Deus está morto! Ao dizer isto eles mesmos ( intelectuais niilistas ) se tornam deuses- deuses enlatados, crânios de paredes grossas e coração frio. O conceito de Deus é simplesmente uma função psicológica necessária, de natureza irracional, que nada tem a ver com a questão de sua existência. A idéia de um ser divino e todo poderoso existe em toda parte. Quando não é consciente torna-se inconsciente- é arquetípico.
Por isso acho mais sábio reconhecer a realidade da idéia de Deus. Caso contrário fica em seu lugar uma outra idéia, uma coisa qualquer, asneira ou bobice total - invenções de consciencias "esclarecidas". Pobres e vazios substitutos, normalmente terminados em "ismo" : catolicismo, comunismo, capitalismo, nazismo, intelectualismo...
O homem tem todo o direito de achar sua razão belíssima. Mas ela é apenas uma faceta de seu psiquismo. E conseguirá entender apenas o que a ela compete: coisas lógicas e racionais. Todo o resto, Deus inclusive, será impossível a seu entendimento.
Tudo existe em seu contrário. Energia ou vida é a interação, conflituosa, de contrários: noite e dia, fogo e água, homem e mulher, razão e irrazão, consciente e inconsciente. Quanto mais racional se torna uma civilização, mais ela se torna fascinada por coisas irracionais ( discos voadores, astrologia, cientologia, viagens no tempo, vampiros, magia negra, religiões de mercado, livros exotéricos, drogas e álcool ), e quanto mais irracional, mais ela se torna refém da razão ( comunismo, nazismo, linhas de montagem, revolução industrial- todas construções racionais em meios regidos por irracionalidades ).
Se o homem tem uma boa relação com seus deuses ele não cai nas malhas de falsos deuses. Falsos deuses são os seres criados pela razão que procuram ocupar esse vazio. Uma religião baseada em preceitos racionais é tão prejudicial quanto uma ciência nascida no irracional. A verdadeira religião é fruto do incompreensível, do mais profundo e imutável caráter humano, daquilo que não tem tempo ou censura, do inconsciente coletivo, é aquilo que fala tanto a um europeu do século xx como a um aborígene de milhares de anos atrás.
Durante milênios o homem possuiu plena fé em deuses. Ele lidava com suas imagens interiores jogando-as para fora. Toda maldade de seu ser era projetado em demônios e todo poder em deuses e anjos. A partir do iluminismo essa crença se rompeu. Mesmo o mais beato dos cristãos passou a conhecer a dúvida. Essa rica coleção de imagens, criadas pelo inconsciente, tornaram-se prisioneiras, passaram a viver dentro do homem, trancafiadas. Jamais morrerão, são parte da vida humana como o fígado ou o reflexo do joelho. Mas o segredo de sua leitura se perdeu.
Ninguém nunca conheceu um demônio. Ou um deus. Mas todos temos essas imagens dentro de nós. Em toda cultura e desde sempre. Porque? Por que eles vivem em nós. Todos somos diabos e anjos, todos somos heróis e carrascos. São símbolos inatos que independem de nossa cultura, de nosso tempo ou de nossa história pessoal. São arquétipos.
Todo Tempo tenta preencher esses arquétipos com pessoas reais. Pessoas que cruzam o rio e se tornam mitos. Jesus Cristo é o maior desses mitos. Mas existem outros. Julio César, Napoleão, Da Vinci, Ghandi, Buda, Maomé, Alexandre, São Paulo... o que pergunto é: que mitos criamos hoje que nos ajudam a lidar com esses arquétipos? Qual a qualidade transcendental dos mitos de agora? Algum mito do século nos ajuda a caminhar entre a fronteira da vida/morte, consciente/inconsciente?
Há assunto mais fascinante?
UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA- MIA COUTO
Renascimento. Cruza-se um rio e do outro lado desse rio há um morto. Deve-se enterrar esse avô que não quer e não pode ser enterrado. Mas esse morto não está morto e na verdade na Ilha que existe nessa outra margem tudo é vivo.
Nesse mundo tudo ainda é um sentido e nessa Ilha toda pessoa é uma história impar. O narrador cruza esse rio e adentra a terra em que nasceu, e reencontra sua familia inteira e resgata os absurdos que dão sentido e dão vida a sua vida. Água e terra.
Penetra-se num mundo onde tudo é sonho e a realidade fertiliza-se em sentidos multiplicados. Cai-me às mãos à hora certa este livro, simples e entontecedor. Dica de amigo e que agora resolvo ler.
O avô que morre é o planeta que agoniza? A casa da origem é a Africa que se apodrece, que envelhece antes de nascer? A terra seca que vira pedra, as pessoas são orfãos que nunca tiveram lar para ter saudade, tudo é morte e ruína, mas o avô, meio morto, ensina ao neto as artes de ver e conhecer. E nós leitores, o que lemos é prenhe de imagens.
O final é uma árvore. E o rio que é o tempo que passa.
Para nós, filhos de ibéricos com acentos afros, raça que é celta, é árabe, é indígena e é escrava, o estilo de Mia Couto é como canção de ninar: familiar e cheia de sonhos nitidos. Para saxões ou francos parecerá exótico, para nós é cantiga. Uma escrita gorda de significados, de deuses e de inconsciencias coletivas, e simples como rio e como noite escura. Couve refogada e feijão branco com bucho. Uma escrita tão torta como fado e tão significante quanto tambor.
Cruza-se uma fronteira e vive-se um renascimento. Avô e tias e tios e gente da aldeia. Dores e raivas e paixões que nunca morrem. Obrigado pela dica. O moçambicano é um escritor que tem muito a dizer.
Nesse mundo tudo ainda é um sentido e nessa Ilha toda pessoa é uma história impar. O narrador cruza esse rio e adentra a terra em que nasceu, e reencontra sua familia inteira e resgata os absurdos que dão sentido e dão vida a sua vida. Água e terra.
Penetra-se num mundo onde tudo é sonho e a realidade fertiliza-se em sentidos multiplicados. Cai-me às mãos à hora certa este livro, simples e entontecedor. Dica de amigo e que agora resolvo ler.
O avô que morre é o planeta que agoniza? A casa da origem é a Africa que se apodrece, que envelhece antes de nascer? A terra seca que vira pedra, as pessoas são orfãos que nunca tiveram lar para ter saudade, tudo é morte e ruína, mas o avô, meio morto, ensina ao neto as artes de ver e conhecer. E nós leitores, o que lemos é prenhe de imagens.
O final é uma árvore. E o rio que é o tempo que passa.
Para nós, filhos de ibéricos com acentos afros, raça que é celta, é árabe, é indígena e é escrava, o estilo de Mia Couto é como canção de ninar: familiar e cheia de sonhos nitidos. Para saxões ou francos parecerá exótico, para nós é cantiga. Uma escrita gorda de significados, de deuses e de inconsciencias coletivas, e simples como rio e como noite escura. Couve refogada e feijão branco com bucho. Uma escrita tão torta como fado e tão significante quanto tambor.
Cruza-se uma fronteira e vive-se um renascimento. Avô e tias e tios e gente da aldeia. Dores e raivas e paixões que nunca morrem. Obrigado pela dica. O moçambicano é um escritor que tem muito a dizer.
O DISCURSO DO REI- TOM HOOPER ( E GEOFFREY RUSH + COLIN FIRTH )
No relançamento de VIOLÊNCIA E PAIXÃO de Visconti, o critico da Folha percebeu ao ver esse filme ( genial e contundente ) de 1975, quanto o cinema tem perdido, ano a ano, de ousadia e de profundidade. O cinema atual ( aquele feito de 1995 em diante ) exige quase nada de seu público e em troca dá migalhas de emoções superficiais e bem digestíveis. Dito isso é preciso dizer que todos os candidatos a melhor filme neste ano me decepcionaram. Eles variam dos muito falsos aos absolutamente banais. Este filme profundamente inglês é de todos eles o mais conservador, e não por acidente, aquele que dá o maior prazer.
Na relação do terapeuta de voz com um rei gago, há reflexos da relação de um psicólogo com seu paciente, de um padre com seu fiel e até de um artista com sua arte. O filme, longe de ser genial, mas digno e repleto de momentos radiantes, tem pelo menos uma cena maravilhosa: aquela em que o rei fala de sua relação com pai e irmão e se abre pela primeira vez. Vemos alí o milagre que existe no trabalho de um grande ator com um grande papel ( e sendo instigado por outro grande ator ). Colin Firth, ator que admiro desde 1994, ator que sempre cito e que meus amigos mal davam bola, ator que já fora genial em seu Darcy, que fora excelente até em filmes simples como Simplesmente Amor ou Mamma Mia, faz com voz e face uma sinfonia de dor. Mas Firth mostra a dor como peça de ourivesaria, esse ator completo consegue mostrar a dor em surdina, uma dor discreta, doída, gotejante, inconsciente. Geoffrey Rush o acompanha a altura. O seu tipo, um ator frustrado que ajuda os outros a ter voz, tem fragilidade e loucura, alegria e melancolia. O filme nos dá a dádiva de os poder admirar. ( E ainda tem Derek Jacobi, Anthony Andrews e Helena Bonham-Carter, todos maravilhosos. E em discreta passagem, a grande e fulgurante Claire Bloom ).
Tom Hooper, diretor do muito bom Malditos United ( critica escrita e catalogada por aí ), dirige com segurança, mas sem grande ousadia. Visualmente o filme se parece com tv. Tudo é pequeno e em close. É um filme deste tempo: pequeno. Mas os atores e o bom texto o levam para o alto. Conseguem me fazer recordar essa coisa chamada "cinema inglês". O que é o cinema inglês típico?
Recordo de O MENSAGEIRO. Foi o primeiro filme tipicamente inglês que ví. Aos 15 anos. O filme tipico inglês tem sempre excelentes atores. Dos protagonistas até o porteiro da mansão em seu papel sem falas, todos são perfeitos. Têm voz, sabem usar o olhar e conseguem parecer elegantes com roupas de operário ou à vontade de fraque e cartola. Nesse tipo de filme sempre há uma cena de chuva, de neblina e as bocas exalam vapor. As falas são ditas com cuidado, sem pressa, com gosto. Chá e táxis ( ou charretes ) e casas velhas mofadas. A fotografia é sempre amarelada, com raios de sol caindo entre folhas. E todos eles, sem excessão, propagam amor aos seus atores. Fernanda Montenegro sempre diz que todo ator inglês é genial. São pessoas que crescem declamando Shakespeare, lendo Dickens e Jane Austen, tendo uma tradição de segurança e autoridade nos palcos que vai de John Gielgud a Peter O'Toole, passando por Olivier, todos os Redgraves, Day-Lewis, Jeremy Irons, Richard Burton, Rex Harrison, James Mason, e mais uma lista infinita que engloba Helen Mirren e Judi Dench, Julie Christie e Vivien Leigh. Com Colin Firth e Geoffrey Rush, essa tradição ( que eles amam ) fica viva e bem representada. ( Rush é australiano. Mas caso voce não saiba, a Australia tem uma das mais ricas tradições "anglófilas" em teatro. Desde a época de Peter Finch. )
Voltando a este bom filme.
O que se passa com a monarquia? É o segundo filme em pouco tempo ( o outro é A RAINHA, magnífico ) a exaltar a figura do monarca. Me parece que a Inglaterra, adivinhando sua inerente irrelevância futura, começa, felizmente, a dar o justo valor a Elizabeth, George e Vitória. Símbolos de toda uma nação, de uma opção, de um modo de ser e de estar no mundo. Quando a monarquia inglesa se for, mesmo tendo tido Henriques, Eduardos e Charles medíocres, teremos a noção clara do que toda aquela aparente inutilidade queria dizer e assegurar.
Há uma cena perto do fim do filme que me emocionou profundamente. É uma fala do rei George, ao som do Quinto concerto para piano de Beethoven. Nessa cena há algo de doloroso, de constatação de fim, de glorioso e decadente. É cena para se rever e rever.
Antítese do filme do sempre oportuno ( oportunista? ) Fincher, este filme perderá seus prêmios Oscar para a tal rede. Mas se Colin perder, mesmo que seja para Jeff Bridges, haverá uma injustiça Richard Burtoniana na noite. O que ele faz neste papel me recordou Michael Redgrave. Não é pouco.
