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A PASSAGEM DO MEIO - JAMES HOLLIS. O SIGNIFICADO DA MEIA IDADE.
Hollis se dá um objetivo nobre: explicitar qual o significado da fase final da vida sem evitar falar do desagradável. Para isso ele começa falando da primeira fase da vida, a infância, época em que muitos permanecem por quase toda a vida. O que caracteriza essa fase é a magia, a preponderância do outro, a dependencia. Tudo existe em função do ego. O pai está cansado por causa de voce, a mãe ri por seu mérito, o vizinho se machucou por voce, o mundo é espelho daquilo que voce pensa, sente e deseja. A segunda fase é chamada por Hollis de fase heroica. É a primeira época adulta. A pessoa percebe que ninguém liga muito para aquilo que ele quer ou sente. Então ele se enche de heroismo e vai à vida. Os pais são deixados e o mundo se abre. Vem então a terceira fase e a segunda como adulto, a fase onde o trabalho passa a ser tudo. A pessoa esquece de seu ego e vive em função de filhos, trabalho, obter segurança. Casamentos caem na rotina, a ansiedade e a depressão rondam, a vida é uma corrida. Na meia idade surge a fase de que o livro trata. Casamento encerrado ou em fase de desilusão, filhos fora de casa, trabalho sem sentido, surge a crise. Para Hollis, e para Jung também, é esse o momento em que a vida pode obter sentido. ---------------- A vida é, até então, uma ação que busca fugir de certos pensamentos e de certas verdades. A morte e a finitude sendo a principal ideia a ser evitada. Na parte final da vida esse tema volta com força total e o ser tem duas escolhas: evitar esse pensamento, mais uma vez, usando para isso bebidas, drogas ou distrações sem fim; ou mergulhar dentro de si mesmo e descobrir, finalmente, quem voce sempre foi. A fase final da vida tem o mais nobre dos sentidos, o encontro com tudo aquilo que voce não pode ser. Ou não quis ser. Para isso é preciso a disposição para a grande viagem, aquela que nos leva rumo à alma. Nessa viagem todas as influências devem ser abandonadas. É doloroso perceber quanta coisa voce quis e fez que nada significavam para voce. O quanto do seu eu era na verdade influência de pais, meio social, arte, moda, país. O quanto sua alma, seu si mesmo foi deixado de lado. E entender aceitando sua sombra, um lado nada lisongeiro de sua alma. ----------------- É preciso perceber que não teremos e não precisamos da ajuda de ninguém. Esse encontro com o si mesmo é uma obra individual e voce tem dentro de sua alma toda força para isso. Através do reencontro com sua infância e juventude, voce revê sua vida e encontra nela aquilo que era o si mesmo e aquilo que não era seu. ----------------- Em 1939, em Londres, Jung disse que na vida moderna somos obrigados a escolher entre ideologias externas ou neuroses privadas. O que ele quis dizer é que somos distraídos por ideologias que nos dão uma paupérrima ideia da vida e de quem somos, e que quando olhamos para dentro somos bloqueados por neuroses que nos fazem fugir. A individuação, processo indesejado pelos tempos modernos, deve ser feito se penetrando no sintoma, lendo sua mensagem, mergulhando na solitude da busca. --------------------- A pergunta que importa, que deve ser feita a partir da meia idade é: Estou ligado à algo infinito? O que é essencial em mim? O que em mim nunca poderá ser de mim tirado por ser maior que eu mesmo? O que eu sou e só eu sou? -------------- Quem não faz essas perguntas não viveu de fato e quem não encontra essas respostas perdeu a essência da sua vida. Cito agora uma frase de Jung: A vida é uma pausa luminosa entre dois grandes mistérios que no entanto são um. ------------- Entre citações de Yeats, Kavafis, Kazantzakis, Rilke é o poeta mais citado neste livro. Ele termina inclusive com um trecho de um poema desse sábio poeta. Eis o trecho: vivo minha vida em orbita crescente, que voam sobre as coisas do mundo, talvez eu nunca alcance a última, mas esta é minha tentativa, circulo ao redor de Deus, ao redor da torre, circulo faz mil anos, e ainda não sei se sou falcão, tempestade ou uma canção. ------------------ Como disse Kavafis, a Odisseia não é uma vitória, é uma jornada. A vida não é um chegar é um caminhar.
