NÃO TE MOVAS de Sergio Castellito com Penelope Cruz
Picaretagem braba! Uma coleção de clichés significando tédio e chatice inglória. nota zero.
IBÉRIA de Carlos Saura
É uma coleção de cenas com música e dança espanhola. A maestria de Saura em mover a câmera é aqui muito bem-vinda. O filme é aula de gosto e de melodia. Para quem gosta de som e dança é obrigatório. Nota 6.
O BANDIDO DA LUZ VERMELHA de Rogerio Sganzerla
Um filme barato, pobre, mal feito, mas que talvez seja o melhor já produzido por estes lados do mundo. Rogerio erra todo o tempo mas jamais baixa a guarda: o filme é uma explosão de som e de imagens toscas. Paulo Villaça imita o Belmondo de Godard e Helena Ignez é fatal. Welles e nouvelle vague made na boca do lixo. Nota Dez.
A BEIRA DO ABISMO de Howard Hawks com Humphrey Bogart e Lauren Bacall
Uma ode ao bom-humor. Neste roteiro de Faulkner, baseado em Chandler, nada faz o menor sentido. Os assassinatos rolam sem razão, o detetive investiga por investigar e nós, pobres expectadores, nada entendemos. Mas neste clássico do noir, nada disso importa. O que interessa é assistir ao filme como coleção de sketches, cenas independentes maravilhosamente bem feitas. Dá pra notar a alegria de Bogart em contracenar com sua nova mulher, Bacall; e notamos que tudo ali parece brilhar. Lendo livros sobre o filme ficamos sabendo que na verdade Bogart sofria pelo fim de seu segundo casamento com a violenta Mayo, mas há paixão nos olhares e isso ficou na película para sempre. A irmã ninfomaníaca feita por Martha Vickers é excelente. Nota 8.
O CHEIRO DO RALO de Heitor Dhalia com Selton Mello e Paula Braun
É uma sátira ao capitalismo? Ou trata-se de uma homenagem ao Monty Python? Este filme tem um grave problema que atinge a maioria dos filmes "esquisitos": seria um excelente curta-metragem. Mas falta história para um longa e depois de seus trinta minutos iniciais, tudo se perde. O que era um bom filme de humor torna-se uma chatice pretensiosa. Selton dá um show de humorismo, seu tipo é antológico. Nota 4.
O HOMEM DO ANO de J H Fonseca com Murilo Benicio e Claudia Abreu
A fotografia é interessante, mas tudo o que acontece é muuuuuito previsível. Do porquinho até a pirralha que vira crente, tudo é chavão e banal. Filminho que parece TV. Nota 3.
SE EU FOSSE MINHA MÃE de Gary Nelson com Barbara Harris e Jodie Foster
Antes de ser atriz adulta, Jodie foi atriz infantil da Disney. Aqui, aos 14 anos, ela faz o papel da filha que troca de corpo com a mãe. Serve como nostalgia do visual 1976: carrões, skates fininhos, bocas de sino e mobília vermelha. Fora isso..... nota 4.
O PRÍNCIPE VALENTE de Henry Hathaway com Robert Wagner, James Mason e Janet Leigh
Aventura baseada nos HQ de Hal Foster. É sobre vikings e rei Arthur, sir Gawain e o amadurecimento de jovem herói. Robert Wagner, muito jovem, está perfeito no papel, e Mason sempre faz um bom vilão. A trilha sonora de Miklos Rosza é das melhores de todos os tempos. Um velho clássico da Sessão da Tarde do tempo em que se passavam clássicos à tarde. Bem legal. Tem torneios de heróis, fugas à cavalo, traições e muita briga. Nota 7.
UM HOMEM FORA DE SÉRIE de Barry Levinson com Robert Redford, Robert Duvall, Glenn Close, Kim Basinger
Baseado em livro de Bernard Malamud, o filme, que fala de promissor astro do beisebol que desaparece após crime e recomeça já maduro, é uma parábola sobre a saga de um herói. É incrível como o beisebol é algo mágico para os americanos. Eles sentem o esporte como raiz, como nascimento, a relação deles com o jogo é como a relação de um filho com sua mãe. Eles vêem naquele diamante relvado o berço, o paraíso, o Eden. Este filme é então, meloso, nostálgico, mas mantém seu interesse graças ao bom elenco e a trilha de Randy Newman. Nota 6.
MOONFLEET de Fritz Lang com Stewart Granger, Viveca Lindfors, Joan Greenwood
Outro clássico Sessão da Tarde. É sobre contrabandistas na Inglaterra de 1750. Um menino vai morar com nobre e descobre que ele é o tal contrabandista. Lang sabia tudo. Tem lindas cenas com caveiras e tempestades. Um filme delicioso! Nota 7.
A RUA DA VERGONHA de Kenji Mizoguchi
Mizoguchi nasceu em família arruinada e viu sua irmã ser vendida como gueixa. Toda sua carreira versa sobre a condição da mulher num Japão em transição. Este é seu último filme. E é fascinante. Mostra, na Tokyo pós-guerra, a vida num bordel ocidentalizado. Não existe mais a figura da gueixa, que devia saber caligrafia, ikebama e tocar okotô. Aqui elas são simples "putas", prostitutas que se afundam em dívidas e pensam em sair "da vida". Impressiona a forma como Mizoguchi sabe enquadrar. Cada tomada é um show de imagem. Ele toma o lado das meninas, mas jamais as exibe como vítimas, elas escolheram aquela vida e pagam por sua escolha. Um filme que tem trilha sonora estranhamente de terror e que hipnotiza em sua verdade simples. As atrizes estão perfeitas: há desde a imitadora de estrelas americanas até a mãe abandonada. Um final digno para um dos três gênios do cinema japonês. Nota 9
SONATA DE AMOR de Clarence Brown com Kate Hepburn, Paul Henreid e Robert Walker
Neste hiper-novelão que trata da vida conjugal de Clara e Robert Schumann nada é muito real e tudo é exagerado e doce. Há ainda a figura de Brahms, feito sem jeito por Walker e de Liszt, feito bem por Henry Daniels. Mas, como Brown sabia dirigir, cenas como a da galinha na cozinha e o final com o concerto de despedida de Clara, se sustentam muito bem. O filme consegue ser bem-humorado mesmo tratando de compositor que morreu louco e de amor travado. Kate está magnética como sempre e Henreid faz um Schumann interessante. Tipo de filme papai/mamãe que Hollywood fazia às dúzias. Nota 6.
FILOSOFANDO SOBRE FUTEBOL
Domingo antes do rachão africano, dei uma olhada em Brasil x Inglaterra, México, 1970.
Minha mãe apareceu na sala e perguntou o que era aquilo na tv, aquilo com uma imagem tão ruim. Expliquei, e o primeiro comentário dela foi : "Nossa! Parece tão chato!"
Depois assistimos o vale-tudo africano e ela acabou dizendo : 'Mas isso também é bem chato! Tudo o que eles fazem é correr e se jogar uns sobre os outros." Weeeeel....comecei a pensar então....
Dizem que a copa de 70 foi a melhor e o que parece ser chato hoje seria assim tão chato se fosse ao vivo? Explico:
Daqui a quarenta anos ( em 2050 ) será que Brasil x Costa do Marfim terá algum interesse? Voce já tentou rever a final de 94, Brasil 0x0 Itália ? É masoquismo puro.
Vamos ao jogo de 1970.
Primeira coisa que estranhamos: o jogo tem muito espaço. Antes de 1974 não se marcava no campo do adversário. O campo do adversário era CAMPO DO ADVERSÁRIO. A marcação só ocorria a partir do ataque. Então havia muito tempo para se pensar a jogada. O cérebro funcionava com mais clareza, o stress era menor. Então a bola não se demorava na defesa. O jogo era basicamente de ataque para ataque.
Segundo. Uma total ausência de medo. Como não se marcava a saída de bola, nada de pavor de perder a bola. Se tocava com carinho, de lá pra lá ( sempre para a frente, eram 3 toques até estar no ataque ) e então se procurava resolver o ataque.
Terceiro. Não existe o toque de primeira, há um exibicionismo no trato com a pelota, o empurrão é muito raro. Se entra muito na canela, poucos carrinhos. A marcação na defesa é quase igual a de hoje. Cinco contra três. O meio campo é que fica vazio.
Mas há uma sensação de tempo, de lentidão, de usufruir o pensamento. Não vou entrar na inutilidade futil de dizer se Rivellino ou Bobby Charlton conseguiriam jogar hoje. Pelé hoje seria melhor preparado atleticamente, a medicina esportiva o protegeria mais. No final daria no mesmo. Eles enfrentariam melhores defesas mas estariam melhor condicionados. Em 1970 um problema de menisco ou uma fratura era fim de carreira. Mas o que mais percebo no futebol antigo é a ausência de stress. E foi minha mãe quem percebeu isso no meio do jogo africano: o stress que existe no jogo de hoje, a pressa absurda, os rostos completamente crispados, a ausência de prazer ( com excessão de Messi e de jogos que acabam em 7x0 ).
Penso que o futebol de Brasil e Inglaterra, 1970, ainda se pauta pela estética. Há tempo para se pensar uma bela jogada e para se apreciar essa jogada. Seria maravilhoso o super-slow naquele quarto gol contra a Itália. Conteúdo e pouca forma.
O futebol hoje é bloqueio e cortada. Milhões de bolas jogadas a esmo na área e uma tabela a cada 30 minutos jogados. Não há tempo para pensar e tudo o que nos fascina é o fato de NÃO SE SABER O FIM DA HISTÓRIA. Se for tirado o suspense do resultado final, quase nada resta que nos prenda a atenção.
Ficamos então fascinados pelo rosto em slow, pela rede que se estufa, pela bola girando. Tecnologia tentando preencher a miséria estética. Ninguém se interesserá por Brasil e Costa do Marfim em 2050. Nem eu e nem voce.
Minha mãe apareceu na sala e perguntou o que era aquilo na tv, aquilo com uma imagem tão ruim. Expliquei, e o primeiro comentário dela foi : "Nossa! Parece tão chato!"
Depois assistimos o vale-tudo africano e ela acabou dizendo : 'Mas isso também é bem chato! Tudo o que eles fazem é correr e se jogar uns sobre os outros." Weeeeel....comecei a pensar então....
Dizem que a copa de 70 foi a melhor e o que parece ser chato hoje seria assim tão chato se fosse ao vivo? Explico:
Daqui a quarenta anos ( em 2050 ) será que Brasil x Costa do Marfim terá algum interesse? Voce já tentou rever a final de 94, Brasil 0x0 Itália ? É masoquismo puro.
Vamos ao jogo de 1970.
Primeira coisa que estranhamos: o jogo tem muito espaço. Antes de 1974 não se marcava no campo do adversário. O campo do adversário era CAMPO DO ADVERSÁRIO. A marcação só ocorria a partir do ataque. Então havia muito tempo para se pensar a jogada. O cérebro funcionava com mais clareza, o stress era menor. Então a bola não se demorava na defesa. O jogo era basicamente de ataque para ataque.
Segundo. Uma total ausência de medo. Como não se marcava a saída de bola, nada de pavor de perder a bola. Se tocava com carinho, de lá pra lá ( sempre para a frente, eram 3 toques até estar no ataque ) e então se procurava resolver o ataque.
Terceiro. Não existe o toque de primeira, há um exibicionismo no trato com a pelota, o empurrão é muito raro. Se entra muito na canela, poucos carrinhos. A marcação na defesa é quase igual a de hoje. Cinco contra três. O meio campo é que fica vazio.
Mas há uma sensação de tempo, de lentidão, de usufruir o pensamento. Não vou entrar na inutilidade futil de dizer se Rivellino ou Bobby Charlton conseguiriam jogar hoje. Pelé hoje seria melhor preparado atleticamente, a medicina esportiva o protegeria mais. No final daria no mesmo. Eles enfrentariam melhores defesas mas estariam melhor condicionados. Em 1970 um problema de menisco ou uma fratura era fim de carreira. Mas o que mais percebo no futebol antigo é a ausência de stress. E foi minha mãe quem percebeu isso no meio do jogo africano: o stress que existe no jogo de hoje, a pressa absurda, os rostos completamente crispados, a ausência de prazer ( com excessão de Messi e de jogos que acabam em 7x0 ).
Penso que o futebol de Brasil e Inglaterra, 1970, ainda se pauta pela estética. Há tempo para se pensar uma bela jogada e para se apreciar essa jogada. Seria maravilhoso o super-slow naquele quarto gol contra a Itália. Conteúdo e pouca forma.
O futebol hoje é bloqueio e cortada. Milhões de bolas jogadas a esmo na área e uma tabela a cada 30 minutos jogados. Não há tempo para pensar e tudo o que nos fascina é o fato de NÃO SE SABER O FIM DA HISTÓRIA. Se for tirado o suspense do resultado final, quase nada resta que nos prenda a atenção.
Ficamos então fascinados pelo rosto em slow, pela rede que se estufa, pela bola girando. Tecnologia tentando preencher a miséria estética. Ninguém se interesserá por Brasil e Costa do Marfim em 2050. Nem eu e nem voce.
VIAGEM SENTIMENTAL - LAURENCE STERNE
Machado de Assis adorava Sterne, e lendo esse brilhante irlandês, logo notamos a influência que Laurence exerceu sobre o genial Machado. Como acontece no autor braileiro, Sterne brinca com o texto, comenta o que escreve, finge ser pessoa real aquilo que criou no papel e faz de gente de carne e osso, ficção. Mas tem mais:
Em pleno século XVIII, ele desobedece a pontuação, ignora regras, ignora maiúsculas, ignora parágrafo. Coloca uma Letra grande em meio a frase, começa diálogos sem travessão, E abandona uma narração ao meio e Inicia uma nova história sem mudar de parágrafo. Quando não, deixa um capítulo em branco por se confessar sem inspiração. Ou completa toda a folha com pontos por se envergonhar do que pensou em escrever. Para Sterne, uma Página em branco é um novo mundo. O humor É rei.
Mas não é autor fácil. Muito pelo contrário. Se este VIAGEM SENTIMENTAL é até que simples, TRISTRAM SHANDY é o ponto culminante da arte de Sterne e é o livro que prova sua genialidade. Em Shandy o satirista atinge a altura de Swift, em VIAGEM SENTIMENTAL, que ele deixou inacabado, apenas entrevemos aquilo que ele foi. Dá menos trabalho para ler e dá muito menos prazer.
Em Shandy este irlandês excêntrico chega a gastar 80 páginas para descrever uma escada sendo descida. Sim, oitenta páginas em letra miúda. MAS COMO? Ora, Sterne É o mago da viagem mental. Cada passo dado nessa escada traz uma conversinha que traz uma anedota que traz uma lembrança que traz uma personagem nova & que traz mais uma história & assim nos vamos e só bem depois disso & daquilo é Que voltamos a tal escada. Mas tem mais:
Laurence Sterne fala de Sexo todo o tempo. Tudo o que ele escreve é coito & gozo & foda cifrada. Neste VIAGEM SENTIMENTAL em suas andanças pela França, ele jamais descreve as paisagens, os lugares ou as estradas. Ele só fala das moças, sejam baronesas ou sejam empregadinhas de hotel. Por todas ele se apaixona, e todas ele esquece. E depois as leva a cama. Ou não? ( )?
Aliás o livro termina com uma frase pelo meio. E sabe-se que era pra acabar assim mesmo. O que Sterne não teve tempo de escrever foi o livro dois, Que se passaria na Itália. Que pena.....
Com o começo da industrialização britânica um monte de gente que era Matuto de aldeia virou urbano trabalhador. A alfabetização se fez em massa e uma montanha de jornais, revistas, livros e fascículos apareceram da noite pro dia. É o tempo em que Henry Fielding lança TOM JONES, e Defoe manda ROBINSON CRUSOE e Swift VIAGENS DE GULLIVER e surgem o dr. Johnson com seu diário e Sterne está nesse meio. Montes de escritores, de poetas, de jornalistas, de sátiras e de livros pornôs. O século XVIII foi o século...!
O inglês descobriu o prazer de ler. E STERNE nos exibe o prazer em escrever.
Se você está acostumado a ler, se você já chegou ao nivel de alfabetização de um inglês/leitor/de 1780, procure ler o TRISTRAM SHANDY. Mas se voce ainda lê só o que tem cem páginas sem grandes complicações & vôos, vá de VIAGEM SENTIMENTAL. Depois você lê o livro sobre meu amigo Shandy.
& então você escreve aqui o que achou.
morou ?
mas Que diabos de nome é esse? Tristram? e lá se vai o velho Laurence Sterne escrever 60 páginas sobre o porque desse nome: Tristram. Vá lá se saber.
Esse povo inventou o humor britânico. O Monty Python habita suas linhas. 1700 e uns quebrados e os caras eram uns safados ( estou falando de Swift e Fielding e Sterne e etc & etc .... ); !!!! caraca!!!!! Morou?
Em pleno século XVIII, ele desobedece a pontuação, ignora regras, ignora maiúsculas, ignora parágrafo. Coloca uma Letra grande em meio a frase, começa diálogos sem travessão, E abandona uma narração ao meio e Inicia uma nova história sem mudar de parágrafo. Quando não, deixa um capítulo em branco por se confessar sem inspiração. Ou completa toda a folha com pontos por se envergonhar do que pensou em escrever. Para Sterne, uma Página em branco é um novo mundo. O humor É rei.
Mas não é autor fácil. Muito pelo contrário. Se este VIAGEM SENTIMENTAL é até que simples, TRISTRAM SHANDY é o ponto culminante da arte de Sterne e é o livro que prova sua genialidade. Em Shandy o satirista atinge a altura de Swift, em VIAGEM SENTIMENTAL, que ele deixou inacabado, apenas entrevemos aquilo que ele foi. Dá menos trabalho para ler e dá muito menos prazer.
Em Shandy este irlandês excêntrico chega a gastar 80 páginas para descrever uma escada sendo descida. Sim, oitenta páginas em letra miúda. MAS COMO? Ora, Sterne É o mago da viagem mental. Cada passo dado nessa escada traz uma conversinha que traz uma anedota que traz uma lembrança que traz uma personagem nova & que traz mais uma história & assim nos vamos e só bem depois disso & daquilo é Que voltamos a tal escada. Mas tem mais:
Laurence Sterne fala de Sexo todo o tempo. Tudo o que ele escreve é coito & gozo & foda cifrada. Neste VIAGEM SENTIMENTAL em suas andanças pela França, ele jamais descreve as paisagens, os lugares ou as estradas. Ele só fala das moças, sejam baronesas ou sejam empregadinhas de hotel. Por todas ele se apaixona, e todas ele esquece. E depois as leva a cama. Ou não? ( )?
Aliás o livro termina com uma frase pelo meio. E sabe-se que era pra acabar assim mesmo. O que Sterne não teve tempo de escrever foi o livro dois, Que se passaria na Itália. Que pena.....
Com o começo da industrialização britânica um monte de gente que era Matuto de aldeia virou urbano trabalhador. A alfabetização se fez em massa e uma montanha de jornais, revistas, livros e fascículos apareceram da noite pro dia. É o tempo em que Henry Fielding lança TOM JONES, e Defoe manda ROBINSON CRUSOE e Swift VIAGENS DE GULLIVER e surgem o dr. Johnson com seu diário e Sterne está nesse meio. Montes de escritores, de poetas, de jornalistas, de sátiras e de livros pornôs. O século XVIII foi o século...!
O inglês descobriu o prazer de ler. E STERNE nos exibe o prazer em escrever.
Se você está acostumado a ler, se você já chegou ao nivel de alfabetização de um inglês/leitor/de 1780, procure ler o TRISTRAM SHANDY. Mas se voce ainda lê só o que tem cem páginas sem grandes complicações & vôos, vá de VIAGEM SENTIMENTAL. Depois você lê o livro sobre meu amigo Shandy.
& então você escreve aqui o que achou.
morou ?
mas Que diabos de nome é esse? Tristram? e lá se vai o velho Laurence Sterne escrever 60 páginas sobre o porque desse nome: Tristram. Vá lá se saber.
Esse povo inventou o humor britânico. O Monty Python habita suas linhas. 1700 e uns quebrados e os caras eram uns safados ( estou falando de Swift e Fielding e Sterne e etc & etc .... ); !!!! caraca!!!!! Morou?
O BANDIDO DA LUZ VERMELHA- ROGERIO SGANZERLA
Seria este o mais genial filme feito no Brasil ? Veja o que digo, o mais genial é diferente de o melhor. Para ser o melhor é necessária a perfeição e perfeito o filme de Sganzerla não é. O som é deficiente, a montagem às vezes é feita às cacetadas e os atores se perdem. Mas genialidade não é perfeição, genialidade é fecundação, potência, coragem. E este filme é sim, a hora e vinte e cinco mais genial já feita no país.
Mas está longe de ser o melhor.
Rogerio Sganzerla tinha vinte anos quando o escreveu e dirigiu. Vinte anos... e sem dinheiro. Mas o texto deste filme, as frases cunhadas em sua narração esculachada ( destaco esta, que é jóia de filosofia : " se não podemos fazer a gente esculhamba" ), a vontade de explodir que há em cada fotograma, a garra genuína do sangue jovem tentado dizer tudo e se perdendo...é prova de talento verdadeiro, de brilho, de gênio. O filme mostra o país de seu tempo e antecipa o de agora. Bandidagem feita por manchetes de jornal, políticos misturados a bandidos, violência cega e suicida. O Kane de Orson Welles está presente na forma do enredo, mas Godard e seu Pierrot são citados sem parar. O final, hilário e hiper brasileiro, é homenagem explícita ao doido gênio francês.
