AS CORES VIVAS

   Vejo um documentário sobre as cores em Technicolor. Vem nos extras de AS AVENTURAS DE ROBIN HOOD. Quem já teve a honra de assistir um filme em technicolor sabe do que falo. Mas atenção! Ele tem de ser restaurado. As cores com a qualidade original. Neste documentário temos depoimentos de Vittorio Storaro, Oswald Morris, Jack Cardiff, Scorsese claro, e mais um bando de feras em imagem. Não há até hoje um processo de imagem mais bonito que o technicolor. Deixou de ser usado, nos anos 60, porque era muito, muito caro. Em seu lugar veio o Eastmancolor, da Kodak, e as cores fortes foram assim banidas das telas.
  Ainda tive tempo de provar o technicolor em tela imensa. Foi nos anos 70. Eu era criança e fui no cine Astor, no Conjunto Nacional, ver uma reprise em cópia nova de Pinocchio. Eu devia ter uns 8 anos de idade e perdi a respiração. Lembro como se fosse hoje. ( Vittorio Storaro, diretor de fotografia dos filmes de Bertolucci, diz que as cores em technicolor mudavam nossa pressão arterial, era uma experiência física ). Em Pinocchio, naquela tarde de sábado, recebi em 90 minutos, toda a minha educação estética. Azuis que nunca mais esqueci. Vermelhos que me deixavam doido. Amarelos excitantes. Era tanta energia, tanta vida, que me senti eufórico. Cores mais vivas que a própria vida. Ou não. Segundo o documentário, são as cores reais, nós é que não as percebemos no dia a dia.
  Eu tenho alguns dvds restaurados. Cores como no dia de sua estreia. Mesmo em tela pequena a experiência da cor é maravilhosa. Robin Hood é um deles. A história é muito conhecida e o filme é infantil ao extremo. Mas as cores...meu Deus do céu! Olhe o verde da roupa de Erroll Flynn! O dourado de Claude Rains! O riacho brilha no sol com todas as cores possíveis. Nunca houve cavalo mais branco que este! E o negro do veludo....é infinito! Nossos olhos ficam em êxtase. Puro deleite. É uma experiência sensual.
  No dvd Martin Scorsese diz que os filmes de Michael Powell feitos entre 1941-1952 são a maior ousadia já feita no cinema dentro de um grande estúdio. Entenda. Há ousadia no cinema de Rosselini ou Tarkovski. Mas eram filmes pequenos e não pop. Powell fez ousadia dentro da grande indústria e fazendo cinema popular. Essa ousadia usa principalmente a imagem e essa imagem é o technicolor.
  Infelizmente minha cópia de Coronel Blimp não é restaurada. As cores estão desbotadas. Mas as cópias dos outros filmes brilham e enfeitiçam. The Red Shoes é a obra prima do technicolor. Mas atenção! É o estilo inglês. As cores são um pouco mais pastel. Menos brilho e mais sombra.
  Não posso deixar de comentar que um dos maiores filmes em cor foi censurado. ..E O VENTO LEVOU saiu da HBO por pressão. É uma obra racista. Me parece que sentiram que o lado escravocrata, lado de Scarlet, não é censurado o bastante no filme. Não vou analisar o filme. Digo apenas que saímos de décadas ( anos 80 e 90 ) onde todos queriam ser crianças, e entramos numa década onde todos são tratados como crianças. Não se aceita mais a ideia de que existam adultos que entendam o que é certo e errado. Nada mais a ser dito.
  PS: Se voce gosta de westerns guarde-os em mídias físicas. Logo serão todos censurados.