Na relação do terapeuta de voz com um rei gago, há reflexos da relação de um psicólogo com seu paciente, de um padre com seu fiel e até de um artista com sua arte. O filme, longe de ser genial, mas digno e repleto de momentos radiantes, tem pelo menos uma cena maravilhosa: aquela em que o rei fala de sua relação com pai e irmão e se abre pela primeira vez. Vemos alí o milagre que existe no trabalho de um grande ator com um grande papel ( e sendo instigado por outro grande ator ). Colin Firth, ator que admiro desde 1994, ator que sempre cito e que meus amigos mal davam bola, ator que já fora genial em seu Darcy, que fora excelente até em filmes simples como Simplesmente Amor ou Mamma Mia, faz com voz e face uma sinfonia de dor. Mas Firth mostra a dor como peça de ourivesaria, esse ator completo consegue mostrar a dor em surdina, uma dor discreta, doída, gotejante, inconsciente. Geoffrey Rush o acompanha a altura. O seu tipo, um ator frustrado que ajuda os outros a ter voz, tem fragilidade e loucura, alegria e melancolia. O filme nos dá a dádiva de os poder admirar. ( E ainda tem Derek Jacobi, Anthony Andrews e Helena Bonham-Carter, todos maravilhosos. E em discreta passagem, a grande e fulgurante Claire Bloom ).
Tom Hooper, diretor do muito bom Malditos United ( critica escrita e catalogada por aí ), dirige com segurança, mas sem grande ousadia. Visualmente o filme se parece com tv. Tudo é pequeno e em close. É um filme deste tempo: pequeno. Mas os atores e o bom texto o levam para o alto. Conseguem me fazer recordar essa coisa chamada "cinema inglês". O que é o cinema inglês típico?
Recordo de O MENSAGEIRO. Foi o primeiro filme tipicamente inglês que ví. Aos 15 anos. O filme tipico inglês tem sempre excelentes atores. Dos protagonistas até o porteiro da mansão em seu papel sem falas, todos são perfeitos. Têm voz, sabem usar o olhar e conseguem parecer elegantes com roupas de operário ou à vontade de fraque e cartola. Nesse tipo de filme sempre há uma cena de chuva, de neblina e as bocas exalam vapor. As falas são ditas com cuidado, sem pressa, com gosto. Chá e táxis ( ou charretes ) e casas velhas mofadas. A fotografia é sempre amarelada, com raios de sol caindo entre folhas. E todos eles, sem excessão, propagam amor aos seus atores. Fernanda Montenegro sempre diz que todo ator inglês é genial. São pessoas que crescem declamando Shakespeare, lendo Dickens e Jane Austen, tendo uma tradição de segurança e autoridade nos palcos que vai de John Gielgud a Peter O'Toole, passando por Olivier, todos os Redgraves, Day-Lewis, Jeremy Irons, Richard Burton, Rex Harrison, James Mason, e mais uma lista infinita que engloba Helen Mirren e Judi Dench, Julie Christie e Vivien Leigh. Com Colin Firth e Geoffrey Rush, essa tradição ( que eles amam ) fica viva e bem representada. ( Rush é australiano. Mas caso voce não saiba, a Australia tem uma das mais ricas tradições "anglófilas" em teatro. Desde a época de Peter Finch. )
Voltando a este bom filme.
O que se passa com a monarquia? É o segundo filme em pouco tempo ( o outro é A RAINHA, magnífico ) a exaltar a figura do monarca. Me parece que a Inglaterra, adivinhando sua inerente irrelevância futura, começa, felizmente, a dar o justo valor a Elizabeth, George e Vitória. Símbolos de toda uma nação, de uma opção, de um modo de ser e de estar no mundo. Quando a monarquia inglesa se for, mesmo tendo tido Henriques, Eduardos e Charles medíocres, teremos a noção clara do que toda aquela aparente inutilidade queria dizer e assegurar.
Há uma cena perto do fim do filme que me emocionou profundamente. É uma fala do rei George, ao som do Quinto concerto para piano de Beethoven. Nessa cena há algo de doloroso, de constatação de fim, de glorioso e decadente. É cena para se rever e rever.
Antítese do filme do sempre oportuno ( oportunista? ) Fincher, este filme perderá seus prêmios Oscar para a tal rede. Mas se Colin perder, mesmo que seja para Jeff Bridges, haverá uma injustiça Richard Burtoniana na noite. O que ele faz neste papel me recordou Michael Redgrave. Não é pouco.
PSICOLOGIA DO INCONSCIENTE- CARL GUSTAV JUNG
A ênfase é toda dada a criatividade. Curar uma neurose é dar ao paciente a possibilidade de exercer sua criatividade ( pois neurose nada mais é que o empobrecimento da vida psíquica ). Vem daí a maior crítica às outras correntes psicológicas da época: elas se contentavam com o esclarecimento e o apaziguamento dos sintomas. Interrompiam a cura em terreno seguro, deixavam de procurar a individuação do paciente. Negavam os riscos ( que são imensos ).
Nietzsche, assim como Freud e como o próprio Jung, é um exemplo da neurose pessoal como neurose de sua época. Pois TODO neurótico traz em si a neurose do tempo em que vive. O doente vive na carne e de forma explícita aquilo que toda a sociedade vive de forma velada e não consciente. E uma das mais tristes formas de doença de nosso tempo é a dessacralização das manifestações de Dionisio. Observe como toda energia inconsciente quando liberada pela sociedade ( saudávelmente ) logo vai se enfraquecendo e perdendo todo seu aspecto livre e irracional. Jung cita as religiões pagãs, logo domesticadas pelo cristianismo, mas eu penso então, de forma mais corriqueira, naquilo que o carnaval foi e no que ele é hoje. De alegria e liberdade irrefletida, transforma-se em organização fria e comercial. O mesmo pode ser dito do rock ( onde hoje aquele espírito anárquico e sem sentido? ), das drogas ( que de caminho para o inconsciente se transformaram em via para a alienação ) e do sexo ( a liberdade sexual nos tornou mais felizes? O sexo é um ritual de crescimento ou se tornou apenas uma função fisiológica? ). Todo caráter dionisíaco sempre é desvirtuado, mas, não se engane, é imortal. E se nosso tempo não aceita ou teme sua manifestação, ele surgirá então como doença, depressão, guerra ou a simples banalização do espírito. Espírito que é tudo aquilo que faz a vida valer a pena, e ao mesmo tempo é o que mais tememos. Pois espírito é inconsciente coletivo e insconsciente significa despersonalização, não-controle, esquecimento, significa deixar de ser aquilo que se é, morte de certezas e de crenças, transformação absoluta. Cabe ao terapeuta, com conhecimento responsável de religião e história, antropologia e filosofia, caminhar com o paciente rumo a esse reino indomado e indomável. Sabendo que o inconsciente não será jamais domado, será isto sim, experimentado e aceito. Ao contrário do Freudianismo, Jung não fala jamais em sublimação ou iluminação de trevas, ele fala de humildade perante a psique e de liberação do si-mesmo, seja ele o que for.
Será que vale a pena eu tentar explicar a anima? A serpente? O que significa a mulher? A feminilidade que vive em nós e que é a força que faz a ponte com nosso inconsciente pessoal? O animus, a força masculina que mora nas mulheres, o ideal masculino, símbolo de eterno conflito e de engano? A serpente como ser simbólico que dá a possibilidade de liberdade e ao mesmo tempo de perda absoluta? Não falarei. Leia o livro e tente vivenciar.
Prefiro falar o que sempre acreditei e agora encontro escrito diante de meus olhos. ( O que confirma uma das crenaças junguianas: a de que o inconsciente cria aquilo que nos é real. Esse um dos postulados mais complexos de Jung e dos mais difamados pelos que não o leram ). O que leio é que o sexo é apenas um dos milhares de fatores que formam a psique. Reduzir tudo a pulsão sexual, a sublimação de desejo sexual, é exatamente isso: redução, modo astuto de não encarar a falta de controle, a sombra, a irracionalidade da mente. Sexo é importante, mas não é a única energia. Um mundo com sexo livre e sem tabús seria apenas isso: um mundo de sexo livre e sem tabús. O inconsciente continuaria desconhecido, as neuroses vicejando e a criatividade amordaçada. Na verdade a psique é uma multidão de energias, vivendo com seus opostos, sempre em desequilíbrio, sempre em busca desse equilíbrio. O equilíbrio é impossível, pois seria a morte, mas viver é a busca desse equilíbrio. O começo do conhecimento é reconhecer esse não-controle.
O trabalho do terapeuta não é aplacar a dor, é sim, percorrer com o paciente esse caminho entre conciente e inconsciente, dar acesso as imagens impessoais da mente, fazer com que seja reconhecida a sombra e o horror que vivem dentro de sua mente ( independente de sua vontade ) e dar ao paciente a possibilidade do sim e do não. Sim ao risco de viver, ao encontro com o si-mesmo, criatividade particular e característica única de cada humano.
Para Jung então, arte não é sublimação de nada. Arte é inconsciente, é transformação de código obscuro em comunicação, é mergulho em arcaísmos e sonhos, é possessão. Penso então em Stendhal e seus delirios de amor, em Mozart e seus passeios pelo céu, em Tolstoi e sua procura pelo sublime. Eles não são neuróticos que sublimaram um trauma e o fizeram arte, antes foram homens como eu e voce, mas que conseguiram mergulhar na sombra e de lá voltar com as imagens comuns a todos nós.
Livro fascinante e faiscante, vivo e simples, tem me feito imenso bem, tem me inspirado, vivificado e me dado sonhos límpidos e risonhos. A corrente junguiana é perfeita para aqueles que sentem amor pela busca, pela criação, pelo inesperado e pela viagem mental sem bússola. Reconheço que é um tipo de terapia ineficaz para crianças e homens apressados, mas para quem vive em curiosidade, para os fascinados por arte e filosofia, nada é melhor.
Nietzsche, assim como Freud e como o próprio Jung, é um exemplo da neurose pessoal como neurose de sua época. Pois TODO neurótico traz em si a neurose do tempo em que vive. O doente vive na carne e de forma explícita aquilo que toda a sociedade vive de forma velada e não consciente. E uma das mais tristes formas de doença de nosso tempo é a dessacralização das manifestações de Dionisio. Observe como toda energia inconsciente quando liberada pela sociedade ( saudávelmente ) logo vai se enfraquecendo e perdendo todo seu aspecto livre e irracional. Jung cita as religiões pagãs, logo domesticadas pelo cristianismo, mas eu penso então, de forma mais corriqueira, naquilo que o carnaval foi e no que ele é hoje. De alegria e liberdade irrefletida, transforma-se em organização fria e comercial. O mesmo pode ser dito do rock ( onde hoje aquele espírito anárquico e sem sentido? ), das drogas ( que de caminho para o inconsciente se transformaram em via para a alienação ) e do sexo ( a liberdade sexual nos tornou mais felizes? O sexo é um ritual de crescimento ou se tornou apenas uma função fisiológica? ). Todo caráter dionisíaco sempre é desvirtuado, mas, não se engane, é imortal. E se nosso tempo não aceita ou teme sua manifestação, ele surgirá então como doença, depressão, guerra ou a simples banalização do espírito. Espírito que é tudo aquilo que faz a vida valer a pena, e ao mesmo tempo é o que mais tememos. Pois espírito é inconsciente coletivo e insconsciente significa despersonalização, não-controle, esquecimento, significa deixar de ser aquilo que se é, morte de certezas e de crenças, transformação absoluta. Cabe ao terapeuta, com conhecimento responsável de religião e história, antropologia e filosofia, caminhar com o paciente rumo a esse reino indomado e indomável. Sabendo que o inconsciente não será jamais domado, será isto sim, experimentado e aceito. Ao contrário do Freudianismo, Jung não fala jamais em sublimação ou iluminação de trevas, ele fala de humildade perante a psique e de liberação do si-mesmo, seja ele o que for.
Será que vale a pena eu tentar explicar a anima? A serpente? O que significa a mulher? A feminilidade que vive em nós e que é a força que faz a ponte com nosso inconsciente pessoal? O animus, a força masculina que mora nas mulheres, o ideal masculino, símbolo de eterno conflito e de engano? A serpente como ser simbólico que dá a possibilidade de liberdade e ao mesmo tempo de perda absoluta? Não falarei. Leia o livro e tente vivenciar.
Prefiro falar o que sempre acreditei e agora encontro escrito diante de meus olhos. ( O que confirma uma das crenaças junguianas: a de que o inconsciente cria aquilo que nos é real. Esse um dos postulados mais complexos de Jung e dos mais difamados pelos que não o leram ). O que leio é que o sexo é apenas um dos milhares de fatores que formam a psique. Reduzir tudo a pulsão sexual, a sublimação de desejo sexual, é exatamente isso: redução, modo astuto de não encarar a falta de controle, a sombra, a irracionalidade da mente. Sexo é importante, mas não é a única energia. Um mundo com sexo livre e sem tabús seria apenas isso: um mundo de sexo livre e sem tabús. O inconsciente continuaria desconhecido, as neuroses vicejando e a criatividade amordaçada. Na verdade a psique é uma multidão de energias, vivendo com seus opostos, sempre em desequilíbrio, sempre em busca desse equilíbrio. O equilíbrio é impossível, pois seria a morte, mas viver é a busca desse equilíbrio. O começo do conhecimento é reconhecer esse não-controle.
