OCIDENTE E ORIENTE, O MEDITERRANEO

2500 anos atrás. 500 a/c. O oriente grava suas impressões digitais. Penso na terrível realidade que fez com que o pensamento se engolisse e negasse a própria realidade. No oriente a vida se torna ilusão. A dor e o desejo não são reais. Em seu aspecto mais elevado esse modo de pensar nos leva a calma absoluta. Em seu pior lado nos dá a indiferença a miséria e a aceitação da injustiça. Mas estou aqui para falar do mar, do Mediterraneo, terra-água onde nasci.....
Penso agora nas maravilhas que se descortinaram aos olhos ainda virgens desses curiosos-arrogantes. A diferença entre ocidente e oriente se faz. Se eles negam a realidade e tentam chegar a paz completa, cabe a nós tentar entender o porque das coisas serem como se apresentam. Nós não negamos nada, tudo queremos saber. Em seu melhor esse modo de ser leva a criação de novos mundos. Em seu pior à ansiedade sem fim.
Mas eu penso na história de amor. Em que aqui não é mundo para misticismos. Os deuses aqui, no ocidente, são todos deuses humanizados. São Eros, Thor ou Éfeso. Aqui se vive com o porque da filosofia. Não com o "assim é" do oriente. A religião aqui é fraca, pois não são o judaísmo e o cristianismo também orientais?
Cultua-se o oriente como se lá existisse o segredo da paz. A luz da verdade. O budismo nasce, belo sim, como luz, ou como negação da dor fingindo-se não existir? Se eu fechar os olhos o lobo deixa de existir. É essa toda a sabedoria? Se a vida é ilusão e se o desejo é o mal então para que viver? Para se apurar a alma? Deixar de encarnar?
Enquanto o oriente fecha os olhos os gregos pegam as coisas e as observam de perto. O que é isto? Não posso deixar de amar o oceano Mediterraneo, berço de paraísos. Se os orientais procuravam negar a enchente do rio, o tigre feroz e a fome que mata, cabia aos gregos entender o que é a chuva, o que é ser um homem e como diminuir a fome. Não posso deixar de amar esse mundo ocidente, feito de um mar mediterraneo para um atlantico. Mundo barco, mundo navio, esse Prometeu que rouba fogo de um deus, esse mundo que não nos dá paz, trégua ou alivio, mas que nos deu Beethoven, Shakespeare e Kant.
Pois aquele grego jamais fechou seus olhos. Tentou ver a beleza na vida e entender o porque da dor macular tanta luz. A história do ocidente é um navegar eterno e no oriente se medita e se ora. Nós aqui comemos até explodir, olhamos até cansar e falamos até morrer. Tínhamos de criar o amor e tínhamos de navegar até descobrir ainda mais ocidente. Nós temos sempre de ir. Não nascemos para estar.
Já senti a felicidade oriental e é ela como um morrer, um concluir, um fundir.
Mas a felicidade ocidental é um gozo espiritual, um resplandecer de força, um riso imenso, um irradiar de poder. É todo corpo. É aqui. Dionisio e Apolo.
Sou grego e no mar mora minha dor. Nasci assumindo todo pecado do passado e orando para deuses que são homens. Quero ver, quero ser, quero a eternidade. Eu desejo todo o tempo. Se a miséria existe faço dela poesia. Se a dor bate canto sua sina. E o que não entendo penso.
Porque sou portugues da beira do oceano e me joguei ao fundo onde achei um mundo. Não medito, crio.
Do ocidente filho. Mito.

ANTHONY MANN/ RESNAIS/ DEMY/ TOURNEUR/ ALEC GUINESS

ERVAS DANINHAS de Alain Resnais com André Dussolier e Sabine Azema
Surpreende a jovialidade de Resnais. Da turma dos pra lá de 80 é ele o que mais ousa. Plasticamente este é bastante nouvelle-vague. Mas está longe do ótimo Medos Privados ou do excelente Amores Parisienses. De qualquer modo, eis um cineasta! Nota 6.
MÚSICA E LÁGRIMAS de Anthony Mann com James Stewart e June Allyson
Na história do cinema americano, dois diretores foram terrivelmente subestimados: Dassin e este Anthony Mann. O homem fez policiais, montes de westerns, épicos e esta bio de Glenn Miller. Uma bio exemplar. Cheia de liberdades com a história, mas jamais traindo o espírito da arte do biografado. De modo leve e colorido, acompanhamos o incio de Miller, seu casamento feliz e o hiper-sucesso. Há uma cena com Louis Armstrong e Gene Krupa em boteco de jazz que é sensacional. Stewart em mais uma aula de simpatia e atuação relax. Nunca perde o tom. Nota 8.
LOLA de Jacques Demy com Anouk Aimée
É bela a França de 1960 com seus carros pequenos, os ternos e vestidos com chapéu e suas meninas bailarinas. Mas há algo de muito flácido neste exercicio de otimismo de diretor "delicado". Na história de prostituta que espera o retorno de seu grande amor, Demy homenageia Ophuls sem jamais chegar perto da leveza do mestre austríaco. Destaque aqui para bela trilha sonora de Michel Legrand e a fotografia brilhante e livre de Raoul Coutard. O filme embaralha finais felizes, mas falta sinceridade e força. Nota 5.
REDE DE INTRIGAS de Sidney Lumet com Peter Finch, William Holden, Faye Dunaway
Forte. Um roteiro irado de Paddy Chayefski joga na tv todo o fel possível. A mensagem é simples: violencia vende. O filme ganhou Oscars para Finch ( póstumo ) que está soberbo como o âncora que enlouquece, e para Faye, hilária como a ambiciosa diretora de programação. É uma excelente diversão e um filme soberbo. 120 minutos de pura raiva e de nenhum mal humor. Nota 9.
AS OITO VÍTIMAS de Robert Hamer com Alec Guiness, Dennis Price e Joan Greenwood
O British Film Institute elegeu esta comédia negra um dos dez maiores filmes ingleses da história. Não é pra tanto. Tem atuação inspirada de Guiness ( fazendo oito papéis diferentes. Foi ele quem inventou essa coisa que Eddie Murphy adora fazer ) e tem bons diálogos. Mas o assistindo reparamos no porque do pessoal do Cahiers ( Truffaut, Chabrol, Godard ) desbancar tanto o cinema inglês da época. Não há o menor sinal de criatividade na direção, não há um take arrojado, uma tentativa nova, nada. Hamer posta a câmera e deixa os atores recitarem suas falas. Felizmente eles são excelentes. Mas falta vida a este filme "chá das cinco". Nota 6.
MEU CACHORRO SKIP de Jay Russel com Freddie Muniz, Kevin Bacon, Diane Lane e Luke Wilson
Diane é linda que dói. Cada close em seu rosto é uma declaração de amor. E temos aqui um filme "de cachorro" muito acima da média desse tipo de filme. Nada de cães que falam. O filme é lacrimoso e engraçado e quem adora cães deve assistir. Como cinema é novela bem fotografada. O cachorro é rei de simpatia. Nota 6 para o filme e 10 para o cão.
A MORTA VIVA de Jacques Tourneur
No inicio dos anos 40 Val Lewton, produtor da RKO, lançou uma série de filmes baratos de horror. Na verdade não são de horror. São peças de estilo, filmes de clima, soturnos. Este fala de Voodoo em ilha tropical. Tem até macumba. Tourneur sabia dirigir de tudo. Este é divertido exemplo de cinema hiper-popular que guardava momentos de invenção. Nota 6.

O INFERNO DO BUDISMO

Passaram-se 2500 anos desde que Sidarta Gautama esteve entre nós. É bom recordar isso, pois nunca estivemos tão distantes do que ele disse. O mundo, dia a dia, se torna cada vez mais a imagem daquilo que Buda chamava de Inferno. Um mundo onde o desejo é o único rei.
Todo cara metido a intelectual já namorou o budismo. E intelectuais verdadeiros também. Desde Schopenhauer, passando por Wagner e Hesse, todos sentiram fascinação pelo milagre mental executado por Gautama. A criação de uma religião sem qualquer tipo de Deus. Que sequer fala de paraíso ou inferno, que nega a individualidade, e que em sua forma verdadeira, não fala sobre imortalidade. É o ponto máximo do pessimismo humano. Mas estranhamente, dentro desse pessimismo é a única forma de paz absoluta que conheço.
Após a morte de Buda ( e ele morreu em nirvana. E morrer em nirvana significa nunca mais encarnar. E nunca mais encarnar significa o bem supremo : deixar de existir. ) seus seguidores deturparam tudo o que ele pregara. No Japão criaram até mesmo deuses budistas, o que é a negação do próprio budismo ( como ser desapegado se apegando a um deus ? ). Mas isso ocorreu com todas as religiões. A transformação de um caminho individualista numa forma de politica. Mas vamos ao inferno e ao céu.
Buda descobriu algo que considero extremamente ousado. Toda a infelicidade humana vem de desejos não satisfeitos. Mas é próprio do desejo o ser insaciável. Portanto a vida consiste na infelicidade de desejos jamais saciados. E todo desejo é uma ilusão. Nenhum desejo pode salvar sua alma da dor, da fome e da morte. Correr atrás dos desejos, obedece-los é emaranhar-se em armadilhas, viver na mentira, naquilo que não dura. Pois o desejo é finito. Como vencer a ilusão? Como ser livre? Negando o desejo. Ignorando-os. Vivendo para aquilo que independe de querer, de procurar, de ansiar. Tudo o que está fora do mundo de espaço e tempo, o que é para sempre e constante, a verdade.
Buda bate de frente com o freudianismo em que vivemos. Para ele o mal não é a repressão do desejo. O mal é a escravidão a carne e ao desejo, o depender de coisas e de seres. Mas observe: o não-desejo budista é ato consciente. Não é medo do mundo real, é a transcendencia. Jamais sintoma ou fuga, antes, abandonar-se suavemente à vida.
Voce sabe que vivemos no império do tempo e do desejo. Ser feliz é satisfazer desejos e ser livre é ter tempo. Tudo ilusão. O desejo satisfeito não existe. O tempo não existe. Satisfazer um desejo é saciar coisa transitória. Ter tempo é ter coisa alguma. Mas o que o budismo nos dá?
Estranhamente ele nada nos dá. Para o budismo não existe recompensa. Voce segue o bom caminho ( não matar, não se iludir, não guerrear, não comer carne ) e talvez ganhe como recompensa o não existir. É preciso então dizer o que é a reencarnação budista.
O que reencarna é a vida, não voce. Nada daquilo que voce é ou faz pode sobreviver. Porque são coisas ilusórias, existem no mundo do desejo. A fagulha de vida que é parte do universo é que reencarna. Se voce for ruim, esse seu tesouro volta como bicho. Pois para o budismo, o animal é o ser completamente preso. Um bicho não tem opção. Viver para ele é viver no desejo e na ilusão. Fome, cio e medo. É uma visão do bicho bastante anti-Disney. Os animais não são bons ou ruins, são escravos de seu instinto. O homem pode ser superior a isso. Ou não.
Buda teve a coragem de enxergar que tudo termina em ruína. Que seremos trapos envelhecidos, que sempre sentiremos dor e que tudo o que fica de nossa brilhante passagem são cinzas e vazio. Mas sua intuição genial foi a de entender que tudo isso não tem valor algum. Se viver é uma miséria então viver não é tão importante assim. O que importa é o que está fora da vida e da morte, e isso não pode ser falado ( palavras são vãs. Budismo é religião sem discurso ). Nirvana.
Não sei se já tive alguma fagulha de experiencia budista. Mas sei, por experiencia própria, que a felicidade genuína só existe em solidão. Para ser feliz voce não pode depender de alguém ou de alguma coisa. A felicidade a dois é felicidade que depende, que possue, que é sempre insegura. Que vai acabar. A felicidade com o eterno ( que não é deus nem algum santo ) é para sempre. Não depende de tempo, de lugar, e atenção: nem de voce mesmo. Ela é o momento em que voce deixa de ser voce, em que voce se desvanece.
Atingir esse estado com droga ou ação é depender de coisas. O estado de bem-viver estará preso a droga ou a ação, voce será escravo. Ele deve nascer de dentro de voce, do além de voce, do nada vazio que há em nós, do absoluto zero. Onde não há desejo, tempo, vontade ou imagem.
Eu já vivi vislumbres disso. Em tempo de absoluta solidão. De total falta de dinheiro. De nada para fazer ou planejar. Em que o risco da depressão era constante. Mas foi momento em que consegui ir além da tristeza e da dor. Em que o nada querer e o nada fazer se transformaram em existir. Em que percebi a imensa insignificancia de meus desejos, de minha vida, de todas as vidas, de todo o universo. Em que vi a pequena ilusão de tudo aquilo que parece importante, no caminho cheio de estridencia e bobagens que trilhamos. Vendo tudo isso me deparei com o desespero e o puro cinismo. Mas voce o supera com o budismo. Porque voce percebe que mesmo o desespero e o cinismo é um nada. Voce os ignora.
Há pouco espaço para o amor em Buda. Amor é paixão e paixão é escravidão a um outro. Mas há lugar para compaixão. Nasce um sentimento de respeito ao que importa, e a vida de tudo e de cada um importa, pois todos estão empenhados em transcender a miséria do desejo. A maioria de forma errada. Mas voce também. Um budista não irá te consolar ou te erguer do chão. Ele também não tentará fazer sua cabeça ou se aproveitar de sua fraqueza. Ele seguirá seu caminho e esperará que voce siga o seu. Ele nada tem de cristão.
Apesar de não comer carne e de ser desapegado de amigos, estou tão longe do budismo como voce está. Sou escravo de conforto, de boa comida e de mulheres bonitas. Aliás, sou escravo de tudo o que é bonito. Sou amante desta vida. E temo terrivelmente a morte. Mas já senti, com uma certeza rara, que Buda está certo. Que existe uma paz absoluta onde cessa tudo. E que este mundo é um absoluto engodo.
Sincera e lentamente eu sinto que minha vida caminha para o caminho amarelo. Mas os objetos são muitos e eles me atrasam. Mas eu vou chegar lá. Um dia.

