UM MÉTODO PERIGOSO ( E UM FILME MEDROSO )

   Críticos podem causar mal. Veja o que aconteceu comigo...
   Lendo uma crítica leviana, que dizia que este filme era terrivelmente injusto com Jung, resolvi evitá-lo. Eu simplesmente não estava com saco para mais um discurso conservador sobre a "irracionalidade" de Jung. Nosso covarde mundinho já me expõe demais aos palpites de quem jamais leu Jung e julga por ouvir falar.
   Mas então um professor me fala que o filme, segundo ele "apesar de ruim", tem uma bela imagem do gênio suiço. Uma imagem pobre, americanizada, mas digna. Então resolvo vê-lo.
   O filme é chato, muito chato. E me impressiona seu conservadorismo. É um filme freudiano, ou seja: solene, sóbrio, controlado, modesto. O filme sobre Freud, feito por John Huston em 1962 é muito mais moderno. Talvez por ter sido feito no auge do sopro renovador de Lacan e Jung, ou simplesmente por ser de um diretor melhor.
   O filme é tão raso, que se voce, por acaso, não souber nada sobre quem foi Jung ou quem foi Freud, o que voce entenderá é que ali está uma história de amor inconvincente ( o filme de Huston é tão melhor que nem apela para qualquer tipo de love story ), e um conflito entre um velho autoritário e meio tolo e um jovem atrapalhado. Só isso.
   O que me surpreende é que o roteiro foi escrito por um grande autor, Christopher Hampton. Apesar de que desde LIGAÇÕES PERIGOSAS ele tem se perdido...
   Viggo Mortensen foi ator de teatro de Bergman. Ele faz Freud se parecer com o Bergman do tempo de FANNY E ALEXANDER. Montgomery Clift está muito mais próximo do que Freud  deve ter sido. Fassbender é o ator da moda. Qualquer coisa que ele fizer será elogiada. Não estou dizendo que eles estão ruins, apenas falo que os papéis são superficiais. Não respiram, não têm vida.
   Meu professor estava certo, o filme é lisongeiro com Jung. Ele é um jovem tentando achar uma voz própria. Freud não admite qualquer tipo de nova atitude. É o patriarca de seu condado. O filme tem a sensibilidade de mostrar a mania de todo freudiano de se colocar a salvo numa poltrona e analisar a vida, os amigos, os amores a segura distância, como se Freud os salvasse da existência. Puro comodismo conservador. 
   O final do filme é exemplar: Jung antecipa em sonho a primeira guerra mundial, e revela a diferença entre seu método ( muito perigoso ) e o de Freud ( seguro e modesto ). Jung não quer a domesticação, quer que cada um encontre seu caminho, que seja aquilo para que foi talhado a ser, seja um louco, um suicida ou um santo. Após um longo percurso ele organizaria sua teoria do "self". Freud reduz todo ser a uma questão de adaptação "ao mundo como ele é". Nada mais patriarcal que isso.
   Mas eu seria falso se não concordasse com meu professor, o filme é frio, chato, sem chama.
   E eu seria mais falso ainda se não dissesse que amo qualquer filme que se passe entre 1880/1920. A extrema elegância daquela gente, a luz fria daquelas janelas, as salas sólidas e viris, o som dos cavalos e das janelas que se abrem... é um filme bonito de se ver.
   Por fim, o filme joga uma ideia de que a separação entre Jung e Freud foi um tipo de "mal" para o futuro da psicologia. Tolice! A ruptura nos deu o livre desenvolvimento do pensamento de Jung, que jamais floresceria á sombra do vienense. E ao mesmo tempo o mais velho pode ficar em paz, sem o perigo de ideias que lhe eram intoleráveis.
   Mas na verdade o que o filme faz é reduzir tudo a uma torta love story. Báh!!!!!

O CASTELO DE OTRANTO- HORACE WALPOLE

   Otto Maria Carpeaux fala que o romance gótico surge em 1764 porque as pessoas, presas numa realidade cinza e rotineira, preferem sonhar com castelos e fantasmas do que com a casa da moeda ou as minas de carvão. Essa linha de criação vai se ramificar. Do romance gótico nascerá o terror, o suspense, o policial e a ficção científica. As pessoas continuam precisando de sonhos. E continuam preferindo sonhar com casas abandonadas, cemitérios enevoados, futuros escuros e úmidos ou vielas suspeitas. Não sonham com escritórios de advocacia, shopping centers ou academias de ginástica. O gótico surge para aumentar o limite da realidade. Dar a seu leitor algo mais, algo que ele perdeu, o sentimento do medo irracional, do susto, da surpresa inexplicada.
   A idade média ou a renascença não poderiam criar o gótico em romance. As pessoas viviam dentro desse mundo. Fantasmas, maldições, vinganças eram coisa cotidiana. O gótico surge quando tudo isso começa a desaparecer. As pessoas perdem o contato com esse lado do inconsciente e passam a sentir a necessidade de serem recordadas do que renegaram.
   Horace Walpole, nobre inglês que em 1764 lança este livro, é o pai de toda essa tradição. É óbvio que ele não fazia ideia do alcance que seu romance teria. O que ele desejou foi escrever um livro que entretivesse, que desse satisfação aos amigos. Mas eis que ele cai nas graças dos pequenos burgueses e se faz um best-seller. Desde então ele nunca mais saiu do prelo. Nele se encontra tanto a raiz de Poe e Emilly Bronte, como dos livros de vampiros para adolescentes e das novelas da Globo.
  Simples, curto, direto e cheio de furos. Tanta coisa acontece em tão poucas páginas que fica dificil resumir. Mas voce verá agora tudo o que ele contém ( e perceberá sua influência ):
  Nobre vilão que deseja se perpetuar no poder, mortes terríveis, filho que não sabe quem é seu pai, amor fadado ao fracasso, santas donzelas, duelos, aparições, alucinações, vinganças, maldições, arrependimentos... tudo isso em 120 páginas! O mais influente de tudo isso: um final melancólico, a impossibilidade de ser feliz. O herói viverá na saudade, numa tristeza compartilhada com sua esposa. Sementes do romantismo que nascia na mesma época.
   Os personagens nada têm de verdadeiro. Mudam de personalidade, de tática, sentem medo e de repente se esquecem dele. Walpole está longe da realidade psicológica de Stendhal ou de Balzac, seu foco é a ação, a surpresa. E ele consegue, o livro corre e nos leva com ele.
   Filho do momento revolucionário que nos fez ser o que somos, merece ser conhecido por aqueles que se interessam em conhecer o nascedouro de muitas de nossas fixações.
   Que tenha nascido no meio de uma sociedade culta, racional e ligada às aparências, diz muito sobre a função inconsciente do romance.

A ILUMINAÇÃO DA SIMPLICIDADE

   Acabei de assistir um filme: Sublime Tentação de William Wyler. Conta a história muito simples, de uma familia quaker. Nada de complexo há neste filme, nada. O que vemos é gente banal vivendo uma vida banal. Mas esse banal se reveste de encantos. Bem, não estou aqui para falar de mais um dos bons filmes de Wyler. Estou aqui para falar sobre a simplicidade.
   Eu, como filho de meu tempo, confesso que sou incapaz de compreender, ou pior, participar do que seja simples, puro, único. Numa aula de poesia junguiana confessei ser impossível para mim atingir o nivel de pureza que o poema analisado exigia. Porque?
   O professor fala de Baudelaire como um dos primeiros a perceber o fim da simplicidade, mas eu penso em Wordsworth. O fim da simplicidade se liga ao fim do mundo sólido. Quando, por volta de 1775, na Inglaterra, o progresso passa a "destruir" eternidades ( paisagens, modos de viver e depois valores ), a visão humana se torna fragmentária, os mais observadores se tornam caçadores do fugaz, seres que tentam salvar alguma coisa da voracidade do tempo que corre. Em um segundo estágio, a visão se faz desconfiada. O homem não crê mais naquilo que vê e passa a procurar o que está escondido nas coisas.
   O homem fragmento é o poeta do século XIX, o homem desconfiado é o do século XX, e hoje temos o homem que desistiu de olhar. Um ser exposto a tantas visões que se cansa, e deixa de observar. Bate os olhos e deixa de ver.
   Há pessoas, bastante século XX, que procuram o complicado em tudo. E que ao topar em algo simples tratam de complicá-lo, ou pior que isso, desvalorizá-lo. É como se a complicação fosse um valor. Uma peça de arte só poderia ser superior se fosse complexa, ininteligivel, múltipla. Essa situação cria dois tipos de "apreciadores de arte" bastante conhecidos: o chutador filosófico e o miope à vida.
   O chutador vê sentidos onde não há. Ele sempre explica as coisas, aumenta o alcance de peças que não possuem alcance algum. É incapaz de ver um filme por pura diversão, ou de se divertir com uma piada ou um cartoon. Só respeita o que é complexo. O miope é caso pior ainda. Esse já se tornou incapaz de perceber a simplicidade, ele a descarta sem a enxergar. Não faz conexões complexas, simplesmente nada percebe. Tudo para ele é tão complicado que ele meio que naufragou. Foge então do que lhe parece complexo e vive, que ironia, no mar da complicação. Óbvio que os dois vêem espelho em tudo. Toda obra lhes parece refletir seu "eu" ( um eu que eles desconhecem e pensam conhecer ). Quando encaram algo de puro, simples, direto, profundo, fogem sem entender nada. Percebem apenas que aquilo lhes parece infantil, comum, banal. Tolo engano. Mortal engano.
   O ser poético é aquele que ama apaixonadamente toda a simplicidade. Ele sente que o simples é superior, superior pelo fato de lhe parecer eterno, imortal, além da fugacidade de modas e tendências. Mas sua frustração vem do fato de que para atingir essa paz simples, esse nirvana do atemporal, ele deva utilizar caminhos complexos, fragmentados, hiper-racionais. Eis a contradição que cria a arte moderna.
   Assim temos Picasso tentando pintar como um selvagem, mas carregando em si toda a complexidade do modernismo. Temos poetas como Yeats, procurando a simplicidade nas tradições irlandesas, mas atingindo essa tradição com uma mente fragmentada, sofisticada, artistica. Fernando Pessoa, criando racionalmente um poeta do campo, e dando a esse poeta uma voz que se auto-analisa todo o tempo. Whitman, Pound, Drummond, Lorca, Rilke, todos procurando o simples, seja no passado, no futuro, no não-corporal ou na carne sólida. E todos sendo terrivelmente complexos nesse processo.
   Mas eles têm uma crucial vantagem sobre o mero vivente da época. Sentiram a iluminação do atemporal. Um momento em que souberam do sabor da simplicidade. E se enamoraram desse instante. E deram a essa simplicidade, que é perdida, mas ao mesmo tempo é imortal, o nome de poesia, ou de pintura, cinema, música, filosofia....
   O espectador/apreciador moderno ao ver o simples irá pensar: "mas é só isso?" O artista irá dizer: " Quanta beleza há nessa pureza!"
   Conheci o simples. Conheci o simples num quintal, numa chuva ou no sorriso. Chuva que era apenas chuva. Sorriso que significava apenas um sorriso. Me apaixonei por essa beleza para sempre. E tenho a absoluta certeza de que ela vive. Que aquela chuva continua a chover e o sorriso ainda sorri. Essa é a religião da arte. A fé na beleza. A certeza inquebrantável no simples.
   Mas sou tão complicado....
   PS: O tal professor gosta de dizer:
   Percebem o que é o moderno? Transformar o simples no complicado e vender isso como simplificação.
   Todo um aparato para se fazer algo tão antigo como fofocar, conversar ou brincar.
   Cercados por uma tecnologia complexa para fazer, de modo complicado, aquilo que 5000 anos atrás era feito  da mais simples das formas.
   O que mudou?

