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O MARTIR E O BODE EXPIATÓRIO
Leio texto de Flavio Gordon, forte como sempre, onde ele diz que o Brasil vive um embate entre o paganismo e o cristianismo autêntico. Como acontece em sociedades sob forte crise ( eu chamaria de esquizofrenia aguda, o Brasil está em transe esquizoide profundo ), as forças do inconsciente pagão irrompem e essas forças passam a ditar a vida diária. Como elas se manifestam? O primeiro sintoma é o desprezo pela razão. O pensamento mágico se torna absoluto e deixa-se de observar o que de fato acontece em prol de uma crença mágica. O que tromba com a crença é desprezado. Segundo sintoma é a violência. Exige-se um bode expiatório, e esse bode deverá ser eviscerado em praça pública. Coloca-se sobre o bode tudo aquilo que não deu certo em sua vida. O bode passa a ser o culpado. E não basta matar o bode, ele precisa sofrer, sofrer muito. Flavio aponta o fato de como Bolsonaro é tratado pelos fanáticos como esse bode. Há todo um ritual pagão de acusação ao bode, prisão, evisceração, sofrimento, injúria e morte. O bode é culpado pela sua fome, pela sua mulher que o trai, pelo crime, por tudo que irrita o pagão. E ao cuspir, apedrejar o bode, magicamente voce sente alívio. Passageiro. Por isso o bode não pode morrer. E mais interessante, não pode haver dúvida. Qualquer sinal de piedade pode desfazer o transe orgiástico. ------------------------------- No outro lado temos os cristãos antigos, amantes da martirização, seguidores do líder que sofre sem parar. Esses conhecem a piedade e não entendem como é possível que pagãos sejam tão crueis. O líder é inocente, e de fato é, portanto não adianta acusar os cristãos de não terem piedade por assassinos ou ladrões, pois a primeira característica do mártir é sua falta de malícia, a ausência de malandragem. O mártir caminha para o sacrifício sem tentar fugir. É como se ele soubesse ser preciso tornar-se o bode expiatório para conseguir vencer. ------------------------- Recentemente, entrevistado por revista americana, o grão sacerdote Alex I, disse ser seguidor de Exu e Xangô. Observa Flavio que os dois são da guerra e não da justiça. Alex se vê como um guerreiro e não como um neutro julgador. Na guerra pagã é preciso o sacrifício do bode. Seu sangue lava o mal. ----------------------- Me incomoda sempre na direita do Brasil a sua passividade tonta. Ela não usa meios sujos, não é esperta, malandra, sacana. Bolsonaro poderia ter calado a boca de meia dúzia de veículos de imprensa com dinheiro e poder. Poderia ter falado aquilo que a classe média chique queria ouvir. Poderia ter contratado marqueteiros. Poderia ter financiado alguns cantores prostitutos. E principalmente, poderia ter feito o jogo dos bancos. Itaú e Bradesco, os que mandam aqui. Mas não. Xucro, sem pensar, caminhou para o altar do sacrifício, sem fugir e sem mudar uma frase do que foi dito. É a alma cristã em 100% de seu fanatismo. Deus assim quis e eu não vou ceder "ao mal". Observe que os dois grupos acabam por não agir na relaidade histórica. A direita cristã passou pelo poder sem deixar herança nenhuma. O Brasil não mudou em nada. E os pagãos, a esquerda, continua no seu transe orgiástico, feito de sexo, roubo, drogas e crenças infantis, enquanto a realidade do Brasil permanece a mesma, sem educação, sem renda, sem paz. ---------------- Se Jung vivesse e estivesse no Brasil ele teria muito o que escrever. O modo como o inconsciente se revelou aqui. A aversão pagã pela culpa, pela piedade, pelo cristianismo e a aversão cristã pela ação objetiva, por jogar o jogo sujo. ( A igreja católica joga sujo desde que se tornou uma instituição política, espero que voce saiba que falo da igreja como espiritualidade pura, abstrata, filosófica ). ----------------- Não haverá reconciliação porque o paganismo e o cristianismo são incomunicáveis. O que pode haver é a volta do paganismo para o inconsciente e o Brasil voltar a fingir ser um país unido e de bom coração. Mas isso eu não consigo crer. A fratura é grande demais e um dos lados terá de aniquilar o outro. Sinto, infelizmente, que o paganismo já venceu e que o destino será a incultura, a incivilidade e a transformação deste território em tribos conflitantes. Voltaremos ao universo do mais forte rouba, a magia existe e quem aponta o mal será destruído. ------------- Não gostou deste texto? Volte a se sentir bem. Fure a barriga do bode e faça-o sofrer um pouco mais. Seu alívio será imediato. --------------- ps: A Alemanha passou por momento igual. O paganismo do nazismo e o bode sendo todo judeu. Como foi resolvido? O transe passou na dor da guerra e na humilhação da derrota. Súbito, todo cidadão que aplaudia a perseguição ao judeu "esqueceu" tudo o que havia feito. Mas, e esse é o grande "mas", a Alemanha nunca trouxe os judeus de volta. A limpeza étnica teve pleno êxito. A cultura judaica alemã morreu em 1936 ao ser transformada em bode expiatório. No sonho da esquerda brasileira há esse paraíso: um Brasil sem um só direitista. Conseguirão?