A ESTÁTUA DE CHURCHILL E OUTROS TROÇOS

     Escreveram a palavra racista na estátua de Winston Churchill. Fizeram o mesmo nas de Lincoln, Gandhi, dos soldados que morreram nas guerras e até mesmo no monumento a um batalhão negro que lutou na guerra civil. Pura ignorância e dizem que devemos perdoar a ignorância pois ela não sabe o que faz. O problema é que por trás dessa ignorância há gente nada inocente.
    Harold Bloom escreveu nos anos 80 que os estudos modernos de línguas estavam destruindo o valor da literatura. Dante era estudado apenas como um macho branco e rancoroso e assim sua obra não importava mais. Dickens era outro macho branco opressor e típico propagandista do mundo vitoriano. Shakespeare nada entendia de mulheres, era outro homem branco europeu. Criava-se a ideia, perigosa, de que cada raça deveria ler livros escritos por representantes de sua etnia e de seu gênero. Já são 35 anos passados e hoje vejo alunas negras que fingem não ouvir o que qualquer professor branco fale.
    Tive um professor assumidamente comunista nos anos 70. Muito boa gente, ingênuo, simpático, ele era partidário do famoso "quanto pior melhor". O único modo de vencer o capitalismo seria criar uma crise descomunal. Dos escombros da tragédia nasceria um povo socialista. Na prática isso nunca aconteceu. Da Alemanha destruída veio o nazismo e da URSS acabada veio Putin. Mas o hábito do quanto pior melhor não desapareceu. Alegremente, por puro instinto, sem raciocinar, há um tipo de reformista que ainda crê que do Kaos absoluto virá o tal mundo justo. Não meu querido. Do Kaos nascem políticos mais autoritários e geralmente são de direita.
    A guerra racial substituiu a guerra de classes. A equação primária é simples assim. A esperança dos reformistas sociais é que nessa guerra morra o capitalismo malvado. Não percebem que as pessoas ao fazerem saques, pegam bens do capitalismo. E sorriem por isso. No pior dos cenários, a guerra racial poderia produzir um tipo de novo apartheid "do bem". Raças separadas. Detalhe: a Africa do Sul era mega capitalista. Nenhum negro americano quer o controle estatal sobre sua vida. Ao contrário, eles querem o fim da polícia. Ou seja, nenhum controle. ( Devo comentar que o fim da polícia seria o retorno do mundo do faroeste, mas me parece que esses militantes não assistem esse tipo de filme ).
    Dentro desse mundo que aqui descrevo fica difícil falar de Churchill ou Lincoln ou Gandhi. Pensando por slogans, lendo apenas apostilas, esse povo vê cada um deles apenas como homens brancos que defendiam a cultura branca. Toda a complexidade de almas imensas fica no limbo da tola ignorância.
   Interessante observar que a diminuição da alma humana está se dando exatamente dentro do humanismo moderno. Enquanto a ciência nos leva ao limite do muito grande e do muito pequeno, o mundo das humanas diminui cada vez mais nosso limite. Uma alma branca não poderá jamais entender o que é ser negro. E um homem nada sabe sobre uma mulher. O espírito e o intelecto hoje têm cor e sexo. Tentando ser liberais, eles sexualizaram e deram raça a tudo.
   Jamais li Emilly Bronte ou Virginia Wolff pensando estar lendo uma mulher. Nunca ouvi Miles Davis pensando estar ouvindo um negro. Para mim sempre foi Literatura. Sempre foi Música. Valores muito acima da contingência temporal de raça e sexo. Para mim a arte sempre foi o mundo democrático onde cada um é aquilo que é: Único. Colocar um artista como latino americano gay ou macho russo dono de terras, é desvalorizar e não apreciar aquilo que a arte tem de melhor, sua transcendência. O latino americano gay é muito mais que isso. Idem o russo macho.
   Para o povo que destrói o passado, olhar para trás é ver apenas racismo e machismo. Mais nada. Para eles toda a história se reduz a exterminação de raças e opressão feminina. Se um dia a história foi reduzida ao conflito de classes, agora é ainda pior. Estamos condicionados a ver o passado do ponto de vista de nossa raça. Não conheço inferno mais limitante que esse.
   Por fim, a história nos ensina que mudamos. Que tudo é um processo. Churchill lutou no Sudão, lutou contra os Boers. E eu não gosto desse lado dele. Mas depois ele mudou. Porque a história nos faz mudar. E segurou o nazismo sozinho por dois anos. Quando negamos a história estamos negando a mudança. O passado morre. Ele se torna estático. E ao fazer isso acabamos por negar nossa própria possiblidade de mudança. Brancos serão sempre brancos. Negros serão sempre negros.
  O mundo real meu caro, não é assim.
  
  

Martin Scorsese introduces The Life and Death of Colonel Blimp



leia e escreva já!

The Life and Death of Colonel Blimp (1943) - "The Truth" Monologue



leia e escreva já!

