OLHE TODA ESSA GENTE...

Oh... Olhe para toda essa gente solitária...
Deve ter sido uma emoção sublime a de ligar o rádio em 66 e ser surpreendido por esse início... E então o quarteto de cordas...
Descobri a canção, feita por Paul, aos 12 anos, bem depois. Lembro de grava-la num k7 e ficar repetindo a música várias vezes. Ela me raptou. Entrada para Bach.
Paul prova que inteligência musical é diferente de inteligência verbal. Como Schubert, Mozart ou Satie, você pode ser um gênio com os sons e nada ter a dizer com o verbo. Números, palavras e música, três línguas que não se misturam.
Essa a inveja e o ressentimento, quem ligava o rádio em 66 era surpreendido...

KUROSAWA/ KEVIN KLINE/ STEVE MARTIN/ DORIS DAY/ TOM COURTNEY

A SOLIDÃO DE UMA CORRIDA SEM FIM de Tony Richardson com Tom Courtney e Michael Redgrave
Com seu lançamento em DVD, muito critico inglês passou a colocar este filme entre os dez mais da ilha. Feito em 1963, conta a saga de um teen pobre e desiludido. A mãe tem amantes, a casa é suja e cheia, as namoradas tolas. Ele rouba uma padaria e é preso. Na Febem inglesa ele se destaca como atleta. Mas as coisas nunca são fáceis. Richardson faria Tom Jones em seguida, e Redgrave faz o diretor da Febem. Tom Courtney tem um desempenho mágico. Sujo. O filme é magnifico. Nota 9.
UM FILME FALADO de Manoel de Oliveira
Uma enfadonha aula de historia. Melhora na interação final entre os atores. O sentido é óbvio, a Europa começou no mar de Portugal e termina na nova ordem atual. Bem...não deixa de ser bonito.
A ESPIÃ DAS CALCINHAS DE RENDA de Frank Tashlin com Doris Day e Rod Taylor.
O titulo ridículo não estraga o prazer de ver este tolo filme pop. Tashlin começou como cartunista do Pica Pau. Seus filmes têm sempre a leveza do humor visual. Doris é confundida com uma espiã. Ruy Castro, fã de Doris, não gosta do filme. Eu gosto.
MY BLUE HEAVEN de Herbert Ross com Steve Martin, Joan Fusão e Rick Moranis
Não gosto. Um dos piores filmes do grande Martin. Nem ele salva essa chatice sobre um delator de NY sendo protegido pelo tira do FBI Moranis. Fuja!
TEMPO DE RECOMECAR de Irwin Winkler com Kevin Kline, Hayden Christensen e Kristine Scott Thomas.
Um homem que fracassou como pai e marido descobre que vai morrer. E dá sentido a sua vida reformando sua casa. Kevin está excelente. Mas...em 1952 Kurosawa fez o mais triste dos filmes, Viver, onde Shimura faz uma praça antes de morrer. Impossível comparar.  O japonês é a obra de um deus.
SONHO DE AMOR de Charles Vidor Com Dirk Bogarde e CapucineHorrivel! É sobre Liszt… mas nada faz sentido.
AS AVENTURAS DO CAPITÃO GRANT de Robert Stevenson com Hayley Mills e Maurice Chevalier.
Bela adaptação de Verne. Ação na medida certa. Apesar dos efeitos ruins, tem boa direção, bom roteiro e produção Disney. Os atores são ótimos!
A MAIOR HISTORIA DE TODOS OS TEMPOS de George Stevens com Max Von Sydow
O diretor de Shane e de tantos grandes filmes faz a vida de Jesus sem emoção. O ator favorito de Bergman faz Jesus. Dura quatro horas e levou anos para ficar pronto.

POR QUÊ TANTAS BIOS?

Suspeito que biografias funcionam como auto-ajuda. Quem tem vergonha de ler auto, lê bio. Ou quase isso.
Ao ler uma bio podemos experimentar três impulsos: pensar que se ele pode eu posso, se ele superou eu supera rei, ou a pura satisfação de uma curiosidade.
A bio parece útil por isso, dá exemplos de força de vontade, mostra que até os bacanas sofrem, e principalmente acariciam nosso ego ao provar que sou parecido com o artista X, ou com a celebridade Y. Vida real, o leitor é real, o livro se faz útil por ser um exemplo.
A questão é, para que serve a ficção ? Quem garante que aquilo pode ter algo a ver com m8nha vida?
Na patológica sociedade narcisista de hoje, só interessa o que pode me fazer bem. E por incrível que pareça, a biografia se torna um espelho. Útil, uma ferramenta.
Mal sabe esse leitor que no minimo a ficção pode lhe dar o alivio da pressão sobre o ego, a distancia do espelho. A ficção dá a chance de se conhecer outra forma de ver e de pensar. Porque na verdade, fora brilhantes exceções, toda bio é a mesma escrita, a mesma forma, o mesmo espelho.
Ficção aumenta nosso repertorio de mundos, de chances, de liberdades.
Quem quer?

