O assunto de Maugham é sempre o do homem tentando nascer. A busca pela liberdade, pelo conhecimento e pela paz. E a trajetória é sempre nessa ordem : escapar do meio, encontrar um sentido, obter o equilíbrio. Escrevendo sobre isso, o inglês Maugham se tornou um dos dois ou três mais populares escritores do século XX. Ele é o melhor autor classe B de seu tempo. ( Tempo de belos autores B : Simenon, Agatha Christie, Conan Doyle, Saint-Exupery, Chandler, Henry Miller... ).
Philip é um inglês tímido e com um pé torto. É adotado por pastor e sofre bastante na escola. Larga os estudos e vai à Paris, estudar pintura. Se apaixona por moça muito vulgar. O livro não segue o rumo esperado. Philip não tem talento e a moça o despreza. Lemos sobre a dor de amar e ser enganado. Burramente ele despreza quem o ama de verdade e segue, de forma humilhante, o rastro dessa moça infame.
Derrotado, ele volta e se torna médico. O livro tem seu momento de luz ( onde Maugham faz uma vulgarização da iluminação de Lievin em ANA KARENINA ). É quando Philip vê que a vida é completamente destituída de sentido. Nascer, trabalhar e morrer. Isso é tudo. Os mais fracos se agarram com desespero num sentido que é dado por sua própria imaginação. Vista friamente, não há mérito em se viver de modo X ou Y. Tudo dá na mesma.
Ao pensar isso a vida de Philip muda. Ele se torna livre. Ser bem sucedido ou não, ser feliz ou não, tanto faz. O resultado é idêntico : nenhum. Ele não é mais obrigado a nada. Não deve mais à vida ser feliz ou ser um vencedor.
É lógico que Maugham banaliza uma filosofia tão preciosa. Mas é um prazer ver um autor tão best-seller, que vendia tanto, lido por meninos, donas de casa e estudantes, advogar o pessimismo vitalista e não, como hoje, prometer sentidos mágicos à existência. Um anti-Paulo Coelho.
Mais profunda é a descoberta por Philip de que a arte é uma parte muito pequena da vida. Que a vida está pouco se importando com novidades, belezas e refinamentos. A fome e a dor é que importam. O maior interesse é sobreviver.
Ao fim, o sentido que Philip encontra é o conforto. A paz possível, a de se ter um trabalho útil, uma esposa amiga e saudável e um canto iluminado para se morar. O céu de Philip está a beira-mar, médico de pescadores, nos braços de uma jovem loura bonitinha. Como não há sentido nesse acidente chamado vida, cabe a nós fazer da vida algo de livre e digno.
O livro diz que nada é mais nobre que abrir mão de alguma coisa para o bem de outro. É o que Philip aprende. Duramente e árduamente. E fim.
O CORCEL NEGRO- OBRA-PRIMA DA ARTE PURA
O CORCEL NEGRO é filme de Carroll Ballard (assistente de Lucas em Star Wars ) e tem Melissa Mathison ( de ET ) no roteiro. Trata da história de um menino e seu cavalo. Primeiro numa ilha deserta e depois em casa. É um filme quase mudo. Imagem, movimento e música. A música, belíssima e cheia de variedade, é do pai de Coppolla, Carmine. A fotografia é de um dos dez melhores diretores de fotografia da história, Caleb Deschanel ( sim menino, pai de Zooey ). O filme é uma obra-prima, produzido por Francis Coppolla e epitáfio do cinema dos anos 70.
Foi sucesso. Hoje seria ? Cheio de ação, mas com longos momentos de vazio, onde apenas a beleza importa. O menino ( Kelly Reno, comovente, sua cena com a mãe, quando fala do pai, é antológica ) e o cavalo ( o animal mais belo que já tive o assombro de ver numa tela ). A areia, o mar, rochas, vento, o céu. O filme atinge alturas que só a poesia pode. Nada acontece, tudo interessa. O segredo deste filme é sua simplicidade.
Filmes cheios de meandros. Arte complexa ou arte simples e pura. Adoro o jogo intelectual de Cidadão KANE ou de ORFEU. Mas O CORCEL NEGRO é da estirpe de O ATALANTE, o fio puro, limpo, simples, o dizer tudo em silêncio, revelar sem contar. Magia. Este filme é de inspiração mágica.
Depois o menino e o cavalo voltam à civilização e tememos que o filme se vulgarize. Não. O silêncio ainda manda. E surge Mickey Rooney, em simpatia e gênio de atuação. O cavalo permanece como irresistível força da natureza e o menino como chave para seu mundo. Eu poderia filosofar longamente sobre tudo o que cada cena simboliza. Mas estragaria o símbolo maior : sua simplicidade.
Feito hoje ele seria visto como aberração. Teriam posto uma piadinha aqui, uma menina lá, acelerado o ritmo e talvez uns toques de "arte" acolá. A simplicidade seria profanada. O cavalo seria humanizado. Sua tremenda rebeldia seria atenuada.
O CORCEL NEGRO é obra-prima por ser monumento de vento e luz, feito da respiração acelerada do cavalo negro, da noite de seu olho febril e das sardas do menino em momento abençoado. É o testamento saudável de uma geração perdida. O que ficou de testamento daquele cinema doido que nos deu Taxi Driver e Carrie. Em 1979, enquanto Coppolla perdia tudo com Apocalypse Now, O CORCEL NEGRO adentrava a década yuppie com lembrança do que poderia ter sido, do que valia mais : Pureza.
O cinema foi criado para ser assim. Todo o resto é literatura.
Foi sucesso. Hoje seria ? Cheio de ação, mas com longos momentos de vazio, onde apenas a beleza importa. O menino ( Kelly Reno, comovente, sua cena com a mãe, quando fala do pai, é antológica ) e o cavalo ( o animal mais belo que já tive o assombro de ver numa tela ). A areia, o mar, rochas, vento, o céu. O filme atinge alturas que só a poesia pode. Nada acontece, tudo interessa. O segredo deste filme é sua simplicidade.
Filmes cheios de meandros. Arte complexa ou arte simples e pura. Adoro o jogo intelectual de Cidadão KANE ou de ORFEU. Mas O CORCEL NEGRO é da estirpe de O ATALANTE, o fio puro, limpo, simples, o dizer tudo em silêncio, revelar sem contar. Magia. Este filme é de inspiração mágica.
Depois o menino e o cavalo voltam à civilização e tememos que o filme se vulgarize. Não. O silêncio ainda manda. E surge Mickey Rooney, em simpatia e gênio de atuação. O cavalo permanece como irresistível força da natureza e o menino como chave para seu mundo. Eu poderia filosofar longamente sobre tudo o que cada cena simboliza. Mas estragaria o símbolo maior : sua simplicidade.
Feito hoje ele seria visto como aberração. Teriam posto uma piadinha aqui, uma menina lá, acelerado o ritmo e talvez uns toques de "arte" acolá. A simplicidade seria profanada. O cavalo seria humanizado. Sua tremenda rebeldia seria atenuada.
O CORCEL NEGRO é obra-prima por ser monumento de vento e luz, feito da respiração acelerada do cavalo negro, da noite de seu olho febril e das sardas do menino em momento abençoado. É o testamento saudável de uma geração perdida. O que ficou de testamento daquele cinema doido que nos deu Taxi Driver e Carrie. Em 1979, enquanto Coppolla perdia tudo com Apocalypse Now, O CORCEL NEGRO adentrava a década yuppie com lembrança do que poderia ter sido, do que valia mais : Pureza.
O cinema foi criado para ser assim. Todo o resto é literatura.
RILKE, POEMAS SELECIONADOS EM TRADUÇÃO DE JOSÉ PAULO PAES
Mulheres amaram Rilke. Baronesas, intelectuais, condessas e prostitutas. Ele amou a todas, não se prendeu a nenhuma. Talvez a fascinante Lou Salomé tenha sido a dor maior. Mas Rainer-Maria Rilke logo percebeu o que era a vida.
Dois sentimentos norteiam a poesia do alemão nascido em Praga. O mais importante é a sensação de que nunca nos abrimos. Ele notou que por toda nossa vida estamos sempre detrás de nossos pensamentos. O homem não se integra a vida. Jamais nos é dado o prazer de simplesmente estar-aqui-agora. Nosso cérebro nos coloca sempre no além-depois-antes. Talvez tenhamos um vislumbre desse estar aberto no primeiro momento do amor. Quando descobrimos o estar-aqui com o amor. Mas esse momento se perde em minutos, quando nasce o medo e a posse. Os animais, para Rilke, por desconhecerem o tempo e a finitude, vivem nesse eterno agora. Conhecem e são abertos à vida. Nós, além de racionais, mamíferos, ainda vivemos a sensação de nascer como expulsão, ser tirado do útero/paraíso. Sensação que é desconhecida das aves, que nascem sem expulsão, antes como libertação. Se ser parido é ato de saída, sair do ovo é nascer e permanecer na mãe, o fora-exterior.
O segundo pensamento que permeia a obra de Rilke é a finitude. Viver é perder. A vida é eterno movimento, e esse movimento nos leva a constantes e inevitáveis finais. Viver bem é saber se separar, ir embora, desapegar-se. É por isso que Rilke, apesar de amado, cultiva uma solidão olímpica. Estar só é a condição real da vida. Todo o resto é passageiro. Somos reais apenas na solidão e é nela que podemos ser realmente felizes, pois nessa condição independemos do tempo.
Rilke.
Foi o primeiro poeta que lí na vida. Numa má tradução ( esta de agora é brilhante. Tem ritmo, leveza, cor ). Odiei Rilke. Achei-o triste, mórbido, fraco. Adolescente, ainda tinha plena fé na ilusão do eterno. Não sabia que a única coisa imutável da vida é a própria mutabilidade.
Hoje ele continua me dando melancolia. Mas a esse cinza se uniu o colorido de sua beleza assustadora. Pois agora compreendo seus anjos terríveis. E sei que viver é dizer adeus. Pai, amores vários, amigos às pencas, cães, lugares, casas, crenças, ídolos... todos partem, é inevitável. Eu mesmo escapo de mim-mesmo.
Amei muito. e creio que tenha sido amado. Irei amar mais e continuo sendo procurado. Mas, estranhamente, apesar de momentos de absoluta alegria, de completa satisfação que vivi com esses amores, sou obrigado a dizer que os momentos mais plenos de minha vida foram vividos em completa solidão. Um tipo de entrega ao agora, de total imersão na vida-fora-de mim, que é impossível a dois.
Rilke viveu a procura dessa entrega. O grande amor de sua vida foi a vida exterior. O tentar olhar sem julgar, sentir sem pesar, andar sem planejar. Ele foi um caçador de epifanias, de momentos de duende, de anjos.
Em nosso mundo, blindado e cada vez mais planejado, entender Rilke é tentativa de sanidade. Sua terrível beleza é sopro de aniquilação em nossa consciência.
Dois sentimentos norteiam a poesia do alemão nascido em Praga. O mais importante é a sensação de que nunca nos abrimos. Ele notou que por toda nossa vida estamos sempre detrás de nossos pensamentos. O homem não se integra a vida. Jamais nos é dado o prazer de simplesmente estar-aqui-agora. Nosso cérebro nos coloca sempre no além-depois-antes. Talvez tenhamos um vislumbre desse estar aberto no primeiro momento do amor. Quando descobrimos o estar-aqui com o amor. Mas esse momento se perde em minutos, quando nasce o medo e a posse. Os animais, para Rilke, por desconhecerem o tempo e a finitude, vivem nesse eterno agora. Conhecem e são abertos à vida. Nós, além de racionais, mamíferos, ainda vivemos a sensação de nascer como expulsão, ser tirado do útero/paraíso. Sensação que é desconhecida das aves, que nascem sem expulsão, antes como libertação. Se ser parido é ato de saída, sair do ovo é nascer e permanecer na mãe, o fora-exterior.
O segundo pensamento que permeia a obra de Rilke é a finitude. Viver é perder. A vida é eterno movimento, e esse movimento nos leva a constantes e inevitáveis finais. Viver bem é saber se separar, ir embora, desapegar-se. É por isso que Rilke, apesar de amado, cultiva uma solidão olímpica. Estar só é a condição real da vida. Todo o resto é passageiro. Somos reais apenas na solidão e é nela que podemos ser realmente felizes, pois nessa condição independemos do tempo.
Rilke.
Foi o primeiro poeta que lí na vida. Numa má tradução ( esta de agora é brilhante. Tem ritmo, leveza, cor ). Odiei Rilke. Achei-o triste, mórbido, fraco. Adolescente, ainda tinha plena fé na ilusão do eterno. Não sabia que a única coisa imutável da vida é a própria mutabilidade.
Hoje ele continua me dando melancolia. Mas a esse cinza se uniu o colorido de sua beleza assustadora. Pois agora compreendo seus anjos terríveis. E sei que viver é dizer adeus. Pai, amores vários, amigos às pencas, cães, lugares, casas, crenças, ídolos... todos partem, é inevitável. Eu mesmo escapo de mim-mesmo.
Amei muito. e creio que tenha sido amado. Irei amar mais e continuo sendo procurado. Mas, estranhamente, apesar de momentos de absoluta alegria, de completa satisfação que vivi com esses amores, sou obrigado a dizer que os momentos mais plenos de minha vida foram vividos em completa solidão. Um tipo de entrega ao agora, de total imersão na vida-fora-de mim, que é impossível a dois.
Rilke viveu a procura dessa entrega. O grande amor de sua vida foi a vida exterior. O tentar olhar sem julgar, sentir sem pesar, andar sem planejar. Ele foi um caçador de epifanias, de momentos de duende, de anjos.
Em nosso mundo, blindado e cada vez mais planejado, entender Rilke é tentativa de sanidade. Sua terrível beleza é sopro de aniquilação em nossa consciência.
TÍMIDOS QUE AMAM SUA MEIGUICE AFASTEM-SE : LED ZEPPELIN II NA ÁREA !
Um tipo de " Hummmm...." e o riff.
Nada de sutileza. Os 4 cavaleiros do apocalipse entram fazendo barulho. O riff é um machado afiado de aço indestrutível. Machadadas que penetram seu ouvido e descem para o sexo. Quando a voz chega ela surpreende. Plant não quer amor. Quer penetração. O som da bateria derruba de vez a barreira. Estamos então no reino da explicitude máxima. O cérebro nada comanda. O som vai inteiro em dose brutal para o sangue. Esquenta, ferve e jorra. A pausa é a admiração. O corpo nú da música/musa estirado sem pudor. Looooooooooooooveeeeeee..... e a bateria ribomba em raios. Meninos de pele rosadinha, fugí ! Este país é para Homens!
Então muda-se a faixa e teme-se : impossível não haver queda! A broxada é inevitável ! Mas não. O contra-baixo se insinua. O clima é de fumaça de cigarro e de decote profundo. A voz enrola-se pela vida. E o solo é mistura de espírito e carne suada. Mas é o baixo com sua sinuosidade sexy que hipnotiza. O disco é da época de Abbey Road, Santana e Tommy. Não parece. Este disco estava e está no não tempo. A época do desejo.
E tudo se escancara. Vem sinfonia de baixo e de guitarra. Crispação. É aquela canção que tem um grande Hey! Um blues feito de semem. Um enxame de abelhas enlouquecidas atrás de abelhas meladas. A música é vasta.
Surge então o único momento introspectivo. Uma cascata de guitarras e um vocal de leão sem juba. Doce. Existem ecos de corações aflitos. Mas essa aflição é enfrentada com valentia. O final é nuvem obstruindo o sol. Tudo aqui é mais.
Mas renasce o tesão. O disco é potente e é sobre a potência jupiteriana. È além de dionisio. O vocal aqui é arrogancia olímpica. Plant está nas nuvens jogando raios em nós. Tudo se interrompe para que Page discurse. Sua guitarra feita de gelo quente, de aço vivo, corta novamente. E nasce o milagre : uma união do sublime com a violência. Ao final do solo, quando voltam baixo e bateria, ouvimos um dos breves momentos em que música é testemunho de transcendência. O que dizer ? Poucos segundos que justificam uma lenda. O homem precisa morrer para ser lenda. O Led já nasce lendário.
O Pop perfeito. Mas é pop que dá socos e grita. É pop com cojones. O disco é um hino a virilidade. Nada mais anti-2010 que isto. Nada tem a ver com agora. Mas eu sei, ele será sempre a esperança do amanhã.
A próxima faixa traz a melhor das linhas de baixo. Não me canso de ouvir. São 30 anos de amor. Eu e este som. Ramble on. Me esmaga e me faz rir. Feliz. O timbre de Page em todo disco é contemporâneo. É timbre de 1969 e de 2069. Timbre de Mick Ronson, Mick Jones e Jack White. Ramble on. O amor é esta canção. O gozo é exatamente assim.
E agora é um bando de mamutes que trotam derrubando árvores e cercas. Bonham foi esse mamute. Suas baquetas e suas mãos. Soltam raios. A primeira vez que ouví.... eu e meu irmão piramos. Começamos a pular sobre a cama, a socar os travesseiros, enlouquecemos.
Faixa final.
Uma boca : Baaaaaaaabeeeeeeeee!!!!!!!!!!! Baaaaaaaaaaabeeeeeeeeeeee!!!!!!!!!! Os quadris dela foram feitos para o olhar dele. Quanto de tesão um homem pode suportar ? Porque às vezes o desejo é tanto que faz explodir. Baaaaaaaaabeeeeeeeeee!!!!!!!!!!! E explode! Sinfonicamente as guitarras ( um milhão delas ) arrebentam cabacinhos. Toda a banda desvirgina. É quase um estupro. Com dois sorrisos.
A promessa do primeiro riff foi cumprida. Milagre : a ereção se manteve até quando foi preciso. O mais potente dos discos. Sem romance, sem sutileza, sem símbolos. O Led sempre jogou limpo : É isto o que somos. Nada mais e nada menos - Os Melhores.
Led Zeppelin II é a prova.
Nada de sutileza. Os 4 cavaleiros do apocalipse entram fazendo barulho. O riff é um machado afiado de aço indestrutível. Machadadas que penetram seu ouvido e descem para o sexo. Quando a voz chega ela surpreende. Plant não quer amor. Quer penetração. O som da bateria derruba de vez a barreira. Estamos então no reino da explicitude máxima. O cérebro nada comanda. O som vai inteiro em dose brutal para o sangue. Esquenta, ferve e jorra. A pausa é a admiração. O corpo nú da música/musa estirado sem pudor. Looooooooooooooveeeeeee..... e a bateria ribomba em raios. Meninos de pele rosadinha, fugí ! Este país é para Homens!
Então muda-se a faixa e teme-se : impossível não haver queda! A broxada é inevitável ! Mas não. O contra-baixo se insinua. O clima é de fumaça de cigarro e de decote profundo. A voz enrola-se pela vida. E o solo é mistura de espírito e carne suada. Mas é o baixo com sua sinuosidade sexy que hipnotiza. O disco é da época de Abbey Road, Santana e Tommy. Não parece. Este disco estava e está no não tempo. A época do desejo.
E tudo se escancara. Vem sinfonia de baixo e de guitarra. Crispação. É aquela canção que tem um grande Hey! Um blues feito de semem. Um enxame de abelhas enlouquecidas atrás de abelhas meladas. A música é vasta.