O trabalho do terapeuta não é aplacar a dor, é sim, percorrer com o paciente esse caminho entre conciente e inconsciente, dar acesso as imagens impessoais da mente, fazer com que seja reconhecida a sombra e o horror que vivem dentro de sua mente ( independente de sua vontade ) e dar ao paciente a possibilidade do sim e do não. Sim ao risco de viver, ao encontro com o si-mesmo, criatividade particular e característica única de cada humano.
Para Jung então, arte não é sublimação de nada. Arte é inconsciente, é transformação de código obscuro em comunicação, é mergulho em arcaísmos e sonhos, é possessão. Penso então em Stendhal e seus delirios de amor, em Mozart e seus passeios pelo céu, em Tolstoi e sua procura pelo sublime. Eles não são neuróticos que sublimaram um trauma e o fizeram arte, antes foram homens como eu e voce, mas que conseguiram mergulhar na sombra e de lá voltar com as imagens comuns a todos nós.
Livro fascinante e faiscante, vivo e simples, tem me feito imenso bem, tem me inspirado, vivificado e me dado sonhos límpidos e risonhos. A corrente junguiana é perfeita para aqueles que sentem amor pela busca, pela criação, pelo inesperado e pela viagem mental sem bússola. Reconheço que é um tipo de terapia ineficaz para crianças e homens apressados, mas para quem vive em curiosidade, para os fascinados por arte e filosofia, nada é melhor.
O EU E O INCONSCIENTE- CARL GUSTAV JUNG
Não é pelas respostas que Jung me fascina. É por suas perguntas. Jung levanta as questões que mais me interessam, dá o passo que Freud temeu dar: além do sexo, fora da razão, o que há?
Me agrada o fato de que ele jamais diz "é assim" ou "com certeza". Jung diz sempre "talvez seja" e "pode ser que". Ele evita brilhantemente ser dono de qualquer verdade. Sua sina é a do caminhante, faz perguntas, procura respostas, mas já avisa de cara que essas respostas são impossíveis, pois são irracionais.
A vida é irracional. Não existe lógica alguma fora de nosso consciente. Nós criamos uma razão para poder viver em sociedade, para contar o tempo, para fazer da vida algo previsível, que funcione. Mas fora de nosso consciente nada é racional e claro, e mesmo dentro de nós há o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo, ambos escuros, sem qualquer lógica, não verbais e pré-históricos. A razão, portanto, não pode explicar a vida.
Longe de mim então, tentar explicar este livro tão instigante. Feito a partir de uma série de seminários de Jung ( anos 30 ), ele descreve com precisão coisas que vivi em minhas crises e certas quase crenças que compartilho com o psicólogo suiço.
Jung fala de persona, de anima, de animus. Usa muito a imagem do inconsciente, seja pessoal, seja coletivo, e mostra que a individuação é o mais alto grau de desenvolvimento que um homem pode atingir. Falando de um modo bastante crú, a persona seria a máscara que nos obrigamos e que nos obrigam a usar. Máscara que se opõe a nosso inconsciente, estância profunda e em eterna revolução, que não cessa nunca de cutucar essa persona. Criamos persona para poder viver em trabalho e para nos defender, o perigo é crer nela. Mas o livro fica melhor quando se fala do medo que todos temos do inconsciente. A sensação de morte, de loucura, que existe ao se mirar esse tipo de fantasma que mora em nós e que não nos reconhece. A neurose como o medo desse tipo de aspecto da mente, o pavor de se perder em seu interior e não poder sair mais, daí então o hiper-controle do neurótico, e o sintoma: toques do inconsciente pessoal, toques sem qualquer razão, energia que se libera.
Todos nós temos momentos de medo ou de crise ao tocar o inconsciente. E é esse momento que nos faz andar. É nessa hora que mergulhamos em imagens e inspirações, em desejos e mudanças. Podemos então crescer ou sucumbir. Me agrada ler que Jung considerava todo neurótico como um ser-humano mais brilhante em potencial, mas que naufragou no medo de seu inconsciente.
O inconsciente pessoal sendo a herança de nossos antepassados genéticos, de pais e tios, país e nação. E o inconsciente coletivo sendo tudo aquilo que carregamos da história da humanidade. Mas veja: não é uma lembrança linear. Não é sequer uma lembrança. São imagens sem texto e sem voz, são símbolos que ficam gravados e se tornam lenda, mitos, religião. Todo inconsciente é religioso porque tudo que é irracional acaba se tornando linguagem religiosa. Conhecer toda religião, compreender seu símbolo e seu ritual é primordial para se tentar entender o inconsciente.
A individuação. O ser se tornando si-mesmo. A saúde plena sendo o homem que se torna aquilo para o qual nasceu. O homem que consegue ir ao inconsciente e retornar: mito de todo herói. O herói que vai ao mar, a floresta, ao castelo e retorna outro, mais velho, mais sábio, inteiro. O ser que se faz si-mesmo descobrindo algo sobre seu inconsciente. Jung usa a imagem de caminhar sobre o fio da navalha.
O que impede essa descoberta é o medo. Medo de se perder, de deixar de ser, de morrer ou enlouquecer. Medo do irracional, medo da vida ( que é mortal e irracional ). Apego a persona como meio de não pensar e não questionar e apego a imagem materna como meio de escapar do inconsciente.
Bela sacada de Jung: não desejamos apenas sexualmente a mãe. O que desejamos é seu consolo contra o medo de viver. Ela nos protege de nossas trevas inconscientes, ela "ilumina" a escuridão. As sociedades primitivas realizavam cerimonias para livrar o menino dessa proteção. Hoje não as há mais. Então o que o homem faz é usar mulheres como proteção. A mulher usada como antídoto contra o perigo, contra o inconsciente, contra a individuação. O homem se infantiliza com essa mulher e nega toda a treva irracional que vive dentro dele.
O pai protege o filho do mundo real. A mãe o salva do mundo simbólico, irracional.
Bem.... há muito mais a dizer, mas deixo aqui apenas um aperitivo sobre esse pensamento que me perturba e me seduz. Jung valoriza o homem original, poético, em conflito. Ele joga fora certezas e máscaras e deixa de lado a facilidade de se explicar tudo por repressão e libido ( a libido junguiana é bem mais complexa ).
Mas não se exaltem, freudianos. Jung aceita várias conquistas de Sigmund. O que ele renega é o fato de Freud não ter seguido adiante, não ter tido a humildade de fazer uma auto-crítica, e de ter se deitado sobre os louros de uma única grande teoria. Freudianismo acabou se tornando um tipo de crença que dá a seu fiel o consolo de crer em guru infalível. Uma coisa automática e sem dúvidas. A racionalização do que nunca é racional.
Jung está longe de ser infalível. Mas nessa disposição ao risco, nesse desequilíbrio e nessa incessante busca pelas questões certas, ele se apresenta como um ser mais artístico, mais músico, muito mais livre. E o principal: suas descrições de crises se casam a perfeição com minhas crises e meus medos. Se em Freud eu preciso me adaptar a suas crenças, com Jung vejo maravilhado a descrição daquilo que eu já sabia.
PS: antes que se pense que individuação seja sinônimo de egoísmo, explico: a individuação, a descoberta do si-mesmo se dá pelo mergulho em seu inconsciente ( e a habilidade de não sucumbir em psicose ou mania ), mas esse si-mesmo só se solidifica no contato com o outro. É impossível se tornar voce mesmo no isolamento. O homem é um ser social, para ser Homem é preciso o outro. Todos compartilhamos esse inconsciente coletivo, essa herança de símbolos ( e é isso que nos faz pensar em vida eterna ), esse inconsciente é sempre igual, seja em que tempo for. Saber que ele não nos pertence é o primeiro passo rumo ao conhecimento. E a humildade.
Me agrada o fato de que ele jamais diz "é assim" ou "com certeza". Jung diz sempre "talvez seja" e "pode ser que". Ele evita brilhantemente ser dono de qualquer verdade. Sua sina é a do caminhante, faz perguntas, procura respostas, mas já avisa de cara que essas respostas são impossíveis, pois são irracionais.
A vida é irracional. Não existe lógica alguma fora de nosso consciente. Nós criamos uma razão para poder viver em sociedade, para contar o tempo, para fazer da vida algo previsível, que funcione. Mas fora de nosso consciente nada é racional e claro, e mesmo dentro de nós há o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo, ambos escuros, sem qualquer lógica, não verbais e pré-históricos. A razão, portanto, não pode explicar a vida.
Longe de mim então, tentar explicar este livro tão instigante. Feito a partir de uma série de seminários de Jung ( anos 30 ), ele descreve com precisão coisas que vivi em minhas crises e certas quase crenças que compartilho com o psicólogo suiço.
Jung fala de persona, de anima, de animus. Usa muito a imagem do inconsciente, seja pessoal, seja coletivo, e mostra que a individuação é o mais alto grau de desenvolvimento que um homem pode atingir. Falando de um modo bastante crú, a persona seria a máscara que nos obrigamos e que nos obrigam a usar. Máscara que se opõe a nosso inconsciente, estância profunda e em eterna revolução, que não cessa nunca de cutucar essa persona. Criamos persona para poder viver em trabalho e para nos defender, o perigo é crer nela. Mas o livro fica melhor quando se fala do medo que todos temos do inconsciente. A sensação de morte, de loucura, que existe ao se mirar esse tipo de fantasma que mora em nós e que não nos reconhece. A neurose como o medo desse tipo de aspecto da mente, o pavor de se perder em seu interior e não poder sair mais, daí então o hiper-controle do neurótico, e o sintoma: toques do inconsciente pessoal, toques sem qualquer razão, energia que se libera.
Todos nós temos momentos de medo ou de crise ao tocar o inconsciente. E é esse momento que nos faz andar. É nessa hora que mergulhamos em imagens e inspirações, em desejos e mudanças. Podemos então crescer ou sucumbir. Me agrada ler que Jung considerava todo neurótico como um ser-humano mais brilhante em potencial, mas que naufragou no medo de seu inconsciente.
O inconsciente pessoal sendo a herança de nossos antepassados genéticos, de pais e tios, país e nação. E o inconsciente coletivo sendo tudo aquilo que carregamos da história da humanidade. Mas veja: não é uma lembrança linear. Não é sequer uma lembrança. São imagens sem texto e sem voz, são símbolos que ficam gravados e se tornam lenda, mitos, religião. Todo inconsciente é religioso porque tudo que é irracional acaba se tornando linguagem religiosa. Conhecer toda religião, compreender seu símbolo e seu ritual é primordial para se tentar entender o inconsciente.
A individuação. O ser se tornando si-mesmo. A saúde plena sendo o homem que se torna aquilo para o qual nasceu. O homem que consegue ir ao inconsciente e retornar: mito de todo herói. O herói que vai ao mar, a floresta, ao castelo e retorna outro, mais velho, mais sábio, inteiro. O ser que se faz si-mesmo descobrindo algo sobre seu inconsciente. Jung usa a imagem de caminhar sobre o fio da navalha.
O que impede essa descoberta é o medo. Medo de se perder, de deixar de ser, de morrer ou enlouquecer. Medo do irracional, medo da vida ( que é mortal e irracional ). Apego a persona como meio de não pensar e não questionar e apego a imagem materna como meio de escapar do inconsciente.
Bela sacada de Jung: não desejamos apenas sexualmente a mãe. O que desejamos é seu consolo contra o medo de viver. Ela nos protege de nossas trevas inconscientes, ela "ilumina" a escuridão. As sociedades primitivas realizavam cerimonias para livrar o menino dessa proteção. Hoje não as há mais. Então o que o homem faz é usar mulheres como proteção. A mulher usada como antídoto contra o perigo, contra o inconsciente, contra a individuação. O homem se infantiliza com essa mulher e nega toda a treva irracional que vive dentro dele.
O pai protege o filho do mundo real. A mãe o salva do mundo simbólico, irracional.
Bem.... há muito mais a dizer, mas deixo aqui apenas um aperitivo sobre esse pensamento que me perturba e me seduz. Jung valoriza o homem original, poético, em conflito. Ele joga fora certezas e máscaras e deixa de lado a facilidade de se explicar tudo por repressão e libido ( a libido junguiana é bem mais complexa ).
Mas não se exaltem, freudianos. Jung aceita várias conquistas de Sigmund. O que ele renega é o fato de Freud não ter seguido adiante, não ter tido a humildade de fazer uma auto-crítica, e de ter se deitado sobre os louros de uma única grande teoria. Freudianismo acabou se tornando um tipo de crença que dá a seu fiel o consolo de crer em guru infalível. Uma coisa automática e sem dúvidas. A racionalização do que nunca é racional.
Jung está longe de ser infalível. Mas nessa disposição ao risco, nesse desequilíbrio e nessa incessante busca pelas questões certas, ele se apresenta como um ser mais artístico, mais músico, muito mais livre. E o principal: suas descrições de crises se casam a perfeição com minhas crises e meus medos. Se em Freud eu preciso me adaptar a suas crenças, com Jung vejo maravilhado a descrição daquilo que eu já sabia.