A REALIDADE
As pessoas evitam a realidade. Li um livro sobre isso. De um tal de Keppe que eu não conhecia. Ele me parece um charlatão, mas essa ideia é boa. Acho ele charlatão porque ele não fala o porque de evitarmos a realidade. Consegue demonstrar que realmente a evitamos, mas não diz o motivo. Penso que isso acontece porque o homem é o bicho que teme a morte. Tentamos esquecer dela e para isso criamos distrações. Aterrorizados, somos o único bicho que entende o fim de tudo, lutamos para esquecer a morte e no processo negamos a vida real, a vida onde a morte espreita. Explicação simples, ele evita falar isso e acaba não dando motivo algum. Mas o resto de sua exposição é válida. ------------------ Toda infelicidade decorre da não aceitação da realidade e quanto mais vivemos na fantasia, na imaginação, mais infelizes somos. Toda alegria vive no mundo real, o mundo onde vive nosso corpo. Toda tristeza doentia é fruto de criação cerebral, invenção. Eis a armadilha: desenvolvemos a imaginação para evitar sofrer, e sofremos por perder a vida real. Hoje isso se radicalizou. As pessoas não só imaginam a vida, elas tentam criar uma vida imaginária. Se a realidade é a vida do corpo, e as crianças vivem isso em plena alegria, cada vez mais o corpo é negado, a evidência do que se vê é cancelada em favor de algo criado na mente. Não há a menor possibilidade de alegria nessa condição. Pelo fato, cruel, de que a pessoa passa o tempo todo brigando com o que seu corpo diz. Os olhos dizem: Belo, mas a mente cria um discurso para provar que o belo não existe. O corpo saliva de fome, mas a mente diz que aquilo não é bom para o fígado. O corpo diz quero, a mente dá argumentos para não querer. O corpo vê azul, a mente não aceita e fala verde. -------------- Se voce não entendeu, corpo é seu olho, seu ouvido, sua mão. Corpo é também seu sistema nervoso, seu desejo, seus genes, sua química interna, seus hormônios. Tudo isso fala sem precisar inventar nada e essa liberdade de se inserir na realidade é a única maneira de ser feliz. O corpo adoece e sente dor, morre, sim, isso é triste, mas não é absurdo, não é sem sentido, não é loucura ou neurose. O corpo, como a realidade, tem uma narrativa, um modo de contar o tempo, uma dança. A imaginação apressa isso, ou pior, ignora. Aí a infelicidade. --------------- Então caia na realidade neste novo ano. E não tema ver o que está aí, na sua frente. A verdade.
COMO SER FELIZ
Em 1950, aos 24 anos, chegado ao Brasil, meu pai viu seu primeiro filme. Até então, tudo o que ele vira fora sua aldeia em Portugal. Todas as ruas do mundo eram as ruas de sua aldeia e todas as mulheres do mundo eram aquelas poucas que ele vira. Imediatamente, meu pai descobrira que havia um lugar chamado Arizona e que cem anos antes, cowboys andavam pelo deserto. Meu pai nunca havia visto um deserto. Nunca havia visto um americano. Ele nem mesmo sabia que havia gente com 1.85 de altura. Mais importante, meu pai não sabia que havia mulher tão bonita como Rita Hayworth. ----------------------------------- Meu pai, em 1950, assim como acontecera com grande parte da humanidade a partir de 1920, entrava em um univero duplo: de um lado aquilo que era real, que ele podia tocar, sentir na pele, estar dentro, se relacionar, e de outro o mundo da imaginação, aquilo que era apenas luz, inefável, e que entrando dentro de sua mente modificava o funcionamento de seu cérebro. Não haveria volta. Depois viria a TV. ---------------------------- Uma psicóloga diz que nosso cérebro é uma Harley Davidson, ele foi feito para andar a no máximo 80 por hora. É uma máquina que aprecia o entorno, que flui devagar, que absorve em seu tempo próprio. Hoje, com a hiper conexão à tudo, nossa mente se vê obrigada a andar como um fórmula 1. O repouso é a 120 por hora, o desejo corre a 300. Em um dia, vemos mais mulheres que um homem de 1900 via em toda sua vida. Repito, em um dia, na rua, na TV, na Net, vemos mais mulheres que um homem via em toda sua vida. Nosso cérebro é o mesmo, o que o excita não. Mais enervante para ele, essas centenas de mulheres vistas em 24 horas o atraem, porque todas tentam ser atraentes. Algumas estão nuas. Em um dia ele verá mais corpos nus que Casanova viu em toda sua vida. A ansiedade se impõe. -------------------- Quem se recorda de 1960, ou mesmo 1980, sabe, as pessoas eram mais lentas. Andar era menos apressado, falar era mais pausado. Ouvia-se mais. O tempo era mais longo. Se voce duvida basta ver um filme ou uma série de então. O tempo que ali se faz é mais acelerado que o tempo real da rua e se voce acha o filme ou a série lenta, creia, na rua a lentidão era maior. Esse tempo longo era devido ao fato de que ainda se podia desligar a TV. E não ir ao cinema. Na rua, no ônibus, no trem, voce não levava a tela com voce. Nem mesmo o telefone. Então, quando voce estava na rua voce estava na vida real, queira ou não. Andar de ônibus era ouvir os companheiros de viagem, ouvir o motor, ver a rua, sentir o sol na pele, sentir o calor. Cheiros. Seu cérebro entrava no fluir da vida ao redor, real, voce a tocava, a mastigava, cheirava, ouvia. Na praia o relaxamento era total: vozes distantes, cherio de mar, de comida, ondas quebrandO, o cérebro mergulhado no beira mar. Absoluto. -------------------- Voce poderá dizer, mas e daí? Qual o problema? Que se acelere. Que se veja tudo na tela. ---------------------------- Sim, voce pode escolher isso. Pode? Escolhemos o que queremos fazer mas não escolhemos, nunca, o que desejamos. Isso é Schopenhauer. Desejamos nos ligar, nos informar, saber, e desejamos velocidade, tudo rápido, pra ontem. Produzimos. Produzimos muito. E sofremos. Como nunca antes. Por que? Porque o mundo real, pela primeira vez, parece pouco. ------------------------- As pessoas se expõe nas redes sociais porque desejam fazer parte do mundo que parece melhor, o virtual. Voce viu a menina de 18 anos que comprou um iate, voce viu o homem de 40 que fez um bilhão e voce deseja ser como eles. De repente sua vida, a real, não importa mais. Ela