IDA LUPINO/ DRIVE/ MORETTI/ LINKLATER/ JACK CARDIFF/ FORD

   OS LEGENDÁRIOS VIKINGS de Jack Clayton com Richard Widmark e Sidney Poitier
Há uma crença, que compartilho, de que roteiristas dão bons diretores, editores se tornam bons diretores, até atores podem ser bons diretores, mas diretores de fotografia não se tornam bons diretores. Acostumados a ver filmes como apenas luz e sombra, se esquecem de ritmo e de história. Jack Clayton pode ter sido um dos 3 ou 4 maiores diretores de fotografia, mas como cineasta ele nada apresenta. Este filme é pavoroso! Uma mixórdia que mistura vikings com árabes e a busca de tesouro. Elenco perdido, roteiro cheio de furos, aventura chatíssima. Fuja!!! Nota Zero.
   O MUNDO ME ODEIA de Ida Lupino com Edmond O'Brien, Frank Lovejoy e William Talman
Godard disse em seus bons tempos que para se fazer um filme bastava uma arma e uma garota. Depois ele complicou tudo e passou a crer que era preciso uma tese e uma filosofia. Aqui temos uma arma e uma garota na direção. Ida Lupino foi uma diretora num tempo em que diretoras eram olhadas como coisa suspeita. O filme, barato, que fala de bandido que corre da policia em carro com dois reféns, tem clima, emoção, inventividade. É uma pequena jóia noir feita com cenários naturais e pouquíssimo dinheiro. Uma quase obra-prima do filme B. Nota 7.
   THE WAGON MASTER de John Ford com Ben Johnson e Ward Bond
Ford resolve filmar um bando de carroças crusando o deserto. Para isso usa uma história de mórmons que são conduzidos por cowboys até a terra onde viverão. Mas é tudo desculpa, o que Ford quer é filmar cavalos, pó, sol e rochas. E vemos por duas horas alegres pioneiros conduzindo sua caravana. O clima nas filmagens foi de pura amizade. Acampados, longe de Hollywood, Ford podia se dar ao luxo de filmar o quase nada. Nota 7.
   DRIVE de Nicolas Winding Refn com Ryan Gosling, Carey Mulligan e Albert Brooks
Criticos muito desavisados falaram em Tarantino. Será que esses caras viram algum dia um filme de Quentin? Este em nada lembra o grande cineasta americano. Trata-se de um filme bastante desequilibrado. Temos um roteiro de uma pobreza constrangedora, e ao mesmo tempo uma direção forte, que jamais se deixa acomodar. Na verdade seria um filme sobre o vazio, o vácuo na cabeça de um driver. Bastante aparentado aliás, com um certo filme genial de Scorsese, ele nos permite fazer um paralelo: o driver de 1975 seria exagerado, paranóico, saturado de energia demais. Aqui, o driver 2012 é vazio, sem nada em seu interior, quase catatônico. Um amigo lembrou de Lynch vendo este filme. Não. Lynch é cheio de simbolismos, de pistas, labirintos cheios de sentido, aqui nada temos, o que vemos é tudo o que existe. O filme é um tipo de filme dos anos 80 ( a trilha de Cliff Martinez, que foi guitarrista de Robert Plant, é hiper 80's, uma delicia brega ), com o estilo sonado e oco dos anos 2010. Não é um filme satisfatório. Quando pegamos a pista da influência de Taxi Driver ele se esvazia. Mas o diretor tem pegada, sabe enquadrar e conduzir cada ação em seu tempo certo. Não há uma só cena longa ou curta demais. Mas o roteiro....que mancada..... Nota 6.
   HABEMUS PAPAM de Nanni Moretti com Michel Picolli
Graças aos Céus!!!!! Temos um filme com gente de verdade!!!! Aqui há humanidade e não apenas um chavão psiquiátrico. As pessoas falam, sentem, sofrem, se perdem e, que bom, elas apresentam voz e rosto de pessoas comuns. Penso que o público irá até estranhar. Se desacostumaram a ver gente nas telas de cinema.  O roteiro, brilhante, fala de um papa que sente pavor em ser papa. Um psicólogo vem o tratar. Moretti, socialista e ateu, não fala sobre a igreja. O que ele exibe é a inadaptação a um papel. Quem em nosso mundo, de gente tão pequena, pode ser um papa? A mensagem é profunda e belíssima: quem consegue hoje seguir o papel que se espera que seja seguido? Quem consegue ser pai, professor, presidente, escritor, esposa, filho? Somos incapazes de assumir nossa função, ou será que esses papéis não têm mais porque? O filme, adulto, deixa questões abertas, não as responde. É o melhor filme do ano. Mais verdadeiro que O Artista, muito mais profundo que Os Descendentes, e incomensurávelmente mais complexo e honesto que todas as tolices "de arte" para crianças grandes e mimadas. Homens de verdade no cinema...nem tudo está perdido afinal.... Nota 8.
   DAZED AND CONFUSED de Richard Linklater com Mathew McCornaghy, Ben Affleck, Parker Posey, Milla Jovovich.
É um filme considerado clássico na América. Tarantino chega a dar-lhe o posto de número 10 entre seus favoritos. Mas em todo o mundo ele é ignorado. Feito em 1993, sem grana nenhuma e com atores então desconhecidos, ele não tem um "motivo". O que vemos é um filme quase que improvisado, sem uma só fala que seja relevante. É 1976 e estamos no último dia de aula. Os alunos fumam muita maconha, bebem , batem em calouros, namoram e vão a festa. Nada é muito forte, nada de muito dramático acontece. Não é uma comédia, muito menos um drama. O que vemos são os atores, ruins em sua maioria, se comportando como jovens "comuns". E nem mesmo um personagem central existe. Mas aí vem a surpresa. O filme consegue passar a sensação de verdade. Aquilo que vemos é realmente "como era". Não são garotos especiais e nem aquele é um lugar especial. Acabamos gostando de estar lá. Linklater foi esperto, usou músicas apenas daquele ano específico. Excelentes. Mathew esbanja carisma, faz um conquistador mais velho, de botas, voz de Marlon Brando e bigode à Redford. É considerado um grande papel. Os maconheiros convencem muito. E as meninas se parecem realmente com meninas de escola. Nota 7.
  

