FILMES

   Faz duas ou três décadas que o cinema, como arte relevante, morreu. Ainda se fazem bons filmes, alguns geniais, mas eles todos além de não repercutirem, possuem a tristeza de saber que seu mundo, o universo do cinema, é passado. Como o jazz, a ópera, o rádio ou mesmo o teatro, ir ao cinema é apenas um modo de digerir o jantar, passar duas horas com a namorada ou, pior de tudo, tentar dar sobrevida à um costume. Filmes de TV são apenas isso: Filmes de TV. São filmes, mas não é cinema. Podem ser bons programas para se ver na cama. Podem ser boas séries para se ver após o futebol, Mas por serem TV, já nascem sabendo que em duas décadas estarão completamente mortos. Ninguém assiste Os Sopranos hoje. Menos ainda assiste Friends.
   Um rápido comentário sobre o que assisti no último mês:
   PORTO, UMA HISTÓRIA DE AMOR de Gabe Klinger
Passado na cidade do Porto ( estrangeiros nunca acertam o nome da cidade! Ela se chama O Porto, nunca se diz Porto apenas. ), conta o encontro de um cara muito chato e uma moça muito triste. .
Voce já viu esse mesmo filme umas mil vezes. A cidade é exibida, claro, em seu lado mais soturno.
   OS AVENTUREIROS de Robert Enrico com Alain Delon, Lino Ventura e Joanna Shimkus.
O cenário é lindo mas a aventura é chata. Dois homens se envolvem na busca de um tesouro. Com eles vai uma mulher que eles partilham. É longo e tem a modernice de um filme de 1968. Ou seja, cansa. Mesmo com uma fotografia bonita, não vale a pena. E a trilha sonora é insuportável.
   ILHA DOS CACHORROS de Wes Anderson
Eu vejo várias qualidades em Wes Anderson. Mas ele está mergulhando em uma emboscada. Seu estilo virou maneirismo e aqui desce ao cliché. Ele precisa de uma dose de adrenalina e sair desse mundinho feito de vozes sem emoção, ações sem impetuosidade e humor fofo. Mesmo adorando cães, achei este filme bobo, vazio e incrivelmente feio. Não há porque se fazer uma coisa assim. Parece apenas um desenho da TV Cultura dos mais banais. ( Doug é melhor ).
   SOMENTE O MAR SABE de James Marsh com Colin Firth, Rachel Weisz
Baseado numa incrível história real. Em 1967, na Inglaterra, se estipula um prêmio para o homem que conseguir quebrar o recorde de navegação solitária. Um cara cheio de dívidas, que navega só em fins de semana, se lança ao mar. E enlouquece. Com uma história tão boa, este filme, chato, consegue naufragar. Ele é boring boring boring boring boring so boring.
   MISTER ROBERTS de Melvyn LeRoy e John Ford com Henry Fonda, William Powell, Jack Lemmon e James Cagney.
Foi uma peça de enorme sucesso e marca a estreia de Lemmon no cinema. E ele é a única coisa que presta aqui. É um filme longo, que deveria ser engraçado e heroico, mas que é apenas chato e aborrecido. Fala de um capitão que trata mal seus marujos. Fonda é o oficial que o enfrenta. Tudo em clima de farsa leve. Quer dizer, deveria ser leve, fica travado na verdade. Le Roy assumiu o filme depois que Ford perdeu o interesse. Ou foi o contrário?
   ATOS DE VIOLÊNCIA de who cares? com Bruce Willis, Cole Hauser, Mike Epps
Um bom filme de ação como aqueles que Willis fazia nos anos 90...não é o caso. Ele é um tira que procura um assassino sequestrador. Mas é lento, calmo, e dois irmãos assumem o controle da busca. Pois é.
   SURPRESAS DO CORAÇÃO de Lawrence Kasdan com Meg Ryan, Kevin Kline, Timothy Hutton
Kline está magnífico como um francês malandro que se envolve com uma americana que tem medo de voar. Se passa em Paris e na Riviera, e, óbvio, tenta resgatar a beleza charmosa dos filmes de Cary Grant e Audrey Hepburn. Fica a milhões de anos luz. Mas tem belas canções, bela imagem e não tem nada de burro ou forçado. E tem um casal que funciona bem.
  DESEJO DE MATAR de Eli Roth com Bruce Willis
E esse desejo se satisfaz. Ele mata um monte de gente. Bruce é um cidadão pacato que resolve ir à caça dos bandidos. O filme é ruim? Não. É bom? Não. Não é ruim por nunca ser chato. Não é bom por ser de uma tolice atroz. Bruce não parece muito interessado na coisa. Aliás, desde Pulp Fiction ele não parece muito a fim de trabalho.
  ANDREI RUBLEV de Andrei Tarkovski.
Sentiu a coisa? Eis a tal aura da arte, aquilo que Benjamin dizia que o mercado e a repetição destruía. Este filme de mais de 3 horas, fala da vida de um pintor de ícones do século XV. É um filme sobre pintura que não fala de pintura. Fala do momento em que a Russia nasce como nação. Mas vai além. É sobre a violência crua. Por isso ele é bem duro de se ver. As cenas de crueldade são cruas, rudes, e os atos de violência são vistos como ato banal. Claro que por ser Tarkovski, o filme é bem mais que isso. Há um conflito entre ideal e real, e em meio às loucuras dos homens paira sempre a calma beleza da natureza. A cena final justifica todo o filme. Ao lado de uma aldeia arrasada, dois cavalos namoram numa ilha fluvial. Tarkovski foi um gênio, um dos 5 ou 6 do cinema, e no documentário que vem com o filme vemos que ele parecia ser uma pessoa adorável.
 