parece limitada, lenta, sem emoção. Voce sabe que existe Uganda e viajar para o Pantanal é pouco. Voce viu a mulher fazer sexo no porn videos e sua esposa não sabe transar. Seu pau parece pequeno. A vida dos outros, a que voce vê nas telas, é fascinante, a sua não importa. Dá pra ser feliz? ------------------------- Nossas melhores lembranças da infancia são aquelas em que estamos completamente ligados ao real. Temo que pessoas com menos de 30 anos não tenham tido essa sensação, mas se voce tem 35 ou 40 sabe do que falo. Aos 6 ou 7 anos, voce está no quintal e a chuva está chegando. Voce sente o cheiro dela e a temperatura cai. O ar fica úmido. Pássaros saem voando. Voce relaxa e ao mesmo tempo sente apreensão. Alguma coisa vai acontecer. O céu escurece, tons de roxo e de cinza. Então as gotas começam a cair. Voce corre pra casa enquanto sua cabeça molha. São esses os momentos da infancia que valem a pena. O que aconteceu? ------------------------ Nosso cérebro, seja obra Divina, seja obra da natureza, é parte deste planeta. E este planeta tem seu modo. Nossa mente, como nosso corpo, tem limites. A realidade é o que nosso cérebro é. Ele processa de um modo analógico, biológico, em seu tempo e seu lugar. Ele é envolvido por sentimentos. Ele aprecia, sente, saboreia, e procura conforto. Para esse saborear, esse conforto, ele precisa usar as mãos, os olhos, os ouvidos. Sentir. Com tempo, seu tempo. O tempo biológico e não o digital. ----------------------------- As mãos são parte central do processo e por isso existe uma diferença imensa entre pegar o papel e desenhar com uma caneta e tocar uma tela, a mesma, sempre a mesma, seja para desenhar, escrever ou ver um filme. Há uma diferença de experiência tátil entre procurar, tirar o disco da capa, ligar o aparelho, colocar o disco para rodar e ouvir a música, ou digitar uma faixa na tela. Ir à estante pegar um livro, segurar ele aberto, sentir o cheiro e o tato da folha ou olhar a mesma tela de sempre. O real é sempre uma questão de toque, de habilidade manual, de aprender a pegar. Isso é o cérebro. -------------------------- Voltando a meu pai, ele sempre soube que aquilo que via na TV era apenas TV. Ele falava isso. Só na TV isso acontece. Outra frase dele era: só em filme.... Por ser de uma geração pré cinema, o real estava sempre presente. E esse real lhe bastava. Havia nele a dor de todo ser vivo, mas em meu pai eu jamais identifiquei a ansiedade ou a depressão que são marcas comuns em todos os meus contemporâneos. Eu brigava muito com ele exatamente porque eu não aceitava seu "comodismo", comodismo que hoje sei ter sido a adaptação ao mundo como ele é, real. Eu era e sou agitado, nervoso, neurótico, sempre insatisfeito. Ele dormia relaxado e um bom almoço o fazia ser feliz. Por que diabos ele era assim? ----------------------- Poque até os 24 anos, meu pai nasceu em 1926, ele nunca fora tentado pelo virtual. Seu mundo era sua aldeia e seu mundo lhe bastava. Houve um choque ao ver o Arizona, o Alasca e Ava Gardner, mas sua mente estava ancorada no bom e velho mundo biológico. Ele não imaginava ser John Wayne. Ele adoraria ser, mas ele sabia que querer ser John Wayne era bobagem. E fim de papo. Sua atenção, e aqui encerro este texto, era toda do mundo real. Muito melhor que John Ford era o bife na mesa. Mais excitante era sua mulher na cama que uma estrela na tela. Ir andar na rua era mais bonito que imagens de Star Wars. Porque sua mente, viva no real, sabia TODO O TEMPO: isso é só um filme. ------------------ Lembro que quando eu tinha 13 anos, meu pai achou uma Playboy escondida no meu quarto. Minha mãe nem sabia que mulheres posavam nuas e meu pai veio conversar comigo. A frase que ele mais me falava era: ISTO É SÓ PAPEL. VOCÊ NÃO VÊ PAULO? SÓ PAPEL. Ah meu velho....voce era saudável....que saudade de gente como voce.....
BRUNO BETTELHEIM E A INFÂNCIA
Estou lendo o livro de Bettelheim sobre os contos de fadas. E adianto aqui uma bela informação. Crianças acreditam e devem acreditar no mundo anímico, mundo onde tudo é vivo e tudo pode falar. No mundo dela, animais sentem como humanos, pedras podem ser vivas, o sol nasce porque ele quer e cada dia é povoado por anjos, fadas e mistérios. Pois bem, se esse universo é violado por uma adulto, se ele não pode, por alguma razão, se plenamente uma criança, na idade adulta ela irá compensar essa perda. Como? Sendo a caricatura de uma criança. Crendo em ganomos, magia, astrologia, no querer é poder. --------------- Vejo diante de mim um homem de 40 anos. Ele usa uma blusa do Snoopy e bermudas listradas. O cabelo tem uma franja roxa e na mão ele carrega um livro sobre o poder das fadas. Tenho a certeza que ele teve pais que o obrigaram a aprender inglês aos 3 anos, ciências aos 5 e ser responsável aos 6. Ou pior, ele foi exposto ao mundo cru do sexo aos 7. Esse homem abobado, pronto para crer em qualquer bobagem que um adulto lhe diga ( sim, pois a mais trágica característica do adulto infantil é que ele crê em tudo que um adulto lhe diz, desde um cometa que irá bater na Terra, até o mais delirante socialista cínico ), esse homem de ursinho na mão ou essa mulher que parece uma pubscente aos 50 anos são aqueles que pautam o poder que domina o planeta hoje. Pautam, mas não comandam, isso porque os Soros, Putin, Trump ou Gates da vida foram crianças infantis e são adultos bastante realistas, tão realistas que sabem que ninguém é mais fácil de ser dominado que um adulto criança. Alguém como Musk sabe lidar com o mundo real porque viveu a fantasia quando ela estava presente em seu cérebro infantil. Entenda, um artista genial tem um pé na infância porque ele recorda o que viu aos 4 anos, ele viu porque viveu lá. Isso é totalmente diferente de um adulto que sente saudade de uma infância que ele nunca teve e chora com Bambi idealizando a criança que ainda vive nele porque jamais pode existir de fato. ------------------- A grande meta desta geração é poder ser criança para sempre. Penso que não pode haver meta mais vazia de sentido que essa.