PRA QUE SERVE A POESIA? ( DE ACORDO COM HEGEL E OCTAVIO PAZ )

Hegel: "A lírica nasce do desacordo com o exterior. E a confiança no mundo interior do poeta."
( Antes de tudo um obrigado oa professor Alcides, aulas instigantes demais! )
A chave da frase de Hegel é; Confiança no mundo interior.
Houve uma fase terrível em minha vida em que me era impossível ler poesia. Tudo o que significasse adentrar àquilo que poderia escapar a minha razão me era assustador. Eu disfarçava esse medo com o rótulo de "sem tempo". Eu não tinha tempo para a poesia. Na verdade, não tinha a confiança.
Mas afinal, o que é e pra que serve a poesia?
Sigo agora uma ideia de Octavio Paz.
O tempo é como uma linha. Voce anda, pensa, teme, come, dorme, trabalha e lê. Sempre nesse fluxo temporal retilineo. Ontem eu comi peixe, hoje eu escrevi para Maria, amanhã irei ver meu avô. Então agora, imagine essa sua/nossa vida, como uma linha, começo, meio e fim, tudo encadeado em fluxo constante: --------------------
Agora pense. Eu ando pela rua dentro dessa linha de vida e tempo. E observo um lindo prédio, gente que anda, uma menina bonita, uma árvore. Até mesmo filosofo sobre a menina, sobre o tempo que passa e sobre a morte de tudo. Mas então, súbito, alguma coisa acontece. Como se fosse uma flexa, uma linha vertical cai sobre a linha horizontal.
Na rua alguma coisa se faz. E essa coisa que se faz NÂO faz parte da linha do tempo. Essa coisa não é um sentimento, não é uma filosofia, não é uma emoção. Essa coisa que quebrou a linha não pode nem mesmo ser escrita em linha, pois a escrita em linha é a escrita do tempo ordenado. Essa coisa é a poesia.
A poesia é a escrita não linear, não temporal, que salvo algo ou alguém da linha do tempo. Eterniza um ponto recolhido do esquecimento do instante que passa. Cito Paz:
" No aqui e agora algo se principia, uma luz especial cai sobre o momento. Esse fragmento se faz um mundo em si. Sem passado ou futuro, um eterno agora."
Ler poesia é sempre entrar em contato com o que sobrevive. O agora que fica sendo agora. Não há nela a ordenação da prosa. O começo e o fim. Poesia pode ser lida em qualquer ordem, sem senso de linha e de final. Pode ser relida indefinidamente. E quando bem realizada, é atemporal.
Gaston Bachelard disse:
" A poesia só pode ser mais que a vida se ela imobilizar a vida".
A poesia é portanto o momento que se faz para sempre um aqui e agora. Aquele segundo se torna longo como a eternidade e tudo o que nele havia se salva do esquecimento.
Todos nós ( será? ), vivemos momentos de poesia. São raros e são menos raros na infância. Momento que somos incapazes de esquecer e que parece ter acontecido agora mesmo. É a lembrança que não é passado, pois a levamos viva sempre em presente. Fato antigo que continua reagindo com o agora e portanto não é velho e muito menos antigo. Vida interior sem linha e sem razão.
O poeta vive com acesso a esse estado sem tempo. Percebe o extra-linha na pomba que passeia na calçada, na pedra do caminho, na maçã sobre a mesa, na face do espelho.
O poeta vê com olhos sem idade, vê o que nega a linha da vida, dá valor ao que merece sobreviver.
Mundo sem poesia seria mundo com idade bem contada, linha de vida definida e onde tudo seria esquecimento. Vida retilinea, sem surpresas e sem epifanias. Onde um pombo é um pombo e a maçã é sempre apenas mais uma maçã. Mundo mediocre, sovina e conformado. Banguela.
Mas não eu. Vejo em cada rua uma rachadura que é sinal, uma folha que se salva, uma face que é para sempre.
Desperdiço tempo com poesia, gasto linhas as entortando, jogo fora tempo com eternidades.
Não sou poeta, mas vivo na poesia.

JUNG, UM CASO DE AMOR COM FREUD

   Deve ter sido terrível para Freud ter de encarar a independência de Jung. E perceber que o jovem suiço não entendia seu medo, ou pior, zombava dele. Vejamos, Jung jamais entendeu o porque de Freud ansiar tanto em ser aceito. O vienense rompia tabus, mas de forma incompreensível para  Carl Gustav Jung, desejava ansiosamente ser aceito como "cientista sério e responsável". Porque? O que Jung não compreendia, e nem poderia, é que Freud vinha do gueto, sabia o que era não fazer parte, ser olhado com desdém. Jung por outro lado, podia ousar sem medo, pois seu meio era a elite européia, ele jamais seria isolado em gueto. Mas havia algo de mais doloroso ainda.
   Todos os relatos, inclusive Peter Gay, dizem que Jung era muito atraente. Alto, bonito, corpo de esportista, sempre rindo e brincando, as mulheres choviam aos pés de Jung. Ele era assediado. Há uma piadinha, que conheci através de Paulo Francis, que fala que Freud achava intolerável o sexo entre analista e paciente pelo fato de que nenhuma paciente iria querer dar para ele. Então era melhor proibir. Baixinho, sempre de cara amarrada e muito feio, Freud nada tinha de erótico e seus contatos com mulheres eram sempre marcados pela ansiedade. É impossível não se imaginar que Freud invejava Jung. E que Jung se ressentia da seriedade "messiânica" de Sigmund. O vienense havia criado algo novo, Jung seria sempre um discipulo, por mais que criasse e ousasse. Um filho, nunca pai.
   Qual dos dois está certo? Fazer essa pergunta já é um erro. Nenhum deles pode estar certo e com certeza ambos sabiam ter errado. Toda a teoria de Freud será sempre isso, apenas uma teoria. E para ele, esse é seu grande fiasco.
   O mundo arriscado e libertário de 1955/1975 colocou Jung nas alturas. Ele passou a vender de tudo. Astrólogos se diziam junguianos, drogados tentavam atingir o self de que Jung falava. É óbvio que ninguém entendeu nada. E nisso Freud tem uma vantagem grande, suas teorias são bem mais simples, não requerem grandes vôos de erudição e experiência pessoal. Jung exige muito de quem busca o entender. E nessa busca existem centenas de armadilhas.
   Hoje o mundo está confortávelmente refestelado num divã freudiano. Sem ter culpa alguma nisso, ele é usado como um tipo de tiozão sisudo que nos livra das grandes questões que fazem a vida valer a pena. Assim como em 1968 os malucos gostavam de achar que Jung dizia que tudo valia para ser voce mesmo, os reprimidos de agora gostam de pensar que Freud é um tipo de garantia contra a doideira. Um filme pop-hollywoodiano jamais poderia tomar o partido de Jung, para ser de Jung ele teria de ser  um filme sem enredo e sem direção. Dessa forma o que temos é Jung visto pelos olhos repressores e invejosos de seu ex-mentor. Mentor que nunca admitiu a independência de um discípulo. Jung deveria ser seu testa de ferro gentio, e tão somente isso. Admitir que além de mais "feliz", ele fosse dono de ideias próprias, foi a mágoa de sua vida.
   Aliás há um pensamento que ocorre a quem assiste o filme com olhos livres: se Jung estudou e entendeu tudo em Freud, Sigmund não entendeu uma só linha de Jung. Preso ao dogma e a vaidade, Freud jamais reviu suas ideias. Passou a ser um propagandista de si-mesmo, um cada vez mais solitário messias.
   E enquanto isso Jung partia em viagem rumo ao absoluto risco. Pouco se lixando para a aceitação da ciência, para as opiniões de honrados doutores, com um unico objetivo: entender a vida, o que ela é e o que ela pode ser. Fracassou. Mas ao menos deixou escrita a aceitação de seu fracasso. Aprendemos com suas tentativas, com sua insaciável curiosidade, nunca com suas conclusões.
  Entender a relação dos dois passa por entender a dualidade da vida e do ser: eros e thanatos, sol e lua, macho e fêmea, carne e alma. Não podia durar.

The Waterboys - The Stolen Child (1988) William Butler Yeats é meu mestre



leia e escreva já!

A MÁQUINA DO TEMPO- H.G.WELLS

Existem livros que não nos dão muito o que dizer. E se alguém começa a discorrer muito sobre os sentidos de tal obra, pode crer, um monte de abóboras está sendo "discorrida" sobre sua cabeça. Há quem consiga desfiar laudas e laudas sobre um filme de David Fincher ou um poema de cummings. Esse laudador é muito mais um agricultor que um razoável resenhista.
O livro de Wells, lançado no fim do século da razão exaltada, ( o XIX ), fala sobre o futuro. Um homem constrói máquina que o leva ao ano 8 milhões. Lá ele conhece os Elóis, um povinho doce e feliz e topa com os Morlocks, povo das profundezas, asqueroso, que trabalha e se alimenta das carnes tenras dos Elóis.
Wells era fabianista, e o fabianismo era a versão inglesa do socialismo. O livro mostra em que a elite se transformaria, em Elóis. Os Morlocks seriam os trabalhadores, que viriam a dominar o planeta por serem mais fortes e industriosos que a elite. Mas por terem sido maltratados por essa mesma elite, se transformariam em humanos condenados a escuridão. A mensagem ainda é válida? Racionalmente penso que não, no futuro todos seremos iguais em nossa bundice rosada. Mas já me peguei várias vezes pensando em que numa guerra civil, onde tudo valesse e a economia se fizesse um kaos, a elite se tornaria presa fácil dos homens acostumados a improvisar e a sobreviver com pouco.
Curto, sem floreios, o livro de Wells deve sua imensa popularidade a habilidade que ele tem em descrever climas e dosar suspense. Wells não foi um grande escritor, seu estilo é pobre; mas tinha ideias, tinha vontade, e nenhum receio em ser direto.
O filme de 1960, de George Pal, é delicioso. Fiel ao sabor vitoriano de Wells, época que criou tanta coisa que hoje usufruimos. Tantas modas e tanta´fés. Inclusive o culto da própria celebridade. E o medo/ fascinio pelo distante futuro.