CORONEL BLIMP, MICHAEL POWELL. GENTLEMAN

   Tendemos a não crer que um dia as coisas foram diferentes. Não existem mais pessoas vivas que eram adultas nos anos de 1930. Então quando lemos testemunhos de um mundo diferente, tendemos a pensar que tudo é apenas caso de nostalgia. Coronel Blimp, filme de Michael Powell feito em 1942, no auge da segunda guerra, o momento em que realmente parecia que Hitler iria vencer, fala do assunto que Churchill menos queria ouvir falar então: Bons Modos.
  Churchill tinha sangue azul e era um conservador. Portanto ele conhecera o mundo de Blimp. Mas em 1942 ele já incutira na mente dos ingleses que para vencer a Alemanha era preciso lutar como os nazis lutavam: de um modo sujo. Sem respeitar acordos. O vale tudo absoluto. A destruição total. Blimp é um general que ainda crê na honra entre iguais e nos bons modos mesmo na guerra.
  O filme foi em seu tempo um fracasso de público e poucos críticos lhe deram atenção. Hoje é chamado de obra prima por gente como Roger Ebert, Martin Scorsese e Copolla. Falo agora do que vemos...
  Ele é dividido em 3 grandes blocos. No primeiro, todo em clima de comédia farsesca, vemos Blimp já velho, em 1942, sendo ofendido por jovens soldados da nova geração. Fazem uma palhaçada com ele. Então vem um flash back e vamos à 1902. Jovem, Blimp vai à Berlin resolver um problema. Lá, se envolve em duelo com oficial alemão. Estranhamos o duelo e o que acontece depois como se fosse um tipo de fantasia para crianças. Mas aquele é exatamente o mundo dos oficiais em 1902. O mesmo mundo que Renoir mostra em outro filme sobre o mesmo tema. Acima de tudo há o orgulho em se manter um bom nome. Um compromisso de classe. Um código de honra que precisa ser mantido para que a civilização que se defende não desabe. Observe bem essa frase: A civilização não desabe. A educação humanista da época pregava isso: Acima de Alemanha ou Inglaterra, vinha a civilização romana-cristã-ocidental. Tudo poderia ser perdido, menos essa base. O código de honra a mantinha a salvo.
  No segundo bloco está a primeira guerra mundial, e aí o código começa a ruir. A guerra química destrói o acordo de cavalheiros e a Alemanha dá o primeiro chute no início do fim. Blimp diz que é um orgulho ter vencido a guerra dentro do código de respeito e honra, mas ele está enganado. Os ingleses já usam a tortura para obter confissões. E após a guerra erram ao humilhar os vencidos. Esse segundo bloco é já em outro clima, o filme fica mais seco e a comédia desaparece.
  O terceiro bloco é trágico. É a segunda guerra e Blimp é afastado do exército. Suas crenças atrapalham a nação. A Inglaterra luta como a Alemanha, de modo sujo. O filme se torna trágico e de uma beleza absoluta. A fala do amigo alemão, tentando obter refúgio em solo inglês, é comovente.
  Paralelamente à tudo isso, há a amizade entre os dois duelistas. Blimp e o alemão mantém a amizade porque ambos acreditam nas mesmas coisas. Mais que ingles e alemão, eles são civilizados. A mulher que o alemão rouba de Blimp, sem saber, é o símbolo do mundo perdido pelo general, a beleza que jamais poderá voltar.
  É um filme imenso em todos os sentidos. Roger Livesey como Blimp tem uma das melhores atuações da história do cinema, e Anton Wallbrock como o alemão é ainda mais fascinante. O filme é considerado um exemplo do estilo biográfico. Ele humilha as biografias feitas nos últimos anos.
  Voce pode falar que na idade média se torturava etc etc etc. Sim. É fato. Mas se torturava quem não fazia parte do universo dentro do código: o herege. Entre iguais se observava a honra da guerra justa. Cinismo? Pode ser. Mas dentro dessa civilização, a nossa, havia pelo menos essa certeza. A guerra feita com hora e local marcado, dentro de um limite. Quando esse limite era quebrado, e era, a punição era exemplar. Os crimes cometidos em países fora da Europa eram crimes contra outra civilização. O que Blimp diz, e que tanto irritou Churchill, é que ingleses e alemães são da mesma origem, têm os mesmos códigos e se os alemães erraram, e realmente erraram, o filme deixa isso muito claro, são ainda participantes da mesma civilização.
  Vivemos um tempo de relativismo e achamos extremamente falso um código de honra que abrange apenas os iguais. Mas mesmo no globalismo atual é isso que acontece. Voce respeita quem é da sua tribo e só quem compartilha de suas crenças. O problema pós nazismo é que não há limite algum mesmo dentro da tribo. Vale tudo para vencer, mesmo que se negue a sua própria honra.
  Não existe civilização sem acordo. Não vale a pena manter uma estrutura baseada apenas no prazer. Blimp sabe que o que dá sentido à vida é a crença em coisas que estão acima e além de voce mesmo.
  O filme, antigo, velho, ultrapassado, está muito além do cinema.