REDE DE INTRIGAS ( NETWORK ) - SIDNEY LUMET

Logo após uma obra-prima chamada UM DIA DE CÃO, Lumet lança em 1976 seu filme para Oscar : NETWORK. Leva os prêmios de ator ( póstumo, para Peter Finch, ator inglês que está impressionante ), atriz para Faye Dunaway e roteiro, para Paddy Chayefski. E numa das maiores zebras do prêmio, perde filme e direção para Rocky, Um Lutador e John G. Alvidsen, o diretor do filme de Stallone. Hoje eu finalmente assisto Network e sou dominado pela força irada e hilária desse propositalmente exagerado filme que bate forte na tv.
Lumet e Chayefski começaram trabalhando em tv. E como todos de sua geração, acreditavam que a tv se tornaria cada vez mais sofisticada, fazendo com que a cultura se tornasse acessível a todo o planeta. Exatamente o que se pensava da internet. Os dois piraram quando viram, principalmente a partir dos anos 70, no que ela se tornou. Os presidentes do veículo, que viviam só para sua empresa, e que ainda tinham algum idealismo, sendo substituidos por grandes conglomerados de acionistas, que nunca pisavam na empresa e queriam apenas o lucro rápido, custe o que custar, para poder vender as ações e saltar fora.
O filme conta a história de âncora veterano que é demitido. Ao se despedir no ar, ele surta, e diz que irá se matar ao vivo na terça seguinte. A direção da tv enlouquece e lhe dá bronca. Mas o diretor é seu amigo e deixa ele ir mais uma vez ao ar para se desculpar. Dessa vez ele faz um discurso irado, expressa a raiva e a impotencia dos americanos e pede para que todos corram a janela e gritem. Numa bela cena vemos as pessoas gritando nas janelas. Está construído um campeão de audiência. Vemos pelo resto do filme, esse ex-ancora e atual profeta, enlouquecer cada vez mais, até ser morto ao vivo. Peter Finch faz esse insano com humor e entrega, e nos dá uma das mais espetaculares atuações do cinema. Morreu do coração pouco antes da entrega do Oscar, já favorito, e venceu. Mas há mais.
Faye Dunaway faz a nova diretora de programação. Uma ambiciosa mulher de negócios, sem vida pessoal, que se envolve com o velho amigo do tal profeta. É hilária a atuação de Faye. Ela revira os olhos e goza quando fala em cifras, transa falando de programação e foge alucinada de tudo que seja vida real. William Holden faz o veterano de tv que se envolve com ela. Um observador da loucura dela e do profeta. Ele tem uma frase genial : - Ela é da geração que aprendeu a viver com o Pernalonga.
Robert Duvall faz o novo chefão de departamento. Consegue dar nuances à um personagem que é repulsivamente frio. A cena em que ele perde o emprego é de antologia.
Assistimos o enlouquecimento não só do profeta, mas da própria tv. Faye negocia com grupo terrorista e lança A HORA MAO-TSÉ-TUNG. E ao final vem a transmissão da morte ao vivo.
O filme exagera. Mas se minha geração foi educada por Kojak e Flintstones, a geração que hoje tem 30 foi criada por Xuxa e Jaspion e a atual cresce com filmes pornô na internet ( onde se vê gente defecando e pisando em ratos vivos ). William Holden diz que noventa por cento da população só conhece a vida via tv. Não lêem livros ou jornais. O que a tela mostra é sua única regra de comportamento, sua educação.
Em 1976 ainda se discutia isso. Hoje sabemos que o jogo foi ganho de goleada pela tv. A internet segue seus passos. Do veículo de cultura que se imaginava nos anos 90, se tornou rede de fofocas, sexo, violencia e jogos. Vivemos pautados pela tela. Nos interessa só o que passa por ela. O resto não existe.
Paddy Chayefski constroi um roteiro exemplar. Ainda não conheço filme tão bom sobre a tv e noto que o estilo visual de todos esses filmes tipo George Clooney é decalcado deste NETWORK.
Obrigatório !

THERE'S A RIOT GOING ON- SLY AND THE FAMILY STONE

Sly explode em 1968 tomando de assalto as paradas dos EUA com uma mistura de funk com soul e psicodelismo. Sua música, alegre e otimista, dançante e viajante, pregava um novo mundo, mundo onde brancos, negros, mulheres, chicanos e indios viveriam em completo estado de fun. Sua banda era um grupo que exemplificava essa afirmação. Negros e brancos tocando juntos, com um batera mexicano e duas mulheres, uma delas no trompete. Em 1969 eles estão no auge, roubam o show em Woodstock e lançam TRÊS !!!! albuns e conseguem TRÊS!!!! Primeiros lugares.
Mas vem 1970 e tudo muda. Sly se tranca em estúdio, gasta uma fortuna em mixagem, descobre os gigantescos e complicadíssimos sintetizadores da época, enche-se de cocaína e torna seu som uma coisa muito menos fun e tremendamente soturna. Lança no fim do ano THERE'S A RIOT e consegue mais um primeiro lugar. Mas é o começo do fim. Vamos ao som.
Primeira impressão. A mixagem é tão diferente, torta, quebrada, que voce vai achar que o disco tem algum defeito. Os instrumentos surgem e somem, o volume varia, os agudos crescem, a bateria quase desaparece, o baixo está alto demais. E o vocal não é vocal. É apenas grunhido e gemido. Bateria eletrônica e muito teclado. E o baixo de Larry Graham, aqui inventando o snap.
Ele é todo dançante e a segunda coisa muito estranha é que ele não tem época definida. Dizer que ele é do tempo de Let It Be ou Let It Bleed é muito estranho. Ele parece de outro tempo. Qual ?
Se EXILE ON MAIN STREET é o disco de rock que toda banda tem de um dia enfrentar, RIOT é o disco que todo artista negro traz como charada em sí. De James Brown a Prince, passando por grupos de rap e cantores de r/b, todos tentaram seu RIOT. É o rito de passagem , o ficar adulto, o se mostrar multi-facetado, e é, sempre, o começo do fim. Todos eles quando fizeram seu RIOT de certo modo, se esfacelaram a seguir. Quando não, terminaram ( Outkast é bom exemplo )
Luv'n haight abre o disco e nela voce já vê a quebradeira e o baixo mandando. Sly grita e geme e grunhe e berra. Nada no disco é canção. Pode-se dizer que é voodoo elétrico. Isso define o disco, ele é tão elétrico que dá choque.
just like a baby é puro sexo. Uma transa molhadaça em lençóis sujos. Sly mia aqui.
poet é das coisas mais lindas da história do gênio humano. O som divaga dentro de seu próprio som e atinge uma introspecção coltraneana. Ouvir isto é morrer um pouco.
family affair é momento de falsa alegria. O disco é de ironia.
asphalt jungle é o som dançante "do futuro". Quanta gente do rap já bebeu aqui ? Um auge de música negra ( mais um ) numa sequencia de faixas que é o auge dos auges.
brave and strong é uma afirmação. Seus ouvidos já se acostumaram com o som anguloso e quebrado. Agora, aqui, é tudo dança. A banda, a melhor das bandas de qualquer cor, está tão afiada que chega a aturdir.
smilin' é doce como veneno. Repare no baixo e tome consciencia : o disco quase não tem bateria!
time é pra se derreter. Hino das cenas dionisíacas de minha vida, abraço de paixão, é triste triste triste. Sly se lamenta, sai do tom, geme atravessado, nunca está cantando. Ele está em perigo sempre.
spaced cowboy é isso. Doidona. LSD hilário e gozação chapada. Dá pra ver que eles se divertiam, mas dá pra ter certeza : o fim está chegando.
runnin away é pausa que refresca.
thank you é o fim. Leio que é a descrição de uma morte a bala. É hipnose. É para nunca se esquecer. Uma longa dança de feitiço, uma orgia solitária, assassinato do Sly original, disparo de revólver. Uma comunhão de baixo e teclado com vozes alucinadas que levam seu cérebro e seus quadrís ao desencontro. Você DANÇA!
Este disco é Public Enemy, é acid music, é rap, é Red Hot Chili, é Massive Attack, Prince, Guru e Outkast. È um de meus top five e é prova de que dá pra ser genial e ainda assim nunca ser chato ou pedante.
Depois deste disco Sly continuou lançando discos. Mas, com o cérebro frito pelo pó, nada mais era sombra ao que ele fizera. Vai ter mais um come back dele neste verão europeu. Reverenciá-lo é obrigatório. O cara não tem rival.