CRITICO, RAÇA EM EXTINÇÃO

   As pessoas morrem de medo, hoje, de serem chatas. Chatos são colocados fora da "cena", são chamados de rabugentos. A década de 80 viu o apogeu de chatos profissionais. Foi uma época em que era cool falar mal. Mas neste século falar mal é ser apenas um cara demodée. Um "Paulo Francis/Matinas Suzuki/Gerald Thomas" da vida.
   Criticas morreram. Todas são suspeitas. Falo da critica em midia impressa. E sou motivado pela ausência de critica ao Lollapalooza. O festival deu milhares de motivos para a escrita de criticas certeiras. Ninguém as escreveu. Quem ler o que se imprimiu pensará que tudo foi lindo ( Ora seu trombone chato, não foi? ).
   Voce só cresce ao se criticar. Se voce tiver a ilusão de que tudo em voce está lindo voce já era. É isso que se faz com a arte hoje. Elogia-se tudo, e mesmo quando o critico ousa dizer que não gostou, isso vem temperado por várias luvas de pelica. Não se ataca com coragem, se dá conselhos. Dessa forma a arte deixa de ser criticada e assim não evolui. Dessa forma ninguém falou do ridiculo de Gypsy Punk, Foster, Friendly ou Band of Horses. Essas bandinhas se pensarão bandonas. E ficarão estagnadas.
   Mas os criticos também não se criticam. Inexiste o critico que ousa criticar seu "colega". E o que vemos são criticos também estagnados.
   Às vezes surge algum filme que alguém ousa falar mal. Mas são sempre os mesmos tipos de filme, filmes que são vitimas fáceis, filmes que são cool falar mal. E ninguém ousa os defender. Obras que são feitas para festivais ou prêmios nunca são demolidas.
   Óh menino imberbe, creia-me, não era assim. Kubrick era demolido, Hitchcock era chamado de comercial e superficial, Ford era considerado ultrapassado e Godard era tratado como lixo. E ao mesmo tempo alguns defendiam todos esses autores como se fossem gênios. Não havia o medo do risco, do ridiculo. Na musica, criticos punk demoliam Stones, Led, Floyd etc. Alguém destruiu alguma coisa nos últimos vinte anos? Falar mal de funk ou sertanejo não vale, quero ver mostrar o podre de Strokes, Oasis ou Pumpkins. Não um simples "disco fraco", mas sim a demolição da banda, a dissecação da falta de inspiração do grupo, o ato de se dessacralizar o sagrado. E também, por outro lado, a explicação de uma genialidade.
   Ler uma critica com cinco linhas e algumas estrelas é transformar arte em dica de restaurante. Ou de motel.
   Na internet se arrisca um pouco mais. Mas Barcinski ou Butcher, que são corajosos, ficam perdidos em meio a um mar de bonzinhos e bundinhas. Pior, gente que não tem parâmetro algum para julgar se mete a critico. Sim, eu sou chato, te avisei.
   Como levar a sério a opinião, que é de fã na verdade e jamais de critico, sobre o disco "criativo e original" do Dead Weather, se tudo o que esse critico conhece de "criativo e original" são meia dúzia de bandas surgidas nos últimos cinco anos? A tendencia desse arauto da opinião será a de elogiar tudo aquilo que ele já conhece e ignorar o que lhe é estranho. A função principal do critico que é a de abrir caminhos fica negligenciada. Se torna uma coluna de babação babaca e não de risco e acerto.
   No cinema a coisa é bem pior. Criticos internéticos tendem a trabalhar como espelho. Elogiam o que reflete aquilo que eles são. O resto inexiste. São seres estéticamente analfabetos, que se metem a discorrer sobre "a nova sensação do cinema de arte" sem terem a menor ideia do que seja cinema ou arte. Crianças que conhecem o ABC e dão palpites sobre XYZ.
   Viva a democracia? Ora, por favor! Seria ótimo se quem os lesse tivesse a noção de sua futilidade, mas existem outras crianças que os lêem e de balbucio em balbucio aquela "critica" passa a valer como "coisa real".  O circulo se fecha e teremos de cada opinião furada mais cem chutes no vazio.
   Por outro lado isso me dá prazer. Se o mundo se tornar cada vez mais idiota, os poucos que têem alguma cultura serão arautos da civilidade. Basta dizer que em meio culto eu sou um jeca, mas no universo internético sou considerado "de boa cultura geral". Pobre universo internético!
   O que eu quero é uma critica que me abra os olhos para sentidos que não percebi. E que tenha a coragem de destruir e construir. Não li nada sobre nenhum filme em cartaz que me mostrasse uma nova visão. Ou que demolisse a enganação. E se eu falar sobre música a coisa fica pior.
   A tendência é a de que cada um permaneça em seu minúsculo mundinho, elogiando tudo que faz parte desse mundinho e não se deixando surpreender por nada que seja novo para si-mesmo. Conheço amigos que são tão fechados em seu espelho, que me dão o gosto de eu poder adivinhar TUDO o que eles irão gostar antes de que eles mesmo o saibam.
   A critica existiria para abrir os olhos desses cegos. O que ela faz hoje é polir os espelhos.

THE RISE AND FALL OF PONDÉ AND THE LITTLE SMARTS FROM MARS

   E o glamouroso Pondé coloca o rabitcho entre as pernas e explica aos inteligentinhos tudo que eles jamais poderão chegar perto de entender. Affff...a explicação de Pondé faz tudo aquilo que ele condena: vulgariza, higieniza e pasteuriza. Ele consegue em um só texto desagradar seus negativos ( os inteligentinhos que nunca entenderam patavina do que ele fala ), e gente como eu, que sempre o levou a sério. Pondé jogou alto com sua coluna de Páscoa. Errou por arrogãncia. Sua conclusão hoje cheirou a capitulação. Pior, ele nunca escreveu um texto tão simplório. Falo aqui o que ele não falou.
   A vida é violenta. Viver é matar. O leão adulto trucida uma zebra filhote e a come ainda viva. A vida só pode existir com a morte de alguém ou de algo. Isso é óbvio. Povos primitivos vivem em comunhão com essa lei, neles não se fez a divisão entre humano e natural. A religião desses povos dramatiza a vida, a torna explicável. O conceito de bem, de piedade não existe. O que há é o que é. Com o perdão dessa frase.
   Todas as religiões pré-históricas sacrificavam gente. Em imensas hecatombes de sangue. Maias, aborigenes, navajos, zulus... e mesmo ´civilizações que nos são próximas, como gregos clássicos ou celtas, tinham sacrifícios. Os judeus são os primeiros a praticarem o sacrificio animal e apenas animal. Se dá entre eles uma radical divisão, o homem se faz à parte do cosmo. Instituem um deus único. É nesse momento que o homem passa a olhar para a natureza com estranheza e depois com horror. Foi esse o momento que Nietzsche tanto condenava. Ele não era contra a religião, era contra a religião civilizada.
   O homem sempre foi um bicho estranho. Nos rituais de morte e massacre ele teatralizava aquilo que lhe aterrorizava. Matava para suportar a consciência do fim, maldição que só ele possui, a certeza da finitude. Enchia-se de sangue na tentativa frenética de não mais temer o seu sangue.
   Lendo Comte-Sponville, Pascal e Spinoza, tomo consciência da revolução sem paralelo que foi o cristianismo. Pela primeira vez, de súbito, instituia-se uma religião sem sacrificio ritual. Tudo se faz símbolo. Mais que isso, a piedade deixa de ser sinal de fraqueza e passa a ser força. É a primeira religião do amor e apenas do amor.
   Pondé temeu dizer isso. Perdeu-se em bobagens e enrolou-se. Tentou pela primeira vez agradar.
   O homem comia cérebros ( há quem os coma ainda ), matava rivais e se enchia de sangue. E ao contrário do que ele diz, não há uma só evidência que diga que esse ato de destruição não fosse considerado mágico. O ato de comer o inimigo era homenagem ao rival, e como qualquer antropólogo sabe, era uma comunhão em que o eu-que-comia se tornava o eu-que-era-comido. No Brasil os indios comiam macacos para ser macaco e cobras para ser cobra.
   Isso é rompido. No mundo pós-cristão voce não é o que come ou aquilo de onde vem. Passa a ser aquilo que faz. Isso começa com o cristianismo onde voce é o bem que voce pensa e realiza. Matar se torna um pecado. Voce não precisa mais matar para sobreviver à ideia da morte, voce vive simbolicamente a morte de um Deus para superar a sua morte futura. A poesia mora muito perto destas afirmações. O inconsciente é vivo neste universo.
   O que Pondé nos deu, em dois capítulos, foi sensacionalismo barato. Tudo aquilo que ele não pregava.
   Que mal....