São ruas e gente, câmera na mão, narração bombástica de rádio, tv e mentiras, e a solidão. O filme voa entre essas ruas, essas cenas mal ensaiadas, o som sem sincronização, a trilha sonora que sempre vem em volume errado. Mas com toda essa precariedade o filme sobrevive, cresce e nos faz sentir. Quando ele termina ainda fica na gente uma vontade de fazer.
Fazer um filme, fazer um texto, fazer um mico, um erro ou simplesmente ir pra rua andar e ver...........
Mais uma lista de 50 melhores saiu esta semana. Os 50 melhores filmes não-anglo/americanos de todos os tempos. Ganhou OS SETE SAMURAIS de Kurosawa, o que me deixou satisfeito. Mas em sétimo está CIDADE DE DEUS. Cidade é excelente, mas o sétimo melhor filme do século ? Batendo tudo de Bunuel, Renoir, Truffaut, Herzog, Lang, e um imenso etc. É lista de quem viu poucos filmes, só os mais recentes e meia dúzia de clássicos, mas o que quero falar é das mensagens que logo vieram, pedindo O BANDIDO DA LUZ VERMELHA no lugar de Cidade.
Cidade é muito melhor, não há como comparar. Mas, como falei, O BANDIDO tem mais inventividade, talento bruto, poder e alcance. Os americanos amam Cidade porque ele consegue ser exótico com suas favelas e favelados e ao mesmo tempo ele é muito próximo de qualquer americano por seu estilo de edição e de cor. É bem feito, profissional, bem narrado, perfeito. Um americano acharia O BANDIDO insuportável. ( A não ser que fosse um Scorsese da vida ).
É um filme brasileiro. Mais que isso, paulista. Mais que isso, ele é da boca do lixo.
Rogério explodiu. A tensão que há no filme, a eletricidade, a fagulha de destruição, e ao mesmo tempo, a vontade de viver não pode ser repetida. Como aconteceu com Welles e com Vigo, o filme foi começo e fim de uma carreira.
Só se explode uma vez. O resto é fumaça.
Mas está longe de ser o melhor.
Rogerio Sganzerla tinha vinte anos quando o escreveu e dirigiu. Vinte anos... e sem dinheiro. Mas o texto deste filme, as frases cunhadas em sua narração esculachada ( destaco esta, que é jóia de filosofia : " se não podemos fazer a gente esculhamba" ), a vontade de explodir que há em cada fotograma, a garra genuína do sangue jovem tentado dizer tudo e se perdendo...é prova de talento verdadeiro, de brilho, de gênio. O filme mostra o país de seu tempo e antecipa o de agora. Bandidagem feita por manchetes de jornal, políticos misturados a bandidos, violência cega e suicida. O Kane de Orson Welles está presente na forma do enredo, mas Godard e seu Pierrot são citados sem parar. O final, hilário e hiper brasileiro, é homenagem explícita ao doido gênio francês.
São ruas e gente, câmera na mão, narração bombástica de rádio, tv e mentiras, e a solidão. O filme voa entre essas ruas, essas cenas mal ensaiadas, o som sem sincronização, a trilha sonora que sempre vem em volume errado. Mas com toda essa precariedade o filme sobrevive, cresce e nos faz sentir. Quando ele termina ainda fica na gente uma vontade de fazer.
Fazer um filme, fazer um texto, fazer um mico, um erro ou simplesmente ir pra rua andar e ver...........
Mais uma lista de 50 melhores saiu esta semana. Os 50 melhores filmes não-anglo/americanos de todos os tempos. Ganhou OS SETE SAMURAIS de Kurosawa, o que me deixou satisfeito. Mas em sétimo está CIDADE DE DEUS. Cidade é excelente, mas o sétimo melhor filme do século ? Batendo tudo de Bunuel, Renoir, Truffaut, Herzog, Lang, e um imenso etc. É lista de quem viu poucos filmes, só os mais recentes e meia dúzia de clássicos, mas o que quero falar é das mensagens que logo vieram, pedindo O BANDIDO DA LUZ VERMELHA no lugar de Cidade.
Cidade é muito melhor, não há como comparar. Mas, como falei, O BANDIDO tem mais inventividade, talento bruto, poder e alcance. Os americanos amam Cidade porque ele consegue ser exótico com suas favelas e favelados e ao mesmo tempo ele é muito próximo de qualquer americano por seu estilo de edição e de cor. É bem feito, profissional, bem narrado, perfeito. Um americano acharia O BANDIDO insuportável. ( A não ser que fosse um Scorsese da vida ).
É um filme brasileiro. Mais que isso, paulista. Mais que isso, ele é da boca do lixo.
Rogério explodiu. A tensão que há no filme, a eletricidade, a fagulha de destruição, e ao mesmo tempo, a vontade de viver não pode ser repetida. Como aconteceu com Welles e com Vigo, o filme foi começo e fim de uma carreira.
Só se explode uma vez. O resto é fumaça.
OZU/ MIZOGUCHI/ ALMODOVAR/ ROCK HUDSON/ DORIS DAY
A PRINCESA DAS OSTRAS de Ernst Lubistch
Mais um filme silencioso de Lubistch de sua fase alemã. É uma deliciosa história sobre herdeira milionária e seu principe. Trata-se de comédia mágica, encantadora. Os cenários, irreais, são por sí um prazer. O filme é todo alegria. Enjoy it. Nota 7.
O INTENDENTE SANSHO de Kenji Mizoguchi
Este clássico de Mizoguchi toca na maior chaga da história humana : a escravidão. Mas há mais, ele fala da relação entre mãe e filhos, entre irmãos, fala ainda da decadência e do gosto azedo de toda vingança. Visualmente trata-se de uma obra-prima. Cada cena é uma sinfonia de flores, rostos e de água. Mizoguchi, o mais feminino dos diretores do Japão, desenvolve este enredo, doloroso, triste, poético, com toques de pincel em porcelana. É um filme perfeito e que tende a ser ainda melhor ao ser revisto. O final é inesquecível. Nota DEZ.
CONFIDÊNCIAS A MEIA-NOITE de Michael Gordon com Doris Day, Rock Hudson e Thelma Ritter e ainda Tony Randall
Doris saiu de moda na era hippie. Foi chamada de a mais virgem das virgens do cinema. Mas é pura doideira freak dizer isso. Ao rever seus filmes notamos o quanto ela era sexy. É ainda o modelo de gente como Jennifer Anniston, Meg Ryan e Reese Witherspoon. Rock é um Clooney mais elegante ainda ( e mais afetado ). O filme, o primeiro dos dois, é aquela bobagem bacana sobre moça que odeia playboy e depois passa a amá-lo. O cenário é hiper colorido, Rock faz um mentiroso muito bem e Doris é deliciosa. Um clássico da sessão da tarde. Nota 7.
VOLTA MEU AMOR de Delbert Mann com Doris Day, Rock Hudson e Tony Randall
Sobre publicitário anti-ético e sua rival. É claro que acabam por se apaixonar. É claro que tudo é colorido, fake e muito divertido. E Doris não é uma chata virginal. O filme, o segundo dos dois, ainda é legal. Perfeito para uma tarde de frio. Nota 6.
LE BONHEUR de Agnés Varda
Um homem casado e feliz arruma uma amante. Ele continua feliz e a amante é feliz também. Mas ele, ingênuo e idealista, pensa que a mulher pode aceitar sua felicidade por ter duas mulheres que o amam e a quem ele também ama. Mas talvez não seja assim... de qualquer modo, ao final do filme, ele e a amante continuam felizes. Este filme, de belíssimo colorido, que tem um trio de atores lindos e contentes, não tem trama, não tem drama, não tem comédia. Ele mostra, com muita criatividade e engenho, com uma edição ágil, três adultos e duas crianças comuns e ao mesmo tempo muito especiais. Eis um clássico simples, um belo momento da nouvelle-vague. Lindo filme. Nota 7.
ABRAÇOS PARTIDOS de Pedro Almodóvar com Lluis Homar e Penélope Cruz
Já aviso: eu detestei este filme. Ele é chato, maneiroso, sem nenhum tipo de emoção verdadeira. Tudo parece forçado ou pior: previsível. Dá pra adivinhar tudo o que vai acontecer. Poderia ser uma comédia, mas é levado a sério. Imperdoávelmente vazio. Nota 1.
TOKYO STORY de Yasujiro Ozu
Após os 7 Samurais de Kurosawa, este é considerado normalmente o melhor filme japonês da história. É o filme favorito de Wenders e de vários diretores americanos moderninhos. O estilo de Ozu está todo aqui. Os atores conversam olhando para a câmera. Câmera que está sempre a altura do tatami. Ozu evita as emoções fortes, todas são sutis, mas essas emoções estão sempre presentes, batendo a porta, nos olhares e nos corpos que se encolhem. O tema é típico de Ozu : a família. Trata de dois pais, idosos, que vão à Tóquio visitar os filhos. Nenhum filho é ruim ou frio, mas eles simplesmente não têm tempo livre para os pais. Apenas a nora viúva parece os entender. Nada explode, não há nenhuma cena de dor ou de raiva, mas dentro de nós, lentamente, delicadamente, vai nascendo uma sensação de dor e de inevitabilidade. Misturando seus ingredientes, com precisão poética, Ozu nos leva para dentro daquelas casas, daqueles rostos, daquelas vidas. O filme é uma obra-prima absoluta. Ozu era um santo. Nota DEZ !!!!!!
Mais um filme silencioso de Lubistch de sua fase alemã. É uma deliciosa história sobre herdeira milionária e seu principe. Trata-se de comédia mágica, encantadora. Os cenários, irreais, são por sí um prazer. O filme é todo alegria. Enjoy it. Nota 7.
O INTENDENTE SANSHO de Kenji Mizoguchi
Este clássico de Mizoguchi toca na maior chaga da história humana : a escravidão. Mas há mais, ele fala da relação entre mãe e filhos, entre irmãos, fala ainda da decadência e do gosto azedo de toda vingança. Visualmente trata-se de uma obra-prima. Cada cena é uma sinfonia de flores, rostos e de água. Mizoguchi, o mais feminino dos diretores do Japão, desenvolve este enredo, doloroso, triste, poético, com toques de pincel em porcelana. É um filme perfeito e que tende a ser ainda melhor ao ser revisto. O final é inesquecível. Nota DEZ.
CONFIDÊNCIAS A MEIA-NOITE de Michael Gordon com Doris Day, Rock Hudson e Thelma Ritter e ainda Tony Randall
Doris saiu de moda na era hippie. Foi chamada de a mais virgem das virgens do cinema. Mas é pura doideira freak dizer isso. Ao rever seus filmes notamos o quanto ela era sexy. É ainda o modelo de gente como Jennifer Anniston, Meg Ryan e Reese Witherspoon. Rock é um Clooney mais elegante ainda ( e mais afetado ). O filme, o primeiro dos dois, é aquela bobagem bacana sobre moça que odeia playboy e depois passa a amá-lo. O cenário é hiper colorido, Rock faz um mentiroso muito bem e Doris é deliciosa. Um clássico da sessão da tarde. Nota 7.
VOLTA MEU AMOR de Delbert Mann com Doris Day, Rock Hudson e Tony Randall
Sobre publicitário anti-ético e sua rival. É claro que acabam por se apaixonar. É claro que tudo é colorido, fake e muito divertido. E Doris não é uma chata virginal. O filme, o segundo dos dois, ainda é legal. Perfeito para uma tarde de frio. Nota 6.
LE BONHEUR de Agnés Varda
Um homem casado e feliz arruma uma amante. Ele continua feliz e a amante é feliz também. Mas ele, ingênuo e idealista, pensa que a mulher pode aceitar sua felicidade por ter duas mulheres que o amam e a quem ele também ama. Mas talvez não seja assim... de qualquer modo, ao final do filme, ele e a amante continuam felizes. Este filme, de belíssimo colorido, que tem um trio de atores lindos e contentes, não tem trama, não tem drama, não tem comédia. Ele mostra, com muita criatividade e engenho, com uma edição ágil, três adultos e duas crianças comuns e ao mesmo tempo muito especiais. Eis um clássico simples, um belo momento da nouvelle-vague. Lindo filme. Nota 7.
ABRAÇOS PARTIDOS de Pedro Almodóvar com Lluis Homar e Penélope Cruz
Já aviso: eu detestei este filme. Ele é chato, maneiroso, sem nenhum tipo de emoção verdadeira. Tudo parece forçado ou pior: previsível. Dá pra adivinhar tudo o que vai acontecer. Poderia ser uma comédia, mas é levado a sério. Imperdoávelmente vazio. Nota 1.
TOKYO STORY de Yasujiro Ozu
Após os 7 Samurais de Kurosawa, este é considerado normalmente o melhor filme japonês da história. É o filme favorito de Wenders e de vários diretores americanos moderninhos. O estilo de Ozu está todo aqui. Os atores conversam olhando para a câmera. Câmera que está sempre a altura do tatami. Ozu evita as emoções fortes, todas são sutis, mas essas emoções estão sempre presentes, batendo a porta, nos olhares e nos corpos que se encolhem. O tema é típico de Ozu : a família. Trata de dois pais, idosos, que vão à Tóquio visitar os filhos. Nenhum filho é ruim ou frio, mas eles simplesmente não têm tempo livre para os pais. Apenas a nora viúva parece os entender. Nada explode, não há nenhuma cena de dor ou de raiva, mas dentro de nós, lentamente, delicadamente, vai nascendo uma sensação de dor e de inevitabilidade. Misturando seus ingredientes, com precisão poética, Ozu nos leva para dentro daquelas casas, daqueles rostos, daquelas vidas. O filme é uma obra-prima absoluta. Ozu era um santo. Nota DEZ !!!!!!
MARCOVALDO OU AS ESTAÇÕES NA CIDADE - ITALO CALVINO
Eu sou Marcovaldo e Marcovaldo é um idiota. Ele vive numa cidade industrial e tem uma vida banal. Mas Marcovaldo ( e eu ) temos um segredo. Segredo que é dádiva e é maldição. Segredo que faz de nós dois idiotas. Eu e Marcovaldo não temos olhos para a cidade. Não enxergamos ruas, edifícios ou postes. Somos incapazes de perceber carros e lojas. Marcovaldo, assim como eu, idioticamente caminha pela cidade tendo olhos apenas para os ridículos fiapos de natureza que insistem em persistir.
Um pássaro que passa perdido, um cogumelo que brota em ponto de ônibus, uma planta presa em escritório, um peixe de riacho apodrecido, uma flor e uma borboleta condenada, uma árvore em meio ao caos. Marcovaldo se liga a tudo que é lembrete de natureza. Seu olhar reconhece importância somente no que deveria ser vivo. Eu e Marcovaldo somos prisioneiros da saudade daquilo que jamais conhecemos. Somos inapelávelmente patéticos.
Italo Calvino é o tipo de escritor mago. Seu dom não é o da observação ou da escrita. Seu dom é o da criação. Calvino cria barões que não pisam no chão, viscondes partidos ao meio, cidades invisíveis, amores ridículos. Todos os livros que tive o prazer de ler ( e Calvino é um prazer ) são festas de invenção. Calvino diante da folha em branco a preenche de fantasia e nos dá inesperados. Mas aqui, neste belo Marcovaldo, ele é quase realista. Quase. Pois em meio a verdade comum da vida na cidade, em meio a comédia que tanto lembra os bons filmes de Totó e de Monicelli, nasce a criação de Calvino, o fantástico surge, a surpresa. O livro faz rir. O livro nos faz tristes. Como em Fellini.
Coelho de laboratório, pombo da poluição, rio envenenado, planta em agonia, gato humanizado, noite na praça insone, montanha bosque de hospital. O natural-perfeito sempre manchado pela cidade podre. Luzes de neon que obscurecem a Lua. Marcovaldo ansia pela chuva e se perde encantado em nevoeiros espessos. Comemora quando a neve esconde a cidade. O livro de Marcovaldo/eu é feito de vários contos curtos, todos com uma estação do ano, a cidade de indústrias e a família de Marcovaldo. O livro é a mão de Italo Calvino desenhando quadros de desolação cômica. Faz rir.
Longe de ser uma obra-prima como são Cidades Invisíveis e As Cosmicômicas, este é um cativante relato sobre um imbecil simpático. A luta de Marcovaldo está perdida desde sempre. Mas é nessa derrota que reside sua nobreza.
Um pássaro que passa perdido, um cogumelo que brota em ponto de ônibus, uma planta presa em escritório, um peixe de riacho apodrecido, uma flor e uma borboleta condenada, uma árvore em meio ao caos. Marcovaldo se liga a tudo que é lembrete de natureza. Seu olhar reconhece importância somente no que deveria ser vivo. Eu e Marcovaldo somos prisioneiros da saudade daquilo que jamais conhecemos. Somos inapelávelmente patéticos.
Italo Calvino é o tipo de escritor mago. Seu dom não é o da observação ou da escrita. Seu dom é o da criação. Calvino cria barões que não pisam no chão, viscondes partidos ao meio, cidades invisíveis, amores ridículos. Todos os livros que tive o prazer de ler ( e Calvino é um prazer ) são festas de invenção. Calvino diante da folha em branco a preenche de fantasia e nos dá inesperados. Mas aqui, neste belo Marcovaldo, ele é quase realista. Quase. Pois em meio a verdade comum da vida na cidade, em meio a comédia que tanto lembra os bons filmes de Totó e de Monicelli, nasce a criação de Calvino, o fantástico surge, a surpresa. O livro faz rir. O livro nos faz tristes. Como em Fellini.
Coelho de laboratório, pombo da poluição, rio envenenado, planta em agonia, gato humanizado, noite na praça insone, montanha bosque de hospital. O natural-perfeito sempre manchado pela cidade podre. Luzes de neon que obscurecem a Lua. Marcovaldo ansia pela chuva e se perde encantado em nevoeiros espessos. Comemora quando a neve esconde a cidade. O livro de Marcovaldo/eu é feito de vários contos curtos, todos com uma estação do ano, a cidade de indústrias e a família de Marcovaldo. O livro é a mão de Italo Calvino desenhando quadros de desolação cômica. Faz rir.
Longe de ser uma obra-prima como são Cidades Invisíveis e As Cosmicômicas, este é um cativante relato sobre um imbecil simpático. A luta de Marcovaldo está perdida desde sempre. Mas é nessa derrota que reside sua nobreza.
BILL MURRAY/ CLOONEY/ BOGART/ GRIFFITH/ LUBISTCH/ TYRONE POWER
TARDE DEMAIS de William Wyler com Olivia de Havilland, Montgomery Clift, Ralph Richardson e Miriam Hopkins
Perfeito. Atores de gênio, roteiro com diálogos soberbos e a direção sempre impecável de Wyler. Um exemplo de que é possível transformar um livro genial ( de Henry James ) em filme memorável. Mais cometários abaixo. Nota DEZ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
DESEJOS PROIBIDOS de Max Ophuls com Charles Boyer, Danielle Darrieux e Vittorio de Sica
Talvez em termos visuais seja o filme mais refinado que já assisti. Um aula de estética e de gosto. A história exemplifica a perfeição a diferença em amor entre homens e mulheres. Elas têm mais coragem. Ophuls foi um dos grandes. Este é seu melhor filme. Nota DEZ!!!!!!!!!!!!!!!!!
UM DIA ESPECIAL de Michael Hoffmann com George Clooney e Michelle Pfeiffer
Um filme todo centrado no charme de dois atores. Para nossa alegria eles são realmente bons de se olhar. George Clooney ainda em seus tempos de ator leve e Michelle bela como sempre. O filme, sobre casal que se odeia e que passa a se amar, se deixa ver. É Sessão da Tarde clássica. 6.
RECRUTAS DA PESADA de Ivan Reitmann com Bill Murray, John Candy e Harold Ramis
Segundo filme de Murray e primeiro de Candy. Sobre dois caras que se alistam pensando ser a vida no quartel fácil. As comédias nos anos 80 viveram grande momento. É a época de Steve Martin, Eddie Murphy, Dan Ackroyd, Lily Tomlin, Martin Short, Leslie Nielsen, John Candy e ainda de Mel Brooks e Woody Allen. Mas, que surpresa, este filme não tem graça nenhuma!!!! Murray está especialmente ruim, exagerando seu tipo de malandro sonolento. Candy está ok mas aparece pouco. O diretor é o pai de Jason Reitmann e ficamos sabendo nos extras que este roteiro era para Cheech and Chong e que acabou com Bill e Harold. Tiraram as piadas sobre marijuana e a graça se foi. Uma chatice. Nota 3.
O FALCÃO MALTÊS de John Huston com Humphrey Bogart, Mary Astor, Peter Lorre
É o mais importante filme noir mas não é o melhor. Vemos aqui todo o nascimento de um gênero : música nervosa, imagens com sombras, mulher falsa, herói individualista e durão. O roteiro de Huston melhora o livro e Bogey está totalmente à vontade, ele nasceu para ser durão. Uma diversão de primeira e uma delicia para madrugadas frias e de chuva. Nota 9.
O FAVORITO DOS BÓRGIA de Henry King com Tyrone Power e Orson Welles
Filmado em palácios italianos, podemos ver a absurda beleza da renascença. O filme fala de tirania e de Tyrone como vassalo que muda de lado. King dirigia de tudo na Fox. Nunca foi genial, mas sabia fazer as coisas andarem. Tyrone era herói humano. O filme é ok. Nota 6.