MAX OPHULS/ RIVETTE/ HOMENS QUE ENCARAVAM CABRAS/ MARGARET SULLAVAN

AMEMOS OUTRA VEZ de Edward H. Griffith com Margaret Sullavan, James Stewart e Ray Milland
Acabou de sair em dvd e já se esgotou. Vários milagres ocorrem neste filme. É um melodrama que nunca se torna piegas. Tem uma atuação de Margaret Sullavan que é pura feitiçaria : ela atua sem jamais parecer atuar. Ficamos comovidos com a naturalidade de suas falas e de seu gestual. Toda a vulnerabilidade exposta. Antológica. Stewart e Milland estão muito bem, mas são ofuscados pela atuação histórica de Sullavan. O filme trata de um casal. Ele é jornalista, ela é atriz. O amor os une, mas o que os une é apenas o amor. O filme mostra que isso é pouco para fazer deles um casal feliz. Eles se casam, mas a vida os separa. Raramente o cinema foi tão adulto e muito mais raro é mostrar os desencontros da rotina destruindo o amor. Apesar do final precipitado ( o filme tinha de ser mais longo ) é uma obra-prima. Ao final voce carrega o filme dentro de seu peito. Atenção : ele jamais ameaça fazer chorar. Mas nos toca de forma mais profunda. A cena do reencontro ( mais um ) é de antologia. Sullavan foi uma gigante. Nota DEZ!!!!!!!!!!!!!
HOMENS QUE ENCARAVAM CABRAS de Grant Hesley com George Clooney, Jeff Bridges, Ewan McGregor, Kevin Spacey
Filme de doidão. É uma tentativa de se fazer um filme dos anos 70 em 2010. Claro que foi um fracasso. Os atores estão excelentes, mas essa sátira à guerra, sobre batalhão de soldados psíquicos naufraga na falta de estilo e de ritmo. Algumas boas idéias não salvam o filme da chatice geral. Nota 2.
A BELA INTRIGANTE de Jacques Rivette com Michel Piccoli, Emmanuelle Beart e Jane Birkin
De todos os diretores da nouvelle vague Rivette é o mais chato. Este premiado filme leva tres horas e meia para mostrar um pintor pintando uma menina nua. Claro que o filme fala sobre o processo de criação, sobre as relações de homem/mulher, sobre a inspiração. Mas pra mim, é um pretesto para se exibir Beart nua. Emmanuelle Beart é a atriz mais bela dos anos 90 e o filme exibe isso sem nenhum pudor. É o que ele tem de melhor. No mais, pincéis, taças de vinho, belas casas de campo, e conversas desinteressantes. Emmanuelle é linda. Nota 3.
ÓDIO NO CORAÇÃO de John Cronmwell com Tyrone Power, Gene Tierney e George Sanders
Se Beart é a mais linda atriz dos anos 90, talvez Gene Tierney seja a mais linda de sempre. Cada close dado em seu rosto exótico ( ela tinha sangue chinês e americano ) provoca a certeza de que a beleza é mesmo para sempre. O filme, em seu estilo perfeito, fala sobre garoto injustiçado, sua fuga da Inglaterra e a fortuna conseguida nos mares do sul. Termina com julgamento e vingança. É o filme popular com história, o filme povão que nunca apela, o filme que satisfaz o cara que procura só um passatempo e diverte o cinéfilo. Tipo de cinema industrial do qual sinto falta. O filme que tem ação e romance, bom roteiro, produção cara e atores de carisma imorredouro. Foi isto que fez de Hollywood mito. Relaxe e goze. Nota 8.
CORAÇÃO PRISIONEIRO de Max Ophuls com Barbara Bel Geddes, Robert Ryan e James Mason
De vez em quando um diretor do passado se torna moda. Junta-se ao panteão dos intocáveis ( Bergman, Kurosawa, Welles, Wilder... ) algum diretor mais ou menos esquecido e se começa a divulgar sua genialidade. Nos anos 70 foi Ozu, nos 80 Michael Powell, nos 90 Melville e agora é Ophuls. Interessante notar que é sempre um ou mais diretores que chamam a atenção para o diretor quase esquecido. Ozu por Wenders, Powell por Scorsese e Coppolla, Melville por Tarantino. Max Ophuls, alemão que fugiu do nazismo e fez uma série de filmes na América, depois retornando a Europa, é amado por Todd Haynes e Baz Lhurmann. O estilo Ophuls está presente explicitamente nos dois. Os filmes de Max são femininos. Há um cuidado com vestuário e cenário, um modo de movimentar a cãmera em ritmo de melodia, uma atenção a sentimentos não ditos, uma delicadeza encantadora. É um cineasta que expressa frustração, raiva engolida, tudo aquilo que deveria ter sido e nunca foi. Estranho observar que a vida de Ophuls foi exatamente como seus filmes, frustrante. A história fez com que seu talento se perdesse. Pois ao contrário de Billy Wilder ou de Fritz Lang, Max jamais se adaptou aos EUA. Este filme fala de um milionário louco que se casa com moça vulgar e carreirista, apenas para contrariar seu analista freudiano. Sabemos que Ophuls tentou trabalhar com Howard Hughes. Sabemos que Hughes o humilhou. E vemos Robert Ryan em 80 minutos fazer um Howard Hughes com a complexidade que as 3 horas de Scorsese e Di Caprio não atingiram. Ryan mostra um homem cruel e sádico, torturado e muito isolado. O filme também fala do amor ao dinheiro ( ela quer crer que o ama, mas ama apenas seu poder ) e não a toa, a primeira imagem deste brilhante drama é a de Barbara, em apartamento pobre, vendo os anúncios da Harpers Bazaar. A câmera de Ophuls se mexe todo o tempo, atravessando paredes, subindo ao teto, dando closes e planos gerais. E nunca nos sentimos incomodados por isso, mal o percebemos. Este filme foi fracasso na época, hoje está justiçado. É um belo drama. Nota 9.
SANGUE NA LUA de Robert Wise com Robert Mitchum e Barbara Bel Geddes
Western de sombras escuras que fala de disputa por gado e terra. Mitchum é o pistoleiro que muda de lado. Wise dirigiu de tudo : musicais, comédias, sci-fi, terror, guerra, filme de espiões, romances. É dele A Noviça Rebelde, Jornada nas Estrelas e West Side Story. Fez tudo muito bem, mas nunca com genialidade. Este é um western impessoal. Dá pra ver, nunca aborrece, mas se esquece em seguida. Nota 6.

OSCAR WILDE - TEATRO

Entre 1880 e 1910 o homem atingiu seu ponto de maior brilho. Se preciso lhe explicar o porque, é sinal de que voce não faz idéia do que seja brilho ou homem. Não faz mal, voce tem sobrevivido mesmo assim.
Para todo o mundo fora das ilhas britânicas, Oscar Wilde é o autor de Dorian Gray e de alguns contos simbolistas. Para os ingleses ele é o autor de teatro mais amado após Shakespeare. Esse fato mostra a diferença entre a Europa e a ilha.
Como contista e autor de Dorian, Wilde é muito bom. Às vezes fascinante. Como autor de comédia teatral não tem igual.
Acabo de ler SALOMÉ, O MARIDO IDEAL e A IMPORTÂNCIA DE SER PRUDENTE. Me calo sobre Salomé. Drama poético enfadonho. O Marido Ideal já é Wildeana. Prudente é uma obra-prima.
Oscar Wilde foi um superstar antes do rádio e do cinema. Fazia tours pelo mundo onde se exibia em teatros repletos. Conferências e palestras sobre arte, estilo e poesia. Foi o primeiro artista a dizer que sua arte era secundária, sua obra-prima era sua vida. Todos hoje tentam ser Oscar Wilde. Ninguém sabe como ser.
Ele pregava o esteticismo. A beleza como bem supremo. Sendo belo, tudo é desculpável. Nada tem mais profundidade que a aparência. A arte deve ser bela. Não necessita de moral, filosofia ou sentido. Ao artista compete produzir beleza.
O pintor James Whistler seguia seu credo. Sua obra e sua casa ( e sua aparência também ) são esteticismo puro. O ilustrador Aubrey Beardsley ( que tem desenhos soberbos reproduzidos em Salomé ) é de uma sofisticação estética imbatível. Mas foi Oscar o papa arauto desse credo.
1880/ 1910 é tempo de auge humano porque é época em que as classes dirigentes do mundo possuíam o máximo de educação. O povo tinha uma educação grotesca ( como continua tendo ) mas os ricos e poderosos estudavam em escolas exclusivistas, exigentes e muito duras. O mundo atingiu seu apogeu porque nossos líderes eram muito bem educados. Ler os discursos de politicos da época, sejam ingleses ou brasileiros, americanos ou egipcios; e ler o que senadores e ministros falam hoje, é observar o nivelamento sob o mínimo que o século XX trouxe. Tempos POP jamais produzirão Churchill ou Roosevelt. Devemos nos submeter a Berlusconi e Lula.
Não ficarei citando as frases que cintilam em Prudente. A peça mostra a classe privilegiada fazendo absolutamente nada. O humor nasce da falta de sentido em tudo o que é falado, no inesperado em que corre todo diálogo, na leveza borboletante de sua ação. Toda a comédia mais brilhante do cinema tentou ser Wildeana.
Os melhores ingleses ( e sei que Oscar era irlandês ) pensam ser Wilde. Eles gostam de se imaginar como borbulhantes espirituosos, desajeitados romanticos, introvertidos poetas. Como estrelas esnobes e faiscantes estetas decadentes. Mas ninguém, nem mesmo Waugh ou Wodehouse, conseguiu se aproximar da absoluta maestria de Wilde em escrever sobre absolutamente nada.
Ler A IMPORTANCIA DE SER PRUDENTE é como assistir MY FAIR LADY : aula de bem-viver.
Oscar Wilde é total e irresistivelmente prazeroso. Nesse enredo de dois amigos que vão ao campo para propor casamento a duas mocinhas adoráveis, somos convidados a amar o cinismo, a mentira, a falsidade, o interesse e a frieza. Desde que tudo seja feito com tato e gosto, tudo é permitido. Ao fim do texto concordamos com Oscar. Se bem dito, o revoltante é inebriante.
De Wilde, nestes tempos Wildeanos, se pegou o menos perigoso. O culto ao star, a fé de que maior que a obra é o artista, e uma afetação esnobe. Mas se esquece que tudo isso vinha com a genialidade de se unir idéias contrárias e fazer nascer uma nova verdade, o humor fino que é feroz mas é sempre elegante, a construção de trilha de ironia e de ambição.
Ele só foi possível em mundo otimista. Aplaudir ao divino Oscar é nossa devoção.

CONTEMPLAR

... parou e observou que sobre as nuvens deveriam viver deuses. Isso enquanto suas ovelhas pastavam e seus peixes secavam ao sol e no sal. Contemplando a vida, desperdiçando seu tempo, ele sentia a sublimidade de tudo, a sua própria atemporalidade.
O espírito cresce enquanto olhamos sem desejar nada, no momento em que deixamos o olhar vagabundear pela vida. Nossa visão lambe as coisas da vida e elas passam a responder, falam com nossa alma que folga na vida.
Heidegger diz que isso se perdeu. O mundo quer, hoje mais que nunca, que nosso olhar veja apenas o objetivo, o que interessa, o trabalho que é útil. Então voce nem percebe a árvore que caiu ou o prédio sem razão. Voce apenas olha objetivamente : uma vaga para seu carro, o relógio que corre e um corpo que acende seu desejo. Voce passa pela vida penetrando nas coisas, comendo as coisas, querendo as coisas e se transformando numa dessas coisas. E será comido, querido, penetrado e transformado.
Se contemplamos somos contemplados. A onda se torna nós, o sol se torna nós, o vento se torna nós.
Mas o patrão quer que voce deixe de ser bobo. Deve produzir e quem produz nada pode contemplar. No século XVIII voce começa a ser obrigado a não contemplar mais, no século XIX voce luta por contemplar, tenta reverter a história, no século XX voce perde o dom da contemplação. No XXI voce não se lembra mais do que seja isso. As nuvens perderam seus deuses e agora essas nuvens nem mais existem em sua vida. Foram embora.
Não se contempla uma lâmpada. Não se contempla uma TV. E nem a tela do computador. Mas se podia contemplar a chama da vela, a janela da casa e uma página em branco. Voce olhava a chama e via sua saga de amor, e pela janela entendia a rua e a cidade. A página em branco lhe fazia dialogar com sua alma. Não existe contemplação na eletricidade. Só é possível a ação. O trabalho.
É necessário o resgate desse dom que é nosso maior tesouro. Mas nunca olhar um jardim com hora marcada ou ver o mar como possibilidade de se fazer algo. É preciso vagar a vista pela vida, ver o que não se pensou querer ver, deixar o olho levar a mente a perceber.
Nossa arte nada contempla mais. A pintura tornou-se discurso e o cinema é parque de diversões. Tudo é eletricidade que nos leva ao trabalho físico, ao esgotamento, a pressa.
Cesse a atividade e olhe a pedra ou um pente no banheiro. Observe o desenho do azulejo e o movimento da cortina ao sol. A rachadura no cimento pode ser a chave para algum novo caminho. O homem se fez assim : olhando/contemplando o mundo e vendo por trás de tudo um outro mundo. Filosofia, religião, arte.
Nunca precisamos tanto de poetas.