O JOGO NA TERAPIA
Não é fácil viver em meio ao jogo de interesses que é a vida. Interesses afetivos, financeiros, desejos de segurança, de pertencimento. Somos mamíferos, precisamos do outro para existir. Dentro desse jogo, aprendemos desde muito cedo, a usar uma estratégia, e essa estratégia pode ser chamada de máscara. A máscara é aquilo que somos na presença de um outro, do público. Ela é tão cômoda, tão ajustada que acreditamos sermos apenas ela e nada mais. --------------- Aprendemos, observando, a agradar papai. A ter dele aquilo que desejamos. Ou de mamãe. Mas podemos também, por decepção, aprender a evitar papai. A se manter livre dele. Usaremos uma estratégia e provavelmente a levaremos vida afora. -------------------- Seremos o CARA ENGRAÇADO. Ou então o CARA QUE AGRADA-SEDUZ. Poderemos fazer o AMIGO ÚTIL ou o DOIDO. O que importa é que assim que recebemos um ganho com essa estratégia nos acomodamos nela e não mais iremos a largar. Em pouco tempo passamos a crer que somos uma estratégia e não um conjunto imenso de possibilidades. ---------------- Na minha adolescência ser rebelde era ter como estratégia, ou máscara, o SER ROQUEIRO. Cabelo comprido, jeans, cigarro, moto ou prancha de surf. A partir daí havia todo um jogo bem definido. Por ser do Rock, eu era deste modo e não daquele. Hoje esse rebelde usa cabelo azul e tem sexo indefinido. A consequência é a mesma: ele adotará um código rígido e se sair desse código irá perder o GRUPO, deixará de ter um papel "seguro" naquele palco. ----------------------- Acabamos reféns de nosso hábito. Como autômatos bem programados, paramos de reagir naturalmente e agimos automáticamente. Dentro do papel habitual. Para ser amigo de João devo continuar sendo o que sempre fui. --------------- Quando eu tinha 24 anos precisei ir à terapia pois meu papel na vida havia sido rasgado. Eu não queria mais aquela estratégia. Lembro que meu terapeuta me disse algumas vezes : " voce não precisa ser o paciente mais interessante do mundo". Por que ele dizia isso? Eu não entendia então. Hoje sei que eu criara uma estratégia: ser interessante sendo um neurótico complexo e bem esquisito. Era mais um papel e ele logo percebeu. ------------------ No espaço da terapia voce não precisa de um papel e a terapia funciona quando isso ocorre. Se voce é no jogo do mundo um ser charmoso, lá voce pode dispensar esse charme. Se voce é o engraçado simpático, não há porque ser dentro daquela sala de terapia. Voce pode e deve ser um nada de nada, para então começar a ser, talvez, voce mesmo. --------------- Mas por que isso acontece na terapia? -------------- Explico. Voce joga na vida para não perder o que possui e vir a ter o que precisa ( ou acha precisar ). Então, sem notar, voce segue um caminho fixo. Com Isabela sempre serei o amigo compreensivo porque sei que com ela "funciona". Desse modo não vou perder Isabela. Com minha sala de curos de história sou um intelectual satírico, pois sei que eles adoram isso e assim eu os "conquistei". Se eu não for assim, se eu mudar, posso OS PERDER. Ou seja, perder meu lugar seguro. --------------- Com o terapeuta não. Por mais chato, tolo, agressivo, inutil, inconsequente que eu seja, daqui a uma semana ele estará lá, na mesma sala, do mesmo modo, com a mesma disposição. Claro que eu o pago para isso, e o ato de pagar faz deste jogo um jogo limpo. É por dinheiro, mas por saber que ele não irá faltar eu me libero. Não preciso o seduzir. Eu o pago. ----------------- Lentamente vou me acostumando a esse novo jogo, onde eu não tenho obrigação nenhuma, apenas a de pagar, e assim não necessito ser o que sempre fui. Posso ser outro, talvez, com o tempo, me torne EU MESMO.
OS DOIS NEURÔNIOS
Há gente que tem apenas dois neurônios, e por isso enxerga tudo em termos de SER contra ou SER a favor. Explico. ---------------- José mora em Goiás. Nada contra. Ele pegou seu carro, e foi prestar ajuda aos moradores da cidade do Paraná que sofreu a tragédia do tornado. José é bolsonarista. Como pensa o ser com dois neurônios? Sou contra bolsonaro, portanto, sou contra esse tal José. Foda-se ele. A mesma coisa acontece com Pedro. Ele ajuda cães abandonados. E o cara de dois neurônios é contra Pedro porque ele votou em Lula. --------------- Para entender um ser humano, tentar o conhecer, são precisos bilhões de conexões cerebrais e mais uma imensa dose de intuição e de educação. Sim, voce tem todo direito de odiar qualquer um dos dois, mas dê motivo para isso, um bom motivo. --------------- Pensar em termos de contra ou a favor é pensar em termos de futebol, sou contra o Vasco porque sou Flamengo. Fim. Isso serve para torcer, mas não para julgar nada. -------------- Falei em julgar? Eis um belo exemplo! Juizes julgam, mas no STF eles torcem sempre. Tanto que eu tenho a certeza de que voce sabe o veredito antes do julgamento começar. Aliás, até a pena já se sabe. Eles a anunciam em jantares cheios de risos. --------------- Usar dois neurônios também favorece sua paz de espírito, paz hipócrita, mas é um tipo de paz de avestruz. Se centenas de pessoas estão presas por terem invadido um prédio público, sem armas, sem feridos, e pegaram 14 anos de pena sem direito à recurso, voce fica em paz e nem sente pena ao pensar que eles são DO OUTRO LADO e portanto, inimigos. Veja, voce não os conhece, voce não os individualiza, são como ratos, todos iguais. ------------------ Por outro lado, voce pede a individualização de gente armada que atirou na polícia. Voce grita para que cada um fosse julgado individualmente. Na realidade voce apenas torce, não pensa. Eles são dos meus, e são dos meus porque meus rivais não gostam deles. Fim. ----------------------- Eu gosto de Jung. De Henry James e de Nabokov. Adoro Bergman. Cinema francês e Bartok. Bergson e Wittgeinstein. Bebo e nada tenho contra erva em si, odeio o modo como ela é vendida. Sexualmente não creio em fidelidade. Não tenho religião definida. E sou bastante anti esquerda. Porque usando meu cérebro vejo que ela nunca funciona, e no caso brasileiro, é tragicamente mentirosa e desonesta. Me identifico com Milei e Meloni. Acho Trump um cara eficiente e sei que Bolsonaro foi apenas um bobo e isso não é crime. Mas veja, se voce tem dois neurônios eu sou apenas UM CARA FASCISTA. Não interessa meu discurso ou o que faço. Pouco interessa minha história e minha moralidade. Eu sou Vasco e voce é Flamengo. Vamos morrer nos ofendendo. --------------------- Para quem se interessar, a teoria dos dois neurônios é de Olavo de Carvalho, aquele cara que foi me ensinado ser um perigoso nazista e que ao o conhecer descobri ele ser antes de tudo um humanista cristão. Olavo adivinhou tudo que aconteceria no Brasil após a queda da Dilma. Na mosca. --------------------------- Humanos são complexos. Conheça-os antes de os julgar.