INTOLERÂNCIA de David W. Griffith
Os Lumiere inventaram a imagem em movimento, Griffith inventou o cinema. Tudo o que pensamos ser "o cinema" foi idéia de Griffith : ação paralela, melodrama, correrias, cenários suntuosos ( aqui são gigantescos ), atores de carisma, movimento. Neste imenso filme ele conta várias histórias em várias épocas distintas, todas entrelaçadas. O filme ainda impressiona por sua inacreditável grandiosidade. Hoje ele seria impossívelmente caro. O cara era provávelmente louco. Ou não, seria o típico americano empreendedor do século XIX, o self-made man. Diversão que noventa e dois anos depois ainda se sustenta. Nota 7.
ENCONTROS E DESENCONTROS de Sofia Coppolla com Bill Murray e Scarlet Johansson
Revisto hoje após o burburinho da época o filme se mantém como modesto romance puritano. Nota-se algo de muito pudico em todo seu romantismo travado. É tristinho, engraçadinho, bobinho e bonitinho. Um belo raio x de uma geração toda "inha". Bill Murray faz bem Bill Murray no Japão. Scarlet está bonita e ruim. O filme é bacaninha. Nota 6.
MEU MELHOR COMPANHEIRO de Robert Stevenson com Dorothy McGuire e Fess Parker
Cachorro e família em fazenda texana do século XIX. Filme de cachorro de grande sucesso em seu tempo. Um dos clássicos da Disney. A diferença dos filmes de cachorro de hoje é que este cão é mais cachorro. Ele nada tem de criança, de humano, de tolinho. Briga com animais, foge, apronta e é absolutamente animalesco. Um bom filme. Nota 7.
EU NÃO QUERO SER UM HOMEM de Ernst Lubistch com Onny Oswalda
O instituto Goethe lança uma série de filmes mudos de Lubistch. Primeiro: é delicioso ver uma Alemanha em nada parecida com Lang ou Murnau. É um país muito alegre e de bem com a vida. O que pensamos da alegre Berlin dos anos 20 está aqui mostrado. A história, muito amoral, fala de moça que se veste de homem para poder sair a noite, e de dandy que se apaixona por esse "rapaz". O filme é hoje considerado um clássico gay. Lubistch faz tudo se parecer com champagne. O filme espuma e alegra. Nota 7.
GATINHA SELVAGEM de Ernst Lubistch com Pola Negri
Este vai mais longe. Soldados alegres, comandante bobão, batalhas de folia, rebeldes atrapalhados e muita malicia. Negri é a cara de Helena Bonham- Carter. Um detalhe histórico. Gente que é anti-americana gosta de dizer que foram os imigrantes do eixo Berlin-Vienna que fizeram Hollywood. Gente como Wyler, Wilder, Dieterle, Sirk, Lang, Murnau, Zinnemann, Preminger, e uma infinidade de roteiristas e fotógrafos. Dizem isso como se Ford, Buster Keaton, Vidor, Milestone, Fleming, Griffith, Wellman não estivessem lá desde sempre. O que se pode dizer é que os imigrantes trouxeram um tipo de filme mais urbano, mais ácido, mais sexy. Lubistch, que foi o imigrante de maior sucesso, se tornando um tipo de "dono" da Paramount, trouxe a comédia maliciosa, manhosa, vienense. Este filme, com sua leveza bem-humorada e seus cenários de bolo de noiva exemplifica todo seu glorioso talento. Nota 8.
Perfeito. Atores de gênio, roteiro com diálogos soberbos e a direção sempre impecável de Wyler. Um exemplo de que é possível transformar um livro genial ( de Henry James ) em filme memorável. Mais cometários abaixo. Nota DEZ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
DESEJOS PROIBIDOS de Max Ophuls com Charles Boyer, Danielle Darrieux e Vittorio de Sica
Talvez em termos visuais seja o filme mais refinado que já assisti. Um aula de estética e de gosto. A história exemplifica a perfeição a diferença em amor entre homens e mulheres. Elas têm mais coragem. Ophuls foi um dos grandes. Este é seu melhor filme. Nota DEZ!!!!!!!!!!!!!!!!!
UM DIA ESPECIAL de Michael Hoffmann com George Clooney e Michelle Pfeiffer
Um filme todo centrado no charme de dois atores. Para nossa alegria eles são realmente bons de se olhar. George Clooney ainda em seus tempos de ator leve e Michelle bela como sempre. O filme, sobre casal que se odeia e que passa a se amar, se deixa ver. É Sessão da Tarde clássica. 6.
RECRUTAS DA PESADA de Ivan Reitmann com Bill Murray, John Candy e Harold Ramis
Segundo filme de Murray e primeiro de Candy. Sobre dois caras que se alistam pensando ser a vida no quartel fácil. As comédias nos anos 80 viveram grande momento. É a época de Steve Martin, Eddie Murphy, Dan Ackroyd, Lily Tomlin, Martin Short, Leslie Nielsen, John Candy e ainda de Mel Brooks e Woody Allen. Mas, que surpresa, este filme não tem graça nenhuma!!!! Murray está especialmente ruim, exagerando seu tipo de malandro sonolento. Candy está ok mas aparece pouco. O diretor é o pai de Jason Reitmann e ficamos sabendo nos extras que este roteiro era para Cheech and Chong e que acabou com Bill e Harold. Tiraram as piadas sobre marijuana e a graça se foi. Uma chatice. Nota 3.
O FALCÃO MALTÊS de John Huston com Humphrey Bogart, Mary Astor, Peter Lorre
É o mais importante filme noir mas não é o melhor. Vemos aqui todo o nascimento de um gênero : música nervosa, imagens com sombras, mulher falsa, herói individualista e durão. O roteiro de Huston melhora o livro e Bogey está totalmente à vontade, ele nasceu para ser durão. Uma diversão de primeira e uma delicia para madrugadas frias e de chuva. Nota 9.
O FAVORITO DOS BÓRGIA de Henry King com Tyrone Power e Orson Welles
Filmado em palácios italianos, podemos ver a absurda beleza da renascença. O filme fala de tirania e de Tyrone como vassalo que muda de lado. King dirigia de tudo na Fox. Nunca foi genial, mas sabia fazer as coisas andarem. Tyrone era herói humano. O filme é ok. Nota 6.
INTOLERÂNCIA de David W. Griffith
Os Lumiere inventaram a imagem em movimento, Griffith inventou o cinema. Tudo o que pensamos ser "o cinema" foi idéia de Griffith : ação paralela, melodrama, correrias, cenários suntuosos ( aqui são gigantescos ), atores de carisma, movimento. Neste imenso filme ele conta várias histórias em várias épocas distintas, todas entrelaçadas. O filme ainda impressiona por sua inacreditável grandiosidade. Hoje ele seria impossívelmente caro. O cara era provávelmente louco. Ou não, seria o típico americano empreendedor do século XIX, o self-made man. Diversão que noventa e dois anos depois ainda se sustenta. Nota 7.
ENCONTROS E DESENCONTROS de Sofia Coppolla com Bill Murray e Scarlet Johansson
Revisto hoje após o burburinho da época o filme se mantém como modesto romance puritano. Nota-se algo de muito pudico em todo seu romantismo travado. É tristinho, engraçadinho, bobinho e bonitinho. Um belo raio x de uma geração toda "inha". Bill Murray faz bem Bill Murray no Japão. Scarlet está bonita e ruim. O filme é bacaninha. Nota 6.
MEU MELHOR COMPANHEIRO de Robert Stevenson com Dorothy McGuire e Fess Parker
Cachorro e família em fazenda texana do século XIX. Filme de cachorro de grande sucesso em seu tempo. Um dos clássicos da Disney. A diferença dos filmes de cachorro de hoje é que este cão é mais cachorro. Ele nada tem de criança, de humano, de tolinho. Briga com animais, foge, apronta e é absolutamente animalesco. Um bom filme. Nota 7.
EU NÃO QUERO SER UM HOMEM de Ernst Lubistch com Onny Oswalda
O instituto Goethe lança uma série de filmes mudos de Lubistch. Primeiro: é delicioso ver uma Alemanha em nada parecida com Lang ou Murnau. É um país muito alegre e de bem com a vida. O que pensamos da alegre Berlin dos anos 20 está aqui mostrado. A história, muito amoral, fala de moça que se veste de homem para poder sair a noite, e de dandy que se apaixona por esse "rapaz". O filme é hoje considerado um clássico gay. Lubistch faz tudo se parecer com champagne. O filme espuma e alegra. Nota 7.
GATINHA SELVAGEM de Ernst Lubistch com Pola Negri
Este vai mais longe. Soldados alegres, comandante bobão, batalhas de folia, rebeldes atrapalhados e muita malicia. Negri é a cara de Helena Bonham- Carter. Um detalhe histórico. Gente que é anti-americana gosta de dizer que foram os imigrantes do eixo Berlin-Vienna que fizeram Hollywood. Gente como Wyler, Wilder, Dieterle, Sirk, Lang, Murnau, Zinnemann, Preminger, e uma infinidade de roteiristas e fotógrafos. Dizem isso como se Ford, Buster Keaton, Vidor, Milestone, Fleming, Griffith, Wellman não estivessem lá desde sempre. O que se pode dizer é que os imigrantes trouxeram um tipo de filme mais urbano, mais ácido, mais sexy. Lubistch, que foi o imigrante de maior sucesso, se tornando um tipo de "dono" da Paramount, trouxe a comédia maliciosa, manhosa, vienense. Este filme, com sua leveza bem-humorada e seus cenários de bolo de noiva exemplifica todo seu glorioso talento. Nota 8.
A MORTE ( DE UMA PALESTRA DE SCARLET MARTON )
Quando eu fui pagão.
Enterrava meu morto ( e ele era meu, e a morte era minha ) em casa. Ele ficava habitando meu jardim e fertilizava minha vida vegetal. Seu espírito intercederia por mim e era ele quem faria minha rosa florir. E eu sabia que iria morrer sob céu e sobre terra e saberia fazer vicejar o verde das folhas e sabia que a morte é a parte principal da vida. Pois nesse universo primitivo tudo é morte: cada estrela e cada pedra é morta, todo presságio a anuncia. Toda casa tem seu túmulo e seu altar, todo jardim guarda um espirito. A morte regendo a vida, a morte sendo presente, a morte como parte de vida.
Quando me tornei cristão. Passei a crer apenas na vida. A morte tornou-se maldita. Sagrada é a vida, dada por Deus, a morte é incompreensível. E detestável. A vida continua como ressurreição, a morte deve ser vencida. Cemitérios para depositar corpos, corpos que contém alma, corpos que se erguerão, um dia. A morte deve ser banida.
Quando me fiz moderno. Lugares para morrer, de preferencia dormindo. Não posso encarar minha morte, que ela venha em sono de ópio ou em susto de acidente. Que o luto se faça por um dia em capela distante e que o resto seja depositado entre restos. Longe de mim a morte. Que ela se torne espetáculo ficcional, que se torne explosão, malabarismo, show de cores, mas que eu me esqueça de sua realidade. Passo a acreditar que toda morte é não-natural, que morrer é sempre um acidente, um erro médico, um cigarro a mais, uma alimentação errada. Esqueço que morrer é natural, corriqueiro, banal.
Ouço então que Pascal pensava exatamente o que sempre pensei: que toda a história da cultura é uma tentativa de se distrair da morte. O homem culto, racional, tem na morte algo de insuportável. Um intelecto desenvolvido não suporta a idéia do inevitável, do além de sua compreensão. Então ele foge dessa lembrança. E cada vez mais se entrega a distração. Teatro, ritual, livros, passeios, filmes, sexo, romance, drogas, disputas, consumo, virtualidades. Nos distraimos olhando estrelas ( que são mortas ), vendo espetáculos ( de autores mortos ), filosofando ( sobre idéias mortais ). Tentamos acreditar em religiões que consolam. Mas no íntimo todos sabemos: tudo isso nada significa diante da morte. Mas....
Porque o homem é o único bicho a saber de seu fim? Porque mesmo sabendo que tudo morre persistimos? Porque pensar na morte é viver? Memento mori.
Sempre tenho em mim a heróica imagem de um homem primitivo olhando para seu filho morto e pensando aturdido : Porque? Porque? Porque?
Não é a escrita ou a descoberta do fogo que fez de nós macacos mais evoluídos. Foi a consciencia do fim que nos fez humanos. O tentar preservar a memória dos que morreram, o tentar esquecer o próprio fim, o se proteger desse fim. Ser humano é saber-se finito.
Mas existe o risco da desumanização. Que seria ignorar a morte. Não mais preservar memórias, ignorar completamente a própria finitude e principalmente, deixar de respeitar e temer a morte. Em mundo sem a presença da morte seria o homem apenas um produtor de eternos presentes, sem qualquer compromisso com futuro ou responsabilidade por um passado. Insetos.
Quando morrer eu existirei como cinza. Misturarei meu pó ao pó de onde todos vieram. E estarei na situação de todos aqueles que vieram antes de mim. Serei mais um e perderei enfim a arrogancia de ser único. Meu pó será como é e sempre foi e sempre será o universo: para sempre.
Os pagãos sabiam disso. Morrer, para eles, era retornar a Terra. Voltar ao ciclo da natureza. Tornar-se solo. Humus- Humano. Ser um homem era saber morrer. Viver era preparar-se para morrer. E saber disso era aproveitar seu tempo aqui e agora. Carpe diem.
Não quero dizendo isso advogar o luto antecipado ou a morbidez fatalista. O que penso é que precisamos nos apequenar diante do inevitável, adquirir uma noção de importância perante o inevitável, entender que todos estamos nesse caminho.
Saber que na vida só existem dois momentos de súbita e completa clareza ( e que são os momentos onde cessa o tempo ): o momento do amor verdadeiro e o momento da morte. Todo o resto é preparação para amar e morrer ( em seu melhor ) ou covarde negação dessa prova de vida ( em seu pior ). Como dizia Montaigne, filosofar é aprender a morrer.
Enterrava meu morto ( e ele era meu, e a morte era minha ) em casa. Ele ficava habitando meu jardim e fertilizava minha vida vegetal. Seu espírito intercederia por mim e era ele quem faria minha rosa florir. E eu sabia que iria morrer sob céu e sobre terra e saberia fazer vicejar o verde das folhas e sabia que a morte é a parte principal da vida. Pois nesse universo primitivo tudo é morte: cada estrela e cada pedra é morta, todo presságio a anuncia. Toda casa tem seu túmulo e seu altar, todo jardim guarda um espirito. A morte regendo a vida, a morte sendo presente, a morte como parte de vida.
Quando me tornei cristão. Passei a crer apenas na vida. A morte tornou-se maldita. Sagrada é a vida, dada por Deus, a morte é incompreensível. E detestável. A vida continua como ressurreição, a morte deve ser vencida. Cemitérios para depositar corpos, corpos que contém alma, corpos que se erguerão, um dia. A morte deve ser banida.
Quando me fiz moderno. Lugares para morrer, de preferencia dormindo. Não posso encarar minha morte, que ela venha em sono de ópio ou em susto de acidente. Que o luto se faça por um dia em capela distante e que o resto seja depositado entre restos. Longe de mim a morte. Que ela se torne espetáculo ficcional, que se torne explosão, malabarismo, show de cores, mas que eu me esqueça de sua realidade. Passo a acreditar que toda morte é não-natural, que morrer é sempre um acidente, um erro médico, um cigarro a mais, uma alimentação errada. Esqueço que morrer é natural, corriqueiro, banal.
Ouço então que Pascal pensava exatamente o que sempre pensei: que toda a história da cultura é uma tentativa de se distrair da morte. O homem culto, racional, tem na morte algo de insuportável. Um intelecto desenvolvido não suporta a idéia do inevitável, do além de sua compreensão. Então ele foge dessa lembrança. E cada vez mais se entrega a distração. Teatro, ritual, livros, passeios, filmes, sexo, romance, drogas, disputas, consumo, virtualidades. Nos distraimos olhando estrelas ( que são mortas ), vendo espetáculos ( de autores mortos ), filosofando ( sobre idéias mortais ). Tentamos acreditar em religiões que consolam. Mas no íntimo todos sabemos: tudo isso nada significa diante da morte. Mas....
Porque o homem é o único bicho a saber de seu fim? Porque mesmo sabendo que tudo morre persistimos? Porque pensar na morte é viver? Memento mori.
Sempre tenho em mim a heróica imagem de um homem primitivo olhando para seu filho morto e pensando aturdido : Porque? Porque? Porque?
Não é a escrita ou a descoberta do fogo que fez de nós macacos mais evoluídos. Foi a consciencia do fim que nos fez humanos. O tentar preservar a memória dos que morreram, o tentar esquecer o próprio fim, o se proteger desse fim. Ser humano é saber-se finito.
Mas existe o risco da desumanização. Que seria ignorar a morte. Não mais preservar memórias, ignorar completamente a própria finitude e principalmente, deixar de respeitar e temer a morte. Em mundo sem a presença da morte seria o homem apenas um produtor de eternos presentes, sem qualquer compromisso com futuro ou responsabilidade por um passado. Insetos.
Quando morrer eu existirei como cinza. Misturarei meu pó ao pó de onde todos vieram. E estarei na situação de todos aqueles que vieram antes de mim. Serei mais um e perderei enfim a arrogancia de ser único. Meu pó será como é e sempre foi e sempre será o universo: para sempre.
Os pagãos sabiam disso. Morrer, para eles, era retornar a Terra. Voltar ao ciclo da natureza. Tornar-se solo. Humus- Humano. Ser um homem era saber morrer. Viver era preparar-se para morrer. E saber disso era aproveitar seu tempo aqui e agora. Carpe diem.
Não quero dizendo isso advogar o luto antecipado ou a morbidez fatalista. O que penso é que precisamos nos apequenar diante do inevitável, adquirir uma noção de importância perante o inevitável, entender que todos estamos nesse caminho.
Saber que na vida só existem dois momentos de súbita e completa clareza ( e que são os momentos onde cessa o tempo ): o momento do amor verdadeiro e o momento da morte. Todo o resto é preparação para amar e morrer ( em seu melhor ) ou covarde negação dessa prova de vida ( em seu pior ). Como dizia Montaigne, filosofar é aprender a morrer.
O PEQUENO ZACARIAS CHAMADO CINÁBRIO- E.T.A. HOFFMANN
Poeta, músico, pintor e principalmente contista. Hoffmann, alemão da grande era de Goethe e Beethoven, é o romântico mais lido de seu país. Principalmente seus contos de horror são hoje bastante populares. Ele foi inquieto, melancólico, idealista, proteico. Zacarias, finalmente traduzido, é um longo conto, ou curto romance, sobre fadas, magos e duendes. Mas é acima de tudo sobre a vida real.
Zacarias é pessoazinha disforme, repugnante e mal caráter. Uma fada sente piedade por ele e lhe concede o dom de ser admirado pelo trabalho dos outros. Zacarias, que se torna Cinábrio, continua o mesmo monstrinho de sempre, mas agora, todos vão enxergá-lo como possuidor do talento de quem estiver a seu lado.
O texto, simples e delicioso, com um humor ágil, joga ácido sobre o iluminismo ( para ele, o progresso é coisa imposta ao povo ) a ciência ( sempre cômica em suas deduções "profundas" nas quais fingimos dar importância ) a religião e até ao próprio romantismo. Mas ao contrário de Voltaire, que em seus contos nega qualquer consolo, em Hoffmann habita a esperança. Lendo, com grande prazer, este texto, sentimos que para ver o maravilhoso da vida, basta ter o desejo de perceber. Para Hoffmann ( e essa é a grande diferença entre os idealistas alemães e os cartesianos franceses ) o mundo é sim, mágico. As explicações científicas nada explicam, perdem-se em inúteis experimentos, provam o que é óbvio e fogem do inexplicável. Romântico que é, Hoffmann crê acima de tudo na maravilha humana. Seu modo de pensar seria massacrado no final do século XIX.
Freud tinha imenso apreço por Hoffmann. Seu texto é rico em símbolos de inconsciente. Ou não. Tudo o que voce esperava encontrar em Alice está aqui : maravilhamento. Zacarias daria um filme magnífico. Hoffmann continua vivo, e isso é fantástico.
Porque hoje, em época desiludida, precisamos mais que nunca dos tolos românticos para nos consolar, nos inspirar, fazer com que recordemos do tamanho que já tivemos. Vivemos um dia , faz tempo, em meio a titãs, acreditamos em mistérios; optamos por nos vulgarizar. Descemos.
No enfoque puramente político, eis um conto que expõe a tolice, atual e eterna, do puxa-saquismo, do conluio e da auto-ilusão. Cinábrio fala obviedades, faz banalidades e é tido por genial. Cercado de anônimos que trabalham e criam, é ele quem leva todo o crédito por tudo de bom que acontece.
Cinábrio poderia ser brasileiro e ter por nome Inácio. Hoffmann é de hoje.
Zacarias é pessoazinha disforme, repugnante e mal caráter. Uma fada sente piedade por ele e lhe concede o dom de ser admirado pelo trabalho dos outros. Zacarias, que se torna Cinábrio, continua o mesmo monstrinho de sempre, mas agora, todos vão enxergá-lo como possuidor do talento de quem estiver a seu lado.
