O INFERNO DO BUDISMO

Passaram-se 2500 anos desde que Sidarta Gautama esteve entre nós. É bom recordar isso, pois nunca estivemos tão distantes do que ele disse. O mundo, dia a dia, se torna cada vez mais a imagem daquilo que Buda chamava de Inferno. Um mundo onde o desejo é o único rei.
Todo cara metido a intelectual já namorou o budismo. E intelectuais verdadeiros também. Desde Schopenhauer, passando por Wagner e Hesse, todos sentiram fascinação pelo milagre mental executado por Gautama. A criação de uma religião sem qualquer tipo de Deus. Que sequer fala de paraíso ou inferno, que nega a individualidade, e que em sua forma verdadeira, não fala sobre imortalidade. É o ponto máximo do pessimismo humano. Mas estranhamente, dentro desse pessimismo é a única forma de paz absoluta que conheço.
Após a morte de Buda ( e ele morreu em nirvana. E morrer em nirvana significa nunca mais encarnar. E nunca mais encarnar significa o bem supremo : deixar de existir. ) seus seguidores deturparam tudo o que ele pregara. No Japão criaram até mesmo deuses budistas, o que é a negação do próprio budismo ( como ser desapegado se apegando a um deus ? ). Mas isso ocorreu com todas as religiões. A transformação de um caminho individualista numa forma de politica. Mas vamos ao inferno e ao céu.
Buda descobriu algo que considero extremamente ousado. Toda a infelicidade humana vem de desejos não satisfeitos. Mas é próprio do desejo o ser insaciável. Portanto a vida consiste na infelicidade de desejos jamais saciados. E todo desejo é uma ilusão. Nenhum desejo pode salvar sua alma da dor, da fome e da morte. Correr atrás dos desejos, obedece-los é emaranhar-se em armadilhas, viver na mentira, naquilo que não dura. Pois o desejo é finito. Como vencer a ilusão? Como ser livre? Negando o desejo. Ignorando-os. Vivendo para aquilo que independe de querer, de procurar, de ansiar. Tudo o que está fora do mundo de espaço e tempo, o que é para sempre e constante, a verdade.
Buda bate de frente com o freudianismo em que vivemos. Para ele o mal não é a repressão do desejo. O mal é a escravidão a carne e ao desejo, o depender de coisas e de seres. Mas observe: o não-desejo budista é ato consciente. Não é medo do mundo real, é a transcendencia. Jamais sintoma ou fuga, antes, abandonar-se suavemente à vida.
Voce sabe que vivemos no império do tempo e do desejo. Ser feliz é satisfazer desejos e ser livre é ter tempo. Tudo ilusão. O desejo satisfeito não existe. O tempo não existe. Satisfazer um desejo é saciar coisa transitória. Ter tempo é ter coisa alguma. Mas o que o budismo nos dá?
Estranhamente ele nada nos dá. Para o budismo não existe recompensa. Voce segue o bom caminho ( não matar, não se iludir, não guerrear, não comer carne ) e talvez ganhe como recompensa o não existir. É preciso então dizer o que é a reencarnação budista.
O que reencarna é a vida, não voce. Nada daquilo que voce é ou faz pode sobreviver. Porque são coisas ilusórias, existem no mundo do desejo. A fagulha de vida que é parte do universo é que reencarna. Se voce for ruim, esse seu tesouro volta como bicho. Pois para o budismo, o animal é o ser completamente preso. Um bicho não tem opção. Viver para ele é viver no desejo e na ilusão. Fome, cio e medo. É uma visão do bicho bastante anti-Disney. Os animais não são bons ou ruins, são escravos de seu instinto. O homem pode ser superior a isso. Ou não.
Buda teve a coragem de enxergar que tudo termina em ruína. Que seremos trapos envelhecidos, que sempre sentiremos dor e que tudo o que fica de nossa brilhante passagem são cinzas e vazio. Mas sua intuição genial foi a de entender que tudo isso não tem valor algum. Se viver é uma miséria então viver não é tão importante assim. O que importa é o que está fora da vida e da morte, e isso não pode ser falado ( palavras são vãs. Budismo é religião sem discurso ). Nirvana.
Não sei se já tive alguma fagulha de experiencia budista. Mas sei, por experiencia própria, que a felicidade genuína só existe em solidão. Para ser feliz voce não pode depender de alguém ou de alguma coisa. A felicidade a dois é felicidade que depende, que possue, que é sempre insegura. Que vai acabar. A felicidade com o eterno ( que não é deus nem algum santo ) é para sempre. Não depende de tempo, de lugar, e atenção: nem de voce mesmo. Ela é o momento em que voce deixa de ser voce, em que voce se desvanece.
Atingir esse estado com droga ou ação é depender de coisas. O estado de bem-viver estará preso a droga ou a ação, voce será escravo. Ele deve nascer de dentro de voce, do além de voce, do nada vazio que há em nós, do absoluto zero. Onde não há desejo, tempo, vontade ou imagem.
Eu já vivi vislumbres disso. Em tempo de absoluta solidão. De total falta de dinheiro. De nada para fazer ou planejar. Em que o risco da depressão era constante. Mas foi momento em que consegui ir além da tristeza e da dor. Em que o nada querer e o nada fazer se transformaram em existir. Em que percebi a imensa insignificancia de meus desejos, de minha vida, de todas as vidas, de todo o universo. Em que vi a pequena ilusão de tudo aquilo que parece importante, no caminho cheio de estridencia e bobagens que trilhamos. Vendo tudo isso me deparei com o desespero e o puro cinismo. Mas voce o supera com o budismo. Porque voce percebe que mesmo o desespero e o cinismo é um nada. Voce os ignora.
Há pouco espaço para o amor em Buda. Amor é paixão e paixão é escravidão a um outro. Mas há lugar para compaixão. Nasce um sentimento de respeito ao que importa, e a vida de tudo e de cada um importa, pois todos estão empenhados em transcender a miséria do desejo. A maioria de forma errada. Mas voce também. Um budista não irá te consolar ou te erguer do chão. Ele também não tentará fazer sua cabeça ou se aproveitar de sua fraqueza. Ele seguirá seu caminho e esperará que voce siga o seu. Ele nada tem de cristão.
Apesar de não comer carne e de ser desapegado de amigos, estou tão longe do budismo como voce está. Sou escravo de conforto, de boa comida e de mulheres bonitas. Aliás, sou escravo de tudo o que é bonito. Sou amante desta vida. E temo terrivelmente a morte. Mas já senti, com uma certeza rara, que Buda está certo. Que existe uma paz absoluta onde cessa tudo. E que este mundo é um absoluto engodo.
Sincera e lentamente eu sinto que minha vida caminha para o caminho amarelo. Mas os objetos são muitos e eles me atrasam. Mas eu vou chegar lá. Um dia.