CÈST LA VIE
Ansiamos por um prazer e quando o obtemos tememos o perder. A vida é dor e saber isso pode te ajudar a viver. Estoicismo? Sim. A vida toda tentei ser hedonista mas desde a infância, por causa de minha asma, eu soube que a vida era uma luta para respirar. -------------------- Sentimos dor todo o tempo e só não temos consciência disso porque, felizmente, nos distraimos. O prazer é a distração da dor. E do medo, pois também nos distraimos do medo através do trabalho, do amor, da arte, da filosofia. -------------- Olhe o mundo animal e voce vai entender o que falo. Para a caça viver é temer o ataque. Causa incômdo o olho de um herbívoro. Arregalado, ele está alerta o tempo todo. E o predador não foge dessa sina. Seu final será a fome de não poder mais caçar. A vida do predador é caçar até morrer. Uma guerra sem possibilidade de paz. Nós criamos a civilização para negar a dor. ------------------ Voce pode estar pensando: cara, voce está mal hein? E eu respondo, nada mais que o de sempre. Eu sou assim e já fui bem pior. Desde os 15 anos eu penso que o amor é uma distração da morte. E que não há nada mais doentio que escrever uma obra ou pintar uma carreira para tentar ser imortal. Um homem que passa oito ou dez horas por dia escrevendo tem algum problema, provavelmente uma radical negação da vida. ------------------ Mas não deixa de ser "bonito" e é aí que a coisa surge em seu mistério. ------------------- Pois eu tenho a absoluta certeza de que não é a religião, a arte, o trabalho ou a filosofia que nos redime ou que dá um sentido a tudo isto. É o senso da beleza. A única coisa que justifica a dor é conseguir ver nela não um sentido ou uma expiação, mas sim a beleza que pode haver dentro dela. Eis o mistério do homem, bicho que para sua luta para olhar um amanhecer ou a beleza de um rosto. Pois é a beleza de um pensamento que dá dignidade à filosofia e é o senso estético de uma fé que constroi uma religião. Nada mais belo que a manhã em que voce olha as ruas após sair do hospítal. ----------------- Dizer. definir o que seria a beleza se torna assim fácil: belo é o que não nega a dor, mas faz com que ela seja suportável. Drogas, distrações, negam a dor, mas não são belos em si mesmas. O belo real é o que diz: Isto é um prazer mesmo em meio a dor. ---------------- E por amar a beleza paro por aqui antes que este texto se torne feio.
MEU MAIOR AMOR
Eu tinha 6 anos e começava a aprender a escrever. Meu amigo se chamava Wagner e morava numa casa com um jardim aberto à rua. Correr pela casa e pelo jardim é o que eu e ele fazíamos todo o tempo. O pai dele tinha uma máquina de escrever, ele ficava horas batucando naquela máquina barulhenta. Às vezes eu parava ao seu lado e esperava. O pai de Wagner deixava eu teclar a letra do canto. Ele me chamava sempre que era hora de teclar o X. Contente, eu apertava com força enquanto Wagner me chamava para voltar a correr. O pai de meu amigo, sentado à máquina, ele era advogado, se tornou a imagem de homem que eu queria ser. Por que? ----------------- Wagner era loiro e tinha como mãe uma mulher de 26 anos chamada Meire. Eu ficava encantado com a beleza da mãe do meu amigo e se seu pai tinha Meire, eu queria ser seu pai. Parece inacreditável uma criança pensar assim? Parece forçada essa transferência de complexo de Édipo? É o que lembro. Desde sempre. Posso visualizar a cena. Sentir. E minha mãe confirma essas imagens. Elas foram reais. --------------------------- O amor da minha vida não foi uma mulher, foram os livros. E essa imagem erótica, do pai que escreve ao lado de uma mulher belíssima, foi fixada em minha alma. Nesse mesmo ano eu ganhei meu primeiro livro, Renard, Velha Raposa, e nas páginas cheias das letras que o pai de Wagner manejava, eu via um desejo imenso. Eu queria fazer parte daquele mundo, o mundo do papel cheio de sinais que formavam mensagens. Eu tinha de estar dentro daquilo. Eu precisava escrever. ------------------ A imagem do homem que escreve, por culpa do pai de meu amigo, passou a ser a imagem mais sexy em minha visão infantil. Mais que o soldado destemido, o motoqueiro ou o astronauta, o homem que tem uma mesa e uma máquina de escrever era meu modelo alfa. Sendo esse homem eu teria a mulher. --------------- Então eu me contradigo. O alvo era, afinal, a mulher! Sim, era. Hoje eu sei, mas por anos eu havia esquecido essa cena, essa vivência. E quando a lembrava não entendia seu significado. ------------ Depois veio meu segundo livro, Tom Sawyer, e me lembro do prazer em tirar o plástico que envolvia o volume e o perfume das páginas impressas. Se voce pensou no ato de desnudar uma mulher, talvez voce tenha sido freudiano demais, mas quem sabe? A vida é essa teia de significados que na maior parte do tempo não entendemos. O fato é que caço livros como quem flerta e vivi cercado por autores fantasmas como fossem amores perdidos. Mal sabia o pai do meu amigo o que simbolizava o apertar daquele X. Mal sabia a mãe de Wagner o significado das saias curtas que ela usava então.
ALQUIMIA - MARIE- LOUISE VON FRANZ
Acenda um cigarro. Primeiro veja a chama do isqueiro. Tire o cigarro do maço. Coloque na boca. Acenda. Solte a fumaça e veja-a subir. Respire fundo. Olhe o cigarro queimar. Observe a transformação da brasa. E pense. Sua mente, levada pelo ritual do fumo, entra em um novo modo. ------------- Isso é a alquimia, e Von Franz consegue explicar um assunto tão complicado. Para isso ela cita montes de textos árabes, egípcios, europeus medievais. O livro é uma coleção de palestras, cinco, dadas pela assistente de Jung no fim dos anos 50. Lendo este livro, longo, voce afinal começa a entender o que é a alquimia. -------------- Seria leviandade minha tentar dar uma geral em assunto tão delicado no exíguo espaço que uso aqui. Alquimia envolve a criação do mundo, o funcionamento da alma, a lingua do inconsciente, a transformação da vida. Lida com o feminino, o masculino, o racional e o intuitivo, tudo isso acontecendo dentro de uma redoma de vidro, de louça, de metal, em um laboratório, na presença de um alquimista e seu assistente. Nada há de milagroso ou de mágico, é entrar dentro da mente enquanto se faz uma transformação química, é como quando voce se percebe fora de si enquanto vê a sopa ferver, fuma um cigarro, observa uma fogueira. O que acontece fora provoca uma reação dentro de voce.