SO' GAROTOS....PATTI SMITH

A frase que revela a alma de Patti é dita quando ela diz que Robert não conseguia perceber o romantismo da febre, de se estar doente. Ela percebe. Patti é uma romantica. Rimbaud, Baudelaire, Rousseau são guias. Sua geração foi a ultima geração culta do rock. Depois existiram românticos, mas artísticos de verdade não.
O rock é coisa pura, energia sem razão. Isso é maravilhoso, isso foi único. Com Dylan o intelectualismo invadiu a coisa. Esse intelectualismo quase matou o rock, mas trouxe Zappa, Joni Mitchell e acima de tudo o VELVET UNDERGROUND. Patti nada tinha a ver com o mundo do rock. ComoLaurie Anderson, David Byrne ou August Darnell, sua praia é outra, a poesia. Patti poderia ser uma chata. Não é. Ingenua sempre. Uma pessoa adorável.
Sam Sheppard namorou Patti Smith! Isso é incrível! Para quem não lembra, Sam escreveu o roteiro de PARIS/TEXAS, fez o papel de Chuck Yeager em OS ELEITOS, e é marido de JESSICA LANGE desde os anos 80.
Não espere ler aqui sobre rock. Ele é sobre boemia. Sobre um casal apaixonado. Sobre o estranho Mapplethorpe e a boazinha Patti Smith. A Esta ira, e o modo como Rimbaud, Keith Richards e JESUS CRISTO guiaram a vida dessa menina sem igual.
O livro também mostra o contraste entre a década de 60 e a de 70. A primeira foi utópica, trágica e infantil. A dos 70 foi cínica, egocêntrica e centrada no culto às celebridades.
Eu lembro de quando saiu Horses. Causou surpresa por ser sem rótulo. Não era folk, nem hard, prog ou pop. Lançado em ano de transição, foi, ao lado de Born to Run, de Springsteen, disco do ano. Depois inventaram que ela era punk!???!!! Nunca foi! Patti ignora Stooges, MC5 E OS DOLLS. PATTI foi da mesma matriz de Lou Reed, arte, Andy Warhol, beats, cinema, franceses.
França... Faz falta essa influência boemia/Montmartre no rock de hoje. Ambição...
Devore o livro! É bom pacas!

MONGES

Quando os vikings invadiram a Europa, e estupraram, queimaram, massacraram, nosso mundo sobreviveu graças a meros monges irlandeses. Eles esconderam textos antigos e esperaram a poeira baixar. Então andaram a pé por todo o continente, fundando mosteiros, escolas. Sem eles a Europa seria hoje um apêndice do mundo e eu seria um muçulmano. Quais serão os monges de hoje? Quem salvará os textos?
Quando comecei a ler jornais, nos cadernos culturais os autores vivos mais comentados eram NABOKOV, BORGES, CORTÁZAR, BELLOW, GRAHAM GREENE, BECKETT. Ainda se falava de Gide e Malraux. Hoje se fala do que? Aliás, ainda há caderno cultural?
Hoje um amigo falou de Paulo Francis. Francis dizia que quando fumava maconha ouvia Wagner a todo volume.
Em 1752 Samuel Johnson mandou uma carta para um nobre inglês dizendo dispensar um mecenas. Um artista não mais obedeceria a ninguém. O publico culto o sustentaria. O mundo do que conhecemos nasceu nesse dia. Ainda existe?

PLATO E VICO

Uns dias depois do livro de Frenkel, releio um pouco de Vico e já nem sei se Frenkel não estaria errado. Ele é completa e assumidamente platônico. Para ele a Matemática existe independente do homem. Um mundo ideal, perfeito, um continente que cabe ao homem descobrir e procurar traduzir. Mas Vico me recorda que não é nisso que acredito.
Vico conta que o homem pode conhecer completamente apenas aquilo que ele produz. Um homem saberá tudo sobre um trem, mas não sobre o que seja a energia que move o Cosmos. Saberá tudo sobre um coração mecânico, mas não poderá jamais criar um coração de carne a partir do nada. Do que não fizemos saberemos apenas uma ínfima parte, e a cada parte compreendida, milhões de novas duvidas virão. Isso é Vico, dizendo que o homem poderá compreender todo o mecanismo da historia, da sociologia, mas nunca tudo sobre a física ou a biologia, pois se nós construímos a historia e a sociedade, não fomos nós os criadores da vida ou da mecânica do universo.
Creio nisso. E para mim a matemática é uma criação humana, abstrata, e suas leis existem dentro do mundo do homem, em sua razão, e morrerão se um dia o homem sumir.
Como sempre disse, o Um existe apenas como invenção racional, e o Zero é uma soberba convenção humana. Fora de nosso cérebro inexiste o Um e o Zero.
Vico sabia disso.

FISH RISING...STEVE HILLAGE. A CARA DO LSD.

A capa surge em meu caminho. STEVE HILLAGE? Esse guitarrista tocou no GONG! E com um monte de gente. Faz parte da cena de Canterbury.
Canterbury... Sul da. Inglaterra. Centro da igreja. Foco de romaria na idade média. Nos anos. 60 viu o nascimento do rock mais LSD da ilha.
Steve Hillage...e é um LP nacional. Não sabia que lançaram coisas assim por aqui em 1975. Esse tipo de som vendia pouco. Era muito bagunçado para os Progs,  muito leve para os Heavy, e nada Pop para os demais.
Olho a capa. Parece coisa de cigano. Feia. Desenho de peixes. Varas de pesca. Rio. Letras mal escritas. Viro o disco e vejo a capa de trás. Fotos. Steve no mato, pescando e tocando. Roupas largas, touca de lã. Barba e o olhar. Cara de ácido. Sabe como é? O sorriso LSD. Membros da banda. Parece gente voltando de rave em Ibiza em 1992. Vou com a cara de todos. Um está com seu cão.
O som.
Os títulos dizem tudo: Song of the Salmon. I love the Holy. Song Sacred.
Steve sola o disco todo. Sem parar. O resto da banda cria ritmos. A sensação, primeira, é de aversão, mas após dez minutos você começa a viajar. O vocal lembra Perry Farrell. O som é  meio Soft Machine, meio Janes Addiction, com doses de Gong. Gosto.
A gravadora é Virgin. Virgin? Poda! Richard Branson! Foi aqui que o hippie Branson começou sua saga! A gravadora mais hippie de Londres! E que em 1977 iria ser a única a ousar gravar os PISTOLS!
E hoje Branson é o cara que 99% dos caras queria ser.
O povo da cena de Canterbury acreditava em magia. Bruxas. A história da Virgin provou que eles estavam certos.