ELEIÇÃO

   Estudando na USP, um dos centros da esquerda mais retrógada do país ( lá ainda se fala em proletariado e campesinato ), me tornei um conservador sem qualquer problema de consciência. O mesmo ocorreu no país em tantos anos de ataque aos valores comuns. São ataques diários à igreja, à masculinidade, à família tradicional, ao passado. Ao ser atacado voce tem a possibilidade de duas reações: baixar a cabeça e se culpar, ou erguer a cabeça e reafirmar aquilo que voce é. A esquerda deslumbrada não entendeu e não quer entender isso. Bater no conservadorismo não faz com que ele desapareça. Ao contrário, ele se torna furioso. E deixa assim de ser conservador. Vira proto-fascismo.
   Não falarei sobre o partido dos mentirosos e dos ladrões. Não há o que dizer sobre um partido que nos obriga a escutar a voz de um bêbado presidiário mendigando votos na TV. Falarei sobre o fenômeno de um homem tosco, que contra toda a elite "inteligente" fez de um partido de garagem um partido poderoso. Ele lembra o fascismo por ter o domínio sobre a massa de seguidores frustrados e rancorosos. Isso é perigoso. Mas ele não é um fascista de verdade. Aliás nestes tempos de hiper vigilância e hiper conectividade não há como o fascismo se implantar em um país razoavelmente civilizado. Lula tentou um fascismo de esquerda e se deu muito mal. A vigilância o pegou. Bolsonaro nunca conseguiria. E sei que ele sabe. Lula é muito mais esperto que o simplório ex soldado.
  Se vencer, Bolsonaro tentará fazer um governo moralista e liberal. Moralista em comportamento, liberal no mercado. Para negociar com os países capitalistas de ponta, e esse é seu sonho, terá de se apresentar como moderninho e confiável. Ele sabe disso. Não há escolha.
  Provável que a turma mais hardcore que o elege se sinta traída. O mesmo ocorreu com o PT hardcore. Fundarão um partido à direita de Bolsonaro. Um PSOL de camisas pretas. O que acho interessante em Bolsonaro é que ele fala muita bobagem mas nunca parece mentir. Teria ainda mais votos se mantivesse a boca fechada. Ou aprendesse com Lula a falar o que o público da vez deseja escutar. E isso entendo bem porque sou assim também, desbocado e tosco. O diabinho me faz falar tudo que vem à mente. E quando vejo o estrago foi feito. Um político conseguir milhões de votos falando por impulso é admirável. Não posso e não vou negar.
  Você que me lê deve estar estranhando algo aqui. Parece que só elogio o Coiso. Não. Apenas o olho como o que ele é: humano. Seu governo tem tudo para ser um kaos. Mas o do PT também o será. Com o adendo de ter empáfia e revanchismo. Os petistas babam por vingança.
  Bolsonaro tem muito de Jânio Quadros. E se for eleito será vigiado por uma esquerda louca por sangue. Se seu governo naufragar, Boulos aguarda sua vez. A guinada será à esquerda mais utópica e irresponsável. Espero que seus assessores saibam disso.
  O povo, esse desconhecido, cansou de "folias artísticas", declarações modernetes e roubos à granel. O povo é moralista. Em qualquer canto do planeta ele é. O PT acreditou em certo momento que o Brasil era o baixo Leblon. Que bastava um discurso libertário para ter seus erros perdoados. Não é assim. Para o povo comum, o discurso libertário acrescentou cinismo à história. Perderam o respeito. Não notaram que formadores de opinião só formam opinião de formadores de opinião. Círculo fechado.
  O Mané garçon não quer saber de liberação de drogas, casamento gay ou direito animal. Ele quer respeito à sua igreja, á sua filha e ao seu pai. Bolsonaro sabe disso. Lula sabia e esqueceu. E isso faz uma enorme diferença.

A MAIS IDEALISTA DAS BANDAS.

   Não há consenso sobre onde o movimento romântico começou. Uns dizem ter sido nas ilhas, mais especificamente na Escócia, outros, a maioria, diz ter sido na Alemanha. Depois se espalhou pelo mundo. A característica principal do romântico é o sentimento de solidão. Mas podemos também falar do egocentrismo, da sensação de perda, da busca por transcendência, da valorização das coisas jovens, puras, naturais. Não lembro quem disse a bela tese de que o corpo ansia por criar alma.
   O Kraftwerk é o mais romântico dos grupos musicais de seu tempo e nisso nada há de irônico no que falo. A máquina encontra alma nas mãos desses alemães que desejavam, e conseguiram, criar um tipo de música POP que fosse 100% europeia. Da Alemanha seu som aportou na Inglaterra e de lá para a França e Bélgica. Hoje, escutando dois de seus discos, os dois melhores, percebo que a música eletrônica é a mais romântica dentro do Pop ou do Rock. O lado B do vinil de Autobahn é das coisas mais poéticas já gravadas. Assim como o lado B do Low de Bowie ( que é filho direto deste ), os discos de Ultravox, Eno, Radiohead, Yazoo, Cocteau Twins, e tantos outros, têm esse clima de "altas montanhas isoladas", de solidão alpina, de doença que isola, de ansiedade por transcender. Na América o rock sensível usa violão e é não-romântico, antes é comunitário, idealista. A América é sempre Whitman.
  Mas não a Europa. E os alemães de Dusseldorf criaram um universo de novos timbres e de uma nova sonoridade. O lado B de Autobahn e no Radioactivity inteiro são um enorme poema sobre o romantismo. No sintetizador eles encontram o melhor instrumento para criar paisagens imaginárias, sempre geladas e sempre solitárias. O homem contra o mundo acompanhado por um instrumento e mais nada, um instrumento excessivamente artificial e ao mesmo tempo tão tênue como a eletricidade.
  A beleza é sempre perfeição e o lado B de Autobahn é perfeito. Não existe erro na gravação do Kling Klang estúdio. Um iceberg onírico. Paisagem de sentimentos negados. A Alemanha é um ideal incômodo. É o Kraftwerk é seu símbolo.