Surge então o único momento introspectivo. Uma cascata de guitarras e um vocal de leão sem juba. Doce. Existem ecos de corações aflitos. Mas essa aflição é enfrentada com valentia. O final é nuvem obstruindo o sol. Tudo aqui é mais.
Mas renasce o tesão. O disco é potente e é sobre a potência jupiteriana. È além de dionisio. O vocal aqui é arrogancia olímpica. Plant está nas nuvens jogando raios em nós. Tudo se interrompe para que Page discurse. Sua guitarra feita de gelo quente, de aço vivo, corta novamente. E nasce o milagre : uma união do sublime com a violência. Ao final do solo, quando voltam baixo e bateria, ouvimos um dos breves momentos em que música é testemunho de transcendência. O que dizer ? Poucos segundos que justificam uma lenda. O homem precisa morrer para ser lenda. O Led já nasce lendário.
O Pop perfeito. Mas é pop que dá socos e grita. É pop com cojones. O disco é um hino a virilidade. Nada mais anti-2010 que isto. Nada tem a ver com agora. Mas eu sei, ele será sempre a esperança do amanhã.
A próxima faixa traz a melhor das linhas de baixo. Não me canso de ouvir. São 30 anos de amor. Eu e este som. Ramble on. Me esmaga e me faz rir. Feliz. O timbre de Page em todo disco é contemporâneo. É timbre de 1969 e de 2069. Timbre de Mick Ronson, Mick Jones e Jack White. Ramble on. O amor é esta canção. O gozo é exatamente assim.
E agora é um bando de mamutes que trotam derrubando árvores e cercas. Bonham foi esse mamute. Suas baquetas e suas mãos. Soltam raios. A primeira vez que ouví.... eu e meu irmão piramos. Começamos a pular sobre a cama, a socar os travesseiros, enlouquecemos.
Faixa final.
Uma boca : Baaaaaaaabeeeeeeeee!!!!!!!!!!! Baaaaaaaaaaabeeeeeeeeeeee!!!!!!!!!! Os quadris dela foram feitos para o olhar dele. Quanto de tesão um homem pode suportar ? Porque às vezes o desejo é tanto que faz explodir. Baaaaaaaaabeeeeeeeeee!!!!!!!!!!! E explode! Sinfonicamente as guitarras ( um milhão delas ) arrebentam cabacinhos. Toda a banda desvirgina. É quase um estupro. Com dois sorrisos.
A promessa do primeiro riff foi cumprida. Milagre : a ereção se manteve até quando foi preciso. O mais potente dos discos. Sem romance, sem sutileza, sem símbolos. O Led sempre jogou limpo : É isto o que somos. Nada mais e nada menos - Os Melhores.
Led Zeppelin II é a prova.
SINDICATO DE LADRÕES/ PASOLINI/ ALDRICH/ VERHOEVEN/ SCOLA
O ÚLTIMO PÔR-DO-SOL de Robert Aldrich com Kirk Douglas, Rock Hudson, Dorothy Malone
Western perfeito. Kirk é o bandido, Rock o herói. Os dois conduzem gado do México à América. Com eles vai família. O filme com roteiro de Dalton Trumbo não pára. Surpreende a todo instante. Você pensa que tal coisa irá suceder, mas não, vem a virada. Uma diversão de nível superior em que todo o elenco brilha. Divirta-se ! Tem um duelo final que é coisa de gênio. Nota 9.
RIO BRAVO de Howard Hawks com John Wayne, Dean Martin, Angie Dickinson, Rick Nelson e Walter Brennan
Voce ama ou detesta. Apaixona-se pelo elenco ou o ignora. Se o ignorar, bem, azar o seu ! O filme é profunda lição de vida. Para quem souber ver. Como toda obra superior, não esfrega em nossa cara seu brilho. Convida-nos a observar, nada impõe. Nota DEZ.
O OUTRO HOMEM de Carol Reed com James Mason, Claire Bloom e Hildegarde Neff
A Inglaterra produziu 3 grandes diretores clássicos : David Lean, Carol Reed e Michael Powell. Hitchcock não conta, é do universo. Powell é meu favorito. Lean é o melhor sucedido e Reed fica no meio termo. Este filme de espiões foi feito nas ruínas de Berlin antes do muro. As imagens são belíssimas ( existe terrível beleza nas ruínas ). É um filme de fotografia linda e de atuações perfeitas. Mas algo no roteiro falha : há um romance dispensável. Nota 6.
A BATALHA DO RIO DA PRATA de Michael Powell
E aqui está um de meus diretores favoritos em filme fraco. Odeio toda forma de patriotismo. Mesmo se justificado, como aqui. E mesmo quando Powell, em plena segunda-guerra, dá um retrato humano dos alemães. O capitão alemão tem honra, caráter e até joga limpo. O filme conta a primeira batalha naval da guerra, no Uruguai, em 1939. Mas tem jeito de propaganda, o que o faz hiper-datado. Nota 4.
LEVADA DA BRECA de Howard Hawks com Cary Grant e Kate Hepburn
A melhor comédia da história do cinema. Tem roteiro perfeito, atores de gênio, ritmo constante e alegria sem culpa. Um milagre de época de grandes comédias ( os anos 30 foram tempo dos Irmãos Marx, Chaplin, W C Fields, Myrna Loy, William Powell, Clair, Joe E. Brown, Harold Lloyd, Rosalind Russell e etc vasto e risonho ). Nota MIL.
UM BOM ANO de Ridley Scott com Russell Crowe, Albert Finney e Marion Cotillard
Belas paisagens. Engraçado... eu lí o livro de Peter Mayle e ele não tinha esse clima tão vulgar ! Faltou comida e vinho neste filme ! Sobraram bobagens. O personagem de Crowe é muito antipático. Nota 3.
SIDEWAYS de Alexander Payne com Paul Giamati, Thomas Haden Church e Virginia Madsen
Payne é muito bom diretor. O filme é gostosa diversão. Mas é estranho... esperávamos mais de Payne, de Giamati, de Church e de Madsen... cadê eles ? Problema central do cinema atual : faltam carreiras consistentes. Talvez faltem oportunidades. Filma-se pouco e quando o cara erra é o fim. Aqui todos acertaram, mas, cadê eles ???? Nota 6.
SINDICATO DE LADRÕES de Elia Kazan com Marlon Brando, Karl Malden, Eva Marie Saint, Lee J Cobb e Rod Steiger
No Oscar deste ano se citou Karl Malden e Budd Schulberg como mortos de 2009. Malden brilha ( como sempre ) neste filme que tem um dos melhores elencos da história. Budd fez o roteiro, que é básicamente uma defesa da deduragem. A trilha sonora de Leonard Bernstein enfatiza com genialidade a aridez deste filme áspero. Raros são tão pouco simpáticos. Ele é todo cinza ( foto do soberbo Boris Kauffman ), frio, macho, sem um mínimo sinal de alegria. Kazan defende a sí-mesmo, ele que havia dedurado os "comunas" no MacCarthismo. Marlon Brando tem atuação de gênio. Faz um bronco que se humaniza pelo amor. É convincente todo o tempo. Nas mãos de Sean Penn ou de De Niro este personagem seria apenas um bandidinho. Com Brando ele nos comove. A cena no táxi é considerada por todo ator americano ( principalmente os mais rebeldes ) o momento máximo da arte de interpretar. É usada como prova de admissão no Actors Studio. Dá pra ver a sombra de Pacino, Cage e etc nela. Eles construíram toda sua carreira estudando estes 4 minutos. O filme é dos maiores. Mas não dá o menor prazer. Você o admira, jamais ama-o. Nota 8.
LOUCA PAIXÃO de Paul Verhoeven com Rutger Hauer e Monique VandeVen
Os Holandeses consideram este o melhor filme já feito por lá. Não é. CHUVA, de Ivens, com apenas 20 minutos bate-o de longe. Mas é um filme invulgar. Mostra, na Holanda dos anos 70, ou seja, num lugar onde a liberdade vai ao limite, a paixão de um casal. Paixão que começa como sexo casual, evolui para a paixão dela por ele, e depois, dele por ela. Há o rompimento e um tipo de retorno dolorido. O filme é cheio de nudez, sexo, escatologia e paixão. Tudo vai sempre fundo e Hauer tem uma atuação corajosa. Monique comove. Ela é linda e ousadíssima. Como sempre falo, o mundo pirou nos anos 70 e este filme mostra isso. Verhoeven emigraria para a América, onde faria Robocop e Tropas Estelares. Nota 7.
NÓS QUE NOS AMÁVAMOS TANTO de Ettore Scola com Vittório Gassman, Nino Manfredi e Stefania Sandrelli
Os barbudinhos da Vila Madalena que me desculpem, mas este filme ( que tem uma das piores trilhas sonoras da história ) é um pé no saco. O cinema italiano dos anos 70 perde todo o apelo que conquistara nos anos 40/50/60 ao se empobrecer. O que era um belo humanismo se transforma em esquerdismo primário. Dá pena ver aquela geração brilhante mergulhar na lábia malandra dos comunas italianos. O filme é tão simplório que chega ao ridículo de mostrar todo direitista como gordo, velho e beiçudo. Por favor !!!!! Eles querem mudar o mundo, na marra, e nunca percebem que o problema não é o mundo, é o homem. O homem é instintivamente capitalista. Ele quer segurança e segurança se obtém no acúmulo. O homem quer ser superior ao vizinho, superior em alguma coisa, força, dinheiro ou inteligência ( e todos os personagens não percebem que passam todo o filme desejando liderar ). É um filme tão velho quanto uma opereta de Nelson Eddy. Nota 1.
O EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS de Pier Paolo Pasolini
Existem diretores que reconheço serem excelentes, mas dos quais não consigo gostar. Buñuel é um deles. Sei que ele é genial. Mas não consigo me animar com seus filmes. Pasolini é outro. Vejo nele tudo que admiro : coragem, sinceridade, força. Mas ele nunca me enfeitiça. Aqui ele despe Cristo de emoção e o que temos são momentos secos de atos de fé. O evangelho sem poesia, objetivo. Nada há de ofensivo, Pasolini respeita Jesus como revolucionário, mas o filme torna-se frio, distante, sem porquê. De soberbo ele tem sua trilha sonora. Gospel e blues de raiz, isso sim, um emocionante milagre. Nota 5.
Western perfeito. Kirk é o bandido, Rock o herói. Os dois conduzem gado do México à América. Com eles vai família. O filme com roteiro de Dalton Trumbo não pára. Surpreende a todo instante. Você pensa que tal coisa irá suceder, mas não, vem a virada. Uma diversão de nível superior em que todo o elenco brilha. Divirta-se ! Tem um duelo final que é coisa de gênio. Nota 9.
RIO BRAVO de Howard Hawks com John Wayne, Dean Martin, Angie Dickinson, Rick Nelson e Walter Brennan
Voce ama ou detesta. Apaixona-se pelo elenco ou o ignora. Se o ignorar, bem, azar o seu ! O filme é profunda lição de vida. Para quem souber ver. Como toda obra superior, não esfrega em nossa cara seu brilho. Convida-nos a observar, nada impõe. Nota DEZ.
O OUTRO HOMEM de Carol Reed com James Mason, Claire Bloom e Hildegarde Neff
A Inglaterra produziu 3 grandes diretores clássicos : David Lean, Carol Reed e Michael Powell. Hitchcock não conta, é do universo. Powell é meu favorito. Lean é o melhor sucedido e Reed fica no meio termo. Este filme de espiões foi feito nas ruínas de Berlin antes do muro. As imagens são belíssimas ( existe terrível beleza nas ruínas ). É um filme de fotografia linda e de atuações perfeitas. Mas algo no roteiro falha : há um romance dispensável. Nota 6.
A BATALHA DO RIO DA PRATA de Michael Powell
E aqui está um de meus diretores favoritos em filme fraco. Odeio toda forma de patriotismo. Mesmo se justificado, como aqui. E mesmo quando Powell, em plena segunda-guerra, dá um retrato humano dos alemães. O capitão alemão tem honra, caráter e até joga limpo. O filme conta a primeira batalha naval da guerra, no Uruguai, em 1939. Mas tem jeito de propaganda, o que o faz hiper-datado. Nota 4.
LEVADA DA BRECA de Howard Hawks com Cary Grant e Kate Hepburn
A melhor comédia da história do cinema. Tem roteiro perfeito, atores de gênio, ritmo constante e alegria sem culpa. Um milagre de época de grandes comédias ( os anos 30 foram tempo dos Irmãos Marx, Chaplin, W C Fields, Myrna Loy, William Powell, Clair, Joe E. Brown, Harold Lloyd, Rosalind Russell e etc vasto e risonho ). Nota MIL.
UM BOM ANO de Ridley Scott com Russell Crowe, Albert Finney e Marion Cotillard
Belas paisagens. Engraçado... eu lí o livro de Peter Mayle e ele não tinha esse clima tão vulgar ! Faltou comida e vinho neste filme ! Sobraram bobagens. O personagem de Crowe é muito antipático. Nota 3.
SIDEWAYS de Alexander Payne com Paul Giamati, Thomas Haden Church e Virginia Madsen
Payne é muito bom diretor. O filme é gostosa diversão. Mas é estranho... esperávamos mais de Payne, de Giamati, de Church e de Madsen... cadê eles ? Problema central do cinema atual : faltam carreiras consistentes. Talvez faltem oportunidades. Filma-se pouco e quando o cara erra é o fim. Aqui todos acertaram, mas, cadê eles ???? Nota 6.
SINDICATO DE LADRÕES de Elia Kazan com Marlon Brando, Karl Malden, Eva Marie Saint, Lee J Cobb e Rod Steiger
No Oscar deste ano se citou Karl Malden e Budd Schulberg como mortos de 2009. Malden brilha ( como sempre ) neste filme que tem um dos melhores elencos da história. Budd fez o roteiro, que é básicamente uma defesa da deduragem. A trilha sonora de Leonard Bernstein enfatiza com genialidade a aridez deste filme áspero. Raros são tão pouco simpáticos. Ele é todo cinza ( foto do soberbo Boris Kauffman ), frio, macho, sem um mínimo sinal de alegria. Kazan defende a sí-mesmo, ele que havia dedurado os "comunas" no MacCarthismo. Marlon Brando tem atuação de gênio. Faz um bronco que se humaniza pelo amor. É convincente todo o tempo. Nas mãos de Sean Penn ou de De Niro este personagem seria apenas um bandidinho. Com Brando ele nos comove. A cena no táxi é considerada por todo ator americano ( principalmente os mais rebeldes ) o momento máximo da arte de interpretar. É usada como prova de admissão no Actors Studio. Dá pra ver a sombra de Pacino, Cage e etc nela. Eles construíram toda sua carreira estudando estes 4 minutos. O filme é dos maiores. Mas não dá o menor prazer. Você o admira, jamais ama-o. Nota 8.
LOUCA PAIXÃO de Paul Verhoeven com Rutger Hauer e Monique VandeVen
Os Holandeses consideram este o melhor filme já feito por lá. Não é. CHUVA, de Ivens, com apenas 20 minutos bate-o de longe. Mas é um filme invulgar. Mostra, na Holanda dos anos 70, ou seja, num lugar onde a liberdade vai ao limite, a paixão de um casal. Paixão que começa como sexo casual, evolui para a paixão dela por ele, e depois, dele por ela. Há o rompimento e um tipo de retorno dolorido. O filme é cheio de nudez, sexo, escatologia e paixão. Tudo vai sempre fundo e Hauer tem uma atuação corajosa. Monique comove. Ela é linda e ousadíssima. Como sempre falo, o mundo pirou nos anos 70 e este filme mostra isso. Verhoeven emigraria para a América, onde faria Robocop e Tropas Estelares. Nota 7.
NÓS QUE NOS AMÁVAMOS TANTO de Ettore Scola com Vittório Gassman, Nino Manfredi e Stefania Sandrelli
Os barbudinhos da Vila Madalena que me desculpem, mas este filme ( que tem uma das piores trilhas sonoras da história ) é um pé no saco. O cinema italiano dos anos 70 perde todo o apelo que conquistara nos anos 40/50/60 ao se empobrecer. O que era um belo humanismo se transforma em esquerdismo primário. Dá pena ver aquela geração brilhante mergulhar na lábia malandra dos comunas italianos. O filme é tão simplório que chega ao ridículo de mostrar todo direitista como gordo, velho e beiçudo. Por favor !!!!! Eles querem mudar o mundo, na marra, e nunca percebem que o problema não é o mundo, é o homem. O homem é instintivamente capitalista. Ele quer segurança e segurança se obtém no acúmulo. O homem quer ser superior ao vizinho, superior em alguma coisa, força, dinheiro ou inteligência ( e todos os personagens não percebem que passam todo o filme desejando liderar ). É um filme tão velho quanto uma opereta de Nelson Eddy. Nota 1.
O EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS de Pier Paolo Pasolini
Existem diretores que reconheço serem excelentes, mas dos quais não consigo gostar. Buñuel é um deles. Sei que ele é genial. Mas não consigo me animar com seus filmes. Pasolini é outro. Vejo nele tudo que admiro : coragem, sinceridade, força. Mas ele nunca me enfeitiça. Aqui ele despe Cristo de emoção e o que temos são momentos secos de atos de fé. O evangelho sem poesia, objetivo. Nada há de ofensivo, Pasolini respeita Jesus como revolucionário, mas o filme torna-se frio, distante, sem porquê. De soberbo ele tem sua trilha sonora. Gospel e blues de raiz, isso sim, um emocionante milagre. Nota 5.
LEVADA DA BRECA - HOWARD HAWKS e CARY GRANT/ KATE HEPBURN
Existem filmes que criam todo um novo mundo. Desenham um modo de se fazer um filme e passam a ser massivamente copiados. Existem pessoas que fertilizam.
Hawks criou dois tipos de comédia. Em 1934, com a ajuda de John Barrymore, criou a comédia de diálogos loucos. Aquele tipo de texto em que os atores metralham milhares de palavras por minuto, normalmente se agredindo. Para esse tipo de humor é necessário um ator que saiba falar, e que possa ser agressivo sem se tornar ofensivo. Tudo deve ser leve e ácido. O filme era chamado TWENTIETH CENTURY.
Em 1938 Hawks cria mais um tipo de comédia. A comédia baseada no encontro de um cara muito careta com uma moça muito doida. Eis LEVADA DA BRECA. Mas para criar esta, que é a mais genial das comédias, Howard precisou de dois atores de imenso talento : Cary e Kate. E creia, ver os dois juntos é um prazer insuperável.
Se voce é um tenro menino, acostumado ao humor pós-SATURDAY NIGHT LIVE, acostumado então a humor baseado em imitações e citações, bem, voce não irá gostar nada de LEVADA DA BRECA. Pois aqui temos humor baseado em gente engraçada e não em agressivas sátiras. Nada há neste filme que possa ser chamado de agressivo. O filme é feliz. Ficamos felizes enquanto o assistimos. Adoramos Cary e Kate. Nos apaixonamos pelos dois. E assistimos estupefatos ao nascimento de todos os clichês da comédia romântica. Porém, feitos antes, feitos com mais inteligência, mais talento e com dois atores de puro gênio.
Cary Grant criou dois tipos de humorista. Este, que é o tipo "cientista-nerd" e em JEJUM DE AMOR, também de Hawks, o espertalhão-safado. Depois dessas duas criações, hordas de atores passaram a imitar esses dois tipos. Mas foi Cary quem os inventou. Kate, melhor e maior atriz da história do cinema, diverte-se à larga, nesta que é sua primeira comédia pastelão. A gente se apaixona por ela. Sua maluquice anárquica, seu risinho de "sininhos", suas quedas e correrias. Escrevo isto e já sinto vontade de assistir o filme mais uma vez....