SIGMUND FREUD E O GABINETE DO DR.LACAN
Livro de 1989, da editora Brasiliense, traz textos de Peter Gay, Philip Rieff, Richard Wollheim, Jean Maugue, Marilene Carone e Paulo César Souza. ------------------ Peter Gay, que estava prestes a lançar a bio de Freud, ótima, traça um perfil do pai da psicanálise como burguès conservador. Freud viveu uma vida de típico homem casado europeu da época vitoriana. Bem casado, bom pai, trabalhador árduo. Provedor. Se seu trabalho foi, e é, revolucionário, isso não se deve à Freud ser um rebelde, mas sim ao seu amor à verdade. Ele procurava descobrir aquilo que era escondido, revelar a mente do homem, e se suas descobertas foram chocantes, isso não foi devido a personalidade de Freud, mas sim às suas descobertas. O que surge no texto de Gay, é o retrato de um homem amável, correto, cético, mas jamais frio. Muito do sucesso de Freud se deve ao aspecto bondoso, de "tio", que ele tem. É um texto que se lê com prazer e Peter Gay discorre ainda sobre a Vienna de então, mostrando que Freud não era um típico exemplo da cultura vienense, mas sim um judeu alemão. ---------------- Philip Rieff, sociólogo americano, fala do nascimento do homem psicológico. De como, a partir de Freud, o centro do homem passa a ser o eu. O grupo se torna cada vez menos importante e o ego enquanto indivíduo, mundo interior, se torna o protagonista da história. -------------------- Jean Maugue foi um professor francês, um dos intelectuais que vieram à São Paulo nos anos 30 para ajudar a fundar a USP. O texto é de 1939 e foi publicado no jornal Estado de SP no dia em que Freud morreu. É um relato biográfico. ------------------------- Marilene Carone fala das péssimas traduções de Freud em português e em inglês. Basta dizer que Freud nunca usou a palavra Ego, ele usava Ich, Eu. Em alemão a escrita de Freud é simples, clara, cotidiana. As más traduções são sempre pedantes, complicadas, pseudo cinetíficas. Já Paulo César de Souza descreve sua visita à casa de Freud em Vienna. ---------------- Por fim, Wollheim, professor de lógica em Yale, destroi Lacan mostrando que tudo que ele faz é um jogo de palavras que levam a significado nenhum. Lacan diz o óbvio do modo mais complicado possível e Wollhiem dá exemplos de textos que dizem coisas que não fazem sentido algum. Esperto, enciclopédico, Lacan foi um embuste e um mentiroso. ------------ Para quem gosta de psicanálise, prato cheio.
CARL GUSTAV JUNG , O PROFETA ATORMENTADO. BIO DE PAUL J. STERN
Leio que Stern foi professor em Harvard e terapeuta. Esta biografia de Jung, achada em sebo, 1977, é uma crítica dura ao psicólogo suiço. Stern o trata como um aspirante a profeta e um fracasso em sua tentativa de unir opostos. Alma fendida, Jung nada mais fez que tentar se consolar. Deus foi colocado dentro do inconsciente, fazendo assim com que todas suas visões fossem obra divina. Homem medroso, ele era incapaz de manter uma amizade e tinha ares de arrogancia e impaciência. -------------- Não, ele não tinha hábito de manter relações sexuais com pacientes, ele era um puritano. Filho de pai pastor, seu interesse era religioso e apenas religioso. Vaidoso, ele agradava clientes ricos e sua produção escrita é ilegível. Falta mais alguma crítica? Ah sim, ele trabalhou com nazistas. ----------------- Para que um homem tem o trabalho de escrever uma biografia com tanto rancor? Não é preciso ser puxa saco, mas há que se evitar o uso do fígado. De qualquer modo, e por incrível que pareça, é leitura divertida porque todos nós adoramos uma fofoca. Criticar ídolos é sempre saudável e Jung está longe de ser perfeito, sua insistência na alquimia é forçada, ele evita demais falar de sexo, mas negar a validade e o poder de cura de seu método é exagerar. --------------- Será verdade tudo o que ele diz? Psicologia não é ciência exata e nem mesmo empírica. O que funciona hoje pode ser um erro amanhã. São verdades filosóficas, cabe a cada um aceitar ou não. A pessoa crê de acordo com sua experiência pessoal. Jung é tão válido como é Freud, Lacan ou Binot, depende do que voce experimentou em vida. Minha vivência e minha cultura me fazem pensar em Lacan como um idiota e em Jung como um homem real. E será sempre assim.
O SEGREDO DA FLOR DE OURO - C.G. JUNG e R.W. WILHELM
A Flor de Ouro é uma antiga coleção de textos chineses e aqui Jung, com auxílio do mestre em cultura chinesa Wilhelm, analisa o significado psicológico do Tao, símbolo central desse modo de pensar. ----------------- Jung tem várias boas sacadas sendo uma delas o fato de que um ocidental pode e deve conhecer as religiões do oriente, mas ele jamais poderá fazer parte daquele mundo. A melhor estrada seria mergulhar na crença de sua cultura ancestral, absorvendo ao mesmo tempo algo da fé do oriente. ------------------- Deixar chegar. Deixar ir. Deixar iluminar. Deixar acontecer. Deixar-se. Essa a postura da mente diante do inconsciente. Não fazer, deixar acontecer. Aguardar. Entender que não se elimina uma neurose, antes, se cria um interesse maior que ela, dentro de voce mesmo. Se o sintoma é como uma montanha, cria-se uma outra montanha ainda maior. -------------- Na visão do Tao, o kosmos é a imagem de nossa mente e nossa mente é o kosmos inteiro. O fora vive dentro e o que é dentro se vê fora. Parece conversa de hippie velho? Pois é isso mesmo, e daí?
