EU E EU- PERSONA- BERGMAN- EU MAIS NADA

Cenas que parecem não fazer sentido. Farão. Quero não ver. Vejo.
Aridez. Um menino se ergue de cama. Um rosto imenso na parede. O toque. Tudo é branco. Tudo é vazio. Ingmar sabe como é nosso inconsciente. Desolado e sem tempo. Eterno agora.
Atriz ficou muda. Enfermeira cuida dela. Quando vão para a praia o filme começa.
( Ignácio Araújo disse que hoje indicar Morangos Silvestres para alguém é considerado ofensa pessoal. Tristes tempos em que pensar é desejar o mal ).
Na praia. É uma ilha?
Somente a enfermeira fala. Bibi Andersson. Liv Ullman está muda por todo o filme.
Mas não há uma cena em que ela fala?
( Pauline Kael diz que a cena em que Bibi descreve uma transa na praia é "a única cena em cinema que entende o erotismo" ).
O filme começa a penetrar fundo, muito fundo em minha mente.
Sinto medo.
( Bergman foi filho de pastor. O pai lhe batia e depois exigia beijo na mão. A mãe variava entre frieza extrema e calor amoroso. Foi assim que Bergman aprendeu a observar rostos esperando o que viria a seguir. Ninguém filma faces como ele. E segundo Isabela Boscov, só ele tem a altura de seus temas- o sentido da vida. )
Começo a viajar no filme.
Seria Liv Deus? A enfermeira somos nós falando com Deus? Ele estaria mudo? Com Sua face de calma e indiferença? O sofrimento atroz de Bibi seria nossa dor? Onde Ele está?
Talvez não.
O filme se rompe literalmente. Precisamos ver sem a película.
Chega um homem que conhece a enfermeira.
Mas então as duas são uma? Ela seria a máscara e a outra a alma? Mas sendo assim a solidão deste filme é insuportável. Nossa vida nada mais seria que um diálogo entre eu e minha persona. Pior: diálogo onde um dos dois é mudo.
Falar com Deus também é falar com um mudo.
Mas há o rosto.... Bergman é o menino e as duas são sua mãe.
O desespero do filme é o desespero de um menino ( desprezado ) que tenta se comunicar com a mãe e falha sempre.
Mas é um filme apenas, vemos Sven Nykvist filmando.
O não e o nunca encerram o filme.
-----------------------------------------------------------------------------------------
Quando penso em diretor de cinema genial eu penso em Hitchcock ou Kurosawa.
Quando penso em gênio no cinema, penso em Bergman.
Está longe do cinema. Seu mundo é o de artes mais individuais, mais profundas, não espetaculosas.
Em seu alcance existencial, bergman só tem pares na literatura.
-------------------------------------------------------------------------------------------
O filme termina ( não termina )
Continua a se passar inteiro dentro da minha cabeça.
Tenho medo de dormir. Sinto uma solidão de gelo.
Acordo com ele dentro de mim.
Persona.
-------------------------------------------------------------------------------------------
O novo diretor japonês que também se chama Kurosawa ( e que é muito bom ) diz que na época de Ozu, Akira Kurosawa e Mizoguchi o mundo era mais feliz. Porque se acreditava no cinema. Hoje, tempos de finais, em nada se crê. )
Eu creio em Ingmar Bergman.

CABARET/ POLANSKI/ WILL SMITH/ REED/ SIRK/ ZEFFIRELLI

DESEJOS HUMANOS de Fritz Lang com Gloria Grahame

Não funciona. Talvez por eu ter visto o original de Renoir. Falta alguma coisa neste drama noir sobre ferroviário traído pela esposa. Apesar da excelente Gloria os personagens estão perdidos. Não nos envolve. Uma pena. Nota 4.

EU SOU A LENDA de Francis Lawrence com Will Smith e Alice Braga

Refilmagem simplificada de um cult com Charlton Heston. Gostei muito ( apesar do final cretino ). Will é a grande estrela de nossa época. Em recente pesquisa foi descoberto ser ele o único ator vivo que garante bilheteria. Esta aventura cumpre tudo o que se propõe. E melhor: não se estica. O final bobíssimo estraga muito. Mas é bom dvd para tarde de chuva. Nota 7.

TARAS BULBA de J. Lee Thompson com Tony Curtis e Yul Brynner

Voce espera uma aventura e o que vem é um desajeitado filme romantico cheio de musica. Não tem clima, suspense e as cenas de batalha são mal filmadas. A canastrice de Yul é mal usada e Curtis não tem o que fazer. Nota 2.

OS PRIMOS de Claude Chabrol com Gerard Blain e Jean-Claude Brialy

Primeiro sucesso de Chabrol. Mas é um filme árido. Vemos um primo inocente que vem do campo. Vai morar com primo rico e depravado em Paris. Logo se apaixona por prostituta e assistimos sua lenta destruição. O final é cruel e perfeito, mas o filme não nos dá prazer nenhum. O que vemos são bebedeiras sem fim, sexo casual e gente mal caráter em geral. Nota 3.

IRMÃO SOL, IRMÃ LUA de Franco Zeffirelli

Deveria ser a história de São Francisco e de Santa Clara. Não é. Zeffirelli, como sempre, joga mel em tudo e o que temos é um muito colorido e belo festival de hippies sendo bons e canções pop ( sem inspiração ) de Donovan Leitch. Nada acontece no filme, e pior que isso, não há emoção nenhuma. São Francisco surge anódino, fraco, sem carisma. Um fiasco. Nota 1.

O ESCRITOR FANTASMA de Roman Polanski com Ewan McGregor e Pierce Brosnan

Ewan ficou maduro. E sua carreira não aconteceu. Seus grandes papéis não vieram. Aqui temos um típíco Polanski. Paranóia e medo. A história é meio boba, mas Roman salva o roteiro banal e sem bons diálogos, enchendo tudo com névoas, frio e seu velho Polanski touch. É um filme que nunca decola, e tem um final bastante previsível ( tipo Chinatown ). Nota 5.

WILD ANGELS de Roger Corman com Peter Fonda, Nancy Sinatra e Diane Ladd

Hells Angels andam de moto e fazem suas arruaças. O filme, tolo, é só isso. Peter Bogdanovich foi o assistente de direção. É um filme que mostra como Hollywood está sempre dez anos atrás das outras artes. Nota Zero.

TRAPÉZIO de Carol Reed com Burt Lancaster, Tony Curtis e Gina Lollobrigida

Aula de direção em cinema. História banal de trapezista ferido que ensina profissão a novato e briga com esse pupilo pelo amor de mulher ambiciosa. Mas essa baboseira funciona! E muito. Há algum mistério aqui e logo sentimos atração pelo herói veterano ( o sempre soberbo Lancaster ) e começamos a gostar daquele circo. O cenário parisiense é tudo aquilo que queríamos que Paris fosse e o filme se deixa ver com admirável prazer. O inglês Reed sabia tudo sobre filmes! Palmas pra ele!!!! Nota 8.

CABARET de Bob Fosse com Liza Minelli, Michael York, Joel Grey e Marisa Berenson

Gênio. Fosse, com simplicidade, consegue mostrar o clima nazi na Berlin de 1931. Mais que isso, nos convence que nosso mundo ainda é aquele. E, milagre, nos diverte! O filme é belíssimo. Fotografia de Geoffrey Unsworth, e músicas inesquecíveis de Kander e Ebb. Há uma cena com garoto nazista cantando que explica o porque da Alemanha ter caído nessa praga. Todos os atores estão excelentes. Mas a Sally de Liza brilha glamurosamente. É bíblia gay. Todo seu mundinho está criado neste filme glitter. Fosse, gênio bailarino hétero, sabia criar movimentos sexy, coreografias que contam o filme, tiradas demoníacas. Joel Grey é um mestre de cerimonias antológico. Filme obrigatório inclusive para quem não gosta de musicais. O final é pura genialidade. Nota UM MILHÃO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

ALMA EM PÂNICO de Otto Preminger com Robert Mitchum e Jean Simmons

Jean caminhava para ser uma super-star quando fez este filme produzido por Howard Hughes. Ao não seder a cantada de Hughes teve sua carreira truncada. Não valeu a pena. Jean e Mitchum são maravilhosos, mas o filme não funciona. É pesado, não flui. Tornou-se famoso pelo bom final ( ele melhora nos últimos vinte minutos ). Nota 2.

PALAVRAS AO VENTO de Douglas Sirk com Rock Hudson, Lauren Bacall, Robert Stack e Dorothy Malone

História: dois amigos, um trilionário, se apaixonam por moça. O mais rico casa com ela. Ele é alcoólatra e impotente. O mais pobre talvez seja gay. A irmã do milionário é apaixonada pelo pobre e é ninfomaníaca. Tudo termina em morte. Isso é Sirk, rei do melô. Mestre de Almodovar, Fassbinder, Haynes, Lee e Kar Wai. Cores exageradas, cenários fake, atuações canastronas, música dramática. Funciona maravilhosamente. O filme nunca deixa de correr. Coisas acontecem, voce se envolve, se diverte, vibra. Assistir este filme é um enorme prazer. Mas atenção : se em sua época o público o amava e a crítica o detestava, hoje é o público normal que não gosta e são os cinéfilos que vibram. Porque? Após anos de TV, o público verá nele apenas mais um Dallas ou Dinastia, enquanto o cinéfilo perceberá sua ironia macabra e seu deboche sutil. È um filme perfeito. Não tem um só minuto ruim. Nota DEZ!!!!!

