ACABOU CHORARE - NOVOS BAIANOS

Quero mais. Só rock é pouco e jazz é pouco também. Como alguém pode só escutar ópera ou quartetos de Haydn ? Eu quero mais. O som de Ravi Shankar e de Trenet. Música pop da Itália e da Espanha. Mariachis e guaranias. Cabe todo som na minha cabeça. Música é para expandir.
Voce odeia MPB à priori ? Pobre de voce. Entre o lixo inominável e a pretensão cabecista existe muita coisa mais que boa. Porque voce, menino do Brasil, devia saber que o som do Brasil é acusticamente insuperável. O segredo nacional não é a ginga ou a percussão. É a harmonia. No som que se fazia no país tudo podia entrar, harmonicamente. A grande música pop do Brasil é fluxo de maré, é embalo de acalanto, é doce e ensina a viver. Pode salvar vidas.
Mas não cabe, talvez, em seu mundinho de trevas.
Bom gosto e bom astral. O disco começa se pondo em campo. Brasil Pandeiro é escalação de seleção, carta de deliciosas intenções. O tabuleiro está posto. Ele é baiano.
Quando então entra Preta Pretinha o gol é de placa. Nascer com esta canção... ela é tudo aquilo que poderia ter sido o Brasil. E é aquilo que a gente insiste em tentar ser : bonito. Talvez seja a mais bonita das canções. É ingênua, é solar, é esperança de vida. Preta Pretinha justifica toda a música nacional, de Caymmi até agora. Quando entra a percussão as meninas dançam e eu sorrio e penso : viver pode ser bom.
Mensagem de todo este disco/manifesto : VIVER PODE SER BOM.
Abre a porta e a janela e vem ver o sol nascer... eu sou um pássaro que vive avoando/ vive avoando sem nunca mais parar/ aiaiai saudade não venha me matar...
O disco não precisava de mais nada. Mas vem Tinindo Trincando que é uma festa de maconha e álcool barato. As cores dançam e o otimismo é rei. Swing de Campo Grande é ressaca carnavalesca. Jogar bola, ver as meninas e cantar, fora isso nada faz sentido, a vida é só bola, menina e violão. Se não é tinha de ser.
É engraçado, na MPB não existe o ódio... rockeiros cobram dela algo que ela não tem, ódio. É como cobrar harmonia de punk rock. Outro mundo.
Acabou Chorare. Se a gente perder de vez o dom de cantar o amor tudo estará perdido. Esta canção é amor de verdade e eu sei, se não se sabe cantar a raiva é porque se vive no amor. Chorare é tristeza confortável. Amor quente, lindo e pra sempre. Beijo em nosso ouvido.
Mistério do Planeta. Uma viagem filosófica baiana. Aquele nada que é tudo sendo coisa alguma. Mas o violão é lindo. Aceitar a vida. O mistério de cantar e imaginar esta letra.
A Menina Dança. Malandrices de quem chega sempre e nunca parte. Tanta malandrice irrita corações azedados. Me dá vontade de viver mais quatro décadas. Repetindo tudinho aquilo que fiz. A menina dança e eu danço com ela. No meu olho.
Besta é Tu. Besta é tu. O quanto cabe de alegria numa canção. Quando eu tinha 18 anos esta canção fez com que eu vendesse meus discos cabeça. Num mundo ideal todas as músicas seriam assim. Num dia ideal a gente acorda ouvindo isto. Porque não viver neste mundo/ se não há outro mundo.... Eu pulo e sorrio. Besta é tu...
Um Bilhete Pra Didi. Música estradeira de bananas e de garotos que vendem caranguejo.
Quantas vezes desci a Serra ouvindo isto ? E me sentindo e tendo consciência de estar completa e absolutamente feliz. O sol no verde, a água espumando e o cheiro... e o mar lá no final. Lindo.
ACABOU CHORARE é viajar para a idéia solar. Mas não vou cabeçar... sem filosofices, o disco é lindo e alegre. Nenhum país faz nada parecido. Este tipo de canção é só aqui. Não é pouca coisa.
Eu ia lhe chamar/ Enquanto corria a barca.... Abre a porta e a janela e vem ver o sol nascer......

GIMME SHELTER - IRMÃOS MAYSLES, O INFERNO EXISTE

Ao final de uma excursão vitoriosa pela América, os Rolling Stones têm uma idéia : um show e um filme para comemorar esse sucesso! Um show grátis. Ótimo, mas a prefeitura de SanFran veta o show na última hora e na véspera eles conseguem o autódromo de Altamont. O show é marcado para sábado de manhã, a montagem do palco se inicia sexta de noite. Os Hell Angels farão a segurança. O desastre está anunciado.
Para quem não sabe, este filme é dirigido pelos irmãos Maysles, e eles são considerados, inclusive por Walter Salles, geniais como documentaristas. O filme é uma obra=prima. Não estou falando de rock, ele vale como cinema documental, ele mostra TUDO. Uma das mais terríveis imagens do inferno na Terra. Vamos por partes...
Jagger e Watts assistem o filme na sala de edição. E em sua primeira parte, o que vemos, é o último show no Madison Square Garden e a preparação de Altamont. O palco, a luz, o som sendo montado com milhares de loucos presentes, palpitando, perturbando, arrumando encrenca e se drogando. Quando palco e bastidores estão prontos, o que vemos, aturdidos, é que existem centenas de loucos sobre o palco e dentro dos bastidores. Em nossa era de shows hiper-profissionais, ver isso é como assistir ato de extrema irresponsabilidade : o cenário do caos.
Antes de chegar na Califórnia, a banda dá uma parada no Muscle Shoals, o mítico estúdio onde Otis Redding, Aretha e os Booker T gravam. É um barraco de lata no meio de uma fazendola!!!! É emocionante! Recordo de Steve Cropper dizendo que enquanto eles gravavam, os racistas ficavam jogando pedras no telhado e esperando lá fora para surrar os músicos.... Nesse estúdio eles gravam you gotta move.
Em Altamont começa o show. O Flying Burrito Brothers abre. Na época Keith estava muito amigo de Gram Parsons, e Gram era influência sobre o som dos Stones. Eles tocam e é o único momento de boa música em Altamont. Os Burritos eram magníficos!!!!! Mas a coisa esquenta. Os muito doidos Jefferson Airplane sobem ao palco, palco onde estão uns cem Angels fazendo nada e tentam tocar seu pop psicodélico. Não conseguem. Os Angels começam a provocar e Marty Balin, o vocal, parte pro pau. E o pau come no palco e na audiência. Ondas de violência irrompem em todo canto enquanto patéticamente Grace Slick fica tentando acalmar o povo. Vemos gente nua na platéia, mas não é mais a nudez de Woodstock, é uma nudez monstruosa, decadente, ofensiva. Em quatro meses, apenas, todo o colorido de Woodstock se tornava este negror horrendo de Altamont. A doce ilusão, falsa, de Hippies e flores, mostrava aqui seu lado real : vômito, violência, estupidez, drogas pesadas. As cameras mostram tudo, vão fundo, closes em dezenas de pessoas em surto psicótico. É terrível !
Os Stones chegam e tentam tocar. Jagger, gayzérrimo, satanico, esperto, tenta fazer seu show, mas é impossível. Há uma cena, longa, maravilhosa : Jagger dançando e um Angel, dois metros distante, de pé no palco, encarando Mick com fúria no olhar. Sentimos que aquele cara o detesta. E ele fica lá, ao lado do microfone, como se o palco fosse seu.
Um cão cruza o palco, perdido. Um pastor alemão. Moças sobem no palco, gente sobe e desce, e Jagger canta enquanto isso. É hilário ? Não. Alí eu vejo onde morrem os sonhos. As pessoas mostram sua face. Matam um negro na frente do palco. Ele aponta uma arma para Jagger e os Angels o matam com paus e facas. Na nossa frente. Tudo anunciava isso. Eram mais de 500 mil loucos, em bad trip. Eram centenas de Angels, passeando de motos em meio aos hippies, prontos para brigar. Eram centenas de brigas, todo o tempo. E era a postura satanica dos Stones, postura que eles abandonariam nesse dia/noite. Jagger sentiu medo, muito medo. Eles haviam ido longe demais, todo o lixo do mundo os seguia. A banda se torna então uma paródia de sí-mesmos, inauguram nesse pavor o rock moderno : circo, it's only rocknroll.
No estúdio há um longo close em Charlie Watts. Apenas isso. Vemos o mais doce dos Stones. Esse é momento de puro cinema. De soberbo cinema. ( E eu penso em como a MTV matou esse tipo de filme. Não se faz mais filme para cinema com bandas. )
Outra coisa que notamos : como era bonito ver Jagger e Richards juntos. Aqueles meninos que se conheceram por acaso num trem em Richmond e que fizeram da caretésima Inglaterra o lar da mais sexy das bandas. O negócio deles era glamour e os dois formavam um casal perfeito : Mick era o dandy e Keith o pirata.
O mundo mudou demais em cinco anos. Não temos consciência disso, mas entre os yeahs yeahs yeahs de She Loves You e o inferno de Altamont se passaram apenas cinco anos !!!!!! É outro planeta ! Onde havia uma doce ingenuidade juvenil, nasce em dezembro de 1969 uma horrenda decadência agressiva. A mudança foi rápida demais, radical demais. A loucura foi demais.... dionísio tomou conta de Altamont.
Assista Gimme Shelter. Sabendo que é um documentário sobre pesadelo. Um anti Woodstock e um anti Beatles. Os Stones são aquilo. Jagger tocando blues para Tina Turner no backstage é o real Mick Jagger. Mas eles morreram naquele palco. Foram trucidados. Como faziam as bacantes dionisíacas na Grécia arcaica. ALTAMONT FOI A ÚLTIMA NOITE DIONISÍACA DO PLANETA.
O horror, o horror, o horror......
PS;
Há um vídeo no youtube onde em 1966 os Stones tocam HAVE YOU SEEM YOUR MOTHER BABY STANDING IN THE SHADOWS em Amsterdam. O público perde o controle e agressivamente começa a invadir o palco e interrompe o show. Numa aula de cool, a banda não se importa e Brian Jones gargalha. O duendismo é exatamente isso. Veja.