PS: antes que se pense que individuação seja sinônimo de egoísmo, explico: a individuação, a descoberta do si-mesmo se dá pelo mergulho em seu inconsciente ( e a habilidade de não sucumbir em psicose ou mania ), mas esse si-mesmo só se solidifica no contato com o outro. É impossível se tornar voce mesmo no isolamento. O homem é um ser social, para ser Homem é preciso o outro. Todos compartilhamos esse inconsciente coletivo, essa herança de símbolos ( e é isso que nos faz pensar em vida eterna ), esse inconsciente é sempre igual, seja em que tempo for. Saber que ele não nos pertence é o primeiro passo rumo ao conhecimento. E a humildade.
WOODY/ COPPOLLA/ VISCONTI/ YIMOU/ DE SICA/ HAWKS
VOCE VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS de Woody Allen com Brolin, Banderas, Watts, Hopkins e Jones
Um dos mais amargos filmes de Woody. O filme serve como um lembrete das diferenças do Allen de 1976 e do Woody de 2010. Antes seus filmes eram centrados em politica, pretensões intelectuais e um saudável hedonismo. Hoje ele fala básicamente de dinheiro, poder e ambição. É como se Woody Allen não se sentisse mais a vontade neste mundo, seus filmes parecem tortos, desconfortáveis e pior, eles têm personagens chatos. Essa chatice é sintoma do não-afeto que Allen sente por eles ( neste filme a única excessão é a divorciada "crente". ) Quando vemos qualquer filme dele pré 1998, há um transbordamento de simpatia por seus personagens, ele ama cada um deles. Vendo este filme tenho a impressão de que Allen os abomina. O filme, mais um fiasco, é completamente desinteressante. Nota 3.
O ESTRANGEIRO de Luchino Visconti com Marcello Mastroianni e Anna Karina
Existem livros que são pegos pelo diretor errado. O Estrangeiro de Camus é um livro soberbo e Visconti é um dos mais cultos e talentosos diretores da história. Mas o estilo dos dois não combina. Camus pede um diretor muito mais seco, distante, frio; Visconti é sensível, exagerado, politico. O filme acaba não sendo nem Camus e nem Visconti. Marcello faz o que pode, mas todo o projeto nasceu errado. Nota 4.
UMBERTO D de Vittorio de Sica
Eis o mais triste filme já feito. Acompanhamos o cotidiano de um velho solitário e pobre. O filme é de uma realidade que beira o insuportável. De Sica inclusive nos mostra um velho nada simpático. Nenhuma cena é feita para chorar, nada é bonitinho ou meloso, o velho, sem casa e sem nenhuma esperança tenta se matar, e nesse momento, em que ele desiste do suicidio ao olhar para seu cão ( que nunca é um cão à Disney ), o filme chega a seu limite: nenhum filme me fez sentir tão triste. Ele é de uma tristeza não-poética, é uma melancolia desagradável, de rua quente, de fome e de solidão absoluta. Vittorio de Sica era além de um gênio, um anjo. O nascimento de um diretor como ele hoje ( e bem que os iranianos tentam ) é impossível. Ele crê no homem, ele ama o homem, ele conhece o que é a vida. Nota DEZ.
HATARI! de Howard Hawks com John Wayne e Elsa Martinelli
Um bando de homens recebe, na Africa, a visita de fotógrafa italiana. E é isso: Hawks filma esses homens bebendo, tomando café, caçando animais para zoos e paquerando a garota. Nada de importante acontece. É o misterioso estilo de Hawks, voce fica vendo o nada e se sentindo bem, como se voce fosse um convidado daqueles caras. Quando o filme termina não há nada para se dizer, mas voce se sente um deles. Hawks era ainda mais despretensioso que Ford, seus filmes parecem fáceis de fazer, parecem uma brincadeira. Ninguém nunca brincou tão bem. Não é a toa que todos os diretores o adoram, quem se interessa pela feitura de um filme sabe como é trabalhoso ser tão fácil. Nota DEZ.
O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS de Zhang Yimou
O diretor se empolgou após o excelente Herói e cometeu este filme frouxo. Trata-se de uma aventura que deveria ser empolgante e comovente, ela é fria e muito mal desenvolvida. O romance não nos importa e as lutas se parecem com ensaios. Pior, notamos que os atores não sabem nada de artes marciais. Uma desilusão. Nota 2.
TETRO de Coppolla com Vincent Gallo
Vendo este filme percebemos o quanto o preto e branco nos dá. A foto em P/B é mais densa, o filme se torna irreal e ao mesmo tempo muito mais urgente. Além do que, é chic! Coppolla não perdeu sua genialidade para enquadrar e criar clima, mas, infelizmente, o roteiro ( dele ) é apenas uma muito longa sessão de auto-expiação. Ele vomita dores, mas o que nos interessa aquilo? Tetro não é um personagem interessante, ele nada tem de brilhante, de original, de cativante. É como ser obrigado a assistir um filme bonito sobre um Fiat 174 qualquer. Todos dizem que Tetro é isso, Tetro é aquilo, mas o que vemos é um chato cheio de auto-piedade. De maravilhoso as cenas de filmes de Michael Powell ( nada hoje é mais in que amar Powell. Com justiça, o homem foi um dos maiores. ) Se servir para alguém sentir desejo de assistir um filme de Michael Powell já valeu. Nota 3.
Um dos mais amargos filmes de Woody. O filme serve como um lembrete das diferenças do Allen de 1976 e do Woody de 2010. Antes seus filmes eram centrados em politica, pretensões intelectuais e um saudável hedonismo. Hoje ele fala básicamente de dinheiro, poder e ambição. É como se Woody Allen não se sentisse mais a vontade neste mundo, seus filmes parecem tortos, desconfortáveis e pior, eles têm personagens chatos. Essa chatice é sintoma do não-afeto que Allen sente por eles ( neste filme a única excessão é a divorciada "crente". ) Quando vemos qualquer filme dele pré 1998, há um transbordamento de simpatia por seus personagens, ele ama cada um deles. Vendo este filme tenho a impressão de que Allen os abomina. O filme, mais um fiasco, é completamente desinteressante. Nota 3.
O ESTRANGEIRO de Luchino Visconti com Marcello Mastroianni e Anna Karina
Existem livros que são pegos pelo diretor errado. O Estrangeiro de Camus é um livro soberbo e Visconti é um dos mais cultos e talentosos diretores da história. Mas o estilo dos dois não combina. Camus pede um diretor muito mais seco, distante, frio; Visconti é sensível, exagerado, politico. O filme acaba não sendo nem Camus e nem Visconti. Marcello faz o que pode, mas todo o projeto nasceu errado. Nota 4.
UMBERTO D de Vittorio de Sica
Eis o mais triste filme já feito. Acompanhamos o cotidiano de um velho solitário e pobre. O filme é de uma realidade que beira o insuportável. De Sica inclusive nos mostra um velho nada simpático. Nenhuma cena é feita para chorar, nada é bonitinho ou meloso, o velho, sem casa e sem nenhuma esperança tenta se matar, e nesse momento, em que ele desiste do suicidio ao olhar para seu cão ( que nunca é um cão à Disney ), o filme chega a seu limite: nenhum filme me fez sentir tão triste. Ele é de uma tristeza não-poética, é uma melancolia desagradável, de rua quente, de fome e de solidão absoluta. Vittorio de Sica era além de um gênio, um anjo. O nascimento de um diretor como ele hoje ( e bem que os iranianos tentam ) é impossível. Ele crê no homem, ele ama o homem, ele conhece o que é a vida. Nota DEZ.
HATARI! de Howard Hawks com John Wayne e Elsa Martinelli
Um bando de homens recebe, na Africa, a visita de fotógrafa italiana. E é isso: Hawks filma esses homens bebendo, tomando café, caçando animais para zoos e paquerando a garota. Nada de importante acontece. É o misterioso estilo de Hawks, voce fica vendo o nada e se sentindo bem, como se voce fosse um convidado daqueles caras. Quando o filme termina não há nada para se dizer, mas voce se sente um deles. Hawks era ainda mais despretensioso que Ford, seus filmes parecem fáceis de fazer, parecem uma brincadeira. Ninguém nunca brincou tão bem. Não é a toa que todos os diretores o adoram, quem se interessa pela feitura de um filme sabe como é trabalhoso ser tão fácil. Nota DEZ.
O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS de Zhang Yimou
O diretor se empolgou após o excelente Herói e cometeu este filme frouxo. Trata-se de uma aventura que deveria ser empolgante e comovente, ela é fria e muito mal desenvolvida. O romance não nos importa e as lutas se parecem com ensaios. Pior, notamos que os atores não sabem nada de artes marciais. Uma desilusão. Nota 2.
TETRO de Coppolla com Vincent Gallo
Vendo este filme percebemos o quanto o preto e branco nos dá. A foto em P/B é mais densa, o filme se torna irreal e ao mesmo tempo muito mais urgente. Além do que, é chic! Coppolla não perdeu sua genialidade para enquadrar e criar clima, mas, infelizmente, o roteiro ( dele ) é apenas uma muito longa sessão de auto-expiação. Ele vomita dores, mas o que nos interessa aquilo? Tetro não é um personagem interessante, ele nada tem de brilhante, de original, de cativante. É como ser obrigado a assistir um filme bonito sobre um Fiat 174 qualquer. Todos dizem que Tetro é isso, Tetro é aquilo, mas o que vemos é um chato cheio de auto-piedade. De maravilhoso as cenas de filmes de Michael Powell ( nada hoje é mais in que amar Powell. Com justiça, o homem foi um dos maiores. ) Se servir para alguém sentir desejo de assistir um filme de Michael Powell já valeu. Nota 3.
HERMES E AFINS
O homem só pode criar aquilo que já estava em sua mente. Parece um pensamento fácil, mas pense bem: o que vemos é aquilo que já, e desde sempre, estava em nós. Portanto, é impossível ao homem apreender a realidade. Porque só percebemos o que nossa mente consegue ver/entender/criar. Realidade e irrealidade são conceitos que não fazem sentido.
Criamos palavras para dar vida a coisas. E só o que tem um nome é por nós percebido. Mas no momento em que mesmo as palavras perdem seu motivo primal, em que até elas deixam de significar, toda a vida começa a se tornar sem sentido.
Mulher passa em praça etíope. Ela chora e sente fome. Ela sofre de forma total e irrecuperável. Vendo aquela mulher eu a percebo como parte daquela situação. Por detrás de seu sofrimento há toda uma história. Na sombra de seus ossos moram seus companheiros de dor, sua origem, seu terror, seus cantos e sua crença. Agora. Mulher passa em rua de Veneza. Ela usa óculos escuros e um casaco Prada. Em seu caminhar eu nada vejo. Ela não possui história. Nada significa, a não ser uma imagem/sombra que anda e desaparece. Apesar de não sofrer como a etíope ( será? ), ela é um ser de absoluta solidão. Para ela nada pertence, e ela a nada se dá. As ruas de Veneza são indiferentes a sua passagem.
É tudo uma crença. Voce cria aquilo em que acreditar. O problema é quando não se acredita na vida. O inconsciente cria sem parar, cria independente de tempo ou de espaço. Ele prepara o mundo e cria a vida. Nele mora aquilo que chamamos de Deus. Mas há mais:
Todo arquétipo vive nele e arquétipo é Deus. Deuses que tememos olhar, todos eles, de todos os tempos, alguns sem nome. De Dionisio a Odin, de Xangô a Krishna, milhões de seres que criam a terra, que criam a história e que influenciam a vida de todos, criando acidentes, lembranças, sinais. Símbolos que simbolizam aquilo que faz a vida. Símbolos que são tudo aquilo inominado. Deuses que são imortais, que sempre estão presentes, que nos guiam. Saber falar com eles, entender suas mensagens, eis o que é a vida plena.
Nossa vida não é nossa. Nossa mente não é nossa. O que eu sou não sou eu ( tudo o que tento controlar é minha máscara, raiz de minha doença e de minha cegueira ). Porque eu sinto, quando tenho a coragem de me isolar do mundo, ou quando estou tomado pelo amor profundo, ou pelo mais violento ódio, eu sinto que há algo sem nome em mim, algo que vive em meus joelhos, que pensa em meu fígado, que respira pelos meus pés. Eu sinto que há uma vida fora de mim, me cercando, me sussurrando, muda, incompreensível. Sinto que esse eu não é Paulo e não é Tony. Nem homem ele é. Rio que flui, raio que brilha ou pássaro que pousa. Sinto que esse ser é o que é. Inominável. E que ele pode me matar, me enlouquecer, ou dar sentido a vida.
Cada um de nós deve fechar-se em seu abrigo. E mergulhar nesse rio. Porque para salvar o mundo é preciso salvar voce. Individualismo? Cada rio é rio que pertence ao mundo. Iluminar esse rio é iluminar o mundo.