FREUD x DOUGLAS SIRK

No cinema dos anos 50 Freud era rei. Os filmes ditos sérios eram todos freudianos. Impulsos, obssessões, traumas de infância, pulsões de morte, ninfomania. Todo drama humano era explicado pela cartilha freudiana, e nesses filmes "de conteúdo", nada nunca era inocente. Tudo tinha um porque, um sentido traumático, tudo era solene.
Peças de Tennessee Willians e de William Inge eram idolatradas e os filmes de George Stevens, Elia Kazan e William Wyler eram amados pelo público analisado, culto e sofisticado. Eram filmes que mostravam a tal vida real.
Douglas Sirk estava pouco se lixando para tudo isso. Seus filmes eram berrantemente coloridos e jogavam fora toda a cartilha freudiana. Ele exagerava traumas, idolatrava absurdos, amava frases pomposas e dispensava a verossimilhança. O negócio dele era o melodrama e nesse melô, como ninguém antes, ele escancarava a doença da elite americana. Sirk inventou a novela. Toda série séria bebeu em sua fonte e as novelas da Globo ainda o seguem. Mas ele, por ser o mestre, foi além: ele gargalhava com essa profusão de homos não assumidos, ninfo desesperadas e pais incestuosos. Canastralizava as atuações e falsificava os cenários. Fazia de tudo um grande fake e exibia assim o fake geral da América.
O público-povão da época o amava. Seus filmes estouravam bilheterias e os críticos o odiavam. Viam nesses filmes apenas a superficie: atuações caricatas e roteiros sem sentido. Não tinham o humor para ir além da aparencia.
Hoje ele é desprezado pelo público. Esse público vê nele apenas um autor de dramas bregas. E é amado por cinéfilos e cineastas, que vêem nele um mestre inteligentíssimo, sutil, ferino, letal.
Fassbinder dizia ter aprendido tudo com ele, e Almodovar diz amar seus filmes. Diz Pedro: "- Já assisti Palavras ao Vento milhares de vezes. E mal posso esperar pela próxima!"
Ainda se percebe sua influência nos filmes de Todd Haynes, Ang Lee e de Wong Kar Wai. Ontem assisti um filme seu pela primeira vez. E confesso, é viciante. O drama, divertidissimo, vai acontecendo sem ceder, coisas ocorrem sem parar, tudo é rápido, grandiloquente e colorido. Lindo. Entretenimento puro e perfeito.
Douglas Sirk começou na Alemanha dirigindo teatro sério. Fugiu de Hitler e em Hollywood fez faroeste, musical e noir, até se especializar em dramas da Universal. Super sucessos que foram atacados pelos criticos dos anos 50/60. A partir dos anos 80 foi reabilitado e hoje é considerado chic e genial.
Viciei. Uma delicia proibida que "não fica bem gostar". Um Almodovar americano/alemão. E ainda tem Rock Hudson! Haja ironia........

ANTOLOGIA POÉTICA- CECILIA MEIRELES- VOCAÇÃO PURA

Existem poetas que não são poesias. São aqueles escritores que parecem fazer poesia de fora. Eles conseguem mergulhar na poesia, mas nunca se parecem poesia. Escrevem sobre algo que não está neles. Desejam a poesia.
Eliot, Wallace Stevens, Pound são eruditos da palavra, são filósofos da vida, são poetas da existência e do tempo. Mas não são poesia. E o fato de serem sublimes ( considero Eliot o maior poeta dos últimos 200 anos ) mostra que não estou julgando talento, estou tentando explicar um estado de alma. Talvez os poetas que não são poesia sejam mais filosóficos.
Assim como Keats ou Rilke, Cecilia Meireles é pura poesia. Tudo em que ela emprega sua atenção se faz verso. Ela é encantadora.
Como elogiar o bastante esses versos que sinto serem perfeitos? Frases que me dão lágrimas e fazem com que brote vida no papel e na tinta. O que posso dizer?
Leia.
Leia Cecilia. Leia essa elegia que ela fez para a avó morta, uma sucessão de imagens belíssimas e de uma dor de verdade. de saudade, de solidão. Ela consegue ver a poesia ao redor de tudo, ela canta a dor de saber que os olhos não mais verão as coisas.
Mas há tanto mais. A poesia em que ela chora a morte de uma borboleta, aquela que louva uma cigarra, a amorosa canção para jumentos, para cães, para amigas.
Cecilia escreveu um poema sobre sua primeira infancia que é tudo aquilo que pode ser sentido sobre todas as infancias. E ela não se perde, ela avança em cor e em música, a gente lê com gosto, com emoção, com felicidade.
Maravilhosa Cecilia, me digam, quem foi essa mulher? Voces entendem agora? Ela não fazia poesia, ela não escrevia versos, ela é poesia. Cecilia me lembra árvore.
Há muito de Lorca nela. Luas, verdes, rios, galos. Mas ela é mulher. Ela é fértil. As coisas nascem nela, suas palavras fazem brotar vida.
Mas Cecilia fala muito de morte. E a morte em Cecilia é passagem, é despedida, é mistério. Transcende.
Eu adoraria citar versos e versos, transcrever sua obra, inteira. Ela não tem poema fraco, ela é sem erros. É incapaz de não fazer luz.
Como a borboleta ela é lagarta e voa, como o jumento ela é nobre, e como a água ela traz e leva embora. Lua grande em céu pequeno.
Eu amo Cecilia.

OH! DIVINA DECADÊNCIA!- CABARET, UMA OBRA DEFINITIVA DE BOB FOSSE

Às vezes penso que se Deus existisse e Ele me desse a graça de um novo papel nesta vida, eu iria querer ser Gauguin ou Heminguay. Penso que diria isso a ele. Mas não, mais que Clint ou John Wayne, eu queria ser Bob Fosse!
Na entrega dos Oscars de 1972 ele concorria com O Poderoso Chefão. E Cabaret levou melhor direção, atriz, ator coadjuvante, fotografia e edição. Nesse ano Fosse bateu um recorde que jamais será batido: levou no mesmo ano o Tony, por Pippin, o Emmy por Liza com Z, e o Oscar por este soberbo Cabaret. Quem se habilita?
All That Jazz mostra bem quem foi Fosse. Mas é Cabaret o filme feito para se descobrir esse gênio do visual e da dança. Para quem não gosta de musicais, eis o filme que mudará seu conceito.
Baseado em textos de Christopher Isherwood, o filme, de produção independente, se passa na Berlin de 1931. Tempo de sexo, de medo, de glamour decadente, de ilusões. Vemos um inglês que chega a essa cidade-mito. Lá, ele conhece americana que tenta ser atriz e que na verdade é uma dançarina de cabaret. Os dois se envolvem com gigolô, com judia rica e com milionário gastador. A história parece banal, jamais é. Fosse insere nesse enredo toda a maldade latente do período, toda a histeria da diversão a qualquer preço, a cegueira de uma elite devassa. Gays, lésbicas, travestis, muita bebida, música, sexo sujo, e os jovens nazistas pairando como abutres.
O filme visto hoje ( havia o visto anos atrás, em especial de Natal da Globo ), impressiona. É um retrato perfeito do período. Há uma cena em que jovens alemães cantam uma patriótica ode à nação alemã que explica em dois minutos o porquê do nazismo. É aterrador, e pior que isso; voce entende os jovens arianos. Só essa cena justifica o filme. Mas há mais.
Em 1972 Cabaret era obrigatório para os modernos de então. E fica lógico de onde o movimento glitter ( incluindo Ney Matogrosso ) tirou seu visual e seu espírito de "decadência diáfana". O que hoje voce vê em clubes gays, os cabelos, as poses, o modo de falar, está todo na Sally Bowles de Liza Minelli. Ela é a mãe da parada gay da Paulista.
A atuação de Liza ( atriz de que nunca gostei ) é mágica. Seu personagem parece raso a princípio, mas vemos lentamente sua transformação, seu desabrochar, e ela acaba nos pegando. Sally é o glamour fracassado, o sexo sem amor, o desejo pelo falso. E então notamos coisa bela e maldita:
O mundo de Cabaret é o nosso mundo. A vida deste século de desejo vazio e histeria feliz é nosso mundo desde então. Este filme confirma mais uma vez que nosso tempo nasceu em Vienna e Berlin. Há o mesmo sexo livre e os mesmos entorpecimentos baratos, diversões podres, corpos aviltados e dessacralizados. Mas quais são os nazis de hoje? Qual a nuvem que paira sobre nós?
Os números musicais são antológicos. Money é de rever para sempre. Mas Willkommem, Cabaret e Two Ladies também. Repare no estilo Fosse: mãos que dançam, braços torcidos, cintura em cópula, jazz nos rostos ferinos. Mais sexy é impossível. Tudo mudou com Bob.
O filme diverte, enoja, emociona muito e é de uma beleza plástica inspiradora. Fosse coloca o mestre de cerimonias do cabaret como um tipo de Lucifer apresentador. Os pequenos flashs em que o vemos rindo ou piscando são maravilhosos. São toques de pimenta que fazem toda a diferença.
E temos ainda um dos melhores finais da história do cinema. Final que não comento, mas que é de uma simplicidade e de uma contundência infalível. O silêncio impera.
Cabaret é o tipo de filme que dignificava o Oscar e é um exemplo do tipo de cinema que se torna cada ano mais raro: artístico sem ser chato, divertido sem ser tolo, pop e ao mesmo tempo complexo, alternativo e ao mesmo tempo simples.
A vida é um Cabaret meu velho, e isso voce tem de saber.
PS saudades de tempo em que a Globo passava isto como especial de natal....