AS AVENTURAS DE AUGIE MARSH - SAUL BELLOW

" ... e esse espetacular engrandecimento antigo, com suas ruínas de arte e inúmeros signos nobres, eu conseguia apreciar, ainda que não quisesse ser simplesmente esmagado pela grandeza daquilo tudo. Mas no poder moderno do luxo, com seus batalhões de trabalhadores e engenheiros, são as COISAS em sí, os produtos, que são eminentes, e o indivíduo não chega nem perto de ser igual à imensa soma delas."
Eis aqui SAUL BELLOW em AUGIE MARSH, conseguindo dizer o porque de eu me sentir tão mal perante a arquitetura moderna e tão bem perante cidades antigas. Andando por Roma ou Veneza somos esmagados pela grandeza da obra de GRANDES HOMENS. Cada monumento tem o nome e a face de algum herói. Prédios não remetem a ser humano nenhum. É apenas uma coisa. Esmagados pelo inanimado, sem pensamento, pelo absolutamente não humano.
" ... que em qualquer vida de verdade, voce tem de sair e ser exposto fora do pequeno círculo que abarca duas ou três cabeças na mesma história de amor. Experimente ficar, para ver, do lado de dentro. Veja quanto tempo voce aguenta."
Augie Marsh nasce em Chicago. Não conhece o pai e sua família é sustentada por parentes e pelo serviço público. Augie Marsh aos 10 anos é um malandro de rua. Vende jornais, tenta roubar e idolatra um tipo de chefão do crime. Acima de tudo, ele tenta agradar, não criar atrito, e segue sempre alguém. Augie é feliz.
"... e é isso que a humanidade sempre faz. Ela é feita desses inventores e artistas, milhões e milhões deles, cada um tentando a seu próprio modo recrutar outras pessoas para representar papéis coadjuvantes e apoiá-lo no seu faz de conta."
Augie percebe cedo que tudo é mentira. Ninguém, NUNCA, diz aquilo que realmente pensa ou sente. E desse modo, todos passam pela vida sem poder ser o que se nasceu para ser. Augie Marsh se apaixona, tenta estudar, rouba livros e os vende, mora em pulgueiros, e conhece gente, muita gente, gente rica, gente pobre, louca, sã, felizes e tristes. Tem um irmão demente e outro ambicioso que se tornará a proto-imagem do yuppie voraz.
".... como se, quando chegava o momento, deixássemos a companhia de quem quer que estivesse conosco e fôssemos reservadamente sair no braço com nosso antagonista eleito no seu esconderijo secreto."
Tentam enredar Augie no mundo dos milionários. Mas ele não cai, ele esnoba o dinheiro. Foge sempre, mas ao mesmo tempo está sempre de volta. Ajuda um aborto, se envolve em sindicato e vai pro México em caçada a águias e cobras e amor ( que sempre termina em desespero ).
" ....A GRANDE INVESTIGAÇÃO DE HOJE É QUANTO UM SUJEITO PODE SER MAU, NÃO É MAIS O QUANTO ELE PODE SER BOM."
Quem diz isso é Padilla, um dos caras que nosso herói conhece nessa jornada. Um dos muitos que fazem com que Augie se movimente, todo o tempo, logo ele, que tanto queria ficar parado. Porque Augie logo descobre que voce só pode ser voce se estiver parado.
"... no mundo da natureza voce pode confiar. Nele voce já sabe. Mas no mundo dos artefatos voce tem de ter cuidado todo o tempo. Nele voce tem de saber, e não dá pra ficar com tanta coisa na cabeça e ser feliz."
Num livro que tem um milhão de grandes pensamentos, talvez este seja aquele que mais me toca. Vivemos cada vez mais, em mundo onde PRECISAMOS saber coisas. Números de código, datas e horários, cruzar uma rua e pegar um táxi, pagar contas, ligar maquininhas, responder mensagens, cuidar do corpo, cuidar da beleza, proteger o patrimônio, cumprir horário, cumprir metas. Sobra espaço pra ser voce ?
"... tédio é a convicção de não poder mudar. O homem murcha quando pensa ser a mudança impossível. Mas não é engraçado ? Passamos toda a vida com medo da mudança e procurando o que nos faça estáveis. O amor por exemplo."
É um livro devastadoramente rico. Vem a guerra e eis Augie perdido num bote salva-vidas no meio do mar e depois eis ele casado e rico em Paris. E corneado.
Mas quem é Augie? Seria ridículo eu dizer que ele é todos nós? Mas ele é. Saul Bellow, gigante, consegue criar um adorável Candido do século XX. Otimista teimoso, apaixonado, desiludido, medroso, enganável e totalmente perdido. O livro é um colosso.

PRESTON STURGES, ERNST LUBISTCH, THE YOUNG VICTORIA,MIZOGUCHI

O CONDENADO de Carol Reed com James Mason
Na Irlanda, revolucionários fazem assalto. O líder é ferido e o filme, escuro, sombrio, mostra sua tentativa de sobreviver na cidade suja. Reed foi um dos gigantes do clássico cinema inglês ( e autor do Cidadão Kane de lá, O TERCEIRO HOMEM ). O filme é muito forte, mas este dvd tem sérios problemas de legendagem. Nota 7.
CRISÂNTEMOS TARDIOS de Kenji Mizoguchi
Nesta história de um filho de ator, ator que sofre por não ser tão bom como o pai, há todo o esteticismo belíssimo de Mizoguchi, o mais clássico dos diretores do Japão. Todo movimento de câmera é preciso e os cortes, quando há, são suaves e muito necessários. Voce observa o filme, não o assiste ou analisa. Nota 7
A ROSA PÚRPURA DO CAIRO de Woody Allen com Mia Farrow, Jeff Daniels e Danny Aielo
Um dos mais melancólicos filmes de Woody. Sua mensagem central é a de que nada nunca muda na vida real, e portanto, o que nos salva é a fantasia. O roteiro brilha em idéia, mas falha em emoção. O herói sai da tela e os personagens do filme de onde ele fugiu se revoltam. Eis Woody sendo Charlie Kauffman antes de Charlie ser moda. Mas o ator que faz o herói seduz a mocinha por quem o personagem de ficção se apaixonou. E ela, e eis o centro do filme, opta pelo ator, pelo real, e é traída por ele. No fim, uma cena magistral, Mia Farrow, totalmente desolada, assiste no cinema a Fred Astaire e Ginger Rogers e volta a viver. Um elogio ao cinema de quem realmente o entende. Nota 7.
THE YOUNG VICTORIA de Jean Marc Valée com Emily Blunt, Miranda Richardson e Jim Broadbent
Delicioso. O filme ainda não estreou por aqui e se estrear vá ver. É romantico no sentido antiquado do termo, ou seja, tem bom gosto e boas intenções. Faz bem , voce termina o filme se sentindo em paz com o mundo. Conta o início do reinado de Victoria, a rainha que fez da Inglaterra aquilo que pensamos sobre ela ainda hoje. ( E que acabou em 1960, mais ou menos ). Os atores estão muito bem, leves e bem dirigidos. Bela surpresa! ( E é lógico que eu, vitoriano que sou, me apaixonei pelo filme ). Nota 7.
AMANTES de James Gray com Joaquim Phoenix, Gwyneth Paltrow, Vinessa Shaw
Psicólogos irão gostar. Mas o mundo precisa de mais um filme sobre gente deprimida? Deprimidos do tipo mais chato, vivendo em seus ambientes de cores pastéis e pouca luz? O que nos interessa na vida banal daquele cara? Ele é apenas um mala. O filme padece da atual síndrome cabeça: confunde fazer arte com ser triste. É a arte da impotência. Nota 1. ( Sorry Leo ).
LADRÃO DE ALCOVA de Ernst Lubistch com Herbert Marshal e Miriam Hopkins
Uma festa! Se voce quer saber o que é o tal Lubistch touch, eis aqui a resposta. O filme, delicioso tipo champagne e caviar, é aula de luxo. Cheio de pequenos toques de estilo e esfuziantemente alegre. Trata de casal de vigaristas, ladrões, e fala de seus golpes e sua tentativa de enrolar uma jovem milionária. Herbert é o rei da sofisticação e Miriam está bastante engraçada. O roteiro é um festival de frases de duplo sentido, ele faísca. Os cenários têm aquele luxo irreal da Paramount dos anos trinta, tudo brilha em branco e prata. Este é um dos filmes míticos da época e demorou muito para que eu finalmente o encontrasse. Valeu esperar, não me decepcionou. Esperava diversão de classe, é o que ele é. Nota DEZ.
TINHA QUE SER VOCÊ de Joel Hopkins com Dustin Hoffman e Emma Thompson
Uma comédia romântica sobre gente comum e com mais de quarenta anos ( ele, mais de sessenta ). Ninguém tem tiques de neurótico. São sofridos, são humanos. Ele viaja para Londres a fim de assistir o casamento da filha. A nova família da ex não o aceita. No fundo da solidão, ele conhece quarentona que ainda solteira, cuida da mãe ex-doente. Ele força o romance, segue-a por uma tarde. Ela cede devagar. Duas solidões se encontram. O filme nada tem de artístico. Conta sua história, simples, com humildade. E funciona. Porquê? Neste tipo de filme é necessário que nos apaixonemos pelos personagens. Isso acontece. Emma é apaixonante. Ela se faz desajeitada, meio tímida, desiludida. Dustin é o mais humano ator de sua geração ( Nicholson faria deste personagem um bufão e De Niro o transformaria num perigo ), ele sofre, erra muito, tenta acertar e acaba nos acertando. Se voce tem mais de 40 é obrigatório. Trata-se de uma raridade : filme adulto sem ser metido. Filmes como este antes eram a regra, hoje nos surpreendem. Nota 7.
CONTRASTES HUMANOS de Preston Sturges com Joel McCrea e Veronica Lake.
Uma obra-prima. Filme favorito dos Coen, é a história, maravilhosa, de um diretor de cinema que resolve fazer um filme sobre os pobres ( nome do filme que ele quer fazer : O BROTHER, WHERE ART THOU...). Se disfarça de mendigo e cai na estrada. Mas o estúdio o segue, lhe dando toda a cobertura possível. Ele conhece atriz fracassada e acaba desistindo de sua idéia. Mas, em cena mirabolante, torna-se um mendigo de verdade e é preso numa prisão rural do sul. O filme diz todo o tempo que somente pessoas privilegiadas se interessam por filmes sobre a miséria. Quem é pobre sofre demais com essa chaga para querer vê-la nas telas. Pois bem, na prisão rural, em cena de gênio, se passa um filme para os presos. Um desenho de Mickey e Pluto. Os condenados riem e ele se pega rindo. Sua teoria desaba : o povo precisa de risos, e quanto mais cruel é sua vida mais voce necessita disso. Voltando a Hollywood ( ele escapa da prisão em cena genial e bem sacada ) o diretor fará mais uma comédia.
Preston antecipou aqui seu final de vida. Nascido em família trilionária, ele foi o primeiro roteirista a virar diretor, abrindo o caminho para Wilder e Huston. Foi educado na Europa e era um tipo de excêntrico Professor Pardal. Seu grande prazer era inventar coisas. Aliás ele ia para o estúdio de pula-pula !!!!! Mas se tornou alcóolatra e seus filmes foram perdendo a graça. Terminou pobre. Este filme, vinte anos adiante de seu tempo em estilo e malícia, começa com letreiro homenageando todos os palhaços do mundo. Nós é que somos homenageados por seu prazer. Uma obra prima absoluta, engenhoso, sempre surpreendente, vivo. É fácil notar este filme como fonte da vivacidade dos Coen. Nota DEZ!!!!!!!!!!!
CONTATO de Robert Zemeckis com Jodie Foster, Mathew McCornaghy
Algumas cenas são tão infantis que dá vontade de rir. É ciência para crianças e o filme tem aquela tara por teclados e telas. Exibe nerds como heróis de nosso tempo. Mas os vinte minutos finais são mágicos. As imagens das galáxias, a viagem pelo tempo, o reencontro com o pai. Dói pensar o que este filme poderia ter sido se feito com mais coragem. Nota 5.

ROCK INGLÊS

Mas música não era só música!!!!! Caramba! Era uma coisa muito suja e muito suicida que podia te deixar totalmente doido ou soberbamente feliz. E voce ia pra rua querendo alguma coisa completamente nova da vida. Queria morrer ou viver para sempre!!!!!
Mas a música não era apenas música!!!!!!! Cacete! A gente sabia que os mineiros em greve de fome morriam com o jogo duro de Thatcher. E sabíamos que se ela dobrasse o movimento trabalhista inglês, a Inglaterra, derrotada, a suja Inglaterra dos cockneys desdentados, dos anarquistas cuspidores, dos torcedores mal encarados do Arsenal, os fãs de Sham 69 e de Madness e de Buzzcocks, nós sabíamos que se eles perdessem a Inglaterra se tornaria uma terra de cuzões. Eles perderam....... mas a música ainda significou muito por algum tempo.
A maioria silenciosa venceu e a festa acabou. Música, por melhor que fosse, se tornou apenas música. Veio aquele Duran Duran e aquele Culture Club. E Paul Weller virou dandy. O cara de boca suja e vômito de Guiness virou personagem cômico de filmeco de Guy Ritchie. Perigo nenhum. Nenhuma mudança a vista. E esse monte de bandas que fazem apenas música.
Mas voce sabe. Acreditamos no perigo. E eu me postei, ferozmente, do lado contrário. Tanto acreditei na ferocidade dos punks que ferozmente me fiz conservador. Odiava aquilo tudo porque eles odiavam e destruíam tudo que eu amava. Hoje eu sei : fui o vencedor. Hoje eu sei : eu tinha que ter perdido. Maldita vitória.
Quando vejo Sham 69 tocando em Reading, Borstal Breakout, vejo energia revolucionária autêntica. Não é um garoto dando tudo de sí por AMOR A UMA BANDA AMADA, é a ira POLÍTICA, a raiva em estado bruto, a música que não significa música, ela quer dizer ATITUDE. Não há referência a nada. Não há o respeito a nada. Eles estão pouco se lixando para Kinks, Stones ou Dylan. Eles expressam uma atitude, uma POSIÇÃO PERANTE A VIDA, TOMADA DE PARTIDO, COMPROMETIMENTO RADICAL, CORAGEM DE ERRAR. É por esse motivo que o rock inglês de hoje me interessa tão pouco. O país que sempre fora o mais irado, mais político, mais comprometido com a realidade, hoje produz bandas que respeitam demais as bandas do passado, que amam demais Beatles, Small Faces e que tais, que amam até mesmo a rainha!!!!!! Não consigo levar a sério! A pretensa rebeldia é sempre a rebeldia copiada durante a infancia, em frente ao espelho, raquete de tênis na mão, imitando o Sham 69 ou The Jam. Ou esse monte de deprimidos profissionais, pseudo artistas que cresceram querendo ser Morrissey ou Robert Smith. Só engole quem nunca conheceu a delícia e a dor do artigo genuíno. Músicos que só pensam em música. Bandas que só têm por referência outras bandas. Essa eterna repetição de coisas dos anos 80..... que saco!!!!!!
E a Inglaterra, pobre nação, que foi terra do rock mais irado e azedo, do cinema mais engajado e de escritores fedidos, é hoje lar de drogadinhos meninos de calça justa e cabelinho despenteado. Cuja atitude significa apenas atitude, cuja raiva é apenas raiva, e cuja música é somente música. Bláaaaah!
O Arsenal virou time de futebol arte! Socorro!!!!!!!!!!