O Oriente ( India e China ) sairá de seu mundo passivo/interior/feminino e se descobrirá ativo. Cabe ao Ocidente a sabedoria de sair de cena e retornar a sua vida passiva/feminina/interior. É preciso que o Oriente se ative e que o Ocidente se recolha em sí. Os símbolos do ocidente precisam ser iluminados.
No Novo México existe um povo ( ainda hoje ) chamado "Pueblo". O chefe diz que os brancos não deveriam acabar com eles. Pois são eles que fazem o sol nascer. Toda manhã eles ajudam o sol a se erguer. Quando eles se forem, será sempre noite. O que pensar? Pode haver povo mais feliz que um povo que crê ser responsável pelo sol? Somos responsáveis por alguma coisa natural? E mais: um povo que acredita ser forte como o sol, que se une ao sol todo dia, que se pensa como um igual ao sol, torna-se ele mesmo, sol.
Sincronicamente captamos no rio do inconsciente mensagens que unem pessoas afim. E de repente me pego falando aquilo que voce queria dizer. E um artista-poeta consegue ser voz de todo um grupo disperso. E vorazes homens de aço começam a devorar o mundo ao mesmo tempo. E eu encontro voce e ouço sua voz e já te conheço. E falo o que voce fala e ouço o que eu queria ouvir. Pegamos do rio a mesma coisa, eu e voce. Alguns pegam a morte, outros a dor. A maioria nem sabe que o rio existe.
Sabendo ou não sabendo, chamando-o ou não, Deus está lá.
Sua ânsia é ansia de rio. Voce se droga para tentar chegar lá. Voce vai a igreja para tentar chegar lá. Pula em baladas futeis, grita em show de rock, paga terapias, engole pilulas. Voce tenta encontar voce. Tenta ver Apolo ou Eros ou Jesus. Não sabe que voce não é, pois na verdade voce está.
Agora, enquanto escrevo isto, sou um velho de 99 anos da Mongólia. Uma hora atrás eu fui um Bem-Te-Vi numa árvore. E acordei cachorro hoje. E saiba, se quando voce me ver eu estiver Tony Roxy ou Paulo Mané... não sou eu, é a persona que criei.
Há tanta coisa pra aprender......
Criamos palavras para dar vida a coisas. E só o que tem um nome é por nós percebido. Mas no momento em que mesmo as palavras perdem seu motivo primal, em que até elas deixam de significar, toda a vida começa a se tornar sem sentido.
Mulher passa em praça etíope. Ela chora e sente fome. Ela sofre de forma total e irrecuperável. Vendo aquela mulher eu a percebo como parte daquela situação. Por detrás de seu sofrimento há toda uma história. Na sombra de seus ossos moram seus companheiros de dor, sua origem, seu terror, seus cantos e sua crença. Agora. Mulher passa em rua de Veneza. Ela usa óculos escuros e um casaco Prada. Em seu caminhar eu nada vejo. Ela não possui história. Nada significa, a não ser uma imagem/sombra que anda e desaparece. Apesar de não sofrer como a etíope ( será? ), ela é um ser de absoluta solidão. Para ela nada pertence, e ela a nada se dá. As ruas de Veneza são indiferentes a sua passagem.
É tudo uma crença. Voce cria aquilo em que acreditar. O problema é quando não se acredita na vida. O inconsciente cria sem parar, cria independente de tempo ou de espaço. Ele prepara o mundo e cria a vida. Nele mora aquilo que chamamos de Deus. Mas há mais:
Todo arquétipo vive nele e arquétipo é Deus. Deuses que tememos olhar, todos eles, de todos os tempos, alguns sem nome. De Dionisio a Odin, de Xangô a Krishna, milhões de seres que criam a terra, que criam a história e que influenciam a vida de todos, criando acidentes, lembranças, sinais. Símbolos que simbolizam aquilo que faz a vida. Símbolos que são tudo aquilo inominado. Deuses que são imortais, que sempre estão presentes, que nos guiam. Saber falar com eles, entender suas mensagens, eis o que é a vida plena.
Nossa vida não é nossa. Nossa mente não é nossa. O que eu sou não sou eu ( tudo o que tento controlar é minha máscara, raiz de minha doença e de minha cegueira ). Porque eu sinto, quando tenho a coragem de me isolar do mundo, ou quando estou tomado pelo amor profundo, ou pelo mais violento ódio, eu sinto que há algo sem nome em mim, algo que vive em meus joelhos, que pensa em meu fígado, que respira pelos meus pés. Eu sinto que há uma vida fora de mim, me cercando, me sussurrando, muda, incompreensível. Sinto que esse eu não é Paulo e não é Tony. Nem homem ele é. Rio que flui, raio que brilha ou pássaro que pousa. Sinto que esse ser é o que é. Inominável. E que ele pode me matar, me enlouquecer, ou dar sentido a vida.
Cada um de nós deve fechar-se em seu abrigo. E mergulhar nesse rio. Porque para salvar o mundo é preciso salvar voce. Individualismo? Cada rio é rio que pertence ao mundo. Iluminar esse rio é iluminar o mundo.
O Oriente ( India e China ) sairá de seu mundo passivo/interior/feminino e se descobrirá ativo. Cabe ao Ocidente a sabedoria de sair de cena e retornar a sua vida passiva/feminina/interior. É preciso que o Oriente se ative e que o Ocidente se recolha em sí. Os símbolos do ocidente precisam ser iluminados.
No Novo México existe um povo ( ainda hoje ) chamado "Pueblo". O chefe diz que os brancos não deveriam acabar com eles. Pois são eles que fazem o sol nascer. Toda manhã eles ajudam o sol a se erguer. Quando eles se forem, será sempre noite. O que pensar? Pode haver povo mais feliz que um povo que crê ser responsável pelo sol? Somos responsáveis por alguma coisa natural? E mais: um povo que acredita ser forte como o sol, que se une ao sol todo dia, que se pensa como um igual ao sol, torna-se ele mesmo, sol.
Sincronicamente captamos no rio do inconsciente mensagens que unem pessoas afim. E de repente me pego falando aquilo que voce queria dizer. E um artista-poeta consegue ser voz de todo um grupo disperso. E vorazes homens de aço começam a devorar o mundo ao mesmo tempo. E eu encontro voce e ouço sua voz e já te conheço. E falo o que voce fala e ouço o que eu queria ouvir. Pegamos do rio a mesma coisa, eu e voce. Alguns pegam a morte, outros a dor. A maioria nem sabe que o rio existe.
Sabendo ou não sabendo, chamando-o ou não, Deus está lá.
Sua ânsia é ansia de rio. Voce se droga para tentar chegar lá. Voce vai a igreja para tentar chegar lá. Pula em baladas futeis, grita em show de rock, paga terapias, engole pilulas. Voce tenta encontar voce. Tenta ver Apolo ou Eros ou Jesus. Não sabe que voce não é, pois na verdade voce está.
Agora, enquanto escrevo isto, sou um velho de 99 anos da Mongólia. Uma hora atrás eu fui um Bem-Te-Vi numa árvore. E acordei cachorro hoje. E saiba, se quando voce me ver eu estiver Tony Roxy ou Paulo Mané... não sou eu, é a persona que criei.
Há tanta coisa pra aprender......
CÍRCULO HERMÉTICO- MIGUEL SERRANO
Estar diante de uma estante de livros, em sebo ou livraria, é como estar num trem: as paisagens vão passando e em algumas eu quero parar. Fuço as prateleiras, leio trechos, admiro capas, tento lembrar quem é aquele autor, me surpreendo. Pego em sebo este livro. Raro volume, manuseado, edição de 1970.
Miguel é um diplomata chileno que no final dos anos 50 privou na Suiça da amizade de Hermann Hesse e de Jung. O livro, breve e sem ambição, é um retrato afetuoso desses dois senhores. Primeiro Hesse.
Fica desse "pássaro" uma imagem de imensa doçura. Hesse morreu conseguindo voltar a ser criança. Ele se maravilha com a vida. Árvores, sol, lua, neve, em seu solitário retiro suiço, o velho escritor andarilho se maravilha em solidão. As lições que ele passa são sublimes. Escreve uma parábola sobre o homem que se tornou árvore e deixou de se transformar. Pois para Hesse, a vida é uma transformação, e só vive essa VIDA quem se deixa ser levado. O homem que é hoje um inseto, depois uma pedra, um cão e uma árvore. Para Hesse, tudo é um círculo e nesse círculo nós não somos o centro ( pois centro não há ), somos parte sendo nada.
Há muito de India e China em Hesse. Ele ama a impessoalidade do Oriente, os templos não assinados, a persona fraca, a passividade. Hesse conta algo interessante: Para um indiano típico, o pensamento é algo que se observa. Ele se coloca na posição passiva, o pensamento acontece independente de sua vontade, então ele assiste seus pensamentos. No ocidente nós somos aquilo que pensamos. Não nos esqueçamos que para a fé cristã, o pecado se faz em pensamento.
Depois o autor conhece Jung em Zurique, Jung já com mais de oitenta anos. De Jung ele absorve a imagem de que toda a transformação psíquica só pode ocorrer através do amor, mas não o amor como o conhecemos, deve ser aquele tipo de amor que enfrenta a morte, que vai além da vida, do medo. Esse amor só existe no que é proibido, no amor que não tem objetivo, no amor onde os dois se fazem um, na cumplicidade contra o mundo. Sem casamento, sem filhos, sem construção alguma. Amor que deverá morrer e matar os amantes, para que assim eles possam morrer em sua persona e mergulhando no inconsciente, renascer como sí-mesmo, satisfeitos com sua unicidade, auto-suficientes.
Conta-se a cerimônia de casamento dos Siddhas na India: os dois jovens, castos, vão à floresta, nús, e lá ficam por meses. Dormem juntos, se banham e trabalham. Moem grãos, confeccionam. Finalmente, ela irá massagear seus chakras, ele irá acariciá-la. Faz-se então a união. União que não é sexual, é muito mais que isso. Ele não irá ejacular, seu sêmem deverá jorrar "para dentro". O amor entre eles não será um amor para fora, será todo para dentro. Um amor que não é morte ( pois não engendra vida ), é um amor que busca o mergulho no incorpóreo, no absoluto. Os dois se separarão após essa noite. Os dois estarão prontos para a auto-suficiência.
Jung fala também que o ocidente viveu um profundo trauma psíquico com o advento do cristianismo. Ao contrário do oriente, que viveu todo o desenvolvimento de suas religiões, as fés e crenças da Europa foram subitamente sublimadas por uma religião importada. Todo o crescimento e amadurecimento dessas religiões nativas foi abortada, reprimida e jogada ao inconsciente. As imagens estão todas trancafiadas, e quanto maior a distância que nossa sociedade vive delas, maiores os surtos de barbarismo.
Comprei também um livro recém lançado de um jovem filósofo francês. Abro o livro e pesco uma frase: " Uma sociedade que se baseie no sexo será sempre uma sociedade incompleta. Pois o sexo é por sua natureza, ser incompleto sempre. Essa sociedade será então marcada pelo vazio, pela ansiedade e pela falta. Sexo só se completa no hermafroditismo, é impossível ser feliz sózinho numa sociedade sexualizada, e pior, é impossível ser feliz a dois numa sociedade sexualizada, pois o eterno flerte torna-se imperativo. Basear uma civilização no sexo é caminhar para a infelicidade. O século XIX, reprimido, deu ao sexo um valor que a repressão lhe fantasiou. Somos os filhos dessa anomalia."
Miguel é um diplomata chileno que no final dos anos 50 privou na Suiça da amizade de Hermann Hesse e de Jung. O livro, breve e sem ambição, é um retrato afetuoso desses dois senhores. Primeiro Hesse.
Fica desse "pássaro" uma imagem de imensa doçura. Hesse morreu conseguindo voltar a ser criança. Ele se maravilha com a vida. Árvores, sol, lua, neve, em seu solitário retiro suiço, o velho escritor andarilho se maravilha em solidão. As lições que ele passa são sublimes. Escreve uma parábola sobre o homem que se tornou árvore e deixou de se transformar. Pois para Hesse, a vida é uma transformação, e só vive essa VIDA quem se deixa ser levado. O homem que é hoje um inseto, depois uma pedra, um cão e uma árvore. Para Hesse, tudo é um círculo e nesse círculo nós não somos o centro ( pois centro não há ), somos parte sendo nada.
Há muito de India e China em Hesse. Ele ama a impessoalidade do Oriente, os templos não assinados, a persona fraca, a passividade. Hesse conta algo interessante: Para um indiano típico, o pensamento é algo que se observa. Ele se coloca na posição passiva, o pensamento acontece independente de sua vontade, então ele assiste seus pensamentos. No ocidente nós somos aquilo que pensamos. Não nos esqueçamos que para a fé cristã, o pecado se faz em pensamento.
