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O QUE É UM CONSERVADOR - OAKESHOTT
Muito difícil escrever sobre conservadorismo porque o conservador não aceita o Manual. Desconfiado da razão absoluta, ele não redige regras. As leis e o modo de ser do conservador se encontram na alma. ------------------- Oakeshott começa o texto falando daquilo que as pessoas pensam ser um conservador, para em seguida dizer que todo esse perfil nada significa. O conservador não é necessariamente religioso, não é sempre um admirador do passado, e pode não adorar a família. Então o que definiria o conservador? -------------------- Ele é lento. Toda mudança deve ser gradual, testada, sem grandes lances de destruição. Ele detesta o ruído. Sem movimentos de massa, sem alardes, sem exaltações. O governo deve ser discreto. Um governante conservador não modifica o estado, ele faz apenas uma coisa, que nada tem de sensacional, mas que é vital para um povo: obedece as leis e faz com que sejam respeitadas. Por isso um líder conservador não é amado, ele deseja ser respeitado. Nunca temido, mas escutado. --------------- Quanto ao cidadão, ele se guia, mais que pela tradição, pelo conceito do prazer. Ele quer preservar o que é um prazer, um gosto adquirido, e esse prazer é um costume e nada tem que o ligue ao progresso. Obscuro isso? Vou esclarecer: Um liberal ou um socialista procura, por meios diferentes, atingir a perfeição. Filosoficamente eles não procuram o bom ou o prazeroso, mas sim o perfeito. Por isso ambos não param de mudar tudo todo o tempo. Já o conservador não pensa em perfeição, ele sabe que ela não existe. Ele procura o que é confortável, prazeroso, familiar. Dou como exemplo o futebol. ---------------- O conservador não quer mudança nenhuma no jogo. Ele gostaria que houvesse ainda o velho campeonato paulista, o jogo onde as faltas são mais toleradas e onde a Copa do Mundo tem apenas 16 seleções. Por ser um prazer, e por ser jogado desde 1875, ele gostaria que o jogo não mudasse. Essa a alma do conservador e todas as outras características são superfluas. Se algo me dá prazer e se isso nada tem de ruim, que seja conservado para sempre. Oakeshott chama isso de Diversão advinda da Familiaridade e cita desde a pesca até o rugby. A afeição do esquerdista e do liberal está na mudança e no progresso, o conservador foca naquilo que lhe dá gosto em viver. Por isso ele jamais é sensacional e por isso seu apelo entre jovens é limitado.
AS MASSAS EM UMA DEMOCRACIA - MICHAEL OAKESHOTT
Voce nascia na sua comunidade. E tudo estava decidido por voce. Moraria na casa de seu pai ou na do dono da terra. Teria a profissão de sua família. Mesma religião, mesmo rei. Voce seria mais um entre muitos. Mas houve um momento em que isso mudou. O desenvolvimento do comércio, a fluidez do dinhehro começou a criar um novo homem. ( Estamos falando de 1400-1500 ). Ele percebeu que possuía algum grau de liberdade interior e que essa liberdade poderia ser exterior. Ele mudou de vila. Procurou outro emprego. Adquiriu conhecimento. Até mesmo questionou o rei e o bispo. Esse homem daria origem ao ser democrático, ao livre empreendedor, ao aventureiro do século XVIII, ao liberal do século XX. ------------- Porém, muitos ficaram com medo. Eles sentiram a angústia de ter de escolher. E passaram a se ressentir contra os liberais. Esses, assustados, amavam não precisar decidir nada. Toda a vida era drigida por alguém e não por eles. Eles queriam o anonimato familiar. Preferiam ser súditos de algum poderoso. Vassalos. ----------------- Logo esses homens assustados perceberam ser a maioria. E o ressentimento passou a ser uma política. Nascia aí o Homem da Massa. Se o rei havia se enfraquecido, se o bispo não possuía mais poder, então esse homem sem decisão delegaria sua vida ao Estado. Que a burocracia, que o partido tomasse conta de sua vida. E que os homens livres fossem obrigados a ser como eles. Nascia aí, já no século XVI, o tipo de homem da massa que se contraporia ao homem de iniciativa. --------------------- Esse o teor da palestra de Oakeshott. Ela explica porque sempre pensei que os movimento de esquerda sofrem de uma inconsciente nostalgia da idade média, onde o partido seria o feudo e o líder partidário o senhor feudal.