WOODSTOCK NÃO TEVE MÚSICA. MAS FOI CINEMA.

Acaba de sair uma caixa com 4 dvds de Woodstock. Tudo remasterizado etc e tal. Um monte de extras, o filme inteiro ( que ganhou o Oscar de melhor doc ) e shows que aconteceram no palco mas que ficaram fora do filme oficial. Waaaaaal.....
Eu já conhecia o filme a décadas e ainda recordo de quando ouvi o disco pela primeira vez ( imaginando como seria o filme ). O filme é esquisitaço. Pois ele é um gigantesco e partido em dois, documentário. Profundamente bom e irritantemente ruim. Explico sem explicar : tudo o que parecia ótimo em 1969 é hoje péssimo, e aquilo que era posto de lado então é o que mantém o filme relevante. Por partes.
Nunca conhecí alguém que fosse razoávelmente interessado na vida que não mostrasse desejo de ter estado no festival. ( Mesmo fãs de forró e de rap ). Porque ? Drogas, sexo e rocknroll ? Mas isso tem em qualquer rave de hoje. ( E vendo o filme noto como toda rave que presta é Woodstock até os ossos ). A primeira coisa que choca vendo o filme é em como, quarenta anos depois, aqueles caras, se descontarmos as gírias antigas, são fisicamente idênticos as pessoas que encontramos em Ilhabela no reveillon, em bares da Vila Madalena e em cursos de teatro ou yoga. Em compensação, aqueles velhos, aqueles policiais, os caretas em geral, desapareceram. O homem de gravata e chapéu, cabelo rente, calça de tergal. A mulher de anágua e meias, de laquê.... desapareceram. Sem aqueles tolos hippies de 69 não usaríamos camisetas e jeans, bermudas e colares, brincos e cabelos diferentes.
Mas foi só isso a revolução ? Visual ? Não. Diz-se que os hippies perderam. Que eles não mudaram o mundo. Será ? Olho Woodstock e acho o mundo de 69 próximo do nosso. Eles enterraram o homem estilo John Wayne ou Sinatra. Para o bem e para o mal. Hoje falamos de sexo, de drogas, de ecologia, de socialismo, de gays. Acredite : isso tudo era tabú. Se voce era um pouquinho esquisito, antes de 68/69, voce era um freak, e seu destino era a chacota ou pior. Aquele milhão foi à Woodstock para poder ser freak. O lado ruim é que desde então muita gente é esquisita por modismo.
O filme foi dirigido por Michael Wadleigh e tem Martin Scorsese como co-diretor e editor chefe. Como cinema o filme é belíssimo. E muitas cenas anunciam TAXI DRIVER e principalmente GOODFELLAS. ( O helicóptero ameaçador ). É um filme feito de câmera na mão, travellings e zoons. E as falas são maravilhosas ! Os alto-falantes anunciam : " Atenção! O ácido marrom que está sendo vendido não dá boa viagem. Voce está avisado, mas se mesmo assim quiser provar o problema é seu." Eles realmente acreditavam estar mudando o mundo. Que a partir dalí ninguém mais iria ligar para dinheiro, cobiça, posse ou crime. Uma tolíssima ingenuidade para nossos tempos. Mas também uma bela dor de cotovelo para nosso mundo cansado. Um jovem que acreditou de verdade nisso, voce sabe, conheceu o paraíso, mesmo que por apenas 3 dias.
Loucura. Ao mesmo tempo que o exterior daqueles jovens nos é familiar, que suas caras de chapados e seu sexo free nos sejam conhecidos, seus sonhos e seu delírio feliz nos é totalmente desconhecido. Há uma cena em que os produtores se abraçam ao ver que o festival rolou ( mesmo que sem lucro ) que é comovedora. Eles estão falidos, e estão completamente felizes. Ver seus rostos nos faz pensar.
O que define a juventude é sua virgindade. O novo é verde e ser jovem é ser ignorante ( abençoadamente ) da maldade e do limite. Toda geração jovem teve a crença de estar mudando o mundo. Desde Napoleão. Sim, os românticos foram os primeiros a crer nessa mudança, a arrogantemente querer mudar tudo e se enxergar como a melhor das gerações. Livres. Essas ondas se repetiram desde então. ( Isso não havia antes ). Assim foi com os realistas, os socialistas, os fascistas, os modernistas, os beatniks, os existencialistas, e os hippies, filhos de tudo isso. A fé total num novo mundo. A certeza de se fazer parte de um GRUPO PRIVILEGIADO que estava sendo o protagonista de uma história sem igual. A crença no herói.
Nossa geração se parece infantil. Mas é um infantilismo cínico. Jovens que não crêem em nada e que NÃO POSSUEM A CORAGEM DE AO MENOS IR AO FUNDO DE SUA DESCRENÇA. Penso que nosso infantilismo é na verdade senilidade. Como velhos desdentados olhamos para aqueles jovens nús escorregando na lama e pensamos : " Voces são porcos! Voces perderam! Apostaram no perdedor!!!" Bem... eles viveram. Tiveram a coragem de apostar. Nós jogamos no seguro. Saltamos no abismo em tela de computador. Eles foram lá e se jogaram. O que ganharam ? O que voce ganhou ?
Peguei a rebarba daquilo. Peguei a reação. Punks, glitters. Eu realmente acreditei que os punks haviam destruído tudo. Eu pensei que a queda do muro era o paraíso na Terra. Nada, desde Napoleão, muda tudo. Mas tudo mudou alguma coisa. Definitivamente. Antes de Woodstock as multidões só se reuniam para guerrear. E mulheres de família não se sentavam no chão para fumar erva. E não dormiam abertamente com namorados. Eles fizeram vários gols. Mas a expectativa era tão grande que esse 8 x 0 pareceu um 0x0.
Quanto a música....
O festival aconteceu na hora errada. Na entressafra. Fosse um ano antes e teríamos Cream, Traffic, Byrds, Buffalo Springfield, Love, Jeff Beck Group, Yardbirds e Soft Machine. Fosse um ano mais tarde poderíamos ter visto o Led Zeppelin roubar o show e mais Black Sabbath, Pink Floyd, Faces, Elton John, ELP ou até T Rex. Em 1969 um monte de bandas estava terminada e havia uma multidão de novos grupos ainda pouco conhecidos. Woodstock não poderia ter Stooges ou MC5 e não quiseram chamar os novos countrys, pois naquele tempo hippies viam o country como a música da direita. Johnny Cash teria arrasado e os Flying Burritos Brothers seriam soberbos.
Dessa forma o festival dá espaço a gente em crise, em momento ruim. Hendrix, sem vontade, Joan Baez, chatíssima e já ultrapassada, Jefferson Airplane em fim de feira, John Sebastian sem saber onde está. Há também as apostas que não vingaram, gente como Joe Cocker ( e nada de Van Morrison ) e Ten Years After ( que veio quando o Jeff Beck Group acabou. Era para termos Beck, Rod Stewart e Ron Wood em Woodstock ! ). Do filme original, de bom, apenas Sly Stone ( que estraçalha e mostra todo o futuro negro da música ) e The Who. Assita no disco 4 eles tocarem Sparks. Do Caralho !!!!!! Keith Moon e Pete Townshend completamente tomados tocando em volume altíssimo e fúria suicida. Eles sobram em meio a nulidades como Crosby, Stills and Nash e os insuportávis Mountain.
Hippies gostavam de sons "muito loucos". Hoje eles adorariam ( e adoram ) Radiohead e Bjork. Acho que é por isso que não os suporto. Gosto mais do som direto, crú, no osso. No disco 4 tem uma banda que fazia muito sucesso em 69 e que ficou fora do filme oficial ( aquele que todo mundo conhece ) porque não era muito louca ou radicalmente política. Os hippies desconfiavam deles. E eles eram apenas dois irmãos caipiras, um baterista "rufus lenhador" e um baixista plebeu. Mas vendiam mais que os Beatles ( em 69 ) O CREEDENCE CLEARWATER REVIVAL fez o melhor show de Woodstock. Quando entram os acordes de BORN ON BAYOU ouve-se, finalmente, em meio a frouxidão de Grateful Dead e Melanie, rock de verdade. John Fogerty solta o vozeirão, a guitarra rebola e a bateria traz o som do voodoo do pântano. Se isso não te enfeitçar voce merece meia hora de rock-cabeça. Descabelantemente bom!!!!!
O filme vale então pelo documentário em sí. Aquele monte de freaks achando que o mundo era deles. Não pela música, que salvo Who, Sly e Creedence, é sofrível.
Ir a um grande show hoje, seja Metallica, Beyoncé ou Oasis, é ir a apenas isso, um show. As pessoas vão para olhar o palco, azarar e se dopar. Exatamente como em Woodstock. Com uma diferença fundamental : Tudo o que se fazia, droga, romance ou música, tinha por objetivo o encontro de uma nova vida, de um novo mundo, de alternativas.
Tenho ceteza que voce não viu nada disso no Morumbi.

AS AVENTURAS DE AUGIE MARSH - SAUL BELLOW

Estou no meio deste livro. Mas ele é tão bom que preciso falar alguma coisa sobre.
Ele começa na infância de Augie, e Bellow é tão esperto que ele nos confunde. Durante essa infância ele faz com que nos sintamos como se vivêssemos outra vez nessa confusa fase da vida. O que temos são fragmentos mal compreendidos de vida. Rostos em flash, frases não explicadas e principalmente, uma maravilhosa e constante descoberta. São cem páginas de descobertas. Pessoas e mais pessoas que surgem sem motivo, acontecimentos pouco explicados.
Então vem a puberdade e a vida começa a se explicar. Agora as coisas têm um porque, as palavras significam algo, os personagens se explicitam. Augie se torna real. É estupedificante. Saul Bellow esbanja talento, sobra, é um gigante. As paixões de Augie, a relação com a família, o absurdo humor de tudo aquilo. O universo deste livro me encanta e desejo que jamais termine.
A habilidade em criar tipos beira o Shakespeareanismo ou o Dickensianismo. Centenas. Todos únicos, fascinantes e hilários. Desde o poderoso chefão tetraplégico até a milionária que quer adotar. Mas Augie é o melhor. Trata-se de herói completo. Augie não renuncia a nada, não abre mão de ser o que deseja ser, se estropilha todo, mas segue sendo livre, e o mais importante, Augie se interessa pela vida, por toda a vida. Ele se torna um dos meus mais caros heróis.
Como em todos os livros de Bellow, seu talento é tamanho que toda página tem alguma frase lapidar, alguma descrição perfeita e um toque de profunda filosofia. E tudo com satanico humorismo. Veja esta : na vida só importa o que vem fácil. O que requer esforço não é para voce. Lutar por uma mulher ou por um emprego nunca vale a pena. Isso não era pra voce. Quem ensina isso a Augie é um mexicano ladrão de livros e gênio em matemática. Outra : Augie sabia que nunca iria escrever para Avignon ou vencer uma guerra, mas, lendo esses livros, ele sentia fazer parte disso tudo. Um mundo maior. Era como a morte. Sabíamos que ela estava sempre alí, num canto do quarto, mas amávamos mesmo assim.
Nunca lí descrição melhor sobre o amor a leitura. Eu sei que jamais irei viver um amor como o de Heathcliff e Catherine ( MORRO DOS VENTOS UIVANTES ) mas creio neles e ao ler sua história FIZ PARTE DISSO. Pois agora estou no hilário mundo de AUGIE MARSH. Mundo de ladrões, mulheres vagabundas e falidos safados. Não quero outra vida. É um livro/universo precioso. Quando o terminar escreverei mais.