Depois o autor conhece Jung em Zurique, Jung já com mais de oitenta anos. De Jung ele absorve a imagem de que toda a transformação psíquica só pode ocorrer através do amor, mas não o amor como o conhecemos, deve ser aquele tipo de amor que enfrenta a morte, que vai além da vida, do medo. Esse amor só existe no que é proibido, no amor que não tem objetivo, no amor onde os dois se fazem um, na cumplicidade contra o mundo. Sem casamento, sem filhos, sem construção alguma. Amor que deverá morrer e matar os amantes, para que assim eles possam morrer em sua persona e mergulhando no inconsciente, renascer como sí-mesmo, satisfeitos com sua unicidade, auto-suficientes.
Conta-se a cerimônia de casamento dos Siddhas na India: os dois jovens, castos, vão à floresta, nús, e lá ficam por meses. Dormem juntos, se banham e trabalham. Moem grãos, confeccionam. Finalmente, ela irá massagear seus chakras, ele irá acariciá-la. Faz-se então a união. União que não é sexual, é muito mais que isso. Ele não irá ejacular, seu sêmem deverá jorrar "para dentro". O amor entre eles não será um amor para fora, será todo para dentro. Um amor que não é morte ( pois não engendra vida ), é um amor que busca o mergulho no incorpóreo, no absoluto. Os dois se separarão após essa noite. Os dois estarão prontos para a auto-suficiência.
Jung fala também que o ocidente viveu um profundo trauma psíquico com o advento do cristianismo. Ao contrário do oriente, que viveu todo o desenvolvimento de suas religiões, as fés e crenças da Europa foram subitamente sublimadas por uma religião importada. Todo o crescimento e amadurecimento dessas religiões nativas foi abortada, reprimida e jogada ao inconsciente. As imagens estão todas trancafiadas, e quanto maior a distância que nossa sociedade vive delas, maiores os surtos de barbarismo.
Comprei também um livro recém lançado de um jovem filósofo francês. Abro o livro e pesco uma frase: " Uma sociedade que se baseie no sexo será sempre uma sociedade incompleta. Pois o sexo é por sua natureza, ser incompleto sempre. Essa sociedade será então marcada pelo vazio, pela ansiedade e pela falta. Sexo só se completa no hermafroditismo, é impossível ser feliz sózinho numa sociedade sexualizada, e pior, é impossível ser feliz a dois numa sociedade sexualizada, pois o eterno flerte torna-se imperativo. Basear uma civilização no sexo é caminhar para a infelicidade. O século XIX, reprimido, deu ao sexo um valor que a repressão lhe fantasiou. Somos os filhos dessa anomalia."
A VIDA É SONHO- CALDERON DE LA BARCA
O enredo: Um rei sabe através dos astros que seu futuro filho será um tirano. Assim que ele nasce, ele o deixa trancafiado em torre e sem saber quem seja. Mas, anos depois, esse rei sente dúvidas e resolve fazer um teste: narcotizar esse filho/prisioneiro e ver como ele se sai ao se tornar rei. Ele despertará e viverá como soberano por um dia. Se for um homem do mal, será novamente adormecido e ao acordar pensará ser tudo um sonho.
O que ocorre? Ele torna-se um rei sem limite, fazendo valer apenas seu desejo. Trancafiado outra vez, pensa que aquele dia foi um sonho, e com pesar, percebe não ter aproveitado aquele momento onírico. Sendo depois libertado por uma revolução popular, ele se tornará um monarca exemplar, pois agora tem a consciência de que "viver é um sonho, e cabe a nós viver o sonho com retidão, estar pronto para o despertar."
Calderon foi o grande dramaturgo espanhol do século XVII. Escreveu muito, teve imenso sucesso e como todo homem de seu tempo, viveu várias vidas ( soldado, poeta, padre ). Não fosse uma peça cheia de simbolismo, A Vida é Sonho tem ainda uma escrita admirável e uma fala que se tornou muito famosa:
Que é a vida? Um frenesí
Que é a vida? Uma ilusão
uma sombra, uma ficção;
O maior bem é tristonho
Porque toda a vida é sonho
e sonhos, sonhos são.
Ora, se a vida é sonho, então toda a ânsia por poder e por coisas transitórias nada vale. O que vale é a preparação para o despertar, levar consigo aquilo que é para sempre, que está além do sonho. Usufruir do sonho seria sonhar bem, e sonhar bem é ter consciência desse sonho onde se está. Século XVII... momento brilhante de nosso caminho rumo ao......
O que ocorre? Ele torna-se um rei sem limite, fazendo valer apenas seu desejo. Trancafiado outra vez, pensa que aquele dia foi um sonho, e com pesar, percebe não ter aproveitado aquele momento onírico. Sendo depois libertado por uma revolução popular, ele se tornará um monarca exemplar, pois agora tem a consciência de que "viver é um sonho, e cabe a nós viver o sonho com retidão, estar pronto para o despertar."
Calderon foi o grande dramaturgo espanhol do século XVII. Escreveu muito, teve imenso sucesso e como todo homem de seu tempo, viveu várias vidas ( soldado, poeta, padre ). Não fosse uma peça cheia de simbolismo, A Vida é Sonho tem ainda uma escrita admirável e uma fala que se tornou muito famosa:
Que é a vida? Um frenesí
Que é a vida? Uma ilusão
uma sombra, uma ficção;
O maior bem é tristonho
Porque toda a vida é sonho
e sonhos, sonhos são.
Ora, se a vida é sonho, então toda a ânsia por poder e por coisas transitórias nada vale. O que vale é a preparação para o despertar, levar consigo aquilo que é para sempre, que está além do sonho. Usufruir do sonho seria sonhar bem, e sonhar bem é ter consciência desse sonho onde se está. Século XVII... momento brilhante de nosso caminho rumo ao......
SINDBAD, O MARUJO ( UMA TERRA JOVEM, JOVEM DEMAIS )
Não existe um autor de Sindbad. Como acontece com a Biblia ou com A Ilíada, o texto parece ter se auto-fecundado. É coisa da natureza. E como todo texto fundador, trata-se de uma viagem ( que na verdade são sete ). Tudo é maravilhoso aqui e tudo é estranhamente crível. As aventuras se sucedem e tudo o que voce deseja é ler mais e mais. Prazer de verdade, claro e límpido.
O texto que me chega é o mais fiel possível. Coisa de 770 D/C. Arábia...Bagdá...é surpreendente como eles nessa época estavam muito a frente da Europa. Possuem uma delicadeza, um amor a etiqueta, a limpeza e a educação que deixa a Europa como um tipo de curral de cavaleiros toscos.
O livro me faz pensar, e o pensamento que ele me traz é este:
Em 770.... Quantas tribos existiam no Brasil? Línguas que não mais se falarão e bichos que há muito sumiram de nossa vista. Imagino a floresta sem fim e um indio nadando no Pinheiros. Tribos em Marajó e no sul. E tribos na Argentina e no Perú ( Incas? ). Onças e Botos aos milhões e povos se espalhando pelo México e pelo Canadá. Cada um com sua língua, seu Deus e seu corpo. Contando uma saga e criando mitologias.
Penso que em 770, enquanto em Bagdá se redigia o Sinbad, na Irlanda os monges católicos andavam em pregação. Matilhas de lobos vagavam pela Alemanha e druidas viviam na França. Vikings na Noruega, Saxões na Inglaterra e Íberos na Espanha. Quantos ursos ainda viviam no continente e crenças desapareciam para sempre. Tribos sem fim pela Russia.
Penso na India e na China de 770. Na imensa diversidade de vidas e de vozes. Nas ilhas do Pacifico, nos reinos da Àfrica e na Austrália onde os aborigenes percorriam as estrelas. Maoris na Zelandia, eskimós no norte e os comanches, sioux, arapahos.
Em 770 uma enorme variedade de vozes, de visões sobre a vida, de peles e de rostos. Miscelânea de costumes, modos de ver, jeitos de pensar. Vida sem fim.
Penso que agora todos nós somos poucos. Todos estamos nos tornando coisas uniformes. Como gado de raça: mesmos desejos, mesmos valores, mesmos medos. E sinto que sendo assim somos mais fracos como homens, mais vulneráveis como espécie e muito mais pobres como alma. Mesma música, mesma roupa, mesma comida.
Para onde ir quando a vida entrar em crise?
Porque Sindbad me faz ver que toda crise é solucionada com a redescoberta do reprimido. A era medieval sendo superada pela lembrança da Grécia, a decadencia de Roma revitalizada pela fé católica, o novo sempre vem de uma civilização que se pôs a margem do poder. Mas se tudo for uma só coisa, de onde virá a novidade?
O oriente é o inconsciente do mundo e sempre foi de lá que veio o sopro de vida nova. A Grécia brota da Pérsia, e as religiões ( judaísmo/catolicismo/islamismo ) nasceram por lá. Aliás, religião sempre foi uma coisa muito fraca na Europa. Religião puramente européia é coisa que nunca existiu. Mas, se o mundo perder toda sua diversidade ( e desde 1350 estamos nesse caminho ), se o oriente, a Ásia toda, se tornar uma coisa só, de onde fazer brotar a nova fase, a nova crença, o novo mundo?
Cada ilha do mar da India era uma civilização. Cada canto da Indochina era uma fonte de fé e de filosofia. Pra onde foram esses modos de pensar? Uniformização. Odeio essa palavra.
Sindbad é a celebração desse mundo rico, desse mundo onde cada esquina é outro universo, em que tudo é diferente em cada reino, em cada ser. Sindbad é então a pura celebração de um planeta jovem, exuberante, enérgico, e que ainda se surpreende todo dia.
Sindbad é o homem plenamente saudável.
PS: Começo a pagar uma dívida que tinha comigo-mesmo. Começo a estudar Jung. Uma frase dele me pega ( e é exatamente o que eu já pensava ): O inconsciente é sempre religião. Todo inconsciente é religioso e temer ou não saber ler a simbologia religiosa significa temer ou reprimir a riquesa da vida do inconsciente. Porém, o homem existe para se individualizar, para se tornar um ser-sí-mesmo. Ora, isso só ocorre com o mergulho no inconsciente, com a alfabetização da simbologia religiosa. Mitos, religiões, poemas, essa é a linguagem de todo saber profundo, saber que é a vida da terra. A Europa é o árido mundo sólido do ser, o principio masculino; o oriente é o principio religioso, inconsciente, passivo e simbólico. É de lá que flui a fonte da vida, a fecundação, as novas etapas, a vida. Útero. Sindbad me cai nas mãos na hora exata.
O texto que me chega é o mais fiel possível. Coisa de 770 D/C. Arábia...Bagdá...é surpreendente como eles nessa época estavam muito a frente da Europa. Possuem uma delicadeza, um amor a etiqueta, a limpeza e a educação que deixa a Europa como um tipo de curral de cavaleiros toscos.
O livro me faz pensar, e o pensamento que ele me traz é este:
Em 770.... Quantas tribos existiam no Brasil? Línguas que não mais se falarão e bichos que há muito sumiram de nossa vista. Imagino a floresta sem fim e um indio nadando no Pinheiros. Tribos em Marajó e no sul. E tribos na Argentina e no Perú ( Incas? ). Onças e Botos aos milhões e povos se espalhando pelo México e pelo Canadá. Cada um com sua língua, seu Deus e seu corpo. Contando uma saga e criando mitologias.
Penso que em 770, enquanto em Bagdá se redigia o Sinbad, na Irlanda os monges católicos andavam em pregação. Matilhas de lobos vagavam pela Alemanha e druidas viviam na França. Vikings na Noruega, Saxões na Inglaterra e Íberos na Espanha. Quantos ursos ainda viviam no continente e crenças desapareciam para sempre. Tribos sem fim pela Russia.
Penso na India e na China de 770. Na imensa diversidade de vidas e de vozes. Nas ilhas do Pacifico, nos reinos da Àfrica e na Austrália onde os aborigenes percorriam as estrelas. Maoris na Zelandia, eskimós no norte e os comanches, sioux, arapahos.
Em 770 uma enorme variedade de vozes, de visões sobre a vida, de peles e de rostos. Miscelânea de costumes, modos de ver, jeitos de pensar. Vida sem fim.
Penso que agora todos nós somos poucos. Todos estamos nos tornando coisas uniformes. Como gado de raça: mesmos desejos, mesmos valores, mesmos medos. E sinto que sendo assim somos mais fracos como homens, mais vulneráveis como espécie e muito mais pobres como alma. Mesma música, mesma roupa, mesma comida.
Para onde ir quando a vida entrar em crise?
Porque Sindbad me faz ver que toda crise é solucionada com a redescoberta do reprimido. A era medieval sendo superada pela lembrança da Grécia, a decadencia de Roma revitalizada pela fé católica, o novo sempre vem de uma civilização que se pôs a margem do poder. Mas se tudo for uma só coisa, de onde virá a novidade?
O oriente é o inconsciente do mundo e sempre foi de lá que veio o sopro de vida nova. A Grécia brota da Pérsia, e as religiões ( judaísmo/catolicismo/islamismo ) nasceram por lá. Aliás, religião sempre foi uma coisa muito fraca na Europa. Religião puramente européia é coisa que nunca existiu. Mas, se o mundo perder toda sua diversidade ( e desde 1350 estamos nesse caminho ), se o oriente, a Ásia toda, se tornar uma coisa só, de onde fazer brotar a nova fase, a nova crença, o novo mundo?