A história é fantástica, inverossímil, pura bobagem, como toda comédia deve ser. Trata de um cientista que num jogo de golfe se envolve sem querer com herdeira maluquinha que é dona de um leopardo. O resto é bola de neve. O filme nunca se interrompe, é doideira atrás de doideira, palhaçada sobre palhaçada, voce pensa que nada mais há para acontecer e lá vem mais uma volta de carrossel. Mas nada é forçado : em sua excentricidade, tudo acontece de forma natural. O roteiro de Dudley Nichols ( autor de vários westerns ) e de Hagar Wilde é de ouro. Arquétipo de comédias futuras.
Repare no modo como Kate interage com Cary na festa onde ela rasga o vestido. Repare em como voce reage ao filme. Voce não irá gargalhar ou mesmo rir. Hoje nossa reação a este filme é o sorriso. Um sorriso que fica por duas horas grudado no rosto e uma alegre leveza que se tatua no peito ao ver os dois juntos. Brigando, discutindo, ele fugindo dela, caindo e finalmente a rendição ( dele ). Comédia que nos dá um presente raro : felicidade.
Críticos já disseram que o filme tem um lado sério. Em meio a toda aquela palhaçada existe a representação do modo como toda história de amor se revela. Perda de certezas, perda de controle, resistências, entrega. Atração de opostos que se destroem para renascer depois.
Howard Hawks, Cary Grant e minha amada Kate Hepburn. Como agradecer à eles ? Os agradecimentos já foram feitos. Tanta gente, em 2010, tempo que nada tem a ver com LEVADA DA BRECA, ainda amar este pedaço de paraíso. Essa é a maior homenagem que um artista pode querer.
E ser tantas vezes imitado!!!!
Adendo :
Quem já escreveu ( ou tentou) comédia, sabe como é fácil fazer o humor tipo "Todo mundo em Pânico", "Borat" ou "American Pie". É um humor todo baseado em imitações, exageros ( voce pega qualquer situação e leva até o limite físico ) e preconceitos ( fazer rir do diferente é sempre fácil ). É um humor formatado na piada de bar e na raiva adolescente.
Quem já tentou escrever comédia sabe como é duro criar um tipo engraçado cem por cento original. Não baseado em ninguém, e cômico pelo que é, não pelo que faz. Humor verbal e de situação, nunca de gozação ou desconstrução.
LEVADA DA BRECA, minha mais querida comédia do meu mais amado diretor e de meu mais admirado ator e de minha mais adorada atriz, é monumento exemplar. Ficará viva enquanto o homem existir.
Hawks criou dois tipos de comédia. Em 1934, com a ajuda de John Barrymore, criou a comédia de diálogos loucos. Aquele tipo de texto em que os atores metralham milhares de palavras por minuto, normalmente se agredindo. Para esse tipo de humor é necessário um ator que saiba falar, e que possa ser agressivo sem se tornar ofensivo. Tudo deve ser leve e ácido. O filme era chamado TWENTIETH CENTURY.
Em 1938 Hawks cria mais um tipo de comédia. A comédia baseada no encontro de um cara muito careta com uma moça muito doida. Eis LEVADA DA BRECA. Mas para criar esta, que é a mais genial das comédias, Howard precisou de dois atores de imenso talento : Cary e Kate. E creia, ver os dois juntos é um prazer insuperável.
Se voce é um tenro menino, acostumado ao humor pós-SATURDAY NIGHT LIVE, acostumado então a humor baseado em imitações e citações, bem, voce não irá gostar nada de LEVADA DA BRECA. Pois aqui temos humor baseado em gente engraçada e não em agressivas sátiras. Nada há neste filme que possa ser chamado de agressivo. O filme é feliz. Ficamos felizes enquanto o assistimos. Adoramos Cary e Kate. Nos apaixonamos pelos dois. E assistimos estupefatos ao nascimento de todos os clichês da comédia romântica. Porém, feitos antes, feitos com mais inteligência, mais talento e com dois atores de puro gênio.
Cary Grant criou dois tipos de humorista. Este, que é o tipo "cientista-nerd" e em JEJUM DE AMOR, também de Hawks, o espertalhão-safado. Depois dessas duas criações, hordas de atores passaram a imitar esses dois tipos. Mas foi Cary quem os inventou. Kate, melhor e maior atriz da história do cinema, diverte-se à larga, nesta que é sua primeira comédia pastelão. A gente se apaixona por ela. Sua maluquice anárquica, seu risinho de "sininhos", suas quedas e correrias. Escrevo isto e já sinto vontade de assistir o filme mais uma vez....
A história é fantástica, inverossímil, pura bobagem, como toda comédia deve ser. Trata de um cientista que num jogo de golfe se envolve sem querer com herdeira maluquinha que é dona de um leopardo. O resto é bola de neve. O filme nunca se interrompe, é doideira atrás de doideira, palhaçada sobre palhaçada, voce pensa que nada mais há para acontecer e lá vem mais uma volta de carrossel. Mas nada é forçado : em sua excentricidade, tudo acontece de forma natural. O roteiro de Dudley Nichols ( autor de vários westerns ) e de Hagar Wilde é de ouro. Arquétipo de comédias futuras.
Repare no modo como Kate interage com Cary na festa onde ela rasga o vestido. Repare em como voce reage ao filme. Voce não irá gargalhar ou mesmo rir. Hoje nossa reação a este filme é o sorriso. Um sorriso que fica por duas horas grudado no rosto e uma alegre leveza que se tatua no peito ao ver os dois juntos. Brigando, discutindo, ele fugindo dela, caindo e finalmente a rendição ( dele ). Comédia que nos dá um presente raro : felicidade.
Críticos já disseram que o filme tem um lado sério. Em meio a toda aquela palhaçada existe a representação do modo como toda história de amor se revela. Perda de certezas, perda de controle, resistências, entrega. Atração de opostos que se destroem para renascer depois.
Howard Hawks, Cary Grant e minha amada Kate Hepburn. Como agradecer à eles ? Os agradecimentos já foram feitos. Tanta gente, em 2010, tempo que nada tem a ver com LEVADA DA BRECA, ainda amar este pedaço de paraíso. Essa é a maior homenagem que um artista pode querer.
E ser tantas vezes imitado!!!!
Adendo :
Quem já escreveu ( ou tentou) comédia, sabe como é fácil fazer o humor tipo "Todo mundo em Pânico", "Borat" ou "American Pie". É um humor todo baseado em imitações, exageros ( voce pega qualquer situação e leva até o limite físico ) e preconceitos ( fazer rir do diferente é sempre fácil ). É um humor formatado na piada de bar e na raiva adolescente.
Quem já tentou escrever comédia sabe como é duro criar um tipo engraçado cem por cento original. Não baseado em ninguém, e cômico pelo que é, não pelo que faz. Humor verbal e de situação, nunca de gozação ou desconstrução.
LEVADA DA BRECA, minha mais querida comédia do meu mais amado diretor e de meu mais admirado ator e de minha mais adorada atriz, é monumento exemplar. Ficará viva enquanto o homem existir.
RIO BRAVO-ONDE COMEÇA O INFERNO- HOWARD HAWKS
Filme favorito de Inácio Araújo e um dos top ten de Tarantino.
Hawks amava as pessoas. Sua câmera observa-as, deixa-as respirar. O tema central do filme é trapaceado : esse tema é apenas uma desculpa para se mostrar pessoas interagindo. E de tudo que apaixona Hawks, nada o interessa mais que a amizade masculina. É o mestre da amizade.
O tema deste western é : bandido está preso. Um xerife é ajudado por velho aleijado e alcoólatra. A missão : manter o bandido preso. A dificuldade : o irmão do bandido manda dúzias de pistoleiros para o libertar.
Mas o filme não é sobre essa aventura. É sobre a relação entre o xerife e o alcoólatra. Uma velha amizade em crise. Esse é o coração do filme. E é isso que interessa Hawks.
A câmera nunca tem pressa. Muita gente reclama que um dos maiores problemas dos filmes de hoje é que eles têm um só objetivo e ignoram todo o resto. Empobrecem a vida. Explico :
O excelente filme de Kathryn Bigelow fala de um grupo que desarma bombas no Iraque. E mesmo sendo um filme acima da média, ele trata sómente disso. A linha de narração jamais se desvia. Ele promete falar disso, e apenas disso ele fala. 99 por cento dos filmes hoje, mesmo os ditos de arte, são assim. Não existe dispersão, divagação, mudança de tom.
Hawks divaga. Súbito o filme é sobre alcoolismo. Sobre o flerte de Wayne e Angie Dickinson. Sobre um jovem cowboy. Comédia tola sobre velhote esquentado. E ainda envereda por diálogos relaxados sobre coisa nenhuma. ( Não é a toa que Tarantino o adora ). E o mais importante é : o filme nunca tem pressa, se demora, observa, deixa os atores atuarem.
John Wayne faz o seu melhor. Símbolo de virilidade. Feio, corajoso, nada vaidoso. Parece que todo lugar é seu lugar, mas ao mesmo tempo ele é profundamente individualista. Um pai. Dean Martin, que rouba o filme, está soberbo como o alcoólatra. Tudo nele é patético. A relação entre os dois é seca, cheia de nuances, absorvente. O filme é todo dos atores. Nada de paisagens, nada de truques de câmera ( é incrível como Hawks nunca faz questão de se exibir ).
E há o eterno romance de Howard Hawks. Seus filmes sempre trazem o encontro de um solteiro-durão e de uma mulher-aventureira. É ela quem seduz. É ela quem tem a coragem de tentar. E ele se deixa seduzir. Hawks não tem pudor nenhum em se auto-plagiar. ´Vários de seus filmes repetem cenas de sedução. Inclusive no nome da mulher : Feathers.
Howard Hawks foi piloto de automobilismo e um apaixonado por aventuras. Se tornou cineasta por acidente ( todos os grandes que fundaram o cinema americano se fizeram cineastas sem querer. Arrumaram algum emprego no meio e foram construindo uma carreira sem levar o cinema muito à sério. Isso se traduz em filmes leves, nada duros, easy going.... ) Ele dirigia sem pressão, falava baixo no set, jamais brigava, fazia piadas.
É o diretor que irá menos impressionar àqueles que começam agora a conhecer o bom cinema. Ele é discreto e nada "artístico". Mas depois de anos de falsos profetas, novidades antigas e fazedores de arte tediosa, voce começa a perceber o brilho de Howard. Começa a perceber como seu estilo é estranho, um estilo tão natural que parece ser fácil, mas que é terrivelmente individual. Voce percebe que Howard Hawks é o diretor dos diretores, o que mais tem a ensinar a todos que fazem filmes, e aquele que traduz o sentido de se fazer cinema : observar a vida.
Clint Eastwood é um dos que mais tem procurado ser Hawks. Ás vezes ele quase chega lá.
Ser Howard Hawks deve ter sido uma delícia. Mas não é para amadores. O homem foi um gigante. Nos ensina em seus filmes a como ser honesto, viril, como suportar a pressão estóicamente, a ficar frio, a saber viver.
Hawks foi o mais adulto e o mais sábio dos diretores. Perto dele, todos os outros se parecem com adolescentes histéricos.
Hawks amava as pessoas. Sua câmera observa-as, deixa-as respirar. O tema central do filme é trapaceado : esse tema é apenas uma desculpa para se mostrar pessoas interagindo. E de tudo que apaixona Hawks, nada o interessa mais que a amizade masculina. É o mestre da amizade.
O tema deste western é : bandido está preso. Um xerife é ajudado por velho aleijado e alcoólatra. A missão : manter o bandido preso. A dificuldade : o irmão do bandido manda dúzias de pistoleiros para o libertar.
Mas o filme não é sobre essa aventura. É sobre a relação entre o xerife e o alcoólatra. Uma velha amizade em crise. Esse é o coração do filme. E é isso que interessa Hawks.
A câmera nunca tem pressa. Muita gente reclama que um dos maiores problemas dos filmes de hoje é que eles têm um só objetivo e ignoram todo o resto. Empobrecem a vida. Explico :
O excelente filme de Kathryn Bigelow fala de um grupo que desarma bombas no Iraque. E mesmo sendo um filme acima da média, ele trata sómente disso. A linha de narração jamais se desvia. Ele promete falar disso, e apenas disso ele fala. 99 por cento dos filmes hoje, mesmo os ditos de arte, são assim. Não existe dispersão, divagação, mudança de tom.
Hawks divaga. Súbito o filme é sobre alcoolismo. Sobre o flerte de Wayne e Angie Dickinson. Sobre um jovem cowboy. Comédia tola sobre velhote esquentado. E ainda envereda por diálogos relaxados sobre coisa nenhuma. ( Não é a toa que Tarantino o adora ). E o mais importante é : o filme nunca tem pressa, se demora, observa, deixa os atores atuarem.
John Wayne faz o seu melhor. Símbolo de virilidade. Feio, corajoso, nada vaidoso. Parece que todo lugar é seu lugar, mas ao mesmo tempo ele é profundamente individualista. Um pai. Dean Martin, que rouba o filme, está soberbo como o alcoólatra. Tudo nele é patético. A relação entre os dois é seca, cheia de nuances, absorvente. O filme é todo dos atores. Nada de paisagens, nada de truques de câmera ( é incrível como Hawks nunca faz questão de se exibir ).
E há o eterno romance de Howard Hawks. Seus filmes sempre trazem o encontro de um solteiro-durão e de uma mulher-aventureira. É ela quem seduz. É ela quem tem a coragem de tentar. E ele se deixa seduzir. Hawks não tem pudor nenhum em se auto-plagiar. ´Vários de seus filmes repetem cenas de sedução. Inclusive no nome da mulher : Feathers.
Howard Hawks foi piloto de automobilismo e um apaixonado por aventuras. Se tornou cineasta por acidente ( todos os grandes que fundaram o cinema americano se fizeram cineastas sem querer. Arrumaram algum emprego no meio e foram construindo uma carreira sem levar o cinema muito à sério. Isso se traduz em filmes leves, nada duros, easy going.... ) Ele dirigia sem pressão, falava baixo no set, jamais brigava, fazia piadas.
É o diretor que irá menos impressionar àqueles que começam agora a conhecer o bom cinema. Ele é discreto e nada "artístico". Mas depois de anos de falsos profetas, novidades antigas e fazedores de arte tediosa, voce começa a perceber o brilho de Howard. Começa a perceber como seu estilo é estranho, um estilo tão natural que parece ser fácil, mas que é terrivelmente individual. Voce percebe que Howard Hawks é o diretor dos diretores, o que mais tem a ensinar a todos que fazem filmes, e aquele que traduz o sentido de se fazer cinema : observar a vida.
Clint Eastwood é um dos que mais tem procurado ser Hawks. Ás vezes ele quase chega lá.
Ser Howard Hawks deve ter sido uma delícia. Mas não é para amadores. O homem foi um gigante. Nos ensina em seus filmes a como ser honesto, viril, como suportar a pressão estóicamente, a ficar frio, a saber viver.
Hawks foi o mais adulto e o mais sábio dos diretores. Perto dele, todos os outros se parecem com adolescentes histéricos.
VINCENTE MINELLI/ GUERRA AO TERROR/ MAX OPHULS/ GEORGE CLOONEY
GUERRA AO TERROR de Kathryn Bigelow com Jeremy Renner
Estéticamente é um filme miserável. Usa e abusa de câmera tremida e é todo closes. Feito para tela pequena, para o nosso mundo de dvd. Mas mesmo assim é um excelente filme. Howard Hawks disse que para se fazer um grande filme bastam duas grandes cenas e nenhuma cena ruim. Este filme tem duas grandes cenas, mas tem uma muito ruim. O tiroteio no deserto é sua melhor cena. E o iraquiano amarrado em bombas é a outra. De péssima, a cena dos socos. Está longe de ser um filme profundo. O fato de merecer, sim, o Oscar de melhor filme, mostra onde estamos. Ele é superficialmente excelente. Ficamos absorvidos, vendo todo aquele som e fúria sem significado. Mas como em Tarantino, assistimos a talento puro sem assunto. Um adendo : Assim como nos anos 50 o tema válido era a normalidade ( o que é normal, o que é doentio ) e nos 60 era a busca por sí-mesmo ( quem eu sou e o que posso ser ), hoje o único tema relevante é a violência. Falar da violência é tocar no centro de nossa vida. Todos os outros temas são pouco urgentes. Para quem quiser saber, o grande tema dos 70 foi a paranóia, dos 80 foi o poder e nos 90 a dispersão da vida. Guerra ao Terror é retrato perfeito nosso : a guerra como guerra, sem heroísmo, sem vilões, sem política, sem porquê. Apenas um modo de se viver. De se viver intensamente. Como a droga. Nota 8.
NA TEIA DO DESTINO de Max Ophuls com Joan Bennet e James Mason
Para quem não sabe : Ophuls foi um diretor austríaco que emigrou para a Amércia durante a segunda guerra. Seu estilo é fluido, sensual, estético. Não foi feliz nos EUA e voltou para a Europa nos anos 50 onde também teve problemas com produtores. Tipo de diretor que poderia e deveria ter feito muito mais. Aqui, em clima noir, conta-se a história de mãe que protege a filha de chantagista que viu ela matar seu ex-namorado. Mason é um dos chantagistas que se apaixona pela mãe e paga por isso. O filme é simples, envolvente, bonito e magníficamente bem interpretado. James Mason, inglês com carreira nos dois continentes, era perfeito para esse tipo de papel, o de homem fragilizado. Um filme que representa outra era, o tempo dos filmes objetivos, curtos, diretos e profissionais. Nota 7.
A ÁRVORE DOS ENFORCADOS de Delmer Daves com Gary Cooper, Karl Malden e Maria Schell
Médico chega a cidade mineira. Começa a clinicar e se envolve com moça vítima de assalto. Ele é um homem estranho, bondoso e muito cruel ao mesmo tempo. Eis básicamente a sinopse do filme. Mas ele é bem mais. Coisas acontecem sem parar e tanto quanto o papel de Cooper, todo o filme parece meio doentio, torto, quase neurótico. Malden tem maravilhoso papel, um mineiro mentiroso que tenta violentar a moça. Gary Cooper é Gary Cooper, o maior ladrão de cenas de Hollywood, ficamos olhando pra ele sempre à espera do que ele vai fazer. O protótipo do que é ser astro. Daves foi com Mann e Boeticher, um dos últimos grandes diretores de westerns. 7.
O DIABO FEITO MULHER de Fritz Lang com Marlene Dietrich e Mel Ferrer
Ruim. Lang faz aqui um western todo errado. Se parece com uma sátira que não deu certo. Tenta ser leve e esperto, é apenas desagradável. Lang quando acerta é genial, mas quando erra é odiável. Este é puro ódio. Nota zero.
AMOR NA TARDE de Eric Rhomer
Quem não gosta de Rhomer acha que todos os seus filmes são iguais. Não são. Alguns são encantadores. Outros são menos que nada. Neste tudo é nada. Porque ? Muito simples. Como em Rhomer nada é artifício, tudo depende de nosso afeto pelos personagens. Aqui não se cria esse afeto. Olhamos aqueles caras falando e não queremos saber quem eles são ou o que têm a dizer. O filme naufraga. Nota 1.