JD SALINGER e CHARLES M. SCHULZ

Salinger nunca foi chato. Não ficou posando de lider de geração. Ao contrário de Norman Mailer, Capote e Gore Vidal, nunca desejou ser estrela de nada. Sem aparições na TV, sem entrevistas na Playboy. Também não ficou lançando pilhas de livros. Assim não cometeu o erro de Updike ou de Roth, montes de livros banais ofuscando suas obras-primas.
Ele realmente percebeu e sentiu a verdade. A de que VIVEMOS UM APOGEU ANTES DA EDUCAÇÃO. Adolescentes são o ser-humano em seu auge. Depois nos enquadramos. E quem não se enquadra se torna SALINGER - hermitão.
Esse modo de pensar ( que é verdadeiro ) trouxe algo de muito bom a civilização ; a contra-cultura. Momento em que, como adolescentes, questionamos tudo e perdemos todo o respeito pelo velho. Mas após esse momento CAMPO CENTEINIANO, mergulhamos no pior da adolescência : vaidade fútil e infantilismo. Não derrubamos agora o velho para criar o novo, apenas, hoje, idolatramos a novidade.
Salinger surge em momento muito especial. Brando, Clift e depois Dean tornavam pop a angústia jovem, e o cool-jazz embalava o desejo de viver. Salinger surge na hora certa.
Seu livro é coisa hiper rara. Best-seller com conteúdo. Fazem zilhões de anos que nada de tão bom e de tão novo vende tanto. O livro jogou fora as novelas sobre jovens-adultos e criou a novela adolescente. E esse jovem personagem era doido, tímido, neurótico, engraçado, apaixonado e sonso. Sem ele não existiria o Coelho de Updike, o Portnoy de Roth e essas toneladas de livros menores que vão de Nick Hornby até Lollita Pille.
O cinema dos 60 é também filho de Salinger. A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM seria inviável sem O CENTEIO.
Lembro de Robertson de The Band dizendo que é impossível compor se sua vida é cheia de tietes, entrevistas e festas. Compor só é viável em solidão ou na estrada com amigos. Salinger se isolou, tenho certeza, para criar o grande livro americano. Falhou. Em 40 anos de tentativas, o livro não nasceu.
Bloom costuma dizer que todo autor americano segue uma de 3 linhas : Melville, Henry James ou Mark Twain. Embora superficialmente Salinger pareça picaresco como Twain, seu molde é Henry James. Como Fitzgerald, o seu interesse é pelo estilo, pela língua, pela voz e não pelo enredo. Seu texto é acima de tudo bem escrito. É prosa corrigida, trabalhada, refinada até a perfeição.
O tal grande livro americano continua a ser MOBY DICK. Os escritores americanos continuam a tentar fazer seu livro canônico. Seu DOM QUIXOTE, A DIVINA COMÉDIA, CANTERBURY, FAUSTO ou GUERRA E PAZ. A América não tem ULYSSES ou EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO. Nem mesmo um A MONTANHA MÁGICA. A América, muitos dizem, é país de muitos grandes escritores, mas não de grandes livros. Heminguay é o exemplo mais trágico. Grande autor sem um grande livro. E mesmo autores que foram mais longe, como Faulkner ou Bellow, dão a sensação de que seu talento nunca foi completamente explorado. O grande livro que eles tanto ensaiaram não veio a luz. O GRANDE GATSBY é provávelmente o grande livro americano do século XX ( e Salinger concordaria com isso ).
Eu descobri Salinger na idade certa : 17 anos. Foi leitura do Objetivo. Gostei e lembro de o ler em uma tarde. Nunca mais o reli. No correr dos anos vieram autores mais antigos ou mais recentes. Mas Salinger conseguiu em mim o efeito que penso ser aquele que ele sempre desejou : seu nome ficou à parte, fora da corrente, sempre lembrado mas estranhamente alheio. Salinger conseguiu continuar adolescente. Ficou fora do mundo de Saramago, Le Clezio ou Dario Fo.
Ele venceu.
MAS.....
Que maravilha!!!!!! Ao mesmo tempo que a América nos dava Salinger e Brando, ela nos dava algo de bem mais....... sei lá....
CHARLES M. SCHULZ.
Sem Charlie Brown não haveria Woody Allen. Nada, nada é melhor que PEANUTS. Quem amou um dia Linus, Snoopy, Schroeder ou Lucy, vai amá-los para sempre. E Schulz manteve também sua integridade. Só ele fazia PEANUTS. Quando ele morreu ( e que terrível foi esse dia ) a série terminou.
Voce sabe : Charlie Brown tremendo sobre a base é a melhor imagem sobre o homem moderno já feita. Poço de medo e um sorriso que teima em tentar vir. Assim como SNOOPY, como já foi dito, é a mais saudável imagem do homem contemporâneo : apostar na criatividade sempre. Snoopy cria seu mundo todo o tempo e aceita o que a vida lhe dá, mas sempre brigando pelo prato mais cheio. Snoopy não conhece tédio ou desepero, ele relaxa e brinca. Nada é sério para ele, sómente seu prato.
Schulz e Salinger terem vindo juntos não foi acaso. Eles chutam a cultura européia fora. Cultura que nos deu a guerra e o campo de extermínio. E criam a arte americana. O texto que é jazz, e o quadrinho tornado arte, alta e sofisticada arte. Cultuam o menino, a menina, a inocência maculada, a neurose do quase nascido. Charlie Brown luta por nascer.
O grande livro americano jamais irá nascer. O interesse da América é pelo grande homem, não pela grande obra acabada. Jamais haverá um HAMLET. Mas haverá um EUGENE O'NEIL. A arte americana não poderá ter seu MOLIÉRE, mas a França não pode ser terra de SNOOPY.
Acho que é isso.

500 DIAS COM ELA/ MINHA VIDA DE CACHORRO/ SETE HOMENS E UM DESTINO/ SOPRO NO CORAÇÃO

PARIS TEXAS de Wim Wenders com Harry Dean Staton, Nastassja Kinski
Um filme que dói. O amor morre e a estrada se abre. Ser herói é sempre ser só. Isso é verdade ou um consolo? O filme homenageia Ford e todo o cinema da América. Mas é alemão. Tão alemão como é Mann ( os dois Mann, Thomas e Heinrich ). O amor sempre termina e fica este homem andando sem rumo e esta mulher exibida numa tela. Mas ficou um rastro, uma criança. Wenders fez filmes imensos. É o cara. Nota DEZ. Um dos filmes que definiram aquilo que sou. Eu sou Travis.
SETE HOMENS E UM DESTINO de John Sturges com Yul Brynner, Steve McQueen, James Coburn e Charles Bronson
Este filme dá raiva. Queriam transformar Horst Buchholz ( quem? ) em star. Então o filme tem esse péssimo Horst demais e tem McQueen de menos... Baseado em 7 Samurais de mestre Kurosawa, é um western pop com uma das trilhas mais famosas da história ( Elmer Bernstein ). Boa diversão. Não é o oeste de Ford ou de Anthony Mann, mas é muito ok. Nota 7.
500 DIAS COM ELA de Marc Webb com Joseph Gordon Levitt e Zooey Deschanel
O filme segue aquilo que Nick Hornby diz : a vida pode se tornar uma tristeza com essa ração de música pop triste. Neste filme, o cara é fã de Smiths. Conhece sua amada ouvindo o som de Morrissey e Marr no elevador. A partir daí rola o romance dos dois em flashback. O filme é uma chatice. Os dois são exatamente o tipo de gente que menos gosto, dois fofinhos. Viciado em deprê, o cara passa o filme inteiro tentando nos fazer sentir pena. Sentí tédio. Quem gosta disto ? É um tipo de filme de Eric Rhomer para iletrados. Por medo de ousar se usa um narrador para explicar o filme, assim como se datam os flashbacks para não confundir. Sinal dos tempos : um filme para estudantes espertos que é pudico e envergonhadérrimo. Sua única boa cena é ao som de Bookends de Simon e Garfunkel. Ao som de Bookends até jogo de canastra se torna poesia. Mas é, apesar de tudo, um filminho bem intencionado. O Annie Hall de 2009. Mas é chaaaaatoooooooo!!!!!!! Nota 3.
ANNA KARENINA de Julien Duvivier com Vivien Leigh e Ralph Richardson
Livros banais podem dar bons filmes. Livros bons podem ser suplantados pelo cinema ( Wonderboys é um filme melhor que o livro de Chabon ). Hammet, Chandler, Du Maurier, Pasternak, Elmore James, são todos autores médios ( sim, acho Pasternak médio ) que foram melhorados nas telas. Grandes peças podem dar filmes geniais ( cito UM BONDE CHAMADO DESEJO e QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOLFF, duas peças de antologia e dois filmes históricos. ) Mas obras-primas da literatura nunca dão grandes filmes. A exceção, única, é OLIVER TWIST de David Lean, que é melhor que o livro ! Lord Jim de Conrad virou um filme chato, Dom Quixote é ridiculo e Moby Dick se tornou aventura normal. Sem falar em O Morro dos Ventos Uivantes, filmado até por Bunuel e sempre dando filmes ruins. Anna karenina nunca deu certo nas telas. Vira um tipo de romance aguado, vazio, sem aquilo que Tolstoi lhe deu de melhor : Força Divina. Vivien seria uma excelente Anna, mas o Vronski deste filme é um brioche de vento. Se voce nunca leu o livro pode até se divertir com seu visual bonito. Mas de Tolstoi não tem uma vírgula. Nota 5.
MINHA VIDA DE CACHORRO de Lasse Halstrom
Em 1985 a Suécia nos revelava este diretor sensível. O filme se tornou famoso, concorreu até a Oscars de direção e roteiro. Depois Lasse viveria nos EUA e dirigiria filmes como Chocolate e Gilbert Grape. Este filme, sobre um garoto desajeitado e sua família, será para quem o assistir hoje, uma maravilhosa surpresa. Peço para que todos voces o procurem e assistam. Precisa ser assistido porque é um filme que faz bem. A poesia e a alegria vivem neste filme ( e a dor também ). Se voces querem saber o que espero de um filme vejam este. É engraçado e faz chorar. O menino está comovente e a vida com seu tio é a vida que todos nós precisaríamos viver. Dá vontade de rever assim que termina e dá vontade de ir à rua e gritar : Viva a Suécia ! È uma obra-prima dos filmes sobre a infância ( e NADA tem de infantil ). Lindo. Nota DEZ.
MONTE CARLO de Ernst Lubistch com Jeanette MacDonald e Jack Buchanan
O mundo de Lubistch. Distante de nós. De todos os grandes é ele que está mais distante. Seu tipo de filme jamais poderá ser refeito, é filho de um mundo ainda iludido. É Vienna antes de Hitler, é mundo de romance tipo bolo de noiva, de canções maliciosas, de piscadas de olhos, de ligas de seda, de cafés e de cerveja. Não há violencia, não há deselegancia, nada de pressa. O tema é o romance, e não há qualquer pretensão a verdade ou a arte. O objetivo é divertir com classe. Delicioso, mas sinto que sua lingua se apaga ano a ano.... nota 7.
O TENENTE SEDUTOR de Ernst Lubistch com Maurice Chevalier, Claudette Colbert e Miriam Hopkins
Mundo de soldadinhos de chumbo. Romance sempre feliz, risos, dinheiro, reis de carochinha, flores e música de cervejaria. Uma bolha de sabão, leve, linda e que estourou. Nota 6.
A LEI DOS CRÁPULAS de Jules Dassin com Gina Lollobrigida, Yves Montand, Marcello Mastroianni, Pierre Brasseur
Numa vila italiana todos são maus. Não apenas maus, muito maus. Roubam, traem, mentem, enganam. Jules Dassin foi um dos grandes. Na América fez no mínimo 3 obras-primas. Eram filmes policiais e de denuncia social. Foi perseguido pelo Macarthismo e sua carreira continuou na Europa. Filmou na França, Inglaterra, Itália e Grécia. Continuou irriquieto, ousado e genial. É dos meus favoritos. Este é seu filme mais fraco. Os personagens são todos tão maus que o filme nos repugna. Gina é linda, mas incapaz de segurar o filme. Montand está cafa e excelente. A vila é maravilhosa, mas o filme é esquisitíssimo. Nota 6.
SOPRO NO CORAÇÃO de Louis Malle com Lea Massari e Daniel Gelin
Um dos mais originais filmes já feitos. Viva Malle ! Penso que se o mundo tivesse sido feito por Malle seria um lugar muito feliz. Todos seus filmes, tão variados, pregam a anti-culpa. Não existe culpa em seus filmes. Aqui acompanhamos um adolescente fã de Charlie Parker. Seus irmãos, sua primeira transa, o padre, o pai médico, uma doença no coração. Esses temas em outras mãos fariam do filme drama. O garoto não se dá com o pai, os irmãos vivem o perturbando, a mãe tem um amante, ele está doente. Mas, com Malle, tudo é brilho, tudo é leveza e todos são felizes ( sem serem jamais tolos ). É um cinema feito de coragem, de cultura e é sempre pop. Louis Malle não era bem aceito pela nouvelle vague porque apesar de seus temas serem modernos, seus filmes são feitos para serem entendidos. Não há nada de hermético, de enigmático, de intelectual. Mas é alta arte. E aqui ele tem a coragem de tocar no tema mais espinhoso que existe : o incesto. Filho e mãe. Não vou dizer o que ocorre, mas digo que nada parece chocante ou violento. Malle enfrenta o desafio de filmar algo muito pesado com leveza, e estranhamente ele consegue. O filme perturba por isso, nada é como esperamos. O final é sublime. Assisti este filme em 1982, no cine Iguatemi. Ele fora censurado em 1972 ( junto a LARANJA MECANICA e O ÚLTIMO TANGO ) e liberado em 1980, na abertura do presidente João Figueiredo. Adorei-o e fiquei estranhamente eufórico com sua alegria, sua energia e por perceber a absolvição de todo pecado que Malle nos dava. Quase trinta anos depois o revejo e percebo que ele permanece novo, ousado, vivo, e perturbador. É um filme para sempre. Louis Malle foi o único diretor francês de sua geração a dar certo em Hollywood. Viveu por lá de 1979 até 1993, fazendo bons filmes e alguns sucessos de bilheteria. Casou-se com a disputada Candice Bergen e terminou sua brilhante carreira na França, com filmes ainda ousados e lindos. Num país que nos deu Clair, Clouzot, Clement, Cocteau, Godard, Chabrol, Resnais, Renoir e Carné, ele é talvez o mais dotado, com absoluto talento para o drama, a comédia e o suspense. Louis Malle foi perfeito e SOPRO NO CORAÇÃO é único, não se parece com nada e é absolutamente feliz. Nota DEZ !!!!!!!!!!!!!