O texto, simples e delicioso, com um humor ágil, joga ácido sobre o iluminismo ( para ele, o progresso é coisa imposta ao povo ) a ciência ( sempre cômica em suas deduções "profundas" nas quais fingimos dar importância ) a religião e até ao próprio romantismo. Mas ao contrário de Voltaire, que em seus contos nega qualquer consolo, em Hoffmann habita a esperança. Lendo, com grande prazer, este texto, sentimos que para ver o maravilhoso da vida, basta ter o desejo de perceber. Para Hoffmann ( e essa é a grande diferença entre os idealistas alemães e os cartesianos franceses ) o mundo é sim, mágico. As explicações científicas nada explicam, perdem-se em inúteis experimentos, provam o que é óbvio e fogem do inexplicável. Romântico que é, Hoffmann crê acima de tudo na maravilha humana. Seu modo de pensar seria massacrado no final do século XIX.
Freud tinha imenso apreço por Hoffmann. Seu texto é rico em símbolos de inconsciente. Ou não. Tudo o que voce esperava encontrar em Alice está aqui : maravilhamento. Zacarias daria um filme magnífico. Hoffmann continua vivo, e isso é fantástico.
Porque hoje, em época desiludida, precisamos mais que nunca dos tolos românticos para nos consolar, nos inspirar, fazer com que recordemos do tamanho que já tivemos. Vivemos um dia , faz tempo, em meio a titãs, acreditamos em mistérios; optamos por nos vulgarizar. Descemos.
No enfoque puramente político, eis um conto que expõe a tolice, atual e eterna, do puxa-saquismo, do conluio e da auto-ilusão. Cinábrio fala obviedades, faz banalidades e é tido por genial. Cercado de anônimos que trabalham e criam, é ele quem leva todo o crédito por tudo de bom que acontece.
Cinábrio poderia ser brasileiro e ter por nome Inácio. Hoffmann é de hoje.
COPA DO MUNDO
Minha mãe não acredita, mas eu lembro de um monte de caras fumando cigarros fedidos ( talvez Continental sem filtro ) e ouvindo a copa de 66. Recordo da tv com um campo de futebol preto e uma bolinha branca. O azar do Brasil foi cruzar com Eusébio. Portugal aliás, foi a primeira seleção européia a ter negros no time. Eusébio era um Christiano Ronaldo macho. Um Etoo muito melhorado.
Em 1970 tivemos o melhor time do mundo e da história. Nunca uma equipe campeã foi tão incontestável. O esquema era louco: 4-6-0. E deu certo!!!!! Lembro da estréia, a Tchecoslovákia saiu na frente e meu pai achou que vinha mais um vexame. Mas depois ficou fácil. Foi o jogo de Jairzinho. Inglaterra e Brasil foi um dos top five de todos os tempos. Charlton contra Pelé. Era pra ter sido 6x6 ou 8x8. O melhor jogador da Inglaterra era irlandês e nunca jogou uma copa ( George Best ), mas eles tinham Lee, Banks, Jack e Bobby. Tocavam de prima e perderam montes de gols. Do outro lado o melhor time da história do esporte. Foi ao vencer os ingleses que começamos a pensar: talvez dê. Foi pena o Brasil não cruzar com a Alemanha. Overath, Seeler e Beckembauer. E Gerd Muller, que marcou 9 gols nessa copa e foi o artilheiro. Mas os alemães ficaram na Itália, que venceu por 4x3 com prorrogação estafante. Lembro que no dia desse jogo teve festa junina no quintal de casa. Brasil e Peru eu ví na casa de minha madrinha. E na final jogamos um prato de espaguetti na casa de um italiano. O primeiro tempo foi 1x1 e muito dificil. A Itália tinha um zagueiro genial, Fachetti, e um grande atacante, Gigi Riva. Mas no segundo tempo eles cansaram e recordo Rivellino berrando no campo e o gol maravilhoso de Gerson. Gerson foi o melhor jogador daquela copa. Foi o cara. E teve aquele golaço do Carlos Alberto fechando aquela copa hors concours. 1970 foi o fim do romantismo. Brasil 4x1 Itália foi o fim de uma era. Não sei se foi a melhor final da história. Em 54 teve Alemanha e Hungria. Mas foi a final digna de uma copa brilhante. Uma copa onde 4 equipes poderiam ter vencido.
Se 70 foi o fim do romantismo, 74 foi a primeira copa moderna. A copa da Holanda. Eu adorava os holandeses. Era o time de maio de 68. Cabeludos, desencanados, esquisitões, sexys. A camisa laranja passou a ser símbolo de tudo o que era novo. Mas qual era a novidade? Eles pressionavam. Ás vezes a gente via os dez jogadores em dez metros de campo. Avançavam e encurralavam o adversário. Linha de impedimento comandada por Neeskens e Krol, defensores que viravam centro-avante, todos defendendo, todos atacando. Destruíram o Uruguai, não deixaram o time de Pedro Rocha e Forlan passar o meio-campo. Massacraram a Argentina ( 4x0 ). Suurvier, Crujff, Rep, Resenbrinck, VanHannigan, Van der Kerkoff. Que festa!!!!!!! Os jogos do Brasil eram uma chatice! Zero a zero com Iugoslávia e Escócia. Só jogou bem contra a Argentina. E perdeu de Holanda e Polonia. Polonia de Lato e Deyna. A final foi um bom jogo. Mas a Holanda fez um a zero aos 2 do primeiro tempo. E relaxou. E os alemães tinham Becekembauer, Overath, Breitner, Muller, Vogts, Bonhoff e Sepp Maier. Raça e técnica. Mas a Holanda tinha de ter ganho. Eles eram bons demais. Lembro de um jogo fantástico: Alemanha e Suécia debaixo de chuva. Foi 5x3 pros alemães. Os suecos tinham seu melhor time da história. 1974 foi das minhas copas favoritas. Se voce esquecer o Brasil mediocre, foi copa de novidades, velocidade, arrojo, de um jeito diferente de jogar. E eu adorava aqueles jogadores com cabelos longos e cara de bandidos.
Detesto recordar 1978. O Brasil não merecia ganhar, mas a Argentina foi campeã suspeita. Foi uma copa onde ninguém merecia vencer ( talvez a Itália de Bettega e Causio. Venceu os argentinos na primeira fase, mas caiu muito nos mata-mata ). A Argentina tinha os ótimos Ardiles e Kempes, mas a final contra uma Holanda envelhecida ( e sem Crujff ) poderia ter sido vencida pelos laranjas. Meteram uma na trave aos 44 do segundo tempo ( estava 1x1 ). Mas quando recordo aquela copa de generais, de papel picado e gramados ruins, me dá um argh. Chorei de raiva ao ver a Holanda perder de novo. Entendi que o futebol era um esporte injusto. Esporte onde Crujff e Platini jamais seriam campeões, e onde centenas de pernas de pau ergueriam a taça. ( Jogadores como Zico, Gullit e Puskas jamais venceram. E Best, Weah, Cantona sequer a jogaram. Enquanto isso temos nove jogadores da Itália de 2006, absolutamente medíocres, campeões do mundo; e mesmo o Brasil de 2002 tinha meio time abaixo do nível de "time campeão".)
1982 foi uma copa maravilhosa. Aliás, foi a última copa-show. Verão na Espanha, o público com roupas e caras de praia. E jogos inesquecíveis. O Brasil foi assim tão bem? Venceu a URSS no roubo e goleou Escócia e Nova Zelandia. Depois sim, engrenou nos 3x1 na Argentina e foi excelente sim, contra a Itália. Zico, Falcão, Sócrates e Oscar fizeram uma copa sem erros. Mas Cerezzo, Serginho, Luizinho e Junior foram irregulares demais! Dizer que foi azar a derrota é ser um idiota arrogante. A Azzurra venceu Brasil, Argentina, Alemanha e Polonia, sem ajuda de juiz e sempre dominando o jogo. Tinham Zoff, Scirea, Gentile, Cabrini, Antognoni, Conti, Graziani e Rossi. Uma defesa perfeita, um meio campo criativo e um ataque muito rápido. Era um time leve. A final, em que bateram a Alemanha de Rumenigge e Breitner por 3x1 foi a última final aberta, bem jogada e emocionante. Mas 82 teve mais. A Polonia de Bonieck, a Belgica de Gerets e a França, de futebol técnico e encantador, de Platini, Giresse, Tigana, Tresor, Rocheteau, Six e Ghenghini. E o melhor jogo que já ví, a semi com a Alemanha, 3x3 e a derrota dos bleus nos penaltis. Italia e França deveriam ter feito aquela final. Seria um jogo estupendo. Acompanhei todos os jogos da França naquela copa. Foi o melhor time que eles já tiveram. Foi uma injusta derrota. Chorei de novo. Quem disse que a vida/futebol tem justiça?
1986 foi uma doida torcida contra Maradona. O cara fez a maior atuação individual que já assisti. Nos jogos contra Inglaterra e Belgica ele atingiu o ponto máximo a que um atacante pode chegar. A final foi jogo de um time só. Apesar de ter sido 3x2, os alemães já entraram derrotados. Foi uma copa chatinha. Jogaço só Brasil e França ( os dois já mais pragmáticos que em 82 ) e um Dinamarca 5x1 Uruguai que causou espanto. Houve quem chamasse o time de Laudrup e Elkjaer de novos holandeses. Mas na sequencia tomaram de 5 da Espanha de Butragueño.
1990 foi a pior copa da história. Montes de prorrogações. Violencia e muita cera. A Itália de Schilacci, Donadoni e Baresi conseguiu perder em casa. A copa foi tão ruim que Maradona arrebentado e manco foi o astro. Mas deu a Alemanha de Mathaus, Klinsmann e Voller. A Holanda de Van Basten, Rijkaard e Gullit foi a decepção. A Inglaterra fez sua última boa copa. Tinha Paul Gascoigne, um George Best revivido. A final foi digna da copa, um a zero com gol de penalti suspeito.
Em 1994 só jogou o Brasil. Copa nos EUA sem ingleses e irlandeses é como copa no Brasil sem Portugal e Itália. A Romenia teve certo brilho com Hagi e a Bulgaria com Stoichkov. Mas Alemanha, Itália e Argentina só decepcionaram. Os italianos chegaram à final porque alguém tinha de chegar. Sobrou pra eles. Mesmo assim foi zero a zero e penaltis. Uma final horrenda. O Brasil foi ok. Uma defesa excelente e Romário fazendo gols com a ajuda de Bebeto. E só. Zinho e Mazinho é dupla que ninguém merece! Copa de quarenta graus a sombra não podia ser boa! O melhor jogo acabou sendo Brasil 3x2 Holanda. Branco salvou o país.
1998 foi a copa onde até a França se tornou pragmática. Thurran, Desailly, Blanc e Lizarazu formaram talvez a melhor defesa da história. E ainda tinham Deschamps e Vieira no meio campo. O esquema era o do Brasil de 94. Em vez de Romario, Zidane. Só que Zidane foi expulso no jogo contra os sauditas. Pegou 3 jogos de gancho ( a copa positivamente não foi roubada ) e voltou só na final. Todos os jogos eliminatórios foram sem Zidane. E a França teve de rebolar com um ataque ruim. Mas foi justo. Na final dominaram e atordoaram o Brasil. Que jogou uma copa muito mediocre. Os patrioteiros inventam até hoje as teorias mais idiotas para não aceitar o que o mundo inteiro viu: venceu o melhor. Em 98 a França, como o Brasil em 94, não teve contra quem jogar a final. Sobrou pro Brasil.
Se a copa de 1990 não tivesse existido, 2002 teria o prêmio de pior copa da história. O único bom jogo foi a vitória do Brasil sobre a Alemanha na final ( mesmo assim seria melhor com Ballack em campo. ) Não consigo lembrar de jogo nenhum que me tenha divertido. Basta dizer que Turquia e Coreia chegaram entre os quatro! Recordo do jogo mais roubado da história, Espanha e Coreia, em que os espanhóis eram a toda hora pegos em impedimentos inexistentes e tiveram dois gols absurdamente anulados. O Brasil também foi favorecido contra Turquia e Belgica. Nunca foi tão fácil vencer.
2006 teve um dos piores campeões. A Itália tinha Totti. E só. A França seria uma campeã melhor. Mas Zidane pirou. Raras vezes vi o Brasil levar um baile. Lembro de um jogo da Inglaterra no Maracanã em que John Barnes destruiu o Brasil. Mas o que Zidane, Vieira e Henry fizeram com o Brasil foi sacanagem!!! 1x0 com sabor de goleada. Acho que não passamos do meio campo!!! Que saudades de 1970 !!!
Não dá pra saber o que virá agora. Eu queria uma copa aberta como a de 70, revolucionária como a de 74 ou divertida como a de 82. Um campeão digno de copa, como o Brasil de Pelé, a Alemanha de Beckembauer ou a Itália de Rossi. Um craque incontestável, tipo Maradona e Crujff. Quero gols e nenhuma decisão por penaltis. Final com penaltis não vale!!!!!
Mas sei que o esporte mudou. Tem brasileiro na Alemanha, meio Arsenal na França, amigos brasileiros e argentinos na Inter. Antes o Brasil jogava como Brasil porque todos eram treinados no Brasil. O mesmo para ingleses, italianos e franceses. Agora todos são treinados à italiana, carrinhos e pressão. A copa deixou de ser o encontro de estilos diferentes e se tornou o encontro de estrelas que se parecem demais. Surpresas são impossíveis. Mas é a copa....
Em 1970 tivemos o melhor time do mundo e da história. Nunca uma equipe campeã foi tão incontestável. O esquema era louco: 4-6-0. E deu certo!!!!! Lembro da estréia, a Tchecoslovákia saiu na frente e meu pai achou que vinha mais um vexame. Mas depois ficou fácil. Foi o jogo de Jairzinho. Inglaterra e Brasil foi um dos top five de todos os tempos. Charlton contra Pelé. Era pra ter sido 6x6 ou 8x8. O melhor jogador da Inglaterra era irlandês e nunca jogou uma copa ( George Best ), mas eles tinham Lee, Banks, Jack e Bobby. Tocavam de prima e perderam montes de gols. Do outro lado o melhor time da história do esporte. Foi ao vencer os ingleses que começamos a pensar: talvez dê. Foi pena o Brasil não cruzar com a Alemanha. Overath, Seeler e Beckembauer. E Gerd Muller, que marcou 9 gols nessa copa e foi o artilheiro. Mas os alemães ficaram na Itália, que venceu por 4x3 com prorrogação estafante. Lembro que no dia desse jogo teve festa junina no quintal de casa. Brasil e Peru eu ví na casa de minha madrinha. E na final jogamos um prato de espaguetti na casa de um italiano. O primeiro tempo foi 1x1 e muito dificil. A Itália tinha um zagueiro genial, Fachetti, e um grande atacante, Gigi Riva. Mas no segundo tempo eles cansaram e recordo Rivellino berrando no campo e o gol maravilhoso de Gerson. Gerson foi o melhor jogador daquela copa. Foi o cara. E teve aquele golaço do Carlos Alberto fechando aquela copa hors concours. 1970 foi o fim do romantismo. Brasil 4x1 Itália foi o fim de uma era. Não sei se foi a melhor final da história. Em 54 teve Alemanha e Hungria. Mas foi a final digna de uma copa brilhante. Uma copa onde 4 equipes poderiam ter vencido.
Se 70 foi o fim do romantismo, 74 foi a primeira copa moderna. A copa da Holanda. Eu adorava os holandeses. Era o time de maio de 68. Cabeludos, desencanados, esquisitões, sexys. A camisa laranja passou a ser símbolo de tudo o que era novo. Mas qual era a novidade? Eles pressionavam. Ás vezes a gente via os dez jogadores em dez metros de campo. Avançavam e encurralavam o adversário. Linha de impedimento comandada por Neeskens e Krol, defensores que viravam centro-avante, todos defendendo, todos atacando. Destruíram o Uruguai, não deixaram o time de Pedro Rocha e Forlan passar o meio-campo. Massacraram a Argentina ( 4x0 ). Suurvier, Crujff, Rep, Resenbrinck, VanHannigan, Van der Kerkoff. Que festa!!!!!!! Os jogos do Brasil eram uma chatice! Zero a zero com Iugoslávia e Escócia. Só jogou bem contra a Argentina. E perdeu de Holanda e Polonia. Polonia de Lato e Deyna. A final foi um bom jogo. Mas a Holanda fez um a zero aos 2 do primeiro tempo. E relaxou. E os alemães tinham Becekembauer, Overath, Breitner, Muller, Vogts, Bonhoff e Sepp Maier. Raça e técnica. Mas a Holanda tinha de ter ganho. Eles eram bons demais. Lembro de um jogo fantástico: Alemanha e Suécia debaixo de chuva. Foi 5x3 pros alemães. Os suecos tinham seu melhor time da história. 1974 foi das minhas copas favoritas. Se voce esquecer o Brasil mediocre, foi copa de novidades, velocidade, arrojo, de um jeito diferente de jogar. E eu adorava aqueles jogadores com cabelos longos e cara de bandidos.
Detesto recordar 1978. O Brasil não merecia ganhar, mas a Argentina foi campeã suspeita. Foi uma copa onde ninguém merecia vencer ( talvez a Itália de Bettega e Causio. Venceu os argentinos na primeira fase, mas caiu muito nos mata-mata ). A Argentina tinha os ótimos Ardiles e Kempes, mas a final contra uma Holanda envelhecida ( e sem Crujff ) poderia ter sido vencida pelos laranjas. Meteram uma na trave aos 44 do segundo tempo ( estava 1x1 ). Mas quando recordo aquela copa de generais, de papel picado e gramados ruins, me dá um argh. Chorei de raiva ao ver a Holanda perder de novo. Entendi que o futebol era um esporte injusto. Esporte onde Crujff e Platini jamais seriam campeões, e onde centenas de pernas de pau ergueriam a taça. ( Jogadores como Zico, Gullit e Puskas jamais venceram. E Best, Weah, Cantona sequer a jogaram. Enquanto isso temos nove jogadores da Itália de 2006, absolutamente medíocres, campeões do mundo; e mesmo o Brasil de 2002 tinha meio time abaixo do nível de "time campeão".)
1982 foi uma copa maravilhosa. Aliás, foi a última copa-show. Verão na Espanha, o público com roupas e caras de praia. E jogos inesquecíveis. O Brasil foi assim tão bem? Venceu a URSS no roubo e goleou Escócia e Nova Zelandia. Depois sim, engrenou nos 3x1 na Argentina e foi excelente sim, contra a Itália. Zico, Falcão, Sócrates e Oscar fizeram uma copa sem erros. Mas Cerezzo, Serginho, Luizinho e Junior foram irregulares demais! Dizer que foi azar a derrota é ser um idiota arrogante. A Azzurra venceu Brasil, Argentina, Alemanha e Polonia, sem ajuda de juiz e sempre dominando o jogo. Tinham Zoff, Scirea, Gentile, Cabrini, Antognoni, Conti, Graziani e Rossi. Uma defesa perfeita, um meio campo criativo e um ataque muito rápido. Era um time leve. A final, em que bateram a Alemanha de Rumenigge e Breitner por 3x1 foi a última final aberta, bem jogada e emocionante. Mas 82 teve mais. A Polonia de Bonieck, a Belgica de Gerets e a França, de futebol técnico e encantador, de Platini, Giresse, Tigana, Tresor, Rocheteau, Six e Ghenghini. E o melhor jogo que já ví, a semi com a Alemanha, 3x3 e a derrota dos bleus nos penaltis. Italia e França deveriam ter feito aquela final. Seria um jogo estupendo. Acompanhei todos os jogos da França naquela copa. Foi o melhor time que eles já tiveram. Foi uma injusta derrota. Chorei de novo. Quem disse que a vida/futebol tem justiça?
1986 foi uma doida torcida contra Maradona. O cara fez a maior atuação individual que já assisti. Nos jogos contra Inglaterra e Belgica ele atingiu o ponto máximo a que um atacante pode chegar. A final foi jogo de um time só. Apesar de ter sido 3x2, os alemães já entraram derrotados. Foi uma copa chatinha. Jogaço só Brasil e França ( os dois já mais pragmáticos que em 82 ) e um Dinamarca 5x1 Uruguai que causou espanto. Houve quem chamasse o time de Laudrup e Elkjaer de novos holandeses. Mas na sequencia tomaram de 5 da Espanha de Butragueño.
1990 foi a pior copa da história. Montes de prorrogações. Violencia e muita cera. A Itália de Schilacci, Donadoni e Baresi conseguiu perder em casa. A copa foi tão ruim que Maradona arrebentado e manco foi o astro. Mas deu a Alemanha de Mathaus, Klinsmann e Voller. A Holanda de Van Basten, Rijkaard e Gullit foi a decepção. A Inglaterra fez sua última boa copa. Tinha Paul Gascoigne, um George Best revivido. A final foi digna da copa, um a zero com gol de penalti suspeito.
Em 1994 só jogou o Brasil. Copa nos EUA sem ingleses e irlandeses é como copa no Brasil sem Portugal e Itália. A Romenia teve certo brilho com Hagi e a Bulgaria com Stoichkov. Mas Alemanha, Itália e Argentina só decepcionaram. Os italianos chegaram à final porque alguém tinha de chegar. Sobrou pra eles. Mesmo assim foi zero a zero e penaltis. Uma final horrenda. O Brasil foi ok. Uma defesa excelente e Romário fazendo gols com a ajuda de Bebeto. E só. Zinho e Mazinho é dupla que ninguém merece! Copa de quarenta graus a sombra não podia ser boa! O melhor jogo acabou sendo Brasil 3x2 Holanda. Branco salvou o país.