FUNDAMENTOS DE PSICOLOGIA ANALÍTICA , as conferências de Tavistock - CARL GUSTAV JUNG
Ler Jung não é fácil. Sua didática é falha e a gente nunca entende direito o que é Imaginação Criativa ou Sincronicidade. ----------- Jung relaizou na Inglaterra cinco conferências na década de 1930. Diante de uma platéia hostil, ele expõe as diretrizes gerais de seu método, sempre com algum humor, simpatia, e absoluta clareza. Se você quer compreender Jung, é este seu livro. Nunca li nada tão cristalino sobre O Mestre. Conceitos complexos se tornam nítidos, teorias complicadas são destrinchadas. Ao final de cada dia, de cada conferência, professores e psicanalistas da platéia fazem perguntas e Jung as responde com infinita paciência. O que surge após a leitura deste livro, é um Jung claro. Não é pouca coisa. ------------------ Haveria muito o que ressaltar, mas eu falo apenas do final, onde Jung, em pleno florescimento do nazismo, explica a irrupção do movimento fascista como o caminho, irresistível, da história. E a história é feita pelo INCONSCIENTE COLETIVO. Jung diz, objetivamente, que nosso ego, nosso Édipo, nossas dores concientes, são apenas uma leve película, pois o que há de mais profundo, urgente, atemporal em nós é a marca da nossa história comum, do nosso passado mítico, do grupo social em que vivemos. Nós somos GUIADOS inconscientemente pelo momento histórico em que vivemos e pela herança cultural onde nascemos. É essa mistura que faz de nós aquilo que somos de fato, que guia nossos atos e humores. O que nos é INDIVIDUAL é quase nada. Nosso ego é uma migalha. ----------------- É como se meu EU, Paulo, fosse quase inteiramente aquilo que é o Brasil de 2025, acrescido daquilo que foram meus antepassados, mais o clima cultural do lugar onde nasci e vivo. Em meio a toda essa ENERGIA imensa, vive meu ego, um quase nada, PERECÍVEL, precário, no oceano do inconsciente coletivo. ------------------ Povos primtivos têm uma mente formada unicamente pelo INCONSCIENTE COLETIVO. A noção de EU quase inexiste. ( Isso me lembra aulas da USP, literatura, em que o professor nos ensinava que no mundo de Homero a noção de autor, de UM homem autor de UMA obra não existia, por isso hinos e cantos de então não possuem assinatura. O cantor compunha uma obra que era feita pelo grupo, pelos deuses, pelo INCONCIENTE e não pelo ego que mal existia então. Mais: índios brasileiros, segundo meu professor, nunca falam eu fui pescar, dizem ELE foi pescar. Há ausência do eu ). ------------------------- É o livro certo para quem nunca entendeu Jung.
A ENERGIA PSÍQUICA - JUNG
Há tribos na América, na Austrália, que usam a mesma palavra para designar o sol, a lua, o fogo assim como a magia, um amuleto e uma pessoa morta. Essa palavra tem sido traduzida erroneamente como alma ou espírito, quando na verdade é energia. Para os primitivos, havia uma energia universal, não humana, que fluía entre coisas que tinham poder. Jung chama esse PODER de libido, não a libido de Freud, puramente sexual, mas a ENERGIA que vive em todo lugar e que no caso humano está entranhada no inconsciente. ------------------- Eis aqui minha visão do que Jung diz: Observe um bicho. Pode ser seu cão. Note como tudo que ele faz é PLENO. Em brincar, farejar, ou comer, toda sua energia está sendo concentrada e gasta naquilo. Observe agora uma criança e veja como chorando ou brincando ela nunca economiza energia, é ela inteira ali. ----------------- Quanto mais civilizado o humano é, mas sobra energia que teria sido gasta em viver plenamente. A neurose é excesso de energia não gasta, retida, que sai em forma de sintoma ou dor. A cura seria canalizar essa energia para algo que não faça o paciente sofrer. --------------------- A vida moderna nos poupa do gasto energético e assim, cheios de excedentes, gastamos na academia, em vicios ou em doenças. Jung estava certo. O bicho ou o homem primitivo gastava toda energia para se manter vivo, nós não. Somos poupados dessa aflição. Mas a energia está lá, em nós, e ela explode de desejos, de vitalidade, de poder. Cabe a cada um entender como a usar.
ADIVINHAÇÃO E SINCRONICIDADE - MARIE-LOUISE VON FRANZ
Von Franz foi a mais querida discípula de Jung. Este é o segundo livro dela que leio, o primeiro tendo sido sobre contos de fadas. Ela escreve muito bem. Ao contrário de Jung, que tem um texto tortuoso, Von Franz tem ritmo, é clara, se lê com gosto. Neste volume, ele se constitui de cinco palestras dadas nos anos de 1950, ela fala sobre o tempo, os dois tempos, o linear e o eterno, o tempo do consciente e o tempo do inconscinete e em como, historicamente, os jogos de advinhação sempre tentaram lidar com a conjunção desse dois tempos encontrando o tempo UNO. --------------- Citando o I Ching e mais dezenas de culturas antigas, dos aborígenes da Austrália à tribos norte americanas, Von Franz, de forma enciclopédica, nos apresenta fatos, jamais caindo na crença individualista. A física, a matemática, a teoria dos números também são muito citadas, de Pauli à Eddington. Ela questiona, o que são números, para que foram criados, qual sua realidade? --------------------- Existem brechas na realidade, brechas por onde a energia do inconscinete pode fluir e nos revitalizar, mais que isso, pode fazer com que sintamos a situação temporal, o tempo como corte transversal, como matriz e não como linha. Nosso inconsciente seria o mundo onde tudo está interligado num eterno presente que abrange toda a totalidade. Nosso consciente seria apenas um modo de lidar com aquilo que nossos sentidos podem perceber. Ele é subordinado à visão, audição etc. A realidade é muito mais e ela é intuída em jogos de adivinhação e na sincronicidade. ------------------ Ela está certa? Por que não ?
DOGMA E RITUAL DA ALTA MAGIA - ELIPHAS LEVI
Não é um livro satânico. Editado no meio do século XIX, reeditado várias vezes, é provável ser este o mais sério e enciclopédico livro já escrito sobre o tema. Ele fala de todos os temas mágicos: fantasmas, adivinhações, maldições. Sua filosofia é esta: o poder é atingido pelo absoluto controle da mente, pela fé que é foco, pela certeza total e completa. Magia é vontade. E para se ter essa vontade irresistível é necessário dominar seus pensamentos, sentimentos, atitudes. O universo, cheio de almas, de seres, é comandado por quem detém essa força. Nada mais que isso. Por 500 páginas, ele destila exemplos, lendas, histórias, fatos. A imaginação é real, essa uma de suas frases que parecem tolas mas que revelam uma verdade. O que imaginamos já é real pelo fato de ser pensado, pois pensamentos fazem o mundo, assim como palavras modificam a realidade. É um livro inspirador, pois mesmo que voce despreze tudo que ele fala, há algo de tão vasto, tão grande, tão desafiador aqui, que voce se vê entrar numa outra onda, outro ponto de vista. Prove-o.