AMOR SEM ESCALAS de Jason Reitman com George Clooney
Comentei este filme? Acho que só falei dele por alto. Bem... é o mais vazio dos filmes. Os personagens fazem coisas, mas o roteiro é incapaz de nos dizer quem eles são. Quando o filme se encerra continuamos não tendo a mínima idéia do que aconteceu. Porque na verdade nada aconteceu. Todos os personagens não têm razão de ser. E nem a irrazão do niilismo eles possuem. A menina deixa de ser dura e profissional sem qualquer explicação. Clooney se derrete porque ? Nada nos convence de nada. Para aceitar o que acontece precisamos desligar todo senso crítico, o que é lamentável. Pois o tema, se melhor escrito e dirigido com mais fibra, renderia um ótimo filme. Como está ele é xoxo, superficial e falso. Aliás, sua única verdade é seu conservadorismo. Sua mensagem explícita é : a família é o paraíso. Fora dela a vida não tem razão. É uma mensagem tão antiga que chega a ser vitoriana. É pré-Freud. Reitman, que produziu o filme com seu papai, Ivan Reitman, é o rei do cinema para meninos. Filmes fofos e sensíveis, isentos de qualquer raiva ou violência. Ah... e tem a trilha sonora ! Músicas de violão de vozes chorosas. São tão meladas que o CROSBY, STILLS E NASH perto delas é punk puro. Um horror !!!!! Mas há algo de bom neste melô, é George Clooney. Esse ator que destoa dos outros ( não tem músculos e tem cabelos brancos, sabe se vestir e fala com clareza ) aperfeiçoa aqui seu modo Cary Grant de atuar. Consegue passar alguma vida real neste filme tão castrado. No final chega a ser comovente sua vontade de dar profundidade a roteiro tosco. Ele é o filme. PS ; o filme me fez perceber que não estou fora deste mundo. O personagem de Clooney retrata superficialmente a minha condição espiritual : no ar. Uma pena este tema ter caído em mãos tão puerís..... nota 5 ( por Clooney, apenas )
ASSIM ESTAVA ESCRITO de Vincente Minelli com Kirk Douglas, Lana Turner, Gloria Grahame e Dick Powell
Voce quer saber o que é um roteiro perfeito ? Veja este filme. Uma mistura deliciosa de emoção e fantasia descabelada, de bons diálogos e ação corrida, drama e charme sem pudor. E com bons atores e um diretor esbanjando gosto. Que mais voce quer ? A história : Kirk é filho de falido produtor de cinema. O filme conta como ele reergueu essa companhia usando pessoas e roubando idéias. Quando o filme começa ( ele é em flash-back ) ele já faliu novamente e o que vemos são 3 de seus ex-colaboradores rememorando sua vida. Um diretor, uma atriz e um escritor. O filme cita deliciosamente a vida real. Lana Turner tem fixação pelo pai, estrela alcoólatra. É óbvio que esse pai é John Barrymore. Há ainda personagens que lembram William Wyler, King Vidor, Ava Gardner, Ramon Novarro, Billy Wilder e vasto etc. Tudo combinado de modo tão hábil que chega a nos causar um perene sorriso de prazer e cumplicidade. Kirk faz o tipo de papel em que é insuperável, o canalha. E Lana faz a alcoólatra ninfo em que se esmerou. Aliás o filme brinca com pólvora, tanto Lana como Gloria não eram fáceis. Lana, hiper estrela da Metro, envolveu-se em escândalo. Sua filha namorou o gangster de quem ela própria era amante. Tudo terminou em assassinato ( a filha matou o amante da mãe ) e Gloria era casada com o homossexual Nicholas Ray, amante de James Dean ( ele, não ela ). Gloria se separou de Ray e descobriu-se que ela tinha dúzias de casos, com homens e mulheres e até com um filho adotivo. Que elenco !!!!! O próprio Minelli era casado com Judy Garland, que morria de solidão, pois Minelli era outro caso de gay tentando mudar de vida e não conseguindo. Ela mergulharia nos remédios e ele continuaria colecionando porcelana. E fazendo filmes tão geniais como este e mais UM AMERICANO EM PARIS, O PIRATA, A RODA DA FORTUNA e mais alguns etcs... Assista este filme malicioso, fantasioso, adorável e divertidíssimo. Aprenda como se faz um filme sólido. Nota 8.
Estéticamente é um filme miserável. Usa e abusa de câmera tremida e é todo closes. Feito para tela pequena, para o nosso mundo de dvd. Mas mesmo assim é um excelente filme. Howard Hawks disse que para se fazer um grande filme bastam duas grandes cenas e nenhuma cena ruim. Este filme tem duas grandes cenas, mas tem uma muito ruim. O tiroteio no deserto é sua melhor cena. E o iraquiano amarrado em bombas é a outra. De péssima, a cena dos socos. Está longe de ser um filme profundo. O fato de merecer, sim, o Oscar de melhor filme, mostra onde estamos. Ele é superficialmente excelente. Ficamos absorvidos, vendo todo aquele som e fúria sem significado. Mas como em Tarantino, assistimos a talento puro sem assunto. Um adendo : Assim como nos anos 50 o tema válido era a normalidade ( o que é normal, o que é doentio ) e nos 60 era a busca por sí-mesmo ( quem eu sou e o que posso ser ), hoje o único tema relevante é a violência. Falar da violência é tocar no centro de nossa vida. Todos os outros temas são pouco urgentes. Para quem quiser saber, o grande tema dos 70 foi a paranóia, dos 80 foi o poder e nos 90 a dispersão da vida. Guerra ao Terror é retrato perfeito nosso : a guerra como guerra, sem heroísmo, sem vilões, sem política, sem porquê. Apenas um modo de se viver. De se viver intensamente. Como a droga. Nota 8.
NA TEIA DO DESTINO de Max Ophuls com Joan Bennet e James Mason
Para quem não sabe : Ophuls foi um diretor austríaco que emigrou para a Amércia durante a segunda guerra. Seu estilo é fluido, sensual, estético. Não foi feliz nos EUA e voltou para a Europa nos anos 50 onde também teve problemas com produtores. Tipo de diretor que poderia e deveria ter feito muito mais. Aqui, em clima noir, conta-se a história de mãe que protege a filha de chantagista que viu ela matar seu ex-namorado. Mason é um dos chantagistas que se apaixona pela mãe e paga por isso. O filme é simples, envolvente, bonito e magníficamente bem interpretado. James Mason, inglês com carreira nos dois continentes, era perfeito para esse tipo de papel, o de homem fragilizado. Um filme que representa outra era, o tempo dos filmes objetivos, curtos, diretos e profissionais. Nota 7.
A ÁRVORE DOS ENFORCADOS de Delmer Daves com Gary Cooper, Karl Malden e Maria Schell
Médico chega a cidade mineira. Começa a clinicar e se envolve com moça vítima de assalto. Ele é um homem estranho, bondoso e muito cruel ao mesmo tempo. Eis básicamente a sinopse do filme. Mas ele é bem mais. Coisas acontecem sem parar e tanto quanto o papel de Cooper, todo o filme parece meio doentio, torto, quase neurótico. Malden tem maravilhoso papel, um mineiro mentiroso que tenta violentar a moça. Gary Cooper é Gary Cooper, o maior ladrão de cenas de Hollywood, ficamos olhando pra ele sempre à espera do que ele vai fazer. O protótipo do que é ser astro. Daves foi com Mann e Boeticher, um dos últimos grandes diretores de westerns. 7.
O DIABO FEITO MULHER de Fritz Lang com Marlene Dietrich e Mel Ferrer
Ruim. Lang faz aqui um western todo errado. Se parece com uma sátira que não deu certo. Tenta ser leve e esperto, é apenas desagradável. Lang quando acerta é genial, mas quando erra é odiável. Este é puro ódio. Nota zero.
AMOR NA TARDE de Eric Rhomer
Quem não gosta de Rhomer acha que todos os seus filmes são iguais. Não são. Alguns são encantadores. Outros são menos que nada. Neste tudo é nada. Porque ? Muito simples. Como em Rhomer nada é artifício, tudo depende de nosso afeto pelos personagens. Aqui não se cria esse afeto. Olhamos aqueles caras falando e não queremos saber quem eles são ou o que têm a dizer. O filme naufraga. Nota 1.
AMOR SEM ESCALAS de Jason Reitman com George Clooney
Comentei este filme? Acho que só falei dele por alto. Bem... é o mais vazio dos filmes. Os personagens fazem coisas, mas o roteiro é incapaz de nos dizer quem eles são. Quando o filme se encerra continuamos não tendo a mínima idéia do que aconteceu. Porque na verdade nada aconteceu. Todos os personagens não têm razão de ser. E nem a irrazão do niilismo eles possuem. A menina deixa de ser dura e profissional sem qualquer explicação. Clooney se derrete porque ? Nada nos convence de nada. Para aceitar o que acontece precisamos desligar todo senso crítico, o que é lamentável. Pois o tema, se melhor escrito e dirigido com mais fibra, renderia um ótimo filme. Como está ele é xoxo, superficial e falso. Aliás, sua única verdade é seu conservadorismo. Sua mensagem explícita é : a família é o paraíso. Fora dela a vida não tem razão. É uma mensagem tão antiga que chega a ser vitoriana. É pré-Freud. Reitman, que produziu o filme com seu papai, Ivan Reitman, é o rei do cinema para meninos. Filmes fofos e sensíveis, isentos de qualquer raiva ou violência. Ah... e tem a trilha sonora ! Músicas de violão de vozes chorosas. São tão meladas que o CROSBY, STILLS E NASH perto delas é punk puro. Um horror !!!!! Mas há algo de bom neste melô, é George Clooney. Esse ator que destoa dos outros ( não tem músculos e tem cabelos brancos, sabe se vestir e fala com clareza ) aperfeiçoa aqui seu modo Cary Grant de atuar. Consegue passar alguma vida real neste filme tão castrado. No final chega a ser comovente sua vontade de dar profundidade a roteiro tosco. Ele é o filme. PS ; o filme me fez perceber que não estou fora deste mundo. O personagem de Clooney retrata superficialmente a minha condição espiritual : no ar. Uma pena este tema ter caído em mãos tão puerís..... nota 5 ( por Clooney, apenas )
ASSIM ESTAVA ESCRITO de Vincente Minelli com Kirk Douglas, Lana Turner, Gloria Grahame e Dick Powell
Voce quer saber o que é um roteiro perfeito ? Veja este filme. Uma mistura deliciosa de emoção e fantasia descabelada, de bons diálogos e ação corrida, drama e charme sem pudor. E com bons atores e um diretor esbanjando gosto. Que mais voce quer ? A história : Kirk é filho de falido produtor de cinema. O filme conta como ele reergueu essa companhia usando pessoas e roubando idéias. Quando o filme começa ( ele é em flash-back ) ele já faliu novamente e o que vemos são 3 de seus ex-colaboradores rememorando sua vida. Um diretor, uma atriz e um escritor. O filme cita deliciosamente a vida real. Lana Turner tem fixação pelo pai, estrela alcoólatra. É óbvio que esse pai é John Barrymore. Há ainda personagens que lembram William Wyler, King Vidor, Ava Gardner, Ramon Novarro, Billy Wilder e vasto etc. Tudo combinado de modo tão hábil que chega a nos causar um perene sorriso de prazer e cumplicidade. Kirk faz o tipo de papel em que é insuperável, o canalha. E Lana faz a alcoólatra ninfo em que se esmerou. Aliás o filme brinca com pólvora, tanto Lana como Gloria não eram fáceis. Lana, hiper estrela da Metro, envolveu-se em escândalo. Sua filha namorou o gangster de quem ela própria era amante. Tudo terminou em assassinato ( a filha matou o amante da mãe ) e Gloria era casada com o homossexual Nicholas Ray, amante de James Dean ( ele, não ela ). Gloria se separou de Ray e descobriu-se que ela tinha dúzias de casos, com homens e mulheres e até com um filho adotivo. Que elenco !!!!! O próprio Minelli era casado com Judy Garland, que morria de solidão, pois Minelli era outro caso de gay tentando mudar de vida e não conseguindo. Ela mergulharia nos remédios e ele continuaria colecionando porcelana. E fazendo filmes tão geniais como este e mais UM AMERICANO EM PARIS, O PIRATA, A RODA DA FORTUNA e mais alguns etcs... Assista este filme malicioso, fantasioso, adorável e divertidíssimo. Aprenda como se faz um filme sólido. Nota 8.
GOETHE - POESIAS SELECIONADAS
Goethe, como diz Harold Bloom, saiu de moda. Nosso tempo de homens-formigas tende a se incomodar com o gigantismo do poeta alemão. É uma pena, mas esperemos pela volta dos gigantes.
Tudo em Goethe é imenso. Sua vida foi longa ( 83 anos ) tendo vivido o classicismo, o romantismo e o pós-romantismo. Se interessou por tudo : química, física, teatro, política, poesia, música e falava dúzias de línguas. Nasceu em lar culto e feliz. Amou várias mulheres, de várias nações, de variadas idades. Foi grande sedutor e se tornou famoso em vida. Talvez tenha sido o mais amado homem de seu tempo.
E apesar de sua atemporalidade, de seu gênio que transcende estilo, Goethe é filho de seu meio. É retrato acabado do mais conturbado período europeu. É homem que une o universo da aristocracia com o folclore do homem comum de tempos industriais. Ele seria impossível hoje, pois Goethe ocupa espaço, é vaidoso, egocêntrico, vasto como um planeta, exagerado e arrogante, e também estranhamente bondoso. Vem da fábrica de heróis que foi a Europa entre 1770/1820, a era de Napoleão, Beethoven, Kant, Mozart, Byron, Shelley, Schubert, Hugo e tantos mais. A primeira geração industrial, a primeira geração de jornais, de revistas, de excursões. Goethe é o rosto titânico desse tempo.
Seu mundo é o do amor. Tudo é amor para ele. Está distante de nós em sua total ausência de cinismo. Ele não teme o sentimento. Ama o sol, a flor, a manhã e também se deixa conquistar pela lua e pela madrugada. Seduz mulheres e as descarta : seu compromisso é com seu ego. Mas sofre de remorsos. Sua obra é sinfonia de sentimentos. Mas o principal : Goethe, assim como Whitman, nos enche de júbilo. Lemos Goethe para sentir alegria e coragem. A diferença de Whitman reside na diferença entre Alemanha e América. O americano é mais democrático. Canta o povo. Goethe é aristocrático. Canta o coração e a alma. O tom é o mesmo : Adiante todos ! Rumo à vida !!!
E Goethe viveu muito, como viveu.... é exemplo de vida bem vivida. E sua obra tenta nos ensinar isso. Como viver de verdade. Como deixar o espírito livre. Voar.
Não pense que Goethe é dificil. Seu vocabulário é popular. O que ele tem de dificil é seu meio, seu mundo, tão distante do nosso. Goethe é total. Um artista. Não há nada de tímido nele. Nenhuma neurose. É corajoso e íntegro. Imenso.
Fica bem ao lado de Cervantes, Dante e Shakespeare. Dos deuses das letras. Dos milagres.
Ler Goethe é recordar aquilo que importa. O que vale a pena. O que é bom. Ele é necessário.
Tudo em Goethe é imenso. Sua vida foi longa ( 83 anos ) tendo vivido o classicismo, o romantismo e o pós-romantismo. Se interessou por tudo : química, física, teatro, política, poesia, música e falava dúzias de línguas. Nasceu em lar culto e feliz. Amou várias mulheres, de várias nações, de variadas idades. Foi grande sedutor e se tornou famoso em vida. Talvez tenha sido o mais amado homem de seu tempo.
E apesar de sua atemporalidade, de seu gênio que transcende estilo, Goethe é filho de seu meio. É retrato acabado do mais conturbado período europeu. É homem que une o universo da aristocracia com o folclore do homem comum de tempos industriais. Ele seria impossível hoje, pois Goethe ocupa espaço, é vaidoso, egocêntrico, vasto como um planeta, exagerado e arrogante, e também estranhamente bondoso. Vem da fábrica de heróis que foi a Europa entre 1770/1820, a era de Napoleão, Beethoven, Kant, Mozart, Byron, Shelley, Schubert, Hugo e tantos mais. A primeira geração industrial, a primeira geração de jornais, de revistas, de excursões. Goethe é o rosto titânico desse tempo.
Seu mundo é o do amor. Tudo é amor para ele. Está distante de nós em sua total ausência de cinismo. Ele não teme o sentimento. Ama o sol, a flor, a manhã e também se deixa conquistar pela lua e pela madrugada. Seduz mulheres e as descarta : seu compromisso é com seu ego. Mas sofre de remorsos. Sua obra é sinfonia de sentimentos. Mas o principal : Goethe, assim como Whitman, nos enche de júbilo. Lemos Goethe para sentir alegria e coragem. A diferença de Whitman reside na diferença entre Alemanha e América. O americano é mais democrático. Canta o povo. Goethe é aristocrático. Canta o coração e a alma. O tom é o mesmo : Adiante todos ! Rumo à vida !!!
E Goethe viveu muito, como viveu.... é exemplo de vida bem vivida. E sua obra tenta nos ensinar isso. Como viver de verdade. Como deixar o espírito livre. Voar.
Não pense que Goethe é dificil. Seu vocabulário é popular. O que ele tem de dificil é seu meio, seu mundo, tão distante do nosso. Goethe é total. Um artista. Não há nada de tímido nele. Nenhuma neurose. É corajoso e íntegro. Imenso.
Fica bem ao lado de Cervantes, Dante e Shakespeare. Dos deuses das letras. Dos milagres.
Ler Goethe é recordar aquilo que importa. O que vale a pena. O que é bom. Ele é necessário.
GREGOS E OS JOVENS ( palestra no café filosófico )
Como seria o grego que produziu esta obra ? Possuidor de mente jovem, onde, ele sabia, todas as possibilidades se apresentavam. Tudo por descobrir, tudo para ser feito, cada recanto intocado. Virgindade.
Teria ele a certeza absoluta da eternidade. Os deuses assistiam seu trabalho, os deuses velavam seu sono, a solidão lhe era inimaginável. Que mãos foram essas que modelaram essa face ? O que lhe passava na mente ao trabalho ? Mente jovem onde não existia a idéia de genialidade, onde não havia nenhum código a guardar e onde nada lhe distraía daquilo que importa. Jovem homem que vivia sem matar o tempo. Ele pensava na cabra fugida, na guerra iminente, nos deuses contentes, no próximo festival e na peça de Sófocles. Ele vivia todo o tempo no mundo jovem, puro, real. Cada momento lhe era como um abrir de olhos. Nascia.
E que rosto é esse com suas barbas viris, seu olhar implacável e seu cabelo que trai feminilidade ? Que homem é esse que não tem idade, não é jovem e longe está de ser um velho. Pleno de harmonia, cheio de energia, como se descobrisse tudo num suspiro. Novo para sempre.
Grego que fez esta obra imorredoura, nem o amor o distraía, nem as seduções de uma tela, nem mesmo um rádio. Olhava a vida todo o tempo, rio, deuses, lutas, praça pública, sexo, tudo inteiro e novo, ele estava lá sempre, no agora e no aqui, sem passado e sem medo do futuro, sempre e completamente : já.