PRAZERES SECRETOS

Uma coisa que é só sua e de mais ninguém. A revolução da mente humana se deu quando o homem se viu, pela primeira vez, como individuo único. Ele percebeu que só ele vivia aquela vida, só ele sentia o que ele sentia e só ele sabia o que ele sabia. Mais que tudo, ele possuia sua vida e com ela seus segredos e mistérios.
Todos, ou quase todos, viveram um primeiro amor. E é nesse amor envergonhado e recolhido que pela primeira vez descobrimos o prazer de se ter um segredo. Nossos pais não podem saber disso. É aí que damos o salto, ficamos á parte da familia, temos algo que é só nosso, o amor. E o acalentamos. O deixamos crescer dentro de nós. Torna-se sagrado. Entenda, em sociedades arcaicas isso não existe. Tudo ocorre ás claras, não há segredo e individuação, voce é sua comunidade, voce é tudo.
Ontem, conversando com um amigo, ele me conta da "vida compartilhada" de agora. Tudo que voce faz deve ser dividido com os outros. Voce só existe para eles.
Ora, isso é antigo, muito antigo. E é irônico que a tecnologia nos leve cada vez mais para hábitos de um remoto passado. A certeza de que uma coisa só tem valor se for "da comunidade, da rede". Seja um show, uma festa ou uma viagem, ela só é válida e "importante" se for dividida e de preferência bastante compartilhada. A pessoa abre mão da experiência pessoal, e a transforma sempre num tipo de reportagem para todos.
O caminho que temos, cerebral, sempre foi o de sentir, absorver, guardar, elaborar e memorizar. Depois vinha a transmissão. Agora o trajeto é sentir, elaborar e transmitir. Não há tempo de absorver, nada se guarda e a memória se encurta. A experiência é logo expelida para a rede e prontamente esquecida. O cérebro se esvazia e fica ávido por mais uma experiência ( cérebros abominam o vazio ), e essa nova experiência logo vem...e outra e outra e outra.... O amadurecimento se torna impossível. A vida interior se faz rala.
Penso então nos Beatles. Sim, nos Beatles. Eles tiveram a sorte de passar anos à margem do mundo. Tocando, compondo, se afirmando. Elaborando toda uma carreira dentro de si. Pegando aquele som tão "cover", Buddy Holly e Everly Brothers, e fazendo suas tentativas de originalidade. Até que anos mais tarde explodissem e se tornassem mundiais. O que seria deles hoje? Em 1960 já teriam videos na rede e faixas para download. Sentiriam desde o inicio o "gosto" da exposição. E pior, seu espirito se atiraria para fora, para o que os outros esperam. Amadurecimento, recolhimento, espera, jamais.
Outro exemplo. Ingmar Bergman.
Bergman passou dez anos fazendo um filme por ano. E nada acontecia fora da Suécia. Ninguém o conhecia. Então o que ele podia fazer? Podia aprender. Com calma, sem se sentir exposto, dentro de si, ele foi desenvolvendo um estilo pessoal. Sem pressa, filme a filme. Quando estourou em 1956 já tinha firmeza, certeza, calejamento. Estava pronto. O que seria dele hoje? Teria desde "PORTO", em 1946, seu fã-clube. E normalmente o que ele faria? Se conformaria em ser para sempre o ídolo desse fã. Na rede, precocemente ele se acreditaria pronto. Faria fé do hype criado a seu redor.
Prazeres secretos. Alguém ainda os tem?
Existe algum segredo? O prazer de comprar um disco do Velvet Underground no Brasil em 1981. E saber que nenhum amigo conhecia essa banda. E então, amar essa banda em solidão. E chegar a crer que ela é sua. Mais ainda, que seu amor a mantém viva. Cuidar desse amor que é seu e portanto se TORNA VOCE. Esse é o aprendizado da individuação.

LOLLAPALOOZA PARTE DOIS

   Uma banda como o Friendly Fire consegue um milagre: fazer todo um show baseado em um refrão do Duran Duran! Em todas as músicas deles voce tem a impressão de que o cara vai passar a cantar, "Dance into the Fire...", experimente cantar junto com eles e enxertar esse refrão de Simon Le Bon....sempre encaixa!!!! Friendly Fire é uma banda para não se esquecer de esquecer. Se em 1985 os Durans comprassem suas roupas nas Casas Pernambucanas e bebessem cerveja em lugar de champagne teríamos os Friendly. Mas como tudo sempre pode ser piorado, os Foster deveriam ser os Fofos. Que coisinha tão lindinha do papai !!!!! Eles conseguem fazer com que o Coldplay pareça o Velvet Underground e que Elton John soe perigoso. Assexualidade, teu nome é Foster.
   O Manchester Orchestra promete pelo visual. Os caras têm cara de homem, e isso é muito raro no pop. Dizem que fazem um tipo de grunge furioso. Mas quando tudo começa voce vê que é apenas mais um som à Live. Anódino. O público adora. Aliás o público adora tudo. Parece que desgostar é um pecado mortal. Saudades das latas que atingiram Carlinhos Brown....
   Gypsy Punk não merece ser comentado. Gypsy Kings piorado. Uns tiozinhos disfarçando sua caretice com uma guitarrinha "punk". E um cantor que é xerox de Ian Anderson em 1975. Só faltou a flauta. Se ele parasse tudo e começasse com "Aqualung my friend...." nada seria estranho. O modo como ele pula e joga o violão é Ianandersoniano puro.
   Será que tudo hoje é anos 80? Veja os Monkeys. Eu juro que já ouvi musica deles no radio achando ser alguma musiquinha de 1983 que eu esqueci de quem fosse. Pelo menos eles tocam ok.
   Fazem décadas que eu sonho com uma avalanche punk que lave o marasmo e mude tudo. Não virá. Antes dessa nova tempestade se formar as bandas já estarão na rede, popularizadas e separadas em suas carreiras virtuais. No mundo hiper-globalizado não há como uma banda amadurecer quieta e isolada. Então ficamos assim: o festival foi deslumbrante... pra quem nunca havia visto show nenhum e pra quem acha que o rock começou em 1980 com o Joy Division.
PS: gostei dos TV ON THE RADIO. E os CAGE THE ELEPHANT foram muuuuito bons.

CONTEMPLAÇÃO

    Prometi e aqui está o texto de Oscar Wilde sobre poesia. Após falar sobre o maravilhoso dom romântico de Yeats, Wilde cita este parágrafo de Walter Pater.... leiam....
    "O fim da vida não é ação, é sim a contemplação- ser se diferenciando de fazer- uma certa disposição da mente: isto é, em um aspecto ou outro, o principio de toda a mais alta moralidade. Em poesia em arte, se voce penetra no seu verdadeiro espirito, voce toca rapidamente seus principios que, devido a sua esterilidade, são uma espécie de observador que está aí pelo simples prazer de observar. Tratar da vida no espirito da arte é fazer dela algo cujos significados e fins já são conhecidos: encorajar de fato este tratamento, o verdadeiro significado moral da arte e da poesia. Seus trabalhos não são para dar lições ou criar regras, ou mesmo para nos estimular a nobres fins, mas para remover por um certo tempo os pensamentos do simples mecanismo da vida e prepará-los para as emoções , seja sobre o espetáculo de grandes fatos da existência humana sem qualquer sentimento mecãnico, as grandes e universais paixões do homem, as mais gerais e interessantes  de suas ocupações e o complexo mundo da natureza.
   Testemunhar esse espetáculo com as emoções apropriadas é a meta de toda cultura, e a poesia é a grande fomentadora e estimuladora dessas emoções. Enxergar a natureza repleto de sentimento e excitação. Observar homens como parte da natureza, excitados, apaixonados, em conexão com a beleza do mundo natural, imagens do sofrimento humano em meio a formas tão poderosas e terríveis".
   Observar. O dom da poesia é o dom da observação. Olhar sem fazer, ver e seguir o movimento que é a vida. Não conheço melhor modo de definir poesia. Observar, saber ver sem a conciência de se estar vendo. Integrar o olhar que olha ao objeto que está sendo visto. Fazer do que é observado parte de seu espirito que olha. Olhar passivo, olhar que integra.
   A poesia é então uma visão, olho. Ver tudo, o que é e aquilo que deveria ser. O que será e aquilo que era e se torna presente pela visão poética. Saber da complexidade da vida e da natureza. Intuir a linguagem do que se vê ( e não falar ).
   A verdade é poesia. Conhecer a vida, saber da vida. Liberar.
   Oscar Wilde, que disse que toda arte que merece ser arte deve ser absolutamente inútil, diz então que Pater define o que é a poesia: observar. Ver sendo o ápice da vida, ver contemplando, não julgando e nem pensando em fins ou utilidades. Apenas contemplar.
   É um dom raro, dificil, mas é o que dá valor a vida.