FIM DA POLICIA ( MATEMÁTICA BABY )

   Leio que um grupo de atores e atrizes de Hollywood faz um movimento pedindo o fim do financiamento da polícia. Atores não são famosos por seu senso de realidade, mas eu não imaginava que eles houvessem chegado a tal nível de infantilismo. Vale à pena comentar?
  Sem a polícia voltaríamos aos tempos do faroeste. Cada comunidade escolheria um xerife, esse xerife nomearia ajudantes e estaria instalada a lei. Todo cidadão, sem a polícia, se armaria para defender o que é seu e o que ele ama. E mesmo que as armas por mágica fossem extintas, facas e porretes seriam usados. Eu realmente não consigo entender esse tipo de raciocínio. Penso que nasceu uma nova espécie de mamífero humanoide e entre eu e esses seres há a distância que existe entre Leões e gatos de madame.
  As pessoas estão desistindo de pensar. Elas estão sendo ensinadas a colocar rótulos e pensar por slogans. Desse modo, todo aquele que discorda de seu ponto de vista é comunista ou nazista. Todo policial é um porco fascista e todo homossexual é de esquerda e portanto, comuna. O mais assustador é que o humor, primeira característica da inteligência, está completamente ausente desses slogans. Mesmo aqueles que se propõe a fazer humor, acabam por fazer uma espécie de piada hiper agressiva, um riso que baba veneno e rancor.
  Eu ando vendo filmes de guerra. Os filmes que Michael Powell fez durante a segunda guerra. Em Coronel Blimp, filme de 1941 filme que Churchill odiava, Powell mostra que até os alemães são humanos. Sim. Em plena segunda guerra, um diretor fez um filme inglês que demonstra que mesmo os inimigos sofrem e pensam. Ontem assisti Canterbury, onde é mostrado que Deus concede milagres mesmo dentro da guerra. O que tento dizer aqui? Que o humanismo morreu. Se voce destrói uma amizade porque seu ex amigo pensa diferente de voce, seu humanismo não é mais humano. Voce é apenas uma máquina de pensar. Basta um código binário que não encaixe na fórmula da amizade para que todo o programa desabe.
  Comecei este pequeno texto falando de atores privilegiados. Falo agora do problema da área de humanas. Li um artigo que expõe o problema. Problema insolúvel devo dizer. Frequentei os bancos de humanas, da melhor universidade do continente, por oito anos. E o que vi? Excelentes professores. Sim, conheci dentre muitos, alguns realmente ótimos. Carismáticos, abertos, democratas reais, racionais, encantadores. E muitos enganadores. Não, não pense em dogmas. Os enganadores são apenas preguiçosos. Só isso. O problema está muito além dos professores. O problema é o próprio alvo de estudos.
  Até o século XVII mais ou menos, humanas englobava tudo. Um bom filósofo estudava matemática, astronomia, latim, grego e química. Quando, já no século XVIII, esses conhecimentos se separam, nasce o especialista em história, línguas ou filosofia, aquele que tem um certo orgulho em dizer: " Sou de humanas, não sei fazer contas", ou pior, " A ciência também é relativa". Relativa em relação a quê, caro humanoide?
  Em humanas nada precisa ser provado porque tudo é questão de gosto. Ou de fé. Nunca nos esqueçamos, para tristeza de 90% dos humanoides, que universidades, livros e especulações são coisas criadas pela igreja. Na base do humanismo há sempre a repetição da ladainha e a paixão da fé.