AMOR E MATEMÁTICA, O CORAÇÃO DA REALIDADE ESCONDIDA- EDWARD FRENKEL

Primeiro peço que não se confunda física com matemática. A física lida com aquilo que pode ser mensurado no mundo real, a matemática procura descobrir aquilo que sempre existiu, independente do homem, no mundo das idéias perfeitas. Platonismo? Sim, Frenkel defende o platonismo puro da matemática. É a única coisa conhecida no mundo que nada tem de física ou de mental. A matemática não está numa caverna para ser encontrada, não mora no mundo microscópio, não é acessada por telescópio, portanto ela não é solida. Ao mesmo tempo, a matemática não é criada por alguma mente genial. Pitágoras nunca inventou nada, ele descobriu algo que já estava lá desde antes do homem. O mesmo se dá com toda a matemática, nada nela foi criada, inventada, ela existe independente de nossa existência. É atemporal. Nosso cérebro jamais poderia a ter criado, ela vai além de nosso entendimento. Tudo o que fazemos é tentar conhecer seu universo.
Desse modo, todo conhecimento matemático não tem e não pode ter dono, ele é parte de todos, é uma linguagem sem tempo e sem fronteira, mas, ao contrário das línguas gramaticais, a lingua dos números não foi inventada, ela é desvendada.
O que se percebe é que o universo é todo feito de matemática, e este livro tenta nos fazer perceber alguma coisa do que seja essa matemática.
Esqueça a velha matéria da escola. Frenkel diz que o que nos ensinam são rabiscos sem sentido. O que o livro dá é aquilo que surgiu nos últimos 50 anos. Feixes, cordas, planos, campos morfológicos, correspondências. Claro que entendi pouca coisa, sou um homem da linha e do ponto, da palavra, a abstração, um número que simboliza dez dimensões...isso me é quase inalcançável. Mas percebi a nobre humildade desse conhecimento, a quase assustadora imensidão de seu questionamento. A matemática procura as perguntas certas e vai atrás do mundo das idéias puras, dos segredos menos humanos, os segredos matemáticos.

HOBBIT/REX HARRISON/ AL PACINO/ RAY/ SODERBERGH/ DORIS DAY

JUMBO de Charles Walters com Doris Day, Jimmy Durante, Martha Raye.
A vida no circo, onde Doris é a filha do dono, que por sua vez gasta tudo em jogo. O filme é simples, alegre, e entretém. O trio central brilha com sua simpatia. Nota 6.
O ENXAME de Irwin Allen com Michael Caine, Henry Fonda, Richard Widmark.
Abelhas africanas botam pra quebrar no Texas. Caine é um cientista. O filme tem uma direção inábil. Tão trash que fica até funny.
O ÚLTIMO ATO de Barry Levinson com Al Pacino
Birdman? Ator em crise tem ataque no palco. Fica preso do lado de fora, vai morar isolado, se envolve com gente doida... O filme é o mais árido da boa carreira de Levinson, e Pacino está interessado. Confuso, não é um bom filme, mas é interessante. Nota 4.
ADEUS À LINGUAGEM de Godard
Incompreensível. Cenas de um casal, muita nudez, frases inteligentes, imagens trêmulas, confusão. Godard aina é difícil, rebelde, ácido. Atira contra tudo e parece concluir que a linguagem se desfez, não faz mais sentido.
O HOBBIT, TODOS OS TRÊS. de Peter Jackson com Martin Freeman, Ian McKellen
Jackson tem coragem! Após os anéis ele arrisca os dedos. Volta à Tolkien e usa um livro muito mais pobre do autor. E o estica em quase nove horas de cinema. A parte um é boa, a segunda é ruim e a terceira é a melhor. Um erro está no elenco. Freeman é um hobbit ótimo, mas o líder dos anões é fraco. De todo modo, há uma beleza estética que não cansa. O maravilhamento dos anéis se perdeu, mas é boa diversão. Nota 6, 3 e 6.
FULL FRONTAL de Soderbergh com Julia Roberts, David Duchovny,Catherine Keener
Soderbergh e seu medíocre lado artístico. Ele brilha quando pop, mas, inseguro, acha que precisa provar ser arteiro, e faz suas besteiras metidas à Cassavetes ou Godard. Aqui é um filme dentro de um filme. Só what?
THE CHESS PLAYERS de Satyajit Ray
No século dezenove enquanto a Inglaterra se apossa da Índia, dois nobres se distraem jogando xadrez. O filme é chato e é forte. Ficamos entediados, mas depois que ele acaba não nos larga. Lembramos dele com admiração. Isso é arte. Nota 7.
ASFALTO de Joe May
Filme mudo alemão de um dos mais poderosos nomes da época. Um tenente de policia é seduzido por uma mulher fatal. O filme tem um belo clima sensual. Pode ser um bom começo para aqueles que desejam adentrar o mundo do cinema dos anos vinte. Nota 6.
ANNA E O REI DO SIÃO de John Cromwell com Irene Dunne e Rex Harrison.
Primeira versão da historia da professora que vai à Tailândia ensinar rei a ser moderno. Lindo, dramático, serio e muito bem interpretado. Rex consegue ser duro, frio, e frágil ao mesmo tempo. Envelheceu nada esta produção Fox. Nota 8.