Kraftwerk - Autobahn 1975 Tomorrows World TV Programme



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O QUARTO DE JACOB - VIRGINIA WOOLF

Que mente maravilhosa tinha Virginia Woolf...ela era capaz de captar uma abelha passando ao lado de uma flor e ao mesmo tempo imaginar o movimento de um deus sobre o firmamento. A mente dela sempre me recorda uma floresta, os pensamentos brotando sem parar, no chão, dos galhos, da água, por entre as pedras. Ao mesmo tempo é sinfônica, mas não no sentido de Beethoven, é música de Debussy. Impressões que vão e retornam, que morrem antes de crescer, que viram árvores centenárias. Jacob é um jovem londrino que conhece mulheres, estuda em Cambridge, viaja à Grécia. O livro é uma coleção orgânica de impressões. Uma sinfonia de vozes, de personagens que vão e vêm, de modos de ver e de sentir. Virginia Woolf arquiteta tudo isso, que em mãos pouco hábeis seria uma bagunça, com gosto, arte, sabedoria; e em troca nos dá prazer. Ler Woolf é como ouvir música.
Este livro foi editado em 1922 pela Hogarth Press, a editora fundada por ela e seu marido. É o terceiro trabalho dela, mas é o primeiro com seu estilo. É moderno, é surpreendente, é excitante, é um universo completo.

O GÊNIO DA HORA CERTA.

   Observe: em 1770, quando Mozart e outros muitos mais escreviam suas operas, não havia cinema. Óbvio, mas quero destacar isso. Mozart, e depois Rossini, operavam dentro da diversão-arte dominante de sua época. Havia circo. Havia teatro. Havia literatura. Mas a ópera era a rainha da noite.
  Agora pense em 1850. Na Europa o analfabetismo começa a ser erradicado ( na Inglaterra fora já há 50 anos ). Em casa não existe rádio. Nem disco. Você lê. Eis porque se escreve tanto no século XIX. Jornal, revista, romance, poema, filosofia, folhetim. A palavra impressa reina absoluta. Destaco isso porque é essa a explicação pragmática, objetiva, lúcida, do porque jamais teremos outro Tolstoi, Dickens ou Balzac. Produziremos Updikes, Roths e Sebalds, são excelentes, mas nunca mais um grande escritor será o símbolo de seu tempo. Isso porque a própria literatura não mais é o símbolo deste tempo. Entre 1750-1920 mais ou menos, ela foi a ditadora das salas. Veio o rádio, e com ele nasceu o tempo da canção popular.
  Podemos aplicar isso a vários gênios de sua época. Shakespeare trabalhou na grande arte da Inglaterra de 1600: o teatro. Cole Porter e Gershwin na grande arte dos EUA de 1920: a canção popular e o teatro musical. O que digo é: o gênio, hoje, pode estar fazendo teatro em versos, mas pelo fato do teatro em versos não ser a arte deste tempo, ele jamais será um Esquilo ou um Marlowe. Ele será um "quase" .
  Nunca mais tivemos novos Beatles porque eles fizeram seu alarido no curto tempo do rock como febre mundial. Surgiram, por acaso e sorte, no pico da descoberta do adolescente como público alvo. Hoje o rock é apenas um nicho entre inúmeros produtos. Por mais que uma banda tenha talento, ela será apenas uma prateleira e não o supermercado inteiro.
  Entre 1920 e 1950 sair de noite era ir ao cinema. Voce podia ir comer depois, dançar depois, mas ia ao cinema. Porque os filmes eram o modo de se saber como se vestir, do que falar e como seduzir. Veio a TV, ficar na sala de casa voltou a ter o apelo que tivera no século XIX com seus livros, e o cinema começou a se tornar apenas mais um entre vários itens de diversão ou arte. É por isso que Hitchcock, Murnau ou Ford nunca perdem sua aura. Eles, mais que grandes cineastas, são a cara de toda uma época. Radio e cinema era tudo de novo que havia. Sinatra e Bogart. Os reis do mundo.
  Por melhor que Wes Anderson ou Tim Burton sejam, eles são grandes dentro do cinema e apenas do cinema. Porque os filmes não são mais o centro do mundo. Estão na prateleira A82, ao lado do rádio e do circo.
  Pode ser que haja agora um talento tão grande quanto Verdi na ópera. Ou quanto Ben Jonson no teatro. Mas ele jamais poderá ser tão central quanto eles são. Porque esse novo músico ou dramaturgo exerce uma atividade não central.
  Hoje se vê TV, se joga video game, se navega na internet, se lê HQ, se ouve música. Tudo ao mesmo tempo. Nenhuma dessas atividades é central porque todas se completam em um grande ruído. Por isso não adianta se procurar o grande gênio da arte atual. Ele não pode crescer em um meio onde nada cresce de fato. O gênio é um pinheiro, uma faia e hoje temos um matagal fechado, raízes que se devoram e se ajudam.
  Não falarei que o grande talento de hoje está na ciência. Ela sempre foi central. Galileo foi central no tempo da arquitetura e Darwin foi central no do romance. Falo de arte e de diversão. Da vida social. E paro aqui.

UM DISCO SOBRE SEXO, E SÓ SOBRE SEXO= RAW POWER-IGGY POP.