SATURDAY NIGHT FEVER ( NADA FOI MAIS ODIADO, PORQUE SERÁ ? )

Em 1977 tivemos o punk, com seu ódio a Yes/ Floyd e Led. Mas quem ouviu Sex Pistols e Clash sabe : punk era/é rocknroll. São guitarras altas e vocal macho cuspindo rebeldia sincera ou não. A turma da velha-guarda ( que tinha só 28/30 anos ) se ressentia do punk, mas o entendia.
Em 1977 tivemos a disco music e aí é que a coisa pegou. Em todos esses anos eu nunca mais ví nada em música ser tão odiado. Nem funkdorio ou axé foi tão perseguido pelos "inteligentes" roqueiros sinceros. Queimavam-se discos de discoteque em estádios, faziam-se protestos, festas anti-disco, discos contra a música dançante.
Porque ?
Eu lembro que adorava Led/Stones e Rod. Portanto deveria odiar a disco. Mas eu sentia que alguma coisa não estava certa. Algumas músicas eram muito boas e era tudo tão divertido ! Demorou para que eu percebesse o que se passava : o libertário e jovem rocknroll se aburguesara. Ele odiava a disco por ser coisa de preto/pobre/gay e inculto. Tudo era preconceito.
Rock era guitarra e dor. Disco era ritmo ( feito por montes de instrumentos ) e prazer.
Rock era branco e inteligente. Disco era mestiço e alienado ( era ? )
Rock cantava desejo como violencia e machismo. Disco cantava desejo como frescura e festa.
E o principal : pela primeira vez surgia uma música pop e jovem que não era filha dos velhos caras do blues e do folk, ela nascia do gueto chicano, da favela do Harlem, de Miami. Toda a raiva roqueira era a raiva do filho mais velho que vê o irmão caçula ignorá-lo. Ao contrário dos punks, que ao "odiar" o rock lhe davam valor, a disco ignorava-os.
Assiti o filme de John Badham oito vezes no cinema. Matando aula com amigos no Gazeta ( devo ser do tempo de Ramsés...fomos de carona !!!! Pedíamos carona na rua, e conseguíamos ! ) com minha mãe no Cal-Center, no Iguatemi sózinho, com os mesmos amigos no Gazetão.... cheguei a decorar os diálogos e na sala as pessoas se levantavam e dançavam durante as cenas de dança.
Sim, eu sabia todos os passos e cheguei a ter meu colete branco, a calça com vinco, o paletó de lapelas largas, a corrente de ouro no peito de camisa aberta... Ficava horas me preparando para sair. E com o cabelão de fã do Led Zeppelin !!!!!
Porque eu tinha esse problema : via o filme de Travolta oito vezes mas continuava ouvindo Sabbath e Johnny Winter. E detestava o conformista John Travolta, o moleque que destronara Steve McQueen, Redford e Pacino.
O sucesso de filme e disco foi avassalador. Durante dois anos só se falava nisso. Os críticos ignoraram tudo. Na época crítica e bilheteria eram coisas distintas. Hoje o filme seria indicado a prêmios e levado a sério. Na época não. Filme pop tinha de ser filme ruim.
E música pop tinha de ser lixo. Será ?
Em 1980 já falavam que a disco estava morta e esquecida. Mas penso em Madonna, Michael Jackson e Prince. Eles tinham o visual e a sexualidade de Sylvester, Jimmy Bo Horne e esse inacreditável Rick James. E vieram os Mantronix, Duran Duran, e depois a onda pop do final dos anos 80 com Soul to Soul e C and C Music Factory. E mais..... Rick Astley, Dee Lite....
Quem me lê sabe que não consigo seguir as "novas" bandas. Tudo o que vem do pós-punk, new folk, psicodelismo, indie, etc me dá um sono danado. É música boa pra quem tem menos de 25 anos, quem começa agora a ouvir rock. É a música de guitarra/baixo e batera de sempre.
Mas a linha evolutiva que vem do funk, do som da Philadelphia e da disco, da disco de New York com seu baixo pesado e seus vocais gritados, da euro-disco, cheia de synths e de vocal gelado, isso ainda me interessa. São os caras que adoram a paixão viril do rock ( quando há ) mas são também seduzidos pela doce sensualidade hermafrodita da discoteque.
O filme é muito melhor do que voce pensa. E Travolta está excelente. Mostra-se o mundo pobre de NY. Gente sem governo, sem país e sem família funcional. E que joga tudo pra fora sendo um rei numa pista de dança. O filme mostra então o nascimento de uma cultura de club que existe e existirá ainda por muito tempo. Mais vaidosa, mais hedonista que a de hoje. Menos deprimida e mais pobre. Feliz.
SATURDAY NIGHT FEVER é dos meus filmes "calcanhar de aquiles". Filmes que adoramos mesmo sabendo que tanta gente "culta" os despreza. Filmes como UM TIRO NO ESCURO, PRIMAVERA PARA HITLER, VIAGEM AO CENTRO DA TERRA, GOLDFINGER ou DURO DE MATAR.
Eu adoro SATURDAY NIGHT FEVER. Adoro Travolta e adoro até os BEE GEES. Parte de mim está lá. E talvez seja a melhor parte.

OS MALDITOS UNITED/ O SEGREDO DOS SEUS OLHOS/ CROSSFIRE/ JOHN FORD

CROSSFIRE ( RANCOR ) de Edward Dmytryck com Robert Young, Robert Ryan, Robert Mitchum e Gloria Grahame
É um muuuuuito bom filme. Uma lição de direção segura, com garra, e de atores perfeitos em seus papéis bem escritos. Se voce quer se iniciar no filme noir é esta a escolha. Nota Dez.
TIRAS EM APUROS de Kevin Smith com Bruce Willis e Tracy Morgan
Chegou a passar aqui ???? No século passado este diretor chegou a ser levado a sério. O trágico foi que ele começou também a se levar a sério. Mas aqui não. È uma bobagem assumida, uma comédia policial sobre dupla de tiras e tráfico de drogas. O filme seria bem melhor se esse tal de Tracy não estivesse presente. Ele é péssimo !!!!! Bruce faz o que sempre faz : John MacLane. Quer saber ? Tem até que boas piadas. Numa tarde de domingo em dvd até que desce. Nota 5.
O SEGREDO DOS SEUS OLHOS de Campanella com Ricardo Darin
Uma bela história de amor ( sim, é de amor ) que tem várias cenas ( as melhores, inclusive a excelente cena no estádio ) tiradas de Kurosawa. Mas não é uma obra-prima como alguns dizem. Não é, porque se trata de um filme igual àqueles que os italianos faziam às dúzias entre 55/75. Uma dose de romance, pitadas de pieguice e colheres cheias de politica. Em tempos de big business este filme se destaca por parecer ir contra a corrente. Não é, como parece ser obrigatório hoje, pura ação vazia, e também não é filme de arte cabeça, que é a segunda opção de nosso cinema atual, é apenas uma bonita história. Campanella tem talento para mostrar cenas de amor travado e dirige os atores com delicada atenção. É um bom filme. Nota 7.
O PRISIONEIRO DA ILHA DOS TUBARÕES de John Ford com Warner Baxter
Estamos no mundo de Ford. E é um Ford dos anos 30. E foi um dos poucos fiascos de Ford. Entende-se o porque : é uma história triste, sobre injustiça. Fala do médico que foi preso por tratar da perna quebrada do assassino de Lincoln. A fotografia expressionista de Bert Glennon é soberba e Ford conta sua história economicamente bem. O cenário da prisão na ilha tem um design soturno, uma delicia ! Nota 7.
OS MALDITOS UNITED de Tom Hopper com Michael Sheen e Timothy Spall
Filme de 2009 que não passou por aqui. Fala de Brian Clough, o melhor técnico inglês que a seleção inglesa "não teve". Vemos sua carreira entre 68/74. Um muito vaidoso técnico de futebol, que leva o Derby County da segunda divisão ao campeonato da primeira e a semi-final da euro contra a Juve. Depois ele vai para o Leeds ( que é o maldito United ) o grande time vencedor da época ( jogando sujo, violento, feio ) onde fracassa. Para quem viu e gosta do verdadeiro futebol inglês, o filme é obrigatório. As cenas de pancadaria ( o filme intercala cenas reais com ficcionais ) no incio do filme, ver Kevin Keegan jogar pelo Liverpool...é maravilhoso ! O futebol inglês ficou fora das copas de 74 e 78 e este filme mostra porque : eles jogavam o futebol mais violento, tosco, manhoso da história. Uma delicia ! Vemos o bandido Billy Bremmer e o assassino irlandes Giles, a lama de péssimos gramados, os socos, cabeçadas, chutes, cuspes... Ah !!!! Quem matou essa Inglaterra tosca ? Time que tinha como grande objetivo vencer a Escócia no torneio das ilhas, time que pouco se lixava para o resto do mundo. Pra onde foi tudo isso ? Aqueles açougueiros zagueiros, aqueles atacantes pernetas, os goleiros e seus chutões até a outra área..... Os cabelos sujos e longos ao vento, as camisas sem patrocinio ( que linda a vermelha do Liverpool sem nada a manchá-la ) a torcida bêbada.... Estará o mundo se tornando Castrati ? Sábados de manhã na Globo, Inglaterra X País de Gales.... carrinhos e mais carrinhos, todos maldosos..... bem, me excedi. Para quem gosta disso tudo o filme é ótimo. Quem não gosta, sai fora !!!! O roteirista é o mesmo de A Rainha e Frost/Nixon. Em tempo : em 1978 Clough foi para o Nottingham Forest. Sabe o que ele fez lá ? Bi-campeonato europeu ! O único inglês a conseguir isso ! Bi !!!!!! No Forest !!!!! 79/80 !!!!! Nota 6 ( como filme )