1998 foi a copa onde até a França se tornou pragmática. Thurran, Desailly, Blanc e Lizarazu formaram talvez a melhor defesa da história. E ainda tinham Deschamps e Vieira no meio campo. O esquema era o do Brasil de 94. Em vez de Romario, Zidane. Só que Zidane foi expulso no jogo contra os sauditas. Pegou 3 jogos de gancho ( a copa positivamente não foi roubada ) e voltou só na final. Todos os jogos eliminatórios foram sem Zidane. E a França teve de rebolar com um ataque ruim. Mas foi justo. Na final dominaram e atordoaram o Brasil. Que jogou uma copa muito mediocre. Os patrioteiros inventam até hoje as teorias mais idiotas para não aceitar o que o mundo inteiro viu: venceu o melhor. Em 98 a França, como o Brasil em 94, não teve contra quem jogar a final. Sobrou pro Brasil.
Se a copa de 1990 não tivesse existido, 2002 teria o prêmio de pior copa da história. O único bom jogo foi a vitória do Brasil sobre a Alemanha na final ( mesmo assim seria melhor com Ballack em campo. ) Não consigo lembrar de jogo nenhum que me tenha divertido. Basta dizer que Turquia e Coreia chegaram entre os quatro! Recordo do jogo mais roubado da história, Espanha e Coreia, em que os espanhóis eram a toda hora pegos em impedimentos inexistentes e tiveram dois gols absurdamente anulados. O Brasil também foi favorecido contra Turquia e Belgica. Nunca foi tão fácil vencer.
2006 teve um dos piores campeões. A Itália tinha Totti. E só. A França seria uma campeã melhor. Mas Zidane pirou. Raras vezes vi o Brasil levar um baile. Lembro de um jogo da Inglaterra no Maracanã em que John Barnes destruiu o Brasil. Mas o que Zidane, Vieira e Henry fizeram com o Brasil foi sacanagem!!! 1x0 com sabor de goleada. Acho que não passamos do meio campo!!! Que saudades de 1970 !!!
Não dá pra saber o que virá agora. Eu queria uma copa aberta como a de 70, revolucionária como a de 74 ou divertida como a de 82. Um campeão digno de copa, como o Brasil de Pelé, a Alemanha de Beckembauer ou a Itália de Rossi. Um craque incontestável, tipo Maradona e Crujff. Quero gols e nenhuma decisão por penaltis. Final com penaltis não vale!!!!!
Mas sei que o esporte mudou. Tem brasileiro na Alemanha, meio Arsenal na França, amigos brasileiros e argentinos na Inter. Antes o Brasil jogava como Brasil porque todos eram treinados no Brasil. O mesmo para ingleses, italianos e franceses. Agora todos são treinados à italiana, carrinhos e pressão. A copa deixou de ser o encontro de estilos diferentes e se tornou o encontro de estrelas que se parecem demais. Surpresas são impossíveis. Mas é a copa....
PADDY CLARKE HA HA HA - livro de RODDY DOYLE
Meninos precisam de espaço. Meninas não ligam pra isso, mas eles sim. Precisam de muita terra, de sujeira, de pixe mole, de canos de esgoto, de mato, de fogueiras, de campo de futebol e de riachos. Meninos não precisam de quartos e de banheiros. Mas o mundo está encolhendo, o espaço dos meninos encolhe e o das meninas só cresce.
Eu detesto Roddy Doyle! Porque numa dessas coincidencias malditas ele escreveu em 1993 este livro. Que é exatamente igual ao livro que estou escrevendo nos últimos 3 meses! O estilo é o mesmo: lembranças de um garoto de 8, 9 anos. Escritas como se tivessem sido redigidas pelo garoto. Aquela linguagem de garoto que lê livros, entende? Lembranças simples, soltas, curtas, sem ordem de cronologia ou de impotância. Caramba, o livro ganhou o Booker Prize! É bom pra cacete!
Paddy mora num subúrbio de Dublin. A família dele é mais ou menos feliz e ele é um aluno mais ou menos bom. Então a gente lê sobre as brincadeiras, as brigas e tudo. E principlamente as mudanças. Porque que a gente deixa de brincar? Paddy está o tempo todo criando brincadeiras. Ele brinca com a comida, com as cobertas, ele lê brincando, chora brincando, ele até sonha brincando! Tudo é motivo para se imaginar um indio, um africano, um cowboy, um herói, um monstro. Porque que a gente joga isso fora com 12 anos de idade?
George Best. Paddy e seu pai adoram George Best. Eu adoro George Best. Ele é o cara. O ponta esquerda glamuroso do United. Paddy corre pela casa inteira quando Best faz um gol. Todo menino irlandês da época ( estamos em 68 ) queria ser George Best. Todo menino deveria ter sido menino no tempo de George Best ( e de Pelé ).
Eu queria que o livro fosse maior. Queria que nunca acabasse. Que o território de Paddy ( e de Liam, Ian, Simbad, Patrick, Pat, Kevin ) não fosse transformado num bairro residencial. Que não tivessem espantado as abelhas, os ratos, os pássaros e drenado e cercado tudo. Queria que eles ainda estivessem se sujando de pixe e acendendo fogueiras por lá. E querendo ser George Best e não Christiano Ronaldo.
Mas a gente fica adulto, apesar de não saber disso. A gente fica e pronto, acabou o brinquedo. A cama passa a ser apenas isso, uma cama, e as ruas apenas ruas. Mas este livro lembra de tudo. O mundo dos meninos. E meninos só são meninos se tiverem espaço.
Eu acho que Roddy Doyle deve ser um cara muito legal. Ele é só um pouco mais velho que eu e viu tudo o que eu vi. Roddy não tem culpa de ter me imitado antes. Eu até o perdôo por preferir o United em vez dos Gunners. Eu também queria ser um cara de Dublin. Mas sou do Caxingui. É quase igual, né?
Já falei que o livro é um bilhão de vezes bom? Acho que é o Tom Sawyer de hoje. Gostei pra caramba! Fim.
Eu detesto Roddy Doyle! Porque numa dessas coincidencias malditas ele escreveu em 1993 este livro. Que é exatamente igual ao livro que estou escrevendo nos últimos 3 meses! O estilo é o mesmo: lembranças de um garoto de 8, 9 anos. Escritas como se tivessem sido redigidas pelo garoto. Aquela linguagem de garoto que lê livros, entende? Lembranças simples, soltas, curtas, sem ordem de cronologia ou de impotância. Caramba, o livro ganhou o Booker Prize! É bom pra cacete!
Paddy mora num subúrbio de Dublin. A família dele é mais ou menos feliz e ele é um aluno mais ou menos bom. Então a gente lê sobre as brincadeiras, as brigas e tudo. E principlamente as mudanças. Porque que a gente deixa de brincar? Paddy está o tempo todo criando brincadeiras. Ele brinca com a comida, com as cobertas, ele lê brincando, chora brincando, ele até sonha brincando! Tudo é motivo para se imaginar um indio, um africano, um cowboy, um herói, um monstro. Porque que a gente joga isso fora com 12 anos de idade?
George Best. Paddy e seu pai adoram George Best. Eu adoro George Best. Ele é o cara. O ponta esquerda glamuroso do United. Paddy corre pela casa inteira quando Best faz um gol. Todo menino irlandês da época ( estamos em 68 ) queria ser George Best. Todo menino deveria ter sido menino no tempo de George Best ( e de Pelé ).
Eu queria que o livro fosse maior. Queria que nunca acabasse. Que o território de Paddy ( e de Liam, Ian, Simbad, Patrick, Pat, Kevin ) não fosse transformado num bairro residencial. Que não tivessem espantado as abelhas, os ratos, os pássaros e drenado e cercado tudo. Queria que eles ainda estivessem se sujando de pixe e acendendo fogueiras por lá. E querendo ser George Best e não Christiano Ronaldo.
Mas a gente fica adulto, apesar de não saber disso. A gente fica e pronto, acabou o brinquedo. A cama passa a ser apenas isso, uma cama, e as ruas apenas ruas. Mas este livro lembra de tudo. O mundo dos meninos. E meninos só são meninos se tiverem espaço.
Eu acho que Roddy Doyle deve ser um cara muito legal. Ele é só um pouco mais velho que eu e viu tudo o que eu vi. Roddy não tem culpa de ter me imitado antes. Eu até o perdôo por preferir o United em vez dos Gunners. Eu também queria ser um cara de Dublin. Mas sou do Caxingui. É quase igual, né?
Já falei que o livro é um bilhão de vezes bom? Acho que é o Tom Sawyer de hoje. Gostei pra caramba! Fim.
DENNIS HOPPER E OS MUITO LOUCO !
Não gosto de caras que são "muito louco!" Tem um público ( que se acha "bem louco" ) que hiper-valoriza tudo que é, aparentemente, doidão. O que gosto é do talentoso, apesar de, louco.
Dennis Hopper foi hiper-valorizado. Como ator ele era apenas esquisito. Como diretor fez apenas dois filmes legais. E só. Mas eu li gente chamando-o de gênio. Como há quem pense ser Ginsberg ou Kerouac geniais.
Antes de Hopper houve Kate Hepburn e John Garfield que foram mais rebeldes contra Hollywood e eram atores de verdade. Antes de Hopper houve Robert Mitchum que era bem maconheiro e ator de carisma real. Hopper foi apenas um doidão que viajou de ácido por vinte anos.
Porém......
Não posso negar que o rosto dele era legal de ver. Ele era engraçado e poderia ter sido um super comediante. Não posso negar que ele é, para sempre, um dos mais fortes símbolos hippies. E que mesmo que voce odeie hippies, acredite menino, sem eles voce não estaria hoje dormindo com sua namorada em paz ou vestindo sandálias havaianas e bermuda. Nosso mundo é herança hippie. O mundo antes deles era mundo de chapéu e paletó. E Hopper será sempre parte desse novo mundo. Mundo que trouxe muito mal e muito bem. Mas o principal : como acontece com Keith Richards; Dennis Hopper ( e Jack Nicholson ) não imitaram ninguém.
É fácil ser Johnny Depp ou Robert Downey. Existem antecedentes de excentricidade para seguir. Existe Keith Richards para guiar roqueiros doidos e estilosos, existe Bowie para ser molde de artistas pop irriquietos e dubios. Antes deles havia nada.
Se voce fosse esquisito voce tinha de ser esquisito de seu modo. E solitariamente. Era um mundo de ternos cinzas e cabelos engomados. Recordo, quando era bem criança, de como era ruim para alguém ter cabelo comprido. Te chamavam de bicha e de comuna. Riam de voce. E ser bicha e comuna era correr risco de apanhar. Mas tinha gente que ia adiante. Keith, Mick, Marianne Faithfull e Hopper estavam pouco se lixando. Eles abriram as portas para voce e eu podermos ser esquisitos em paz.
Subir num palco e rebolar ou berrar ou se estropiar ou ser preso é agora fácil. Todo mundo faz isso. Ser Depp ou Penn é fácil. Seu vizinho é como eles. Mas penso em como era dificil ser Mick Jagger na Londres caretíssima de 1964. E penso também, é lógico, que ser Jagger ou Keith hoje não tem a menor graça. É ser mais um.
Dennis Hopper morreu no dia de meu birth e penso que nesta década próxima teremos de ver a morte de Clint Eastwood, de Woody Allen, dos últimos Beatles e provávelmente de Iggy de Mick e Dylan. Jack, De Niro e Coppolla....
Se com as mortes de Tolstoi e depois de Joyce o mundo perdia seus últimos gigantes, aquele tipo de cara que é do tamanho do universo, tipo Freud ou Eliot, o homem de ambição sem fim; com as mortes desses heróis doidos libertários, veremos a morte dos últimos originais, os últimos a crescerem e se moldarem a sí-mesmos, sem a linha de montagem da hiper-informação e do eterno-passado-presente de hoje. Os últimos a serem originais por não terem em quem se moldar.
Fica o tiro que Hopper leva no fim de Easy Rider. Fica o eco daquele tiro. E o resto é Lady Gaga....
Dennis Hopper foi hiper-valorizado. Como ator ele era apenas esquisito. Como diretor fez apenas dois filmes legais. E só. Mas eu li gente chamando-o de gênio. Como há quem pense ser Ginsberg ou Kerouac geniais.
Antes de Hopper houve Kate Hepburn e John Garfield que foram mais rebeldes contra Hollywood e eram atores de verdade. Antes de Hopper houve Robert Mitchum que era bem maconheiro e ator de carisma real. Hopper foi apenas um doidão que viajou de ácido por vinte anos.
Porém......
Não posso negar que o rosto dele era legal de ver. Ele era engraçado e poderia ter sido um super comediante. Não posso negar que ele é, para sempre, um dos mais fortes símbolos hippies. E que mesmo que voce odeie hippies, acredite menino, sem eles voce não estaria hoje dormindo com sua namorada em paz ou vestindo sandálias havaianas e bermuda. Nosso mundo é herança hippie. O mundo antes deles era mundo de chapéu e paletó. E Hopper será sempre parte desse novo mundo. Mundo que trouxe muito mal e muito bem. Mas o principal : como acontece com Keith Richards; Dennis Hopper ( e Jack Nicholson ) não imitaram ninguém.
É fácil ser Johnny Depp ou Robert Downey. Existem antecedentes de excentricidade para seguir. Existe Keith Richards para guiar roqueiros doidos e estilosos, existe Bowie para ser molde de artistas pop irriquietos e dubios. Antes deles havia nada.
Se voce fosse esquisito voce tinha de ser esquisito de seu modo. E solitariamente. Era um mundo de ternos cinzas e cabelos engomados. Recordo, quando era bem criança, de como era ruim para alguém ter cabelo comprido. Te chamavam de bicha e de comuna. Riam de voce. E ser bicha e comuna era correr risco de apanhar. Mas tinha gente que ia adiante. Keith, Mick, Marianne Faithfull e Hopper estavam pouco se lixando. Eles abriram as portas para voce e eu podermos ser esquisitos em paz.
Subir num palco e rebolar ou berrar ou se estropiar ou ser preso é agora fácil. Todo mundo faz isso. Ser Depp ou Penn é fácil. Seu vizinho é como eles. Mas penso em como era dificil ser Mick Jagger na Londres caretíssima de 1964. E penso também, é lógico, que ser Jagger ou Keith hoje não tem a menor graça. É ser mais um.
Dennis Hopper morreu no dia de meu birth e penso que nesta década próxima teremos de ver a morte de Clint Eastwood, de Woody Allen, dos últimos Beatles e provávelmente de Iggy de Mick e Dylan. Jack, De Niro e Coppolla....
Se com as mortes de Tolstoi e depois de Joyce o mundo perdia seus últimos gigantes, aquele tipo de cara que é do tamanho do universo, tipo Freud ou Eliot, o homem de ambição sem fim; com as mortes desses heróis doidos libertários, veremos a morte dos últimos originais, os últimos a crescerem e se moldarem a sí-mesmos, sem a linha de montagem da hiper-informação e do eterno-passado-presente de hoje. Os últimos a serem originais por não terem em quem se moldar.
Fica o tiro que Hopper leva no fim de Easy Rider. Fica o eco daquele tiro. E o resto é Lady Gaga....
ESPÍRITO SUPERIOR: DESEJOS PROIBIDOS, FILME DE MAX OPHULS
A beleza.... ver este filme é uma humilhação para nossos tempos. Cultuadores do feio e do grotesco que somos ( desde Picasso? Stravinsky? ). Max Ophuls, diretor vienense desta obra-prima, talvez o mais belo filme já feito, volta a Europa após exilio americano, e volta a seu mundo. Mas é mundo já morto em 1953, ano desta produção. O que dirá hoje, tempo de funk e de Chavez ?
Em sua primeira parte o filme é só leveza e bom humor. O que assistimos é o belo mundo das elites do final do século XIX. Não é o mundo de Henry James. James mostra o mundo do futuro, do dinheiro, da América. Aqui é o fim da Europa, fim de um passado, e o que move tudo são os bons modos, as aparências, os costumes, a honra. Nada de americano.
Nunca se fizeram cenários como estes ( e percebemos o porque do amor de Todd Haynes e Baz Lhurmann a este diretor ). São espelhos, tapetes, jóias, móveis, roupas, janelas, pinturas, em tal quantidade, de tanto gosto, é tudo tão luxuoso, tão chic, tão delicado, que dá vontade de abaixar o som e ficar apenas olhando. Mas há a câmera e ela não pára. Ophuls a faz voar pelos cenários, cruza paredes e janelas, flutua pelas tapeçarias. Baila. E é tão suave que mal notamos seu movimento. Os atores sabem se comportar. São dignos do filme que lhes é ofertado. Mas Charles Boyer é mais que isso.
E ainda há uma história. Sobre brincos que são vendidos e insistem em voltar. Esposa infiel e marido general que leva a vida como ordem militar. E em sua segunda parte o filme torna-se drama e é exemplificada a diferença entre homens e mulheres: elas, quando amam, mandam os costumes para o lixo; eles se atèm ainda a seus papeis. Vem o final, um duelo para lavar a honra e uma igreja com velas e diamantes. A beleza vence.
Falar de filme como este é tarefa ingrata. A esposa, futil que se torna apaixonada, é Danielle Darrieux. O amante, nobre italiano, é Vittorio de Sica. E o general, corno que mantém a pose, e´Charles Boyer. Perfeitos. Danielle é pura cocotterie, De Sica é o sedutor que se confunde e Boyer dá um show como o militar rígido. São, dignamente, diamantes em imagens que são joalherias. Ofusca e entorpece a correção, o luxo ao ponto extremo, a civilidade, o savoir faire. Mas, fã de Stendhal que Ophuls era ( o filme tem muito do espirito de Stendhal e de Mozart ), é também mostrada, com muita leveza, o que havia de asfixiante, de falso, de tolo, em toda essa pose presunçosa. A paixão real não pode existir em espelhos de cristal e peles de vison. Fenece.
Max Ophuls é um espírito extinto. Ver este filme é tomar contato com outro mundo, outro cosmo, outra existencia possível. Somos os orfãos do planeta aqui exibido. Ainda queremos, cegamente sem saber, tudo o que é aqui mostrado. Mas não é mais possível obter ou ao menos tentar esse tipo de conforto e de código de conduta. Então, orfãos, nos embrutalhamos. Seria cruel ter Ophuls neste nosso universo. Fica seu legado de beleza. E a certeza de que já fomos muito melhores.
Em sua primeira parte o filme é só leveza e bom humor. O que assistimos é o belo mundo das elites do final do século XIX. Não é o mundo de Henry James. James mostra o mundo do futuro, do dinheiro, da América. Aqui é o fim da Europa, fim de um passado, e o que move tudo são os bons modos, as aparências, os costumes, a honra. Nada de americano.
Nunca se fizeram cenários como estes ( e percebemos o porque do amor de Todd Haynes e Baz Lhurmann a este diretor ). São espelhos, tapetes, jóias, móveis, roupas, janelas, pinturas, em tal quantidade, de tanto gosto, é tudo tão luxuoso, tão chic, tão delicado, que dá vontade de abaixar o som e ficar apenas olhando. Mas há a câmera e ela não pára. Ophuls a faz voar pelos cenários, cruza paredes e janelas, flutua pelas tapeçarias. Baila. E é tão suave que mal notamos seu movimento. Os atores sabem se comportar. São dignos do filme que lhes é ofertado. Mas Charles Boyer é mais que isso.
E ainda há uma história. Sobre brincos que são vendidos e insistem em voltar. Esposa infiel e marido general que leva a vida como ordem militar. E em sua segunda parte o filme torna-se drama e é exemplificada a diferença entre homens e mulheres: elas, quando amam, mandam os costumes para o lixo; eles se atèm ainda a seus papeis. Vem o final, um duelo para lavar a honra e uma igreja com velas e diamantes. A beleza vence.
Falar de filme como este é tarefa ingrata. A esposa, futil que se torna apaixonada, é Danielle Darrieux. O amante, nobre italiano, é Vittorio de Sica. E o general, corno que mantém a pose, e´Charles Boyer. Perfeitos. Danielle é pura cocotterie, De Sica é o sedutor que se confunde e Boyer dá um show como o militar rígido. São, dignamente, diamantes em imagens que são joalherias. Ofusca e entorpece a correção, o luxo ao ponto extremo, a civilidade, o savoir faire. Mas, fã de Stendhal que Ophuls era ( o filme tem muito do espirito de Stendhal e de Mozart ), é também mostrada, com muita leveza, o que havia de asfixiante, de falso, de tolo, em toda essa pose presunçosa. A paixão real não pode existir em espelhos de cristal e peles de vison. Fenece.
Max Ophuls é um espírito extinto. Ver este filme é tomar contato com outro mundo, outro cosmo, outra existencia possível. Somos os orfãos do planeta aqui exibido. Ainda queremos, cegamente sem saber, tudo o que é aqui mostrado. Mas não é mais possível obter ou ao menos tentar esse tipo de conforto e de código de conduta. Então, orfãos, nos embrutalhamos. Seria cruel ter Ophuls neste nosso universo. Fica seu legado de beleza. E a certeza de que já fomos muito melhores.
UM FILME PERFEITO: TARDE DEMAIS- WILLIAM WYLER
Fazer um bom filme tendo por base uma obra-prima da literatura é tarefa quase impossível. Fazer, como aqui, uma obra perfeita baseada em livro perfeito é um milagre. Pois este filme é baseado em WASHINGTON SQUARE (A HERDEIRA ) de Henry James, e incrível, é um filme que nunca desmerece esse tão soberbo livro.
Quem leu James sabe: o mistério de sua escrita é a sutileza. Quando mal adaptado ao cinema se torna apenas uma boa história. Quando adaptado com inteligência, como sucede neste caso, toda sua maestria se torna imagem e som. Este filme é uma aula para aquele que deseja saber o que o cinema pode ser. Poucas vezes a sétima arte foi melhor que nesta produção.