   Conheci alguns Iggys na minha vida. Garotos com pirocas gigantes. Não que as tenha visto, mas suas vidas eram, desde os 14 anos, totalmente dirigidas pela cabeça peniana. Um Leonardo que comia velhos gays em troca de uns trocados e comida. Ele tinha 16. Francisco Eduardo, rico e bonito, que transava com qualquer coisa que tivesse um buraco úmido e quente. André, o que comia toda pessoa que o tocasse. E outros mais. Todos eram pequenos Iggys. O desejo físico puro. Um ódio terrível por esse desejo. Pois eles sabiam, intuitivamente, que o gozo pleno jamais viria.
  Detroit nos anos 60 era uma cidade doida. Capital da black music e ao mesmo tempo berço do MC5, dos Stooges e de Alice Cooper. O metal das fábricas de carros deu metal às guitarras estúpidas. Iggy sempre foi estúpido. Mas sua estupidez virou estilo: Iggy nunca foi intuitivo. Seu ódio era consciente. Ele sabe que o gozo é ilusório.
  Raw Power foi às lojas no ano de 1973. E 1973 foi um ano cú. Ele começa com Dark Side of The Moon e acaba com Goodbye Yellow Brick Road. No meio tem Houses of The Holy. E Sabbath Bloody Sabbath. Tem dois discos do Roxy: For Your Pleasure em janeiro e Stranded em novembro. E ainda solos de Eno e Ferry. Tem o Alladin Sane e Pin Ups. E nos EUA, passando bem despercebido, tem Raw Power. E Berlin, do Lou Reed. Alice Cooper, que lançou o brilhante Billion Dollar Babies, era o king. Iggy era semi morto. Bowie o salvou da morte.
  Bowie mixou o disco todo errado. Um canal com bateria, guitarra e tudo mais. Som de radinho de pilha. O outro canal com voz e guitarra solo. O canal "ruim" é punk. O canal bom é hard rock. Os dois juntos são Iggy Pop. Bowie fez de propósito? Ninguém vai saber.
  A voz de Iggy é a mais explícita voz do sexo já gravada. Sexo sem amor, digamos assim. O ato físico. Um vale tudo entre dois ou três corpos. Essa voz tem tons de sadomasoquismo. Mas também de masturbação, de orgasmo e de estupro. Não é sedutora. Adolescentes tarados não são sedutores. É uma voz que deseja agora. E onde o outro não importa nada. Nos anos 70, onde tudo era feito "numa boa", essa voz falava quase sozinha. No fim dessa década ela anunciaria os anos 80, a década do "voce que se foda, eu quero é mais".
  Raw Power NÃO PODE E NÃO DEVE ser analisado como música. Não procure harmonia, melodia ou criação. Ele é um ato. Um testemunho. Deve ser sentido e pensado como afirmação de uma verdade. Antecipa o punk por ser um posicionamento político. Não música. ( O Roxy já era também isso, mas a política do Roxy era esnobar o mundo real e viver na redoma do romance ).
  Iggy faria pelo resto da vida novos testemunhos sobre o sexo. Às vezes com uma pitada de romance e de alma. Mas sempre com a velha fome da carne imperfeita. O cara é foda. O disco é foda. E nós somos todos uns fodidos.

PEDRA DE TOQUE - EDITH WHARTON

   Edith Wharton nasceu no fim do século XIX e no século XX se tornou uma das mais famosas e geniais escritoras em língua inglesa. Americana como Henry James, de quem foi amiga e com quem se parece, Wharton retrata normalmente, mas não sempre, o mesmo tipo de meio que James, pessoas de classe média que se sentem desconfortáveis perante a alta classe dos mais poderosos. O estilo de Wharton é tão precioso e psicológico quanto o de seu amigo mais genial, ela esmiúça os pensamentos e os sentimentos do personagem. Vivemos na alma do "herói" e nos surpreendemos ao notar que muitas vezes seu interior nada reflete da sua vida exterior. O grande toque deste livro, curto, é o contraste entre o que o herói pensa e aquilo que está acontecendo a seu redor.
  Um jovem foi amado pela mulher mais genial de seu meio. Mas ele não retribuiu. Ela vem a morrer e as cartas, centenas, que ela lhe mandava passam a valer dinheiro. Ele as vende e se casa graças à esse dinheiro. Vemos então a consequência desse ato. Tomado pela paranoia e pela culpa, cheio de medo, ele se debate em pensamentos que jamais se casam com aquilo que os outros pensam e sentem.
  O final é apressado. Wharton deixa de fazer deste livro uma obra prima por se precipitar e nos dar um final sem nuance. É seu primeiro livro e talvez isso explique esse erro. Mas se lê com prazer e emoção todo o resto. Se voce quer entrar no mundo dessa brilhante autora, este é seu portão.

HARRY NILSSON Don't Forget Me (Quad Mix)



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UM ANO BEBENDO, O NASCIMENTO DO INDIE E UM AMERICANO LEGAL.

   Ouço falar de Bob Seger desde 1980. Eu comprava as Rolling Stone gringas e ele sempre estava bem colocado nas paradas. Não tinha curiosidade nenhuma em o escutar. Sabia que era um tipo de Bruce Springsteen dos pobres. Eu achava isso. Achava errado. É legal voce ter mais de 50 anos e ainda descobrir gente que não conhecia. Ter ainda toda uma discografia pra descobrir. Me surpreendi muito ao ver um disco de Bob Seger entre os discos que meu irmão me deixou. Ele não tinha nada de Bruce. Ouço Seger então. Poxa! O homem é bom!
 Bob Seger começou antes de Bruce, em 1970, cantando um tipo de rock de garagem. A partir de 1976 se tornou estrela nos EUA. O som que ele fazia então tinha tudo a ver com Bruce e ao mesmo tempo nada a ver. Seger é mais intimista, não faz hinos. E, apesar de entregar tudo no palco, ele é um pouco mais contido, quase nada, mas é sim. O som de Seger tem uma elegância pop que Bruce raramente tem. Bruce é mais visceral. Bob é mais simples. As canções de Seger vão diretas no coração. São sofridas. São belas. Quando o vinil duplo termina dá vontade de ouvir mais. Eis um cara pra eu ir atrás.
  Ninguém, dentre os gênios do rock, que são poucos, gravou tanta coisa ruim como Paul MacCartney. Ele grava desde 1963, são 55 anos. Imagino que ele deva ter uns 55 discos. Talvez 35 pós Beatles. Desses todos, ele tem 4 ou 5 bons. E mais de 20 muito, muito ruins. E quando Paul é ruim, ele é o mestre da ruindade. Red Rose Speedway e Wild Life são tão ruins que parece até proposital. Tudo soa tão meloso, tão inocente e piegas, tão feitos em capricho, que a gente fica pensando que Paul gravava sem escutar a si mesmo. Os refrões são chatos, as melodias comuns e ele canta com sono. London Town tem o single London Town, que é lindo, uma canção de 1978 com a mágica harmonia que só Paul sabe criar. Um gosto de melancolia e de leveza, de London Town. Adoro muito! Mas o resto do LP, do London Town é constrangedor. Mas...
  Ouço MacCartney, lp de 1970, o primeiro. E pesquiso sobre ele na internet. Leio esta opinião em geral: Um disco massacrado em 1970. Na época dos solos perfeitos, das letras com "conteúdo", o disco foi considerado pobre, mal tocado, esquálido e indulgente. Mas, agora, desde 2000 em diante, o LP é tido como "O PRIMEIRO DISCO INDIE DA HISTÓRIA". Juro que leio isso. E ele é!!!
  Gravado em casa, com um gravador de 4 canais, Paul canta e toca todos os instrumentos. E fala coisas simples: rotina, amor, memória, filhos, solidão. Deus Meu! Que disco bonito!!!! Delicado. Valentine Day, Every Night, Junk, Glasses...são todas tão bonitas, tão atemporais, tão "indie". É a sonoridade que 90% das bandas inglesas tentam ter. Ouça. É como chá ao gramado. Violão, um piano, uma bateriazinha...
  Em 1974 Yoko largou John e ele passou o ano inteiro bebendo. Em 75 ela voltou e ele se trancou no apto. O resto voce sabe.
  Ele bebia com seus amigos: Elton John, Keith Moon e Harry Nilsson. Todos grandes bebedores. Na época eu era criança e ganhei o disco que Moon, John e Nilsson gravaram em 1974: Pussy Cats. O disco tem a capa mais feia da história. Mas é fascinante! Não o ouvia desde mais ou menos 1978. Compro o cd. Meu lp sumiu a muito. Um amigo o roubou.
  Nilsson era uma estrela na época. Fazia até filmes. Ficou famoso em 1969 com Everybodys Talkin, a linda canção de Perdidos Na Noite, o filme com Voigt e Dustin Hoffman. Without You que Nilsson lançou em 1972 é uma das canções que mais vendeu na década. Mas Pussy Cats vende quase nada...Que posso dizer? O disco é amargo como tudo que Nilsson fez. E ao mesmo tempo é histérico. São dez canções que variam do sublime ao desleixo. Nada nele é banal. Posto Dont Forget Me. Se não te pegar...esquece.

