROS DIABOS! TODO ESTE SUL JÁ FEDE A PAZ!
ANDA CACHORRO BASTARDO, A MÚSICA!
SÓ SEI QUE VIVO SE OUÇO ESPADAS QUE RESSOAM.
MAS AH! COM OS ESTANDARTES OURO E ROXO E VAIR SE OPONDO
POR CIMA DE AMPLOS CAMPOS ENCHARCADOS DE CARMIM
-UIVA MEU PEITO ENTÃO DOIDO DE JÚBILO!
..... QUANDO A TORMENTA MATA A HORRENDA PAZ.
..... NÃO HÁ VINHO COMO O SANGUE E SEU CARMIM!"

"CARNE DE FAUNO É NOS DEFESA
COMO A SACRA VISÃO
TEMOS POR HÓSTIA A IMPRENSA
O VOTO POR CIRCUNCISÃO"

Pond é pela maior parte do tempo essa nostalgia de idade medieval. Essa saudade do homem-como-homem, da vida como prova de valor. Mas esse saudosismo, tão século xx, é tragado pelo seu excesso de citações, de cultura erudita, de febre por absorção. Pound acaba cansando, é um excesso de energia, de vigor e ao mesmo tempo, um peso de esnobismo dandy, daquela coisa de americano querendo ser mais europeu que o europeu ( que nunca foi tão europeu assim ). Essa sindrome de emigrados americanos, se deu certo em James e em Eliot, não dá tão certo em Pound. Ele joga fora seu americanismo e coloca no lugar o desejo de ser chinês/provençal e francês. Desejo febril. Não satisfeito.

"O QUE AMAS DE VERDADE PERMANECE
O RESTO É ESCÓRIA
O QUE AMAS DE VERDADE NÃO TE SERÁ ARRANCADO
O QUE AMAS DE VERDADE É TUA HERANÇA VERDADEIRA
MUNDO DE QUEM, MEU OU DELES
OU NÃO É DE NINGUÉM?
(...)
QUE MESQUINHOS TEUS ÓDIOS NUTRIDOS NA MENTIRA
ABAIXO TUA VAIDADE
ÁVIDO EM DESTRUIR, AVARO EM CARIDADE
ABAIXO TUA VAIDADE, EU DIGO, ABAIXO
(...)
AQUI O ERRO TODO CONSISTE EM NÃO TER FEITO
NA TIMIDEZ QUE VACILOU.

Em páginas assim, Ezra Pound fala de si mesmo. E se torna maior.
Fosse um pouco menos "culto", teria Pound sido imenso.

"APRENDE COM O MUNDO VERDE O TEU LUGAR
NA ESCALA DA INVENÇÃO OU DA ARTE VERDADEIRA
ABAIXO TUA VAIDADE
O ELMO VERDE SUPEROU TUA ELEGÂNCIA
DOMINA-TE E OS OUTROS TE SUPORTARÃO
ABAIXO TUA VAIDADE"