Primeiro a história. E um lembrete. Para se apreciar este gigantesco trabalho é preciso ter lido James. Pois ao ler o gênio americano voce terá desenvolvido sua sensibilidade estética, e ao refinar essa sensibilidade voce estará pronto para apreciar a extrema beleza destes diálogos superiores. E quanto prazer cabe em linhas tão bem escritas! Os diálogos são afirmações de engenho. Neles o talento brilha. Estamos então na New York do séculoXIX, e estamos em casa de luxo austero. O pai é um médico muito rico e ele, viúvo, tem uma filha. Ao contrário da mãe, essa moça é feia e sem qualquer encanto. Pois bem. Um dia, um jovem, belo e brilhante, porém esbanjador, se enamora dela. O pai impedirá isso, pois ele não crê que alguém possa amar mulher tão sem graça. Em linhas gerais essa é a história. Mas sabemos, por debaixo disso há muito, muito mais. James falará sobre amor de pai e filha, sobre a morte, sobre sedução, sobre o que é ser mulher e principalmente sobre o dinheiro como destino. O filme, que maravilha, consegue ser tudo isso.
Os personagens. O grande ator inglês, Ralph Richardson, faz o pai. Que prazer deve ter sido vê-lo fazendo Shakespeare...prvilegiada geração que viu ele, Olivier, Gielgud e Redgrave nos palcos. Observe como ele faz esse pai. É um monstro? Jamais. O que vemos é autoridade. Ele precisa fazer o que faz. Percebemos seus pensamentos mais secretos nos olhos desse ator de gênio. O modo como ele sonda o namorado, o modo como ele analisa a filha, o desgosto. Mas temos a filha, papel que deu a Olivia de Havilland seu segundo Oscar. Ela faz uma moça feia, bastante limitada e ingênua. E como a faz? Com olhares de estupidez, reações puras e animais, e a pose de virgem intocada. Os imensos olhos de Olivia são espelhos que refletem alma que luta para existir. Ela se apaixona com desespero. Quando cai na razão e é humilhada pelo pai vemos um coração dilacerado. É dos momentos mais tristes de toda a história da tela. Montgomery Clift faz o pretendente. Faz tão bem que quase cremos em seu amor. Ele é belo, limpo, claro, bom falador, mas jamais engana o pai. Nos pegamos querendo crer no que ele diz. Clift, primeiro ator moderno do cinema, precursor e rival de Brando e Dean, faz muito com pouco. Sua atuação é magistral. Miriam Hopkins é a tia que percebe tudo mas que toma o partido do rapaz. Imagem da solteira casamenteira. Temos então um excelente roteiro em mãos de atores mais que talentosos. Quem misturará essa massa?
O diretor se chama William Wyler, e foi ele, entre as décadas de 30/50, ou seja, no tempo em que cinema era rei único, o diretor mais confiável, mais seguro, melhor dotado. Wyler não errava. Pauline Kael diz em sua crítica que "aqui vemos a perfeição. Wyler guia o filme com mão de ferro. Ele faz um filme sobre o controle com absoluto controle sobre atores e filme."
Todo movimento de câmera é peso sobre nossa emoção. Cada ângulo e cada cena é a imagem exata de destino inexorável. Wyler dirige como um grande dramaturgo cria: dominando todo o material e moldando-o a seus objetivos. Arte suprema em mãos de mago.
Há ainda a trilha sonora impecável de Aaron Copland ( sim, Copland, grande compositor erudito, compôs, pouco, para cinema ). Trata-se de música emocional, majestática, suprema. Eleva o filme à altura de Henry James.
Não há um só momento menos bom neste imenso romance em movimento. Cada cena é um ponto numa tapeçaria de jóias. Fica a memória de se ter testemunhado uma obra que nos alerta sobre tudo o que a tela pode comportar. A perfeição existe. Ela reside aqui.
Quem leu James sabe: o mistério de sua escrita é a sutileza. Quando mal adaptado ao cinema se torna apenas uma boa história. Quando adaptado com inteligência, como sucede neste caso, toda sua maestria se torna imagem e som. Este filme é uma aula para aquele que deseja saber o que o cinema pode ser. Poucas vezes a sétima arte foi melhor que nesta produção.
Primeiro a história. E um lembrete. Para se apreciar este gigantesco trabalho é preciso ter lido James. Pois ao ler o gênio americano voce terá desenvolvido sua sensibilidade estética, e ao refinar essa sensibilidade voce estará pronto para apreciar a extrema beleza destes diálogos superiores. E quanto prazer cabe em linhas tão bem escritas! Os diálogos são afirmações de engenho. Neles o talento brilha. Estamos então na New York do séculoXIX, e estamos em casa de luxo austero. O pai é um médico muito rico e ele, viúvo, tem uma filha. Ao contrário da mãe, essa moça é feia e sem qualquer encanto. Pois bem. Um dia, um jovem, belo e brilhante, porém esbanjador, se enamora dela. O pai impedirá isso, pois ele não crê que alguém possa amar mulher tão sem graça. Em linhas gerais essa é a história. Mas sabemos, por debaixo disso há muito, muito mais. James falará sobre amor de pai e filha, sobre a morte, sobre sedução, sobre o que é ser mulher e principalmente sobre o dinheiro como destino. O filme, que maravilha, consegue ser tudo isso.
Os personagens. O grande ator inglês, Ralph Richardson, faz o pai. Que prazer deve ter sido vê-lo fazendo Shakespeare...prvilegiada geração que viu ele, Olivier, Gielgud e Redgrave nos palcos. Observe como ele faz esse pai. É um monstro? Jamais. O que vemos é autoridade. Ele precisa fazer o que faz. Percebemos seus pensamentos mais secretos nos olhos desse ator de gênio. O modo como ele sonda o namorado, o modo como ele analisa a filha, o desgosto. Mas temos a filha, papel que deu a Olivia de Havilland seu segundo Oscar. Ela faz uma moça feia, bastante limitada e ingênua. E como a faz? Com olhares de estupidez, reações puras e animais, e a pose de virgem intocada. Os imensos olhos de Olivia são espelhos que refletem alma que luta para existir. Ela se apaixona com desespero. Quando cai na razão e é humilhada pelo pai vemos um coração dilacerado. É dos momentos mais tristes de toda a história da tela. Montgomery Clift faz o pretendente. Faz tão bem que quase cremos em seu amor. Ele é belo, limpo, claro, bom falador, mas jamais engana o pai. Nos pegamos querendo crer no que ele diz. Clift, primeiro ator moderno do cinema, precursor e rival de Brando e Dean, faz muito com pouco. Sua atuação é magistral. Miriam Hopkins é a tia que percebe tudo mas que toma o partido do rapaz. Imagem da solteira casamenteira. Temos então um excelente roteiro em mãos de atores mais que talentosos. Quem misturará essa massa?
O diretor se chama William Wyler, e foi ele, entre as décadas de 30/50, ou seja, no tempo em que cinema era rei único, o diretor mais confiável, mais seguro, melhor dotado. Wyler não errava. Pauline Kael diz em sua crítica que "aqui vemos a perfeição. Wyler guia o filme com mão de ferro. Ele faz um filme sobre o controle com absoluto controle sobre atores e filme."
Todo movimento de câmera é peso sobre nossa emoção. Cada ângulo e cada cena é a imagem exata de destino inexorável. Wyler dirige como um grande dramaturgo cria: dominando todo o material e moldando-o a seus objetivos. Arte suprema em mãos de mago.
Há ainda a trilha sonora impecável de Aaron Copland ( sim, Copland, grande compositor erudito, compôs, pouco, para cinema ). Trata-se de música emocional, majestática, suprema. Eleva o filme à altura de Henry James.
Não há um só momento menos bom neste imenso romance em movimento. Cada cena é um ponto numa tapeçaria de jóias. Fica a memória de se ter testemunhado uma obra que nos alerta sobre tudo o que a tela pode comportar. A perfeição existe. Ela reside aqui.
CAPRA/ WYLER/ STERNBERG/ WALTER HILL/ ROBIN HOOD/ BOORMAN
ESPERANÇA E GLÓRIA de John Boorman
Concorreu a monte de Oscars em 1987, mas perdeu todos para O ùltimo Imperador de Bertolucci. Raros filmes são tão bem fotografados quanto este. Os céus e as casas brilham em colorido estupendo ( de Philippe Rousselot ). O roteiro, meio autobio, fala do quanto as crianças londrinas se divertiam durante os bombardeios alemães na segunda guerra. Na época causou certo frisson este filme, por mostrar que em meio ao fogo e a voz de Churchill havia humor, alegria e diversão. È um belo filme do diretor de Inferno no Pacifico e Deliverance. Nota 7.
ROBIN HOOD de Ridley Scott com Russell Crowe
Houve um divertidíssimo Robin mudo com Fairbanks. Depois assisti o clássico com o insuperável Erroll Flynn, Robin alegre, cartoonesco; veio a série de tv inglesa com Richard Greene e o Robin romantico com Sean Connery e Audrey. Um desenho da Disney em 1973. Daí o típico Robin anos 80/90 com Kevin Costner e agora este Robin século XXI. Grande produção, tintas de inconformismo e um monumento à chatice. Pra que fazer este filme? Fuja!!!! Nota 2.
ALMA EM SUPLICIO de Michael Curtiz com Joan Crawford
Joan levou Oscar de atriz com este drama levemente noir sobre mãe que faz tudo por filha esnobe. Inclusive esconder um crime. O filme tem clima, um ar de destino-irresistível, moto que é o cerne de tudo que significa drama. Joan tinha rosto impressionante. Sofria com orgulho. O filme é base de toda dramaturgia rede Globo até hoje. Nota 7.
O CAPITÃO DE CASTELA de Henry King com Tyrone Power e Jean Peters
O que faz de uma aventura algo de especial ? Ação? Não. Um bom personagem. Como ocorre aqui, voce precisa gostar, se identificar e torcer muito pelo herói. Isso se consegue com um bom roteiro e ator de carisma. Este fala de nobre espanhol perseguido que vai tentar a vida no Mexico. Imenso sucesso, Tyrone mostra porque era rei na Fox. O filme avança sem parar. Delicioso. Nota 8.
ESPORAS DE AÇO de Anthony Mann com James Stewart, Robert Ryan e Janet Leigh
Atenção: eis uma obra-prima!!!!!! Os melhores westerns são os mais simples. Aqui temos cinco personagens. Stewart ( fantástico ) é o caçador de recompensas, Ryan ( soberbo ) o bandido capturado. Janet é a amiga do bandido e ainda temos dois ajudantes do "herói". Mas estamos no mundo de Mann: esse herói é antipático, amargo e violento. O que o move ? Dinheiro. O filme é perfeito. Nas paisagens áridas se desenvolve um sombrio drama entre os cinco. Ao mesmo tempo, eletrizante aventura. E para quem quer arte ( coisa que todo bom western traz de contrabando ) se mostra o caráter civilizador da mulher. É ela quem carrega o fardo da esperança. Filme para aplaudir. De pé. Nota DEZ !!!!!!!!
MACAO de Josef Von Sternberg com Robert Mitchum e Jane Russell
Aventura em porto chinês sobre homem aventureiro que tenta ganhar dinheiro. Jane é aventureira também. E cantora. O filme começa bem e vai perdendo fôlego. Sabe-se que Sternberg se desinteressou e Nicholas Ray assumiu a direção. Tem ainda a fascinante Gloria Grahame no elenco. Mas o filme é totalemte esquizofrenico. Nota 4.
EFEITO DOMINÓ de Roger Donaldson com Jason Statham e Saffran Burrows
Roger é diretor egresso dos anos 80, portanto é ação da velha escola: sem excesso de firulas. Fala de assalto a banco. Fala de crise politica. Traições. Tudo na Londres de 1970. Os sotaques são de doer, mas Jason consegue ser um sub-Bruce Willis aceitável. O filme peca por não conseguir empatia entre seu herói e seu público, mas é bastante ok. Nota 6.
O ÚLTIMO CHÁ DO GENERAL YEN de Frank Capra com Barbara Stanwyck e Nils Asher
Raridade recuperada para o dvd. Missionária americana é raptada por caudilho chinês. Ele está apaixonado, ela talvez esteja. Fuzilamentos, bombas e povo nas ruas. Os cenários são maravilhosos!!!! Parecem quadrinhos em P/b dos anos 30. Capra antes de seus filmes de sucesso. É um suntuoso romance inter-racial. Nota 6.
A LUZ É PARA TODOS de Elia Kazan com Gregory Peck, Dorothy McGuire e John Garfield
Melhor filme de 47 para o Oscar, este sucesso fala de repórter que se faz passar por judeu para escrever sobre anti-semitismo. É um filme frio. Peck não convence, é daquelas suas atuações em que parece estar com sono. Mas é um belo roteiro de Moss Hart. Kazan dá a tudo um aspecto jornalístico e nossa atenção é capturada. Exemplo da crise de consciencia que se abateu sobre a América após a segunda guerra. Nota 7.
LUTADOR DE RUA de Walter Hill com Charles Bronson e James Coburn
Um trem chega a cidade deserta. São os anos 30. Bronson é um lutador que vive de quebrar queixos. Coburn logo o empresaria. O tipo que Coburn faz é delicioso. O malandro de rua. Bronson, sempre de cara feia e quase mudo, convence como bruto de coração nobre. Este é o primeiro filme dirigido por Hill. Talvez seja seu melhor. Se fosse feito hoje ( ele é de 1975 ) era capaz de ser indicado a Oscar. Simples, modesto e bacana. Nota 6.
OS MELHORES ANOS DE NOSSA VIDA de William Wyler com Frederic March, Myrna Loy, Dana Andrews, Teresa Wright, Dorothy Malone
Há quem considere Wyler o melhor diretor que os EUA tiveram. Eu não discordaria. Devo ter visto mais de vinte filmes dele, e nenhum é menos que bom. Este é um dos seus maiores sucessos, e é um dos mais corajosos. E premiados, foram sete Oscars. Vemos três soldados voltando ao lar após a guerra. E acompanhamos a terrível dificuldade que eles têm para voltar a vida civil. Por motivo simples e complexo: na vida comum eles perdem a função. Um deles, que era tenente e herói de guerra, volta a ser desempregado e marido corneado. Um outro não consegue se adaptar a vida em familia classe média e a trabalho em banco, e há um marujo que perdeu as duas mãos ( e Harold Russel, o ator, realmente não tinha as duas mãos ) e sente-se um fardo para todos. O roteiro de Robert Sherwood opera um milagre: o que poderia ser dramalhão pesado se faz filme denúncia, sincero, mas que nunca cansa ou entristece. Wyler dá aula de direção: todos os atores brilham, e apesar das três horas de duração, voce não se entedia. Ele era mestre em pegar filmes complicados e fazê-los fluir. Até Ben-Hur ele conseguiu salvar. Então aqui vemos um esmiuçamento da vida desses três homens. O medo de se não ter utilidade, o não reconhecimento de seu heroísmo, a estranheza em se ter um lar, os pesadelos com as batalhas. Isto é aquilo que se chamava de "filmão". Valia cada centavo gasto. Belíssimo. Nota 9.
Concorreu a monte de Oscars em 1987, mas perdeu todos para O ùltimo Imperador de Bertolucci. Raros filmes são tão bem fotografados quanto este. Os céus e as casas brilham em colorido estupendo ( de Philippe Rousselot ). O roteiro, meio autobio, fala do quanto as crianças londrinas se divertiam durante os bombardeios alemães na segunda guerra. Na época causou certo frisson este filme, por mostrar que em meio ao fogo e a voz de Churchill havia humor, alegria e diversão. È um belo filme do diretor de Inferno no Pacifico e Deliverance. Nota 7.
ROBIN HOOD de Ridley Scott com Russell Crowe
Houve um divertidíssimo Robin mudo com Fairbanks. Depois assisti o clássico com o insuperável Erroll Flynn, Robin alegre, cartoonesco; veio a série de tv inglesa com Richard Greene e o Robin romantico com Sean Connery e Audrey. Um desenho da Disney em 1973. Daí o típico Robin anos 80/90 com Kevin Costner e agora este Robin século XXI. Grande produção, tintas de inconformismo e um monumento à chatice. Pra que fazer este filme? Fuja!!!! Nota 2.
ALMA EM SUPLICIO de Michael Curtiz com Joan Crawford
Joan levou Oscar de atriz com este drama levemente noir sobre mãe que faz tudo por filha esnobe. Inclusive esconder um crime. O filme tem clima, um ar de destino-irresistível, moto que é o cerne de tudo que significa drama. Joan tinha rosto impressionante. Sofria com orgulho. O filme é base de toda dramaturgia rede Globo até hoje. Nota 7.
O CAPITÃO DE CASTELA de Henry King com Tyrone Power e Jean Peters
O que faz de uma aventura algo de especial ? Ação? Não. Um bom personagem. Como ocorre aqui, voce precisa gostar, se identificar e torcer muito pelo herói. Isso se consegue com um bom roteiro e ator de carisma. Este fala de nobre espanhol perseguido que vai tentar a vida no Mexico. Imenso sucesso, Tyrone mostra porque era rei na Fox. O filme avança sem parar. Delicioso. Nota 8.
ESPORAS DE AÇO de Anthony Mann com James Stewart, Robert Ryan e Janet Leigh
Atenção: eis uma obra-prima!!!!!! Os melhores westerns são os mais simples. Aqui temos cinco personagens. Stewart ( fantástico ) é o caçador de recompensas, Ryan ( soberbo ) o bandido capturado. Janet é a amiga do bandido e ainda temos dois ajudantes do "herói". Mas estamos no mundo de Mann: esse herói é antipático, amargo e violento. O que o move ? Dinheiro. O filme é perfeito. Nas paisagens áridas se desenvolve um sombrio drama entre os cinco. Ao mesmo tempo, eletrizante aventura. E para quem quer arte ( coisa que todo bom western traz de contrabando ) se mostra o caráter civilizador da mulher. É ela quem carrega o fardo da esperança. Filme para aplaudir. De pé. Nota DEZ !!!!!!!!
MACAO de Josef Von Sternberg com Robert Mitchum e Jane Russell
Aventura em porto chinês sobre homem aventureiro que tenta ganhar dinheiro. Jane é aventureira também. E cantora. O filme começa bem e vai perdendo fôlego. Sabe-se que Sternberg se desinteressou e Nicholas Ray assumiu a direção. Tem ainda a fascinante Gloria Grahame no elenco. Mas o filme é totalemte esquizofrenico. Nota 4.
EFEITO DOMINÓ de Roger Donaldson com Jason Statham e Saffran Burrows
Roger é diretor egresso dos anos 80, portanto é ação da velha escola: sem excesso de firulas. Fala de assalto a banco. Fala de crise politica. Traições. Tudo na Londres de 1970. Os sotaques são de doer, mas Jason consegue ser um sub-Bruce Willis aceitável. O filme peca por não conseguir empatia entre seu herói e seu público, mas é bastante ok. Nota 6.
O ÚLTIMO CHÁ DO GENERAL YEN de Frank Capra com Barbara Stanwyck e Nils Asher
Raridade recuperada para o dvd. Missionária americana é raptada por caudilho chinês. Ele está apaixonado, ela talvez esteja. Fuzilamentos, bombas e povo nas ruas. Os cenários são maravilhosos!!!! Parecem quadrinhos em P/b dos anos 30. Capra antes de seus filmes de sucesso. É um suntuoso romance inter-racial. Nota 6.
A LUZ É PARA TODOS de Elia Kazan com Gregory Peck, Dorothy McGuire e John Garfield
Melhor filme de 47 para o Oscar, este sucesso fala de repórter que se faz passar por judeu para escrever sobre anti-semitismo. É um filme frio. Peck não convence, é daquelas suas atuações em que parece estar com sono. Mas é um belo roteiro de Moss Hart. Kazan dá a tudo um aspecto jornalístico e nossa atenção é capturada. Exemplo da crise de consciencia que se abateu sobre a América após a segunda guerra. Nota 7.
LUTADOR DE RUA de Walter Hill com Charles Bronson e James Coburn
Um trem chega a cidade deserta. São os anos 30. Bronson é um lutador que vive de quebrar queixos. Coburn logo o empresaria. O tipo que Coburn faz é delicioso. O malandro de rua. Bronson, sempre de cara feia e quase mudo, convence como bruto de coração nobre. Este é o primeiro filme dirigido por Hill. Talvez seja seu melhor. Se fosse feito hoje ( ele é de 1975 ) era capaz de ser indicado a Oscar. Simples, modesto e bacana. Nota 6.
OS MELHORES ANOS DE NOSSA VIDA de William Wyler com Frederic March, Myrna Loy, Dana Andrews, Teresa Wright, Dorothy Malone
Há quem considere Wyler o melhor diretor que os EUA tiveram. Eu não discordaria. Devo ter visto mais de vinte filmes dele, e nenhum é menos que bom. Este é um dos seus maiores sucessos, e é um dos mais corajosos. E premiados, foram sete Oscars. Vemos três soldados voltando ao lar após a guerra. E acompanhamos a terrível dificuldade que eles têm para voltar a vida civil. Por motivo simples e complexo: na vida comum eles perdem a função. Um deles, que era tenente e herói de guerra, volta a ser desempregado e marido corneado. Um outro não consegue se adaptar a vida em familia classe média e a trabalho em banco, e há um marujo que perdeu as duas mãos ( e Harold Russel, o ator, realmente não tinha as duas mãos ) e sente-se um fardo para todos. O roteiro de Robert Sherwood opera um milagre: o que poderia ser dramalhão pesado se faz filme denúncia, sincero, mas que nunca cansa ou entristece. Wyler dá aula de direção: todos os atores brilham, e apesar das três horas de duração, voce não se entedia. Ele era mestre em pegar filmes complicados e fazê-los fluir. Até Ben-Hur ele conseguiu salvar. Então aqui vemos um esmiuçamento da vida desses três homens. O medo de se não ter utilidade, o não reconhecimento de seu heroísmo, a estranheza em se ter um lar, os pesadelos com as batalhas. Isto é aquilo que se chamava de "filmão". Valia cada centavo gasto. Belíssimo. Nota 9.