PROVA DE QUE A PAIXÃO MATA: EXILE ON MAIN STREET- THE ROLLING STONES

Comento o dvd recém lançado.
Scorsese, Benicio del Toro, Black Eye Peas, Liz Phair, Jack White, Kings of Leon, Don Was nos comentários. Primeira surpresa: foi o primeiro disco gravado fora de estúdio. Isso, em 1971, foi considerado tontice. E foi. Uma apaixonada, apaixonante e definitiva tontice.
É dificil para mim falar deste disco. Ele é o enigma, o nó e a morte. O enterro dos anos 60 e desde então o desafio para todas as bandas.
Entenda. Na história do rock todo cara tenta uma vez fazer seu Sgt. Peppers ou seu Exile. Bandas mais metidas a besta tentam um Peppers, bandas carregadas de raiva tentam um Exile. Ninguém chega lá, mas é bacana tentar.
E estranhamente, todas morrem nesse processo. Ou voce duvida que os Stones terminaram após Exile on Main Street ?
( Assim como o Clash morre com London Calling, os Pumpkins com Mellon Collie e o Led com Graffitti ).
Vamos lá....
Naquele tempo o governo trabalhista de Wilson resolveu taxar fortunas acima de um milhão de libras. Se voce ganhasse seu milhão, ficava com setenta mil libras!!!! Nesse processo, várias bandas inglesas fugiram da ilha. Mais fácil dizer quem ficou: Faces ( até 1975 ) e Paul MacCartney ( na Escócia ). Todos aqueles que fugiram foram chamados de anti-povão e passaram a ser esnobados pela classe operária inglesa ( e foi isso que abriu as portas para o punk ). Alguns adoraram ir para New York ou LA, outros morreram de saudades e perderam a inspiração. Na primeira parte do dvd ficamos sabendo que os Stones eram extremamente britânicos e detestaram sair da ilha. Sentiam falta do chá, do leite, das casas, dos jardins e do clima. Foram para Nice, onde Keith alugou uma mansão.
Resolveram gravar um novo disco, e como os studios franceses eram péssimos, transformaram o porão da mansão em estúdio. Detalhe: o imenso porão era quente, úmido, cheio de mofo, de goteiras e escuro. Eis o clima de Exile.
Pessoas começaram a ir pra lá. Tudo gente boa: mafiosos italianos, traficantes de Marselha, prostitutas da Cote d'Azur, astros do rock, amigos ingleses, desconhecidos da França, ladrões. Gente entrava e saía e crianças ( filhos dos Stones ) brincavam pelos corredores enquanto seus pais bebiam, se drogavam e tocavam. Foram nove meses nessa vida de sol, doideira e música. E esse é outro lado de Exile.
O dvd é cheio de fotos em p/b da época. Jamais houve banda mais fotografada e mais fotogênica. Muito do sucesso dos Stones se deve ao visual. Eles sabiam captar o clima do tempo e transformar isso em desafio visual. O Jagger de 1966 é uma linda bicha glamurosa. Em 1972 ele é um playboy do alto mundo. Keith, ainda muito jovem e muito belo, já é o pirata bandido, o rebelde cowboy....mas a surpresa: eles são tãaaaao ingleses!
E vemos as fotos de Anita Pallemberg.
Anita foi paixão minha de adolescencia. Eu queria ser Brian Jones e queria encontrar a Anita do Brasil. Jamais a achei. Anita Pallemberg namorou Brian e o largou por Keith. Foi isso que começou a destruir Brian Jones. Keith e Anita ficaram juntos por dez anos e tiveram dois filhos. No dvd vemos confirmada a lenda: se Anita fez de Brian Jones-Brian Jones, ela fez de Keith, Keith Richards. Ela era a loucura verdadeira, ela é que se drogava com heroína, ela é que fazia sexo livre. E ela era maravilhosamente linda. Com seu cabelo louro à Brian, seus vestidos listrados e seu corpo magro e atlético. E um sorriso capaz de matar de paixão.
Mas acontece uma coisa mágica. Há uma entrevista com a Anita de hoje. E é assustador!!!!! Como sempre suspeitei, ela é uma bruxa!!!!! Tornou-se uma ruína de sexo indefinido, assustadoramente sólida, marcada, rouca, endiabrada. Lembra o velho Miles Davis e mais que isso TORNOU-SE KEITH RICHARDS!!!!! Separados desde 1980, são a imagem de duas almas gêmeas. Idênticos. Amor verdadeiro diante de seus olhos. Wild Horses foi pra ela.
O processo de gravação era puro estilo jazz. As pessoas iam ao porão sem nada em mente. Começavam a tocar e viam o que saía. Se a coisa prometesse, gravavam. O estilo Keith era começar as dez da noite e ir direto até as três da tarde. Jagger parava a meia-noite. Nove meses nisso, para se gravar nove músicas.
Estou evitando falar dessas músicas. Liz Phair fala exatamente o que sinto: Exile é meu e não gosto de dividi-lo com ninguém. Da febre demoníaca de Rocks Off até o desespero ateu de Soul Survivor, tudo nele é como uma febre, uma possessão e também uma viagem pelo melhor da América. Soul, rock, blues e country. As melhores músicas da melhor das bandas.
Quando o disco saiu a crítica não entendeu nada. Era um som muito sujo, mal gravado, cheio de ecos e de agudos. Não tinha hits. Não parecia um disco de uma super banda.
Lentamente ele foi se tornando um mito e é hoje considerado um dos 3 melhores discos de todos os tempos. E é o fim de uma paixão.
Aqui morre a relação íntima entre Jagger e Keith. Jagger se casa com Bianca e se torna adulto. Aqui morre a relação dos Stones com o sub-mundo. Eles se dispersam por NY, Paris e Nice, cada um com sua vida. Aqui morre a revolução dos anos 60.
A primeira vez que o escutei, já fã de Let It Bleed e de Beggars Banquet, o odiei. Me deu medo, angústia, vazio. O disco me pareceu feio, desesperado, sem "beleza". Demorou para o aceitar. Quando aceitei, entendi. Há algo de muito profundo nele. Algo de ancestral, de vudu. Ele é uma luta entre o paganismo e o cristianismo. Ele é ateu e tenta deseperadamente crer. Exile é sim um exílio.
Se um dia voce passar na frente de minha casa e ouvir Happy sendo tocada a alto volume, saiba que isso significa que estou apaixonado outra vez. Eu nunca havia notado, mas sempre que começo a amar ponho Happy pra rodar e rodar e rodar.
E se um dia voce for a meu enterro, coloque Sweet Virginia.
Bem, o dvd termina e quando saio de casa estou diferente. Lembro então o porque de eu ter amado Brian, Mick, Keith, Charlie, Marianne e Anita com tanta intensidade. Lembro do porque de eles terem salvado minha vida aos 15 anos e me iluminarem desde então.
Saio de casa e me sinto completamente solto. Livre de qualquer medo. Estou pouco me lixando. Estou dizendo foda-se para a morte, para a solidão ou para voce. Estou deixando sangrar, deixando ir, deixando rolar. E esse foda-se é a atitude saudável que a banda de mr. Jagger trouxe ao mundo. Foda-se.
Se voce está nessa este dvd é só seu.

AMOR AGORA

Na escola uma menina me fala que deve ter sido melhor "o meu tempo".
Ela diz que a mãe lhe disse que no meu tempo as meninas se apaixonavam com um beijo e os meninos nunca esqueciam esse beijo.
Lhe conto que eu ficava feliz com o calor da mão de uma menina. Nossa timidez nos garantia acesso ao paraíso.
Penso depois...
Que mais que isso era bom ouvir uma banda nova que a nada remetia. Que quando peço por novidades, o que desejo é um novo tipo de música e não um bando de americanos com 15 anos imitando os Beastie Boys ou os Byrds.
Que deve ter sido lindo acompanhar o nascimento do cinema ou a criação do cubismo. Mais que isso, a invenção do futebol ou do surf.
Quanto tempo sem que se invente um novo esporte!!!!!
A alegria de uma nova ciência, de uma nova ideologia, de um novo modo de viver.
Os primeiros hippies, os primeiros existencialistas, os romanticos alemães......
Me cansa essa repetição "novidadeira" de beijos já beijados.
Esse cinema que de novo tem só a maquiagem, pois os roteiros e a forma de produção são velhos de oitenta anos.
Não precisamos de um novo Rimbaud ou de outro Keats. Necessitamos é de um mundo novo onde a inocência viva.

MUSICA

Musica deve ser caminho para algo maior.
Mas ela tem sido, desde sempre, estradinha repetida e conhecida.
Não levo a sério o gosto musical de quem só escuta rock inglês atual. Mas também desgosto daqueles que dizem que bom é Beatles e Stones.
Passar a vida com Caetano e Gil é pouco. Viver com Miles e Cole Porter é pouco.
Tem gente que se contenta com Bach e Beethoven. Tem gente que reescuta Sinatra indefinidamente.
Musica nunca deveria ser preconceito.
Já chorei com Tonico e Tinoco.
Música francesa ( ne me quitte pas e Aznavour ), musica flamenca e sinfonias de Haydn.
Jimi Hendrix com Beyoncé, Johnny Cash e Roberto Carlos ( nada se compara a Detalhes ).
Incredible String Band e Iggy Pop, Rap com Tom Jobim ( nada é como Wave )
Thelonious e Arthur Lee, Willie Nelson mais Cauby Peixoto.

LULA PENA.
Fado português de Portugal.
A cura do Brasil está na terrinha. No pequenino Portugal. Pedrinha a beira mar.
Ela canta e eu morro um pouco. De paixão.
A maior cantora deste e doutros mundos.
Musica foi feita pra isso. Pra abrir.

O AMOR E O OCIDENTE- DENIS DE ROUGEMONT

Leia esta segunda parte após o texto postado abaixo.
Volto ao tema por considerá-lo fascinante. E aproveito para contar duas histórias reais.
Me apaixonei em 1998. De forma fulminante. E fui maravilhosamente correspondido. A nossa história se desenvolve de uma forma que confirma tudo o que é descrito no livro de Rougemont. Atenção: em 98 eu não conhecia o livro.
Eu e essa menina começamos a sair. Primeiro obstáculo, a idade. Segundo, ela era amada por amigo meu. Terceiro, o estilo de vida dela. Mas saíamos sem planejar nada. Simplesmente íamos ficando juntos após as aulas, conversando e rindo. Jantávamos e entrávamos no carro dela. Mais conversas e então adormecíamos. Dormíamos juntos, no carro, sem nos tocar, sem nada saber. Depois de uma semana assim, começamos a dormir abraçados. Acordávamos na rua, vidros molhados, em absoluta castidade.
Posso dizer, com certeza, que jamais fui tão feliz. Ir para a escola após dormir ao lado dela era adentrar o céu. E uma noite a beijei. Apenas beijo, longo e faminto beijo. E se fez o namoro. Apaixonado e infernal.
Todo dia havia uma briga, toda hora um motivo criado para o medo de perdê-la. Todo dia a reafirmação da paixão. Choro, loucura, muita bebida, perda absoluta de controle. Neste nosso mundo só havia eu e ela, e meu único desejo era estar com ela, mesmo no inferno em que nos enfiávamos.
O sexo era bizarro. Eu não a penetrava. Ela gozava com infindáveis preliminares. Eu segurava meu prazer. Eu estava a anos de saber que essa é uma técnica hindú. Eu pensava ser apenas neurose ( é fantástico como dizemos "é neurose" e tudo está respondido ).
E como dois amantes do século XII, sem o saber, e portanto perdidos em atos sem simbolismo, em movimentos inconscientes e cegos, começamos a flertar com a morte.
Hoje eu saberia que toda paixão leva a morte. A morte da própria paixão ou a morte simbólica daquele que voce era. Eu saberia que a paixão foi um movimento real, religioso, que via nesse sentimento uma ascese. Já que o mundo era o mal, a paixão nos levaria a "morte maravilhosa", ao encontro com Deus através da mulher amada. Se o mundo material é de Lucifer, é o amor-paixão nossa vingança.
Mas eu não tinha toda essa chave. Eu me debatia em sentimentos que nada significavam. Apenas o desejo de tê-la e o impulso de profanar esse amor. Pensei que fosse morrer. Na verdade eu queria e pensei em morrer. O sentimento era tão forte que me levava ao absurdo. E ela, pobre menina, caminhava comigo rumo à dissolução.
Tudo morreu em mistura de ódio, tristeza, sangue, vazio absoluto e saudade. Daria um milhão de histórias e está o sentimento vivo, em algum canto de mim.
Para sempre.
A confirmação de Tristão.
Mas existe o casamento cristão. Um outro modo de ter amor. Um modo oposto a paixão.
Conheci uma menina. E por ela ser nobre, ser bonita, ser alegre e amorosa, eu escolhi amá-la.
Conscientemente e dono de mim-mesmo ( como um cristão, ser que não é guiado por magia, que não crê em Eros ) eu decidi que ela seria minha companheira para sempre. Eu planejei ter filhos e casar. Eu resolvi fazê-la feliz e ser dela. Agape. Me doei.
Não há o que contar. Não foi Tristão e Isolda. Wagner não faria a música. Mozart a faria. Foi feliz, sem dramas, com humor e leveza. Mas terminou.
Terminou também sem dramas, por motivos reais, sem loucura. Foi um amor cristão.