CHÁ DAS CINCO COM ARISTÓTELES- OSCAR WILDE

   Logo após voltar de seu tour de sucesso pelos EUA ( ele havia feito conferências por todo o país com lotações esgotadas ), Oscar Wilde volta a sua vida londrina habitual, ou seja, publica seus artigos em jornais e revistas. A grande fase de A IMPORTÂNCIA DE SER HONESTO e de DORIAN GRAY viria na década seguinte. Assim como sua prisão.
   Estamos portanto na Londres de 1885/1890 e o que agita a cidade é o embate entre clássicos e românticos, realistas e simbolistas, objetividade e poesia. O que há neste pequeno livrinho são os artigos que Wilde publicou em jornais. Críticas sobre livros e peças, dissertações sobre culinária e poesia. Sabiamente ele percebe que o cerne de seu tempo é a oposição realismo/ simbolismo, um confronto entre a alma que cria e a alma que apenas registra o que vê. Ele toma partido, e acho que não preciso dizer qual.
   Bela época em que os autores "atuais" se chamavam Tolstoi, Dostoievski e Turgueniev. Ele resenha o novo livro de Dostoievski, assim como Balzac ( uma nova tradução ), Walter Pater, e descobre um novo e promissor poeta, William Butler Yeats. Além dos citados, esse é tempo de Tchekov, Henry James, Thomas Hardy, Mark Twain, Mallarmé e Zola. Dentre muitos e muitos outros.
   Wilde evita tocar no que é muito ruim. Embora ele critique certas traduções desastrosas, no geral ele não é agressivo. Se esmera na leveza, em fazer da leitura um prazer. Oscar Wilde insiste em que toda arte deve ser prazerosa e bela. Esse é seu norte. Quem pensa que a crítica ferina é coisa de Wilde errou de irlandês, George Bernard Shaw era a fera que foi o molde Paulo Francis e que tais.
   O primeiro texto é uma emocionada homenagem ao maior dos poetas, John Keats. O autor visita seu tumulo em Roma e se encanta com a beleza do lugar. O belo escrito a seguir discorre sobre a culinária e fala da ruindade da cozinha inglesa. É divertido e acerta o alvo.
   Numa critica a peça de Shakespeare em cartaz, Wilde se detém nos excessos da cenografia, na facilitação de efeitos ribombantes. Há em sua critica um desejo pela volta a simplicidade. No começo do livro o tradutor colocou uma frase de Borges em que ele diz que Oscar Wilde não envelhece. O que ele escreveu podia ter sido escrito hoje de manhã. O que ele pede ao teatro shakespeariano é pedido válido agora: menos efeito e mais texto.
   Vem então um comentário sobre um livro que fala de casamentos e mais uma critica sobre Keats.
   Um dos melhores textos é o próximo, sobre Balzac. Wilde fala sobre a maravilhosa força do francês, o modo como ele nos ilude ao criar vida que em nada se parece com a vida, mas que "é mais real que a própria vida". Penso em Iris Murdoch, que criou toda a sua filosofia baseada nessa linha, ou seja, de que a arte é a vida real e não o dia a dia. Numa frase soberba, Oscar fala que é "muito melhor ficar em casa na companhia dos personagens de Balzac que sair para encontrar gente tão sem vida". É um texto divino do grande Oscar.
   As críticas que seguem são sobre a mania de se lançar biografias de escritores. A reclamação de Wilde é pertinente ainda hoje. Que importa quantas vezes Rossetti comia por dia? O que interessa ao leitor a quantidade de cães que um poeta tinha ou no tipo de guarda-chuva que ele usava? Wilde fala que o que importa é a obra, a vida verdadeira do artista reside naquilo que ele criou e o fato do cotidiano só importa ao ter ligação com a gênese da obra. Quem pode discordar disso?
   Essas biografias, tolas, falam de Keats, Ben Jonson e Dante Gabriel Rossetti. A de Keats é destruída de uma forma elegante por Wilde. Vale muito a pena ler.
   Mas um dos melhores textos fala de um livro que se propõe a nos ensinar a conversar. Wilde aproveita para escrever sobre a conversação, sobre o que seja uma boa e uma má conversa. A arte que há em se saber trocar ideias.
   Vêem então belos artigos sobre modelos ingleses ( modelos que posam sem entender nada de arte ), o novo presidente da academia de pintura ( um tolo ), e ao final dois maravilhosos e emocionantes artigos sobre Yeats, jovem poeta que muito prometia. Escreverei sobre eles em outra postagem.
   Lendo este livro nos sentimos muito próximos de Wilde. E o que sentimos é afeto por essa grande alma.
   PS: a "filosofia" de Wilde é; Existe mais verdade na visão de um artista que na objetiva e simples observação da natureza.

LOLLAPALOOZA, DIA 1

   Miles Davis já dizia que o musico negro não gosta de olhar pra trás. Se ele olhar muito ele chega a escravidão...Já explico porque cito essa frase.
   Dave Grohl tem a melhor profissão do mundo e ele sabe disso. Ele se diverte no palco. E o povo o adora. Ele chegou naquele ponto em que se der um arroto será imitado por vinte mil pessoas. É ok, mas se voce olhar de longe é também patético. Um monte de gente falando YEAH pra qualquer coisa lembra muito um comício nazi. Mas Grohl é legal....só podia falar um pouco menos. Acho que seus fãs ficariam bravos se ele dissesse que escuta Pink Floyd. Eu adoro quando ele faz aquele som Floyd-visita-Nirvana.
   Joan Jett tá barriguda. As Runaways em 1978 eram consideradas uma banda de quinta. Constrangedoras. Os punks as detestavam e o rock oficial as ignorava. Eu continuo achando que Joan é muito mais uma fã de rock que uma compositora/cantora/guitarrista. Tenho a impressão que hoje tudo é aceito, até mesmo O Rappa. Ainda se usa a vaia????
   Nada pode ser pior que Band of Horses. Tem até lá lá lá....Deus me salve!!!! Bando de barbudos sensíveis só The Band, os canadenses geniais que Scorsese filmou em 1976. Mas há quem goste e não adormeça.
   Cage The Elephant é bom. O som é cover, mas eles fazem com tesão. Dá pra ouvir por mais de quinze minutos. Antes de que o cantor se jogasse no povo eu já sabia que ele iria "Iggypopizar". O cômico é que as pessoas preferiam fotografar que pular e tocar no cara.  " O Lucas tem de ver isso!!!!" Tem gente que não vive mais o momento, ela apenas o registra pros "Lucas" que não estão presentes.
   Agora eu posso voltar ao Miles Davis.
   Desde 1970 tudo o que há de mais novo no pop foi feito por um negro. Desde Sly Stone/ James Brown até o Rap e suas consequencias. Meus amigos que não ouvem música de negrão sempre me parecem saudosistas ( mesmo sem o saber ). E o único show que não tentou se parecer com alguma coisa de trinta anos atrás foi o TV ON THE RADIO. Ali há uma tentativa de se fazer diferente. Em meio a bandas que compõe covers de Pixies, de Ramones e de Husker Du, alguém foge dessa estrada e procura dar uma enriquecida no som.
   O resto é o vazio....