  Tanto faz voce dizer que Dostoievski era um cristão radical ou um louco. Tanto faz voce dizer que Joyce era de esquerda ou direita. Não há como comprovar e mesmo que eles estivessem vivos e falassem o que pensam, voce separaria o homem da obra. Não existe conclusão em humanas e por isso nela cabe qualquer teoria. Por mais absurda e irracional que seja. Se alguém quiser crer nela, ela existirá.
  Até aí tudo é inofensivo como é inofensivo um brinquedo. O problema é quando esse método sem método é levado para a vida prática. Por princípio o humanoide odeia tudo que é prático e pragmático. Pois essas duas palavras lhe recordam aquilo que ele mais odiava quando jovem: ciência matemática. Ordem. Clareza. Limpidez. Por mais que um filósofo invente teorias, dois mais dois será quatro mesmo em 2100. Assim como foi em 2000 ac. A ciência, assim como a vida real, faz com que o humanoide fique irritado. Nesse mundo não acadêmico ele é impotente. A física quântica não o salvará da morte ou do tempo que passa. Pois até a física quântica é apenas....ciência.
  O que mais me dava risos nas aulas era quando um professor chamava sua aula de ciência. Onde? Ciência sem laboratório? Sem a repetição de resultados idênticos? Sem a ocorrência idêntica independente de lugar e tempo? Eu falava em aula: "Vamos parar com essa fixação em ser aceitos pelas ciências e nos contentemos com nosso campo, restrito e falho". Sim amigos, eu falava isso. E muitos concordavam. Inclusive professores. Mas a maioria não. Humanas de humanoides quando aplicadas à economia, medicina, administração, química, aplicadas a todo modo de pensar é sempre um desastre. Porque não há um objetivo concreto. Um alvo mensurável. É tudo abstrato.
  Como resultado, passamos a ter no mundo concreto aquilo que cabia apenas ao mundo acadêmico das humanas: a relativização da verdade. Homero escreveu a Odisseia para quem assim o quiser. Dante é um monstro para quem acreditar. Napoleão era um herói para voce e um vilão para mim. Tanto faz. Dentro da academia ou em cadernos de cultura tudo isso é muito divertido. Na vida do dia a dia, onde se lida com dinheiro, com guerras iminentes, com doenças, isso é patético. Ou pior, trágico.
  Apesar das aulas de filosofia e das teorias literárias, o mal existe. O bem existe. E há uma verdade chamada bem comum. Certas coisas são melhores que outras. Certos hábitos persistem por serem bons. Quando voce relativiza, tudo se desmancha, e o motivo não é "porque a vida é assim", mas porque, como bom humanoide, voce aplica o saber das humanas ao objeto errado. Podemos discutir se Descartes era pior que Pascal, mas não podemos discutir se este método de produção funciona ou não. Basta medir sua eficiência.
  O humanoide é aquele que irá à sua festa de bodas de diamante e dirá: " Dura muito tempo...mas isso não significa...bla bla bla"....Verá uma vitória por 7x1 e dirá ...."Tenho a teoria de que o jogo foi e bla bla bla"....
  Ele terá teoria para tudo e todas serão verdadeiras para quem as comprar. Mas, o simples fato de existirem tantas teorias já contribui para provar que todas são falhas. Como eu disse, brinquedos.
  Termino com Einstein, aquele cientista sério que os humanoides pintam como um bom vovô meio hippie. Ele dizia que toda verdade é SEMPRE A MAIS SIMPLES E A MAIS ELEGANTE. Seja em matemática, física ou na vida prática, há na verdade sempre a luz do óbvio, do claro, da evidência mais direta e sem firulas. Toda teoria que necessita de uma sucessão de atos ou acasos é falsa.
  Mas humanoides abominam o que é simples. Muito menos o elegante. Aos 13 anos eles tinham diante de si uma equação clara, simples e elegante. E muito verdadeira. E a odiaram com todas as forças.
 