Cada ilha do mar da India era uma civilização. Cada canto da Indochina era uma fonte de fé e de filosofia. Pra onde foram esses modos de pensar? Uniformização. Odeio essa palavra.
Sindbad é a celebração desse mundo rico, desse mundo onde cada esquina é outro universo, em que tudo é diferente em cada reino, em cada ser. Sindbad é então a pura celebração de um planeta jovem, exuberante, enérgico, e que ainda se surpreende todo dia.
Sindbad é o homem plenamente saudável.
PS: Começo a pagar uma dívida que tinha comigo-mesmo. Começo a estudar Jung. Uma frase dele me pega ( e é exatamente o que eu já pensava ): O inconsciente é sempre religião. Todo inconsciente é religioso e temer ou não saber ler a simbologia religiosa significa temer ou reprimir a riquesa da vida do inconsciente. Porém, o homem existe para se individualizar, para se tornar um ser-sí-mesmo. Ora, isso só ocorre com o mergulho no inconsciente, com a alfabetização da simbologia religiosa. Mitos, religiões, poemas, essa é a linguagem de todo saber profundo, saber que é a vida da terra. A Europa é o árido mundo sólido do ser, o principio masculino; o oriente é o principio religioso, inconsciente, passivo e simbólico. É de lá que flui a fonte da vida, a fecundação, as novas etapas, a vida. Útero. Sindbad me cai nas mãos na hora exata.
DIA DE FINADOS- CEES NOOTEBOOM
Um homem anda por Berlin filmando aquilo que ninguém filma: pés sobre a calçada, pegadas na neve. Ele é holandês, calado, e adora a solidão. Mas tem 3 amigos, que costumam se encontrar em bar e filosofar sobre a vida e Berlin. Esse holandês conhece uma mulher misteriosa, com quem terá uma relação silenciosa ( o que não impede o sexo ) e a quem seguirá à Espanha. Ao final, ele descobrirá que o que filma é aquilo que jamais muda no tempo do mundo: sombras, pegadas, pedras, vento. Ele, que é viúvo, ansia pelo não-tempo, pelo que perdura.
Com esses temas este poderia ser um livro maravilhoso. Quase chega lá, mas não é. Pois se nos convencemos de sua profundidade, de sua sinceridade ( e de sua contemporaniedade ), nos desiludimos ao ler certos chavões que o texto exibe. Nooteboom escreve algumas linhas de banalidade absoluta, dignas de qualquer livrinho pseudo-artístico, e essas poucas linhas derrubam tudo de sólido e verdadeiro que o livro tem. Nos embrenhamos em toda aquela filosofia pessimista/atéia, e então somos desligados do encanto por frases tipo "Janelas com chuva como lágrimas de solidão"....
Nooteboom é inquieto, levanta questões pertinentes sobre politica, história e filosofia, mas escreve sem a altura que esses temas merecem. É tipico caso de autor de ambição maior que seu talento.
Cees Nooteboom está vivo e é" O" autor da Holanda. Este livro consta dos tais 1000 livros para ler antes de morrer. Waaaal... há melhores.
Com esses temas este poderia ser um livro maravilhoso. Quase chega lá, mas não é. Pois se nos convencemos de sua profundidade, de sua sinceridade ( e de sua contemporaniedade ), nos desiludimos ao ler certos chavões que o texto exibe. Nooteboom escreve algumas linhas de banalidade absoluta, dignas de qualquer livrinho pseudo-artístico, e essas poucas linhas derrubam tudo de sólido e verdadeiro que o livro tem. Nos embrenhamos em toda aquela filosofia pessimista/atéia, e então somos desligados do encanto por frases tipo "Janelas com chuva como lágrimas de solidão"....
Nooteboom é inquieto, levanta questões pertinentes sobre politica, história e filosofia, mas escreve sem a altura que esses temas merecem. É tipico caso de autor de ambição maior que seu talento.
Cees Nooteboom está vivo e é" O" autor da Holanda. Este livro consta dos tais 1000 livros para ler antes de morrer. Waaaal... há melhores.
CEES NOOTEBOOM E MAIS BENJAMIN E AINDA HEGEL
Estou lendo um autor bem interessante: Cees Nooteboom. É o principal autor da Holanda hoje. Escreve filosoficamente, é bastante materialista, mas é um materialismo em crise. Tenta abarcar tudo o que importa agora: a falência da sensibilidade, a vulgarização da história, a falta de rumo da existência, a memória persistente, o fim de tudo todo o tempo. Sobre o livro que leio hoje, falo depois. Quero antes citar algumas coisas de interesse.
O século XX é o século da ironia. Tudo é olhado com dúvida, com distanciamento. Ora, com ironia não se dá um passo. Se voce não se entregar sem reservas a nada, se voce não tiver fé em coisa alguma, nada será feito, produzido, tentado. A vida se torna um sempre "quase", um talvez, um relativo quem sabe ou outra vez. Mas, estranhamente, o século XX é feito e destruído na Alemanha, país desprovido de ironia.
Alemanha é nação da punição. O alemão está sempre se policiando, se vigiando e se punindo por seus erros. É um povo que ama seu sofrimento: Wagner, Beethoven, Nietzsche, Rilke, Freud e Strauss. A imagem de Nietzsche abraçado ao pescoço de um cavalo e pedindo perdão a todos os animais da terra é a imagem da Alemanha. Ela faz a guerra e sofre a derrota, sempre. Sua ânsia é a vontade de perder. Porque isso?
É um país de nevascas, de vales escuros, de florestas eternamente em névoa, de montanhas isoladas. Tudo na Alemanha era mistério: cavernas, bruxas, bosques, mitos, sangue em abundancia. De toda a Europa é o país que pior se adapta a modernidade, a razão fria, ao tempo sem segredos. Mas, como povo guerreiro, ele corre rumo a liderança, sacrificando sua "alma". Dá-se a irrupção sazonal do inconsciente, do espírito, do que foi negado. Já a Holanda é seu oposto: uma nação sem montanhas, sem cavernas, plana e simples, exposta, anti-segredos, reino da burguesia, dos bancos, do pensamento moderno, onde tudo é reto, claro e sem mácula.
Nooteboom fala ainda dos humanos extintos. Características humanas em vias de desaparecer. Humanos tímidos. Ninguém mais é timido. Todos sabem posar para fotos, criar nomes falsos, sair de casa sozinho. O rubor está sumindo, a mocinha de seio rosado e bochecha rosa, olhando para o chão; o mocinho timido, sonhador, romantico velado, gaguejante. A timidez foi morta pelo mundo do espetáculo, pelo show, pela vida em escritório, pelo cinema americano, pelo rocknroll. O respeito é outro valor extinto. Tudo o que importa é a minha verdade, e se a minha verdade é só minha a sua verdade me é irrelevante. Não respeitarei alguém que deseja ser mais verdadeiro que eu mesmo. Não respeitarei ninguém, pois respeito é negação de si mesmo. Esse pensamento torto, bobo, ridiculo se torna dominante com a tecnologia ( onde tudo é relativo e sem hierarquia ) com o fim da timidez ( timidez que traz a vida interior ). Para o futuro haverá a extinção da verdade, do subjetivismo e da solidão.
Tudo isso nas 130 primeiras páginas de Nooteboom.
Uma citação de Walter Benjamim:
"... é assim que o anjo deve ser representado perante a história. Com esse olhar crispado voltado ao passado ( ele fala de uma pintura de Paul Klee ). Onde nós vemos um encadeamento de fatos que significam nossa história, o anjo vê apenas um momento único de catástrofe absoluta. Esse anjo gostaria de ficar e ressuscitar os mortos, abrir a luz nos escombros. Mas do céu desce um vento irresistível que arrasta suas asas ao porvir. Os escombros, o entulho se agiganta a seus pés alcançando montanhas, mas o anjo precisa voar, rumo ao destino. É a essa tragédia que damos o nome de progresso".
Uma citação de Hegel:
" Voce está num trem bem iluminado. Voce observa por toda a viagem o ambiente e seus companheiros de viagem. Rostos, vozes, roupas, gestos. Voce crê então conhecer a realidade daquele vagão. Então voce pede a outra pessoa para descrever aquele vagão, descrevendo inclusive voce. E descobre que a realidade para ela seria uma aberração para voce. Pois ela não considerou nada do que lhe é mais real. Ela não percebeu seus sentimentos, seus desejos, seu passado, aquilo que voce ama em voce e renega em voce. Ela simplesmente não conheceu a realidade. É por isso que toda a história do mundo é impossível de ser apreendida."
Nooteboom, como todo grande artista, vai mais longe: É por isso que a Verdade não existe.
O século XX é o século da ironia. Tudo é olhado com dúvida, com distanciamento. Ora, com ironia não se dá um passo. Se voce não se entregar sem reservas a nada, se voce não tiver fé em coisa alguma, nada será feito, produzido, tentado. A vida se torna um sempre "quase", um talvez, um relativo quem sabe ou outra vez. Mas, estranhamente, o século XX é feito e destruído na Alemanha, país desprovido de ironia.
Alemanha é nação da punição. O alemão está sempre se policiando, se vigiando e se punindo por seus erros. É um povo que ama seu sofrimento: Wagner, Beethoven, Nietzsche, Rilke, Freud e Strauss. A imagem de Nietzsche abraçado ao pescoço de um cavalo e pedindo perdão a todos os animais da terra é a imagem da Alemanha. Ela faz a guerra e sofre a derrota, sempre. Sua ânsia é a vontade de perder. Porque isso?
É um país de nevascas, de vales escuros, de florestas eternamente em névoa, de montanhas isoladas. Tudo na Alemanha era mistério: cavernas, bruxas, bosques, mitos, sangue em abundancia. De toda a Europa é o país que pior se adapta a modernidade, a razão fria, ao tempo sem segredos. Mas, como povo guerreiro, ele corre rumo a liderança, sacrificando sua "alma". Dá-se a irrupção sazonal do inconsciente, do espírito, do que foi negado. Já a Holanda é seu oposto: uma nação sem montanhas, sem cavernas, plana e simples, exposta, anti-segredos, reino da burguesia, dos bancos, do pensamento moderno, onde tudo é reto, claro e sem mácula.
Nooteboom fala ainda dos humanos extintos. Características humanas em vias de desaparecer. Humanos tímidos. Ninguém mais é timido. Todos sabem posar para fotos, criar nomes falsos, sair de casa sozinho. O rubor está sumindo, a mocinha de seio rosado e bochecha rosa, olhando para o chão; o mocinho timido, sonhador, romantico velado, gaguejante. A timidez foi morta pelo mundo do espetáculo, pelo show, pela vida em escritório, pelo cinema americano, pelo rocknroll. O respeito é outro valor extinto. Tudo o que importa é a minha verdade, e se a minha verdade é só minha a sua verdade me é irrelevante. Não respeitarei alguém que deseja ser mais verdadeiro que eu mesmo. Não respeitarei ninguém, pois respeito é negação de si mesmo. Esse pensamento torto, bobo, ridiculo se torna dominante com a tecnologia ( onde tudo é relativo e sem hierarquia ) com o fim da timidez ( timidez que traz a vida interior ). Para o futuro haverá a extinção da verdade, do subjetivismo e da solidão.
Tudo isso nas 130 primeiras páginas de Nooteboom.
Uma citação de Walter Benjamim:
"... é assim que o anjo deve ser representado perante a história. Com esse olhar crispado voltado ao passado ( ele fala de uma pintura de Paul Klee ). Onde nós vemos um encadeamento de fatos que significam nossa história, o anjo vê apenas um momento único de catástrofe absoluta. Esse anjo gostaria de ficar e ressuscitar os mortos, abrir a luz nos escombros. Mas do céu desce um vento irresistível que arrasta suas asas ao porvir. Os escombros, o entulho se agiganta a seus pés alcançando montanhas, mas o anjo precisa voar, rumo ao destino. É a essa tragédia que damos o nome de progresso".
Uma citação de Hegel:
" Voce está num trem bem iluminado. Voce observa por toda a viagem o ambiente e seus companheiros de viagem. Rostos, vozes, roupas, gestos. Voce crê então conhecer a realidade daquele vagão. Então voce pede a outra pessoa para descrever aquele vagão, descrevendo inclusive voce. E descobre que a realidade para ela seria uma aberração para voce. Pois ela não considerou nada do que lhe é mais real. Ela não percebeu seus sentimentos, seus desejos, seu passado, aquilo que voce ama em voce e renega em voce. Ela simplesmente não conheceu a realidade. É por isso que toda a história do mundo é impossível de ser apreendida."
Nooteboom, como todo grande artista, vai mais longe: É por isso que a Verdade não existe.