Nós tendemos a não dar valor a herança cultural que trazemos em nós. No máximo admitimos o inconsciente freudiano e a influência da sociedade e do mercado. Esquecemos dos milhares de anos de paganismo e de religiões exotéricas em que todos vivemos. Esquecemos.
Mas tudo está lá, em nós. Guiando nossos atos e nosso destino. Fazendo com que vejamos imagens e falemos palavras que já não têm seu significado original. Mas que ainda são vistas e ouvidas. Somos como macacos treinados, usamos coisas sem saber o que significam.
Dou um exemplo clássico:
Todos pensam no Édipo como o desejo do filho pela mãe e a proibição dada pelo pai. O que esquecemos é que entre os celtas o incesto era tolerado. E não pensamos mais no que essa mãe simbolizava.
A mãe é a volta ao antes de nascer. O impulso é o de voltar ao éter, volta ao estado de não-nascimento. Para o homem, a mulher sempre significará essa possibilidade: sair do mundo material e através do amor voltar ao mundo do espírito. O pai é o dono da clava, o que obriga-nos a aceitar a vida, a respeitar a missão, a não se entregar a morte.
Verdade? Fantasia? Quem sabe?

Outro belo dado do livro.
Tendemos a super-valorizar o oriente como terra da sabedoria. Sem dúvida eles têm muito a nos ensinar. Mas perdemos o hábito de pensar no que o ocidente é diferenciado. Explico.
No Iran se apedrejam adúlteras e na Arábia cortam a mão de ladrões. È claro que aqui vivemos em meio a crueldades e abominações, mas hã uma diferença: o conflito. O cristianismo, movimento que define o ocidente, dá pela primeira vez ao homem a idéia do bem.
Tanto a indiferença budista como o fatalismo islamico não se preocupam radicalmente com o amor ao próximo. Se nós ainda torturamos e matamos, sofremos como um todo com isso. Antes do cristianismo, a crueldade era ato de indiferença. Amor ao próximo foi momento de maior revolução. Radicalismo absoluto.

Vivemos desde então nesse embate entre um lado nosso que é obscuro, pagão, misterioso. Esse lado vê o mundo como treva, reino do mal e dá a cada ato a irresponsabilidade de ato inconsciente. Foi um deus ou um fado que nos fez fazer aquilo. Esse nosso lado crê na absoluta dualidade. E a paixão é aquilo que nos deixou de herança. Apaixonados somos pagãos todo o tempo. Passamos a viver num inferno terrestre com olhos para o céu ideal. Flertamos com a morte e nos dsligamos do mundo. E principalmente: cremos que tudo foi um destino, uma flecha de Eros, uma fatalidade.
O nosso outro lado, cristão ( mesmo para ateus ), cuida do jardim de Deus. Aceita o sacrifício do casamento e sabe que tudo se resolve aqui e agora, não no além. Além do amor ao outro, o cristianismo nos deu esse conceito de tempo: a vida é para ser vivida. Não se deve ser indiferente a ela, não se deve desperdiçar esse dom dado por Deus. Se no Japão o sucidio é um nobre ritual, aqui é um crime, jogar fora um presente divino. No cristianismo a vida é valorizada como jamais antes.

O primeiro mandamento: Amai a Deus como a si mesmo.
Qual o primeiro verbo? Amai. Amar a Deus ( aquele que te criou, ou seja, amar o ato criativo ) e amar a si mesmo ( valorizar sua vida e seu próprio amor ).
Ateu ou não, ninguém inventou melhor conselho desde então.

O AMOR E O OCIDENTE- DENIS DE ROUGEMONT

Porque acreditamos que só a dor ensina? E pensamos que tudo o que vale a pena vem com sofrimento? Porque toda paixão é insolúvel e infeliz? E principalmente, porque amamos essa dor de amor e lembramos com saudade aquela que nos fez mal maior? O que significa viver de verdade? Porque casar e ser feliz não rende filme, livro ou música e sofrer de amor rende admiração e 99% dos romances? De onde vem essa dor?
O homem ser masoquista não responde nada. O instinto de morte também nada diz. Quero saber porque esse instinto ( anti-natural ) existe. Denis de Rougemont, em 1938 lança este livro e em 1957 o revisa. É hoje tese irrefutada. Obrigatório.
Ele começa demonstrando a maior revolução psíquica da história: o século XII, o momento em que o casamento entra em crise e nasce o amor cortês. Primeiro os sintomas:
Antes a paixão era vista como doença, o casamento como a paz, a infidelidade era permitida e o homem se interessava sobretudo por política e guerra. O principal: a sabedoria viria pela vida. Viver era aprender.
A partir do século XII se instaura a crença de que se apaixonar é viver de verdade. O apaixonado é um herói. O casamento se torna a morte da paixão. O homem passa a se interessar por amor e poder e o saber nasce da dor, do sofrimento. Viver de verdade é sofrer e renascer.
Para explicar o porque dessa transformação ( que nada tem de cristã e sim de pagã ), Rougemont nos conta a saga de Tristão e Isolda, nascimento de todo romance e o movimento dos cátaros, irmandade herética que foi aniquilada pela igreja católica.
A saga de Tristão conta a história de cavaleiro que é enviado por rei a terra distante. Lá ele deverá escoltar princesa prometida a seu rei. Caindo vítima de feitiço, os dois se apaixonam, mas não realizam esse amor. Criam motivos para não se amarem e Tristão acaba por se casar com outra mulher, também chamada Isolda. A verdadeira Isolda casa-se com o rei e percebemos que o que os move é o amor ao amor e acima de tudo, UM IMENSO DESEJO DE MORTE. Apaixonados flertam com a morte. Eles enfrentam reis/maridos/noivos/tabús/perigos físicos; apaixonados bebem, tentam se matar, não comem, se desligam da vida, evitam amigos, evitam a família, se jogam. Apaixonados jamais se saciam e se um dia se saciam, MATAM esse sentimento. Tristão, no mágico século XII nos mostra tudo isso. Toda a tradição do romance está lá exposta. Mas, porque foi e é assim?
No tempo de Tristão a igreja cristã ainda lutava por se estabelecer. O casamento, base da sociedade, estava em crise. E seitas heréticas orientais apareciam. O europeu ainda estava próximo do paganismo. E principalmente: as pessoas ainda sabiam o porque de seus símbolos e de suas palavras. Ainda se sabia o porque da paixão e o porque de palavras como agonia, luz, noite, almas gêmeas, sede de corpo, sacrifício e doação.
Os CÁTAROS surgem no sul da França e falam provençal. Logo se espalham pelo norte da Itália e pela Ibéria. Fazem música e poesia. E têm uma visão dualista da vida. A igreja cristã irá os perseguir com furor e nada de seus passos restará. Mas, que ironia, inconscientemente carregamos sua herança. A poesia e a paixão, tal como a conhecemos nasce com eles. Suas imagens sobrevivem em nós, mas de modo cada vez mais pobre, cada vez mais vulgar, pois perdemos a chave de seu significado.
Eles acreditavam que o mundo foi criado por duas entidades. Deus criou o mundo do espírito. Lúcifer o mundo da matéria. Como homens, sentimos um grande desconforto em nosso corpo material e ansiamos de saudades pelo espírito, que vive no céu. A mulher é a guardiã das almas, ela através da maternidade faz nascer o corpo de Lúcifer/material, mas é ela também que pode levar o homem ao reino espiritual.
O amor é Deus, pois é espírito. O mundo é o mal, pois é Lúcifer. Sua igreja passa a se chamar A IGREJA DO AMOR.
Zombam do casamento cristão, pois o casamento abençoa a fornicação, e pregam a castidade, como única forma de amar espiritualmente. Mas fazem sexo carnal, SEM AMOR. Caminham pelas estradas cantando. Instituem a anima: saudade da perfeição.
Fato notável : é nesse tempo, onde a mulher deixa de ser banal e passa a ser mágica, que se modifica o jogo de xadrez. Surge a rainha, peça acima do rei. E nasce também uma crença bem conhecida: o mundo tem milhões de putas e apenas duas puras: a mãe e a amada.
Rougemont nos fala de uma crença da India. Para fazer a paixão nascer, voce deve dormir junto sem fazer sexo, depois beijar sem se tocar, e por fim transar, sem ejacular. Para a paixão se manter viva, sempre alguma coisa deve faltar. Há muito disso no amor cortês.
Com os cátaros, a poesia deixa de ser épica e se torna drama interior.
Para eles o pecado maior, base do casamento, É FAZER SEXO SEM AMOR com a benção da igreja!!! Violação de espírito e de alma. Sexo sem amor é descer ao nível mais material da vida. O bem maior é SEXO COM AMOR, encontro do eu com o outro eu, momento de ver que "eu sou voce". Mas esse momento só pode se dar na exaltação máxima do desejo, após todo um ritual galante, que visa aumentar a paixão, mantê-la. Sexo com amor é momento ápice de vida e entrada no reino noturno da morte, o encontro final com Deus.
Pois bem, essa é toda a criação mística do amor cortês. Cada sentimento e cada gesto tendo um significado profundo. Mas, com o tempo, toda essa mística se perdeu, porém tanto a linguagem como o hábito ficaram. Então sentimos " a agonia", "a dor", "o morrer em vida", "o prazer que dói", sem saber o porque de falarmos isso. Pior, nada tiramos dessa dor. Não mais sabemos para que serve a paixão, nada sabemos do sentido místico da união de espíritos que se unem para morrer.
Rougemont, que cita Freud várias vezes, diz que misticismo não é sublimação de impulso sexual, que arte não é sublimação, ao contrário, o sexo é que é um consolo, uma sublimação de um impulso místico. A vida da alma, ela exista ou não, é muito mais crucial e importante que o simples impulso sexual.
O século XIX, do qual somos ainda filhos obedientes, criou a "sabedoria" de que ser inteligente é REDUZIR O SUPERIOR AO INFERIOR. O significado ao significante, o espírito à matéria, o que é significativo ao que é insignificante. È um movimento que traduz o pensamento burguês: o que não compreendo não pode ter valor. É o ódio burguês ao poeta e ao aristocrata, dois parasitas que nada produzem.
Pois bem, se todo impulso sexual é um impulso rumo a alma, todo erotomaníaco é um MÍSTICO QUE NÃO SABE DE SUA CONDIÇÃO. Sua obssessão sexual, sempre insatisfeita, é uma ansiedade por transcendencia, por vida espiritual, por paixão; paixão que ele não sabe fazer viver, por matá-la todo dia em seu gozo imediato.
Do século XII até nossos dias, a história da paixão é a história do amor cortês cada dia mais profanado. TENTATIVAS CADA VEZ MAIS DESESPERADAS DE EROS SUBSTITUIR A TRANSCENDENCIA MÍSTICA POR UMA INTENSIDADE COMOVIDA.
Frase de La Rochefoulcauld : "Quantos homens se apaixonariam se jamais tivessem ouvido falar do amor?"
Mandamentos da Igreja do Amor:
Descrença na trindade
Alegria resplandescente.
Negação do casamento
Negação da guerra
Anticlericalismo
Vegetarianismo
Igualitarismo
Amor a mulher

Chegamos então a época carnal do homem: o século XVIII, época de luz, de racionalismo, de matéria. O amor se torna encontro de peles, contrato de bens, o flerte é um elaborado jogo de mentiras cujo único objetivo é a posse do corpo.
Mas é preciso SER para poder TER. Tristão tem uma mulher por ser um amante completo. Ele pode ter Isolda. No século XVIII Don Juan é amado por todas as mulheres, mas na verdade não pode ter nenhuma. Ele perdeu o dom do amor e passa a vida na busca, inconsciente, desse poder. Don Juan deixa de ser.
Juan procura a volúpia, Tristão realiza a suprema proeza: permanece casto. Pela não profanação, o amor de Tristão se eterniza e permanece jovem. Don Juan o profana e o mata.
Tristão é livre. Foge das regras, do pecado da carne ( não profana) e da obrigação do casamento. Não é religioso, pois não segue os rituais.
Don Juan está preso a seu instinto. Mais: ele precisa da sociedade para poder aviltá-la. Juan está preso a matéria.
ATENÇÃO! A castidade de Tristão não é a castidade dos padres. Tristão é casto por decisão de nobreza. Ele se dá esse compromisso. A castidade cristã é por imposição moral. Vem de fora.