OCIDENTE E ORIENTE, O MEDITERRANEO
2500 anos atrás. 500 a/c. O oriente grava suas impressões digitais. Penso na terrível realidade que fez com que o pensamento se engolisse e negasse a própria realidade. No oriente a vida se torna ilusão. A dor e o desejo não são reais. Em seu aspecto mais elevado esse modo de pensar nos leva a calma absoluta. Em seu pior lado nos dá a indiferença a miséria e a aceitação da injustiça. Mas estou aqui para falar do mar, do Mediterraneo, terra-água onde nasci.....
Penso agora nas maravilhas que se descortinaram aos olhos ainda virgens desses curiosos-arrogantes. A diferença entre ocidente e oriente se faz. Se eles negam a realidade e tentam chegar a paz completa, cabe a nós tentar entender o porque das coisas serem como se apresentam. Nós não negamos nada, tudo queremos saber. Em seu melhor esse modo de ser leva a criação de novos mundos. Em seu pior à ansiedade sem fim.
Mas eu penso na história de amor. Em que aqui não é mundo para misticismos. Os deuses aqui, no ocidente, são todos deuses humanizados. São Eros, Thor ou Éfeso. Aqui se vive com o porque da filosofia. Não com o "assim é" do oriente. A religião aqui é fraca, pois não são o judaísmo e o cristianismo também orientais?
Cultua-se o oriente como se lá existisse o segredo da paz. A luz da verdade. O budismo nasce, belo sim, como luz, ou como negação da dor fingindo-se não existir? Se eu fechar os olhos o lobo deixa de existir. É essa toda a sabedoria? Se a vida é ilusão e se o desejo é o mal então para que viver? Para se apurar a alma? Deixar de encarnar?
Enquanto o oriente fecha os olhos os gregos pegam as coisas e as observam de perto. O que é isto? Não posso deixar de amar o oceano Mediterraneo, berço de paraísos. Se os orientais procuravam negar a enchente do rio, o tigre feroz e a fome que mata, cabia aos gregos entender o que é a chuva, o que é ser um homem e como diminuir a fome. Não posso deixar de amar esse mundo ocidente, feito de um mar mediterraneo para um atlantico. Mundo barco, mundo navio, esse Prometeu que rouba fogo de um deus, esse mundo que não nos dá paz, trégua ou alivio, mas que nos deu Beethoven, Shakespeare e Kant.
Pois aquele grego jamais fechou seus olhos. Tentou ver a beleza na vida e entender o porque da dor macular tanta luz. A história do ocidente é um navegar eterno e no oriente se medita e se ora. Nós aqui comemos até explodir, olhamos até cansar e falamos até morrer. Tínhamos de criar o amor e tínhamos de navegar até descobrir ainda mais ocidente. Nós temos sempre de ir. Não nascemos para estar.
Já senti a felicidade oriental e é ela como um morrer, um concluir, um fundir.
Mas a felicidade ocidental é um gozo espiritual, um resplandecer de força, um riso imenso, um irradiar de poder. É todo corpo. É aqui. Dionisio e Apolo.
Sou grego e no mar mora minha dor. Nasci assumindo todo pecado do passado e orando para deuses que são homens. Quero ver, quero ser, quero a eternidade. Eu desejo todo o tempo. Se a miséria existe faço dela poesia. Se a dor bate canto sua sina. E o que não entendo penso.
Porque sou portugues da beira do oceano e me joguei ao fundo onde achei um mundo. Não medito, crio.
Do ocidente filho. Mito.
Penso agora nas maravilhas que se descortinaram aos olhos ainda virgens desses curiosos-arrogantes. A diferença entre ocidente e oriente se faz. Se eles negam a realidade e tentam chegar a paz completa, cabe a nós tentar entender o porque das coisas serem como se apresentam. Nós não negamos nada, tudo queremos saber. Em seu melhor esse modo de ser leva a criação de novos mundos. Em seu pior à ansiedade sem fim.
Mas eu penso na história de amor. Em que aqui não é mundo para misticismos. Os deuses aqui, no ocidente, são todos deuses humanizados. São Eros, Thor ou Éfeso. Aqui se vive com o porque da filosofia. Não com o "assim é" do oriente. A religião aqui é fraca, pois não são o judaísmo e o cristianismo também orientais?
Cultua-se o oriente como se lá existisse o segredo da paz. A luz da verdade. O budismo nasce, belo sim, como luz, ou como negação da dor fingindo-se não existir? Se eu fechar os olhos o lobo deixa de existir. É essa toda a sabedoria? Se a vida é ilusão e se o desejo é o mal então para que viver? Para se apurar a alma? Deixar de encarnar?
Enquanto o oriente fecha os olhos os gregos pegam as coisas e as observam de perto. O que é isto? Não posso deixar de amar o oceano Mediterraneo, berço de paraísos. Se os orientais procuravam negar a enchente do rio, o tigre feroz e a fome que mata, cabia aos gregos entender o que é a chuva, o que é ser um homem e como diminuir a fome. Não posso deixar de amar esse mundo ocidente, feito de um mar mediterraneo para um atlantico. Mundo barco, mundo navio, esse Prometeu que rouba fogo de um deus, esse mundo que não nos dá paz, trégua ou alivio, mas que nos deu Beethoven, Shakespeare e Kant.
Pois aquele grego jamais fechou seus olhos. Tentou ver a beleza na vida e entender o porque da dor macular tanta luz. A história do ocidente é um navegar eterno e no oriente se medita e se ora. Nós aqui comemos até explodir, olhamos até cansar e falamos até morrer. Tínhamos de criar o amor e tínhamos de navegar até descobrir ainda mais ocidente. Nós temos sempre de ir. Não nascemos para estar.
Já senti a felicidade oriental e é ela como um morrer, um concluir, um fundir.
Mas a felicidade ocidental é um gozo espiritual, um resplandecer de força, um riso imenso, um irradiar de poder. É todo corpo. É aqui. Dionisio e Apolo.
Sou grego e no mar mora minha dor. Nasci assumindo todo pecado do passado e orando para deuses que são homens. Quero ver, quero ser, quero a eternidade. Eu desejo todo o tempo. Se a miséria existe faço dela poesia. Se a dor bate canto sua sina. E o que não entendo penso.
Porque sou portugues da beira do oceano e me joguei ao fundo onde achei um mundo. Não medito, crio.
Do ocidente filho. Mito.
ANTHONY MANN/ RESNAIS/ DEMY/ TOURNEUR/ ALEC GUINESS
ERVAS DANINHAS de Alain Resnais com André Dussolier e Sabine Azema
Surpreende a jovialidade de Resnais. Da turma dos pra lá de 80 é ele o que mais ousa. Plasticamente este é bastante nouvelle-vague. Mas está longe do ótimo Medos Privados ou do excelente Amores Parisienses. De qualquer modo, eis um cineasta! Nota 6.
MÚSICA E LÁGRIMAS de Anthony Mann com James Stewart e June Allyson
Na história do cinema americano, dois diretores foram terrivelmente subestimados: Dassin e este Anthony Mann. O homem fez policiais, montes de westerns, épicos e esta bio de Glenn Miller. Uma bio exemplar. Cheia de liberdades com a história, mas jamais traindo o espírito da arte do biografado. De modo leve e colorido, acompanhamos o incio de Miller, seu casamento feliz e o hiper-sucesso. Há uma cena com Louis Armstrong e Gene Krupa em boteco de jazz que é sensacional. Stewart em mais uma aula de simpatia e atuação relax. Nunca perde o tom. Nota 8.
LOLA de Jacques Demy com Anouk Aimée
É bela a França de 1960 com seus carros pequenos, os ternos e vestidos com chapéu e suas meninas bailarinas. Mas há algo de muito flácido neste exercicio de otimismo de diretor "delicado". Na história de prostituta que espera o retorno de seu grande amor, Demy homenageia Ophuls sem jamais chegar perto da leveza do mestre austríaco. Destaque aqui para bela trilha sonora de Michel Legrand e a fotografia brilhante e livre de Raoul Coutard. O filme embaralha finais felizes, mas falta sinceridade e força. Nota 5.
REDE DE INTRIGAS de Sidney Lumet com Peter Finch, William Holden, Faye Dunaway
Forte. Um roteiro irado de Paddy Chayefski joga na tv todo o fel possível. A mensagem é simples: violencia vende. O filme ganhou Oscars para Finch ( póstumo ) que está soberbo como o âncora que enlouquece, e para Faye, hilária como a ambiciosa diretora de programação. É uma excelente diversão e um filme soberbo. 120 minutos de pura raiva e de nenhum mal humor. Nota 9.
AS OITO VÍTIMAS de Robert Hamer com Alec Guiness, Dennis Price e Joan Greenwood
O British Film Institute elegeu esta comédia negra um dos dez maiores filmes ingleses da história. Não é pra tanto. Tem atuação inspirada de Guiness ( fazendo oito papéis diferentes. Foi ele quem inventou essa coisa que Eddie Murphy adora fazer ) e tem bons diálogos. Mas o assistindo reparamos no porque do pessoal do Cahiers ( Truffaut, Chabrol, Godard ) desbancar tanto o cinema inglês da época. Não há o menor sinal de criatividade na direção, não há um take arrojado, uma tentativa nova, nada. Hamer posta a câmera e deixa os atores recitarem suas falas. Felizmente eles são excelentes. Mas falta vida a este filme "chá das cinco". Nota 6.
MEU CACHORRO SKIP de Jay Russel com Freddie Muniz, Kevin Bacon, Diane Lane e Luke Wilson
Diane é linda que dói. Cada close em seu rosto é uma declaração de amor. E temos aqui um filme "de cachorro" muito acima da média desse tipo de filme. Nada de cães que falam. O filme é lacrimoso e engraçado e quem adora cães deve assistir. Como cinema é novela bem fotografada. O cachorro é rei de simpatia. Nota 6 para o filme e 10 para o cão.
A MORTA VIVA de Jacques Tourneur
No inicio dos anos 40 Val Lewton, produtor da RKO, lançou uma série de filmes baratos de horror. Na verdade não são de horror. São peças de estilo, filmes de clima, soturnos. Este fala de Voodoo em ilha tropical. Tem até macumba. Tourneur sabia dirigir de tudo. Este é divertido exemplo de cinema hiper-popular que guardava momentos de invenção. Nota 6.
Surpreende a jovialidade de Resnais. Da turma dos pra lá de 80 é ele o que mais ousa. Plasticamente este é bastante nouvelle-vague. Mas está longe do ótimo Medos Privados ou do excelente Amores Parisienses. De qualquer modo, eis um cineasta! Nota 6.
MÚSICA E LÁGRIMAS de Anthony Mann com James Stewart e June Allyson
Na história do cinema americano, dois diretores foram terrivelmente subestimados: Dassin e este Anthony Mann. O homem fez policiais, montes de westerns, épicos e esta bio de Glenn Miller. Uma bio exemplar. Cheia de liberdades com a história, mas jamais traindo o espírito da arte do biografado. De modo leve e colorido, acompanhamos o incio de Miller, seu casamento feliz e o hiper-sucesso. Há uma cena com Louis Armstrong e Gene Krupa em boteco de jazz que é sensacional. Stewart em mais uma aula de simpatia e atuação relax. Nunca perde o tom. Nota 8.
LOLA de Jacques Demy com Anouk Aimée
É bela a França de 1960 com seus carros pequenos, os ternos e vestidos com chapéu e suas meninas bailarinas. Mas há algo de muito flácido neste exercicio de otimismo de diretor "delicado". Na história de prostituta que espera o retorno de seu grande amor, Demy homenageia Ophuls sem jamais chegar perto da leveza do mestre austríaco. Destaque aqui para bela trilha sonora de Michel Legrand e a fotografia brilhante e livre de Raoul Coutard. O filme embaralha finais felizes, mas falta sinceridade e força. Nota 5.
REDE DE INTRIGAS de Sidney Lumet com Peter Finch, William Holden, Faye Dunaway
Forte. Um roteiro irado de Paddy Chayefski joga na tv todo o fel possível. A mensagem é simples: violencia vende. O filme ganhou Oscars para Finch ( póstumo ) que está soberbo como o âncora que enlouquece, e para Faye, hilária como a ambiciosa diretora de programação. É uma excelente diversão e um filme soberbo. 120 minutos de pura raiva e de nenhum mal humor. Nota 9.
AS OITO VÍTIMAS de Robert Hamer com Alec Guiness, Dennis Price e Joan Greenwood
O British Film Institute elegeu esta comédia negra um dos dez maiores filmes ingleses da história. Não é pra tanto. Tem atuação inspirada de Guiness ( fazendo oito papéis diferentes. Foi ele quem inventou essa coisa que Eddie Murphy adora fazer ) e tem bons diálogos. Mas o assistindo reparamos no porque do pessoal do Cahiers ( Truffaut, Chabrol, Godard ) desbancar tanto o cinema inglês da época. Não há o menor sinal de criatividade na direção, não há um take arrojado, uma tentativa nova, nada. Hamer posta a câmera e deixa os atores recitarem suas falas. Felizmente eles são excelentes. Mas falta vida a este filme "chá das cinco". Nota 6.
MEU CACHORRO SKIP de Jay Russel com Freddie Muniz, Kevin Bacon, Diane Lane e Luke Wilson
Diane é linda que dói. Cada close em seu rosto é uma declaração de amor. E temos aqui um filme "de cachorro" muito acima da média desse tipo de filme. Nada de cães que falam. O filme é lacrimoso e engraçado e quem adora cães deve assistir. Como cinema é novela bem fotografada. O cachorro é rei de simpatia. Nota 6 para o filme e 10 para o cão.
A MORTA VIVA de Jacques Tourneur
No inicio dos anos 40 Val Lewton, produtor da RKO, lançou uma série de filmes baratos de horror. Na verdade não são de horror. São peças de estilo, filmes de clima, soturnos. Este fala de Voodoo em ilha tropical. Tem até macumba. Tourneur sabia dirigir de tudo. Este é divertido exemplo de cinema hiper-popular que guardava momentos de invenção. Nota 6.
O INFERNO DO BUDISMO
Passaram-se 2500 anos desde que Sidarta Gautama esteve entre nós. É bom recordar isso, pois nunca estivemos tão distantes do que ele disse. O mundo, dia a dia, se torna cada vez mais a imagem daquilo que Buda chamava de Inferno. Um mundo onde o desejo é o único rei.
Todo cara metido a intelectual já namorou o budismo. E intelectuais verdadeiros também. Desde Schopenhauer, passando por Wagner e Hesse, todos sentiram fascinação pelo milagre mental executado por Gautama. A criação de uma religião sem qualquer tipo de Deus. Que sequer fala de paraíso ou inferno, que nega a individualidade, e que em sua forma verdadeira, não fala sobre imortalidade. É o ponto máximo do pessimismo humano. Mas estranhamente, dentro desse pessimismo é a única forma de paz absoluta que conheço.
Após a morte de Buda ( e ele morreu em nirvana. E morrer em nirvana significa nunca mais encarnar. E nunca mais encarnar significa o bem supremo : deixar de existir. ) seus seguidores deturparam tudo o que ele pregara. No Japão criaram até mesmo deuses budistas, o que é a negação do próprio budismo ( como ser desapegado se apegando a um deus ? ). Mas isso ocorreu com todas as religiões. A transformação de um caminho individualista numa forma de politica. Mas vamos ao inferno e ao céu.
Buda descobriu algo que considero extremamente ousado. Toda a infelicidade humana vem de desejos não satisfeitos. Mas é próprio do desejo o ser insaciável. Portanto a vida consiste na infelicidade de desejos jamais saciados. E todo desejo é uma ilusão. Nenhum desejo pode salvar sua alma da dor, da fome e da morte. Correr atrás dos desejos, obedece-los é emaranhar-se em armadilhas, viver na mentira, naquilo que não dura. Pois o desejo é finito. Como vencer a ilusão? Como ser livre? Negando o desejo. Ignorando-os. Vivendo para aquilo que independe de querer, de procurar, de ansiar. Tudo o que está fora do mundo de espaço e tempo, o que é para sempre e constante, a verdade.
Buda bate de frente com o freudianismo em que vivemos. Para ele o mal não é a repressão do desejo. O mal é a escravidão a carne e ao desejo, o depender de coisas e de seres. Mas observe: o não-desejo budista é ato consciente. Não é medo do mundo real, é a transcendencia. Jamais sintoma ou fuga, antes, abandonar-se suavemente à vida.
Voce sabe que vivemos no império do tempo e do desejo. Ser feliz é satisfazer desejos e ser livre é ter tempo. Tudo ilusão. O desejo satisfeito não existe. O tempo não existe. Satisfazer um desejo é saciar coisa transitória. Ter tempo é ter coisa alguma. Mas o que o budismo nos dá?
Estranhamente ele nada nos dá. Para o budismo não existe recompensa. Voce segue o bom caminho ( não matar, não se iludir, não guerrear, não comer carne ) e talvez ganhe como recompensa o não existir. É preciso então dizer o que é a reencarnação budista.
O que reencarna é a vida, não voce. Nada daquilo que voce é ou faz pode sobreviver. Porque são coisas ilusórias, existem no mundo do desejo. A fagulha de vida que é parte do universo é que reencarna. Se voce for ruim, esse seu tesouro volta como bicho. Pois para o budismo, o animal é o ser completamente preso. Um bicho não tem opção. Viver para ele é viver no desejo e na ilusão. Fome, cio e medo. É uma visão do bicho bastante anti-Disney. Os animais não são bons ou ruins, são escravos de seu instinto. O homem pode ser superior a isso. Ou não.
Buda teve a coragem de enxergar que tudo termina em ruína. Que seremos trapos envelhecidos, que sempre sentiremos dor e que tudo o que fica de nossa brilhante passagem são cinzas e vazio. Mas sua intuição genial foi a de entender que tudo isso não tem valor algum. Se viver é uma miséria então viver não é tão importante assim. O que importa é o que está fora da vida e da morte, e isso não pode ser falado ( palavras são vãs. Budismo é religião sem discurso ). Nirvana.
Não sei se já tive alguma fagulha de experiencia budista. Mas sei, por experiencia própria, que a felicidade genuína só existe em solidão. Para ser feliz voce não pode depender de alguém ou de alguma coisa. A felicidade a dois é felicidade que depende, que possue, que é sempre insegura. Que vai acabar. A felicidade com o eterno ( que não é deus nem algum santo ) é para sempre. Não depende de tempo, de lugar, e atenção: nem de voce mesmo. Ela é o momento em que voce deixa de ser voce, em que voce se desvanece.
Atingir esse estado com droga ou ação é depender de coisas. O estado de bem-viver estará preso a droga ou a ação, voce será escravo. Ele deve nascer de dentro de voce, do além de voce, do nada vazio que há em nós, do absoluto zero. Onde não há desejo, tempo, vontade ou imagem.
Eu já vivi vislumbres disso. Em tempo de absoluta solidão. De total falta de dinheiro. De nada para fazer ou planejar. Em que o risco da depressão era constante. Mas foi momento em que consegui ir além da tristeza e da dor. Em que o nada querer e o nada fazer se transformaram em existir. Em que percebi a imensa insignificancia de meus desejos, de minha vida, de todas as vidas, de todo o universo. Em que vi a pequena ilusão de tudo aquilo que parece importante, no caminho cheio de estridencia e bobagens que trilhamos. Vendo tudo isso me deparei com o desespero e o puro cinismo. Mas voce o supera com o budismo. Porque voce percebe que mesmo o desespero e o cinismo é um nada. Voce os ignora.
Há pouco espaço para o amor em Buda. Amor é paixão e paixão é escravidão a um outro. Mas há lugar para compaixão. Nasce um sentimento de respeito ao que importa, e a vida de tudo e de cada um importa, pois todos estão empenhados em transcender a miséria do desejo. A maioria de forma errada. Mas voce também. Um budista não irá te consolar ou te erguer do chão. Ele também não tentará fazer sua cabeça ou se aproveitar de sua fraqueza. Ele seguirá seu caminho e esperará que voce siga o seu. Ele nada tem de cristão.
Apesar de não comer carne e de ser desapegado de amigos, estou tão longe do budismo como voce está. Sou escravo de conforto, de boa comida e de mulheres bonitas. Aliás, sou escravo de tudo o que é bonito. Sou amante desta vida. E temo terrivelmente a morte. Mas já senti, com uma certeza rara, que Buda está certo. Que existe uma paz absoluta onde cessa tudo. E que este mundo é um absoluto engodo.
Sincera e lentamente eu sinto que minha vida caminha para o caminho amarelo. Mas os objetos são muitos e eles me atrasam. Mas eu vou chegar lá. Um dia.