Bob Seger ~ Night Moves (1976) ° .. *.☾°*. ●°*. ♫



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Paul McCartney - Singalong Junk



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ALBERT EINSTEIN - WALTER ISAACSON

   Segunda bio de Einstein que leio neste ano, esta é bem mais longa. São 700 páginas escritas pelo mesmo autor da bio de Leonardo da Vinci. Bem escrita, ela quase esgota o assunto. Será que preciso repetir a beleza de uma vida tão feliz? Einstein foi feliz, alegre, distraído, intuitivo. Ele é o ícone daquilo que se convencionou chamar de "gênio da ciência". O velhinho simpático, nas nuvens, que vivia com roupas amarrotadas, ajudava crianças a fazer a lição de casa, falava o que pensava e nunca perdia o bom humor. Sim, ele foi tudo isso. Nele o mito é a realidade. Mas então o que posso dizer de novo sobre ele?..... Falo do que ele considerava a marca de uma vida bem vivida: a curiosidade. O desejo de saber aquilo que não se sabe. De pensar o não pensado. Einstein foi um homem que não suportava o conformismo, por isso sua dificuldade em aceitar o modo prussiano de ser. Não aceitava a ordem unida, o dogma, a fidelidade à uma ideia.
   Mas há mais que isso no livro. O universo visto como a obra ordenada de uma mente superior. Einstein não acreditava em um Deus pessoal, um Ser que cuidava da vida de cada um, mas ele acreditava em uma inteligência que criava o Kosmos. E era a mais fascinante das coisas, usar nossa mente, tão limitada, na leitura dessa obra divina. A física e a matemática são as línguas que mais se aproximam da divina.
   Não se preocupe, vou te poupar de explicações sobre a teoria da relatividade. Menos ainda sobre a mecânica quântica. Einstein no fim da vida não aceitava a nova física. Não acreditava na indeterminação, na probabilidade de um evento, no efeito sem causa. A realidade para ele, era cognoscível. Ela existia na realidade. Independia de nossa observação. ( Para a física quântica, as coisas existem apenas ao serem observadas. Não há uma realidade que possa ser apreendida fora de nossa observação ).
   Pera aí! Prometi não me enfiar nesse emaranhado de conceitos! Como explicar que duas partículas que um dia estiveram unidas, agora separadas, permanecerão reagindo em sincronia mesmo que a bilhões de anos luz uma da outra? É fascinante!
   Ah sim, ele era um ótimo violinista e amava Mozart.

SOBRE O TAL MUSEU E SOBRE A HISTÓRIA DO BRASIL

   Trabalho com educação. E amo meu trabalho. Compreendo os alunos, todos eles. Não me misturo com professores. Alunos são ainda indivíduos, professores, salvo raras coragens, são grupo comandado. O museu pegou fogo e veio abaixo. Nada mais óbvio. Sendo acidente, é um ato falho perfeito. Sendo crime premeditado, é de uma lógica perfeita. Por que?
   Um bando de brancos assassinos vem ao Brasil para matar índios e destruir o paraíso. Depois, esses mesmos monstros escravizam negros. Daí vem a ditadura militar de 64 e enfim surge Lula, nascido em meio ao povo. Esse é o modo como se conta a história do Brasil hoje. Não há amor ao passado que aguente tal narrativa. É dada a ideia de que se deve zerar todo o país até 2003. Só então começa a verdadeira história do real país. Crime hediondo contra uma história cheia de dubiedades e de erros e acertos. Perto desse modo de reduzir a história, queimar um museu faz todo sentido.
   Se diz que somos índios e negros. Talvez sejamos. Mas há quem não o seja. Esses têm duas escolhas apenas: Fingir ser tupi ou se envergonhar. Nessa equação não há lugar para um imigrante europeu ou asiático. Ele deve se reconhecer como filho de um explorador. E se ajoelhar no altar da culpa. Eu falo palavras indígenas e ouço música de preto. Sou tropicalmente indolente. Como feijão. Mas também falo uma língua europeia descendente do latim. Cresci em cultura moldada pela renascença, pelo cristianismo e pelo iluminismo. Conheço escrita, matemática, cinema e melodias românticas. Mas faz de conta que sou africano e guarani. Eis a cultura do fake. Sou uma complexa mistura de gregos, tupis, iorubas, portugueses, romanos, yankees, ingleses, romanos, árabes, indianos, russos e alemães. E adoro a cultura britânica. Mas faz de conta que não. Sou apenas um brasileiro. E sendo brasileiro, sou negro e índio. E se me reconheço como filho de europeus, sou um boçal.
   Foi de uma mediocridade hilária ver postagens comemorando o incêndio do museu. Diziam ser o fim merecido de uma cultura burguesa e escravocrata. Esses pobres idiotas me lembram aqueles filhos mimados de pais odiados. Recebem educação dos pais e depois usam essa educação mal absorvida para negar a própria família. Fiz muito isso. Sei do que falo. A vergonha simplista das origens faz com que um cara se torne o mais imbecil dos seres. Ele mutila a própria raiz. Imagina raízes mortas e podres. Ser um humano inteiro é compreender e aceitar sua história. Entender que o homem do século XIX não era apenas um escravocrata. Era muito mais que isso. Assim como não somos apenas matadores de animais que apertam teclas e assistem filmes pornô. Perceber que índios foram mortos, mas que os marujos faziam apenas seu trabalho e que tiveram uma coragem de gigantes.
  A história do mundo é uma história de guerra. Uma luta pelo poder. O mais forte vence. O mais fraco tenta sobreviver e se fortalecer. Dentro disso há a bela saga da ciência, da arte, dos homens e mulheres mais inteligentes e mais criativos. Negar a crueldade e a beleza dessa história é querer transformar todos em crianças, ou pior, em bichos. O ser adulto sabe que o mundo é duro. Injusto e desafiante. Sempre foi. Sempre será. Nunca houve um paraíso de índios. Eles guerreavam entre si todo o tempo. Torturavam. Estupravam. Nunca houve uma alegre vida africana. Eles viviam em guerra. E os escravos eram capturados nessas guerras. A escravidão sempre existiu em toda cultura humana. E, pasmem!, foi o cristianismo quem primeiro lutou contra ela.
  Não digo que devemos nos conformar com o mal. Lutamos contra ele dia  a dia. Mas devemos saber que ele sempre existiu, existe e existirá. O mal maior é quando acreditamos em sua fraqueza. Reduzir a história a "tempos do mal" e "tempos do bem" é dar trégua à maldade.
  O museu caiu.
  