PAYNE/ KEN RUSSELL/ JAMES STEWART/ JOHN WAYNE/ CORMAN/ LAURENCE OLIVIER/ MARILYN

   SIDEWAYS de Alexander Payne com Paul Giamamtti e Thomas Haden Church
Podem me xingar á vontade: não gosto de Paul Giamatti. Ele tem cara de quem está prestes a vomitar e esse enjôo passa pra mim. E quando não me faz sentir náuseas ele me faz dormir. O filme poderia ser bem melhor sem ele. Em compensação, gosto de Church. Merecia melhor carreira. Desde a tv que o acompanho. O filme é o mais fraco de Payne, dos poucos diretores atuais que não confunde arte com nojeira. Seu melhor filme ainda é ELEIÇÃO. Aqui é a história de amigos que partem para uma viagem atrás de vinhos. Encontram amor ( claro, é Hollywood ). Nota 5
   DELÍRIO DE AMOR de Ken Russell com Richard Chamberlain e Glenda Jackson
Eu estava meio sem pique com cinema e a revisão deste filme me fez voltar a sentir a paixão pela tela. Ken Russell nunca fez ou tentou fazer "bom cinema". Seu interesse era o carnaval. Temos aqui Tchaikovski como um gay que insiste em tentar ser hetero. E ele sofre como um São Sebastião  do pau oco. O filme, com uma foto espetacular de Douglas Slocombe, tem aquele exagero de cor e de movimento que é o estilo sem pudor de Russell. Glenda Jackson, estrela de gênio, se expõe numa patética cena de sexo. Nós não sabemos se é pra rir ou pra chorar...adoramos e nos divertimos à farta. Russell sacrifica verossimilhança ou sobriedade por cenas de furor e frenesi. O filme é um tipo de "Russia em Nilópolis by Joãozinho Trinta". Nada tem de real ou de simbólico, é somente imagem e som. Odiado em seu tempo, fracasso de público, hoje, em tempos menos exigentes, está reabilitado. Quando o assisti na tv em 1978 mudou minha vida. Lembro que pensei: "Cinema pode ser assim? " Falseando a vida e o cinema Ken Russell nos dá prazer. Escrevi critica sobre este filme abaixo, procure. Nota 8.
   O VÔO DO FÊNIX de Robert Aldrich com James Stewart, Richard Attenborough, Peter Finch, Ernest Borgnine e George Kennedy
Um grupo de soldados de várias partes do mundo, viajando de avião sobre o Sahara, se vê preso no deserto quando o avião sofre pane. O que vemos é o conflito entre esses homens em desespero. Stewart faz um muito antipático piloto americano, que tem preconceito contra um engenheiro alemão. Finch é um rigido comandante inglês. Aldrich, como disse Inácio Araújo esta semana, é um excelente diretor. Um cineasta que sabia criar conflito, drama, tensão e que era dono de um estilo nada afetado, viril. É dele o genial THE DIRTY DOZEN. Precisa dizer mais o que? Este filme foi refeito a dois anos com Dennis Quaid no lugar de Stewart. James Stewart rouba o filme, ele é ao mesmo tempo ruim, covarde, turrão e determinado. Belo filme. Nota 7.
   O CASTELO ASSOMBRADO de Roger Corman com Vincent Price e Debra Paget
Todos sabem que Corman foi o diretor classe B que sabia fazer filmes decentes com um nada de recursos. Mas o que lhe garantiu a memória é o fato de ter sido ele quem ajudou Coppolla, Bogdanovich e De Palma em seus começos. Aqui temos um filme que usa contos de Poe e de Lovecraft. É sobre um herdeiro que ao visitar o castelo abandonado da familia se vê possuído pelo fantasma de seu tataravô, um feiticeiro que foi queimado. Filmes de terror são os que envelhecem mais rápido. O que pode mantê-los vivos é seu clima e seu engenho, o medo logo se vai. Este tem algum clima de "nevoeiro com túmulos".... Price nasceu pra fazer esse tipo de canastrão do mal. Nota 4
   O CÉU MANDOU ALGUÉM de John Ford com John Wayne, Pedro Armendariz e Harry Carey Jr.
Ford ia pro deserto do Arizona. Ia com seus amigos acampar. E por acaso esses amigos eram atores e técnicos de cinema. Então ele aproveitava e fazia filmes por lá. Simples assim. Afetação zero. Este fala de 3 ladrões de banco que ao fugir pelo deserto encontram um bebê em caravana que foi dizimada. Se tornam os padrinhos desse bebê. Wayne é um dos ladrões e aqui ele mostra mais uma vez o grande ator que foi. Passa da maldade para a falta de jeito, do humor ao drama sem qualquer esforço aparente. O filme, cheio de areia, vento e muito sol faz com que nos sintamos parte do ambiente. Simples, puro, é exemplo do dominio absoluto de Ford sobre sua arte. Nota 7
   UM HOMEM CHAMADO CAVALO de Ellot Silverstein com Richard Harris
Um inglês que está caçando nos EUA de 1830 é capturado pelos sioux. Tratado com imensa crueldade, ele vai sobrevivendo e se impondo na ordem social da tribo. O filme, que é hoje um cult e que em seu tempo foi tratado como lixo, tem dois méritos: mostra a cultura do sioux sem romantizar e é ao mesmo tempo uma simples e ritmada diversão. O indio é mostrado aqui como ele era. Nada de nobre, nada de bandido. Eles possuem uma regra geral: só o que provém da dor tem valor. A vida só nasce pela dor, voce só cresce pela dor. Então o que vemos são várias cenas de auto-mutilação, sangue e a impressionante cerimônia do sol. Silverstein não está a altura de seu roteiro, dirige de forma conservadora. Mas é um filme invulgar, feito em momento ( 1971 ) de plena coragem no cinema popular. Nota 7
   SETE DIAS COM MARILYN de Simon Curtis com Michelle Williams, Kenneth Branagh e Judi Dench
Em 1955 Monroe foi a Londres filmar com o maior ator do século, Laurence Olivier. Olivier estava otimista com o filme que ele dirigiria e interpretaria, mas a experiência foi um desastre. Ele fazia parte da velha tradição inglesa de atuar, a tradição do "Vá lá e faça"; já Marilyn seguia o estilo novo, de New York, o estilo em que o ator deve se sentir o personagem, compreendê-lo, entender sua motivação. O choque se fez. A estrela falta a filmagens, se atrasa, se droga, esquece as falas. Mas ao final, em bela cena, Olivier diz que ela é uma grande estrela, nasceu para a tela, faz com que ele pareça pequeno. O filme concorreu a Oscars em 2012, perdeu todos. Michelle está ok. Frágil, confusa, cercada por bando de puxa-sacos e de pseudo intelectuais. O filme condena Arthur Miller. Já Branagh dá um show. Sua voz lembra muito a de Olivier e seus trejeitos são homenagem ao gênio de Laurence. Único senão: Olivier era bonito, Ken não. O filme cresce com sua presença. Judi Dench faz Sybil Thorndike, grande atriz que estava na filme e que entendeu Monroe. Aliás, para cinéfilos há a emoção de ver a recriação dos estúdios Pinewood e até colocaram um ator para fazer o grande Jack Cardiff, diretor de fotografia soberbo. Na vida real o filme que resultou foi responsável pelo fim das ilusões de Olivier com o cinema. Após esse fracasso ele se atiraria de vez ao teatro. Assisti esse filme algumas vezes quando criança, ele era exibido na Sessão da Tarde. Me apaixonava por Marilyn ao ver o filme e me irritava com Olivier. Eu devia ter no máximo 12 anos. Preciso o rever. Deixo de propósito de dizer que este filme é centrado no amor de um jovem diretor de terceira unidade pela estrela solitária. É uma história que dá tédio. Chatinha. O pouco dos bastidores do filme é tudo que importa. Nota 4.

NOEL COWARD, PONDÉ, ROBERTO DA MATTA, BOB GRUEN E TELMO MARTINO

   Alvíssaras! Comemorem! Dêem vivas! Noel Coward está tendo uma peça exibida em SP !!!!! Eu bem que senti que o ar de SP está um pouco mais wit. Noel Coward em cartaz é um privilégio tão sublime como ter disco novo de Bryan Ferry para ouvir. Noel é do tempo em que ser educado era objetivo de uma vida. A peça é Blythe Spirit e está no teatro que fica no Shopp Eldorado. Lugar horroroso que deve ter de súbito se tornado very classy. Essa peça, que foi filme de David Lean, trata de espirito que volta à Terra para atazanar ex-marido. Rex Harrison fazia o marido no filme. Nas telas o que eu recordo foi do colorido e das frases de Noel, uma profusão de linhas inteligentes. Humor britânico.
   O que me deixa assim assim é saber se há público na cidade para prato tão fino. Afinal, mesmo no teatro as pessoas regrediram e desaprenderam a escutar. E depois, a Inglaterra, como vimos em O DISCURSO DO REI, ainda tenta fazer peças e filmes com alguma elegância. O filme com Colin Firth, cá na selva, jamais foi apreciado como deveria. As massas preferiram o grand-guinol de segunda categoria de CISNE NEGRO e outras estultices. Bem...há quem evite o glamuroso O ARTISTA por achá-lo "dificil".... Glamour é hoje um tipo de sânscrito para o frequentador de cinema.
   Como estamos abaixo do Equador e nada aqui pode ser perfeito, Noel Coward tem em seu elenco Adriane Galisteu. Galisteu recitando Coward é como colocar Elba Ramalho para cantar Cole Porter. O encontro da buxada de bode com Dom Perignon.
   A soberba Barbara Gancia criticou Pondé na Folha. Mas Barbara é moça fina e sua critica foi apenas uma chamada à razão. Pondé se tornou um tipo de araponga de jornal. Ele grita e incomoda, mas ninguém entende o que ele fala. Eu já sabia que para a Páscoa ele mandaria algo cheio de sangue, crueldade e canibalismo. Afinal, o que ele queria dizer? Que o mundo pós-cristão é muito mais civilizado? Ora, isso qualquer intelectualzinho de barba e blusa vermelha sabe. Barbara fala que quem escreve em jornal não deveria ter uma atitude tão suicida. Pondé ataca o leitor e se coloca acima de quem o lê. Bem....Paulo Francis se colocava muito acima de quem o lia e era adorado por isso. O que me parece ser o erro de Pondé é que ele baba naquilo que redige.
   Roberto da Matta escreveu que existem obras que tomam o artista. Que quando um regente comanda uma orquestra que toca Mozart não é ele que rege Mozart mas sim Mozart que toma o maestro. Depois ele diz que até um cantor banal como Rod Stewart se torna maravilhoso quando grava Cole Porter ou Gershwin. Ora...eu tenho os cds em que Rod canta Cole e não há nada de maravilhoso lá. Como também já vi Mozart ser regido como se fora Berlioz. A grande arte só assume o comando de um artista quando ele previamente habita o mesmo endereço do autor. Rod é genial cantando folk e blues, isso porque ele vive nesse mundo. No universo do pop ninguém gravou a canção americana dos anos 20/40 decentemente. E olhe que vários tentaram, de MacCartney à Bowie e Ferry.
   Há uma expo de Bob Gruen na Oca. Bob é do tempo em que rock stars eram big stars. Suas fotos pegam a era em que o rock tinha a relevância que hoje é dada ao esporte. Se Bob fosse começar hoje e fotografasse os atuais rock stars todas as fotos teriam de ter legenda. E o visitante ganharia um Who1s Who na entrada. Bem...se começasse hoje Bob Gruen fotografaria apenas Lady Gaga. Ela em uma pose tenta imitar tudo o que Bob clicou por toda a vida.
   - Esta coluna é uma homenagem ao rei das colunas: Telmo Martino.

VOCE COLECIONA O QUE?