Jane Eyre - Charlotte Bronte.

Charlotte, irmã mais velha da grande Emilly, criadora do monumento literário que é o Morro dos Ventos Uivantes, cria aqui um livro que mistura horror gótico e amor frustrado em doses iguais. Charlotte Bronte escreve melhor as cenas de medo, de mistério e de escuridão. Já quando nos mostra o modo como o amor se afirma ela é menos eficiente. Jane passa fome, trabalha, luta, foge e quase morre. As pericias são muitas, o livro é rico. Vitoriano em todo seu caráter, ele joga com valores morais, com dinheiro, familia e sociedade. E, claro, tem o lar como céu desejado por todos. No romance vitoriano a casa ocupa o centro. Veja que até o seculo dezoito a casa mal se descreve, é um nada sem muito valor. A trama ocorre em sociedade ou na natureza. No seculo dezenove, temos a casa como personagem central, ou sua ausência como dor maior. Jane Eyre tem toda sua dor e toda sua motivação nessa instituição, o paraíso da casa, o reino da privacidade.

Herança Vitoriana

Uma poltrona junto à janela. A lareira. Abajures. Mesa com um Porto. Aparelho de chá. Um cão fiel. Flores. Cartas. O ursinho Teddy Bear. Beatrix Potter. Peter Pan. Charutos e brandy. Holmes e Drácula. Bigode. Chess. Manta e cachecol. Atkinsons. Tecido xadrez. Trens. Planos e táticas. Diplomacia. Espiritismo. Pragmatismo e fotografia. China. Fabergé. Cavalos. 

Linguagem. Adestrados e Engasgados.

A coisa tem nome: adestramento. Somos adestrados com uma linguagem, violentamente somos treinados a falar, mais e acima de tudo, passamos a aceitar a ideia de que o real só é possível se for um discurso. Adquirimos,  compulsivamente a lingua e o pensamento vira discurso e o sentimento vira palavra e a intuição vira verbo. Fora da lingua nada mais existe. Se não fala é bicho, é morto, é pedra. Fora da palavra o vazio. E nessa linguagem vem a linha, a vida se torna compreensível apenas na linha, na forma da linha discursiva, começo, meio, fim. Linha. Mas hoje se começa a se perceber que não. Embora ainda seja cedo para ver, começamos a suspeitar que a lingua é apenas um modo, arbitrário de se poder conviver, pensar, fazer parte, mas que o universo fora da lingua Existe e é um outro. Fora da linha infinitas possibilidades. Converso com dois físicos e eles me dizem que a Física não aceita há muito o positivismo, ou seja, o conceito LINEAR de progresso, de tempo ou de certeza. O Universo é incerto e em nossa Pobre lingua. Inexiste uma forma linguística. Que Dele dê conta. Somos coisas que são porque falam e que pensam Como falam. Mas a coisa desanda. A lingua é uma ideologia que nos faz Ser aquilo para que a palavra é.  Com a lingua eu posso falar Contra a própria lingua, mas continuo dentro dela e seguindo suas leis. Não seria a historia da modernidade uma luta contra a lei da lingua? Mas o modernismo perdeu, não havia como sair da linha sem se tornar incomunicável. Não conseguimos pensar duas coisas ao mesmo tempo porque a lingua não o permite. E nunca abarcaremos o infinito porque a lingua é impotente. Do nome vem um adjetivo e tudo se faz no verbo. É assim que podemos pensar, falar e ver: De um começo um fim e de uma ação a devida consequência. É pouco. O universo é mais que nossa. Pobre

Peter Gay, Os Vitorianos.

O século dezenove começa com a derrota de Napoleão, 1815, e termina em 1914, com a guerra mundial. Peter Gay fala direto, é preciso fazer justiça, o século da burguesia, o século vitoriano foi um século feliz. Peter desmistifica a imagem comum do que seria esse tal de vitoriano. Primeiro deixemos claro, um meio que nos deu Darwin, Pasteur, Burckhardt e Baudelaire não e de todo mal. No centro da burguesia nasceu o voto feminino, o fim da escravidão e o conceito de vida privada. O autor é brilhante no modo como demonstra que até. O século XVIII dormia-se em publico, fazia-se amor detrás de cortinas. A ideia de privacidade era inimaginável. Nem desejável. Toda a vida era vivida em grupo, à vista de todos. O vitoriano, inimigo em tudo do aristocrata, abomina e teme a falta de privacidade. Ele precisa de segredo, de um lugar só seu. E mais que tudo, ele precisa da família. O vitoriano é o homem com uma pasta e um guarda-chuva, ele precisa de uma casa com recantos só seus, mas ele é também o homem que abre estradas na África, compra quadros de Cézanne e escreve artigos contra a guerra. Peter Gay mostra cartas que revelam vida sexual por detrás dos roseirais, sensualidade após o jantar e curiosidade em mulheres que não eram assim tão frígidas. Peter Gay, biógrafo famoso de Freud, diz que assim como Freud pensou que o particular fosse o geral, e cometeu o mal entendido de crer que o extraordinário fosse uma regra, os anti-burgueses, Flaubert, Zola, popularizaram a ideia de que todo burguês era um chato. Transformaram seus conhecidos em fato do mundo. Gay fala ainda dos diários, uma mania tipica da época, do surgimento do conceito de adolescência, dos colecionadores e das feministas. A leitura é deliciosa. Ao final, ele compara os séculos, e favorece o dezenove, tempo de otimismo. O seculo vinte passa como o mais cruel dos tempos e o menos vitoriano dos mundos. Deles, desse mundo ponderado, controlado e amigo do diálogo, mantivermos apenas a privacidade, que agora é solidão. Familia, cavalheirismo de camaradagem entre iguais é conceito morto. Eis o porque desse fascínio que a época exerce, ela é o ultimo tempo seguro, ela promete coisas como calma, lar e familia. Apesar de ser esse o tempo da ansiedade, foi nos anos pós Napoleão que se começa a falar de tédio e de nervosismo, ao contrario do século vinte, os vitorianos acreditavam no futuro. Eram humanistas. Amavam a inteligência. Hoje amamos o quê?