A FELICIDADE SÓ EXISTE QUANDO É ETERNA

A infancia termina no dia em que percebemos que ela tem um fim. A vida que é só acordar para brincar e odiar a escola parece sem fim. Nós sempre iremos ter recreios com bolachas e sempre teremos de dormir cedo. No dia em que notamos que nosso pai não é tão perfeito e que nossa casa é menor do que parecia, nosso tempo começa a correr e a infância se vai.
A felicidade só é possível na eternidade. O amor tem de ser eterno. No dia em que voce imaginar que ele pode acabar ( o amor ) ela já se encerrou ( a felicidade ). A matemática é inimiga da alegria : contar é guardar e guardar é temer perder. Quando somamos minutos e diminuimos tempo matamos a felicidade. A cerveja gelada do verão deve sempre parecer eterna, ou não será feliz.
Se realmente os cães não têm noção do tempo, se para eles tudo é um eterno agora, então eles vivem na felicidade plena. A alegre existência onde não se ganha nem se perde nada. Antimatemática.
O mundo da ditadura da ciência, da juventude obrigatória, dos horários controlados, é o mundo da felicidade impossível. Saber do final dos processos naturais, tentar emperrar a roda da vida, ansiar pelo novo mais novo, correr para ter mais tempo livre para correr... não há chance para a idéia de eternidade num mundo como esse. Saber que o amor existe no tempo e espaço é matar o amor.
A felicidade está na Lua. Enquanto crermos ser ela para sempre. Na maré que vem toda noite e no sabiá que sempre canta na minha mangueira. Pois esse sabiá é o de sempre.
Por isso há felicidade em Shakespeare, em Mozart ou Rembrandt. O que deixaram transcende o momento em que foi feito. Alí é possível o além de tudo. A felicidade pode residir neles.
Neste mundo cada vez existem mais coisas que nos fazem alegres. O mundo medieval, onde todo dia havia um enterro na família, era muito mais triste. Mas este mundo alegre é um mundo infeliz porque é feito de uma realidade que nos recorda sempre o fim de tudo. A tristeza medieval tinha a possibilidade de se tornar felicidade por, estranhamente, ser luto eterno. A família era eterna, o casamento era para sempre, a dor era imorredoura, e a esperança também. Deus existia.
Deixe chover e pare de amaldiçoar a chuva. Ela é para sempre como o sol é eterno. Por isso me fazem feliz. Não venha a ciência dizer que o sol vai deixar de brilhar um dia, ou que a chuva secará. O sol precisa ser eterno e a chuva voltar a cair. Ou a felicidade será apenas alegria. Quando a gente lembrava que as férias iam terminar elas perdiam a graça.

ANNA KARENINA - TOLSTOI

A primeira sentença já faz com que saibamos estar diante de algo muito especial. Após as primeiras vinte páginas estamos viciados e logo sentimos a presença de um tipo de gênio ou duende em cada palavra escrita. Tolstoi é vasto como Shakespeare. Seu dom é o de abarcar tudo. Ao contrário de Dostoievski, ele não se limita apenas aos loucos ou desajustados. Diferente de Tchekov, ele é potente, forte, corajoso, heróico.
Anna é o personagem central mas não é o maior. Vronski é tão grande como ela. O que o livro nos dá é inestimável. A idéia central é : o amor romântico é valorizado demais. Erramos ao aceitar o pensamento de que tudo se desculpa pelo amor. Pode-se matar, e se pode morrer. Se for por amor foi por bela causa. Pois a esse amor, no fundo egoista, Tolstoi opõe o amor de Lievin e Kitty. E em Lievin, Tolstoi cria o mais nobre personagem de toda literatura ( incluindo Quixote e Hamlet ). Lievin ama Kitty com fidelidade e devoção, Kitty aprende a admirar Lievin e dessa admiração brota o amor. Mas o amor deles é um amor que engloba tudo, eles estão interessados na vida, não vêem toda a vida nos olhos do outro. Kitty vive ocupada com seu trabalho na fazenda e Lievin tem ideais. Lievin sonha com a igualdade entre camponeses e vive em crise de espírito e de carne. O livro contrasta todo o tempo o mundo futil de Anna com o mundo vital de Lievin. Lievin entende Anna e poderia a amar. Mas Anna está cega pelo que imagina ser Vronski e Vronski ama Anna. Eles se bastam... mas a vida não é assim.
As páginas da crise espiritual de Lievin e sua cura pela observação da natureza, são a coisa mais maravilhosa que li em toda a vida. Ao ler aquilo voce sente todo o sufoco e aturdimento de Lievin, mas, milagrosamente, a ressureição dele é a sua. Quando ele sente finalmente a paz e enxerga o sentido de tudo, voce, maravilhado, sente exatamente o mesmo. A sensação é de sol brilhando, de anjos descendo, de mar descoberto. Vemos a vida pela primeira vez. Mas há bem mais.
As fofocas e as suntuosas festas, a vaidade vazia, a crueldade do marido traído ( e que nunca se torna um vilão ) o final de Anna. Estamos longe do romance melado, estamos longe do realismo. Tolstoi escreve num estilo só dele, é como se nos pegasse pela mão e fosse nos mostrando o mundo. "Veja leitor, eis uma mulher bela ! Percebe onde reside sua fraquesa ? Veja leitor, isto é a nobreza e isto é a vilania ! " Tolstoi nos faz mais adultos, mais vivos, ele nos dá o mundo.
Anna Karenina nos surpreende todo o tempo. Quando pensamos ter captado quem ela é, algo acontece e duvidamos de sua verdade. O autor cria personagens críveis, podemos vê-los, podemos ouvir suas vozes, mas nunca conseguimos capturá-los.
Leon Tolstoi foi parte da nobreza russa, foi soldado, foi literato. Enfrentou forte crise espiritual e largou tudo. Foi viver numa comunidade agrícola ( em suas terras ) onde fundou uma religião e um tipo de proto-socialismo. Todos os seus anos de velhice são anos de pregação utópica. Tolstoi morreu amargurado pela realidade egoista dos homens, recebendo romarias de escritores que o viam como um deus. Anna Karenina nos dá tudo isso.
O que faz de um livro um bom livro é sua capacidade de nos abstrair da realidade.
O que faz de um livro um grande livro é quando o autor cria uma nova realidade e nós mergulhamos nela.
O que faz de um livro coisa de gênio é o dom de transformar o leitor e o mundo durante sua leitura e após sua leitura. Após Anna Karenina, deixamos de ser os mesmos e o mundo deixa de ser como era. Tolstoi cria um mundo de tinta e papel. E mais incrível, modifica um universo de pedra, água e fogo, usando apenas tinta e papel. Talvez Deus exista.

PARIS TEXAS - WIM WENDERS

Odisseu volta para casa. Tanto tempo depois que ninguém mais o reconhece. Apenas seu velho cão, que morre ao lhe lamber a mão. A ODISSEIA se fixou em nós. Todo herói desde então é Odisseu.
Em 1956 John Ford fez RASTROS DE ÓDIO. Um homem parte para resgatar uma criança. Volta anos depois. E após cumprir sua missão, parte, só. O filme se tornou mito entre cinéfilos. De Godard à Bertolucci, todos o amam. Em 1976 Scorsese homenageia Rastros de Ódio fazendo TAXI DRIVER. Travis Bickle é o John Wayne de 76. E em 1984 Wenders homenageia Rastros com PARIS TEXAS. Num personagem chamado Travis, que também parte só no final, e que une filho à família antes disso. O filme é devastador. Quem um dia amou e perdeu esse amor e sonhou com esse amor irá morrer ao ver este filme. Mas, como os filmes de Ford e Scorsese, não é um filme sobre amor. Ele é sobre o heroísmo. Em Ford é o herói puro, arquétipo de virilidade. Em Martin Scorsese ele é um homem que já não serve ao mundo. No universo de 1976, o herói está por fora, é um perdedor, não tem função. PARIS TEXAS mostra esse herói completamente alienado de sí-mesmo. O mundo não precisa mais dele como em Ford, o mundo não mais o ignora como em Scorsese, agora é o próprio herói que se perde´dentro de seu interior. Ele se nega.
Porque heróis, todos, morrem. Porque heróis, todos, se não morrem se isolam. Vagam pelo deserto, longe de tudo, enfrentando a maior das provas, a solidão. O herói precisa não existir, e ressurgir, quando preciso for, para iluminar os outros.
Mas ele nunca se ilumina. Ele não é bom. O que ele faz não é pelos outros. Nem por sí-mesmo. Ele faz porque tem de fazer. Para poder morrer.
Este filme é o que espero de todo filme grande. Vida. Um filme que fale da vida. Da verdade da vida. Da dor da vida. Da fragilidade da vida. Mas este é mais. É heróico.
Harry Dean Staton foi um herói ao encarnar este papel. Seu rosto surrado é heróico. Nastassja Kinski é heróica na cena do espelho. Quinze minutos sem um só corte... Ry Cooder fez a trilha sonora dos heróis e Sam Shepard escreveu diálogos que ecoam cowboys, beatnicks e perdidos. E Wenders mergulhou no vazio, no risco, no abismo...
É um filme de verdade, dilacerado, desesperado, e estranhamente bonito.
Digna homenagem ao mais heróico dos diretores ( Ford ). Quem se habilita ?

ONDE VIVEM OS MONSTROS/BULLIT/DIRTY HARRY/RENE CLAIR

ANASTASIA de Anatole Litvak com Ingrid Bergman e Yul Brynner

Chatíssimo sucesso do cinema que décadas depois teve mais sucesso ainda, como desenho Disney. Ingrid ganhou seu segundo Oscar e Yul está especialmente canastrão. Um filme para mocinhas românticas, apenas isso. Nota 2.