Após o cínico século iluminista vem o romantismo.
O romantismo, já sem a chave mística do século XII, é sentimental, jamais espiritual. Usam todas as palavras, mas em sentido errado. Perdem a ingenuidade. Sentem que há algo por detrás da paixão, não sabem o que. Morrem ( literalmente ) pela amada, não pela alma.
Stendhal surge como o primeiro homem realmente moderno. Sente o vazio e o desejo de amar. Mas sua razão lhe diz que tudo é corpo, tudo é um DESEJO DO FÍSICO. Ele vive na angústia de ter de JUSTIFICAR RACIONALMENTE AQUILO QUE NÃO É RACIONAL.
Dá-se a invasão de romances, filmes, melodias de amor. Mas é um amor profanado, pobre, sem significado, vazio de mito, fadado a angústia do vazio.
Esse doce romantismo trai mais um desejo burguês: O DESEJO DE SE TER SEM SE PAGAR. Passamos a querer amor, mas sem abrir mão de nada, sem risco algum, sem morte.

Rougemont passa então a fazer algo que me deixou espantado: faz o paralelo entre a guerra e a paixão. E demonstra que o modo de se fazer a guerra sempre reflete a sociedade que a faz e a paixão que a inspira.
No século XII a guerra era ritual. Cavaleiros marcavam local e data para resolver a batalha. Não se lutava por um país. Lutava-se por um líder. Cada guerreiro tinha seu traje e seu brasão. Seu valor estava em sua alma: habilidade, fé e nobreza.
No século XIV a guerra se torna um negócio. Guerras são resolvidas por embaixadores. Soldados são comprados e às vezes a guerra se resolve so se comprar o exército inimigo. Há um horror pela morte: tenta-se matar o mínimo possível. Essa forma de guerrear termina com o canhão. Arma que é considerada covarde e imoral. Arma que torna o combate inútil.
No racional século XVIII se civiliza a guerra. Táticas, cidades abertas que não podem ser atacadas, movimentos matemáticos de tropas, campos de batalha escolhidos por seu bom ar, regras de captura. Até então o objetivo de toda guerra é a captura do chefe inimigo.
A partir da Primeira Guerra o objetivo deixa de ser capturar o chefe rival ou adquirir território. O objetivo é DESTRUIR COMPLETAMENTE O INIMIGO. Toda regra é jogada ao lixo. O soldado torna-se máquina de matar e resto de batalha. Não se deseja vencer para ter, deseja-se destruir.
Toda a evolução do modo de se ver e fazer a guerra acompanha toda a relação do homem com sua paixão. Desde a guerra como ideal nobre e de fidelidade, passando pela guerra como exercício de elegancia racional, até a GUERRA EXERCIDA SEM QUALQUER SIMBOLISMO. Apenas a captura e destruição do oposto.

Já na parte final do livro, Rougemont faz uma jogada de mestre ao defender o casamento!!!!
Como? Mas ele não demonstrou a verdade simbólica da paixão? Sim. Ele passa 3/4 do livro nos seduzindo com a beleza da paixão e da cortesia. Mas ele é inteligente demais para não perceber que essa paixão, CHEIA DE SIGNIFICADO, é irrecuperável. Jamais poderemos voltar à paixão como encontro com a morte gloriosa. Essa paixão hoje é apenas um impulso desprovido de sentido. Perdeu-se seu código, e isso está morto e esquecido. Para sempre.
Rougemont passa a dizer então o que realmente significa o casamento.

O cristianismo surge como única religião que se propõe a viver o real.
Esse é o milagre do cristão. O mundo real não é a ilusão de que fala o budismo e nem o mal de que falam os cátaros e os orientais. Não é mundo de fadas como dizem os celtas. E mais que isso, o mundo real é criação de Deus.
Pois então é a religião cristã, e só ela ( e é fácil verificar isso ) que pressupõe o crescimento da ciência e da tecnologia. Se Deus criou a matéria, cabe a nós nos interessarmos por ela, amá-la e aperfeiçoá-la. Ao contrário do Grego, que estudava o real com interesse frio, o cristão ama o real como parte de Deus. Seu semelhante torna-se parte também desse Deus, e é então no cristianismo que surge um conceito que SUBSTITUE A PAIXÃO: A COMPAIXÃO. Ao contrário da paixão que só enxerga o ser amado, a compaixão vê o todo, e ao contrário da paixão que pensa estar a felicidade apenas na morte com o amor, na compaixão a felicidade pode estar aqui e a salvação pode ser agora.
O casamento é então um estar junto em compaixão. Um caminhar no mundo real, um tentar se adaptar ao mundo verdadeiro. Servir e se apacientar.
Se para o cortês se apaixonar é morrer dia a dia ( em felicidade trágica ), para o cristão, amar é viver. Se o compromisso da paixão é com a amada e mais ninguém, o compromisso do casamento é com este mundo.
O casamento é uma escolha.
A paixão é um feitiço.
Não há melhor definição da diferença entre o paganismo e o cristianismo.

Rougemont ainda discorre sobre Wagner e o ponto máximo da paixão em música, do amor de Romeu e Julieta e dos poetas alemães.
Livro indispensável para quem pensa em amor e paixão, para quem já amou com Eros e com Ágape, para quem, como eu, já morreu de paixão pagã e já amou de ágape cristã ( mesmo não o sabendo ).
Um clássico.

A FITA BRANCA/ PECKIMPAH/ LANG/ A ESTRADA/ CHABROL

SMOKING/NO SMOKING de Alain Resnais
Dois atores fazem todos os papéis neste irregular filme de Resnais. Cansa a artificialidade. Azéma está excelente como sempre, é uma atriz sem limites. Longe de ser tão bom quanto os geniais Medos Privados ou Mariembad. Mas Resnais é sempre invulgar. Nota 6.
KUNG FU FUTEBOL CLUBE ( OU KUNG FUSÃO ) de Stepehen Chow
Tolíssimo, breguíssimo e infantilíssimo. Mas simpáticamente assumido. Não tenta ser mais do que pode ser. Nada de cores tristonhas e de complicações afetadas, é diversão pop e fim. E nisso ele é perfeito. Engraçado, bem dirigido, cheio de ação. Fuja se não tiver senso de humor. Relaxe e divirta-se se o tiver. Foi recorde de público na Ásia. Chow é o cara! Nota 7.
JORNADA AO TERROR de Norman Foster com Joseph Cotten e Dolores del Rio
É o noir que Orson Welles dirigiu por telefone. Ele estava no Rio, fazendo um documentário, e tentou manter o controle deste filme via fone e telex. Apesar de tudo e da assinatura de Foster, o estilo é todo Welles, soturno e fatalista. Bom exemplo de noir. Nota 7.
CLIFFHANGER de Renny Harlin com Sylvester Stallone e John Lithgow
Uma das várias tentativas de Sly de come back. É aquele filme em que ele é um alpinista. A ação é muito boa, toda com dublês e em abismos reais. Dá pra ver com prazer. Nota 6.
CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ de Zucker, Zucker e Abrahams com Leslie Nielsen
Quantas vezes voce já viu???? Trinta? Mas ainda dá pra rir. É um pequeno clássico. Leslie está genial e o roteiro não teme a completa tolice. Me lembra muito a velha revista Mad, mas nos extras os roteiristas citam Os 3 Patetas, Os Irmãos Marx e Jacques Tati como influências. Esta comédia é exatamente aquilo que sempre tentei escrever, puro prazer. Nota 8.
ASSASSINOS DE ELITE de Sam Peckimpah com James Caan e Robert Duvall
É sobre uma empresa particular que defende pessoas em risco de assassinato. Caan, que foi traído por Duvall, busca sua vingança. Mas o filme mostra que nenhuma vingança é possível, os dois são marionetes. Peckimpah, já em sua fase junkie-terminal, faz um filme sujo. Há um ar de falencia em toda cena. Nada tem glamour, nada tem alegria. O visual é seco, cafona, árido. Falta ar ao filme. Longe das obras-primas do genio Sam Peckimpah, mas é um filme de macho e dos melhores. Desagradável, mas que te prende. Tarantino assinaria. Nota 8.
AUSTIN POWERS de Jay Roach com Mike Myers e Elizabeth Hurley
A trilha sonora é um show. Tem de Bacharach à Nancy Sinatra. Myers é tão vaidoso que quase estraga tudo e o roteiro parece escrito por alguém com 11 anos de idade. Mas eu adoro o visual ( baseado em Michael Caine ) e os trejeitos de Powers. Adoro o sotaque britanico e as gírias ( groooovy yeah!!!! ). Este é um dos filmes que tenho vergonha de gostar. Nota 6.
OS CARRASCOS TAMBÉM MORREM de Fritz Lang com Brian Donlevy e Walter Brennan
Roteiro de Bertolt Brecht. Um filme corajoso. Na Praga ocupada, vemos a crueldade nazi e a resistência tcheca. O roteiro tem maravilhosas reviravoltas e falas sobre a liberdade muito agudas. Os atores estão inspirados e sentimos, vendo o filme, toda a opressão da Gestapo. Delações, interrogatórios, medo constante, covardias. O filme não adoça nada. Lang faz aqui mais um grande filme. Todo seu estilo, cruel e seco, esparrama-se pela ação. Cada cena é primor de técnica e de economia. Maravilhoso. Nota Dez.
LE BEAU SERGE de Claude Chabrol com Jean-Claude Brialy, Gerard Blain e Bernadette Lafond
Chabrol, crítico dos cahiers, recebeu uma herança e a torrou neste seu primeiro filme. É então o primeiro filme da Nouvelle Vague. A história é simples: um jovem doente volta a sua cidadezinha para reencontrar sua origem. Lá ele toma contato com Serge, amigo que se tornou alcoólatra. Namora a vagaba do lugar e no fim encontra o que procurava. Chabrol vai fundo: todos são derrotados. O campo é visto como lugar de miséria e de gente estúpida. Tudo é frio, pobre, sujo e todos estão no limite. A moral não existe. Inacreditável ser este um primeiro filme. A direção é sublime e a fotografia de Henri Decae é inventiva. Excelente. Nota 8.
A FITA BRANCA de Michael Haneke
Sómente uma época deprimida para produzir este filme. Nunca, em toda a história do cinema, houve um tempo com tantos filmes deprimentes, flácidos, fatalistas. A moda é ser o mais negativo possível. Este filme, de fotografia belíssima, condena toda a humanidade. Tudo é desapontamento, horror e medo. Adoro filmes tristes, detesto filmes deprimidos. A diferença é imensa. Um diretor que filma a tristeza consegue fazer viver a película. Um diretor deprimido não dá vida a nada. Mas esta é época em que até as comédias têm cenários tristinhos e musiquinhas chorosas. É isto que minha geração deu ao mundo? O prazer de se ver o fim de tudo o que tem valor? Deplorável.
A ESTRADA de John Hillcoat com Viggo Mortensen, Robert Duvall e Charlize Theron
Continuamos a saga. O roteiro é tão falso que chega a ser cômico. Tudo morre menos as pessoas. Então tá... Mas logo penso: talvez seja um filme simbólico! Bem, se for, seus símbolos são primários. O menino é Cristo e a Terra se tornou bíblica. Não dá pra engolir. Isto é mais um exemplo de aventura boba ( é Mad Max para metidos a besta ) que luta para ser intelectual. Coisa de Jeca. Cores cinzas, falas amargas, trilha sonora minimalista, idas e vindas. Quanto chavão!!!!!! Em tempo de deprê ( até os teens são pessimistas ) e de coraçõesinhos tímidos, isto é retrato do fim de feira geral. Nota Um ( pelos bons atores ).