Ao Vivo No Village Vanguard- Max Gordon

Max Gordon veio ainda criança da URSS. Família pobre, trabalhou quando teen em pequenos empregos. Nos anos trinta abriu o Vanguard. A principio casa de poesia. Poetas, tipos esquisitos iam lá para declamar e principalmente para provocar…. Causa uma certa tristeza. Saber que esse tipo de casa não mais existe. Um lugar barato, onde gente idealista se sinta em liberdade. Max começou a causar frisson com Leadbelly o grande cantor de blues folk. Acompanhado por Josh White, o Vanguard vira referência. Quando em 1939, a muito jovem Judy Holliday se apresenta com seu grupo de sketches, o su sucesso se torna nacional.  No grupo,além de Judy, que em 1950 ganharia um Oscar, estavam Betty Comden e Adolph Green, no futuro roteiristas de Cantando na Chuva… Humoristas como Lenny Bruce e Woody Allen começaram por lá. O pessoal do folk, Pete Seeger, Burl Ives, Woody Guthrie. E, claro, o jazz. E é fantástico ler o texto de alguém que viu, conviveu com os caras. Miles Davis, orgulhoso, chic, frio, com sua voz gélida. O violento Charles Mingus, que socava músicos ruins, andava armado e não se sentia valorizado. Sonny Rollins, o cara que tocava sozinho em cavernas da Índia. E uma conversa incrível com Nica, a nobre inglesa que ajudava Thelonious Monk. De mais divertido há a hilária historia de Timothy Leary e a noite psicodélica. Um livro da Cosac, obrigatório para amantes de jazz e de u a boemia que morreu, segundo Max, com a TV, que passou a capturar o talento antes de seu aperfeiçoamento nas boates… melhor,Max escreve muito!

CORONEL JACK- DANIEL DEFOE

   Daniel Defoe escrevia para garçons. E para mulheres entediadas. E é essa sua maior importância. Antes de Defoe, livros eram escritos para eruditos. A literatura era específica. Homens, professores, religiosos, filósofos. Livros eram para gente do meio, gente de poder. E portanto, os textos eram como coisas fechadas. Com Defoe, que antes de romancista foi jornalista, livros passam a ser produtos. E como produtos devem ser vendáveis. O apelo precisa ser geral. O interessa variado. Daniel Defoe é portanto um escritor moderno.
   Este livro trata de um garoto que vive nas ruas de Londres. Ele rouba. Depois de várias peripécias ele vai aos EUA. Como escravo. E fica rico. Interessante o modo como Defoe vê a escravidâo. Brancos eram escravizados. Condenados ingleses eram enviados a colônia como forçados. E lá o personagem de Defoe descobre que negros têm alma! Essa parte pode chocar leitores de hoje. Mas é mérito do autor ser razoavelmente liberal. 
   O romance tem um esquema bem definido. Tudo começa nas ruas. Depois vem a fuga da lei ( e essa é a parte que mais gostei, uma viagem a pé até a Escócia ). A vida como colono na América. E só então, as mulheres. Casamentos que fracassam. Como em Robinson Crusoe, as mulheres pouca importância têm. Fala-se muito de dinheiro. O que importa é sobreviver. Comer. Ter onde dormir.
  Escrito no começo do século XVIII, época crucial em que o romance surge como manual do mundo burguês, Defoe exibe todas as qualidades e defeitos da sociedade que seria a dominante pelos próximos dois séculos.

A MAIS ODIADA DAS MATÉRIAS

   Inesperado este fato. Na faculdade de educação, que reúne gente de todas as áreas, é com o povo de exatas que me dou melhor. Deixarei de arriscar qualquer motivo porque pode ser mera coincidência. Mas é fato: eles riem mais!
   Faz dois anos que tenho me interessado cada vez mais pelas ciências exatas. Matemática. Há nela a beleza da abstração pura. E a criatividade da mais alta arte. Ela é vítima de preconceito. Pensam que ela nega a poesia, estraga o misticismo, deixa o mistério sem graça. Bobagem! Ela é poética, é irmã do mistério e em cada descoberta nasce um segredo cada vez mais obscuro. Seduz e mais que a filosofia ou a psicologia, torna a vida clara, nítida. 
   Darei uma rápida geral em Whitehead, um dos maiores gênios da lógica matemática para vocês entenderem o que me fascina.
   Inglês, trabalhou com Bertrand Russell e depois lecionou em Harvard. Viveu mais de 90 anos. Como Russell, ele parte da ideia de que tudo em matemática parte de premissas lógicas. Mas ele vai mais longe que Russell. Whitehead vai adiante.
    O Universo é uma experiência e como tal está em constante transformação. Duração, interpenetração, valor, organismo e objetos eternos, disso se compõe o Universo. Tudo isso propicia a eterna mudança, mas por baixo desse processo algo permanece sempre o mesmo. 
   Se uma montanha desmorona e desaparece ela jamais voltará a existir, pois nunca mais será a mesma montanha, e a matéria de que era constituída continua a formar outras realidades. 
   O Mundo portanto não é um conjunto de coisas, mas sim uma trama de acontecimentos sem um fim. Um corte transversal nesses acontecimentos é um momento único que nunca mais voltará a acontecer. Esse o acaso que acontece na arte, trabalho que a ciência faz, a captura de uma fatia da trama, congelamento de um momento da teia de eventos. Podemos, com sorte e sensibilidade, capturar uma fatia, mas jamais veremos o todo em sua mutabilidade. 
  Parece que não, mas isso é matemática, a tentativa de captar uma fração do todo, um momento da eternidade, o entendimento de um mínimo possível.
  Poesia? Não, pois aqui tudo é lógico. Mas há intuição, há sensibilidade e há ousadia.
  É bacana pacas!