CROSSFIRE - DMYTRYCK, A VIRILIDADE DO CINEMA NOIR

O cinema é dividido em gêneros : drama, comédia e aventura. Esses gêneros se misturam, comédia de aventuras, drama aventureiro, tragi-comédia.
Dentro do cinema existem as sub-divisões : no drama temos o drama de tribunal, o drama político, o drama familiar, o histórico, o existencial. A comédia maluca, a comédia de situações, a de boudoir, a italiana, a chanchada, o pastelão. E a aventura-western, o filme de piratas, a aventura de sci-fi, a aventura de horror e o suspense.
Existem filmes, bons ou não, que embaralham gêneros. Oito e Meio seria drama, comédia e filme existencial.
E existe o filme noir, que é drama, mas também é aventura policial. CROSSFIRE ( RANCOR ) de Edward Dmytryck é um dos cinco melhores e é porta de acesso para os infelizes que jamais conheceram as delícias desse cinema.
O filme. A primeira cena já nos prende. Sombras numa parede : um homem é espancado até a morte. Toda a fotografia do filme é estilizada, sombras e cenários ordinários. Estamos no mundo dos filmes mais viris já feitos.
Sim, mais que filmes de guerra, que têm sempre algo de adolescente ( por mais cruéis que sejam, há sempre a camaradagem e o aspecto de jogo de jovens provando virilidade ) e mais que westerns, que estão sempre imersos na poesia da solidão e do sacrifício, é o noir o tipo de filme que melhor exibe a alma do que seja " ser homem ". Ou do que era isso.
Não comentarei o medo da mulher que existe em todo noir. Falarei do modo como eles mostram, sem alarde ou pretensão, de um modo econômico, a condição existencial do homem. Um ser solto nas ruas, sem grandes ilusões, livre, porém estranhamente preso, atado a solidão, atado a um passado sem brilho, comprometido com a sobrevivencia.
RANCOR trata de um crime. Da investigação de um policial tranquilo e boa gente, de soldados que acabaram de voltar da guerra, e principalmente de racismo. O filme é um dos primeiros a ter a coragem de tocar nesse tema. Mas o que vemos são prostitutas, bares de jazz, delegacias, apartamentos vazios, ruas, táxis e lanchonetes. Não existem famílias, não há natureza ou jardins, nada de amores risonhos. É mundo urbano, seco, noturno, feroz. Ninguém é sorridente. Há humor, mas é riso de bilis.
Seneca assombra cada cena de um bom noir. E também algo de Nietzsche. Mas é um Nietzsche americano, menos prolixo, menos " culto". O que num filme europeu seria discurso, aqui é vazio.
Os três Roberts do elenco estão soberbos. Robert Young é o policial. Calmo e metódico. Robert Ryan é o assassino. Grande ator que foi, Ryan é máscara de ódio cego, de burrice orgulhosa. E temos mais uma vez Robert Mitchum. O safo Mitchum, imagem de homem que viu tudo e sobreviveu. E ainda temos Gloria Grahame, que faz uma puta que é ilha de raiva.
Dmytryck, o diretor, foi dedurado por Sam Wood. Wood o acusou de comuna no MacCarthismo. De vítima Dmytryck se fez algoz : passou a dedurar. Sua carreira naufragou. RANCOR é o último filme feito antes do maremoto dedurista. Nada nele é exibicionista. Dmytryck conta sua história ( de Robert Aldrich ), não faz nada em excesso. O filme tem a duração exata, os atores certos, a montagem que funciona. Esquecemos estar vendo um filme.
O noir é hoje impossível ( e todo ano são feitas, de Spirit a Sin City, tentativas de o reviver ) porque a virilidade não se manifesta mais de forma noir. Hoje ela é muito mais histérica, deselegante, explosiva.
Fica este filme.

FREUD/ COCO CHANEL/ O CORVO/ SHANGHAI MARLENE

O CORVO de Henri-Georges Clouzot
Cartas são enviadas anonimamente e deixam pessoas muuuuito nervosas. Mestre Henri toca em ferida de franceses de 1944 : a delação. O filme, labirintico, envolvente, nervoso e maravilhosamente belo, é obra de diretor inesquecível. Clouzot domina toda a técnica mas vai além, tem muito o que falar. Não é seu melhor filme ( O SALARIO DO MEDO é imbatível ) mas fornece pistas do quanto ele é grande. Nota 8.
A ÚLTIMA MISSÃO de Hal Ashby com Jack Nicholson, Otis Young e Randy Quaid
No livro de Peter Biskind se fala muito deste filme. Exemplo do moderno filme americano da época : sem herói, sem grandes cenas, sem enfeites. Jack tem talvez seu melhor desempenho e a história fala de dois marinheiros que devem levar marujo, preso por ter roubado, de base naval até policia. Acabam desviando do caminho e se encantando pelo prisioneiro, um ingênuo caipirão. O filme tem a virtude de ser honesto, crú. Ashby foi mais um talento destruído pelo pó. Nota 7.
A GAIOLA DAS LOUCAS de Edouard Molinaro com Ugo Tognazzi e Michel Serrault
Perdeu a graça. Baseado numa peça de imenso sucesso de Jean Poiret, fala de casal gay que irá receber a visita da ultra-conservadora família da noiva do filho de um deles ( o filho foi concebido em noite de fraqueza ). Assisti este sucesso ( filmes europeus faziam sucesso popular nos anos 70/80 ) no cine Cal-Center. Achei hilário na época. Era um tempo em que assistir alguém desmunhecar era engraçado. Não sei se somos mais tristes ou menos ingênuos, mas esse tipo de humor não provoca nada hoje. Tognazzi está muito bem, Serrault nem tanto. A refilmagem de Nichols com Robin Willians não é melhor. Este vale como lembrança do luxo dos anos 70. Caraca ! Como as pessoas se vestiam com cuidado !!!! Nota 4.
O EXPRESSO DE SHANGHAI de Josef Von Sternberg com Marlene Dietrich e Anna May Wong
Cada close em Marlene é sonho de beleza ( e como ela está canastrona ! ). Sternberg era apaixonado por ela e fez sequencia de filmes só para a homenagear. Este é o mais famoso, mas não o melhor. O estilo das imagens ainda impressiona : barroquismo puro. Sternberg enche a tela de gente andando, de carroças, cavalos, carros, malas, véus e móveis. As estações de trem e o próprio veículo são completamente falsos, mas são ao mesmo tempo aquilo que sonhamos como certo. É o mundo como ele deveria ser, não como é. Cada escada e cada roupa é obra de mil detalhes. Sternberg era louco. O filme é velho como diamante. E ainda brilha. Nota 7.
COCO ANTES DE CHANEL de Anne Fontaine com Audrey Tautou
Lixo. Lindos cenários que nada significam em historinha boba sobre a vida de Chanel em seus começos. Chega a ser desagradável de tão vazio. Nota 1.
HOMEM DE FERRO II de Jon Favreau com Robert Downey e Mickey Rourke
Um filme tipo Amaury Junior. Voce olha um bando de celebridades se divertir ( eles riem, se exibem, brincam, são sexy ) enquanto voce baba fingindo se divertir também. Não dá pra dizer que o cinema está em crise de talento. Terminou. O que era lixo é hoje top, o que foi top é feito com vergonha e sensação de fracasso. A inteligência artística morreu, viva a esperteza bancária.
FREUD de John Huston com Montgomery Clift e Susannah York
Em seu livro Huston diz ter péssimas lembranças deste filme. Atores com estrelismo e sets tensos. Mas valeu a pena : o olhar de Clift é poder transcendente. Ele é Freud sem imitar Freud. Ele cria seu Freud, ou seja, interpreta. Penso que se refizessem este filme fariam de Freud um tipo de cheirador doidão. Aqui ele é um neurótico muito curioso, que enfrenta a descrença de seu meio. As cenas de sonho são inesquecíveis e todo o filme, fotografado em p/b por Douglas Slocombe, tem a irrealidade de fotos perdidas. Assisti pela primeira vez em 1978 na Globo. Foi paulada tão forte que não pude dormir. Revisto algumas vezes desde então ele mantém seu poder. É filme sério, sisudo até. Como Freud o foi. Huston dirige de seu modo rápido e sem frescura, funciona. Aqueles cenários de ruas enevoadas e os hospitais com seus loucos perdidos nos hipnotizam. Freud se perde dentro de si-mesmo e volta à tona com a chave do inconsciente. Se a sua descoberta é válida ou não, não importa. Ele mudou nosso modo de ver a vida. O filme é digno disso. Nota DEZ.

A SOMBRA DAS RAPARIGAS EM FLOR - MARCEL PROUST

Proust é dificil ? Talvez seja; se voce lê-lo com reverência. Leia Proust como se lê um amigo. Corra os olhos pelas suas longas frases. Leia-o como quem passeia por veredas floridas. Flaneie.
Proust é chato ? Jamais ! Ele é radiante. Traz em seu texto a delícia da vida bem vivida. Vai fundo no que sente, tem coragem, tem alcance e acima de tudo, é belíssimo.
Mas Proust bate de frente com nosso tempo. E assim, torna-se valioso remédio para stress e para ansiedade. Nos traz mundo calmo, delicado, sem atrito. Descortina um jardim.
Mas nada tem de beleza escapista. Não é nunca um poetinha. Neuroses e tristezas estão sempre alí, em toda frase. Mas ele aprecia esses sentimentos, os cultiva, analisa-os e distende-os. É o maior dos psicólogos.
Maravilhoso o modo como ele desenvolve seu romance. O narrador recebe uma visita. Essa visita recorda outra visita. Que recorda um sentimento. Desse sentimento vem outro sentimento e outra lembrança. Daí nasce uma conclusão e dessa conclusão vem mais outra lembrança.
Nos perdemos nesses caminhos de sol e de chuva. Mergulhamos em suas imagens e ao lê-lo trazemos à tona nossas próprias imagens. Ler Proust é dialogar com o livro. Lemos e pensamos ao mesmo tempo, vemos suas imagens e desenterramos as nossas.
È fantástico o modo como ele descreve a ação física. Após dezenas de páginas onde o personagem espera pela visita de sua amada, ela chega e parte em duas linhas. Toda a ação física do livro é descrita assim, uma ou duas linhas.
Não é essa a nossa vida ? O amor vive na cabeça, cada ação produzindo milhares de sensações, recordações, medos, planos, ilusões e expectativas. Para Proust, lembrar de um amor é amar. Enquanto voce está com a amada, o amor é obstruído por palavras, atos, jogos, planos, ruídos. Depois, a sós com seu espírito, voce vive o amor completo, recordando tudo o que foi sentido.
Se é assim nossa vida não importa. O que tem importância é que Proust nos dá uma opção de entendimento dos afetos. Talvez seja assim. E sua escrita nos convence disso ao nos lembrar de nossas paixões. Belas e eternas não enquanto ação, mas maravilhosas em nossa mente.
O personagem é do alto-mundo e dá uma certa tristeza pensar no quanto essa alta-roda dirigente decaiu. O mundo do livro é de um refinamento completo. Marcel Proust dá aulas de etiqueta. Etiqueta da alma. Mente-se com elegância. Despe-se com erotismo. Ganha-se dinheiro com discrição. Afetos e privacidades tratadas como jóias de família. Tesouros para muito poucos.
Em mundo onde esfrega-se tudo no rosto de todos, onde nada é tesouro secreto e nada tem o valor do segredo, ler Proust é acariciar o coração. Uma alegria que embala o sangue.
Poucos livros são lidos com a sensação de se estar crescendo. São romances que nos nobilitam, nos engrandecem, nos ensinam dizendo aquilo que já sabíamos mas não formulávamos. Poucos autores são como guias e menos ainda são mundos completos. Abrir Proust é abrir carta de amigo, ler diário de avô sábio, conhecer nobre imortal.
Em mundo onde quem grita leva e quem chora vence, Proust nos dá a certeza de que gritos e choros passam, mas veredas de recordações brilhantes ficam. Ignorar isso é desperdiçar a vida.