ETERNAMENTE JORGE BEN

Abominável são os caras da mpb que seguem Chico Buarque. São todos exatamente iguais, formatados em formol. Previsíveis seguidores de Gil. Gritinhos alegres e aquelas frases sobre abacateiros e corpos livres. Cantoras que nem é bom falar: iguais iguais iguais. Mas a coisa muda quando falamos do "namorado da viúva", do "homem gol", do cara que falava dos alquimistas.
Tivesse dado certo, o Brasil seria terra de jorges. Ele é o melhor que o país pode dar, ele é o máximo. Entre 1963/1979 tem uma carreira exemplar. De Bebete até Amante Amado.
Rei de alegria e divisor de águas: o que é bom na música daqui bebeu em discos de Ben. O resto não me importa. De Marcelo D2 a Mano Brown, de Fernanda Abreu até Tim Maia e seus clones, todos são da tribo de Jorge e salve Jorge!
Caetano teve uma boa e breve fase Jorgiana e Os Alquimistas Estão Chegando é meu hino maior. Sempre que minha vida brilha Jorge é presente. Ele dá a trilha de minhas meninas bonitas, de meu futebol manhoso, de meus fins de tarde de luz, das luas novas e das alvoradas. Salve Simpatia!
Vi vários shows de Jorge e todos são iguais ( ainda bem ) mas em 1979 ele se superou. O show grátis que ele fez em Pitangueiras, na praia, no velho festival de verão, 200 mil pessoas, foi o momento mais dionisíaco da história pós-Grécia. Calor, vapores insanos, meninas se dando e areia ao vento. E a Banda do Zé Pretinho mandando deixar rolar. Vida boa, vida solta, vida de Jorgear com swingue.
Presto aqui homenagens ao maior dos melhores. Como James Brown, um criador de nova linguagem e como Chuck Berry um nativo universal. Vi Jorge tocar na França, vi Jorge ser plageado por um inglês. Salve Jorge rei de Taj Mahal do Salgueiro e de Madureira.
Sempre desejei ser Jorge Ben. Porque ele é feliz. Porque ele faz feliz. Porque ele tem um fusca e um violão. Último rei negro, último brasileiro real, músico de ritmo que é sangue e é fogo, Jorge é cavaleiro consagrado ao riso e a mulher que sabe dançar.
Menestrel medieval de espaçonaves siderais, digo e repito mais uma e toda futura vez:
SALVE JORGE!!!!!!!!

CINE ANOS 80

Conversando com um amigo percebi nele uma leve surpresa quando lhe disse que Rambo e Exterminador do Futuro eram tratados nos anos 80 como lixo dos lixos. E não só isso. Todos os filmes de ação ( incluindo Batman e Mel Gibson ) eram desprezados. Um bom crítico não os analisava e o público culto os ignorava. Na verdade cinema sério era europeu, americano era um nada.
Scorsese era olhado como um quase bom diretor ( jamais um autor ) assim como Woody Allen e Altman ( Annie Hall e Manhattan eram somente boas comédias ). O único diretor respeitado era Coppolla. Gente como Lumet, Pollack, Peckimpah, Spielberg e Lynch era somente ok. Ou nem isso.
Todo filme europeu era levado em conta, mesmo os ruins. Via-se todo italiano com bons olhos e todo francês com vivo interesse. Diretor importante era Fellini, Kurosawa e Bergman. O resto era mais ou menos. Bertolucci, Belochio, Monicelli, Resnais, Godard, Tavernier, Rhomer.
Hoje a coisa é bem diferente. O que era B nos anos 80 é hoje classe A. Desse modo, animações e aventuras são levadas a sério. Indica-se um filme como Piratas do Caribe ou Batman a prêmios. Isso seria impensável em 1982. O Senhor dos Anéis teria o respeito que 007 tinha : nenhum.
Por outro lado vemos que filmes franceses não causam nenhum frisson agora. Uma obra-prima como Medos Privados de Resnais causar rebuliço é um milagre. Toda uma produção que é hoje tão boa quanto a americana está relegada a quarentões e cinquentões. Para teens a França é terra de Henry e Zidane e é só.
O cinema se infantilizou e talvez pensem que ele sempre foi assim. Não. Spielberg era tratado como um Paulo Coelho das telas e Croenemberg era um tipo de estranho sem público. De Palma era considerado pobre e vulgar. Um bom filme tinha de tratar de coisas adultas, com finura e ritmo e ter boas interpretações. E principalmente : ser verossímil. Não se iludam, Stallone e Arnold sempre foram ridicularizados. A diferença é que atores como Butler, Daniel Craig ou Scarlett não teriam chance em 1981. Seriam coadjuvantes em Rambo ou em Mad Max.
PS: Os filmes que antes eram o tipo "cinema classe A", são hoje produzidos na TV. É a TV que pegou o público orfão do cinema. Das séries históricas, às sagas sobre famílias mafiosas ou médicos doidos, de agências de 1960 às famílias que vendem droga, todas essas séries são os filmes americanos adultos dos anos 70/80. São os temas dos filmes que venciam prêmios e levavam pais às salas exibidoras. Quem quiser conhecer o cinema americano dos anos passados, que ligue a TV.

LUIZ FELIPE PONDÉ

O texto da Folha de 16 do oito, segunda. Mais um gol de Pondé. Ele escreveu ano passado um texto que trago comigo: Catherine. A melhor radiografia que já li sobre o que é ser romântico hoje. Depois ele voltou a me impressionar ao ousar defender os padres e a igreja católica contra a tirania do iluminismo. Agora ele escreve sobre a pobreza espiritual de quem "usa" as facilidades das igrejas light. Religiões que eu chamaria de self-sevice.
Budismo consolador, catolicismo rancoroso, protestantismo prático, exoterismos auto-ajuda. Mas pior que tudo, a pretensa superioridade de iluminados ateus. Superiores em que? Pondé tem a coragem de chamar esse povo de "espiritualmente infantil". Eles pregam a materialidade da vida negando a existência de vida espiritual. Amputam o que lhes é assustador, ou pior, inatingível. Dos vários erros de Freud um dos piores foi seu desprezo pela fé. De seus seguidores o pior erro é ignorar Jung. Conhecer e vivenciar para poder julgar.
Pondé confirma que o primeiro passo para se libertar é negar o eu. Negar o eu é base de toda religião verdadeira. Mas o que ele nota é que no supermercado religioso destes dias, tudo é preocupação com o bem-estar do eu. Um egoísmo tipo: Olhem! Eu alcancei a luz!!!!!
Isso não é religião. Conhecer um mundo subjetivo, mundo onde a língua é a do símbolo e do não-tempo é conhecer o além do eu, o fora de mim e de tudo, é ir para adiante e para dentro. Esse tipo de experiência só pode ser transmitida pela poesia ou pela música. Não há como verbalizar racionalmente, pois toda experiência religiosa é pré e pós racional. Quem a viveu sabe do que falo. O único relato que conheço sobre esse momento luminoso está no final de Anna Karenina, no momento em que Lievin resolve sua aflição.
Em mundo que nos faz todo o tempo olhar para o umbigo/espelho, não pode haver experiência religosa real. O primeiro passo é se deixar e se esquecer de sí. Comungar com a vida. E A VIDA não é seu mundinho.
Toda pessoa inteligente ( desde a renascença ) precisa ser atéia se quiser ser levada a sério. Bem. Eliot, Yeats, Tolstoi e Kierkegaard não eram. Foram desconsiderados por isso. Infelizmente continuo ateu. Mas sei o valor que a religião possui. Ela não é ópio e jamais sintoma ( mas pode se tornar as duas coisas. Aliás, marxismo e psicanálise também podem ser ópio e sintoma ). O valor da religião está profundamente unido ao próprio valor da vida. Sem ela não seríamos humanos. Condenar a fé pelos crimes cometidos em seu nome é como condenar a física pela bomba H e a química pelo antraz.
Tudo neste mundo se torna cada vez menos religioso. Não é bom se isolar, não é saudável deixar de comprar e querer, não se deve viver em meditação ou busca. Se oferecem pseudo-religiões então. Um tipo de fé comunitária e feliz, sem auto-sacrifício, em que voce não precisa se submeter a nada. Religiões feel-good. Igrejas que matam o auto conhecimento.
Elas fazem voce funcionar. Apenas isso.
Ando pensando muito no amor. Convenço-me de que a coisa é bem simples. De que todo iluminista, consumista, neurótico, tem na verdade um caso de amor consigo mesmo. Ele é completamente incapaz de amar algo diferente de sí-mesmo. Tudo lhe remete ao espelho. A verdadeira religião, como a verdadeira arte e o amor verdadeiro, é um ato de amor ao diferente, de doação, de se dar SEM MEDO, de entrega. Transcender seu tempo, seu lugar e seu desejo. Aceitar negando.
Espero um dia chegar nesse lugar.