Mystery of the Lost Fawcett Expedition : Documentary on Percy Fawcett Lo...



leia e escreva já!

CORONEL FAWCETT, A VERDADEIRA HISTÓRIA DO INDIANA JONES QUE SUMIU NO BRASIL- HERMES LEAL

   Vale muito a pena caçar este livro em sebos, na Estante Virtual, onde for. Ele é de 1997 e está totalmente esgotado. Não é bem escrito, a escrita é tipo jornal diário, apressada, mas o tema é tão fascinante, o personagem tão louco, raro, corajoso, complexo, que o livro se torna um prazer, uma fonte de aventura e um tema intrigante. Vamos lá...
   Percy Fawcett nasceu na Inglaterra em 1867. Cresceu portanto durante o reinado da rainha Vitória, o auge do mais poderoso império da história do planeta. Estudou, cresceu, se tornou coronel. Foi servir no Ceilão, e lá descobriu duas coisas: Seu amor pelas aventuras e sua queda pelo misticismo. Se tornou budista, um adepto da boa saúde e um explorador. Saindo do Ceilão, foi trabalhar na Bolivia, enviado para fazer a marcação definitiva entre as fronteiras. A coisa foi infernal!!! Impressionante o relato do que era aquela região no começo do século XX. Lama, fome, índios hostis, mata fechada, chuva, insetos. A expedição toda feita a pé e em canoas, meses sem comunicação, perdidos, reencontrados, perdidos de novo. É nessa selva que ele ouve falar de uma civilização perdida. A Atlântida, terra que existiria no Mato Grosso, Brasil. 
  Esse tema se torna uma febre mundial. Conan Doyle e R. Haggard, amigos de Fawcett, escrevem best sellers sobre o tema. Fawcett vai ao Brasil  e em 1920 parte rumo ao Mato Grosso. Ele tem a absoluta certeza de que vai encontrar um reino perdido. Devo contar mais? O que acontece? 
  Muita coisa acontece. Fawcett se perde no noroeste do estado. Essa expedição é um desastre. Entram em cena personagens como Rondon, os irmãos Villas-Boas, Chatô, Getúlio Vargas, e uma centena de caciques, tribos xavantes, kaiapós, todas perigosas, manhosas e quase desconhecidas. Para um brasileiro é tudo familiar. Na segunda expedição, cinco anos depois, ele penetra o Xingú, caminha rumo a Serra do Roncador. E desaparece. Para sempre. 
  O mundo cobria essa aventura. E com seu desaparecimento, provavelmente morto pelos índios, vem a parte mais doida do livro. Americanos, alemães, ingleses, todos vêm à procura de Fawcett. Encontrar o explorador se torna tema de jornais, o Times oferece um prêmio. E assim, pencas de lunáticos desaparecem no Mato Grosso, na Amazônia, em Goiás. São relatos fascinantes de um tempo em que o mundo ( 1930 ) ainda tinha lugares completamente secretos, nunca vistos, vastos pontos em branco nos mapas. 
  Mas o Brasil não era assim e esse foi o grande erro de Fawcett. Ao contrário do Peru e da Bolivia, que tinham imensos territórios realmente virgens, Rondon e o exército brasileiro já tinham mapeado todo o Mato Grosso, Goiás...Apenas a Amazônia era intocada, mesmo assim, apenas nas beiradas, o ciclo da borracha a havia desvirginado. 
  Isso é o que dá um ar de patética tragédia a tudo. Fawcett procurava as ruínas secretas pensando sempre estar pisando onde nunca homem algum pisou, e lá no fim do mundo, após meses de caminhada, fome, dor e medo, o que ele achava? Uma linha de telégrafo, uma fazenda, sinais de civilização. Na ansiedade por achar a cidade perdida, ele entra onde nunca poderia ter entrado, no Xingú, e desaparece. Não vamos esquecer que Machu Pichu foi encontrado somente nos anos vinte. Mas no Peru, no meio dos Andes, em um lugar realmente inexplorado. Em Mato Grosso, e Rondon o avisou, nada apontava a existência de ruínas. Mas Fawcett acreditava em todos os boatos, nas histórias dos peões, nos mitos dos índios.
  Já ao final, em 1995, há uma super expedição para se tentar encontrar rastros de Fawcett. O que acham? Nada. São roubados pelos índios do Xingú, que lhes tomam barcos, carros e equipamento de video. Se voce quer perder todo o romantismo pelos nossos índios, leia este livro. Ele não é contra o índio, apenas não o idealiza.
  Fawcett sumiu com um filho de 26 anos e um amigo do filho, de 24. Nunca mais se soube nada. E este livro, com fotos, é um belo testemunho.
  PS: Ah sim, Spielberg conheceu a história de Fawcett, ainda moleque. Indy é um tipo de irmão mais novo do inglês.