MANDA PRA DEBAIXO DO TAPETE
A ciência nos deu a cura de algumas doenças e remédios pra deprê. Carros e aviões. Mas não nos deu uma forma de lidar com casamentos, amizades, pais e enterros. E é nessa hora, a hora da verdade, que a gente percebe que fomos roubados.
Isabel era minha prima. Mesma idade, a gente cresceu brincando. Ela falava baixo, era vaidosa, boa gente, cheia de amigos. Adorava os pais.
Sexta de noite, voltando do teatro, Isabel levou um tiro no peito. Metade do corpo se esparramou pelo carro. Os assassinos, de moto, se foram... Isabel deixou dois pais. E um lugar vazio.
O corpo, recomposto e maquiado, foi enterrado. E o que é um enterro? Um monte de gente triste, sem saber o que fazer, o que sentir, o que falar. O corpo baixa à terra em meio aos coveiros, e todos ficam aturdidos como bichos que nada entendem. E eu, que em nada creio, penso, cheio de ódio, naquilo que a tal modernidade nos tirou. Roubou de nossa vida o velório em igreja, o padre consolador, o ritual do enterro. Qualquer tribo primitiva sabe como lidar com isso, nós, modernos, não. Assim como não sabemos lidar com nada que realmente importa. Tudo é varrido para debaixo do tapete, para o inconsciente. Afinal, o que nos pedem é seguir em frente, sempre. ( O melhor é continuar a trabalhar!!!! )
Onde a transcendencia? Onde o luto profundo e reparador? Onde a dor da tragédia e a catarse? Tudo o que nos oferecem são flores e trabalho, a vida que segue, um antideprê e uma terapiazinha... e todo o significado da morte e da vida passa a ser não entendido. Nos tornamos menos que bichos, somos um conjunto de células, nosso sentimento e nossa dor é quimica, nada mais que quimica. Óxidos e nitratos que pensam.
É tudo uma merda, uma imensa merda. Sabemos tudo e nada sabemos na hora em que o negócio fica sério. Os pais, desamparados, pessoas da época romântica jogados na era do trabalho, ficam lá, ao lado da cova, agradecendo a quem compareceu ( muitos ) e em desamparo completo. Onde o chefe da taba? Onde o xamã? Onde o consolo que consola? Nada, absolutamente nada. Tudo trancafiado no inconsciente, afinal, toda essa vida religiosa/simbólica apenas atrapalha a caminhada rumo ao futuro/trabalho.
Eu sinto ódio. Muito ódio. A velha Bíblia estava certa, olho por olho. Não me venham com "vejamos", "por outro lado", "a sociedade"; morte se paga com morte, os dois covardes devem pagar, ser enforcados na minha frente, assados em fogo brando. Eles devem pedir perdão de joelhos e serem executados com risos e festa. Te deixo chocado? Falo aquilo que voce não tem coragem de dizer. Aquilo que foi trancafiado no seu cérebro, lá no escuro, junto com sonhos de familia feliz, desejos de liberdade e fé na vida. Os dois foram ruins, e creia, a maldade é incurável e imperdoável. O relativismo da ciência nos roubou também essa certeza.
Uma menina senta-se ao meu lado no velório. Vestido longo, cabelo com tiara, voz fininha. Talvez 7 anos. Ela é exatamente como Isabel foi um dia. Ela precisa ser protegida. Ela precisa ter um final mais digno. Ela é o único sentido que nos resta. A continuação da história.
Minha mãe pega meu braço. O pai de Isabel não quer sair do lado da filha. O céu está azul. Um pássaro passa voando. Algumas pessoas estão no túmulo de Senna.
Se Deus não existe e nunca existiu, eu o invento. Se os anjos fugiram da Terra com desgosto, eu falarei com eles. Se a alma é apenas o sonho de alguém que pensa demais, eu pensarei muito. O vale da morte, a dor de um pai, a saudade de um amigo... apenas isso importa.
Isabel era minha prima. Mesma idade, a gente cresceu brincando. Ela falava baixo, era vaidosa, boa gente, cheia de amigos. Adorava os pais.
Sexta de noite, voltando do teatro, Isabel levou um tiro no peito. Metade do corpo se esparramou pelo carro. Os assassinos, de moto, se foram... Isabel deixou dois pais. E um lugar vazio.
O corpo, recomposto e maquiado, foi enterrado. E o que é um enterro? Um monte de gente triste, sem saber o que fazer, o que sentir, o que falar. O corpo baixa à terra em meio aos coveiros, e todos ficam aturdidos como bichos que nada entendem. E eu, que em nada creio, penso, cheio de ódio, naquilo que a tal modernidade nos tirou. Roubou de nossa vida o velório em igreja, o padre consolador, o ritual do enterro. Qualquer tribo primitiva sabe como lidar com isso, nós, modernos, não. Assim como não sabemos lidar com nada que realmente importa. Tudo é varrido para debaixo do tapete, para o inconsciente. Afinal, o que nos pedem é seguir em frente, sempre. ( O melhor é continuar a trabalhar!!!! )
Onde a transcendencia? Onde o luto profundo e reparador? Onde a dor da tragédia e a catarse? Tudo o que nos oferecem são flores e trabalho, a vida que segue, um antideprê e uma terapiazinha... e todo o significado da morte e da vida passa a ser não entendido. Nos tornamos menos que bichos, somos um conjunto de células, nosso sentimento e nossa dor é quimica, nada mais que quimica. Óxidos e nitratos que pensam.
É tudo uma merda, uma imensa merda. Sabemos tudo e nada sabemos na hora em que o negócio fica sério. Os pais, desamparados, pessoas da época romântica jogados na era do trabalho, ficam lá, ao lado da cova, agradecendo a quem compareceu ( muitos ) e em desamparo completo. Onde o chefe da taba? Onde o xamã? Onde o consolo que consola? Nada, absolutamente nada. Tudo trancafiado no inconsciente, afinal, toda essa vida religiosa/simbólica apenas atrapalha a caminhada rumo ao futuro/trabalho.
Eu sinto ódio. Muito ódio. A velha Bíblia estava certa, olho por olho. Não me venham com "vejamos", "por outro lado", "a sociedade"; morte se paga com morte, os dois covardes devem pagar, ser enforcados na minha frente, assados em fogo brando. Eles devem pedir perdão de joelhos e serem executados com risos e festa. Te deixo chocado? Falo aquilo que voce não tem coragem de dizer. Aquilo que foi trancafiado no seu cérebro, lá no escuro, junto com sonhos de familia feliz, desejos de liberdade e fé na vida. Os dois foram ruins, e creia, a maldade é incurável e imperdoável. O relativismo da ciência nos roubou também essa certeza.
Uma menina senta-se ao meu lado no velório. Vestido longo, cabelo com tiara, voz fininha. Talvez 7 anos. Ela é exatamente como Isabel foi um dia. Ela precisa ser protegida. Ela precisa ter um final mais digno. Ela é o único sentido que nos resta. A continuação da história.
Minha mãe pega meu braço. O pai de Isabel não quer sair do lado da filha. O céu está azul. Um pássaro passa voando. Algumas pessoas estão no túmulo de Senna.
Se Deus não existe e nunca existiu, eu o invento. Se os anjos fugiram da Terra com desgosto, eu falarei com eles. Se a alma é apenas o sonho de alguém que pensa demais, eu pensarei muito. O vale da morte, a dor de um pai, a saudade de um amigo... apenas isso importa.
VIDA- KEITH RICHARDS, COMENTÁRIO CONTRADITÓRIO
Os Stones fizeram em 1964 um contrato com a Decca muito melhor do que aquele dos Beatles com a EMI. Se tornaram a banda mais rica do mundo e a mais paparicada pelos milionários. Ao mesmo tempo posavam de reis dos revolucionários e dos insatisfeitos do mundo, papel que ficaria muito melhor em qualquer cantor de blues da Geórgia.
A história dos Stones é sempre uma história de muita sorte ( e é isso que irrita aqueles que insistem em crer que arte é sofrimento ). Lendo o livro de Keith, o que vemos é uma vida onde tudo sempre dá certo. Ele não morreu jovem, logo ficou rico, sobreviveu aos punks e aos grunges e tem uma imensa e saudável familia. Chega a dar raiva!
Keith é injusto várias vezes. Resmunga sobre Jagger. Diz que em 1983 Mick tentou tomar os Stones para si, e que em 1985 Jagger cometeu a deslealdade de se lançar em carreira solo. Ora Keith! Voce ficou oito anos como um peso junkie nas costas de Jagger! Quem já conviveu com um viciado sabe o quanto eles são chatos! Jagger levou a banda sózinho entre 73/81. E cá entre nós, sem Mick Jagger nos vocais, voces seriam no máximo um The Who.
Isso é chato no livro. Keith tem um ego do tamanho do de Jagger, mas ele posa de doidão-blueseiro, o rei da honestidade. Será? Se o Mick de 1961 morreu nos Rolls Royce e nas noites de Cannes e Monte Carlo, o Keith timido e humilde de 1962 se foi nas carreiras de pó e nas agulhas de heroína ( e dá uma sensação ruim vê-lo defender o bom consumo de drogas ).
Mas ninguém é perfeito. Mesmo cheirando carreiras nos palcos entre uma música e outra, mesmo tendo feito dois dos piores discos da história ( Dirty Work e Steel Wheels ), mesmo tendo feito aquele show lastimável em Copacabana, quem sabe o que é rocknroll sempre vai entender o porque de sua importância. Eles são espertos, maus, soberbos, egocêntricos, auto-centrados e nada sofridos. E por isso são vencedores, o tipo de cínicos sexies, coisa que os Beatles ou o U2 nunca puderam ser ( estavam ocupados em ser os tais "artistas relevantes" ). Os Stones sempre souberam que rock é irrelevante, que depois de Chuck, Elvis e Little Richard todo o resto foi diluição.
Foda-se! Eu tinha de defender Mick Jagger ( que tem a elegância de se manter calado ). Dizer, que ruim Keith!, que Mick tem o pau pequeno é muuuita sacanagem!
Mas fazer o que? Keith é a própria imagem da coisa, gostar dele é o teste para se saber se voce está por dentro do que seja rocknroll ou se voce está irremediávelmente por fora. Se a sua turma é do carrão/garotinhas/riffs de foder ou quarto/lágrimas/melodias tristonhas.
A gente pode dizer que o cara tem muita, muita sorte...
A história dos Stones é sempre uma história de muita sorte ( e é isso que irrita aqueles que insistem em crer que arte é sofrimento ). Lendo o livro de Keith, o que vemos é uma vida onde tudo sempre dá certo. Ele não morreu jovem, logo ficou rico, sobreviveu aos punks e aos grunges e tem uma imensa e saudável familia. Chega a dar raiva!
Keith é injusto várias vezes. Resmunga sobre Jagger. Diz que em 1983 Mick tentou tomar os Stones para si, e que em 1985 Jagger cometeu a deslealdade de se lançar em carreira solo. Ora Keith! Voce ficou oito anos como um peso junkie nas costas de Jagger! Quem já conviveu com um viciado sabe o quanto eles são chatos! Jagger levou a banda sózinho entre 73/81. E cá entre nós, sem Mick Jagger nos vocais, voces seriam no máximo um The Who.
Isso é chato no livro. Keith tem um ego do tamanho do de Jagger, mas ele posa de doidão-blueseiro, o rei da honestidade. Será? Se o Mick de 1961 morreu nos Rolls Royce e nas noites de Cannes e Monte Carlo, o Keith timido e humilde de 1962 se foi nas carreiras de pó e nas agulhas de heroína ( e dá uma sensação ruim vê-lo defender o bom consumo de drogas ).
Mas ninguém é perfeito. Mesmo cheirando carreiras nos palcos entre uma música e outra, mesmo tendo feito dois dos piores discos da história ( Dirty Work e Steel Wheels ), mesmo tendo feito aquele show lastimável em Copacabana, quem sabe o que é rocknroll sempre vai entender o porque de sua importância. Eles são espertos, maus, soberbos, egocêntricos, auto-centrados e nada sofridos. E por isso são vencedores, o tipo de cínicos sexies, coisa que os Beatles ou o U2 nunca puderam ser ( estavam ocupados em ser os tais "artistas relevantes" ). Os Stones sempre souberam que rock é irrelevante, que depois de Chuck, Elvis e Little Richard todo o resto foi diluição.
Foda-se! Eu tinha de defender Mick Jagger ( que tem a elegância de se manter calado ). Dizer, que ruim Keith!, que Mick tem o pau pequeno é muuuita sacanagem!
Mas fazer o que? Keith é a própria imagem da coisa, gostar dele é o teste para se saber se voce está por dentro do que seja rocknroll ou se voce está irremediávelmente por fora. Se a sua turma é do carrão/garotinhas/riffs de foder ou quarto/lágrimas/melodias tristonhas.
A gente pode dizer que o cara tem muita, muita sorte...
Assinar:
Postagens (Atom)