KUNG FUSÃO - STEPHEN CHOW

Não escrevo sobre os filmes que mais gosto. Às vezes um grande filme dá ensejo a apenas um "maravilhoso" e um filme médio dá toda uma dissertação. Mas aproveito este filme para falar do que é um bom e um mal filme.
Sigo sempre a regra de Pauline Kael. Bom é o filme que atinge seu objetivo. Mal é o que não o consegue. Uma comédia deve fazer rir. Um drama tem de emocionar. O filme romântico faz com que amemos os personagens e um filme de arte tem de nos fazer ver algo de novo. Aventuras nos distraem e terror nos assusta. Bem.... até aí tudo simples. Isso seria a regra do filme ok. Porém, o filme realmente bom teria uma regra adicional. Ele jamais, seja em que gênero fosse, poderia ofender nossa inteligência. A honestidade seria a regra dourada. Manter o respeito ao bom gosto. E quando falamos de filmes excelentes estamos falando de comédias que também são drama ou arte, de aventuras que são épicos existenciais ou de filmes de amor que são poesias.
Stephen Chow faz uma comédia que tenta ser apenas uma comédia. E consegue. Mas o que me faz escrever sobre este filme não é seu talento ( que existe ). È algo que a princípio me incomodou no filme, mas que depois reconheci em mim mesmo. O cinema hoje só é possível como filho da tv e não mais o contrário. Explico.
A geração de Chow ( que é a minha ) é a geração que cresceu hipnotizada por Speed Racer, Pernalonga e Super Dínamo. Por mais que depois tenhamos amado Fellini ou Ford, nosso primeiro contato significativo com o audio-visual foi através das correrias de Road-Runner ou das trapalhadas dos Flintstones. As coisas acontecem em vinte minutos, tudo é colorido e os personagens agem sem pensar.
Se no cinema mudo a influência era do circo e se no cinema dos anos 30 foi o teatro, agora é tudo tv. ( Assim como o cinema dos anos 50/60 parecia tão rico por ser feito pela geração influenciada pelo próprio cinema ).
Cada vez mais os atores interpretam como se interpreta na tv. Um tipo de interpretação feita para o close, para o cenário pequeno, para dois personagens em cena. Os filmes diminuem. O visual é para telas menores, para ser apreciado em casa. ( Falo de filmes comuns. É claro que Avatar é melhor em tela gigante. Mas note: mesmo assim os closes abundam ).
Não é por acaso que a animação tem hoje um status tão grande. O fato não é o de ela ter melhorado. O filme com humanos, real, é que se tornou mais "desenho animado". Todo humorista é hoje Patolino. Todo herói de aventura é He Man e toda ação remete a Tom e Jerry ( correria sem fim com violência aos trambolhões ). O cinema de arte neste universo não passa de uma matéria de tv educativa.
Kung Fusão ( Soccer Shao Lin ) dá um passo adiante. Seus ( bons ) atores interpretam como cartoon. O filme jamais tenta ser de verdade, ele é tv todo o tempo. Mas, por ser tão honesto em seu objetivo, ele agrada e agrada muito. É bobo, superficial, mas nunca grosseiro ou fake.
Stephen Chow bateu todos os recordes de bilheteria na Asia com este filme. Trata de mestre de arte marcial que forma time de futebol. As cenas de ação são boas, mas há cenas muito engraçadas!!! Além do que, como ator, Chow tem um tipo excelente. Não se trata mais de desenhos terem de se parecer reais. Agora a realidade deve se parecer com cartoons.
O pessoal que hoje tem 20 anos, quando começar a fazer seus filmes trará o visual do pós-tv. Será o cinema influenciado pela internet e pela conexão 24 horas. Bem mais velozes que os filmes velozes de 2010 ( que ainda são tv ), e com ainda menos vida interior e tempo para reflexão. Talvez seja feito interativamente, sem diretor final ou sem roteiro fixo. Vai saber.
Kung Fusão é o máximo a que hoje podemos aspirar. E quer saber? Basta.

O HOMEM ARANHA- STAN LEE, STEVE DITKO

Mais do que temos consciência, toda a minha geração foi afetada pelo Homem Aranha. Primeiro amamos o Super-Homem e o Batman. Mas ao travar contato com Peter Parker, Gwen Stacy e Mary Jane Watson tudo mudou. O Aranha de 70/76 ( que saiu aqui anos depois pela Ebal e pela RGE ) tocou em um nervo sensível. Garotos de 11/12 anos ficaram enredados.
Quando falo do Aranha, por favor, esqueça os filmes de Sam Raimi. Embora ele seja um fã fiel e real de Stan Lee, nada em nehum dos filmes faz justiça ao gibi. Primeiro porque Parker era um tímido forte. Ele era um cara forte que se sentia inibido. Papel para um jovem Robert Redford ou um jovem Brad Pitt. O ator que o faz daria um bom Osborn. E Mary Jane era uma pré-hippie alegre e ágil. Um tipo de Angelina Jolie.
Mas o principal, e aquilo que tanto nos marcou, é que o Aranha foi o primeiro contato com aquilo que pensávamos ser o tal "real mundo jovem". Peter vivendo em seu apartamento de solteiro, perdendo Gwen Stacy ( quem não amou e chorou com a morte de Gwen ? Aquele gibi foi histórico ), sendo paquerado por MJ e tendo problemas de emprego com JJ.... tudo aquilo nos encantava por ser real, de verdade. O que nos pegava não era a ação, era o cara por detrás da máscara. E eu me apaixonei por MJ. Como não amá-la?
De repente o Super-Homem parecia "coisa de criança". Mas, que chato, o Homem-Aranha não teve a sorte de encontrar no cinema seu Christopher Reeve. Reeve é o perfeito Clark Kent, misto de beleza e força, nobreza e timidez. Assim como Batman jamais achou seu Bruce Wayne ( na verdade achou. George Clooney nasceu para ser Batman, mas seu filme foi um desastre ). Bruce é misto de inteligência e raiva, um lord inglês com neurose. Keaton e o ator atual ( Bale sempre parece bronco ) não têm elegancia e jamais parecem ser inteligentes. Sorte do Homem de Ferro que achou seu ator ideal.
Esperar a chegada de novo número de Homem Aranha, com seu cheiro de tinta e seu formato grande era emoção de amor puro. Vejo hoje que eu não estava só. Para todos nós, antes dos livros de Dickens, dos filmes de Kurosawa ou dos discos de Dylan veio o Aranha de Stan Lee.

PARIS! PARIS! - IRWIN SHAW

Um livro tão delicioso como vinho à calçada ( em Paris ).
A França divide a humanidade em dois: gente que despreza as coisas do país de Stendhal e gente que tem uma relação visceral com a nação dos francos. Amantes de vinho ou aficionados por Coca-Cola. Para se amar a França é preciso cultura. Sinto muito, mas é assim. O livro, de um dos mais famosos autores de best-sellers dos anos 60/70/80; expõe o que é viver em Paris.
Começa falando de um momento especial. O dia da vitória na segunda-guerra. Momento culminante de otimismo e de celebração. Última vez em que soldados foram recebidos como heróis. Irwin conhece a cidade como soldado, em tempo em que tudo estava para ser feito e em que a vida em Paris era muuuuuito barata. Nessa primeira parte vemos a Paris de Cocteau e Anouilh, de Sartre e de Genet, a cidade de De Gaulle e do comunismo. O autor descreve deliciosamente as ruas, os tipos, os restaurantes e as grandes festas. Ele flana pela cidade, ele visita museus, ele vive.
Depois ele mostra Paris no inverno, a cidade mais triste do mundo. O cinza-chumbo do céu, a solidão, os porões, as pontes. Mas logo volta o verão e com ele a esperança. A cidade, agora nos anos 50, ainda não tem edifícios de 12 andares. Pela lei, o céu deve ser sempre visível. Tempo de filmes, de se morar em barcos no Sena, tempo de esporte, de mulheres lindas e chics, tempo de americanos. Irwin nos conduz por cada praça, nos faz conhecer ricaços e artistas, nos leva aos hotéis. A narrativa flui.
Mas chegam os anos 60/70 e com eles a cidade muda. O Les Halles, zona do mercado, é demolido e Paris se moderniza. Torna-se uma quase caricatura de sí-mesma. Os preços sobem e os americanos partem. Morar em Paris só para os muito ricos. E para os imigrantes desesperados. Mas ainda é França, ainda é a cidade de Balzac. Os boulevares, os cafés, os bistrôs. Ainda é a cidade onde se vive mais do que se trabalha. Os carros ainda voam por ruelas estreitas. As putaines ainda fazem o trotoir e as praças convidam ao fazer nada. Se voce souber ver, ainda se avista Montmartre e Montparnasse como no tempo de Modigliani.
Se discute politica e só Paris produz líderes que parecem preferir viver que governar. Ainda se despreza a Inglaterra e se teme a Alemanha. Ainda se lê muito. Voce pode ficar numa mesinha lendo seu jornal, pode olhar o povo que passa, pode flanar. Antes Paris se dava a seu olhar, ela era incontornável. Hoje voce precisa a procurar, ela se esconde em feiúras modernas. Mas se deixa entrever para quem sabe onde olhar.
O livro de Irwin Shaw, mais que lição de olhar é lição de viver. Delicia.