A ELEIÇÃO DE DONALD TRUMP MUDOU O MUNDO. LEIA E SAIBA

   Foi em 1989. A rede Globo de televisão, poderosa, dona das mentes de 85% do país, resolveu que Collor tinha de ser eleito. E foi. Claro que foi. Dois anos depois a mesma Globo resolveu que Collor estava errando demais. Ele tinha de cair. E caiu. O movimento das ruas, seja Diretas Já ou o Fora Collor começava antes da Globo se tocar, mas sabíamos que para que eles parecessem reais havia a necessidade da aceitação da emissora. Ela legitimava a rua. Brizola morreu com o desejo de acabar com esse poder, não conseguiu. A Globo enquadrou até mesmo Lula, mas sabia que pacificar Brizola era impossível.
  Foi na Inglaterra do século XVIII que o jornalismo começou a mostrar sua cara. País que primeiro alfabetizou o povo em massa, tabloides se beneficiaram disso. Já no século XIX, nos EUA, um jornal podia eleger governadores e acabar com a reputação de qualquer presidente. Jornalistas começaram a se ver como uma mistura de professor e filósofo, eram os auto declamados educadores do povo e defensores da democracia. O cinema dos anos 30, americano, tinha sempre um jornalista como figura heroica. Muitos dos jovens idealistas queriam trabalhar na imprensa, e a partir dos anos 50, na TV.
  Os anos 80, aqui no Brasil, foram o momento máximo da glamurização da profissão. Os jornais tinham tiragens imensas, revistas idem, e a TV nadava em berço de ouro. Mesmo em meio à uma inflação absurda. O país afundava, mas a imprensa tinha salva-vidas.
  Quando Donald Trump vence a eleição americana esse mundo racha. Surge uma real novidade. Um candidato pode vencer sem campanha baseada em algum veículo de imprensa. Trump vence com o apoio das redes sociais, do indivíduo baseado em casa. E esse choque, para o heroico jornalista, foi insuportável. Entre a "nobreza" das redações instalou-se o horror. "Mas como? Agora a opinião do José Verdureiro vale tanto quanto a minha?"
  Estranhamente a reação da imprensa foi copiar o que de pior há na internet. O jornalista começa a acusar, a blasfemar, a insultar descaradamente. NÃO HÁ PROVA MAIOR DA DECADÊNCIA DE UMA CLASSE QUE COPIAR SEU ADVERSÁRIO.
  No Brasil o mesmo fenômeno aconteceu. Mas no modo Brazilian way. Quem já viu Trump numa coletiva sabe como ele é articulado. Duro. Agressivo, porém articulado. Bolsonaro não sabe falar com diplomacia. É um Trump jeca. Mas o fenômeno que o elegeu é idêntico ao de lá. O poder do indivíduo contra a velha empáfia da imprensa.
  Os veículos não escondem seu preconceito. Tratam esse novo poder digital como fossem bandidos, ou pior, negam sua realidade. Inventam teses paranoicas. Acusam. Sabem que o tempo não voltará, que o tempo do jornal como templo da verdade se foi. Hoje um jornalista é militante quando razoável e mero fofoqueiro quando sem pudor. A luta da imprensa não é contra Trump ou Bolsonaro, é contra o José Verdureiro, o "analfabeto" que ousa falar de política.
  Democracia?