NOLAN/ GUY RITCHIE/ LILI/ DRÁCULA/ MAMOULIAN/ HG WELLS/ JODIE FOSTER/ JEAN HARLOW

RECKLESS de Victor Fleming com Jean Harlow, William Powell, Franchot Tone, Rosalind Russell e Mickey Rooney.
Quase uma obra-prima. Fleming, alguns anos antes de Oz e de E O Vento Levou, nos conta uma história que mistura drama, humor e surpresas. Powell é um malandro que vive de jogo, Tone é um rico excêntrico, Harlow uma dançarina de boate amiga de Powell. O drama surge após o casamento. Finalmente eu percebo o porque da fama de Jean Harlow, o maior sex-symbol da Metro dos anos 30. Ela realmente dá um show aqui! Vai da alegria à tristeza, do humor ao drama com naturalidade. Para quem não sabe, ela morreria cedo, em 1937, numa infecção urinária. Powell está excelente, também tem uma grande atuação. Ele transita da frieza de um malandro egoísta ao amor frustrado pela dançarina que se casa com outro. Um grande filme que tem ainda pequenos papéis para Russell, uma mulher chique de NY, e Rooney, ainda criança, como um garoto das ruas. Nota 9.
GUERRA DOS MUNDOS de Byron Haskin com Gene Barry e Ann Robinson
Humilha o filme de Spielberg. O livro de H G Wells transposto para os EUA dos anos 50 com efeitos especiais brilhantes de George Pal. Observe como a história é contada com calma, os personagens desenvolvidos, e a ação vem após sua preparação. Marcianos invadem a Terra e botam pra capar. São maus. O final do filme, quando vi a primeira vez, aos 12 anos, me deixou maravilhado! O filme é uma delicia do começo ao fim e o design dos discos voadores e dos invasores é brilhante! Grande filme! Nota 9.
THEM! de Gordon Douglas com James Whitmore e Edmund Gwenn.
O famoso filme sobre formigas gigantes. O clima de suspense é excelente durante seus primeiros trinta minutos. Mas ele cai quando surgem as formigas. Elas não assustam. Era melhor ficarem sempre em suspense. De qualquer modo a ação é bem conduzida, os efeitos sonoros hipnóticos, um bom filme. Nota 7.
BUGSY MALONE de Alan Parker com Jodie Foster e Scott Baio.
Um dos filmes mais estranhos já feitos. Por que fazer um filme de gangsters em que todos os papéis são feitos por crianças entre dez e doze anos? E onde as armas disparam chantilly? E os carros são movidos a pedal? E com músicas de Paul Willians? Pra que? Foi o primeiro filme de Parker, ele vinha da publicidade inglesa. Hoje, esse filme teria de ser mudado, as meninas as vezes parecem um convite à pedofilia, principalmente Jodie, que aos 12 anos está estranhamente adulta. Quer saber? Do meio em diante voce relaxa e até se diverte, os meninos são todos muito bons atores e há um mafioso italiano que é hilário! 5.
MUSEU DE CERA de Andre de Toth com Vincent Price
A história do artista que expõe figuras de cera que na verdade são pessoas mortas. Feito em 3D, o filme não provoca medo algum, mas tem uma grande atuação de Price, a voz cavernosa e pomposa e o rosto sempre em ironia. Um certo clima noturno ajuda também. Nota 5.
MISTÉRIO NO MUSEU de Michael Curtiz com Fay Wray e Lionel Atwill
A versão do Museu de Cera dos anos 30 é constrangedora. Tentam misturar filme de jornalista esperto, que era moda na época, com filme de horror. O resultado é de uma chatice constrangedora. ZERO.
O MÉDICO E O MONSTRO de Rouben Mamoulian com Fredric March, Miriam Hopkins e Rose Hobart.
Um dos mais eróticos filmes já feitos. E sem nenhuma nudez! March, numa atuação que mistura horror e fragilidade, é o cientista que cria um soro. Ele vira Hyde, sua sombra, um tipo de troglodita que é puro desejo. Hopkins é a prostituta que ele abusa. O filme é brilhante e assustador. Mamoulian, que foi um diretor cheio de ideias, farto de senso de imagem e de clima, faz um trabalho de câmera imaginativo e ao mesmo tempo tenebroso. Vivemos o pesadelo do cientista, sua angústia e sua destruição. O filme tem um clima de sadismo forte, sabemos tudo o que Hyde faz com a moça. Feito em 1932, ou seja, antes da criação da censura na América, este filme seria inimaginável se feito em 1936, ou 40. Ou até 1959. March levou o Oscar de melhor ator. Mais que merecido! É um dos grandes filmes de seu tempo. Nota DEZ.
DRÁCULA de Tod Browning com Bela Lugosi, David Manners e Helen Chandler
Ninguém queria fazer este filme, achavam que seria um fracasso de bilheteria. Acabou por salvar a Universal da falência em 1931. É o filme que criou todos os clichés sobre Dracula. Algumas cenas ainda são nojentas, Bela Lugosi, todo pose e sotaque, inventa um ícone do século, e os sets são magníficos! Não é um grande filme porque Tod Browning era um diretor sem capricho, e que odiava o cinema falado. Mas é um filme ainda divertido e de importância histórica imensa. Nota 6.
LILI de Charles Walters com Leslie Caron, Mel Ferrer, Jean Pierre Aumont e Zsa Zsa Gabor
Passava muito na Sessão da Tarde dos anos oitenta. Vi em 1988, adorei e só o revi hoje. É um dos mais originais filmes que já vi. Uma jóia que me lembrou até mesmo o cinema de Powell. Lili é uma menina de 16 anos orfã. A procura de emprego, ela acaba seduzida por um mágico casado. No circo onde ele trabalha, ela consegue emprego com um ventríloco que é na verdade um neurótico agressivo. E no meio disso tudo, algumas músicas lindas, poucas, e uma simplicidade absoluta. O filme é vendido como um tipo de fábula para crianças, mas ele é surpreendentemente trágico. Fala de sexo, morte, solidão e da ilusão que consola. Leslie Caron tem o papel de sua vida. Ela consegue ser ingênua e infantil sem cair na bobice, o que é fabuloso! O filme comove, encanta e volta a comover. E é lindo. Nota 9.
ROCK`N`ROLLA de Guy Ritchie com Gerard Butler e Thandie Newton
É o filme mais sério de Ritchie. Tem seu estilo mirabolante, se passa em meio aos bandidos londrinos, é ágil e tem cenas engraçadas, mas é ao mesmo tempo mais escuro, duro, e toca num tema muito sério, o vicio em drogas sintéticas. Ele é mais feio, sujo e pesado que seus outros filmes. E de certo modo mais adulto. Gostei, mas me diverti menos. De qualquer modo não se engane, Guy Ritchie é um bom diretor. Nota 7.
INTERSTELLAR de Christopher Nolan com Mathew MacCornaghy, Anne Hathaway e Michael Caine.
Uma gororoba pseudo profunda e chata pacas sobre o fim do mundo. Nada faz sentido mas confesso que gostei do final. As linhas, cordas que regem a vida e que Mathew as toca por detrás dos livros de sua casa, essa é uma cena bonita. Totalmente new age e adepta de um tipo de física quântica de manual, mas é bonita. Talvez seja a pior atuação da vida de Mathew. Nota 1.