AMERICAN GRAFFITTI/ SHINDÔ/ MIZOGUCHI/ MALLE/ LOACH

A ILHA NUA de Kaneto Shindô
Um dos mais estranhos filmes que já vi. Numa ilha, estéril, quente, um casal e duas crianças precisam trazer água do continente ( a ilha não tem água doce ) para manter sua horta e sua vida. A ilha nada tem de cruel, ela é linda. Mas a vida deles é absurda. O filme, que não tem diálogos, é apenas o ir e vir em canoa, subir morros íngremes com cuidado, regar a terra arenosa. A fotografia é belíssima e a trilha musical maravilhosa. O diretor, de esquerda, quer nos dizer que o trabalho impede a comunicação. Eles não têm tempo para falar. A vida se resume a manter a própria vida. O filme, com todo esse arrojo e conteúdo tem um problema: é chato. Foi enorme sucesso de arte em seu tempo. Mas cansa ver a canoa cruzando o mar e o morro sendo subido. Nota 5.
À PROCURA DE ERIC de Ken Loach
Eric Cantona foi o ponto final na galeria de cavalos selvagens do Manchester United. Não a toa, ele diz em entrevista que jogadores como ele e George Best foram expulsos do United. Futebol hoje é para almofadinhas. Cantona nunca deu certo na seleção da França. Formou ataque com Papin, mas foram tirados da copa de 94 pela Bulgaria de Stoichkov. Em 98 ele poderia ter sido campeão do mundo. Zidane e Cantona fariam maravilhoso ataque. Mas Eric brigou com todo mundo e não foi chamado. De qualquer modo, ele tornou-se um deus no United. Mito. Seu estilo misturava a força de Adriano com a volúpia de Edmundo. O caráter era de Serginho Chulapa. Há uma cena famosa em que ele pula o alambrado, invade a torcida rival e desfere socos num torcedor. Se na final de 2006 estivesse ele em campo ( parou em 99 ) Zidane teria mais um para bater no italiano. O filme, sobre carteiro fracassado que recebe visitas de Cantona, tem o esquema de filme de Herbert Ross com Woody Allen. Só que no filme antigo é Bogey quem dá conselhos para Woody. Ouvindo o ex-jogador, o carteiro volta para ex-esposa e arruma situação do filho. É um filme honesto, jamais brilhante. Ken Loach é diretor da velha esquerda britânica: ele ama a classe operária. Seus filmes têm cheiro de povo. Este não chega aos pés de Kes, mas é um triste e simpático trabalho. Ken deve ser um cara muito legal. Nota 6.
AMERICAN GRAFFITTI de George Lucas com Richard Dreyfuss, Ron Howard, Charles Martin Smith e Harrison Ford
Se voce assistir este filme hoje vai achá-lo apenas ok. Mas deixa eu te dizer o porque de sua fama. Foi o primeiro filme a idolatrar os anos 50 ( o filme é de 73. A história se passa em 59. São quatorze anos que graças a revolução de 68 parecem 50 ), foi o primeiro filme em que não existe personagem ou história central, são vinhetas que se completam. Foi também o primeiro filme grande a usar discos pop como trilha sonora ( Scorsese já fazia isso desde 70, mas eram filmes pequenos), e foi ainda o primeiro filme teen nos moldes como conhecemos até hoje: carros, sexo, medos e piadas. O filme tem trilha sonora repleta de obras-primas dos 50. Vai de Buddy Holly a Beach Boys, de Chuck Berry a Fats Domino. Tudo está lá. Os atores estão muito simpáticos, os carrões são aquilo que se chama de super-muscle-cars e o filme é de uma despretensão cativante. Com o sucesso deste filme Lucas partiria para o projeto Star Wars e sua carreira como diretor iria pro espaço. Coppolla produziu. Nota 7.
A INDOMÁVEL de Ray Enright com Marlene Dietrich e John Wayne
É sempre bom ver Wayne, mas um western quando é bom é muuuuuito bom; quando é ruim é terrível. Este é bobíssimo. Nota 1.
LUA NEGRA de Louis Malle
Após o sucesso escandaloso de Lacombe Lucien, Malle fez este tipo de Alice no País das Maravilhas jungiano. Foi um absoluto fracasso. É impossível encontrar algum sentido neste filme. Guerrilheiros matam, há uma fazenda onde velha senhora morre e fala língua inexistente, ovelhas em todo canto, um rato de estimação, uma mulher dá o seio para que a velha mame, um unicórnio falante, uma águia assassinada... e tudo isso é só a metade. No meio dos absurdos anos 70 este é dos filmes mais loucos. É ruim demais. Mas ele vai tão fundo em sua ruindade que acaba ficando em nossa memória. Malle, diretor sempre provocante, escapa dos diretores "ruins e bem loucos" da época por ter um trunfo: ele sabia dirigir. Tudo é bem filmado, bem fotografado, bem dirigido. Malle mostra a loucura, mas ele nunca perde a razão. A fotografia é do bergmaniano Sven Nykyvst. Malle era o cara. Isto não é o filme. Nota 4.
OS AMANTES CRUCIFICADOS de Kenji Mizoguchi
Que lindo filme!!!! Lembro que foi este o primeiro filme japonês que vi na minha vida ( tv Cultura, 1990 ). Fala de amor que nasce e é sacrificado. Fala da ganancia de maridos ricos e de costumes arcaicos. Fala da coragem de amar. Mizoguchi, um tipo de anti-Kurosawa, dirige com uma delicadesa de seda. O filme é cheio de portas de papel, paredes de bambú, vielas com sol. As mulheres, como em todo filme do mestre, são as heroínas. O final do filme é toque de mago. Belo e muito doloroso. Nota 9.

O MAIS NOBRE DOS ESPORTES

Quem já disputou alguma coisa a sério sabe que sempre há uma hora em que voce quer estapear seu adversário. Não existe essa besteira de que o que vale é competir. Voce quer é ganhar sempre. E se puder, humilhar o adversário. Quem fala em "o que vale é saber perder", é aquele que já sabe ser a derrota certa.
O boxe é então o menos dissimulado dos esportes. Sim, ele tem sua máfia de resultados, doping etc. Todo esporte tem. Mas sua prática, ali, sobre o ringue, é um ato de verdade. Nada na troca de socos finge uma nobreza de delicadas atitudes. Sua nobreza é outra. É o sangue azul da coragem, do se deixar atingir, do saber se esquivar, conseguir se reerguer, e principalmente: derrubar o oponente. Eu respeito todo lutador.
Nenhum esporte é tão épico. De Ali a Sugar Ray, de Joe Louis a Marcel Cerdan, de Rocky Marciano a Carlos Monzon. Uma galeria de heróis, de martires, de loucos e de poetas do corpo. Mas principalmente: uma constelação de homens com atitude. Não é a toa ser o boxe o mais cinematográfico dos esportes, o mais jazzistico, o esporte existencialista. É um fio de navalha.
O volley jamais terá um herói. São bonzinhos. O tênis precisou de dois séculos para produzir um John McEnroe. O futebol, como disse Eric Cantona, está matando todos os seus cavalos selvagens. É uma época de Kakás e Christianos Ronaldos. George Best ou Garrincha seriam desempregados. No automobilismo não existe mais a atitude kamikase. Ela está extinta. Jim Clark ou Gilles Villeneuve jamais again. Mas mesmo na era de Jackie Stewart, Maradona, Borg ou Magic Johnson, era o boxe quem tinha Mano de Piedra Duran, Leonard ou o estúpido e fascinante Mike Tyson. Cavalos selvagens. Originais. Vira-latas únicos. Extintos.
Pessoas boazinhas odeiam boxe porque ele é violento. Bem...homens são violentos. A vida é violenta. Voce trucida um boi pra comer um hamburger e um bacaninha de um mico trucida um passarinho no ninho. Eu sou vegetariano e adoro boxe ( não o de hoje. A atual safra é a pior da história ). No ringue nada é falso, nada é cinico, não há frescura. Voce derruba o cara na sua frente. E depois o cumprimenta. Ele está lá porque quer. Voce está lá pra bater e levar na cara. Simples assim. Puro.
Tenho um certo desprezo por esportes fru fru. Coisas como volley ou ginástica olímpica. Patinação e peteca. Mas não sou tão troglô. Adoro xadrez e golfe. Curling e surfe. ( Que também deixou de produzir os Mickey Dora e Tom Curren do mar ). Mas é o boxe o esporte mais dramático, mais objetivo, mais corajoso, mais vital. Nobre.
Em mundo anônimo ele está com os dias contados. Burocratas e cientistas não suportam a doida exuberancia de um esporte de Ali e Julio Cesar Chavez. O boxe não é racional. As luvas serão penduradas. Os ringues transformados em lan houses. Tempo de guerra, de droga e de sequestros. Mas não da violencia do boxe. Tempo de mentira.
Pena......quem jamais vestiu as luvas não sabe o que perdeu.

AS FESTAS

No calor das nove da manhã bombas explodem nas ruas para nos acordar. É mais um dia de festas na aldeia. Todos devem acordar juntos, comer juntos, dormir a mesma hora.
Então é descer o morro onde fica a casa branca de meu avô e ir a algum bar tomar o café da manhã. Longo café, tentativa de cura de ressaca. O resto da manhã, calor seco e céu sem mancha, é caminhar ao rio onde meninas de biquini tomam cor e nadam na água fria. Lá sou o brasileiro, em tempo em que ser brasileiro ainda era ser raro. Sobre o rio há uma ponte feita por romanos e um menir no alto de colina, posto por celtas. Lagartos correm de nós e a vegetação é idêntica a de faroeste americano. Rochas enormes, mato seco, árvores modestas. E uma estrada cheia de curvas que nunca termina. Passa um carro a cada meia-hora. Correndo e cantando pneus.
O almoço é sonolento e é comunitário. Cabritos, arroz, saladas, peixes, linguiças, vinho, pão. Dá sono e a sesta, longa, abafada, moscas zumbindo, é na cadeira da varanda, ao sol. De lá se vê toda a aldeia, esparramada em descampado. O cemitério, todo branco e um campo de futebol ao lado. Montanhas ao longe de onde se ouvem fogos que estouram no céu. Na praça a banda chega e algumas pessoas vão passeando pelas barracas. O sono é bom.
Nunca anoitece. Um jogo de futebol entre aldeias rivais e o baile em que casais dançam de rosto colado. Jogo de tiro ao alvo, cassino, cartas de poker, adivinhadores, ciganos, doces e salgados. E vinho verde, branco, tinto, doce, rubi e rose. Missa na igreja antiga, missa na igreja nova. Cavalos passam trotando.
O fogueteiro, de fogo, solta fogos que fazem desenhos no céu. Está escuro afinal, e o vento vem forte. Alguém grita: Fogo!!!! Detrás da casa de meu avô o monte está em chamas. O fogueteiro deixou o fogo pegar. A festa sobe o morro e com galhos secos bate nas chamas para as apagar. Me vou na multidão e entro na fumaça e nas cinzas. Me dão um facão para derrubar arvorezitas. Entre chamas altas vejo um velho forte tossir e surgir imundo. É meu avô, que é só fuligem e está rindo. Apagar um incendio é parte da festa.
O sino toca. Mais festa só amanhã. Haverá corrida de carros. Durmo fedendo a fogueira.
Na manhã seguinte vejo meu avô partir rumo a plantação. O burrico vai com ele. Todos na rua me chamam de " um dos Cristos". É o sobrenome de meu avô.
Festa é fazer coisa junto. Festa é estar feliz com monte de gente. Festa é comunhão. Ser parte de massa que se sente una.
No morro há uma gruta romana. Um gaiteiro toca sua música sobre essa gruta. Dizem que tem gente que se perdeu lá. Dizem que tem bruxas que vivem lá. Os lobos se foram. Mas há uma raposa.
Sentado na varanda bebo uma cerveja. Tudo aquilo sou eu. Apaguei o fogo, bebi o rio, dancei a música, gargalhei de noite. A gruta é minha e a bruxa faz parte de mim. O lobo está desaparecido em mim, mas minha raposa não. Eu sou meu avô. Sou meu pai e sou minha mãe. A igreja é minha, o cemitério é meu. Sou um dos Cristos. Pertenço.
A vida é muito maior que uma neurose. Que um desejo. Que um medo. A vida é imensamente maior que eu. Ela é mestra minha, eu lhe pertenço.
Talvez seja isso amor.