A FÍSICA OU A ARTE?

   Estou lendo mais uma biografia de Einstein. A que li alguns poucos meses atrás é boa, mas curta demais. Esta, a de Walter Isaacson, é longa e bem mais completa. Mas não é desse livro que desejo falar agora. O que passo a dizer, é que existe uma correspondência entre aquilo que a ciência revela e o "espírito" que rege o momento histórico e criativo do mundo humano. É como se as descobertas revolucionárias da ciência acontecessem apenas no momento em que nossa mente, ou melhor, a mentalidade geral da história, já estivesse apta a aceitar tamanha revelação. Digo isso porque tenho a certeza de que uma teoria como a de Einstein só poderia ser entendida e aceita no momento em que foi revelada. O mundo ao redor dele, o mundo da Europa e da América de 1905 ao menos, já estava pronto para entender e aceitar a hipótese. Posso dizer então que não é a arte que anuncia o tempo que virá. Nem a filosofia especulativa. Uma nova etapa na vida do homem sobre a Terra é anunciada por uma nova descoberta científica. Quero além disso enfatizar que não é a ciência nova que dá nascimento à uma nova época. A ciência dá um salto "ao mesmo tempo" que a mente universal.
  Einstein, entre 1905 e 1916, afirma e prova matematicamente, que não existe em todo o Cosmos nada que esteja em repouso. Mais radical que isso, afirma que o tempo só existe como parte do espaço. E que a matéria cria e é criada por tempo e espaço. Ele nos joga em um universo onde deixa de haver um ponto de referência, onde o antes e o depois passam a ser meras convenções, e a matéria se torna energia pura e imensa. Eis aí o mundo dos últimos 100 anos. Sem um centro, sem uma certeza, sem autoridade, sem antes e depois, onde tudo se conecta mas nada é central. Mais que o pensamento bobo do "tudo é relativo"- crença central do século- o que marca o século é a interconectividade de tudo, a ligação onde tudo é parte do todo e o todo é parte de um todo-outro e ao mesmo tempo se reduz ao ínfimo. O acaso fica de tocaia e toma vez no fim do século XX: os novos tempos são da física sem causa e consequência, o caos e o acaso como lei. Agora, após Einstein, o tudo é relativo será trocado pelo "sei lá porque".
  O romance de Proust, Joyce, Borges, Nabokov, Calvino, só pode existir após Einstein. Vários pontos de vista, ações concatenadas, tempo que não é rei, centro que se apaga. Autores como Tolstoi ou Henry James ainda são do mundo de Newton, tempo e gravidade comandam o ambiente, cada ação tem uma reação, um ato tem consequência previsível. Pois Isaac Newton, por volta de 1680, funda dois séculos de mecânica, de ordem racionalizada, de crença na história. ( Assim como antes Galileu e Kepler fundam a mentalidade sem Deus ). No mundo Newtoniano, aquele que ainda nos seduz, tudo pode ser previsto, basta que se conheça um lugar e uma ação para se prever uma reação. O tempo manda em tudo, faz nascer e faz morrer e as distâncias se medem em metros. É o ambiente perfeito para o romance, a sinfonia e a pintura.
  Einstein destrói tudo isso. O mais suave dos homens demole um universo. Tempo não existe, matéria é energia e distancias são relativas. Estar parado é impossível. Tudo se move, tudo se distancia, tudo se esvai...Esse o tema de toda obra de arte destes 100 anos. Estamos juntos nesta névoa. Caindo ou subindo, tanto faz, não há como saber; bem ou mal, em relação a que? Indo para a frente, mas como dizer "a frente" se não existe atrás? Usando apenas a razão, a lógica e, claro, bastante imaginação ancorada em números, ele descobre o mais fantástico dos mundos. este.

BORN TO RUN - BRUCE SPRINGSTEEN. GOTAS NA JANELA.