O FIM DE UM AMOR INFINITO ( AO SOM DE GRAM PARSONS )

O mais duro foi olhar o rosto dela pela primeira vez. Olhar pela primeira vez sabendo não mais ser meu rosto. Porque seu rosto era meu continente. Cada sinal e cada curva era uma perfeição imperfeita onde eu reconhecia meu mundo. O rosto dela era meu lar, meu começo e minha morte futura. Agora, pela primeira vez, eu devo olhar esse mundo como estrangeiro.
Como poder viver sem casa ?
Como não mais ouvir sua voz ? Porque a voz dela era a música dos meus dias. Som que parecia ser minha trilha desde sempre. Voz que dizia tudo que importava e que bania o resto. Poderei viver sem essa voz ?
Depois ter de aprender a ver o mundo sem ela. E o pior : ter de encarar o mais terrível dos fatos : nosso amor não é/era perfeito. Foi maculado por um fim e amor que tem fim não é amor perfeito. Cair.
E nos dias seguintes caio do céu onde eu não tinha consciência de estar. Sinto solidão pela primeira vez em anos. E penso : Para que estar aqui se meu continente se foi ?
Aprendo então a sobreviver no mar. No frio úmido de fins de tarde cruéis. Para que existe o domingo ? Porque não pular domingos ? As vagas me afundam, me erguem e eu não ligo mais. Que o mar faça de mim o que lhe aprouver. Eu, deixado, me deixo.
Dias indiferentes e noites de triunfo sem ganho.
Um dia sinto que o frio úmido pode ser belo. E que o mar é sempre. Nasce a poesia e simbolizo a vida. Deixo a coisa ir e vir e tomar e passar. Me vejo de longe. E ainda a ouço todo
dia.
Mas ela não cresce mais em mim. Tornou-se mais um símbolo. Outra onda em oceano vago.
Dizem que feridas cicatrizam. Nunca cicatrizam. Dizem que o tempo cura. Não há cura. Tudo o que voce vive viverá em voce para sempre. Aquilo que foi seu mundo será mundo ausente e morto, mas permanecerá luto. Sombra sobre restos imorredouros.
O rosto dela é hoje irreconhecido. O meu continente afundou em maremoto de lágrima.
Mas a ferida fica como parte de meu mar e de meu símbolo.
Quem falou que viver é fácil ?

PROUST É AGORA MAIS ÚTIL QUE NUNCA...

Eu mergulho nas páginas de Marcel Proust procurando nelas o resgate de meu mundo próprio. Nada é mais saudável hoje que ler Proust, ele é o antídoto a tudo que nos aflige. Nele somos convidados a diminuir a velocidade, a resgatar o dom da observação e principalmente a cultivar o brilho espiritual. Ele é guia de bem viver.
Só o que está fora de moda pode nos resgatar. Nosso mundo é um convite a não-individualização. Sem perceber, voce se molda a quatro ou cinco protótipos ( inclusive o tipo anti-tudo ) e pensa estar sendo voce-mesmo. Não. Com o mergulho sem escafandro em Marcel, sua alma relembra a amplidão natural que toda vida pode ter. Amplidão que nos é roubada em labirintos de ruas quebradas e edifícios entalados em pedra e aço. No tempo que tem só um sentido, adiante sempre, rumo às novidades. Mundo atual que nos obriga a jogar tudo fora, sempre.
O modo como Proust escreve modifica nossa forma de pensar. Há quem o chame de "o primeiro neurolinguista" do mundo. Sua prosa é como um descascar de cebola. De casca em casca, de frase em frase, ele vai nos demonstrando que tudo é relevante, que cada fato e cada imagem é universo infinito de sentidos e de história. É um anti-fugacidade, um anti-superficialidade, e é um oceano de prazer.
Porque prazer ? Marcel Proust não é autor dificil ?
Sim, dificil por exigir ateñção do leitor. Mas um prazer celestial, por nos dar em troca a imensa sensação de se estar vivo. O autor francês nos exibe em linhas sem pudor, a felicidade de se fazer parte da linha do tempo. Aliás, linha que se enrola como novelo até se fazer bola. Um círculo em que todo prazer vem do tempo que se esvai. Uma perigosa feitiçaria, pois ele nega tudo o que este século afirma.
Para Proust o sentido da vida está no que já foi vivido. Nosso prazer não reside na esperança de um novo amor, reside na lembrança de amor perdido. Cada beijo é presente que se torna imediato passado, e esse passado é tudo o que temos. Negar nossa história é viver em vazio.
NOTE BEM : IGNORAR E NÃO ATENTAR, PROFUNDAMENTE, AO QUE SE VIVEU, É ESVAZIAR A PRÓPRIA VIDA DE SEU VALOR. Pois só tem valor aquilo que pode e merece ser recordado.
Nada é mais contrário a nosso mundo caminhante que essa idéia. Proust ajuda-nos a valorizar a vida, valorizando tudo o que foi feito e pensado.
Proust amava música. Nenhum texto é mais musical que o seu. O modo como ele escreve é harmonia de sensações e melodia de palavras. A escrita alça vôo, plana e desaparece dentro de nossa consciência, toca nossos nervos e nos acalma. Tudo nele expressa um grande " Assim é ".
Mas o mais importante em Proust é que ao ler sua prosa opera-se em nós uma afirmação de fé. Nasce lentamente uma espécie de orgulho proustiano, um assumir-se como história individual, um rememorar, enamorar-se de sí-mesmo. A melodia nos envolve e nos indica as galerias abissais de nosso espírito, galerias em que penetramos sem qualquer medo, sabendo estar sendo guiados pela música da escrita. Nos individualizamos.
Proust pode salvar sua vida ( como escreveu Alain de Botton ) pois ele lhe dá valor, dignifica sua trilha, dá sentido ao seu passado. Nos faz acariciar alma e cérebro, toca nossa mão e nos embala rumo à vida real.
Se voce conhece algum autor mais "útil" me diga. O que Marcel Proust oferece é a restituição de almas ignoradas e ignorantes. O novelo do tempo e do sentido, a fé em sí.

Stendhal, Tolstoi, Henry James e Marcel Proust
Não existem autores que escrevam melhor. È o quarteto que faz prosa musical, quarteto de melodia e harmonia, estetas.
Stendhal é puro prazer e amor. Tolstoi é filosofia de vida e de além. James pinta rostos e exibe a realidade de sentimentos. E Proust, memória que é chave para valorização de vida.
Ler esse quarteto é uma felicidade.

SCORSESE/ FANTASIA/ GROUCHO/ NUM LAGO DOURADO/ TERREMOTO

NUM LAGO DOURADO de Mark Rydell com Henry Fonda, Kate Hepburn e Jane Fonda
Kate derrotou Meryl Streep, Susan Sarandon e Diane Keaton em 1982 com este filme, levando seu quarto Oscar. Henry, cinco meses antes de morrer levou o seu. Ele está fabuloso ( nunca o ví menos que fabuloso ) nesta melosa história de casal de velhos que passa férias em casa à beira de lago. Lá eles recebem visita de filha problema ( Jane, bela e aparecendo pouco ) e tomam conta de filho do novo namorado da filha. Henry consegue passar tudo o que significa ser velho : ter medo de morrer. Seu velho nunca se parece com uma piada. O filme nunca pesa demais, tem momentos de muito humor e é representante da reação do cinema-família contra as loucuras dos anos 70. Fez imenso sucesso e recordo de o ter visto sobre o Atlântico, no avião voando rumo à Frankfurt. Reparo também que é um tipo de filme completamente extinto. Ninguém é neurótico, ninguém tem emprego esquisito, nem é muito rico ou miserável. Nada ocorre de sensacional, é apenas gente banal em momento importante e inevitável. O filme se deixa ver, e passa como canção nostálgica. Tudo nele é bonito demais, limpo demais, mas os atores levam a história com brilho e conseguem dar vida ao que dizem e fazem. Nota 6.
FANTASIA de Walt Disney
Após o imenso sucesso de Branca de Neve, Walt gasta tudo o que tem e vai à falência tentando provar ser artista classe A com este muito metido desenho. Fantasia levou anos para ser feito e foi detestado por público e crítica. Walt se salvou com Dumbo e Pinóquio, e nunca mais se arriscou. Este desenho são clips de música erudita. Interessante notar como desde então o mundo inteiro se disneysiou. A forma como este filme vê a arte é absolutamente infantil. A sexta de Beethoven se torna uma fábula de pseudo-mitologia, com cavalinhos alados, centauras ninfas e muita pedofilia. Seios nús e muitas bundas de bebês, mas tudo bem gracinha, bem Disney. A Sagração de Stravinski, que é hino de paganismo, aqui é história sobre a criação da vida. É muito bom, é legal ver mares em erupção, vulcões, fogo e dinossauros. Mas nada tem de Stravinski. O final tem Mussorgski, em cena que cita ( plagia ? ) o Fausto de Murnau. Demônios e assombrações. Deve ter apavorado as crianças... Há ainda Dukas, Tchaikovski, Schubert... velho problema do mundo pseudo-intelectual : pensar que citar autores significa conhece-los. Disney infantiliza, domestica, torna tudo inofensivo. Profeta desta época de parques de diversão e visuais chocantes. Nota 3.
BELEZAS EM REVISTA de Lloyd Bacon com James Cagney, Ruby Keeler e Joan Blondell
Musical anos 30 com coreografia de Berkeley. É incacreditávelmente brega e deliciosamente bobo. Como sempre, tudo gira em torno da montagem de um show. Tem uma coreografia aquática inacreditável : dá pra perceber o medo de miss Keeler. Impressiona a objetividade do cinema de então, não se perde tempo com nada, as coisas são curtas e diretas, se é pra acontecer, que aconteça já. Isto é a TV de 1933 !!!! Nota 7.
A RELIGIOSA de Jacques Rivette com Anna Karina
Baseado em Diderot. Hiper pretensioso, eis aqui tudo de ruim que o cinema francês e a nouvelle-vague em especial, pode ser : chato. Chega a ser inacreditável sua cara de pau. Nota 1.
TERREMOTO de Mark Robson com Charlton Heston, Ava Gardner e George Kennedy
Filme do tempo em que acidentes eram moda no cinema. Sua primeira hora é boa, Robson sabe levar uma história, mas quando começa o terremoto enjoa tanto acidente e tanta tragédia. 4.
A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO de Martin Scorsese com Willem Dafoe, Harvey Keitel e Barbara Hershey
Baseado em Nikos Kazantzakis. Com o mesmo roteirista de Taxi Driver ( Paul Schrader ), Martin vê Jesus como um Trevis Bickle palestino. Jesus começa o filme como Van Gogh, um esquizofrênico, e termina como Cristo, ser que funda nosso mundo. Sua morte é momento de cinema corajoso e de soberbo talento. Scorsese consegue demonstrar que apenas a morte na cruz faz de Jesus, Cristo. Ele não poderia morrer como homem, seu sacrifício ( e o filme é genial como exposição do que seja ser herói ) é o motivo de sua existência. O herói é herói ao morrer, não em vida. Isso é demonstrado de forma engenhosa. Mas o filme tem uma cena muito ruim : a salvação da prostituta. Parece que veremos o Monty Python cantar. Uma cena genial : a ressurreição de Lázaro. Aterradora e crível. O filme nada tem de fácil, Judas ( Keitel, muito bem ) é visto como figura tão importante como Jesus e os outros apóstolos são pouco mais que broncos. Trata-se de filme cheio de ira, de brilho e de muita dor; sentimos que Scorsese se penitencia. O filme mostra toda a revolucionária novidade de Jesus : um Deus de amor. Até então todo deus era baseado em força e poder, Jesus coloca o amor no centro do mundo, o amor como razão para se viver. Ele inaugura-nos. Nota 8.
THE PLEASURE GARDEN de Alfred Hitchcock
É o primeiro filme do mestre. Vale só por isso, pois é um comum filme pop inglês da época. Não se trata de suspense. Nota 4.
SUPLÍCIO DE UMA ALMA de Fritz Lang com Dana Andrews e Joan Fontaine
Último filme americano de Lang. Uma vergonha ! Mal enquadrado, atores sem direção, roteiro cheio de furos. O grande Lang sem nenhum tesão. Nota Zero !
CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO de John Sturges com Spencer Tracy, Robert Ryan, Lee Marvin e Ernest Borgnine
Homem chega a cidadezinha. Todos o recebem com rancor. Todos escondem um terrível segredo. O filme tem fotografia deslumbrante. Ele é seco, árido, másculo. O clima de hostilidade se mantém por todo o filme e o roteiro é redondo, engenhoso, direto. Nada de forçado, nada de inverossímil, nada de pedante. É um belo filme com Spencer dando aula de discrição. Nota 7.
SEU TIPO DE MULHER de John Farrow com Robert Mitchum e Jane Russell
O filme tem uma primeira parte perfeita : um bando de esquisitos num hotel de luxo mexicano. Há um clima Hawks/ Huston e Mitchum carrega o filme com ironia. Mas aí acontece uma loucura : surge Vincent Price, e tudo muda, agora é uma gozação, uma sátira, um carnaval. Entendemos então que o filme mudou de diretor, que o produtor é Howard Hughes e que Farrow brigou com ele. Toda a parte final se parece com bebedeira, o filme cambaleia, fica à deriva. Não deixa de ser fascinante com as cenas dentro do barco tão ousadas, modernas, tortuosas. É um filme invulgar. Nota 6.
OS GÊNIOS DA PELOTA de Norman Z. MacLeod
É com Groucho, Chico e Harpo. Quem não gosta deles ( óh pobre infeliz ) vai detestar este filme. Tudo aqui é anárquico, solto, sem porque. Quem gosta deles ( óh gente feliz ) vai embarcar na viagem rumo ao mundo sem sentido dos geniais Marx. Nota 7.