CLINT EASTWOOD, O HOMEM QUE TINHA TUDO PARA FRACASSAR

   Clint nasceu em 1930. Ele faz 90 anos hoje, 31 de maio. Ele é da geração anterior à Pacino, De Niro etc. Ele é da geração Paul Newman, Redford e Steve McQueen.
   Não era articulado como Newman. Não era bem relacionado como Redford. Nem tinha a cara de rebelde de McQueen. Era apenas bonito. Muito alto, muito bonito. Como centenas em sua geração. Tinha voz ruim. E não era de teatro, era, pior que tudo, da TV. Se hoje vir da TV ainda atrapalha, nos anos 50 ser ator de série de TV era um anti currículo. Ele era ator em Rawhide. Mais uma das muitas séries de western de então. Durou de 1956 à 1965. Nessa época Clint esteve em alguns filmes de cinema B. Mr Ed, numa ponta. Um filme de sci fi, com uma fala. Seu destino parecia ser a TV. Fazer mais algumas séries de western. E depois, por volta dos 40 anos, sumir.
  Mas houve uma primeira guinada. Em 1964 ele vai fazer um filme na Itália. Com um tal de Leone. Entenda: fazer western na Itália em 1964 seria como hoje ir fazer uma ficção científica na India. Pura decadência. Leone não era Fellini. Não era Antonioni. Era um ninguém. E faroeste na Itália só podia ser uma piada. Vergonha. Porém o filme fez sucesso. Por uma intuição, uma coincidência, ele bateu com o espírito da época. Era amoral. Era violento. E Clint era misterioso, calado, quase irreal.
  Entretanto nos USA continuava um zé ninguém. Foi trabalhar com Don Siegel, que também era um velho zé ruela. Clint já tinha 38 anos. Newman já era Paul Newman, Redford fazia Butch Cassidy e McQueen era o ator mais cool do mundo. Clint Eastwood era apenas o cara do faroeste italiano. Com Siegel fez Coogan. Bom filme. Ótimo na verdade. Mas era uma situação estranha. Ídolo na Itália. Ator de segunda em seu país.
  Então em 1971 veio Dirty Harry. No auge do movimento hippie, Clint e Don Siegel fazem um filme onde o herói é um policial. Que mata sem julgamento. E o vilão é um hippie. Pauline Kael e outros críticos caem matando: Clint é fascista. O filme é nazista. Kael iria perseguir Clint por toda a vida. Dirty Harry tinha tudo pra ser um fracasso. Não foi. Fez de Clint um ídolo nos USA e no mundo. O herói de paletó, cabelo lavado e sem barba, Magnum na mão, se tornava aceito no mundo louco de 1971.
  Mesmo assim todos apostavam: Ele não dura. James Caan é melhor. Apostem em Elliot Gould. Michael Sarrazin. Até mesmo Michael J. Pollard parecia ter um destino melhor. E mais irritante para quem não gostava dele, Clint Eastwood achava que sabia dirigir filmes!!!! Isso Kael não perdoava. Como esse ignorante podia se meter a fazer filmes?
  Parece absurdo tudo isso. Visto hoje é quase inacreditável, mas por volta de 1977 Clint era considerado o pior diretor da América. Um estúpido, inarticulado, que fazia filmes para caipiras dos cafundós do Alabama. Até Burt Reynolds tinha mais respeito. ( Os dois eram os campeões de bilheteria de então ). Um filme como Josey Wales, de 1976, mal foi resenhado. Era chamado de apenas mais um western daquele cara que não sabe dirigir. Clint já tinha 46 anos.
  Nos anos 80 ele se assumiu republicano e até prefeito foi. Eu lia jornal nessa época e não ia com a cara dele. Na verdade o odiava. Todo crítico o chamava de fascista, então não tinha como não o odiar. Quando ele fez Bird, em 1987, alguns críticos começaram a negar tudo o que diziam até então. O cara ouvia Jazz? Dizia ter visto Bird tocar? Mas como? Ele não era racista? Ele sabia ler? Será que vale à pena levar ele à sério?
  Coração de Caçador foi o filme que mudou a vida de Clint Eastwood. Aos 60 anos, a crítica via o óbvio: ele era o grande herdeiro do cinema de John Huston. ( Para mim ele é muito mais Howard Hawks ). Da noite pro dia parecia que haviam esquecido Dirty Harry. Agora era chique gostar de Clint Eastwood. Na relativa paz entre democratas e republicanos nos anos 90, Clint pode finalmente mostrar quem ele sempre fora. Um grande tipo. Um imenso caráter. O Gary Cooper de sua geração.
  O que veio depois voce já sabe. Dois Oscars como melhor diretor. A aceitação de Hollywood ( que desapareceu neste século intolerante ), a tranquilidade de uma carreira vencedora.
  Mas era pra não ter dado certo.