UM HERÓI DA FILOSOFIA

   A familia de Wittgeinstein era a mais rica da Áustria. Pai industrial. Em casa, eles recebiam Klimt, Mahler, Loos, Rilke. Eram mecenas. Pois bem, o pai temia que sua fortuna se perdesse após sua morte, e apesar de seu amor pela arte, forçava prussianamente os filhos a serem bons homens de negócio. Nunca saberemos o motivo, mas 3 irmãos de Wittgeinstein se mataram. E uma das irmãs foi paciente de Freud. Paul foi pianista, um grande pianista, mas perdeu a mão direita na primeira guerra mundial. Ravel escreveu um concerto, A Mão Esquerda, para esse irmão. E houve Ludwig, o nosso Wittgeinstein. Um herói do pensamento.
   Ele se formou em engenharia para agradar o pai. Depois fez matemática, por prazer. Fez cursos em Manchester, Berlim, Viena. Em Berlim seu ídolo, Frege, indicou Manchester para ele. Lá ele foi aluno de Bertrand Russell. Aprofundou-se na lógica. E passou a usar a lógica para a linguística.
   Ele procurou criar a linguagem lógica, um modo de entender o mundo onde a linguagem fosse sempre válida, clara, objetiva. Isso o levou ao Tractatus. 
   De um lado há a lingua. De outro o mundo. O mundo é o que ocorre. A língua é o espelho do mundo. Logicamente ele foi decompondo o mundo e a lingua. Chegou a menor partícula do mundo e da lingua. E lançou seu aforismo número 7 : Deve-se calar sobre aquilo que a língua não pode falar.
  Para ele, a lingua é científica, empírica, e assim, ela só serve para coisas da ciência.  A linguagem pode explicar o mundo do modo como fazem os cientistas. É como se nossa língua tivesse se desenvolvido para isso e somente para isso. Descrever fatos sólidos, as coisas que podem ser verdadeiras ou falsas, nunca a dualidade. Desse modo, ética, estética, religião, arte e filosofia estão fora da linguagem lógica. Não há na língua um modo lógico de se falar sobre esses assuntos. Isso porque eles não podem ser verificáveis. Dependem sempre da opinião de cada um, de sua história pessoal. Não existe certo ou errado, verdade ou falsidade nesses campos não científicos.
  O que fez Wittgeinstein? Ora, se nossa forma de linguagem não permite a clara escrita ou o claro pensamento sobre ética, arte etc, e se esses eram os campos que ele mais amava, Wittgeinstein resolveu nunca mais escrever. Por honestidade ele se calou. Talvez apenas Pascal e Montaigne foram tão honestos. Wittgeinstein abriu mão de sua herança e foi dar aulas em cidades pobres do interior da Áustria. Para crianças de 7 anos. Ficou seis anos nessa profissão. 
  Nesse tempo seu livro se tornou um sucesso entre intelectuais. O círculo de Viena o colocou como herói da causa. Foram ao encontro desse novo gurú. Afinal, ele dizia que a língua é da ciência!!!! Wittgeinstein logo disse que eles leram tudo errado! Nada entenderam! 
  O contato com as crianças modificou o modo como o filósofo pensava. Ele, após mais de dez anos, voltou a escrever. Refinou suas teses. 
  Wittgeinstein vivia o que filosofava. Tinha uma cabana na Noruega onde ficava isolado para escrever. Andava a pé pela Irlanda. Deu aulas em Cambridge por 3 anos. Foi enfermeiro. Porteiro. Queria a simplicidade absoluta. Uma vida lógica, ética. Cristalina.
  Morreu aos 62 anos, de câncer, em 1951. Sem medo, dizem que suas últimas palavras foram: "Tive a vida que eu quis".