ONDE VIVEM OS MONSTROS de Spike Jonze

Descubra a criança que há em você.... Não seria melhor descobrir o adulto que procura nascer ? Pois tudo hoje nos ajuda a "descobrir a criança" ! Somos geração do talco e das fraldas. Não nos cansamos de revisitar o mundo idealizado da meninice. Haja !!!!! O filme nada me surpreendeu, eu já adivinhava que haveria um início cheio de fôlego e uma gradual perda de pique até o final mais ou menos. Sina de diretores formados por clips, uma incapacidade total de contar histórias longas. O visual remete às séries infantis inglesas dos anos 60/70, tipo A FLAUTA MÁGICA...Spike andou as assistindo. Adorei os dez minutos iniciais, depois deu muuuuuito sono.... Nota 4.

NA TRILHA DOS ASSASSINOS de John Frankenheimer com Don Johnson e Penelope Ann Miller

Policial estilo anos 80. Detetive fracassado investiga crimes. A ação é ok. Frankenheimer foi um dos grandes entre 62/72, de repente desandou. Mas isto é bem divertido. E bastante imbecil. 5.
O ÚLTIMO BOY SCOUT de Tony Scott com Bruce Willis
O irmão mais jovem de Ridley fez na sequencia dois bons filmes, este e AMOR A QUEIMA ROUPA. O estilo é cheio de luz, cores, brilho e reflexos, ou seja, publicitário. Mas Bruce nunca esteve tão bem ( lí que Tarantino acha Willis grande ator ) fazendo seu tipo azarado cornudo. O filme diverte muito, tem cenas de ação centradas nos stunt e não em efeitos. Enjoy, é um dos melhores filmes pra homem dos anos 90. Nota 8.
THE LAST WALTZ de Martin Scorsese com The Band
Na história do cinema dois filmes disputam o prêmio de melhor show já gravado, este e STOP MAKING SENSE de Johnathan Demme com os Talking Heads. São completamente diferentes. Demme fez um filme modernista, minimalista e esquizo; Martin nos dá um filme que reflete aquilo que é The Band, o filme é direto, simples, objetivo. Fala todo o tempo sobre a amizade. Como música é nota dez, como cinema é 7.
BULLIT de Peter Yates com Steve McQueen, Robert Vaughn e Jacqueline Bisset
O moderno filme policial nasceu com Dirty Harry, mas dois anos antes Bullit abriu o caminho e fez melhor. Nada é mais cool que este filme. Tudo aquilo que ligamos ao que é ser cool está aqui. Em sua trilha sonora ( jazz de Lalo Schifrin, pra mim a melhor trilha de policial da história ), nos carros ( muscle cars, o de Steve é um clássico ) roupas, cenários, silêncios, ressacas. Basta assistir os primeiros cinco minutos de Steve em cena para se entender tudo o que era cool em 1968 e é ainda hoje. Aliás hoje o estilo Bullit é mais cool ainda !
O filme, cheio de ação e com muito poucos diálogos, segue um policial rebelde ( Steve ) investigando coisas da máfia e de política. Tudo com as ruas de SanFran de fundo e Miss Bisset, dona de beleza surreal, enfeitando o apto de Bullit. Yates, diretor inglês muito bacaninha da época, nunca deixa a câmera parada. Ela corre, voa, treme e ginga. Há uma perseguição de carrões pelas ladeiras que dá até frio na barriga. O filme foi hiper sucesso de bilheteria e é um clássico. O tipo de filme que Soderbergh adoraria assinar. Esperto, frio, elegante, viril, ritmado, enfim, cool. Steve McQueen merece seu título, o rei do cool. Nota DEZ !!!!!!!!!
DIRTY HARRY de Don Siegel com ELE.
...é seu dia de sorte ? Depois que Clint disse isso nunca mais o cinema foi o mesmo. Se voce é um dos infelizes que nunca o assistiu e resolver conhecer este lixo delicioso, saiba que para entender a importancia disto é preciso saber que tudo o que voce assistir aqui foi feito pela primeira vez por Harry, o sujo. O sangue, o som do Magnum 44, um policial metendo bala nos meliantes sem dó, a frieza, o politicamente incorreto. Harry mata e mata sem nenhum problema de consciencia, e isso na época causou indignação. Observe como o filme tem poucos tiros. Espertamente eles notaram que um único tiro causa mais impacto que duzentos. E que tiros ! Nós vibramos com eles ! É um filme podre, sujo, muito feio, de humor pesado, cheio de furos no roteiro. Mas é inesquecível, empolgante, viciante. Clint cria um mito moderno e deixa como cria uma penca de heróis ( de Rambo até Matrix, todos têm algo de Harry ). Nota 9.
MAGNUM 44 de Ted Post com Clint Eastwood e Hal Holbrook
Harry em seu segundo filme ( ele é também responsável pela praga das continuações ) enfrenta gangue de policiais justiceiros. O inicio do filme é hilário, um close gigantesco na arma de Harry. O filme é mais ambicioso que o primeiro, mas tem menos suspense. A violência é maior, o impacto menor. Nota 6.
MEDOS PRIVADOS EM LUGARES PÚBLICOS de Alain Resnais com Pierre Arditi, Andre Dussolier, Laura Morante, Lambert Wilson
Resnais melhorou com a idade. Aos quase noventa anos ele domina uma leveza sem igual. Este filme fala do grande tema deste tempo : solidão. Consegue não ser piegas, não ser triste e não ser tolo. Adultos tentando fugir desse fantasma. Não conseguem. O filme é belíssimo. Nota 9.
POR AMOR de Sam Raimi com Kevin Costner, John C Reilly e Kelly Preston
Muita gente não entendeu o porque de Raimi amarrar os melhores anos de sua carreira ao Homem-Aranha. Porque ? Este filme ajuda a responder. Porque Raimi é banal. Este filme tem duas horas de cenas sem qualquer sinal de criação. Tudo é óbvio, previsivel, novelesco. E o tema é bom : jogador veterano recorda sua história de amor enquanto joga sua última partida. ( Baseball ). Costner até não está tão mal, mas o filme é idiota. Começo a pensar que todo diretor de série sabe o que faz ( ou o que não faz ). Talvez Raimi, Bryan Singer, Chris Columbus e agora Christopher Nolan e Gore Verbinski sejam apenas isso mesmo, diretores de séries. Nota 2.
O TEMPO É UMA ILUSÃO de Rene Clair com Dick Powell e Linda Darnell
Clair fugiu dos nazistas e foi filmar nos EUA. Se deu bem. Seus filmes lá são ótimos. Este fala de jornalista que recebe jornal do dia seguinte, ou seja, ele sabe tudo o que vai acontecer antes que aconteça ! Típico tema de Clair : fantasioso e feliz. O filme pede por atores melhores. Um Cary Grant o transformaria em ouro puro, Powell é apenas um tipo de Adam Sandler elegante. Mesmo assim é boa diversão. Nota 7.
FESTIVAL EXPRESS de Al Eamon
Inacreditável !!!! Em 1970 botaram num trem um bando de músicos e os soltaram on the road no Canada para fazerem shows. A idéia era um Woodstock itinerante. É lógico que tudo deu errado. Os hippies enfrentavam a policia, queriam ver os shows de graça. O produtor faliu e os músicos continuaram fazendo a excursão for fun. Muita bebida, muita droga, muito som. O Grateful Dead até que está bem. Era sua fase mais country, mais pop. Buddy Guy é um desastre. Tem ainda o Flying Burrito Brothers sem Gram Parsons, tocando Lazy Day. Nota mil pra eles. Mas tem também a chatérrima Janis Joplin dando seus gritos de sempre. The Band salva tudo : 3 canções de arrasar. Mas o melhor são os bastidores. Músicos totalmente junkies. Um retrato da proto-história do pop. Nota 5.
PS: Meirelles fazendo um filme sobre Janis com a filha do grande Caleb Deschanel ? Tô fora !!!!!

MARC CHAGALL NO MASP

Dos artistas modernos nenhum impressiona melhor aqueles não habituados com a arte que Chagall. Não por ele ser mais simples ou pop, mas porque Marc Chagall conseguiu um equilíbrio entre religião/arte, modernismo/arcaísmo, poesia/pintura, sonho/realidade. Este poeta russo é único no século XX, acredita no homem, acredita na vida, acima de tudo crê no amor.
Chagall nasceu judeu, em aldeia russa. Jamais deixou de ser muito russo, muito judeu e nunca tirou seu coração da aldeia. As cores, roxos e vermelhos vivos, verdes profundos, amarelos brilhantes, são completamente russos. Como russos são seus sentimentos. Marc é absolutamente sensual, as figuras dançam, pulam e sempre levantam vôo. Seu judaísmo está na profusão de estrelas de Davi, velas, profetas, ícones. Tudo remete ao Deus do velho testamento, as cerimônias, as barbas. E existe a aldeia. E é dessa aldeia que Chagall tira sua poesia. Galos de olhos ferozes, bodes rindo, pássaros que são homens, camponesas que são rochas. Sol e lua e essas vacas voando pelo céu, vacas de olhar divino e que são um dos mais felizes símbolos do século. A pintura de Marc Chagall, mágica, nos faz planar no céu.
Mas não pense que ele foi um aldeão. Viveu em Paris, entre artistas modernistas, viveu com sua musa, Bella, namorada da aldeia que ele deixou para trás enquanto se instalava na França. Um dia ela vem para o encontrar, e Chagall pinta sua obra-prima, aquele quadro desmaiante, onde a noiva flutua ao ser beijada pelo artista. Mas Bella morre, anos depois, e Marc deixa de pintar. Seu luto é total : para que pintar sem Bella ?
Redescobre o amor e volta às cores. O segundo Chagall é menos poeta e mais mestre, equilibrado. Descobri esse encantador cigano/judaico em 1985, no canal 9. Roberto D'Avila entrevistava Marc aos 90 anos em Paris. Nove da noite, era o Conexão Internacional. Duas horas com esse mestre russo/francês. Ao fim da entrevista, onde se falou de guerra, gueto, aldeias, modernidade, cor, idade, Roberto pede para que Marc Chagall dê um conselho aos jovens espectadores. O poeta se ergue da cadeira e com olhos brilhantes e subitamente renascidos diz "- Amour ! " Somente o amor existe... Pieguice ? Não ! Na década da ironia ( era 1985 ) eu entendi tudo. Dois meses depois ele falecia.
Desde então eu descobri Gauguin, que com sua inquietude e seu heroísmo radical se tornou meu artista favorito. E encontrei Klee, Kandinski e Vermeer. Mas Chagall, o nunca imitado Marc, o aldeão que não criou escola, é desde sempre um tipo de avô ideal, de patriarca ícone.
Ir ao MASP ver Chagall é obrigatório. Irei uma vez por semana. Uma romaria a um anjo, um puro, um olho em comunhão com a alma do universo, gurú.

MEDOS PRIVADOS EM LUGARES PÚBLICOS - ALAIN RESNAIS

Sim, nascemos sós e morremos sós. Escovamos os dentes sózinhos e sonhamos solitariamente. Mas há um momento em que essa solidão termina. Nasce a chance do amor.
Cinema francês... faz dez anos que o cinema francês vive um belo momento. Veteranos em atividade digna ( quando não genial ) atores excelentes e novos nomes. Nada digno de Clair ou Clouzot, mas é um cinema que ao contrário do americano, ainda dá espaço para o homem adulto.
Este filme, onde o cenário sempre se parece com uma geladeira chic, e onde a neve não pára de cair, é poema discreto à solidão inenarrável. Todos se movem em células asfixiantes, todos tentam, desajeitados, escapar.
E como é fácil perder o amor ! Uma frase, um lapso, um não-dito... e pluft, foi-se !
Alain Resnais tem carreira que nasce no muito complexo ( Hiroshima e Marienbad ) e ruma a simplicidade. Ele se remoça, se torna cada vez mais leve, vai ao básico. Este filme é todo simplicidade, mas é principalmente elogio ao coração. Judiado coração.
O filme tem algum humor. Mas é melancólico. Patético. E profundamente HUMANO. Na ração de cinema "made in USA", onde até os perdidos têm a cara de George Clooney, é um alívio ver atores que têm rosto de gente. Como nós.
SABINE AZEMA, PIERRE ARDITI, LAURA MORANTE ( belíssima ) ISABELLE CARRÉ, LAMBERT WILSON e principalmente esse mago ANDRÉ DUSSOLIER. Estão superlativos. Trazem nos rostos a marca daquilo que não deu certo. Os diálogos que lhes dão para dizer são perfeitos, ecos de vazios e brilhos de esperança. O desajeitamento do primeiro encontro via internet é antológico.
Os minutos finais, neste muito simples filme, são sim momentos de gênio. O octagenário Resnais dá sua mensagem em cenas de brilho estético intenso e de discreta humanidade. Nada é grande neste filme, tudo é floco de neve.
O fato dele estar ainda em cartaz ( dois anos ? ) depõe a favor desse público. Ainda existe vida adulta nas telas. Ainda há público para este filme.
Nem tudo se perdeu.