Teria ele consciência do quanto era feliz ? Possuir a liberdade de campos sem dono, crer em sacrifícios e amar Atenas... e ser abençoado por Afrodite, por Zeus e por Apolo...
Depois.....
Todo momento do ocidente, desde então, seja renascença, seja romantismo, a revolução americana e francesa, e até maio de 68, todo momento onde o mundo tenta voltar a ser jovem, onde se fala em liberdade, recomeço, quebra de hábitos, harmonia, todo momento que vale à pena, é sempre uma tentativa, cada vez mais cansada, de se reviver o homem puro da Grécia ancestral. Unir Apolo e Dionisio.
Estamos velhos. Somos velhos. Com muletas. Precisamos de muletas para tudo. Um carro para viajar, drogas para suportar a vida, drogas para poder se divertir e até para sentir desejo. Precisamos de muletas. Telas para conseguir ver a vida, fotos e vídeos para poder recordar, vitaminas para se sentir forte, plásticas para tentar ser belo. Fugimos da realidade com nossas muletas porque temos a certeza de que O MUNDO ESTÁ EM AGONIA. Desde a revolução industrial, quando assistimos o fim de um tipo de mundo ( lento, sem stress, familiar, natural ) temos essa assombração de que todo o mundo está terminando. Toda nossa arte, desde então, toda nossa forma de vida e de fé, se tornou fatalista, niilista, e principalmente, se fez negação da vida real, do aqui e agora. Meninos assustados, vivem no futuro inexistente, ou no passado, idealizado. São todos românticos sem a coragem do real romantismo.
Nosso mundo está velho. As crianças estão nascendo já anciãs. Cheias de cuidados, horários e medos. Os garotos já crescem com o cinismo da desesperança, sem ingenuidade. Nascem deflorados, não conhecem a vigindade. E são dócilmente conduzidos pelas muletas de distrações senís, reanimadores e relaxantes, aparelhinhos que os confortam enquanto esperam pelo fim. Pois nunca se temeu tanto a morte. Filmes e games com braços decepados e cérebros explodidos são desesperada tentativa de banalizar a morte. A morte não é assim. É deixar de ser. É silenciosa, muda, asfixiante e invencível. Sua telinha não poderá torná-la virtual. Mas bem que voce tenta.
Tudo isso é sintoma de velhice.
Querer sempre o novo ( desde que se pareça com o que já se conhece ). Ter cara e corpo de adolescente. Não crer em coisas originais. Esquecer coisas desagradáveis. Achar que se sabe tudo. Zombar do idealismo. Descrer de política. Temer o futuro. Se apoiar com desespero em novas fés e soluções pseudo-científicas. Precisar todo o tempo de consolos e de cuidados. Idealizar a adolescencia é sintoma de velhice !
Mas aquele grego....
Vivendo ao lado daquele mar, onde ele tinha certeza viver um monstro. Pensando ter visto um deus voar entre as nuvens. Com um bosque só dele. E podendo fazer as primeiras perguntas, novas e vitais : Quem sou eu ? De onde vim ? Para onde vou ? Porque a semente se torna árvore e não um animal ? E tantas outras mais...
Tendo apenas uma cama, uma cadeira e seu prato. Nada temendo perder, nada sendo uma âncora. Sendo seu lar sua cidade, sua família seu co-cidadão, o sentido de sua vida seus deuses, e seu destino estando escrito. Onde o stress ? Onde o nada ? Vazio......
É claro que logo surgiriam gregos niilistas, gregos amargos, gregos materialistas. Mas é um EXERCÍCIO DE RACIOCÍNIO, não um niilismo de alma, um materialismo visceral. Eles estavam muito longe do viver-virtualmente.
Fica a obra. A nos lembrar de nossa infância. Do verde primeiro olhar. Uma mensagem de alegria, feita sem pretensão, quase por brincadeira, com pensamento leve, sensações reais e em meio a sol e ar de primeira primavera.
Todo grego, cada um deles, vestindo sua simples toga e indo à praça discutir o destino da cidade, foi absolutamente feliz. A felicidade de se descobrir a vida. A alegria de nascer.
Teria ele a certeza absoluta da eternidade. Os deuses assistiam seu trabalho, os deuses velavam seu sono, a solidão lhe era inimaginável. Que mãos foram essas que modelaram essa face ? O que lhe passava na mente ao trabalho ? Mente jovem onde não existia a idéia de genialidade, onde não havia nenhum código a guardar e onde nada lhe distraía daquilo que importa. Jovem homem que vivia sem matar o tempo. Ele pensava na cabra fugida, na guerra iminente, nos deuses contentes, no próximo festival e na peça de Sófocles. Ele vivia todo o tempo no mundo jovem, puro, real. Cada momento lhe era como um abrir de olhos. Nascia.
E que rosto é esse com suas barbas viris, seu olhar implacável e seu cabelo que trai feminilidade ? Que homem é esse que não tem idade, não é jovem e longe está de ser um velho. Pleno de harmonia, cheio de energia, como se descobrisse tudo num suspiro. Novo para sempre.
Grego que fez esta obra imorredoura, nem o amor o distraía, nem as seduções de uma tela, nem mesmo um rádio. Olhava a vida todo o tempo, rio, deuses, lutas, praça pública, sexo, tudo inteiro e novo, ele estava lá sempre, no agora e no aqui, sem passado e sem medo do futuro, sempre e completamente : já.
Teria ele consciência do quanto era feliz ? Possuir a liberdade de campos sem dono, crer em sacrifícios e amar Atenas... e ser abençoado por Afrodite, por Zeus e por Apolo...
Depois.....
Todo momento do ocidente, desde então, seja renascença, seja romantismo, a revolução americana e francesa, e até maio de 68, todo momento onde o mundo tenta voltar a ser jovem, onde se fala em liberdade, recomeço, quebra de hábitos, harmonia, todo momento que vale à pena, é sempre uma tentativa, cada vez mais cansada, de se reviver o homem puro da Grécia ancestral. Unir Apolo e Dionisio.
Estamos velhos. Somos velhos. Com muletas. Precisamos de muletas para tudo. Um carro para viajar, drogas para suportar a vida, drogas para poder se divertir e até para sentir desejo. Precisamos de muletas. Telas para conseguir ver a vida, fotos e vídeos para poder recordar, vitaminas para se sentir forte, plásticas para tentar ser belo. Fugimos da realidade com nossas muletas porque temos a certeza de que O MUNDO ESTÁ EM AGONIA. Desde a revolução industrial, quando assistimos o fim de um tipo de mundo ( lento, sem stress, familiar, natural ) temos essa assombração de que todo o mundo está terminando. Toda nossa arte, desde então, toda nossa forma de vida e de fé, se tornou fatalista, niilista, e principalmente, se fez negação da vida real, do aqui e agora. Meninos assustados, vivem no futuro inexistente, ou no passado, idealizado. São todos românticos sem a coragem do real romantismo.
Nosso mundo está velho. As crianças estão nascendo já anciãs. Cheias de cuidados, horários e medos. Os garotos já crescem com o cinismo da desesperança, sem ingenuidade. Nascem deflorados, não conhecem a vigindade. E são dócilmente conduzidos pelas muletas de distrações senís, reanimadores e relaxantes, aparelhinhos que os confortam enquanto esperam pelo fim. Pois nunca se temeu tanto a morte. Filmes e games com braços decepados e cérebros explodidos são desesperada tentativa de banalizar a morte. A morte não é assim. É deixar de ser. É silenciosa, muda, asfixiante e invencível. Sua telinha não poderá torná-la virtual. Mas bem que voce tenta.
Tudo isso é sintoma de velhice.
Querer sempre o novo ( desde que se pareça com o que já se conhece ). Ter cara e corpo de adolescente. Não crer em coisas originais. Esquecer coisas desagradáveis. Achar que se sabe tudo. Zombar do idealismo. Descrer de política. Temer o futuro. Se apoiar com desespero em novas fés e soluções pseudo-científicas. Precisar todo o tempo de consolos e de cuidados. Idealizar a adolescencia é sintoma de velhice !
Mas aquele grego....
Vivendo ao lado daquele mar, onde ele tinha certeza viver um monstro. Pensando ter visto um deus voar entre as nuvens. Com um bosque só dele. E podendo fazer as primeiras perguntas, novas e vitais : Quem sou eu ? De onde vim ? Para onde vou ? Porque a semente se torna árvore e não um animal ? E tantas outras mais...
Tendo apenas uma cama, uma cadeira e seu prato. Nada temendo perder, nada sendo uma âncora. Sendo seu lar sua cidade, sua família seu co-cidadão, o sentido de sua vida seus deuses, e seu destino estando escrito. Onde o stress ? Onde o nada ? Vazio......
É claro que logo surgiriam gregos niilistas, gregos amargos, gregos materialistas. Mas é um EXERCÍCIO DE RACIOCÍNIO, não um niilismo de alma, um materialismo visceral. Eles estavam muito longe do viver-virtualmente.
Fica a obra. A nos lembrar de nossa infância. Do verde primeiro olhar. Uma mensagem de alegria, feita sem pretensão, quase por brincadeira, com pensamento leve, sensações reais e em meio a sol e ar de primeira primavera.
Todo grego, cada um deles, vestindo sua simples toga e indo à praça discutir o destino da cidade, foi absolutamente feliz. A felicidade de se descobrir a vida. A alegria de nascer.
PROMETEU ACORRENTADO - ÉSQUILO
Ésquilo escreveu 2500 anos atrás sobre o que somos hoje. Pois nosso mundo é mundo onde Prometeu manda. Ele venceu.
A peça narra, em magnífico e insuperável texto, a saga do titã que rouba o fogo dos deuses e o oferece a todos os humanos. Com esse fogo, a civilização nasce, o homem adquire algo de divino, a luz, o calor, o brilho do intelecto. Prometeu nos cria. Mas os deuses se vingam, e Prometeu, agora amarrado em rocha marinha, receberá toda a eternidade, a visita de um abutre, que lhe comerá o fígado. Fígado que se regenerá toda manhã, para que o castigo jamais se encerre. Prometeu somos todos nós.
Falar dos gregos. O que? Somos seus filhos. Pensamos como eles. Nossas perguntas são as que eles formularam e entendemos a vida da maneira como aqueles pastores do Mediterrâneo nos ensinaram. O que entendemos por belo veio deles ( bela é a harmonia. ) E o teatro, a ode, o conceito de heroísmo e de cidadania vem de lá. Mas acima de tudo, nos legaram essa sede pelo conhecimento, a sede mais cruel do mundo do ocidente. Queremos saber tudo.
Interessante notar que este herói, o maior de todos, é um ladrão. Ele não cria o fogo, rouba-o. Engana os deuses, não os teme, os desafia. Prometeu é orgulhoso e sofre a dor de sua coragem. O herói está SOLITÁRIO, no oceano, sofrendo a dor de ser comido vivo. Ele ilumina a vida dos mortais, mas perde, dia a dia, um pedaço de seu órgão animal ( o fígado representa as emoções, a bilis ). Órgão que jamais será extinto. Prometeu sofrerá para sempre.
A história do progresso é a história do caminhar rumo à solidão. Todo passo adiante nos afasta do convívio entre humanos e nos aproxima da cela. Abandonamos o mundo de portas abertas e da praça pública e corremos para o quarto funcional. Casas gregas não tinham portas ( como tabas indígenas ). O homem de ontem nascia e morria em público. Comer solitário era uma vergonha. Para se sentir vivo, voce precisava estar presente perante a comunidade. Suas crenças eram crenças em grupo : a nação, a família, a religião.
Prometeu ainda vive em meio aos deuses. Ele faz o que faz pelo homem, pelo grupo. Mas ele já não respeita esses deuses e se aliena do grupo. Preso e castigado. O preço do saber : isolamento e diminuição de seu lado "biliar".
Cubículos para comer, quartos espelhados para "amar", aparelhinhos isolantes para andar pelas ruas sem ouvir ou ver nada, amizades sem contato, famílias desfeitas, igrejas vazias, política desprezada. Festas onde voce fica com alguém e nunca conhece alguém. Amores desfeitos por um emprego ou por falta de tempo. Ginástica com aparelhos, fé individual, drogas que dão um barato solitário, tv no quarto, carro fechado e climatizado, medo e mais medo. Voce crê no que ? Voce daria a vida por alguma coisa ou por alguém ? Sua vida tem um valor ?
Chegaremos ao tempo super moderno em que fotografaremos nossa namorada para olhá-la e nos masturbarmos em casa. É uma era de prazer solitário à dois. Por mais que tenhamos prolongado a vida ( para que mesmo ? ) nada compensa o vazio de não se crer em nada. O que voce crê ser cem por cento infalível ? Voce tem absoluta certeza de que o homem caminha para o bem ? Valeu a pena roubar o fogo ?
Na verdade a questão não é se valeu a pena. Nós tínhamos de roubar a luz. O que Prometeu nos ensina é que não há escolha. Nosso caminho é este, não existe outro possível. Destruir mitos, esvaziar esperanças e utopias, caminhar rumo ao rochedo. Nosso fado. Nietzsche amava esta peça sobre todas as outras. Ela fala de potência, de coragem, do super-homem. Prometeu jamais se arrepende, jamais sente piedade de sí-mesmo. Ele cumpriu. Eis tudo.
As pessoas pensam que viver intensamente é sair muito, viajar, beber e comer. Viver intensamente é iluminar. Dar luz às trevas. Conhecer. Não ir e fotografar, transar e catalogar. Conhecer. Esse é o tal do Carpe Diem. Mais um dia, mais um conhecimento adquirido. Tornar-se Prometeu. Criar. Bíblia de meu universo, PROMETEU é a certidão de nascimento do que vivemos desde sempre e para sempre. Ésquilo foi uma antena.
A peça narra, em magnífico e insuperável texto, a saga do titã que rouba o fogo dos deuses e o oferece a todos os humanos. Com esse fogo, a civilização nasce, o homem adquire algo de divino, a luz, o calor, o brilho do intelecto. Prometeu nos cria. Mas os deuses se vingam, e Prometeu, agora amarrado em rocha marinha, receberá toda a eternidade, a visita de um abutre, que lhe comerá o fígado. Fígado que se regenerá toda manhã, para que o castigo jamais se encerre. Prometeu somos todos nós.
Falar dos gregos. O que? Somos seus filhos. Pensamos como eles. Nossas perguntas são as que eles formularam e entendemos a vida da maneira como aqueles pastores do Mediterrâneo nos ensinaram. O que entendemos por belo veio deles ( bela é a harmonia. ) E o teatro, a ode, o conceito de heroísmo e de cidadania vem de lá. Mas acima de tudo, nos legaram essa sede pelo conhecimento, a sede mais cruel do mundo do ocidente. Queremos saber tudo.
Interessante notar que este herói, o maior de todos, é um ladrão. Ele não cria o fogo, rouba-o. Engana os deuses, não os teme, os desafia. Prometeu é orgulhoso e sofre a dor de sua coragem. O herói está SOLITÁRIO, no oceano, sofrendo a dor de ser comido vivo. Ele ilumina a vida dos mortais, mas perde, dia a dia, um pedaço de seu órgão animal ( o fígado representa as emoções, a bilis ). Órgão que jamais será extinto. Prometeu sofrerá para sempre.
A história do progresso é a história do caminhar rumo à solidão. Todo passo adiante nos afasta do convívio entre humanos e nos aproxima da cela. Abandonamos o mundo de portas abertas e da praça pública e corremos para o quarto funcional. Casas gregas não tinham portas ( como tabas indígenas ). O homem de ontem nascia e morria em público. Comer solitário era uma vergonha. Para se sentir vivo, voce precisava estar presente perante a comunidade. Suas crenças eram crenças em grupo : a nação, a família, a religião.
Prometeu ainda vive em meio aos deuses. Ele faz o que faz pelo homem, pelo grupo. Mas ele já não respeita esses deuses e se aliena do grupo. Preso e castigado. O preço do saber : isolamento e diminuição de seu lado "biliar".
Cubículos para comer, quartos espelhados para "amar", aparelhinhos isolantes para andar pelas ruas sem ouvir ou ver nada, amizades sem contato, famílias desfeitas, igrejas vazias, política desprezada. Festas onde voce fica com alguém e nunca conhece alguém. Amores desfeitos por um emprego ou por falta de tempo. Ginástica com aparelhos, fé individual, drogas que dão um barato solitário, tv no quarto, carro fechado e climatizado, medo e mais medo. Voce crê no que ? Voce daria a vida por alguma coisa ou por alguém ? Sua vida tem um valor ?
Chegaremos ao tempo super moderno em que fotografaremos nossa namorada para olhá-la e nos masturbarmos em casa. É uma era de prazer solitário à dois. Por mais que tenhamos prolongado a vida ( para que mesmo ? ) nada compensa o vazio de não se crer em nada. O que voce crê ser cem por cento infalível ? Voce tem absoluta certeza de que o homem caminha para o bem ? Valeu a pena roubar o fogo ?
Na verdade a questão não é se valeu a pena. Nós tínhamos de roubar a luz. O que Prometeu nos ensina é que não há escolha. Nosso caminho é este, não existe outro possível. Destruir mitos, esvaziar esperanças e utopias, caminhar rumo ao rochedo. Nosso fado. Nietzsche amava esta peça sobre todas as outras. Ela fala de potência, de coragem, do super-homem. Prometeu jamais se arrepende, jamais sente piedade de sí-mesmo. Ele cumpriu. Eis tudo.
As pessoas pensam que viver intensamente é sair muito, viajar, beber e comer. Viver intensamente é iluminar. Dar luz às trevas. Conhecer. Não ir e fotografar, transar e catalogar. Conhecer. Esse é o tal do Carpe Diem. Mais um dia, mais um conhecimento adquirido. Tornar-se Prometeu. Criar. Bíblia de meu universo, PROMETEU é a certidão de nascimento do que vivemos desde sempre e para sempre. Ésquilo foi uma antena.
O MORRO DOS VENTOS UIVANTES - EMILY BRONTE, O MELHOR ROMANCE DESTES MUNDOS
Pedra.
Por detrás de todo rosto empedrado existe a chaga podre. Conhecer o céu e vê-lo ser fechado para sua vida. A porta de madeira batida contra seu rosto. O fim. Ter de olhar para baixo e caminhar, sem vontade, rumo ao inferno. Tecer armadura de ferro pesado e criar cara de pedra. Sua voz será desdém pelos fracos. Eis o único caminho. A pedra.
Porque tudo acaba. Tentamos nos enganar, mas tudo se vai. A alma de quem mais lhe era preciosa se fecha em abismo. Anda e se vai sem olhar. Suas lágrimas endurecem e criam um rastro rochoso. Rindo entre pessoas voce sabe : sua vida está encerrada. Na rocha.
O ódio ao mundo. Voce vê o destino de tudo que agora brilha. Esquecimento. Sabe que todas as coisas serão vazio. Imemória da vida. Mas a sua maldição, a pior ? , é a de jamais poder se esquecer. Só existe um amor para cada coração. Todos os outros são atos desesperados. A tentativa de reanimar um ser partido. A ilusão de se ver aquilo que se fez invisível.
Quem tem a coragem de mergulhar no abismo ?
O MORRO DOS VENTOS UIVANTES é a história de todo coração partido. E de toda coragem irascível. Lido aos 15 anos, na minha era da lama e da névoa. Relido sempre. CATHERINE...HEATHCLIFF....eu sou Heathcliff.... eu sou pedra.