   Um dos temas do livro que li, de Henry James, é a mania vitoriana de colecionar coisas. Em fins do século xix se colecionava tudo e algumas dessas coleções se fizeram moda por um século. Coleções de selos, borboletas. caximbos, isqueiros, chapéus, écharpes, bengalas, gravuras japonesas, canetas, anéis, flores, posters. Essas as mais classe média, os ricaços colecionavam pinturas, esculturas, porcelana e livros raros.
   Ainda se colecionam coisas? Não era útil, de certa forma, o desenvolvimento do cuidado, do espirito de caça, da organização que uma coleção pedia e exigia?
   Penso em crianças. Até a pouco colecionava-se de tudo. Bolinhas de gude, maços de cigarro, tampinhas de garrafa, times de jogo de botão, figurinhas, soldadinhos de chumbo, miniaturas de carros raros, gibis. Não me importa a minima as razões freudianas ( Freud sempre cria razões onde elas são inescrutáveis. Acima de tudo ele era um neurótico criativo ), o que é óbvio e certo é que ao colecionar voce cria um vínculo com o mundo sólido. Voce aprende a manter, a guardar e a preservar.
  Mas é claro que nem tudo que voce tem em grande quantidade forma uma coleção. Ter milhares de dvds ou de vinis e os escutar não significa que voce é um colecionador. A base da filosofia do colecionismo é a inutilidade aparente da coleção. Um monte de discos de vinil se torna uma coleção quando:
   A- Existe a caça. Voce parte a campo para capturar o item que lhe falta. Não precisa ser um disco que voce queira ouvir, é um disco que voce deve ter para tornar sua coleção completa.
   B- A não completude. Uma coleção é sempre incompleta. Um item pede outro item que remete a um outro item.
   C- O desejo de ter não significa uma vontade de usufruir. Coleções são amostras, ficam em vitrines, são pouco usáveis.
   Já fui colecionador. De discos, de gibis, de carrinhos, e de filmes. Não sou mais. Eu comprava discos para completar coleção, hoje tudo que tenho é para ouvir e não para ter. Todos os meus filmes são assistíveis. No inicio eu ia atrás de tudo que fosse "um item que completa o acervo". Hoje só possuo o que adoro. Quem der uma olhada em minha estante vai estranhar que dentre tantos dvds não exista um só Buñuel ou um mísero Pasolini. Como disse, não é uma coleção.
   As crianças hoje fazem coleções? Não vejo isso acontecer. Bolinhas de gude, botões, figurinhas....cuidadas, preservadas, amadas...não vejo isso.
   Talvez o colecionismo fosse uma reação de um povo industrializado contra a descartabilidade. Guardar era salvar algo do fim, do lixo, do tempo. Penso que hoje tá tudo dominado, a descartabilidade venceu enfim. Se uma criança sente que seu pai, sua mãe e até ele mesmo são intercambiáveis, ele vai criar um vínculo atemporal com o que? O protesto salvacionista que nos fazia guardar uma tampinha de guaraná não faz mais sentido.
    Uma pena. Devíamos colecionar coleções.

OS ESPÓLIOS DE POYNTON- HENRY JAMES, UMA QUESTÃO DE PONTO DE VISTA

   Este é um dos livros que marca o começo da fase final de James. Sua escrita se torna muito mais elaborada, parágrafos longuíssimos, pensamentos dentro de pensamentos. Lançado em 1896, ele trata de uma mãe que ao se tornar viúva deve deixar ao filho toda a coleção de objetos que adorna sua mansão. Ela não quer legar seus objetos a um filho que é "tolo e fraco". Pior, ele irá se casar com uma jovem "ambiciosa e de péssimo gosto". Mas, entra em cena Fleda Vetch, uma amiga da mãe, moça de origem pobre, dona de bons modos e ótimo gosto, e que ama e se torna amada pelo filho "bobo". O livro trata apenas disso, da luta da mãe pelos seus bens e do amor de Fleda pelo tal filho tolo. Porém....
   A primeira coisa que ressalta é a frieza das relações familiares na Inglaterra de então. Henry James era americano, escolhera a Inglaterra para viver, mas não se fizera cego para os defeitos da vida inglesa. A lei, absurda, que dava ao filho mais velho "todos" os bens do pai lhe era odiosa. Como bom inglês de classe alta, o filho segue a lei: toma a casa e suas coisas. A mãe, que decorara a casa "com os melhores objetos artísitcos do mundo" por toda a vida, se sente roubada. A frieza entre os dois é absoluta.
  O livro é centrado no ponto de vista de Fleda. Henry James é um mestre nisso. O que vemos e sabemos é apenas aquilo que Fleda vê e escuta. Desse modo, nunca sabemos se aquilo que nos é mostrado é aquilo que de fato se pode chamar de "realidade". O grande tema de James sempre foi e é esse: a realidade vista por um único ponto de vista. Podemos confiar nessa visão? O que nos é contado é tudo o que de fato aconteceu? As emoções do personagem não poderiam distorcer aquilo que é dito? E de modo mais abrangente, a vida que nós leitores, vivemos, é real ou não seria nossa visão embaçada e pequena para um todo que jamais será percebido?
  Fleda ama ao jovem e este a ama. Ele largaria sua enfadonha noiva por ela. E a mãe dele ficaria salva se ambos se casassem, pois Fleda ama os objetos da mãe tanto quanto ela própria que os adquiriu em anos de busca. Nas mãos de Fleda todos eles seriam salvos portanto. Mas esse amor não se realiza. Há um enredamento nos pensamentos de Fleda, uma falta de decisão, medo misturado a "honra", que faz dela uma das mulheres mais irritantes já descritas por qualquer autor. Fleda erra sempre. Mente, quando deveria ousar a verdade, foge quando tinha de insistir e desiste na hora da vitória. Pior, a visão que ela tem de si-mesma é completamente tola, ela se vê como superior a tudo que a cerca, não percebe nunca seu acúmulo de erros absurdos. O amor e a felicidade, alcansáveis sem nenhum obstáculo, lhe são negados por seu próprio modo de agir e de pensar.  Fleda não se envolve, pensa ser livre e honrada, nada vê.
   A tradutora ao escrever a introdução não se contém, para ela Fleda é odiável por sua falta de visão. Já Henry James dizia ser Fleda exemplo de mulher íntegra e livre. Onde? Concordo com Onédia Célia Pereira de Queiróz, Fleda é deplorável !
   Nenhum livro de James tem parágrafos tão árduos. É dificil acompanhar os pensamentos de uma pessoa tão confusa e opaca. Fleda jamais é gostável, não admiramos nada nela. Não é inteligente, não é original, nada tem de cômico. Mas ao fim do livro, quando talvez ela tenha finalmente suspeitado da tolice que cometera ( Fleda prejudica a mãe, o filho e a si-mesma ), sentimos que ali há algo de profundamente patético, trágico de um modo corriqueiro. Então continuamos com aversão por Fleda, mas passamos, de novo, a amar a escrita desse gigante do subjetivo, Henry James.
  

AGRADEÇO A EXISTÊNCIA DE JOHN FORD ( O CINEMA DA SABEDORIA )

   John Ford crê. E esse é um dos motivos de ele ser chamado o Homero do cinema. E se voce tem a felicidade de fazer parte de seu universo, voce é feliz. Não há diretor com maior poder de regeneração. Ele te faz reviver.
   No que Ford crê?
   Ele acredita na amizade. Seus filmes sempre demonstram isso. Mas não é a neurótica amizade em que amigos ficam falando consigo mesmo. É a amizade ativa. Amigos que fazem coisas: bebem, brigam, viajam, cantam, celebram. Juntos. Amizade sem frescura, com pudor.
   Ford crê na virilidade e na feminilidade.
   Os homens em Ford são exigidos. Eles amadurecem e fazem coisas. São vastos e desajeitados. Têm humor tosco e sempre erram. Mas tentam ser Homens e às vezes chegam lá. Não são livres, eles seguem um código de conduta. São reais.
   As mulheres sentem e entendem. Não são bonecas bonitas, são fortes. Elas gritam, discutem, e acabam por mandar. Sabem como fazer e fazem sem serem percebidas. São imensas.
   Ford crê também em todos os rituais.
   No casamento como alegria da vida. Nos enterros como encontro com o mistério. Ele crê em refeições comunitárias e em festas que são reafirmações de cumplicidade. Ele acredita na comunidade, mas opta sempre pela solidão. John Ford crê em tudo que envolva tradição. Ele não joga nada fora, ele acumula conhecimento. Isso é sabedoria.
  Nos filmes de Ford existe a abundância dessa fé. Homens, mulheres e amizade. Casamentos, enterros, danças, refeições, música folk, vastidão. Todos seus filmes têm cenas assim, cenas de crença. E ele filma sem ironia e sem segundas intenções. Ele acredita no que mostra. Mas jamais é ingênuo. A gente percebe que ele pensou naquilo e que resolveu acreditar naquilo. Ele se torna dono e senhor do que filma. Um titã.
   John Ford crê em Deus. Num Deus que é pessoal, dele. E com essa crença ele filma. E isso faz com que todo herói pareça de verdade. Quando Ford filma um deserto, e ele ama o espaço vazio, o que ele filma é toda uma filosofia da fé. Porque o mundo de Ford pode estar em crise, em transição, em momento de imensa dor. Mas ele sempre parece certo, adulto, confiante, sábio. 
  Eu agradeço a existência dos filmes de John Ford.
  Às vezes amo mais a Hawks ou a Hitchcock. Às vezes admiro mais a Bergman ou a Kurosawa. Mas nenhum deles é tão quente, tão vivo, tão cheio de fé no homem.
  Triste, mas devo dizer, nenhum diretor é tão distante de nós. Seu mundo é outro mundo, sua mente nos é alienigena.
   Mas na tentativa de captar algo desse universo fordiano, na alegria de conhecer outro mundo real, nesse contato nos purificamos.
   Pode-se dizer que minha vida tem um sentido: a tentativa de conhecer o que não conheço.
   John Ford é meu pastor nesse deserto. Com seus filmes nada nunca falta.