GLOBO DE OURO, SHERLOCK HOLMES E O FUTURO

Salvo surpresas o Oscar irá confirmar : AVATAR é o filme do ano e possivelmente dos anos 2010/2011 e por aí afora. A obra prima de Tarantino foi ignorada ( ele é o Sam Peckimpah da minha geração... ) e um filme bacaninha e com cheiro de prêmio como o do simpático e boa gente Jason Reitmann foi consolado com um premio de roteiro. Robert Downey Jr ganhou coadjuvante de comèdia e pagou um mico nos agradecimentos : tentou ser bem louco e foi apenas um chato.
A evolução do cinema é tecnológica. Não há mais como se iludir, isso vem desde os anos 80. Nisso ninguém bate James Cameron, ele é o Orson Welles atual. Deve estar despertando várias vocações de cineasta. A homenagem à Scorsese foi ok. Dois takes de MEAN STREETS ( se mostrou a cena no bilhar ) valem mais que SHERLOCK HOLMES inteiro.
Cecil b. de Mille venceu. Cinema é circo.
Legal foi ver Sandra Bullock ganhar. A atriz mais simpática de sua geração. Ela não é pior que Gwyneth, Julia ou Reese. Tava na hora de vencer. Melhor ainda foi ver Jeff Bridges levar o seu. O cara trabalhou com Huston ! E é o GRANDE LEBOWSKI ! Jeff sempre foi excelente, basta ver O PESCADOR DE ILUSÕES.
O GLOBO DE OURO sempre foi mais progressista que o Oscar, imagine o que vem por aí ! AVATAR leva tudo de barbada ! É capaz de Guy Ritchie ser indicado.
Tá rolando uma picaretagem que ninguém percebeu : se SHERLOCK HOLMES se chamasse as aventuras de Ian Hunter ou Pete Thomas teria o sucesso que está tendo ? O que quero dizer é que de Sherlock se pega apenas a marca conhecida, a grife Conan Doyle e se faz um filme que nada tem de Holmes. A marca Sherlock é apenas um seguro de bilheteria.
James Bond nada mais tem de Bond, Batman deixou de ser Batman... um dia se filmarão as aventuras de TOM SAWYER como um super herói do Mississipi.
Teria muito mais mérito criar um novo personagem, criar um herói. Como se fez com Indiana Jones ou Luke Skywalker. Eles não eram grifes, foram criados só pelo cinema. Mas hoje, neste cinema de banqueiros, é mais seguro investir na empresa Sherlock, mesmo que o filme nada tenha de Holmes ou Watson. Pra mim isso é paraguaísmo.
E tome filmes com nomes de HQ, games ou personagens históricos. Só na segurança, sempre.

THE LAST WALTZ - THE BAND & MARTIN SCORSESE

No tempo em que toda banda tinha de ser a mais louca, The Band surgiu como uma ilha de sanidade. Nesse mesmo tempo em que todo grande guitarrista dava solos de meia hora, The Band tinha o mais influente guitarrista e ele fazia solos de meio minuto. Na enciclopédia do rock, da Rolling Stone, é dito que este grupo salvou a vida de milhares de caras que haviam se perdido e não conseguiam voltar das loucuras psicodélicas. E acredite, ela foi a mais amada das bandas e o primeiro grupo de rock a aparecer na capa da Time ( em 69. Os Beatles só apareceram em 70. ) Foi o grupo que fez com que Clapton largasse o Cream, e com que montes de músicos lembrassem que o importante era uma boa canção.

Eles surgiram no Canadá e tocavam de tudo. Quando Dylan resolveu fazer rocknroll os chamou para excursionar... o resto é lenda. Meu amigo Fabio diz que são considerados musicalmente um exemplo de entrosamento. Todos são cobras, mas ninguém é líder de nada. The Band tem quatro vocalistas e nenhuma estrela. É desde 2000 minha banda favorita. Eles falam fundo para aqueles que tiveram o coração partido, mas que mesmo assim não se tornaram cínicos. Eles são cowboys, eles falam de fé, de amizade, de lendas da estrada, do que é ser homem.

The Band é para homens. Não serve para meninos.

Em 1976, num ato exemplar, resolveram terminar o grupo. Eles não tinham mais nada a dizer, viajar não era mais divertido, não queriam enganar ninguém. Chamaram o amigo Scorsese e fizeram um filme desse final. THE LAST WALTZ. Na época ninguém convidava ninguém para tocar em homenagens, o show foi inovador por trazer convidados especiais. E o cenário de palco foi a base estética dos MTV acústicos.

Martin Scorsese, fã, faz as entrevistas. Os caras esbanjam simpatia. O som que eles fazem é a cara deles : amigáveis sem jamais serem engraçadinhos. São adultos, e são muito rocknroll. É bom demais ver os caras tocando. Eles sorriem todo o tempo. Totalmente anti-afetação.

Os convidados... alguns são banais como Ronnie Hawkins, chamado por ser o cara que os lançou no Canadá. Eric Clapton é engolido por Robbie Robertson. Os solos de Robbie são como Miles Davis em rock. O menos que é muito. Seu timbre é único, a guitarra de Robbie nunca grita ou chora, ela balbucia, ela sussurra, enfeitiça.

Dr. John vem com seu boogie de Orleans e a coisa pega mesmo é com os Staples. A voz daquele negro velho, como um anjo de bondade... é pra chorar de alegria.
Mas tem mais. Tem Joni Mitchell. Joni fez música com Charles Mingus. A música que ela canta é um pop-jazz absurdo : pura delícia, pura genialidade. É tudo aquilo que o Style Council tentou fazer e nunca conseguiu. O tempo foi bom para Neil Diamond. Na época do show ele era a carta fora do baralho. O brega. Ouvindo-o hoje eu o sinto como um baladeiro maravilhoso ! E que voz ! Aliás, este show é uma aula de vocais.
E vem Van Morrison. Um pequeno elfo desajeitado. Soltando aquele vozeirão e dando chutes no ar. E tudo explode quando Muddy Waters traz o voodoo do Mississipi e manda Mannish Boy. Caraca!!!!! Que do cacete ! Que voz, que momento histórico, que tesão inigualável !
E ainda tem Neil Young, que parece realmente comovido por estar lá ( quantos canadenses ! Young, Joni, Hawkins e a Band ).
E no final, ele : Bob Dylan, o cara.
Aqui um adendo :
Em 1966 Dylan ia morrer. Anfetaminas demais. Mas ele sofre um acidente de moto sério que o faz convalescer com seus amigos em Woodstock, numa casa de fazenda, a tal BIG PINK. Nessa casa, eles andam, cavalgam, e cantam no porão. Dylan renasce. Os caras que moravam na BIG PINK eram Robbie Robertson, Rick Danko, Levon Helm, Garth Hudson e Richard Manuel : THE BAND. Dylan sai de lá com o disco THE BASEMENT TAPES e a Band com seu primeiro disco, MUSIC FROM THE BIG PINK, uma das mais belas coisas já gravadas.
Voltando... eis Dylan no palco e eis como é Bob com The Band. Dylan rí !!!!!!! E milagre : até diz thank you após os aplausos ! Ele está totalmente em casa, os caras são os únicos que se casaram com Dylan. Foi com eles que Dylan enfeitiçou a Inglaterra em 1965.
Todos voltam ao palco e vemos Neil Young, Van Morrison, Clapton e agora Ringo Starr com Ron Wood fazendo backing vocals para Bob Dylan. Mas vemos todos homenageando THE BAND. Inclusive Scorsese.
Mas apesar de todos esses convidados, o melhor é a própria banda. Rick toca baixo como se fosse da Motown e canta com imensa paixão. Levon é O baterista. Sua batera é básica, mas que riquesa em pratos e em ritmo, e que voz rascante, rouca, do pântano ( Levon Helm é o único americano ). Há ainda o teclado de Richard, que cantava em falsete e que morreu em 87 de heroína... e Garth, o pacato e sério Garth, que conta a real, que o "lance deles era ficar na BIG PINK, pintando uma porta, arrumando uma janela, pescando...que essa coisa de rocknroll, de celebridade torna a música impossível...." um belo momento pego pelo microfone de Martin.
Se houver um céu para onde os amantes do rock vão, com certeza Garth, Rick, Robbie, Richard e Levon estarão no portão nos esperando. São a coisa mais nobre do pop, a total honestidade de carreira e de filosofia. Fizeram discos que trazem para sempre a luz do fim do túnel, a flor no asfalto, o sorriso no abismo.
Assim como os Stones são o sexo do rock e os Beatles são o cérebro, The Band é o coração. THE LAST WALTZ maravilhosamente filmado por Scorsese com a mesma equipe de TAXI DRIVER é digna homenagem a quem a merece.
Um toque : Faltou Gram Parsons. Não tivesse morrido em 73, o maravilhoso Parsons estaria naquele palco. Mas a musa de Gram, Emmylou Harris cantou com a Band... lindo !
A foto famosa dos Beatles de 68, todos de preto, barbas e chapéus, é uma citação deles ao novo grupo que surgia : The Band....
Apesar de assinar Tony Roxy e de o Roxy Music ser a banda que mais gostei na vida, é na The Band que me vejo. Se eu pudesse voltar a vida e pudesse escolher, eu não queria ser Bergman e nem Fellini, não queria estar na guitarra dos Stones e nem no vocal do Led Zeppelin... eu queria segurar as baquetas de THE BAND e tocar CHEST FEVER....
É isso!