Criar seu próprio universo em sua solidão. É preciso pedra para edificar paredes que resistam ao tempo. Senhor de um globo feito de neblina e sol pálido. Tudo é lama e saudade. Tudo é raiva e vingança.
Porque fui rei da felicidade e hoje sou blasfemador do destino. E o que vejo são partidas, mortes, adeus, brisa tornada muro. Ter de rir do amor, voce que vivia só para ele.
Saiba : detrás de toda face irascível há uma criança desiludida. Erguer o queixo para não cair no vazio. Aprender a ser um destino.
Uma geração atrás. Apenas uma. Eu andava na idade média. Sombras de fogueira na parede, pés nús sobre a neve, candeeiros e bruxarias. Essa riquesa não tem preço. Eu ví a treva da alvorada morta e conhecí a fé no além. Meu pai veio da carroça de burrico e meu avô da pedra cortada a mão. Minha avó bradava maldições e minha mãe sabe o preço de se esbarrar com tifo, desnutrição e nudez na neve de janeiro. Meu sangue conhece a viuvez de toda uma vida, a honra ferida que se paga com a morte, a promessa que tem de ser seguida.
Sou velho como o vazio. Esse é meu ouro e minha cara de pedra.
Mas tenho, sendo um burrico e um lobo, de viver em mundo de aço, asfalto, velocidade e finais. De onde venho TUDO É PRA SEMPRE. Assim me ensinaram. Mas aqui e agora, nada é para sempre. NADA SEMPRE. Maldição de Heathcliff, o mundo que herdei me é odioso.
A casa de pedra me espera no alto do monte. O norte de Portugal ou o norte da Irlanda. Onde nada se dá e onde damos tudo de nós. Onde a alma de Catherine me espera. Para sempre me espera e para sempre lá estarei. Pois toda esta vida é espera...
Jogarei tudo ao fogo e destruirei esta cara de pedra. Quebrarei a janela e me jogarei para ela...
O MORRO DOS VENTOS UIVANTES é sobre a alma.
Por detrás de todo rosto empedrado existe a chaga podre. Conhecer o céu e vê-lo ser fechado para sua vida. A porta de madeira batida contra seu rosto. O fim. Ter de olhar para baixo e caminhar, sem vontade, rumo ao inferno. Tecer armadura de ferro pesado e criar cara de pedra. Sua voz será desdém pelos fracos. Eis o único caminho. A pedra.
Porque tudo acaba. Tentamos nos enganar, mas tudo se vai. A alma de quem mais lhe era preciosa se fecha em abismo. Anda e se vai sem olhar. Suas lágrimas endurecem e criam um rastro rochoso. Rindo entre pessoas voce sabe : sua vida está encerrada. Na rocha.
O ódio ao mundo. Voce vê o destino de tudo que agora brilha. Esquecimento. Sabe que todas as coisas serão vazio. Imemória da vida. Mas a sua maldição, a pior ? , é a de jamais poder se esquecer. Só existe um amor para cada coração. Todos os outros são atos desesperados. A tentativa de reanimar um ser partido. A ilusão de se ver aquilo que se fez invisível.
Quem tem a coragem de mergulhar no abismo ?
O MORRO DOS VENTOS UIVANTES é a história de todo coração partido. E de toda coragem irascível. Lido aos 15 anos, na minha era da lama e da névoa. Relido sempre. CATHERINE...HEATHCLIFF....eu sou Heathcliff.... eu sou pedra.
Criar seu próprio universo em sua solidão. É preciso pedra para edificar paredes que resistam ao tempo. Senhor de um globo feito de neblina e sol pálido. Tudo é lama e saudade. Tudo é raiva e vingança.
Porque fui rei da felicidade e hoje sou blasfemador do destino. E o que vejo são partidas, mortes, adeus, brisa tornada muro. Ter de rir do amor, voce que vivia só para ele.
Saiba : detrás de toda face irascível há uma criança desiludida. Erguer o queixo para não cair no vazio. Aprender a ser um destino.
Uma geração atrás. Apenas uma. Eu andava na idade média. Sombras de fogueira na parede, pés nús sobre a neve, candeeiros e bruxarias. Essa riquesa não tem preço. Eu ví a treva da alvorada morta e conhecí a fé no além. Meu pai veio da carroça de burrico e meu avô da pedra cortada a mão. Minha avó bradava maldições e minha mãe sabe o preço de se esbarrar com tifo, desnutrição e nudez na neve de janeiro. Meu sangue conhece a viuvez de toda uma vida, a honra ferida que se paga com a morte, a promessa que tem de ser seguida.
Sou velho como o vazio. Esse é meu ouro e minha cara de pedra.
Mas tenho, sendo um burrico e um lobo, de viver em mundo de aço, asfalto, velocidade e finais. De onde venho TUDO É PRA SEMPRE. Assim me ensinaram. Mas aqui e agora, nada é para sempre. NADA SEMPRE. Maldição de Heathcliff, o mundo que herdei me é odioso.
A casa de pedra me espera no alto do monte. O norte de Portugal ou o norte da Irlanda. Onde nada se dá e onde damos tudo de nós. Onde a alma de Catherine me espera. Para sempre me espera e para sempre lá estarei. Pois toda esta vida é espera...
Jogarei tudo ao fogo e destruirei esta cara de pedra. Quebrarei a janela e me jogarei para ela...
O MORRO DOS VENTOS UIVANTES é sobre a alma.
THE PRETZEL LOGIC - STEELY DAN
Fácil dizer o que o Steely Dan não é : banda de rock, grupo de jazz ou música pop. Mas também nada tem de vanguarda, de folk ou de simples. O que eles são afinal ?
Dá pra dizer que eles odiavam tocar ao vivo. Eram desajeitados e muito feios. Raras bandas foram tão pouco glamurosas. Mas dá pra dizer uma coisa que eles faziam : um tipo de som "de luxo", refinado, macio. Como na mpb, não há ódio no Steely Dan, porque neles tudo soa harmônico.
Na verdade eles eram um duo : Donald Fagen e Walter Becker. E um bando de músicos escolhidos a dedo. Gente do jazz. Mas eles faziam jazz ? Nunca. Então o que tocavam ?
Nasceram em Boston, o que quer dizer muito. Cultura. E eram maconheiros exaltados. Leitores maconheiros. Começa a entender ? Aquele tipo de cabeludo não-hippie mas que fica chapado e é anti-capitalista. Porém o som deles nunca é muito-louco. É muito bem tocado e usa o formato pop. Quatro minutos com refrão e solo curto. Pegajoso.
Pop ? Com esse vocal de quem não tem voz ? Mas que TomJobinianamente coloca a voz ruim sempre no tom exato. Pop ? Com essas mudanças de andamento constantes e letras que são compêndios universitários ? E refrões muito complicados... e magnificamente bem arranjados.
Venderam muito em seu tempo. E hoje são sampleados a toda hora pelo povo do rap. Seriam eles funky ?
O disco tem um vendedor de rua na capa. Pretzels. Capa feia e ao mesmo tempo bela. Fria. Rikki dont lose that number abre o disco. Riff de piano. De gênio. Tá dado o tom. Música bonita e bem feita, mas... mutável. Night by night é noite em Chicago andando de Cadillac. Any major dude é obra-prima de sóbria e madura melancolia. Linda de doer. Tem um arranjo quase medieval e quase freak ( Pode ? Pode ! ). Maduros. O Steely nasce adulto.
Barrytown é festeira e otimista e vem um cover de quem ? Duke Ellington !! Lembremos : O Steely tem a culpa de ser matriz do pop mais vulgar da história. O pop yuppie dos anos 80. Mas o Steely Dan jamais é vulgar ou yuppie. É perfeitamente brilhante.
Parkers band. O disco cresce. Exibição de música elétrica. Voa. Through with buzz é adendo para a obra-mestra : Pretzel logic, hino de inspiração de alguém ( Fagen ) que sabe tudo de harmonia. O dude é inspirado demais !!!!! With a gun é música de cowboy. Mas é cowboy urbano, nada country. Made in Boston. O som do Steely Dan é almofadinha. Sem jamais ser careta. Muita erva.
Charlie Freak é fôlego novo e o disco termina com Monkey in your soul que é psicodelismo inteligente e sob controle. O Steely Dan nunca perde o controle, ele é hiper ensaiado, hiper profissional, mas é sempre vivo.
Mas o que é o Steely Dan afinal ?
Dá pra dizer que eles odiavam tocar ao vivo. Eram desajeitados e muito feios. Raras bandas foram tão pouco glamurosas. Mas dá pra dizer uma coisa que eles faziam : um tipo de som "de luxo", refinado, macio. Como na mpb, não há ódio no Steely Dan, porque neles tudo soa harmônico.
Na verdade eles eram um duo : Donald Fagen e Walter Becker. E um bando de músicos escolhidos a dedo. Gente do jazz. Mas eles faziam jazz ? Nunca. Então o que tocavam ?
Nasceram em Boston, o que quer dizer muito. Cultura. E eram maconheiros exaltados. Leitores maconheiros. Começa a entender ? Aquele tipo de cabeludo não-hippie mas que fica chapado e é anti-capitalista. Porém o som deles nunca é muito-louco. É muito bem tocado e usa o formato pop. Quatro minutos com refrão e solo curto. Pegajoso.
Pop ? Com esse vocal de quem não tem voz ? Mas que TomJobinianamente coloca a voz ruim sempre no tom exato. Pop ? Com essas mudanças de andamento constantes e letras que são compêndios universitários ? E refrões muito complicados... e magnificamente bem arranjados.
Venderam muito em seu tempo. E hoje são sampleados a toda hora pelo povo do rap. Seriam eles funky ?
O disco tem um vendedor de rua na capa. Pretzels. Capa feia e ao mesmo tempo bela. Fria. Rikki dont lose that number abre o disco. Riff de piano. De gênio. Tá dado o tom. Música bonita e bem feita, mas... mutável. Night by night é noite em Chicago andando de Cadillac. Any major dude é obra-prima de sóbria e madura melancolia. Linda de doer. Tem um arranjo quase medieval e quase freak ( Pode ? Pode ! ). Maduros. O Steely nasce adulto.
Barrytown é festeira e otimista e vem um cover de quem ? Duke Ellington !! Lembremos : O Steely tem a culpa de ser matriz do pop mais vulgar da história. O pop yuppie dos anos 80. Mas o Steely Dan jamais é vulgar ou yuppie. É perfeitamente brilhante.
Parkers band. O disco cresce. Exibição de música elétrica. Voa. Through with buzz é adendo para a obra-mestra : Pretzel logic, hino de inspiração de alguém ( Fagen ) que sabe tudo de harmonia. O dude é inspirado demais !!!!! With a gun é música de cowboy. Mas é cowboy urbano, nada country. Made in Boston. O som do Steely Dan é almofadinha. Sem jamais ser careta. Muita erva.
Charlie Freak é fôlego novo e o disco termina com Monkey in your soul que é psicodelismo inteligente e sob controle. O Steely Dan nunca perde o controle, ele é hiper ensaiado, hiper profissional, mas é sempre vivo.
Mas o que é o Steely Dan afinal ?
COXINHAS E MENINOS - ROQUINHO INGLÊS
O cara é feito de doce de leite com calda de flor de laranjeira. Seu rosto, macio, jamais expressa raiva, perigo, maldade. Tudo nele é "amor".... ele é sublime.... ele é um boçal !
A Veja tem matéria sobre os coxinhas, que nada mais são que os que chamo de "meninos". Aqueles seres inocentes, que nunca saem dos 12 anos de idade, vivendo sempre em mundinho de lágrimas sem tragédia e risos sem perigo.
São bons. Como chá de erva cedreira. E são úteis. Como um band-aid. Se voce os cortar sairá água e não sangue. Se deixam escapar um palavrão logo se desculpam. Para eles "all you need is love". Púberos enrugados.
Sua música é puro Elton John. Mas Elton perto deles é um perigoso rebelde. Elton é uma bicha-velha. Foi um pavão de muito mal gosto. Eles não podem ser bichas. No fundo são carolas. Coroinhas. Aquilo que nas velhas escolas inglesas era a alegria dos veteranos. Eles são sempre os Beatles antes de conhecer Bob Dylan. Filhinhos da mamãe.
Que triste coisinha se tornou o roquinho inglês ! Uma receita que une o U2 e MacCartney... e Smiths sem ironia.
Todos os rebeldes puxaram o carro. Os nerds tomaram conta. Música sem pau, que adocica seus sonhos de amor fofo e paz no mundo. É o mais careta aspecto do conformismo mais ridículo.
É por isso que eu adoro Amy Winehouse. Ela está sózinha nessa briga. Ela é Serge Gainsbourg com vagina e nascida na época errada ( e do lado errado do canal. Os franceses a entenderiam melhor ). Mas a Inglaterra, que já foi terra de inacreditáveis Madness, Keith Richards e Happy Mondays, gente suja, gente baforenta, gente de alma satânica, hoje é terra de Babys Johnsson de talco e fralda. De Coldplay, Keane, e fofuretes afim. O pior saudosismo dos anos 70 travestido de embalo para reaças.
Vá assistir o Cold. Ele vende quase tanto quanto ABBA e BEE GEES. O público é o mesmo. O rótulo é outro. O roquinho inglês mata.
A Veja tem matéria sobre os coxinhas, que nada mais são que os que chamo de "meninos". Aqueles seres inocentes, que nunca saem dos 12 anos de idade, vivendo sempre em mundinho de lágrimas sem tragédia e risos sem perigo.
São bons. Como chá de erva cedreira. E são úteis. Como um band-aid. Se voce os cortar sairá água e não sangue. Se deixam escapar um palavrão logo se desculpam. Para eles "all you need is love". Púberos enrugados.
Sua música é puro Elton John. Mas Elton perto deles é um perigoso rebelde. Elton é uma bicha-velha. Foi um pavão de muito mal gosto. Eles não podem ser bichas. No fundo são carolas. Coroinhas. Aquilo que nas velhas escolas inglesas era a alegria dos veteranos. Eles são sempre os Beatles antes de conhecer Bob Dylan. Filhinhos da mamãe.
Que triste coisinha se tornou o roquinho inglês ! Uma receita que une o U2 e MacCartney... e Smiths sem ironia.
Todos os rebeldes puxaram o carro. Os nerds tomaram conta. Música sem pau, que adocica seus sonhos de amor fofo e paz no mundo. É o mais careta aspecto do conformismo mais ridículo.
É por isso que eu adoro Amy Winehouse. Ela está sózinha nessa briga. Ela é Serge Gainsbourg com vagina e nascida na época errada ( e do lado errado do canal. Os franceses a entenderiam melhor ). Mas a Inglaterra, que já foi terra de inacreditáveis Madness, Keith Richards e Happy Mondays, gente suja, gente baforenta, gente de alma satânica, hoje é terra de Babys Johnsson de talco e fralda. De Coldplay, Keane, e fofuretes afim. O pior saudosismo dos anos 70 travestido de embalo para reaças.
Vá assistir o Cold. Ele vende quase tanto quanto ABBA e BEE GEES. O público é o mesmo. O rótulo é outro. O roquinho inglês mata.
A SEXTA SINFONIA - BEETHOVEN
Em tempo de flacidez, em época de artistazinhos bonzinhos, é primordial ouvir e penetrar no titânico universo de Beethoven.
O artista até então, mesmo se possuindo egos colossais como Michelangelo ou Rembrandt, era ou um devedor de favores ou um exótico divertido. Um serviçal, seja pelo nobre ou seja por Deus. E noto que o rock e o cinema de hoje são lacaios do gosto comum. Bom....continuando....
Em tempo napoleônico, Beethoven irrompe berrando aos quatro cantos : SOU TÃO GRANDE QUANTO NAPOLEÃO! FAÇO O QUE QUERO E DO MODO COMO DESEJAR! Ele coloca o desejo no centro do mundo, sua missão tem um só objetivo, o de desenvolver seu espírito.
Porque na Alemanha ? Goethe faz mais ou menos a mesma coisa. Penso que na Alemanha se uniu um tipo de admiração/ódio por Napoleão, uma mistura de racionalismo e misticismo e um surto de desenvolvimento econômico. Beethoven cria sózinho, e isso é muito revolucionário, o público pagante. O artista não mais se rebaixa, se alguém quiser vê-lo, pagará por isso.
Ele era intragável. Um gênio vaidoso, arrogante, vulcânico. Como todo talento genuíno, sua alma o absorvia ( e absolvia ). Um planeta sem Beethoven não vale a pena. Ele fez deste mundo um lugar mais suportável.
Chovia muito quando ouvi a sexta pela primeira vez. Me molhara ( na verdade quase me afogara ) na volta da escola ( Mackenzie ). Havia recém brigado com TODOS os meus amigos. Vivia um mundo beethoviano. Na amarelada sala de casa, coloquei o disco e me deixei ir.
Logo percebi que ao contrário dos clássicos ( Mozart, Haydn, Haendel ), Beethoven não convida-nos a escutar. Ele não seduz, ele se intromete e se afirma. Tudo em sua música é violência. Não há sofrimento em Ludwig, há tragédia. A alegria é desregramento e ele jamais termina com ponto, é sempre uma exclamação. Mas o principal, ele harmoniza a violência, harmoniza o desespero e traduz beleza. Nos dá a chance de vivenciar o sublime em estado bruto. Beethoven é como um mapa que nos leva ao centro de nossa própria sublimidade. Esse monstro de narcisismo se revela um deus de generosidade.
A sinfonia tem lagos, riachos, raios de ira, maremotos e gotas de orvalho. Ele se faz Júpiter. Mergulhar nessa música é saber o quanto de voodoo toda música tem. Você sai do outro lado como se ungido por mel e lava. Outro. Da religião dos renascidos em Beethoven.
Com o tempo o compositor de Bonn, o irascível gênio alemão, se tornou um tipo de continente terráqueo. Ele está lá. Estará enquanto o planeta existir. Sólido, rígido, fértil. Sim, ele é o falo da música ocidental. É o que existe de mais potente em música.
O século XXI precisa de Beethoven. Para recordar o tamanho que podemos atingir. O quanto temos de divino e de satânico. Ele é o homem central de nossa cultura. Ter em sua história alguém como Beethoven dá à Alemanha a inveja do universo. Para o bem e para o mal.
O artista até então, mesmo se possuindo egos colossais como Michelangelo ou Rembrandt, era ou um devedor de favores ou um exótico divertido. Um serviçal, seja pelo nobre ou seja por Deus. E noto que o rock e o cinema de hoje são lacaios do gosto comum. Bom....continuando....
Em tempo napoleônico, Beethoven irrompe berrando aos quatro cantos : SOU TÃO GRANDE QUANTO NAPOLEÃO! FAÇO O QUE QUERO E DO MODO COMO DESEJAR! Ele coloca o desejo no centro do mundo, sua missão tem um só objetivo, o de desenvolver seu espírito.
Porque na Alemanha ? Goethe faz mais ou menos a mesma coisa. Penso que na Alemanha se uniu um tipo de admiração/ódio por Napoleão, uma mistura de racionalismo e misticismo e um surto de desenvolvimento econômico. Beethoven cria sózinho, e isso é muito revolucionário, o público pagante. O artista não mais se rebaixa, se alguém quiser vê-lo, pagará por isso.