DANDO UMA DE HG WELLS

Voce nascerá e será imediatamente conectado a um serviço de medicina e babá. E já começará a aprender duas línguas. Essa conexão com pediatra, pais e professora será então ampliada para amiguinhos e um pet. Porque todos carregarão uma central onde se ficará ligado vinte e quatro horas por dia. Todo o tempo voce assistirá tudo o que seus amigos fazem e eles verão tudo o que voce faz. Será o mundo da total exterioridade, não haverá como criar vida interior.
A música te acompanhará pela vida inteira, silêncio será desconhecido. Voce criará sua própria trilha sonora e tentará fazer com que seu amor a compartilhe. Ninguém escutará nada do outro, só o que ele criou para sí-mesmo. Será o sonho do romantismo : todos serão artistas ! Porque essa trilha não será baixada. Com programas simples voce comporá e executará a música que voce sonha. Para voce mesmo.
Haverá também um programa que executa filmes. Terão criado imagens virtuais de atores do passado. Assim voce poderá criar um policial com Humphrey Bogart, Harrison Ford e Louise Brooks. O programa criará um roteiro e voce assistirá a esse filme dirigido por sua imaginação. Voce tentará fazer com que alguém o assista, mas todos serão produtores de seus próprios filmes e não terão tempo para ver o seu.
Conectado a vida inteira tudo o que acontecer no mundo será conhecido em tempo real e tudo parecerá virtual. Não vai dar pra se importar muito, pois todo o tempo voce terá amigos falando e imagens e música.... Solidão nunca mais.
Livros serão coisa de excêntrico, voce carregará uma biblioteca numa pastilha. Um mundo sem objetos, tudo estará todo o tempo à mão, suas coisas serão virtuais, mundo sem páginas, discos, fotos, pinturas....
Voce terá a certeza de ter um mundo só seu, bolha onde só penetra o que voce permite. Mas nessa bolha, é estranho, é permitido tudo.
Um programa anti-drama lhe dirá quem namorar. Um outro, de afinidade mental, lhe dirá quem pode ser seu amigo e haverá um para sexo casual ( tipo físico e classe social ). Essa pessoa terá acesso a seu sistema special-gold, onde voces misturarão seus programas e comporão musicas e filmes juntos. Casar será unir programas, quem falar comigo falará com voce também. Nossa bolha será comum. Casamentos durarão um ano.
Se terá um refrescante contato com a natureza. Se viajará à Sibéria para se isolar do mundo e de lá voce enviará para seus contatos imagens que eles já têm, em que voce fará tudo o que eles já fizeram.
Gente "muito louca " tomará um chá que os desconectará de tudo. Esse povo verá e escutará o mundo sem música de fundo e sem filtro digital nenhum. Será uma "viagem astral" a de viver por uma hora como os antepassados viviam. O chá é para dar a coragem. Desligar tudo sem algum aditivo dará um terror visceral.
O olfato terá desaparecido, mundo sem cheiro, e os cães serão mais dóceis, um tipo de gato mais moleque. Gatos serão como bonecos de pelúcia.
Nossas peles serão mais claras e desprovidas de pelos. Sempre de óculos escuros e de tecidos cobrindo braços e mãos, o sol nos ferirá. Não existirão mais pessoas louras naturais, mas todos serão louros artificiais. A mulher poderá aumentar e diminuir bunda e seios de acordo com seu humor, de manhã pouca bunda para malhar, de noite um bundão para a balada. Os homens usarão blush, rímel e batom todo o tempo. E terão vozes agudas. Mulheres mandarão. Homens serão apenas reprodutores.
Viveremos 130 anos. O que fazer com tanta vida será a grande questão.
A nova doença será um tipo de catotonia. O cara fica de frente para uma parede e pára de falar, digitar ou reagir. Torna-se um tipo de vegetal. Sem memória.
Todos beberão tônicos para sentir desejo, pílulas para dormir e vacinas anti-stress. O sofrimento será fora de moda, mas haverá uma certa confusão mental, uma sensação de irrealidade que será exaltada como fashion.
Nesse mundo não estarei eu, e provávelmente nem voce. Mas ainda se falará de Platão e de Shakespeare. Mas eles serão interpretados de um modo completamente diferente. Pensarão neles como criadores de vida.
Carros continuarão a existir, e estradas e ruas. A pobreza irá persistir, mas serão pobres conectados, sem comida, mas cheios de imagens e de músicas. A guerra será lutada por robots, mas terá por vítimas as cidades "reais". Ninguém contará os óbitos. Contarão sómente robots avariados.
Usinas produzirão atmosfera, usinas produzirão água. Lagos e sapos serão mitos.
Nesse mundo não estarei eu e nem voce, talvez
Começo a entender então o porque de existir a morte
Nesse mundo eu não quero existir, e nem voce, talvez

Vista do alto a cidade terá milhares de eternos jovens conectados em seus mundos particulares. Sempre ligados a seus milhares de amigos. Todos terão um rosto de sonolencia, um ar de ausência. Eles serão confiantes de que estão sempre felizes. Serão a primeira geração em tudo.
Vista do alto as ruas têm lixo e mendigos. Mas os mendigos estão conectados a outros mendigos e o lixo é ignorado. Na sua visão particular voce está numa ilha dos mares do sul ( as ilhas dos mares do sul são míticas, agora, como a Atlântida. Submergiram. )
Não se apertam mãos, não se dá abraços, mas se beija e se trepa. Muito. Com os que estão na sua rede, os que passaram pelo filtro, os de sempre.
Não se come mais carne de verdade. Só de laboratório. Bois foram dizimados. Porcos extintos ( sem dor ). Frutas e legumes são como sempre foram. Por fora. Têm mais nutrientes. E nenhum sabor. Mas existem ótimos temperos !
Não existe aids, não existe tuberculose, não existe sarampo. Mas existem deformações dos ossos, sangramentos de pele e diluições do sangue. E pessoas que se esquecem e se voltam à parede...
Nesse mundo eu não estarei. Nem voce, talvez....

Colecionadores pagarão fortunas por celulares antigos e os museus de arqueologia irão expor embalagens de hamburger.
O espírito terá sido mapeado e se descobrirá o centro cerebral da esperança. Um chip nos dará fé e um outro uma vida espiritual. A fé será usada para crer no próprio chip e a vida espiritual para ser dividida com os amigos.
Mas pessoas irão se voltar contra a parede, e eliminarão a memória....
Voce procurará esse amigo e encontrará uma parede e um vazio sem informação, fora do ar...

E vendo a cidade do alto voce percebe
Que este não é mais seu mundo
E voce cai.

ALICE/ TUDO PODE DAR CERTO/ LEÃO NO INVERNO/ ORGULHO E PRECONCEITO

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS de Tim Burton
Como Spielberg fez com Peter Pan, Burton resolve mostrar uma Alice mais velha. Coisa de bilheteria.
Difícil falar deste filme. Ele é totalmente calculado para agradar doidinhos-soft e psicodélicos-light. Burton fez um filme que usa personagens e título emprestados de Lewis Carroll, mas que negam tudo o que o autor inglês pregou. Ninguém é obrigado a filmar um livro ao pé da letra, mas é sim obrigado a respeitar o espírito da obra, a intenção do autor. E a única intenção de Carroll era o nonsense. O filme grita e implora uma gota de humor, não consegue. Burton continua preso ao darkismo mais convencional, é um emo cinquentão. O filme, belíssimo e vazio, é enfadonho. Chato em sua loucura fake e profundamente convencional. Tudo pede um toque de Terry Gillian. Alice torna-se assim uma chatíssima moça magrela e tuberculosa do século XXI. Os personagens, e o coelho é o mais mal entendido, tornam-se apenas bobos. Em Carroll eles são perigosos. O filme nada tem de perigoso.
O mandamento número um do livro era o de que nada nele poderia fazer sentido e nada poderia ter uma moral a ser demonstrada. Burton faz sentido e joga uma moral à história. Noto agora a dificuldade que Tim Burton tem com o sexo. Há alguma cena de sexo em algum filme dele ? Ele fez algum filme passado em nosso tempo ? Uma bela decepção este Alice. Apenas uma bonita sequencia de belos cenários com trilha sonora fraquíssima e perdida de Danny Elfman. Um equívoco que será amado pelos emos, góticos e moderninhos de butique. Nota 4.
O LEÃO NO INVERNO de Anthony Harvey com Peter O'Toole, Katharine Hepburn, Anthony Hopkins, Timothy Dalton, Jane Merrow
Um filme perfeito. Texto, foto, trilha e atores. Ele começa forte e não para de crescer até seu final exultante. É um filme que nos dá alegria, força, vontade de criar e de viver. Ele é grande. Comento-o mais abaixo. Nota DEZ !!!!!!!!!!!
ORGULHO E PRECONCEITO de Joe Wright com Keira Knightley, Mathew MacFayden, Rosamund Pike, Donald Sutherland e Carey Mulligan
Joe é bom diretor. Foi ele quem fez o excelente Desejo e Reparação. Aqui, em história de Jane Austen, ele acerta outra vez. Ao contrário de Burton, ele entende e respeita o livro, não se mete a fazer desconstruções e outras tolices. Ele compreende acima de tudo que no mundo de Austen o dinheiro manda no amor. O filme é uma festa. E o elenco se mostra a altura, principalmente Brenda Blethyn e Donald Sutherland, que fazem os pais das cinco filhas casadoiras. Um filme que diverte, emociona e não apresenta um só erro. Austen, Henry James e Dickens são adorados pelo cinema. Felizmente. Nota 8.
PAISAGEM NA NEBLINA de Theo Angelopoulos
Mais uma chance para Theo. Não dá ! Ele é muito chato. É a história de duas crianças procurando seus pais. Mal filmado, mal encenado. Nota Zero.
OS ASSASSINOS de Robert Siodmak com Burt Lancaster, Ava Gardner e Edmond O'Brien
Os primeiros dez minutos são coisa de gênio. Dois caras entram em lanchonete e prendem todos lá dentro. Os dois estão lá para matar um homem. Em termos de clima, fotografia e movimento de câmera é uma aula. Os dois acabam por matar o homem e o filme é a história do porque desse crime em flash-back. É um dos maiores clássicos do filme noir. Tudo nele é fatalidade, pessimismo, podridão e tem Ava, perfeita como a mulher muuuuuito fatal. Não é para ser apenas assistido, é aula de cinema. Nota 9.
A IDADE DA INOCÊNCIA de François Truffaut
O filme fez com que eu lembrasse do porque Truffaut ser tão famoso. Após o fracasso de Adele H, ele lançou este barato e simples filme sobre crianças e escola. Foi sucesso de crítica e estouro de bilheteria. É um filme paraíso : amamos as pessoas e aquela vila. Tudo é dirigido com leveza de poeta e com amor de anjo. Um filme para trazer alegria ao mundo. É pouco ? Nota DEZ.
QUATRO IRMÃS de George Cukor com Katharine Hepburn, Joan Bennet e Jean Parker
Baseado no classico de Louisa May Alcott, livro e filme mostram exemplarmente o modo como os americanos se viam e ainda tentam se ver. Kate está encantadora como a irmã mais estourada de uma família de quatro irmãs no norte dos EUA de 1865. Seus romances, suas tragédias, seus risos. O filme é bastante antiquado. Uma peça de museu. Mas é bonito. Nota 6.
TUDO PODE DAR CERTO de Woody Allen
É engraçado ver Larry David fazendo Woody Allen. E é bom saber que ainda existem filmes como este : adultos sem serem tristes. Se voce ama Woody ( e este é meu caso ) voce vai adorar. Se voce o detesta, fuja dele. Não é como seus filmes europeus, filmes que podiam agradar até os anti-Woody, este é o Woody de New York, cheio de palavras, amargo e engraçado, classe média, urbano, neurótico. Fica longe dos melhores filmes dele, mas nos faz lembrar do verdadeiro Woody. E eu adoro isso ! Nota 7