RACIONALISMO EM POLÍTICA - MICHAEL OAKESHOTT
Professor inglês, viveu entre 1901 e 1990. Seu conservadorismo é lógico, claro, muito lúcido. Foi professor em Oxford. --------------- Foi a partir do século XIV que a individualidade passa a ser motivo de ambição. Fazer parte de uma comunidade ou de uma profissão deixa de ser o motivo maior, o que se passa a desejar é poder assinar sua passagem pelo mundo. É aí que a prática deixa de ser o centro do saber e a razão começa a ocupar seu lugar central. --------------- Por que a razão? Ora, prática requer tempo de saber, requer execução repetida, requer um mestre. A razão pede apenas um manual. O que a vida racional pede é que o passada seja apagado, sua mente esvaziada e preenchida pelas instruções de um manual. Isso é rápido, descomplicado, objetivo. Lentamente, século após século, a Europa e depois os EUA, passam a desvalorizar a história, o passado, e a criar um vazio, amplo e limpo, onde a razão pode ser instalada. A história passa a ser vista como tempo de horror, de violência irracional, de injustiças, tempo onde não havia a ditadura racional. E o hábito, ou o costume, é eliminado como lixo sem razão. ------------------ Logo esse modo de agir se infiltra na família. Não importa mais quem era ou o que sua família representava, voce se vê como um ser livre, vazio, pronto para ser o que desejar ser. Uma lousa em branco. Um ser da razão. Racionalmente nada te obriga a se parecer com seu pai. Não há razão alguma para seguir o rumo familiar. Tudo que existe é uma razão que deve ser usada. Livremente. ------------------ Não se percebe que a razão é uma prisão. ------------------- Na política o domínio logo se faz notar. Se antes o ser político tinha como característica uma imensa experiência de vida e o dom familiar da diplomacia, agora basta seguir algum manual de política. Maquiavel e O Príncipe ou Karl Marx. Ou ainda a constituição dos USA, pois os EUA são um país nascido da vazio, feito e dirigido com um manual prático e democrático. ----------------- Logo, a partir do século XIX, a razão passa a ser a única força a agir no ocidente. A religião tem de se provar prática, a arte precisa ser compreensível e ter seu manual de interpretação, a política aberta a todos que desejem seguir algum manual, o trabalho especilaizado e pior que tudo, a educação deixa de ser adquirir cultura, mas antes aprender algum manual. -------------------- Ontem fui visitar um belo antiquário. Ficamos impressionados com a beleza detalhista de espelhos, armários, estantes. Cada canto enfeitado por algum detalhe que exibe a técnica do artesão. Tudo dando alimento para que voce usufrua da imaginação. Convites ao sonho e ao relaxamento. Pois bem, racionalmente nada daquilo faz o menor sentido. UM sofá deve ter um assento e um encosto, mais nada. Um espelho precisa refletir sua imagem. Todo o resto é PESO HISTÓRICO. É inutil. Tão inutil quanto seu avô. Foi esse pensamento, racional, que nos fez destruir todo centro histórico de SP e ocasionou duas guerra na Europa que visavam apagar todo o passado ( e conseguiram ). ------------------- No mundo político anterior, um senador ou um Lord discutia política do dia a dia. Cada momento visava manter a história em seu ritmo constante. Um fato tinha valor por ter sido aprovado pelo costume. Se sempre se fez assim, porque não manter? Esse tipo de pensamento é para a razão sinal de obscurantismo, de irracionalidade e de tola teimosia. O manual requer a mente vazia para que ele possa ser absorvido. ----------------- Um manual tem aquilo que pode ser posto em páginas escritas: instruções. Ele é perfeito para quem não tem prática e nem grande cultura. Requer apenas que voce esteja disposto a decorar. E para decorar sua mente precisa estar vazia. Esse o mundo democrático aberto para todos. Não importa se voce tem a prática e o dom do saber. Siga o manual. A nação que melhor representa o tempo da razão são os EUA, país feito no vazio, sem passado, para pessoas que seguem algum manual técnico. Já o socialismo ignora seus fracassos porque ele ignora o passado. Sua atenção é voltada apenas ao manual. Se a coisa na vida real não deu certo é porque o manual não foi bem seguido. ------------------- Oakenshott percebe que o ensino do futuro será via correio, voce recebe o manula em casa e usa a técnica decorada. Escrito em 1946, este texto, que influenciou toda a direita inglesa, é claro, simples e de uma coragem imensa. Obrigatório.
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