JAMES HOLLIS E JACK LONDON
Termino de ler o livro de James Hollis e, apesar de às vezes quase resvalar para a auto ajuda, é um texto interessante. O que destaco de mais forte é sua afirmação, com a qual concordo, pois a senti na pele, de que não há dor maior em um homem do que a de não ser aceito por seu pai. O pai representa para um homem o mundo lá de fora, a lei, a realidade, a coragem na vida, a tomada do destino. O pai, o bom pai, deve ser capaz de levar e conduzir o filho para longe da mãe e para longe da casa. Para fazer isso é necessário que esse pai seja amoroso e duro, tenha autoridade e experiência, transmita o conhecimento prático. O homem que não tem esse pai, todos nós no mundo de hoje, terá uma inadaptação à realidade, procurará o pai em outros homens, será inseguro como homem, e tentará provar a si mesmo sua masculinidade, que será caricata. Um eterno menino. -------------------------- Leio em seguida, sem querer, Jack London, O Lobo do Mar. Um intelectual é salvo de naufrágio por um capitão de navio que caça focas. Esse intelctual passa a ser um quase escravo desse capitão brutal. E assim se torna homem aos 35 anos de idade. Eis aí um rito de passagem. O livro, do começo do século XX, foi escrito ao mesmo tempo que Freud e Jung lançavam suas teses e London não leu nenhum dos dois. Mas voce nota no texto o embate entre ego e inconsciente, entre instinto e razão, entre carne e alma. O capitão é um seguidor de Nietzsche e Darwin, o intelctual um idealista. -------------- Jack London nasceu muito pobre e fez de tudo na vida. Com 19 anos já havia sido operário, mineiro, marinheiro, ladrão, vagabundo e vaqueiro. Auto didata, começou a escrever contos e ficou rico. Mas perdia cada fortuna que ganhava em planos utópicos. Morreu aos 40 numa overdose de morfina. Percorreu meio mundo e casou duas vezes. Sua prosa, simples, inaugura, mais que Poe, a prosa americana. Realista, cruel,violenta, dura. Às vezes me desagrada o modo como ele expõe de modo didático suas teses filosóficas, e até nisso ele é bem americano, mas ele cria ação e me fez ler suas 250 páginas em uma tarde. ------------------- Lembro que aos 15 anos eu li O Chamado da Floresta e dei à meu cachorro o nome de Buck, o mesmo do heroi do livro, um cão civilizado que se torna selvagem. O livro apaixonou a mim e a meu irmão que o leu em seguida. Jack London é ótimo para se aprender e adquirir amor aos livros.
SER ADULTO
Ele entrou no time de futebol americano do college, ou seja, aos 11 anos. Logo no primeiro treino ele quebrou a unha de um dedo. Doeu muito e ele se sentou à beira do campo. Um veterano veio ao seu lado, e sem qualquer desejo de o diminuir, lhe disse: Daqui para a frente só vai piorar. ------------------------- Aquela ferida, o dedo, passou então a ter um sentido. Ele estava entrando no mundo da dor que precisa ser sentida. A infância, a doce proteção materna ( ou em muitos casos, a raiva da mãe ) ficava para trás. Ele estava desprotegido da dor e teria de aprender a tolerar essa ferida. Nesse novo mundo, vasto como aquele campo de futebol, cabia a ele cumprir um papel, ele era um homem. ----------------- James Hollis jogou futebol até os 21 anos e aprendeu muito com dedos quebrados e costelas trincadas. Psicólogo seguidor de Jung, ele sabe que a saída do lar é o momento crucial na vida de um homem. Sociedades espalhadas por todo o planeta sempre tiveram ritos de passagem, o momento em que uma criança se torna homem. É quando ela deixa a mãe de forma simbólica e passa a viver o mundo adulto, mundo composto por feridas, perigos e auto afirmação. ------------------ A unha quebrada de Hollis teve um significado por causa do aluno mais velho que lhe falou uma frase carregada de simbolismo. O problema é que hoje nenhum jovem tem essa sorte. Suas feridas, seja um acidente de moto, uma briga ou um coração partido, serão sentidos apenas como dor inutil, absurdos evitáveis, azares futeis. Não há um velho sábio, uma tradição a ser seguida, um pai atento, para lhe orientar. O jovem, sempre assustado e tentando parecer valente ou frio, irá mergulhar numa confusão em que se misturam saudades da infância, desejo ansioso por carinho, emoções reprimidas e muito medo. Suas dor nada irá lhe contar. ------------------- Estou lendo James Hollis e acho que esse ponto levantado no livro é central para se entender o jovem de hoje. Preso nesse mundo de ninguém, onde ele não é nem criança e jamais adulto, ele se debate e procura se livrar do medo via drogas, sexo, trabalho frenético, ideologias. Escrevo mais em outro post.
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