   Há um momento em que voce olha pela janela e vê gotas grudadas no vidro. Então a luz da lua ilumina essas gotas e um pássaro voa. E voce acha que alguma coisa foi perdida nesse momento. Como se uma taça tivesse caído e se quebrado. Os cacos podem ser colados, mas nunca mais o momento da queda será esquecido. Isso é Bruce Springsteen.
  Em 1975 os EUA estavam no escuro. Um presidente havia renunciado, a guerra estava perdida e não havia emprego. A costa leste via cidades sendo abandonadas ( Atlantic City ) e outras falidas ( Detroit, Philadelphia e New York ). Mas o americano é no fundo um religioso. E instintivamente sabe que é preciso morrer para poder viver. Rocky seria o filme do ano. Mas também havia Um Dia de Cão, Nashville, Taxi Driver e Jaws. Desespero, melancolia, loucura e medo. Críticos de rock diziam que 1975 era o pior ano da história. Falavam isso porque as bandas mais populares eram o Aerosmith e os Bay City Rollers. Ora seus bobos! 1975 foi o ano de Horses da Patti Smith, do Captain Fantastic do Elton John, do Siren Roxy Music e Young Americans do Bowie. 1975 foi ano de Born to Run. E é inescapável um dia escrever sobre esse disco.
  Em 1968 The Band salvava almas pela amizade. Um clube de amigos tocando no porão para convidar amigos a sair da névoa púrpura. Em 1975 Bruce cantava na rua. Gritava para tirar gente da depressão. Em 2018 ouço o disco pela segunda vez em minha vida. ( ouço Bruce desde 1984, muito, mas não este ). Em vinil, o lado A é um tipo de preparação para o que ocorre no lado B. Todo esse primeiro lado é uma fotografia da América. Bruce apresenta suas histórias como um tipo de Walt Whitman modernista. Sem ironia, Bruce crê em tudo que vê e em tudo que fala. Não há jogo nele. Quando digo modernista é pela época em que vive, seu estilo é romântico, se joga de alma. Thunder Roads é a confissão de alguém que espera a hora certa. Este é o terceiro disco dele. E acontece a hora: o lado B, um dos mais milagrosos do rock.
  O som de Bruce é uma mistura do sax das bandas negras dos anos 50, a batida de Phil Spector e o piano, tocado por Roy Bittain, um piano que é jazz, é erudito e é Broadway, tudo junto. O disco é um disco de piano, não de guitarras. O disco é um momento de plena e absoluta transcendência. Dessas faixas, quatro, saiu toda a carreira do U2 por exemplo. Mas também do Pearl Jam, Billy Joel, John Mellencamp, e mais toneladas de bandas, cantores e cantoras do mundo. A faixa Born To Run sozinha é um fonte de inspiração. Ela tem 4 fases e 4 andamentos distintos. Vai da balada estradeira até o dedilhado do piano que traz lembranças de noites brilhantes. Mas esta faixa tem o mesmo caráter de todo o disco: Bruce está morrendo e ao mesmo tempo começa a viver. Nisso ele é único, pois mesmo um disco sagrado, como por exemplo Astral Weeks, não apresenta o processo de renascimento inteiro, Van Morrison olha de fora, apresenta uma observação genial, enquanto Bruce é o que observa e ao mesmo tempo aquele que faz a via crucis.
  Sim, Bruce está imbuído da tradição protestante da América. Como diz Scruton, se você tirar a igreja da nação, a América desaba. Os shows de Bruce, shows sem fim, de entrega, são cerimônias religiosas, de fé, crença e de renovação. Há um momento em She's the One em que a mágica acontece plenamente. Uma espécie de suspiro, de suspense suave, como um passo insuspeito, em que todo o disco conflui para uma espécie de orgasmo sonoro espiritual. É um milagre. E quando a conclusão chega, na última faixa, longa, estamos dentro de Bruce. Como um flash sem tempo, Jungleland reverbera na nossa mente e alma.
  Born to Run é uma catedral musical. Bruce cria um estilo, hiper imitado depois, equivalente ao que Bach fez no barroco. Frase sobre frase num tipo de "fuga" bachiana. Acordes de piano em harmonias originais. Vocais rasgados como violoncelos graves. Refrões e riffs em função de uma ideia. 1975 foi um ano crucial. Os críticos nada entenderam. Como sempre o fazem.

CONFISSÕES DE UM HERÉTICO - ROGER SCRUTON. O MELHOR PENSADOR.

   Ayiné é o nome da editora. Mineira. Ela tem lançado pequenos livros, bem feitos e interessantes. Estilosos. Scruton tem sido publicado neste fim de mundo por 3 editoras diferentes. Bom sinal. Se voce nunca o leu, este livro é um bom começo. Ele traz textos publicados em revistas e jornais, e dois deles são inéditos. Felizmente o autor escreve muito. Ler seu pensamento é um prazer.
  Descobri Scruton por acaso e a identificação foi imediata. Ele não só raciocina como eu gostaria de poder, como vê o mundo de um modo que é irmão ao meu. Aqui darei uma geral muito breve deste livro. Tudo escrito abaixo é de sua fonte. Meus adendos vêm entre parênteses.
  O primeiro texto, Fingindo, toca num dos pontos que mais interessam aqueles que conhecem Scruton: a falsidade na arte. O modo como a arte moderna tem um caráter de embuste, onde críticos fingem ver complexidade onde só há vaidade. O artista finge se levar a sério, o crítico finge entender algo de imenso na obra e o público finge gostar. Todos ficam contentes e ninguém diz a verdade.
  O segundo texto é o mais bonito do livro. Fala dos animais. A princípio, parece que ele vai atacar a mania de defender bichos. Mas não. Ele ataca apenas os gatos. ( Leia e entenda o por que ). Scruton defende os animais selvagens, e dá motivo racional, não sentimental, para isso. E faz um lindo retrato, real, do que é um cão. Ele pensa como eu. Um bicho está longe de ser um bebê ou um ser. Mas ele tem sentimentos, tem emoções e deve ser tratado com dignidade. Mesmo que sua vida seja apenas caçar e ser caçado.
  Não falarei de todos os textos. Isto não é um resumo, é apenas um elogio. Mas tenho de citar o texto sobre a dança. Ele dá a melhor descrição sobre o que significa a música eletrônica e onde mora o valor da música POP. A dança, a dança a dois, em salão, grupal, com passos decorados, movimentos delicados, atenção ao parceiro, era uma linguagem que ensinava o jovem o jogo da cortesia, dos bons modos e da leveza no trato à vida. ( Lembro que mesmo meu pai, um anti social, sabia dançar valsa ). A música eletrônica nos faz dançar a sós, ou pior, em exibicionismo narcísico, onde o outro existe apenas para ser conquistado ou para ser nosso espelho. Não há ritual, regras, modos ou cuidado com o parceiro. Não há na verdade parceiro nenhum. Scruton, que sabe muito de música, fala sobre a harmonia, a melodia, a função educativa que elas possuem, e de como, mesmo na mais banal das melodias POP, elas ainda tentam sobreviver.
  O mais profundo dos textos é aquele que fala da hora certa de morrer. Esse toca numa ferida. Haveria momento certo para se morrer? Vale a pena viver uma vida de doença? Não há como eu resenhar este texto. O desenvolvimento do pensamento de Scruton é astuto e poético. Precisa ser lido. O que digo é que ele fala que a vida é uma questão de profundidade e nunca de duração.
  Há ainda textos sobre o luto, a tela e a internet ( o menos bom deles...ele não erra, mas é quase óbvio ), formas de governo, o que é o conservadorismo ( inexistente neste canto de mundo ), arquitetura, ícones visuais. É um banquete para o cérebro e um guia para o coração. Voce tem de ler este livro. Sua mente o merece.