Ele era intragável. Um gênio vaidoso, arrogante, vulcânico. Como todo talento genuíno, sua alma o absorvia ( e absolvia ). Um planeta sem Beethoven não vale a pena. Ele fez deste mundo um lugar mais suportável.
Chovia muito quando ouvi a sexta pela primeira vez. Me molhara ( na verdade quase me afogara ) na volta da escola ( Mackenzie ). Havia recém brigado com TODOS os meus amigos. Vivia um mundo beethoviano. Na amarelada sala de casa, coloquei o disco e me deixei ir.
Logo percebi que ao contrário dos clássicos ( Mozart, Haydn, Haendel ), Beethoven não convida-nos a escutar. Ele não seduz, ele se intromete e se afirma. Tudo em sua música é violência. Não há sofrimento em Ludwig, há tragédia. A alegria é desregramento e ele jamais termina com ponto, é sempre uma exclamação. Mas o principal, ele harmoniza a violência, harmoniza o desespero e traduz beleza. Nos dá a chance de vivenciar o sublime em estado bruto. Beethoven é como um mapa que nos leva ao centro de nossa própria sublimidade. Esse monstro de narcisismo se revela um deus de generosidade.
A sinfonia tem lagos, riachos, raios de ira, maremotos e gotas de orvalho. Ele se faz Júpiter. Mergulhar nessa música é saber o quanto de voodoo toda música tem. Você sai do outro lado como se ungido por mel e lava. Outro. Da religião dos renascidos em Beethoven.
Com o tempo o compositor de Bonn, o irascível gênio alemão, se tornou um tipo de continente terráqueo. Ele está lá. Estará enquanto o planeta existir. Sólido, rígido, fértil. Sim, ele é o falo da música ocidental. É o que existe de mais potente em música.
O século XXI precisa de Beethoven. Para recordar o tamanho que podemos atingir. O quanto temos de divino e de satânico. Ele é o homem central de nossa cultura. Ter em sua história alguém como Beethoven dá à Alemanha a inveja do universo. Para o bem e para o mal.
HISTÓRIAS EM QUADRINHOS
MURPHY ANDERSON, JOE KUBERT, GIL KANE, FRANK GIACOIA, CARY BATES, JULIUS SCHWARTZ, SAL BUSCEMA, JIM STERANKO... nos meus 12 e 13 anos eu tive apenas um único objetivo : comprar revistas da EBAL.
A Editora Brasil América. Ela lançava os heróis da National e da Marvel no Brasil. Toda segunda-feira era meu dia feliz. O dia de ir às sete da manhã na banca do "Negrito" para comprar três revistas. HOMEM-ARANHA, SUPERMAN, BATMAN, TARZAN, DEMOLIDOR, CAPITÃO AMÉRICA, KORAK, THOR, QUARTETO FANTÁSTICO... e da editora RGE eu pegava O FANTASMA e MANDRAKE.
Chegava em casa e sentia o cheiro doce de papel recém impresso, de tinta. Lia. O coração aos pulos. Eu realmente amava aquelas revistas. Quando erguia os olhos e via na prateleira da banca uma nova capa colorida, sentia um júbilo que raras vezes sentí novamente. Após ler essa nova revista eu a guardava em meu quarto e ia pra escola. De noite, na sala, eu iria lê-la mais uma vez e passaria dias admirando cada quadrinho e sua capa festiva. Era uma paixão.
Elas fizeram minha bronquite de toda noite desaparecer. Revelaram um mundo maior, um mundo de criação, de dor e de superação. Me sentia Peter Parker, mas também me sentia Matt Murdock e Steve Rogers. E amava, febrilmente, Sharon Carter, Karen Page, Gwen Stacy e acima de todas Mary Jane Watson. Ficava olhando seus rostos e tentando imaginar como seria o timbre de suas vozes.
Tudo começou com um amigo meu ( Juscelino ) que tinha uma pilha de HQs da EBAL e que trocou sua pilha pelas minhas revistas da Monica e do Mickey. De repente eu tinha umas cem revistas para ler. Lí tudo em quatro dias e fiquei viciado. Bendito Juscelino !!!!
Aos 14 anos, veio uma tempestade e eu troquei a paixão pelo Superman pela paixão pelo Led Zeppelin e descobri que amar uma menina de carne e osso doía mais. As revistas foram guardadas, eu ainda comprei bastante durante um tempo, mas já não vivia para elas.
O tempo as levou, vieram livros, veio gente, veio ferida e outros amores. Mas eu nunca gostei de nada de um modo tão "bobo", puro, febril e exaltado. Conseguia entrar nos desenhos, viver dentro deles, sonhar com tudo aquilo.
Às vezes penso que aquele menino ainda está indo à banca do Negrito.
A Editora Brasil América. Ela lançava os heróis da National e da Marvel no Brasil. Toda segunda-feira era meu dia feliz. O dia de ir às sete da manhã na banca do "Negrito" para comprar três revistas. HOMEM-ARANHA, SUPERMAN, BATMAN, TARZAN, DEMOLIDOR, CAPITÃO AMÉRICA, KORAK, THOR, QUARTETO FANTÁSTICO... e da editora RGE eu pegava O FANTASMA e MANDRAKE.
Chegava em casa e sentia o cheiro doce de papel recém impresso, de tinta. Lia. O coração aos pulos. Eu realmente amava aquelas revistas. Quando erguia os olhos e via na prateleira da banca uma nova capa colorida, sentia um júbilo que raras vezes sentí novamente. Após ler essa nova revista eu a guardava em meu quarto e ia pra escola. De noite, na sala, eu iria lê-la mais uma vez e passaria dias admirando cada quadrinho e sua capa festiva. Era uma paixão.
Elas fizeram minha bronquite de toda noite desaparecer. Revelaram um mundo maior, um mundo de criação, de dor e de superação. Me sentia Peter Parker, mas também me sentia Matt Murdock e Steve Rogers. E amava, febrilmente, Sharon Carter, Karen Page, Gwen Stacy e acima de todas Mary Jane Watson. Ficava olhando seus rostos e tentando imaginar como seria o timbre de suas vozes.
Tudo começou com um amigo meu ( Juscelino ) que tinha uma pilha de HQs da EBAL e que trocou sua pilha pelas minhas revistas da Monica e do Mickey. De repente eu tinha umas cem revistas para ler. Lí tudo em quatro dias e fiquei viciado. Bendito Juscelino !!!!
Aos 14 anos, veio uma tempestade e eu troquei a paixão pelo Superman pela paixão pelo Led Zeppelin e descobri que amar uma menina de carne e osso doía mais. As revistas foram guardadas, eu ainda comprei bastante durante um tempo, mas já não vivia para elas.
O tempo as levou, vieram livros, veio gente, veio ferida e outros amores. Mas eu nunca gostei de nada de um modo tão "bobo", puro, febril e exaltado. Conseguia entrar nos desenhos, viver dentro deles, sonhar com tudo aquilo.
Às vezes penso que aquele menino ainda está indo à banca do Negrito.
AS INCRÍVEIS AVENTURAS DE KAVALIER E CLAY - MICHAEL CHABON
Joe Kavalier é um garoto judeu em Praga, 1938. Estudante da arte do escape ( aquele tipo de mágica em que o artista escapa de arcas, correntes, algemas.... ) Joe, que na verdade se chama Josef, foge dos nazis deixando para trás sua família. Chega a América e passa a viver com seu primo, Sam Clay. O primo lhe apresenta a grande novidade da época, O Super-Homem. Juntos eles criam O Escapista, um novo super-herói. O longo ( demais ) romance de Chabon acompanha a história dos dois. Seu imenso sucesso e sua queda.
Joe domina o livro. Seu desejo de poder libertar sua família, seu imenso talento, seu amor por Rosa, uma artista surrealista, sua piração pós-segunda guerra. O livro o segue, de 38 até 1954. Desde a grande explosão dos quadrinhos no final da década de 30 ( a era de ouro : SUPERMAN, BATMAN, FLASH, MULHER MARAVILHA, CAPITÃO MARVEL e imenso etc ) até a decadência dos anos pós-Hiroxima. E esse é o melhor lado do livro : um verdadeiro amor pelas histórias em quadrinhos. Chabon mostra a genialidade ( da qual não temos mais a noção ) da criação do Super-Homem, o primeiro herói com super poderes, o primeiro a usar capa e a ter identidade secreta, a intuição de se criar um cara que é o sonho de todo nerd. E também sonho de todo judeu. Siegel e Shuster criaram um típico imigrante judaico, vindo de Krypton e usando o nome de Clark Kent para ser absorvido pelos americanos.
Chabon, com bela poesia, defende a genialidade dos hqs, a maravilhosa função da qual eles se incumbiram : a de salvar o sonho de milhões de crianças da América. Uma arte simples, mas jamais simplória, que modificou para sempre a mente de todo o século XX. Quando em 1954, psicólogos e senadores passaram a tentar censurar as revistas, dizendo que elas pervertiam as mentes infantís, Chabon faz uma belíssima defesa dos heróis. Ele diz que Batman e Robin ou Capitão América e Buck nunca forma casos de pedofilia gay. Eles eram respostas a ansiedade de jovens ignorados pelos pais de terem um super-pai. Os adultos não queriam ver isso. Preferiam ver Batman como um corruptor e não como o pai que eles não conseguiam ser.
O romance mistura verdade e ficção. Mostra a decadência pós- era de ouro. A partir de 1947 as vendas caem. Os quadrinhos que vendem são agora apenas os de terror e ficção científica. Ninguém mais quer saber de heróis mascarados. Até que a turma da Timely, agora rebatizada como Marvel salva os heróis com o novo Capitão América, o Tocha-Humana e o novo Namor. E mais tarde o Homem-Aranha. Michael Chabon chama Jack Kirby de maior gênio de todo o HQ, e vemos Stan Lee, Gil Kane, Milton Caniff, Al Capp e vários outros como personagens do livro.
Assim como Orson Welles. Joe e Sam vão a estréia de CIDADÃO KANE e piram com o filme. Kane faz com que os dois se tornem mais ambiciosos e comecem a desdenhar do trabalho que faziam até então. A descrição do filme por Joe/Chabon é brilhante.
Bem, tudo isso é o lado bom do livro. Mas há um lado que o prejudica, e muito ! São quase 700 páginas !!!!! Caramba... nada justifica tanta prolixidade. Quando alguém como Bellow escreve 700 páginas sentimos todo o tempo que elas são necessárias. Mas aqui há um esticamento desnecessário. O livro brilha e então atola, volta a fluir e então se esparrama sem rumo. Pra quê ? Às vezes me dá uma saudade de autores como John Cheever, que falava tanto em tão pouco espaço. Mas.... não deixa de ser um livro invulgar, vencedor do Pulitzer de 2001 e cheio de ambição e verdadeiro amor por seu tema e seus personagens.
Vale muito a pena. Mas cansa...
Joe domina o livro. Seu desejo de poder libertar sua família, seu imenso talento, seu amor por Rosa, uma artista surrealista, sua piração pós-segunda guerra. O livro o segue, de 38 até 1954. Desde a grande explosão dos quadrinhos no final da década de 30 ( a era de ouro : SUPERMAN, BATMAN, FLASH, MULHER MARAVILHA, CAPITÃO MARVEL e imenso etc ) até a decadência dos anos pós-Hiroxima. E esse é o melhor lado do livro : um verdadeiro amor pelas histórias em quadrinhos. Chabon mostra a genialidade ( da qual não temos mais a noção ) da criação do Super-Homem, o primeiro herói com super poderes, o primeiro a usar capa e a ter identidade secreta, a intuição de se criar um cara que é o sonho de todo nerd. E também sonho de todo judeu. Siegel e Shuster criaram um típico imigrante judaico, vindo de Krypton e usando o nome de Clark Kent para ser absorvido pelos americanos.
Chabon, com bela poesia, defende a genialidade dos hqs, a maravilhosa função da qual eles se incumbiram : a de salvar o sonho de milhões de crianças da América. Uma arte simples, mas jamais simplória, que modificou para sempre a mente de todo o século XX. Quando em 1954, psicólogos e senadores passaram a tentar censurar as revistas, dizendo que elas pervertiam as mentes infantís, Chabon faz uma belíssima defesa dos heróis. Ele diz que Batman e Robin ou Capitão América e Buck nunca forma casos de pedofilia gay. Eles eram respostas a ansiedade de jovens ignorados pelos pais de terem um super-pai. Os adultos não queriam ver isso. Preferiam ver Batman como um corruptor e não como o pai que eles não conseguiam ser.
O romance mistura verdade e ficção. Mostra a decadência pós- era de ouro. A partir de 1947 as vendas caem. Os quadrinhos que vendem são agora apenas os de terror e ficção científica. Ninguém mais quer saber de heróis mascarados. Até que a turma da Timely, agora rebatizada como Marvel salva os heróis com o novo Capitão América, o Tocha-Humana e o novo Namor. E mais tarde o Homem-Aranha. Michael Chabon chama Jack Kirby de maior gênio de todo o HQ, e vemos Stan Lee, Gil Kane, Milton Caniff, Al Capp e vários outros como personagens do livro.
Assim como Orson Welles. Joe e Sam vão a estréia de CIDADÃO KANE e piram com o filme. Kane faz com que os dois se tornem mais ambiciosos e comecem a desdenhar do trabalho que faziam até então. A descrição do filme por Joe/Chabon é brilhante.
Bem, tudo isso é o lado bom do livro. Mas há um lado que o prejudica, e muito ! São quase 700 páginas !!!!! Caramba... nada justifica tanta prolixidade. Quando alguém como Bellow escreve 700 páginas sentimos todo o tempo que elas são necessárias. Mas aqui há um esticamento desnecessário. O livro brilha e então atola, volta a fluir e então se esparrama sem rumo. Pra quê ? Às vezes me dá uma saudade de autores como John Cheever, que falava tanto em tão pouco espaço. Mas.... não deixa de ser um livro invulgar, vencedor do Pulitzer de 2001 e cheio de ambição e verdadeiro amor por seu tema e seus personagens.
Vale muito a pena. Mas cansa...
UP! / JULIE E JULIA/ SIMPLESMENTE COMPLICADO/ DEAD END
GIMME SHELTER dos Irmãos Maysles
O inferno. E uma aula sobre o excesso dionisíaco. Dá pena dos Stones. Parecem bodes indo ao sacrifício. O documentário é exemplar : mostra tudo e entretém. Chance de ver os FLYING BURRITOS detonarem. O mundo enlouqueceu em 1968 ? Nota 9.
UP, ALTAS AVENTURAS
Um problema básico : o garoto é insuportável. Será que hoje todo menino de desenho tem de ser gordo e nerd ? Que saco ! O tema é legal, mas o desenho é chato. Nota 4.
THE ENFORCER de James Fargo com Clint Eastwood e Tyne Daly
Terceiro filme da série. Tem um problema, a auto-ironia. É quase uma comédia. Outro problema é a saída de Lalo Schifrin da trilha sonora. É um policial ok, mas é bem pior que os dois primeiros. Nota 6.
A CONVERSAÇÃO de Francis Ford Coppolla com Gene Hackman, John Cazale e Teri Garr
Feito logo após o Chefão, é um fracasso de bilheteria e um enorme sucesso de crítica. Há quem o considere melhor que os dois Chefões. Absurdo, o filme é chato pacas!!!!!! Acompanhamos Hackman ( grande atuação ) que é um tipo de detetive que coloca escutas para flagrar casais adúlteros. Ele é árido, um homem que não se envolve com nada. Assistimos sua derrocada. O filme é muito inteligente, mas é exibido demais, metido demais, passa do ponto. Nota 4.
DEAD END de William Wyler com Joel McCrea, Sylvia Sidney e Humphrey Bogart
Que cenário é este???? Absolutamente fascinante!!!!! Ruelas, becos, córregos, fachadas de cortiços, mansões. Um labirinto de sombras e pedra, água e luz suja. Fantástico!!!! O filme se centra em bando de meninos de rua, pequenos ladrões violentos e um gangster que foi como eles. O elenco é soberbo e é impressionante como Bogey já nos hipnotiza, mesmo ainda em papel coadjuvante. Um monstro. Roteiro esquerdista de Lilian Hellman e a direção de Wyler, o mais premiado diretor da América. Um filme perfeito para quem deseja começar a entender o cinema dos anos 30. ( o final feliz é meio forçado e evita que este filme seja uma obra-prima ). Nota 8.
JULIE E JULIA de Nora Ephron com Meryl Streep, Amy Adams, Stanley Tucci.
Um show de Meryl. Deve levar seu Oscar. Que figuraça ela cria aqui ! É caricata sim, mas e daí ? Essa atriz magnífica nos dá prazer, muito prazer. Sem ela este filme seria totalmente banal. Ephron sabe fazer comédias femininas, desde Harry e Sally ( que ela só escreveu ). Neste filme vemos o mundo de blogs e dureza de um jovem casal de hoje e a Paris dos anos 40/50 de Meryl e Tucci ( surpreendentemente bem ), uma cidade feita de beleza, prazer e muita comida ( o filme vai te dar muita fome ). Se assiste este filme com facilidade, nada nele ofende o gosto ou irrita a inteligência. Mas Meryl impressiona. Há alguma atriz nos últimos cinco anos com mais e melhores papéis que ela ? Nota 7.
SIMPLESMENTE COMPLICADO de Nancy Meyers com Meryl Streep, Alec Baldwin e Steve Martin
É um perfeito filme de Shopping Center. Você entra na sala com suas sacolas de compras, sua garota e suas pipocas. O filme vai exibir a casa que voce quer ter, o carro que voce precisa e as amigas de sua mulher. É um filme muito feminino. Indicado para patricinhas com mais de 35 anos. Ele é todo bonito, luxuosinho, romântico e engraçadinho. Os homens vão se irritar com tanta peruíce. Mas há algo de muito bom nele : Alec Baldwin. Incrível ! Ele está hilário. Domina o filme, torcemos por ele e é absurdo o que Meryl faz. Quanto a Steve Martin, ele morreu como ator. Foi atacado pela síndrome de Nicole Kidman. Seu rosto se parece com uma cara de boneco velho. Todo inchado, esticado, retocado. Ele está incapaz de ter qualquer tipo de expressão. Rosto congelado. Uma pena, ele era fantástico. O filme termina e voce e sua mulher ( que amou o filme ) vão jantar na noite de domingo. O filme é isso. Ah... tem uma cena com maconha que é muito boa ! Acho que ainda não estreou por aqui. Vai fazer sucesso. A diretora fez aquele filme com Diane Keaton e Jack Nicholson ( ALGUÉM TEM DE CEDER ). Nota 6.
SERÁ QUE ELE É? de Frank Oz com Kevin Kline, Matt Dillon e Tom Selleck
Um show de Kevin Kline ( num cinema ideal ele filmaria mais comédias ). E mais uma comédia maravilhosa de Oz. O cara sabe fazer rir sem apelar nunca. A história de um professor que vai se casar e numa cerimônia do Oscar vê um ex-aluno revelar para todo o mundo seu passado gay. O que rola depois disso é absolutamente hilário. E melhor, ficamos todo o tempo sem saber se Kline é realmente gay. Uma festa !!!!!!!!! Nota 8.
O inferno. E uma aula sobre o excesso dionisíaco. Dá pena dos Stones. Parecem bodes indo ao sacrifício. O documentário é exemplar : mostra tudo e entretém. Chance de ver os FLYING BURRITOS detonarem. O mundo enlouqueceu em 1968 ? Nota 9.