PSICOLOGIA DO INCONSCIENTE, JUNG, E O TRANSTORNO DA PERSONALIDADE BORDERLINE
Ela me pareceu, à primeira vista, alguém com personalidade pobre, vazia, sem nada a exibir. Depois, pouco tempo depois, comecei a perceber algo de falso nessa imagem. Ela escondia alguma coisa. Essa coisa escondida, em 5 anos de contato íntimo, não foi exibida. Existe tal mistério? --------------- Lidar com uma pessoa border é mais difícil que lidar com um esquizo. Pois do esquizo se espera incoerência, delírio, e momentos de relativa paz. Do border não há o que esperar. Ele é como uma mentira. --------------- Ontem ela surgiu com o corpo cheio de hematomas. Numa crise de ansiedade, ela se surrou. Foi ela mesma, pois não havia hematoma onde ela não podia alcançar. A mentira, em borders, é sempre a possibilidade número um. A segunda possibilidade é a chantagem emocional. ---------------- Após tamanha crise, seria de se esparar um abatimento, o rosto triste. Mas não. Poucas horas depois ela é a mesma de sempre. Inclusive sorri. O rosto controlado, bem maquiado, tudo no lugar certo. Não há sinal de emoção. Nenhum tremor. Psicopatia? Borders eram considerados psicopatas antigamente. Mas não são. Ela tem emoções. Ela é dependente. Ciumenta. Possessiva. Controladora. E de repente, não é mais nada disso. E diz: Eu nunca senti nada. Eu nunca amei. Dizendo isso com uma ponta de orgulho e vaidade. --------------------- Se acha um lixo. Mas só por dez segundos. No resto do tempo ela tem a certeza de poder seduzir todo homem do mundo. E quando voce a provoca, ela não reage. Mas quando ela te provoca, muito, ela espera que voce diga: Sim, eu errei. Mesmo que voce nem saiba do que ela fala. ------------------ Sua mente é uma guerra. Do eu contra o outro eu. Do eu contra o mundo de fora. Por isso, ela mal percebe que voce ou voces existem. Está distraída com sua dor. Que é real. O medo da rejeição. O medo da solidão. Mas tudo que ela-eles fazem é provocar rejeição. Flertar com a solidão. ------------- Sexo também é parte da guerra. O outro é um objeto a ser seduzido e dominado. Posse. Para isso ela se dá totalmente. Mas não se iluda. Ela deixa seu corpo mas nunca sua alma. Enquanto voce tem prazer naquele corpo que se doa, a alma está longe, muito longe. Onde nem ela mesma sabe. -------------- Em seu livro Jung fala do quanto é preciso entender, desvendar o inconsciente, Reconciliar consciente e inconsciente. Mas o que eu pergunto à Jung é: Como fazer a terapia de alguém que mente todo o tempo? Mentiras que têm o objetivo de proteger uma alma que não deseja se revelar. Como desreprimir alguém que faz sexo com a facilidade de alguém que chupa um sorvete? E que ama com a fúria de um bebê que chora? --------------------- Ama, porém dois dias depois volta de uma orgia com gente semi desconhecida. Diz nada sentir, só vaidade e raiva. Mas se surra com a culpa de quem deve algo a si mesma. Raiva do que? Culpa por que? ----------------- O problema do borderline é que por mais que pesquisemos, não há para eles um tratamento padrão, como há para um neurótico, mesmo o mais complicado ( faça-o falar e então assumir seus sentimentos ). Não há para o border uma droga como há para o deprimido ou o esquizo ( anti depressivos podem piorar o border ). O que fazer com ele? ----------------- Aturar sua indiferença ofensiva. Ouvir suas mentiras sem objetivo. Não fugir do peso de sua energia destrutiva. Suporta-lo. Mas haverá cura?
A LINGUAGEM ESQUECIDA - ERICH FROMM
A linguagem esquecida são os símbolos, linguagem arcaica, comum à todos, que era conhecida por todo homem antigo e que no tempo atual surge nos sonhos. Segundo Fromm, perdemos a capacidade de compreender os símbolos, pois eles foram esquecidos em favor da linguagem técnica, aquela que lida com nosso trabalho e modo de viver. Símbolos foram linguagem comum a todo planeta, basta observar a ocorrência de histórias em que rios, mares, sol, lua, fogo, fera, pássaro, possuem sempre o mesmo significado. Mitos, contos, lendas, rituais onde, seja na América, seja na India, repetem o mesmo vocabulário de símbolos que nasceram no começo da cultura humana. ------------------ Fromm nos mostra então a maneira como ele interpreta sonhos ( diferente de Freud e de Jung ), partindo de um sentido histórico e dando ao sonho um estatuto de mensagem para a vida cotidiana. Para Fromm, nem tudo é sexo, Freud era um moralista vitoriano, e nem tudo é religião, Jung é dogmático. Ele traz o sonho para o chão. ------------- Não é um livro empolgante, mas tem uma boa abordagem.
A INTERPRETAÇÃO DOS CONTOS DE FADAS - MARIE LOUISE VON FRANZ
Ler Jung, mesmo que voce seja entendido em sua psicologia, nunca é simples. Isso porque sua didática é ruim. Jung não escrevia bem, e por mais interessante e válido seja aquilo que ele diz, ler seus livros é um esforço, que sempre vale à pena. Marie Louise Von Franz é uma das maiores discípulas de Jung, e este livro, um clássico, faz por Jung mais que eu esperava. ----------------- Von Franz analisa alguns contos folclóricos do norte da Europa, nenhum muito conhecido, todos curtos, e assim, ela nos explica com uma clareza maravilhosa, conceitos como ânima, inconscinete coletivo, sombra, arquétipod, individuação. Mestra em escrever de modo objetivo, eu aconselho muito este livro para aqueles que leram Jung e se sentiram confusos. Analisando os contos, todos fantásticos, Von Franz vai descobrindo os segredos da história ali exposta, e desse modo usando as ferramentas de Jung. Eu, que li muito Jung, nunca vi com tanta nitidez, aquilo que cada conceito significa e quer dizer. Em apenas 200 páginas, ela nos dá um conhecimento precioso. -------------- Procure e leia.
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