AFINAL QUEM FAZ OS FILMES - PETER BOGDANOVICH

São 900 páginas de muito interesse. Peter Bogdanovich, diretor de A ULTIMA SESSÃO DE CINEMA e de WHAT'S UP DOC ? passou anos entrevistando importantes cineastas que fizeram a história do cinema americano. Neste volume da Companhia das Letras, ele nos apresenta algumas de suas entrevistas ( Já que as conversas com Ford e Welles seriam publicadas em volumes próprios ).
A longa introdução escrita por Peter, que começa com a lembrança de conversa com Warren Beatty, já é por sí uma maravilha. Ele, amorosamente, relembra a Hollywood que conheceu ( uma Hollywood já em seu fim ), o privilégio de ainda ter podido conhecer Hitchcock, Billy Wilder e Jean Renoir.
Allan Dwan é o primeiro a ser entrevistado. As entrevistas são organizadas por ordem de idade e Dwan é o mais velho. Um mestre de grandes produções do cinema mudo que se tornou um cineasta classe b no falado. Com Dwan conhecemos o nascimento do cinema, a época em que verdadeiros aventureiros dominavam a arte e o quanto de improviso havia em tudo.
Uma curta entrevista com Raoul Walsh vem depois. Walsh que antes de ser diretor fez de tudo um pouco, um cara que foi marinheiro, que conheceu cowboys de verdade, que foi ator de circo. E que como diretor sempre foi grande, desde aventuras do cinema mudo, passando por filmes de pirata, dúzias de westerns, filmes de gangster e comédias. Filmou até os anos 60 !
Fritz Lang vem a seguir. O muito vaidoso Lang. Conhecemos o cinema alemão então, indústria que rivalizava com a americana ( e tomamos consciência de um fato : com o cinema mudo todo filme era internacional. Todos falavam pela mesma língua, o gesto ). Lang fala do cinema nazista, da invenção da ficção científica, de seus clássicos e de sua fuga para os EUA.
Josef Von Sternberg dá uma curta entrevista amarga. O descobridor de Dietrich e gênio do cinema barroco, fala pouco e fala mal. Despreza sua própria carreira.
Howard Hawks ganha 140 páginas de diálogo. Tomamos consciência de que nenhum diretor clássico se levava a sério. Todos fizeram filmes como coisa provisória, enquanto não surgia nada melhor. Todos mantiveram esse dom de conversar sobre seus clássicos de forma jovial, sem qualquer afetação, com humor. Hawks foi piloto de avião, de carros de corrida e caiu em Hollywood por brincadeira. Foi ficando... foram 40 anos de carreira e cerca de 50 filmes. Um gênio na comédia e na aventura, ele fala de atores, diretores e de escritores ( foi amigo de Faulkner e de Heminguay ) sem jamais se vangloriar. É a mais deliciosa entrevista.
Leo McCarey, diretor de imenso sucesso, é o seguinte. O cara trabalhou com O Gordo e o Magro, com Harold Lloyd e os Irmãos Marx !!!! Mae West e WC Fields !!!! E vários Cary Grant. Leo é entrevistado em cama de hospital, morreria pouco tempo após a entrevista. Um homem elegante, de humor cristalino.
O muito bem sucedido George Cukor dá belo depoimento. Um esteta que dirigia atrizes como ninguém. Diretor favorito de Kate Hepburn, lançador de várias estrelas, o homem de MY FAIR LADY.
Vem então Alfred Hitchcock, e tudo o que tem Hitch no meio é importante. Ele não é sovina : ensina a dirigir durante a conversa com Peter. Conta como se deve construir o suspense, como cortar, como usar o humor. Hitchcock fala do cinema com ar de quem sabe tudo, mas nunca como artista ou gurú. O ponto que une todos esses pioneiros é sua falta de afetação. Eles se viam como competentes no que faziam, mas consideravam o cinema uma arte menor, uma diversão. Foi a nouvelle-vague que os convenceu do contrário.
Edgar G. Ulmer fala sobre o policial b e é fascinante seu início no mundo do filme classe z. Seu convívio na Alemanha com todos aqueles que fariam o cinema americano ( Murnau, Zinneman, Wilder, Siodmak, Dieterle, Lang )
Chegamos a Otto Preminger, que dirigiu alguns dos melhores filmes noir e nos anos 50 filmes corajosos, de crítica social. Um grande diretor, famoso, tirânico, de sucesso.
Joseph H. Lewis é por outro lado o perdedor. Sem sorte nenhuma, este diretor de talento, acabou a vida na TV. Fez westerns maravilhosos e um super-clássico policial.
Temos agora o grande grande grande Chuck Jones, o criador do Papa-Léguas, de Pepe Le Pew e do Frajola. Ele fala do ambiente da Warner, a loucura do pessoal da animação, do prazer de se criar desenhos que eles sabiam serem imortais. Chuck, um ídolo pessoal meu.
Vem Don Siegel, o criador do Dirty Harry, o macho do filme b.
Frank Tashlin, que Godard considerava gênio, criador das melhores comédias de Jerry Lewis, o primeiro cara a satirizar astros de rock, e que começou trabalhando na equipe de Pica-Pau e depois do Pernalonga.
Robert Aldrich fala de seus filmes de guerra, da violência, do futuro do cinema, de ação. Já é um diretor que vê o cinema como negócio, que mete o peito no lixo, e que consegue às vezes ( apesar dos produtores ) grandes filmes.
Com Sidney Lumet temos a última entrevista. Ele representa os diretores que vieram imediatamente antes da geração de Bogdanovich. Diretores que começaram em TV, que viam filmes como arte, que seguiam os diretores europeus, que estudaram para ser cineastas. Com a geração de Lumet ( da qual fazem parte Altman, Nichols, Penn, Frankenheimer e Pollack ) termina o aventureiro, o cara que se tornou diretor por acaso. Nasce o cinéfilo, o cara que só entende de filmes, só fala de filmes e cuja experiência de vida se deu numa tela em sala escura.
O livro é uma saga. Começamos no século XIX e terminamos na era da TV. Diretores piratas, diretores gigolôs, diretores soldados de guerra, diretores ciganos.... até chegar nos ratos de cinemateca.
Para quem adora filmes, não existe livro melhor.

NA IDADE DA INOCÊNCIA - TRUFFAUT

Em 1976 fui pela primeira vez, sozinho, ao cinema . Eu era uma criança em 1976 e fui ao cine Astor, o imenso Astor, com amassado trocado num bolso, assistir NA IDADE DA INOCÊNCIA.
Cheio de medo, desci do Ônibus e fiz hora, cheguei cedo demais. O Jornal da Tarde elogiara muito o filme e era Truffaut naquele tempo meu diretor favorito. Graças a filmes como A Noite Americana e A Sereia do Mississipi, que eu vira na TV. Cinema era muito barato, a mais barata das diversões. Um garoto de onze anos podia ir com cinema com o dinheiro de duas cocas. Entrei na sala vazia ( era quarta, quatorze horas) e o assisti. Gostei, mas não muito, e nesses anos todos nunca mais o revi.
Agora, décadas depois......É o Melhor filme de François Truffaut e um dos melhores filmes dos anos 70. Talvez seja o mais belo filme já feito sobre o comeco do infância. E mostra as diferenças entre Itália, Inglaterra, França e EUA.
Foi a França, através de Rousseau, o primeiro país a dar a devida atenção à Criança. O filme de Truffaut faz digno tributo a essa tradição.
Filmes americanos sobre a infancia tendem a transformar tudo em gracinhas de pequenos adultos. Ingleses fazem da criança vítima do sistema e italianos vêem crianças como poetas ingênuos. Franceses as respeitam como aprendizes da vida. Na visão do cinema francês, Rousseauniano, toda criança é um ser sincero. François Truffaut ama-as. Ele é uma delas.
O roteiro mostra momentos de uma sala de aula numa pequena cidade do interior. Aulas, intervalos, professores, namoros, os pais, as ruas. Nada grita no filme: Truffaut, que é sempre tão suave, tem aqui toque de veludo, o filme desliza sem drama pesado, sem forçar nada. Possui uma alegria maravilhosa.
Duas cenas são de genialidade absoluta: a sacada do Bebê e a história do ator-assobiador (somente esta cena já faria do filme coisa genial). Você gargalha e sente gratidão pela engenhosidade de François. Não há um só momento entediante e cada pequena cena (e é ele todo feito de pequenas cenas, Não há protagonista) é plena de vida, de apelo e verdade. Truffaut jamais foge das implicações da meninice, ele arquiteta o filme como sinfonia colorida.
Um professor, que é a voz de François, François que foi delinquente infantil, faz um discurso soberbo em sua verdade simples. Ele defende as crianças. O filme é advogado de todas elas.
Fazia tempo que eu não via um grande filme de Truffaut. Eu havia esquecido o porquê dele ser tão Famoso. Este filme, obra-prima de pureza, mostra o poeta, o feiticeiro que ele foi. Nada aqui é complicado, nada gigantesco, nada faz chorar. Você é seduzido por todas aquelas crianças, pelo bem-viver, pela câmera alada de François.
Pois aquela vila é um paraíso! E mesmo em suas dores é uma vida que vale a pena.
E nada mostra melhor essa genialidade do diretor que a cena da menina que não vai almoçar com os pais. Esperamos final em rebeldia ou lágrima. Nada disso. Truffaut resolve essa cena com humor. Maravilhoso.
Quando voltei para casa, em 1976, eu queria ser François Truffaut. Hoje, milhões de filmes depois, prefiro ser Howard Hawks, Mas se eu pudesse ter feito um único filme, este seria meu filme.
Naquelas carteiras, no barraco do aluno pobre, na praça e nos edifícios, na lousa e no rosto das crianças ( e que rostos belos ) em tudo Truffaut viu alegria, viu sinceridade, viu a vida.
Vacina contra mal-humor, este filme permanece como ode ao cinema, às crianças, a vida e ao amor por viver.
Truffaut foi único.