UP, ALTAS AVENTURAS
Um problema básico : o garoto é insuportável. Será que hoje todo menino de desenho tem de ser gordo e nerd ? Que saco ! O tema é legal, mas o desenho é chato. Nota 4.
THE ENFORCER de James Fargo com Clint Eastwood e Tyne Daly
Terceiro filme da série. Tem um problema, a auto-ironia. É quase uma comédia. Outro problema é a saída de Lalo Schifrin da trilha sonora. É um policial ok, mas é bem pior que os dois primeiros. Nota 6.
A CONVERSAÇÃO de Francis Ford Coppolla com Gene Hackman, John Cazale e Teri Garr
Feito logo após o Chefão, é um fracasso de bilheteria e um enorme sucesso de crítica. Há quem o considere melhor que os dois Chefões. Absurdo, o filme é chato pacas!!!!!! Acompanhamos Hackman ( grande atuação ) que é um tipo de detetive que coloca escutas para flagrar casais adúlteros. Ele é árido, um homem que não se envolve com nada. Assistimos sua derrocada. O filme é muito inteligente, mas é exibido demais, metido demais, passa do ponto. Nota 4.
DEAD END de William Wyler com Joel McCrea, Sylvia Sidney e Humphrey Bogart
Que cenário é este???? Absolutamente fascinante!!!!! Ruelas, becos, córregos, fachadas de cortiços, mansões. Um labirinto de sombras e pedra, água e luz suja. Fantástico!!!! O filme se centra em bando de meninos de rua, pequenos ladrões violentos e um gangster que foi como eles. O elenco é soberbo e é impressionante como Bogey já nos hipnotiza, mesmo ainda em papel coadjuvante. Um monstro. Roteiro esquerdista de Lilian Hellman e a direção de Wyler, o mais premiado diretor da América. Um filme perfeito para quem deseja começar a entender o cinema dos anos 30. ( o final feliz é meio forçado e evita que este filme seja uma obra-prima ). Nota 8.
JULIE E JULIA de Nora Ephron com Meryl Streep, Amy Adams, Stanley Tucci.
Um show de Meryl. Deve levar seu Oscar. Que figuraça ela cria aqui ! É caricata sim, mas e daí ? Essa atriz magnífica nos dá prazer, muito prazer. Sem ela este filme seria totalmente banal. Ephron sabe fazer comédias femininas, desde Harry e Sally ( que ela só escreveu ). Neste filme vemos o mundo de blogs e dureza de um jovem casal de hoje e a Paris dos anos 40/50 de Meryl e Tucci ( surpreendentemente bem ), uma cidade feita de beleza, prazer e muita comida ( o filme vai te dar muita fome ). Se assiste este filme com facilidade, nada nele ofende o gosto ou irrita a inteligência. Mas Meryl impressiona. Há alguma atriz nos últimos cinco anos com mais e melhores papéis que ela ? Nota 7.
SIMPLESMENTE COMPLICADO de Nancy Meyers com Meryl Streep, Alec Baldwin e Steve Martin
É um perfeito filme de Shopping Center. Você entra na sala com suas sacolas de compras, sua garota e suas pipocas. O filme vai exibir a casa que voce quer ter, o carro que voce precisa e as amigas de sua mulher. É um filme muito feminino. Indicado para patricinhas com mais de 35 anos. Ele é todo bonito, luxuosinho, romântico e engraçadinho. Os homens vão se irritar com tanta peruíce. Mas há algo de muito bom nele : Alec Baldwin. Incrível ! Ele está hilário. Domina o filme, torcemos por ele e é absurdo o que Meryl faz. Quanto a Steve Martin, ele morreu como ator. Foi atacado pela síndrome de Nicole Kidman. Seu rosto se parece com uma cara de boneco velho. Todo inchado, esticado, retocado. Ele está incapaz de ter qualquer tipo de expressão. Rosto congelado. Uma pena, ele era fantástico. O filme termina e voce e sua mulher ( que amou o filme ) vão jantar na noite de domingo. O filme é isso. Ah... tem uma cena com maconha que é muito boa ! Acho que ainda não estreou por aqui. Vai fazer sucesso. A diretora fez aquele filme com Diane Keaton e Jack Nicholson ( ALGUÉM TEM DE CEDER ). Nota 6.
SERÁ QUE ELE É? de Frank Oz com Kevin Kline, Matt Dillon e Tom Selleck
Um show de Kevin Kline ( num cinema ideal ele filmaria mais comédias ). E mais uma comédia maravilhosa de Oz. O cara sabe fazer rir sem apelar nunca. A história de um professor que vai se casar e numa cerimônia do Oscar vê um ex-aluno revelar para todo o mundo seu passado gay. O que rola depois disso é absolutamente hilário. E melhor, ficamos todo o tempo sem saber se Kline é realmente gay. Uma festa !!!!!!!!! Nota 8.
DO AMOR - UM TESTEMUNHO
Quando comecei este blog tive a resolução de não fazer um blog-umbigo. Não escrever um diário. Mas, foi inevitável, nas entrelinhas ele é um diário. Daquilo que assisto, vejo, ouço. Mas lendo este blog voce não saberá, nunca, se estou feliz ou triste, amando ou solitário. Disfarço meu umbigo. Prefiro ver o dos outros.
Dois amigos pedem para que eu repita aqui uma conversa que tive com eles. Sobre amor. É meio umbigóide demais pro meu gosto. Serei breve então.
Com 45 anos, apesar de aparentar 44, acho que aprendi alguma coisa sobre esse tal de amor. Pouco. Mas alguma experiência adquiri. E sei que aquilo que mais atrapalha é o tal de " e viveram felizes para sempre..." Eu explico.
Tive três amores do tipo absoluto. E dois do estilo feliz. No absoluto TUDO é amor. Eu comprava cds pensando em tocar pra ela, eu via filmes só com ela. Se comprava uma camisa tinha de ser aprovada por ela. Telefonemas que duravam até 10 horas... Trabalhava pensando nela e cobrava suas visitas ao meu trabalho. Ciúmes até de seu passado. Eu morreria por ela e não percebia que esse tipo de amor é a morte do próprio amor. Os amigos só existem se a amarem também e precisam escutar o quanto ela é incrível. Na verdade eu me apaixonei por mim mesmo, " pela história fantástica e original" que eu pensava estar vivendo. Cada reencontro era um momento de sublime felicidade.
Mas há um problema : "e viveram felizes para sempre..." O ar se torna rarefeito. O mundo inteiro passa a ser só ela e como eu a amo e ela me ama, nasce a OBRIGAÇÃO de ser feliz. Ela tem de me fazer feliz, pois ela é tudo e só ela deverá me bastar. E eu devo fazer o mesmo por ela, pois no universo dela só eu existo. Que lindo né ? Que trágica armadilha !!!!!! Nas 3 vezes em que estive envolvido em amor desse tipo, o fim foi o mesmo : violento. ( Não físico, mas violentamente devastador ). Cobranças de felicidade, de dedicação ( por mais que voce dê não há como ser tudo para alguém ). E a velha frase : " Voce não era assim!!!"
No fim o que sobrevive é o desejo sexual e uma sensação de que poderia ter sido e não foi.... Nunca poderia ser!!!!!
Tive também dois amores felizes ( e que terminaram em dor também. Mas de outro tipo. A dor do fim de um sonho e não do fim de tudo. )
É um amor em que o mundo cresce e não diminue como no outro. Não há o desejo de que o outro seja tudo, mas sim de que vivamos tudo com o outro. Cresce o interesse pela vida, pelos amigos, voce se abre. A comida parece melhor, o sol brilha mais, seus olhos se abrem para coisas que voce não via. O círculo de amigos aumenta, o trabalho rende mais, voce conversa sobre tudo. Neste amor ela é uma companheira de vida e não a própria vida. Instintivamente voce nota que este amor não o fará feliz para sempre. O fará sim, melhor para viver.
Cobramos demais do amor. A vida se tornou entediante e queremos que a pobre menina seja tudo. Penso que o segredo é entender que o amor resolve seus problemas amorosos. É óbvio!!! Mas seu trabalho, sua família, amigos, saúde, dúvidas existenciais... continuarão como sempre. O amor não vai te salvar de voce mesmo. Ele poderá clarear as coisas, torná-lo mais forte, mas não " feliz para sempre".
Ah sim.... meus amores felizes terminaram. Em suave e difícil desgaste. O tempo venceu. Na verdade o fim do amor é ainda mais misterioso que seu nascimento. Quem sabe ?
Dois amigos pedem para que eu repita aqui uma conversa que tive com eles. Sobre amor. É meio umbigóide demais pro meu gosto. Serei breve então.
Com 45 anos, apesar de aparentar 44, acho que aprendi alguma coisa sobre esse tal de amor. Pouco. Mas alguma experiência adquiri. E sei que aquilo que mais atrapalha é o tal de " e viveram felizes para sempre..." Eu explico.
Tive três amores do tipo absoluto. E dois do estilo feliz. No absoluto TUDO é amor. Eu comprava cds pensando em tocar pra ela, eu via filmes só com ela. Se comprava uma camisa tinha de ser aprovada por ela. Telefonemas que duravam até 10 horas... Trabalhava pensando nela e cobrava suas visitas ao meu trabalho. Ciúmes até de seu passado. Eu morreria por ela e não percebia que esse tipo de amor é a morte do próprio amor. Os amigos só existem se a amarem também e precisam escutar o quanto ela é incrível. Na verdade eu me apaixonei por mim mesmo, " pela história fantástica e original" que eu pensava estar vivendo. Cada reencontro era um momento de sublime felicidade.
Mas há um problema : "e viveram felizes para sempre..." O ar se torna rarefeito. O mundo inteiro passa a ser só ela e como eu a amo e ela me ama, nasce a OBRIGAÇÃO de ser feliz. Ela tem de me fazer feliz, pois ela é tudo e só ela deverá me bastar. E eu devo fazer o mesmo por ela, pois no universo dela só eu existo. Que lindo né ? Que trágica armadilha !!!!!! Nas 3 vezes em que estive envolvido em amor desse tipo, o fim foi o mesmo : violento. ( Não físico, mas violentamente devastador ). Cobranças de felicidade, de dedicação ( por mais que voce dê não há como ser tudo para alguém ). E a velha frase : " Voce não era assim!!!"
No fim o que sobrevive é o desejo sexual e uma sensação de que poderia ter sido e não foi.... Nunca poderia ser!!!!!
Tive também dois amores felizes ( e que terminaram em dor também. Mas de outro tipo. A dor do fim de um sonho e não do fim de tudo. )
É um amor em que o mundo cresce e não diminue como no outro. Não há o desejo de que o outro seja tudo, mas sim de que vivamos tudo com o outro. Cresce o interesse pela vida, pelos amigos, voce se abre. A comida parece melhor, o sol brilha mais, seus olhos se abrem para coisas que voce não via. O círculo de amigos aumenta, o trabalho rende mais, voce conversa sobre tudo. Neste amor ela é uma companheira de vida e não a própria vida. Instintivamente voce nota que este amor não o fará feliz para sempre. O fará sim, melhor para viver.
Cobramos demais do amor. A vida se tornou entediante e queremos que a pobre menina seja tudo. Penso que o segredo é entender que o amor resolve seus problemas amorosos. É óbvio!!! Mas seu trabalho, sua família, amigos, saúde, dúvidas existenciais... continuarão como sempre. O amor não vai te salvar de voce mesmo. Ele poderá clarear as coisas, torná-lo mais forte, mas não " feliz para sempre".
Ah sim.... meus amores felizes terminaram. Em suave e difícil desgaste. O tempo venceu. Na verdade o fim do amor é ainda mais misterioso que seu nascimento. Quem sabe ?
ACABOU CHORARE - NOVOS BAIANOS
Quero mais. Só rock é pouco e jazz é pouco também. Como alguém pode só escutar ópera ou quartetos de Haydn ? Eu quero mais. O som de Ravi Shankar e de Trenet. Música pop da Itália e da Espanha. Mariachis e guaranias. Cabe todo som na minha cabeça. Música é para expandir.
Voce odeia MPB à priori ? Pobre de voce. Entre o lixo inominável e a pretensão cabecista existe muita coisa mais que boa. Porque voce, menino do Brasil, devia saber que o som do Brasil é acusticamente insuperável. O segredo nacional não é a ginga ou a percussão. É a harmonia. No som que se fazia no país tudo podia entrar, harmonicamente. A grande música pop do Brasil é fluxo de maré, é embalo de acalanto, é doce e ensina a viver. Pode salvar vidas.
Mas não cabe, talvez, em seu mundinho de trevas.
Bom gosto e bom astral. O disco começa se pondo em campo. Brasil Pandeiro é escalação de seleção, carta de deliciosas intenções. O tabuleiro está posto. Ele é baiano.
Quando então entra Preta Pretinha o gol é de placa. Nascer com esta canção... ela é tudo aquilo que poderia ter sido o Brasil. E é aquilo que a gente insiste em tentar ser : bonito. Talvez seja a mais bonita das canções. É ingênua, é solar, é esperança de vida. Preta Pretinha justifica toda a música nacional, de Caymmi até agora. Quando entra a percussão as meninas dançam e eu sorrio e penso : viver pode ser bom.
Mensagem de todo este disco/manifesto : VIVER PODE SER BOM.
Abre a porta e a janela e vem ver o sol nascer... eu sou um pássaro que vive avoando/ vive avoando sem nunca mais parar/ aiaiai saudade não venha me matar...
O disco não precisava de mais nada. Mas vem Tinindo Trincando que é uma festa de maconha e álcool barato. As cores dançam e o otimismo é rei. Swing de Campo Grande é ressaca carnavalesca. Jogar bola, ver as meninas e cantar, fora isso nada faz sentido, a vida é só bola, menina e violão. Se não é tinha de ser.
É engraçado, na MPB não existe o ódio... rockeiros cobram dela algo que ela não tem, ódio. É como cobrar harmonia de punk rock. Outro mundo.
Acabou Chorare. Se a gente perder de vez o dom de cantar o amor tudo estará perdido. Esta canção é amor de verdade e eu sei, se não se sabe cantar a raiva é porque se vive no amor. Chorare é tristeza confortável. Amor quente, lindo e pra sempre. Beijo em nosso ouvido.
Mistério do Planeta. Uma viagem filosófica baiana. Aquele nada que é tudo sendo coisa alguma. Mas o violão é lindo. Aceitar a vida. O mistério de cantar e imaginar esta letra.
A Menina Dança. Malandrices de quem chega sempre e nunca parte. Tanta malandrice irrita corações azedados. Me dá vontade de viver mais quatro décadas. Repetindo tudinho aquilo que fiz. A menina dança e eu danço com ela. No meu olho.
Besta é Tu. Besta é tu. O quanto cabe de alegria numa canção. Quando eu tinha 18 anos esta canção fez com que eu vendesse meus discos cabeça. Num mundo ideal todas as músicas seriam assim. Num dia ideal a gente acorda ouvindo isto. Porque não viver neste mundo/ se não há outro mundo.... Eu pulo e sorrio. Besta é tu...
Um Bilhete Pra Didi. Música estradeira de bananas e de garotos que vendem caranguejo.
Quantas vezes desci a Serra ouvindo isto ? E me sentindo e tendo consciência de estar completa e absolutamente feliz. O sol no verde, a água espumando e o cheiro... e o mar lá no final. Lindo.
ACABOU CHORARE é viajar para a idéia solar. Mas não vou cabeçar... sem filosofices, o disco é lindo e alegre. Nenhum país faz nada parecido. Este tipo de canção é só aqui. Não é pouca coisa.
Eu ia lhe chamar/ Enquanto corria a barca.... Abre a porta e a janela e vem ver o sol nascer......
Voce odeia MPB à priori ? Pobre de voce. Entre o lixo inominável e a pretensão cabecista existe muita coisa mais que boa. Porque voce, menino do Brasil, devia saber que o som do Brasil é acusticamente insuperável. O segredo nacional não é a ginga ou a percussão. É a harmonia. No som que se fazia no país tudo podia entrar, harmonicamente. A grande música pop do Brasil é fluxo de maré, é embalo de acalanto, é doce e ensina a viver. Pode salvar vidas.
Mas não cabe, talvez, em seu mundinho de trevas.
Bom gosto e bom astral. O disco começa se pondo em campo. Brasil Pandeiro é escalação de seleção, carta de deliciosas intenções. O tabuleiro está posto. Ele é baiano.
Quando então entra Preta Pretinha o gol é de placa. Nascer com esta canção... ela é tudo aquilo que poderia ter sido o Brasil. E é aquilo que a gente insiste em tentar ser : bonito. Talvez seja a mais bonita das canções. É ingênua, é solar, é esperança de vida. Preta Pretinha justifica toda a música nacional, de Caymmi até agora. Quando entra a percussão as meninas dançam e eu sorrio e penso : viver pode ser bom.
Mensagem de todo este disco/manifesto : VIVER PODE SER BOM.
Abre a porta e a janela e vem ver o sol nascer... eu sou um pássaro que vive avoando/ vive avoando sem nunca mais parar/ aiaiai saudade não venha me matar...
O disco não precisava de mais nada. Mas vem Tinindo Trincando que é uma festa de maconha e álcool barato. As cores dançam e o otimismo é rei. Swing de Campo Grande é ressaca carnavalesca. Jogar bola, ver as meninas e cantar, fora isso nada faz sentido, a vida é só bola, menina e violão. Se não é tinha de ser.
É engraçado, na MPB não existe o ódio... rockeiros cobram dela algo que ela não tem, ódio. É como cobrar harmonia de punk rock. Outro mundo.
Acabou Chorare. Se a gente perder de vez o dom de cantar o amor tudo estará perdido. Esta canção é amor de verdade e eu sei, se não se sabe cantar a raiva é porque se vive no amor. Chorare é tristeza confortável. Amor quente, lindo e pra sempre. Beijo em nosso ouvido.
Mistério do Planeta. Uma viagem filosófica baiana. Aquele nada que é tudo sendo coisa alguma. Mas o violão é lindo. Aceitar a vida. O mistério de cantar e imaginar esta letra.
A Menina Dança. Malandrices de quem chega sempre e nunca parte. Tanta malandrice irrita corações azedados. Me dá vontade de viver mais quatro décadas. Repetindo tudinho aquilo que fiz. A menina dança e eu danço com ela. No meu olho.
Besta é Tu. Besta é tu. O quanto cabe de alegria numa canção. Quando eu tinha 18 anos esta canção fez com que eu vendesse meus discos cabeça. Num mundo ideal todas as músicas seriam assim. Num dia ideal a gente acorda ouvindo isto. Porque não viver neste mundo/ se não há outro mundo.... Eu pulo e sorrio. Besta é tu...
Um Bilhete Pra Didi. Música estradeira de bananas e de garotos que vendem caranguejo.
Quantas vezes desci a Serra ouvindo isto ? E me sentindo e tendo consciência de estar completa e absolutamente feliz. O sol no verde, a água espumando e o cheiro... e o mar lá no final. Lindo.
ACABOU CHORARE é viajar para a idéia solar. Mas não vou cabeçar... sem filosofices, o disco é lindo e alegre. Nenhum país faz nada parecido. Este tipo de canção é só aqui. Não é pouca coisa.
Eu ia lhe chamar/ Enquanto corria a barca.... Abre a porta e a janela e vem ver o sol nascer......
Assinar:
Comentários (Atom)