BONS COSTUMES/ PETER SELLERS/ DAVID LEAN/ SEMPRE AO SEU LADO

BONS COSTUMES de Stephan Elliott com Colin Firth, Kristin Scott Thomas e Jessica Biel
Texto de Noel Coward e música de Cole Porter. Comentei este filme algum tempo atrás e só agora ele entra em cartaz. Como os nomes de Noel e Porter deixam perceber, é o tipo de diversão chic e civilizada que está totalmente fora de moda. Este filme requer bom gosto e leveza de humor. Adorei ! Então eu tenho bom gosto e humor ? Sei lá... o filme é uma delícia fútil. Existe algum filme ruim feito por Colin Firth ? Ele é ótimo. Nota 7.
AEROPORTO de George Seaton com Burt Lancaster, Dean Martin, Jean Seberg e Jacqueline Bisset
Foi contra este tipo de filme que a nova-Hollywood se ergueu por entre carreiras de pó, barbas e filmes de Antonioni. Eles bateram forte neste mastodonte. Seu sucesso os irritava. Alguém tem coragem de agredir Peter Jackson e James Cameron ? Aeroporto é mais velho que novela das seis. Mas prende a atenção, afinal, todos gostamos de desastres e de ver gente ter medo. Nota 5.
NOITE SEM FIM de Sidney Gilliat com Hayley Mills, Hywell Bennet e Britt Ekland
Uma coisa horrenda ! Baseado em Agatha Christie, o filme não tem nada da dama inglesa. Desprovido de suspense, de estilo e de humor. O elenco é horrendo, a direção banal. Curiosidade : Britt Ekland, atriz sueca que acabou com o pouco equilíbrio que havia em Peter Sellers e que depois transformou Rod Stewart num babaca. Nota 1.
ASSASSINATO NUM DIA DE SOL de Guy Hamilton com Peter Ustinov, Jane Birkin, Maggie Smith e Colin Blakely
Outro baseado em Agatha. Mas este é ok. Bem produzido, bem fotografado, bons atores e toques de humor e crueldade. Um filme indicado para madrugadas de vinho e queijo. Nota 7.
A FILHA DE RYAN de David Lean com Sarah Miles, Robert Mitchum, Trevor Howard
Se Spielberg pudesse nascer de novo ele gostaria de nascer David Lean. O rei do bom gosto, o diretor que melhor sabia usar a tela grande, o perfeccionista. Lean tem todas as qualidades de Spielberg e nenhum de seus defeitos : David Lean nunca é piegas. Ryan é seu maior fracasso e quase destruiu sua carreira. Mas é um belo filme ! A Irlanda nunca foi melhor fotografada e o filme é vasto painel de um mundo desaparecido. Nota 7.
A PANTERA COR DE ROSA de Blake Edwards com David Niven, Peter Sellers, Claudia Cardinale e Robert Wagner
O filme que originou Clouseau. Mas ele não é o centro do filme. Há romance demais e Peter Sellers de menos. Ficamos torcendo para que ele surja logo na tela. Acaba sendo um filme xoxo com alguns bons momentos. Sellers foi um gênio. E que ano estupendo foi esse para Claudia !!! Em 1963 ela esteve neste filme, em OITO E MEIO de Fellini e em O LEOPARDO de Visconti !! Nota 5.
UM TIRO NO ESCURO de Blake Edwards com Peter Sellers, Elke Sommers, George Sanders e Herbert Lom
O segundo da série. Há milênios atrás, este foi o filme que me fez começar a gostar de filmes "velhos". É minha comédia favorita de todos os tempos, mas isso não quer dizer que eu a ache a melhor. Tenho uma relação afetiva com todas as falas e cenas deste filme. Ele é como meu paraíso pessoal. Encontramos Sellers em seu auge. Clouseau é criação de gênio. Mas é aqui também que nasce seu ajudante sempre sério ( Dudu ), o criado Kato e principalmente o comissário Dreyfuss, impagável na pele de Lom ( ele só não rouba o filme porque tem de disputar com Sellers ). É uma comédia que cresce cada vez mais, vai se tornando mais e mais veloz e termina já dando saudade. Aconselho a que os muito jovens não o assistam. Nota DEZ.
RAN de Akira Kurosawa
Quando o cego larga sua flauta e se aproxima do abismo percebemos que a arte do cinema pode ser tão nobre quanto a melhor literatura. Jamais vi filme com fotografia tão linda e raras vezes assisti obra com tal alcance. Um dos segredos de Kurosawa ( são vários ) é sua modéstia. Ele filma épicos gigantescos como quem faz um filme B. Tudo parece direto, sem complicações. RAN é inesquecível. Pretender conhecer cinema e não penetrar em RAN é nada saber. Nota .........
KAGEMUSHA de Akira Kurosawa
Aqui o mestre se perde. A trilha sonora lembra John Willians, o roteiro tem sérios problemas e o filme desmorona todo o tempo. Em que pese a maestria de Kurosawa em filmar batalhas, o filme é o pior de sua grande carreira. Nota 4.
COWBOYS DO ESPAÇO de Clint Eastwood com Ele, Tommy Lee Jones, Donald Sutherland e James Garner
Clint sempre fez dois tipos de filmes : Hawks e Hustons. Este é Hawks. Amizade masculina é o tema central. Quem tem amigos antigos vai adorar o filme. É um RIGHT STUFF ( OS ELEITOS ) caipira. Uma delícia, sem a menor pretensão, com um elenco cheio de carisma e muito bem levado pelo impagável Clint. Humor e aventura, quem quer mais ? Nota 7.
UM CASAMENTO PERFEITO de Eric Rhomer
Rhomer diz fazer documentários sobre o rosto humano. Note : seus filmes são sempre felizes. É por isso que gosto deles ( apesar do desleixo e do fato de que ele não sabe dirigir atores. ) são leves, esvoaçantes, simples, banais. As pessoas falam e falam e falam. E tudo o que fazem é... falar mais. Como todos nós. Para esse tipo de filme funcionar é vital que nos apaixonemos pelos personagens. Isso não acontece desta vez. Nota 4.
SEMPRE AO SEU LADO de Lasse Hallstrom com Richard Gere e Joan Allen
Hallstrom... em 1985 ele chamou atenção mundial com VIDA DE CACHORRO, um dos mais bonitos retratos da infância já filmados. Depois veio a América e GILBERT GRAPE, CHOCOLATE.... virou um bom fazedor de filmes para mocinhas. A poesia de seu primeiro sucesso se perdeu. Filmes de cachorro.... espero que um dia façam a obra-prima dos filmes de cachorro. Não foi este. Sua primeira metade é banal. Mas a segunda, bem... é um dos filmes mais tristes que já assisti ! Não deixem as crianças assistirem. Ao contrário de outros filmes de pets, este tem lágrimas mas não tem final feliz. Eu chorei pra caramba !!!!!! Mas é pura manipulação, minhas lágrimas são pelo cão sofredor, não pelo filme. Que apelação !!!!!!!!! Nota 4.
PAULO FRANCIS
Assistam de joelhos ou joguem tomates na tela, mas assistam. Um mundo sem Francis não tem tempero e a geração que não o conheceu nem imagina o que significa ser provocado por Paulo Francis. Ele era um provocador, mas com conhecimento de causa, com história, com argumentos. Foi o cara que me fez procurar livros de Waugh, Greene e Huxley; foi o cara que me abriu os olhos para Gielgud, Olivier e Rex Harrison e que me fez desconfiar para sempre de modas e opiniões moderninhas. Ele era sincero. Faz uma falta do caramba !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

GAROTOS INCRÍVEIS - MICHAEL CHABON

Quem me conhece sabe de minha paixão pelo filme de Curtis Hanson baseado neste livro. A comparação do livro, que lí somente agora, com o filme, que já vi 4 vezes, serve para clarear os limites do cinema e fazer pensar em como deve ser cruel adaptar um livro tão bom.
Chabon, autor jovem, é das coisas mais "quentes" das atuais letras americanas. Já ganhou Pulitzer e consegue unir erudição com popicidade. Este é seu segundo livro e fala de um final de semana na vida em crise de um professor/escritor que não consegue parar de aumentar seu prometido novo livro : WONDER BOYS.
O livro é muito mais amargo que o filme. O editor gay, feito no filme por Robert Downey Jr com simpatia ( aliás o grande limite a Downey como ator é que ele não consegue deixar de ser simpático ) é um nada simpático e afetadíssimo, falso e maldoso homossexual no livro. Assim como James Leer, o garoto prodígio, é um suicida sensível, que tem na mão uma tatuagem onde se lê FRANK CAPRA ( a tattoo sumiu nas telas ). As alusões ao cinema dos anos 30 são constantes no livro. Fala-se da beleza arrebatadora do jovem Henry Fonda e dos atores que se mataram. Mas o livro e o filme se desencontram de vez mais a frente...
A aluna Hannah, que no filme é mera sombra, no livro é uma paixão do professor. Ela o assombra todo o tempo com suas tentativas de sedução, às quais ele resiste. Em compensação, Sara, a esposa do reitor e mãe do futuro filho do protagonista, é aqui coadjuvante. No filme ela aparece mais.
O miolo do romance é uma visita a casa da ex-esposa do professor, onde a família dela comemora a páscoa judaica. São as melhores páginas do livro e trágicamente no filme desapareceram sem deixar o menor rastro. Aliás não é só a quase pedofilia do autor com sua aluna que foi eliminada, toda alusão ao judaísmo também.
Como no filme, a vida do professor gira ao redor da maconha. No livro a coisa é bem mais pesada, seu vício é total. Nada há de cômico na erva, ele fuma por estar em crise e saber que seu livro é um lixo. A crise é absoluta. No fim ele perde tudo, carreira, aluna, carro, amigo, aluno. Mas o livro emociona com um dos melhores finais da década. As últimas páginas deste romance sobre a crise são de maravilhosa beleza. Um otimismo real aparece, uma paz possível.
Chabon escreve bem. Ele é fácil de ler, mas jamais é superficial; ele é pop sem fazer gracinhas. Consegue criar um personagem apaixonante ( Grady Tripp, o professor. No filme feito com inspiração por um carismático Michael Douglas ) para quem torcemos todo o tempo. Sua trajetória através desse louquíssimo final de semana é cômica, trágica, heróica e patética.
GAROTOS INCRÍVEIS é livro que faz com que a fé na literatura permaneça. Diversão soberba e escrita perfeita.
Um adendo : Como deve ter sido triste ao autor do roteiro ( premiado ) eliminar capítulos inteiros, cenas que poderiam render tanto na tela, diminuir personagens, cortar falas, abreviar desastres e passar sobre rostos e vozes. Penso em tantos livros destruídos no cinema, livros como MORRO DOS VENTOS UIVANTES que sempre deu filmes péssimos, ou ANNA KARENINA livro monumento que na tela vira uma novelinha frágil. Em compensação penso em David Lean, que filmou OLIVER TWIST e GRANDES ESPERANÇAS e conseguiu fazer dos dois livros filmes geniais. GAROTOS INCRÍVEIS o filme, está mais para GRANDES ESPERANÇAS que para ANNA KARENINA, Curtis Hanson sobreviveu a transposição.
Mas o livro é ainda melhor que o filme. Mais profundo, mais engraçado e muito mais febril. O cinema tem limites claros, e o tempo é o mais óbvio.
Faço aqui uma campanha : Peguem o que sobrou do livro e produzam mais um filme ! Please !

CINEMA DE CRIANÇA

O cinema dos anos 70 foi o cinema da droga. Mais especificamente, da cocaína. Os filmes ( os que marcaram a época ) são todos testemunhos da euforia, da paranóia e da deprê do pó branco. Cheirava-se muito, demais, era um absurdo. Atores, roteiristas, diretores, produtores, todos seguindo uma longa carreira rumo a destruição. Gente como Sam Peckimpah, Frankenheimer, Friedkin, Dennis Hopper, Coppolla, com seu caminho truncado para sempre. Os filmes eram desejos de viciados : montes de pó ficavam a disposição nas mesas dos executivos. As coisas tinham de mudar, ou todos morreriam e matariam a indústria.
Produtores como Jon Peters e Joel Silver assumiram o controle nos anos 80 e trouxeram com os anos Reagan a estética gay. É impressionante como todo filme dos 80 tem tiques e trejeitos homo. Rambo é o símbolo maior, boneco bombado gay com enorme falo nas mãos. É a era dos paletós brancos com ombreiras, dos cabelões armados, dos Armani, de Top Gun e dos David Lynch da vida. Nasce Almodovar, Van Sant, Greenaway, Fassbinder vira chic. As mulheres no cinema perdem seu espaço como musas e se tornam más, predadoras, perigosas sem o lado sexy do filme noir. Atração Fatal. As atrizes ficam com um jeito meio assexuado e os homens com ar de academia : suados e de peito nú. Gays.
Nos anos 90 o mundo e o cinema ( e estou falando básicamente de Hollywood. Mesmo quando cito Fassbinder falo de seu impacto em LA ) se tornam adolescentes. Todos os filmes giram ao redor do rompimento/reatamento com o lar. Tudo é adolescência, tudo é feito em torno do conflito com pais ausentes ou o final da escola. Paternidade ( o medo dela ) é tema recorrente e Hollywood abre mão, para sempre, do filme adulto. De Forrest Gump a Titanic, tudo é adolescente, tudo é vida entre 14/18 anos ( mesmo quando já parecem adultos, como em Pulp Fiction ou Magnolia, são velhos teens em crise com sua família ou brincando de matar ). No cinema dos 90 o único interesse é parecer sempre jovem.
Agora, nos anos 2000, retornamos ao mundo da criança. Tudo é fantasia e susto. Tateamos entre a verdade ( nunca aceita ) e a saudade do útero : mundo fechado onde tudo é um grande eu. Neste cinema há a pura infantilidade gaga, até a total negação do mundo adulto. É um cinema que foge do tempo, que tem olhos apenas para o brinquedo, o devaneio, a masturbação mental. O sexo se torna algo a ser evitado, a vida real vira empecilho e tudo passa a ser fantasia. Nas mãos de poetas esse mundo seria digno de Chagall ou de Klee, mas o cinema está nas mãos de banqueiros... É um cinema onde até a neurose é vista como brinquedo, o amor se torna um conto da carochinha e a violência uma brincadeira de bonecos e carrinhos.
Sempre há excessões. Nos 70 Woody Allen não tinha traços de pó branco e Altman expelia perfume de erva; nos 80 Indiana Jones nada tinha de gay e nos 90 havia um cinema americano não adolescente. Mas a linha central, a cara e o rg da década foi teen, assim como de 2000 até 2... ela cheira a fraldas e talco.