Todo cara metido a intelectual já namorou o budismo. E intelectuais verdadeiros também. Desde Schopenhauer, passando por Wagner e Hesse, todos sentiram fascinação pelo milagre mental executado por Gautama. A criação de uma religião sem qualquer tipo de Deus. Que sequer fala de paraíso ou inferno, que nega a individualidade, e que em sua forma verdadeira, não fala sobre imortalidade. É o ponto máximo do pessimismo humano. Mas estranhamente, dentro desse pessimismo é a única forma de paz absoluta que conheço.
Após a morte de Buda ( e ele morreu em nirvana. E morrer em nirvana significa nunca mais encarnar. E nunca mais encarnar significa o bem supremo : deixar de existir. ) seus seguidores deturparam tudo o que ele pregara. No Japão criaram até mesmo deuses budistas, o que é a negação do próprio budismo ( como ser desapegado se apegando a um deus ? ). Mas isso ocorreu com todas as religiões. A transformação de um caminho individualista numa forma de politica. Mas vamos ao inferno e ao céu.
Buda descobriu algo que considero extremamente ousado. Toda a infelicidade humana vem de desejos não satisfeitos. Mas é próprio do desejo o ser insaciável. Portanto a vida consiste na infelicidade de desejos jamais saciados. E todo desejo é uma ilusão. Nenhum desejo pode salvar sua alma da dor, da fome e da morte. Correr atrás dos desejos, obedece-los é emaranhar-se em armadilhas, viver na mentira, naquilo que não dura. Pois o desejo é finito. Como vencer a ilusão? Como ser livre? Negando o desejo. Ignorando-os. Vivendo para aquilo que independe de querer, de procurar, de ansiar. Tudo o que está fora do mundo de espaço e tempo, o que é para sempre e constante, a verdade.
Buda bate de frente com o freudianismo em que vivemos. Para ele o mal não é a repressão do desejo. O mal é a escravidão a carne e ao desejo, o depender de coisas e de seres. Mas observe: o não-desejo budista é ato consciente. Não é medo do mundo real, é a transcendencia. Jamais sintoma ou fuga, antes, abandonar-se suavemente à vida.
Voce sabe que vivemos no império do tempo e do desejo. Ser feliz é satisfazer desejos e ser livre é ter tempo. Tudo ilusão. O desejo satisfeito não existe. O tempo não existe. Satisfazer um desejo é saciar coisa transitória. Ter tempo é ter coisa alguma. Mas o que o budismo nos dá?
Estranhamente ele nada nos dá. Para o budismo não existe recompensa. Voce segue o bom caminho ( não matar, não se iludir, não guerrear, não comer carne ) e talvez ganhe como recompensa o não existir. É preciso então dizer o que é a reencarnação budista.
O que reencarna é a vida, não voce. Nada daquilo que voce é ou faz pode sobreviver. Porque são coisas ilusórias, existem no mundo do desejo. A fagulha de vida que é parte do universo é que reencarna. Se voce for ruim, esse seu tesouro volta como bicho. Pois para o budismo, o animal é o ser completamente preso. Um bicho não tem opção. Viver para ele é viver no desejo e na ilusão. Fome, cio e medo. É uma visão do bicho bastante anti-Disney. Os animais não são bons ou ruins, são escravos de seu instinto. O homem pode ser superior a isso. Ou não.
Buda teve a coragem de enxergar que tudo termina em ruína. Que seremos trapos envelhecidos, que sempre sentiremos dor e que tudo o que fica de nossa brilhante passagem são cinzas e vazio. Mas sua intuição genial foi a de entender que tudo isso não tem valor algum. Se viver é uma miséria então viver não é tão importante assim. O que importa é o que está fora da vida e da morte, e isso não pode ser falado ( palavras são vãs. Budismo é religião sem discurso ). Nirvana.
Não sei se já tive alguma fagulha de experiencia budista. Mas sei, por experiencia própria, que a felicidade genuína só existe em solidão. Para ser feliz voce não pode depender de alguém ou de alguma coisa. A felicidade a dois é felicidade que depende, que possue, que é sempre insegura. Que vai acabar. A felicidade com o eterno ( que não é deus nem algum santo ) é para sempre. Não depende de tempo, de lugar, e atenção: nem de voce mesmo. Ela é o momento em que voce deixa de ser voce, em que voce se desvanece.
Atingir esse estado com droga ou ação é depender de coisas. O estado de bem-viver estará preso a droga ou a ação, voce será escravo. Ele deve nascer de dentro de voce, do além de voce, do nada vazio que há em nós, do absoluto zero. Onde não há desejo, tempo, vontade ou imagem.
Eu já vivi vislumbres disso. Em tempo de absoluta solidão. De total falta de dinheiro. De nada para fazer ou planejar. Em que o risco da depressão era constante. Mas foi momento em que consegui ir além da tristeza e da dor. Em que o nada querer e o nada fazer se transformaram em existir. Em que percebi a imensa insignificancia de meus desejos, de minha vida, de todas as vidas, de todo o universo. Em que vi a pequena ilusão de tudo aquilo que parece importante, no caminho cheio de estridencia e bobagens que trilhamos. Vendo tudo isso me deparei com o desespero e o puro cinismo. Mas voce o supera com o budismo. Porque voce percebe que mesmo o desespero e o cinismo é um nada. Voce os ignora.
Há pouco espaço para o amor em Buda. Amor é paixão e paixão é escravidão a um outro. Mas há lugar para compaixão. Nasce um sentimento de respeito ao que importa, e a vida de tudo e de cada um importa, pois todos estão empenhados em transcender a miséria do desejo. A maioria de forma errada. Mas voce também. Um budista não irá te consolar ou te erguer do chão. Ele também não tentará fazer sua cabeça ou se aproveitar de sua fraqueza. Ele seguirá seu caminho e esperará que voce siga o seu. Ele nada tem de cristão.
Apesar de não comer carne e de ser desapegado de amigos, estou tão longe do budismo como voce está. Sou escravo de conforto, de boa comida e de mulheres bonitas. Aliás, sou escravo de tudo o que é bonito. Sou amante desta vida. E temo terrivelmente a morte. Mas já senti, com uma certeza rara, que Buda está certo. Que existe uma paz absoluta onde cessa tudo. E que este mundo é um absoluto engodo.
Sincera e lentamente eu sinto que minha vida caminha para o caminho amarelo. Mas os objetos são muitos e eles me atrasam. Mas eu vou chegar lá. Um dia.
REDE DE INTRIGAS ( NETWORK ) - SIDNEY LUMET
Logo após uma obra-prima chamada UM DIA DE CÃO, Lumet lança em 1976 seu filme para Oscar : NETWORK. Leva os prêmios de ator ( póstumo, para Peter Finch, ator inglês que está impressionante ), atriz para Faye Dunaway e roteiro, para Paddy Chayefski. E numa das maiores zebras do prêmio, perde filme e direção para Rocky, Um Lutador e John G. Alvidsen, o diretor do filme de Stallone. Hoje eu finalmente assisto Network e sou dominado pela força irada e hilária desse propositalmente exagerado filme que bate forte na tv.
Lumet e Chayefski começaram trabalhando em tv. E como todos de sua geração, acreditavam que a tv se tornaria cada vez mais sofisticada, fazendo com que a cultura se tornasse acessível a todo o planeta. Exatamente o que se pensava da internet. Os dois piraram quando viram, principalmente a partir dos anos 70, no que ela se tornou. Os presidentes do veículo, que viviam só para sua empresa, e que ainda tinham algum idealismo, sendo substituidos por grandes conglomerados de acionistas, que nunca pisavam na empresa e queriam apenas o lucro rápido, custe o que custar, para poder vender as ações e saltar fora.
O filme conta a história de âncora veterano que é demitido. Ao se despedir no ar, ele surta, e diz que irá se matar ao vivo na terça seguinte. A direção da tv enlouquece e lhe dá bronca. Mas o diretor é seu amigo e deixa ele ir mais uma vez ao ar para se desculpar. Dessa vez ele faz um discurso irado, expressa a raiva e a impotencia dos americanos e pede para que todos corram a janela e gritem. Numa bela cena vemos as pessoas gritando nas janelas. Está construído um campeão de audiência. Vemos pelo resto do filme, esse ex-ancora e atual profeta, enlouquecer cada vez mais, até ser morto ao vivo. Peter Finch faz esse insano com humor e entrega, e nos dá uma das mais espetaculares atuações do cinema. Morreu do coração pouco antes da entrega do Oscar, já favorito, e venceu. Mas há mais.
Faye Dunaway faz a nova diretora de programação. Uma ambiciosa mulher de negócios, sem vida pessoal, que se envolve com o velho amigo do tal profeta. É hilária a atuação de Faye. Ela revira os olhos e goza quando fala em cifras, transa falando de programação e foge alucinada de tudo que seja vida real. William Holden faz o veterano de tv que se envolve com ela. Um observador da loucura dela e do profeta. Ele tem uma frase genial : - Ela é da geração que aprendeu a viver com o Pernalonga.
Robert Duvall faz o novo chefão de departamento. Consegue dar nuances à um personagem que é repulsivamente frio. A cena em que ele perde o emprego é de antologia.
Assistimos o enlouquecimento não só do profeta, mas da própria tv. Faye negocia com grupo terrorista e lança A HORA MAO-TSÉ-TUNG. E ao final vem a transmissão da morte ao vivo.
O filme exagera. Mas se minha geração foi educada por Kojak e Flintstones, a geração que hoje tem 30 foi criada por Xuxa e Jaspion e a atual cresce com filmes pornô na internet ( onde se vê gente defecando e pisando em ratos vivos ). William Holden diz que noventa por cento da população só conhece a vida via tv. Não lêem livros ou jornais. O que a tela mostra é sua única regra de comportamento, sua educação.
Em 1976 ainda se discutia isso. Hoje sabemos que o jogo foi ganho de goleada pela tv. A internet segue seus passos. Do veículo de cultura que se imaginava nos anos 90, se tornou rede de fofocas, sexo, violencia e jogos. Vivemos pautados pela tela. Nos interessa só o que passa por ela. O resto não existe.
Paddy Chayefski constroi um roteiro exemplar. Ainda não conheço filme tão bom sobre a tv e noto que o estilo visual de todos esses filmes tipo George Clooney é decalcado deste NETWORK.
Obrigatório !
Lumet e Chayefski começaram trabalhando em tv. E como todos de sua geração, acreditavam que a tv se tornaria cada vez mais sofisticada, fazendo com que a cultura se tornasse acessível a todo o planeta. Exatamente o que se pensava da internet. Os dois piraram quando viram, principalmente a partir dos anos 70, no que ela se tornou. Os presidentes do veículo, que viviam só para sua empresa, e que ainda tinham algum idealismo, sendo substituidos por grandes conglomerados de acionistas, que nunca pisavam na empresa e queriam apenas o lucro rápido, custe o que custar, para poder vender as ações e saltar fora.
O filme conta a história de âncora veterano que é demitido. Ao se despedir no ar, ele surta, e diz que irá se matar ao vivo na terça seguinte. A direção da tv enlouquece e lhe dá bronca. Mas o diretor é seu amigo e deixa ele ir mais uma vez ao ar para se desculpar. Dessa vez ele faz um discurso irado, expressa a raiva e a impotencia dos americanos e pede para que todos corram a janela e gritem. Numa bela cena vemos as pessoas gritando nas janelas. Está construído um campeão de audiência. Vemos pelo resto do filme, esse ex-ancora e atual profeta, enlouquecer cada vez mais, até ser morto ao vivo. Peter Finch faz esse insano com humor e entrega, e nos dá uma das mais espetaculares atuações do cinema. Morreu do coração pouco antes da entrega do Oscar, já favorito, e venceu. Mas há mais.
Faye Dunaway faz a nova diretora de programação. Uma ambiciosa mulher de negócios, sem vida pessoal, que se envolve com o velho amigo do tal profeta. É hilária a atuação de Faye. Ela revira os olhos e goza quando fala em cifras, transa falando de programação e foge alucinada de tudo que seja vida real. William Holden faz o veterano de tv que se envolve com ela. Um observador da loucura dela e do profeta. Ele tem uma frase genial : - Ela é da geração que aprendeu a viver com o Pernalonga.
Robert Duvall faz o novo chefão de departamento. Consegue dar nuances à um personagem que é repulsivamente frio. A cena em que ele perde o emprego é de antologia.
Assistimos o enlouquecimento não só do profeta, mas da própria tv. Faye negocia com grupo terrorista e lança A HORA MAO-TSÉ-TUNG. E ao final vem a transmissão da morte ao vivo.
O filme exagera. Mas se minha geração foi educada por Kojak e Flintstones, a geração que hoje tem 30 foi criada por Xuxa e Jaspion e a atual cresce com filmes pornô na internet ( onde se vê gente defecando e pisando em ratos vivos ). William Holden diz que noventa por cento da população só conhece a vida via tv. Não lêem livros ou jornais. O que a tela mostra é sua única regra de comportamento, sua educação.
Em 1976 ainda se discutia isso. Hoje sabemos que o jogo foi ganho de goleada pela tv. A internet segue seus passos. Do veículo de cultura que se imaginava nos anos 90, se tornou rede de fofocas, sexo, violencia e jogos. Vivemos pautados pela tela. Nos interessa só o que passa por ela. O resto não existe.
Paddy Chayefski constroi um roteiro exemplar. Ainda não conheço filme tão bom sobre a tv e noto que o estilo visual de todos esses filmes tipo George Clooney é decalcado deste NETWORK.
Obrigatório !
THERE'S A RIOT GOING ON- SLY AND THE FAMILY STONE
Sly explode em 1968 tomando de assalto as paradas dos EUA com uma mistura de funk com soul e psicodelismo. Sua música, alegre e otimista, dançante e viajante, pregava um novo mundo, mundo onde brancos, negros, mulheres, chicanos e indios viveriam em completo estado de fun. Sua banda era um grupo que exemplificava essa afirmação. Negros e brancos tocando juntos, com um batera mexicano e duas mulheres, uma delas no trompete. Em 1969 eles estão no auge, roubam o show em Woodstock e lançam TRÊS !!!! albuns e conseguem TRÊS!!!! Primeiros lugares.
Mas vem 1970 e tudo muda. Sly se tranca em estúdio, gasta uma fortuna em mixagem, descobre os gigantescos e complicadíssimos sintetizadores da época, enche-se de cocaína e torna seu som uma coisa muito menos fun e tremendamente soturna. Lança no fim do ano THERE'S A RIOT e consegue mais um primeiro lugar. Mas é o começo do fim. Vamos ao som.
Primeira impressão. A mixagem é tão diferente, torta, quebrada, que voce vai achar que o disco tem algum defeito. Os instrumentos surgem e somem, o volume varia, os agudos crescem, a bateria quase desaparece, o baixo está alto demais. E o vocal não é vocal. É apenas grunhido e gemido. Bateria eletrônica e muito teclado. E o baixo de Larry Graham, aqui inventando o snap.
Ele é todo dançante e a segunda coisa muito estranha é que ele não tem época definida. Dizer que ele é do tempo de Let It Be ou Let It Bleed é muito estranho. Ele parece de outro tempo. Qual ?
Se EXILE ON MAIN STREET é o disco de rock que toda banda tem de um dia enfrentar, RIOT é o disco que todo artista negro traz como charada em sí. De James Brown a Prince, passando por grupos de rap e cantores de r/b, todos tentaram seu RIOT. É o rito de passagem , o ficar adulto, o se mostrar multi-facetado, e é, sempre, o começo do fim. Todos eles quando fizeram seu RIOT de certo modo, se esfacelaram a seguir. Quando não, terminaram ( Outkast é bom exemplo )
Luv'n haight abre o disco e nela voce já vê a quebradeira e o baixo mandando. Sly grita e geme e grunhe e berra. Nada no disco é canção. Pode-se dizer que é voodoo elétrico. Isso define o disco, ele é tão elétrico que dá choque.
just like a baby é puro sexo. Uma transa molhadaça em lençóis sujos. Sly mia aqui.
poet é das coisas mais lindas da história do gênio humano. O som divaga dentro de seu próprio som e atinge uma introspecção coltraneana. Ouvir isto é morrer um pouco.
family affair é momento de falsa alegria. O disco é de ironia.
asphalt jungle é o som dançante "do futuro". Quanta gente do rap já bebeu aqui ? Um auge de música negra ( mais um ) numa sequencia de faixas que é o auge dos auges.
brave and strong é uma afirmação. Seus ouvidos já se acostumaram com o som anguloso e quebrado. Agora, aqui, é tudo dança. A banda, a melhor das bandas de qualquer cor, está tão afiada que chega a aturdir.
smilin' é doce como veneno. Repare no baixo e tome consciencia : o disco quase não tem bateria!
time é pra se derreter. Hino das cenas dionisíacas de minha vida, abraço de paixão, é triste triste triste. Sly se lamenta, sai do tom, geme atravessado, nunca está cantando. Ele está em perigo sempre.
spaced cowboy é isso. Doidona. LSD hilário e gozação chapada. Dá pra ver que eles se divertiam, mas dá pra ter certeza : o fim está chegando.
runnin away é pausa que refresca.
thank you é o fim. Leio que é a descrição de uma morte a bala. É hipnose. É para nunca se esquecer. Uma longa dança de feitiço, uma orgia solitária, assassinato do Sly original, disparo de revólver. Uma comunhão de baixo e teclado com vozes alucinadas que levam seu cérebro e seus quadrís ao desencontro. Você DANÇA!
Este disco é Public Enemy, é acid music, é rap, é Red Hot Chili, é Massive Attack, Prince, Guru e Outkast. È um de meus top five e é prova de que dá pra ser genial e ainda assim nunca ser chato ou pedante.
Depois deste disco Sly continuou lançando discos. Mas, com o cérebro frito pelo pó, nada mais era sombra ao que ele fizera. Vai ter mais um come back dele neste verão europeu. Reverenciá-lo é obrigatório. O cara não tem rival.
Mas vem 1970 e tudo muda. Sly se tranca em estúdio, gasta uma fortuna em mixagem, descobre os gigantescos e complicadíssimos sintetizadores da época, enche-se de cocaína e torna seu som uma coisa muito menos fun e tremendamente soturna. Lança no fim do ano THERE'S A RIOT e consegue mais um primeiro lugar. Mas é o começo do fim. Vamos ao som.
Primeira impressão. A mixagem é tão diferente, torta, quebrada, que voce vai achar que o disco tem algum defeito. Os instrumentos surgem e somem, o volume varia, os agudos crescem, a bateria quase desaparece, o baixo está alto demais. E o vocal não é vocal. É apenas grunhido e gemido. Bateria eletrônica e muito teclado. E o baixo de Larry Graham, aqui inventando o snap.
Ele é todo dançante e a segunda coisa muito estranha é que ele não tem época definida. Dizer que ele é do tempo de Let It Be ou Let It Bleed é muito estranho. Ele parece de outro tempo. Qual ?
Se EXILE ON MAIN STREET é o disco de rock que toda banda tem de um dia enfrentar, RIOT é o disco que todo artista negro traz como charada em sí. De James Brown a Prince, passando por grupos de rap e cantores de r/b, todos tentaram seu RIOT. É o rito de passagem , o ficar adulto, o se mostrar multi-facetado, e é, sempre, o começo do fim. Todos eles quando fizeram seu RIOT de certo modo, se esfacelaram a seguir. Quando não, terminaram ( Outkast é bom exemplo )
Luv'n haight abre o disco e nela voce já vê a quebradeira e o baixo mandando. Sly grita e geme e grunhe e berra. Nada no disco é canção. Pode-se dizer que é voodoo elétrico. Isso define o disco, ele é tão elétrico que dá choque.
just like a baby é puro sexo. Uma transa molhadaça em lençóis sujos. Sly mia aqui.
poet é das coisas mais lindas da história do gênio humano. O som divaga dentro de seu próprio som e atinge uma introspecção coltraneana. Ouvir isto é morrer um pouco.
family affair é momento de falsa alegria. O disco é de ironia.
asphalt jungle é o som dançante "do futuro". Quanta gente do rap já bebeu aqui ? Um auge de música negra ( mais um ) numa sequencia de faixas que é o auge dos auges.
brave and strong é uma afirmação. Seus ouvidos já se acostumaram com o som anguloso e quebrado. Agora, aqui, é tudo dança. A banda, a melhor das bandas de qualquer cor, está tão afiada que chega a aturdir.
smilin' é doce como veneno. Repare no baixo e tome consciencia : o disco quase não tem bateria!
time é pra se derreter. Hino das cenas dionisíacas de minha vida, abraço de paixão, é triste triste triste. Sly se lamenta, sai do tom, geme atravessado, nunca está cantando. Ele está em perigo sempre.
spaced cowboy é isso. Doidona. LSD hilário e gozação chapada. Dá pra ver que eles se divertiam, mas dá pra ter certeza : o fim está chegando.
runnin away é pausa que refresca.
thank you é o fim. Leio que é a descrição de uma morte a bala. É hipnose. É para nunca se esquecer. Uma longa dança de feitiço, uma orgia solitária, assassinato do Sly original, disparo de revólver. Uma comunhão de baixo e teclado com vozes alucinadas que levam seu cérebro e seus quadrís ao desencontro. Você DANÇA!
Este disco é Public Enemy, é acid music, é rap, é Red Hot Chili, é Massive Attack, Prince, Guru e Outkast. È um de meus top five e é prova de que dá pra ser genial e ainda assim nunca ser chato ou pedante.
Depois deste disco Sly continuou lançando discos. Mas, com o cérebro frito pelo pó, nada mais era sombra ao que ele fizera. Vai ter mais um come back dele neste verão europeu. Reverenciá-lo é obrigatório. O cara não tem rival.
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