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FANNY E ALEXANDER, UM OUTRO MODO DE OLHAR UM GRANDE FILME

Escrevi sobre este filme centenas de posts atrás, se quiser veja no índice. Feito em 1982, revi-o ontem de noite e encarei as 3 horas com grande tranquilidade. Como todo grande filme, cada novo encontro é como se fosse uma outra obra. O que vi dessa vez eu não vi antes. -------------- A base do filme, que é a base da vida de Bergman, é a guerra entre arte e religião. No mundo da arte temos cores fortes, tapetes, pinturas, exuberância; já o mundo da religião é austero, minimalista, cinza. Bergman, claro, toma o partido da arte e lhe dou total razão. Mas quero aqui fazer um adendo. A religião de que Bergman fala, que é aquela onde ele foi criado, é o luteranismo puro da Suécia. Mundo onde apenas a música era tolerada. E mesmo assim deveria ser música que glorifica Deus. Penso que se ele houvesse nascido na Itália por exemplo, sob o catolicismo, sua visão de religião seria bem outra. Pois no catolicismo cores, pinturas, exageros barrocos, panos, ouro, carnes fartas, tudo está presente e é permitido. O catolicismo promovia e patrocinava arte, de Michelangelo à Rafael. E essa arte era tão viva como o mundo da arte que Bergman mostra em seu filme. O luteranismo era reação contra aqueles anjos com bundas redondas de fora. ---------------- Há uma cena no filme que eu havia esquecido totalmente, é toda a sequência na casa do judeu. E é a melhor do filme. A exuberância visual daquela casa é ainda maior que na casa da viúva ligada às artes. Naquela velha religião Bergman mostra magia e dubiedade, medo e suspense. E é nela que surge aquele ser hermafrodita que não consigo entender porque. ( Um anjo? ). ---------------- Ingmar Bergman exemplifica a teoria do livro que li recentemente. Ele é um ateu, pois não crê em Deus, mas é religioso, pois sabe que a vida é mistério e magia. Bergman olha para o universo e percebe a beleza, terrível e assustadora, que há nele. É portanto um universo religioso, pois é algo que fica além da razão. Mas, para ele, sem Deus. Talvez no judaísmo, raiz de toda religião do Ocidente, Bergman veja a união, rompida, de arte e fé, de tradição e medo, de repressão e criação. Talvez... Bergman foi um grande artista, e por isso, muita coisa que ele criou nem ele mesmo pode entender. Aconteceu e ele registrou.

o filme mais sinfônico-FANNY E ALEXANDER

Bergman realizou FANNY em 1983. É seu testamento, seu último filme para cinema, seu legado ( como bom pessimista, ele imaginou estar perto do fim. Ainda viveu 24 anos...).
O filme é uma perfeita sinfonia e se a grande arte sempre aspira a ser música, Fanny é arte perfeita.
Ele começa em acordes leves e vagos, cresce em festa de sons harmônicos e coloridos, irrompe fortíssimo em graves dissonancias lúgubres e se encerra numa coda cheia de fúria, magia e mistério.
Mas do que fala o gênio, o mestre, o mais inteligente dos cineastas ?
Da luta entre alegria e dor, da disputa entre liberdade e repressão, saúde e neurose, arte e religião, fantasia e tédio, Deus e o homem. É um compêndio de todos seus filmes anteriores, de todas as suas dores e alegrias e recorda muito Shakespeare- A Tempestade ( um mago recontando sua obra e sua magia ).
Raras vezes um filme mostrou cenários tão ricos em beleza e complexidade, raras vezes tantos atores foram melhor dirigidos ( o final, quando se fala da gratidão aos atores é de se aplaudir de joelhos ), raras vezes um filme foi melhor.
Bergman captura nosso cérebro e o leva para uma viagem. Através do olhar de um menino ( Alexander ) assistimos seu crescimento, suas dores, sua revolta e seu maravilhoso humor ( o filme tem duas das falas mais hilárias já vistas ). Nos apaixonamos por sua família, odiamos certos agregados e tememos seu destino. Tudo em ritmo perfeito, uma variação entre cenas longas e curtas, movimentos elaborados de câmera ou fixidez formal, solos ( monólogos ) ou grupos de até vinte atores atuando em grupo ( coisa que hoje ninguém mais tenta ).
Tudo está neste filme. Comédia amarga e drama insuportável. Citações de PERSONA, GRITOS E SUSSURROS, MONIKA, MORANGOS SILVESTRES, O ROSTO... estão presentes os atores que aprendemos a amar, a fotografia do mestre Sven Nykvyst, a música de Schumann e Britten, as preocupações do cineasta que melhor representou a dor do mundo moderno.
É estranho o fato de que meus cineastas favoritos sejam Kurosawa, Hitchcock, Hawks, Ford, Murnau, Lang... mas é Bergman que fala, pensa e mostra aquilo que vivo, penso e gostaria de expressar. Não sei se ele foi o melhor dos diretores, não sei se ele sobreviverá neste mundo cada vez mais acéfalo; mas ele conseguiu fazer do cinema UMA ARTE NOBRE, nobre como Shakespeare, Mozart, Shelley e Rembrandt.
FANNY E ALEXANDER é obrigatório para qualquer amante da vida, do cinema, da cor. Ele é estranhamente feliz, alegre, vivo e subitamente trágico. Nietszche.
Um filme que é uma vida, um espírito livre, eterno como um homem, belo como um segundo, feito com profundo amor pela arte, imensa criatividade e potencia criativa sem igual.
Mágico, único; INCOMPARÁVEL.