DOIS CASOS DO LIVRO DE MICHAEL KORDA.

   Deixe-me contar dois momentos muito interessantes que mostram a beleza do livro que resenho abaixo ( Michael Korda, Asas de Águia ).
 Primeiro: Um piloto alemão é atingido e salta de paraquedas. Cai em um campo de golfe. Recolhido por associados, ferido, é levado ao bar do clube, "para ser reanimado". Um dos sócios, ao ver o piloto no bar, exclama: "Meu Deus! Olhe esse sócio! Como deixaram ele entrar vestido assim?"
 Segundo: Em gloriosas manhãs de inverno, pessoas fazem piquenique. A postura inglesa, sempre fleugmática, foi a de encarar tudo como se nada estivesse acontecendo. Pois bem, todos olham para o céu e observam a batalha no céu. Sem som, pois a distância é muita, aviões se perseguem e deixam rastros brancos no azul. Explosões laranja, quedas e chamas...os sanduíches de pepino são servidos, o chá, e a vida continua...
  PS: Os alemães sentiram na pele essa fleuma pela primeira vez ao captar as previsões do tempo: "Aqui é a BBC falando...Tempo bom hoje com previsão de garoa e neblina por toda a tarde. 9 graus".
  Só na Inglaterra isso é chamado de tempo bom! Cancelem a missão!

13 Hours That Saved Britain (Battle of Britain Documentary) | Timeline



leia e escreva já!

COM ASAS DE ÁGUIA - MICHAEL KORDA

   Sir Hugh Dowding é o personagem principal deste livro. Foi ele quem, ainda nos anos de 36-37, teve a desacreditada ideia, de dar à Grã-Bretanha, um sistema de radar e de comunicação que fez com que em 1940, a Alemanha de Hitler e de Goring pudesse ser detida. Foi Dowding que inventou o sistema que vemos em qualquer filme de guerra atual: a sala com uma mesa onde vemos o avanço de tropas, navios ou aviões; um quadro na parede com batalhas em tempo real; linhas telefônicas ligadas a radares; liderança central e coordenação de todo um território minuto a minuto. Os nazistas vinham em ondas de aviões, mas os ingleses já sabiam de onde eles vinham e quantos eles eram. Para preservar pilotos e aviões, Dowding liberava apenas o necessário para cada missão. Os alemães nunca souberam assim, quantos eram os aviões ingleses no total. ( Eram muito mais do que eles pensavam ).
  Beppo Schmidt talvez seja o cara que fez a Alemanha perder. Era o informante alemão. E nesse papel ele foi um desastre. Informava que pistas abandonadas ainda eram usadas, confundia fábricas com centros de armas, campos desertos com áreas militares. Preguiçoso, bastaria ter lido um guia turístico para saber onde jogar suas bombas. Sim!!!! Korda diz que o guia Shell de turismo informava onde estavam as bases militares. Todas elas. Beppo jamais leu esses guias. Usava apenas seu binóculo em viagens de espionagem regadas à vinho e mulheres...
  Os alemães erraram e muito. Acreditavam que os ingleses, covardes, se renderiam ao primeiro tiro. Hitler não queria invadir a ilha, ele esperava uma rendição rápida e sem dor. Acabou tendo de lutar, e Goring, líder da aeronáutica, era uma figura patética. Hiper vaidoso, cercado por luxo, inflexível, mal visitava suas bases, trancada em seu palácio nos arredores de Paris. Os pilotos alemães foram jogados ao acaso em missões sempre mal planejadas e mal nutridas. Mas houve mais...
  Tivesse atacado com tudo logo após Dunquerque, Hitler poderia ter vencido; mas ele deu tempo à Dowding. Comemorando a posse da França, o tempo se esvaiu, e quando se voltou para a ilha ela já estava pronta. Spitfires e Hurricanes a postos, eles eram mais rápidos que os Stukas e os Bf 110 da Alemanha. Korda descreve as batalhas acontecidas entre agosto e outubro de 1940, dia a dia, perda a perda. Dá nome aos pilotos heróis, dos dois lados, fala dos voluntários do Canadá, da Nova Zelândia, da Polonia, os tchecos, os americanos. Nos sentimos no dia a dia desses jovens, sem poder dormir, partindo em até 4 missões por dia, com uma expectativa de vida de cinco missões. A adrenalina nos é passada pelo texto, nos sentimos no ar, em perigo, olho a olho. Os esquadrões de milionários, com suas echarpes de seda e seu glamour; os esquadrões de artistas; as mulheres nas bases sob bombas. É o tipo de livro que não se consegue parar de ler.
  Michael Korda, o autor, lutou na Hungria na revolução de 1956. Piloto, é filho de Vincent Korda e sobrinho de Alexander Korda, dois emigrantes húngaros que são nomes centrais no cinema inglês dos anos 30 e 40. Até Oscar eles ganharam. Michael escreve com elegância e nunca parece ufanista. Inclusive reconhece que Londres só foi bombardeada depois que Churchill mandou jogar bombas sobre o território alemão. Todo o acaso da guerra, e da vida, afloram no texto.
  Que delícia de se ler...