TUBARÃO JAWS SPIELBERG

   Em 1975-76, quando a mania Jaws se instalou, eu não tinha idade para o ver. Depois assisti trechos em Sessões da Tarde. Um final aqui, um meio alí. Mas nunca sentei para ver inteiro. Vi ontem.
   Visto em 2020, 45 anos depois, o que é este filme? Quase nada. Não vou falar do suspense ou do medo, não há. E não vemos um filme antigo em busca de medo ou suspense. Medo e suspense envelhecem rápido. Quando procuramos um filme antigo desse estilo o que procuramos é entretenimento, diversão, algum tipo de encanto com a combinação imagens, música e roteiro. É isso que faz com que Hitchcock sobreviva bem, mesmo despido do suspense, e é isso que faz com que Jaws pareça sem graça, visto agora e para sempre.
  Ele parece um filme de TV dos anos 70. Parece estranhamente pobre. Modesto. Encurralado, Duel, o filme de Spielberg de 1972, seu primeiro filme, é modesto e é feito para a TV, mas visto hoje, eu o revi, mantém seu encanto intacto. Já Tubarão parece um prato sem tempero. Será por ser conhecido demais? Psycho é conhecido ao extremo e ainda nos perturba. E aí posso apontar o primeiro problema: Psycho tem uma grande atuação, Anthony Perkins, Tubarão não. Roy Scheider, ator que admiro por causa de ALL THAT JAZZ, é um policial covarde bem mal desenvolvido. Richard Dreyfuss faz Richard Dreyfuss, o cara boa praça de sempre, e Robert Shaw é uma caricatura que beira a paródia. Tivesse um cachimbo seria Popeye em versão bêbada. Filmes antigos sobrevivem lindamente quando contam com grandes atuações. Não é o caso. O que resta então? O bicho? Que bicho? O pobre Tubarão não tem nenhuma personalidade. esqueceram de lhe dar um caráter. Ele não causa medo, apenas espanto por ser tão pouco assustador. Mas há a trilha sonora. John Willians se tornou um mito com ela. O tã tá tã é realmente excelente. Mas escute....o resto da trilha....que lixo é esse? Não, não me xingue, escute de novo! Música de desenho Disney, super feliz e brilhosa em cenas do barco perdido no mar? Um irritante exibicionismo sinfônico em cenas que ficariam muito melhor sem música nenhuma! Spielberg ama John Willians e deixa o volume da trilha no máximo. É quase risível. É muito ruim...
  Tubarão é longo, longo demais. A gente se cansa de ver as boias amarelas arrastadas pelo bicho. Com uma trilha que ficaria melhor em Dumbo ou Peter Pan. Este filme pode sobreviver se voce o assistir como apenas mais um filme dos anos 70. Mas se voce o encarar como um famoso clássico dos anos 70...Deus meu! Que coisa chata!
  É isso.

TENHO ESCRITO SOBRE FILMES QUE VI ANTES DA EXISTÊNCIA DESTE BLOG, MEUS PRIMEIROS DVDS PORTANTO. MAIS UM? THE AWFUL THRUTH, LEO McCAREY

   Primeira cena: Cary Grant em um clube usa uma lâmpada de bronzeamento. Ele mentiu para a esposa. Disse que ia à Miami e ficou na cidade. Não saberemos o que ele fez.
  Cena seguinte: Ele chega em casa. Amigos estão à sua espera. Cadê sua esposa? Ela também sumiu. Ele inventa uma desculpa para não ficar mal com os amigos. Diz que ela está com a mãe. Mas eis que chega a mãe. E em seguida chega a esposa, Irene Dunne. Ela vem sorridente. O professor de canto a trouxe de carro. Os dois passaram o fim de semana numa pousada. O carro dele havia quebrado.
  Próxima cena: o divórcio. Quem vai ficar com a guarda de Mr. Smith, o cão do casal?
 Daí para a frente é puro prazer. Entra em cena Ralph Bellamy, fazendo um rico herdeiro de Oklahoma, caipira que se enamora dela. Grant, ainda querendo salvar o casamento, visita Mr.Smith, cruza com a esposa num night club, aparece sempre onde ela está, como quem não quer nada. Já ela, óbvio também, usa o caipira como peça de ciúmes, finge estar nem aí, se faz de tonta. Sim, voce já viu esse argumento milhares de vezes. Mas voce também já viu a saga de mafiosos ou a crise do homem moderno milhares de vezes. E daí? O que importa é como o tema é desenvolvido e não qual o tema. E aqui, Leo McCarey, diretor vindo dos curtas de Laurel and Hardy, e que seria um dos nomes mais fortes dos anos 30 e 40, conduz tudo com tanta leveza e gosto que somos pegos de surpresa. Voce pensa que será um filme frenético e maluco, mas não, ele é calmo e suave.
  Acumulam-se ótimas cenas, e a do night club é a melhor. Filmes como este não nos fazem mais rir, mas nos deixam alegres. Nessa cena porém me peguei rindo, o que não esperava.
  Os grandes filmes de humor dos anos 30 e 40 não têm mais o dever de nos fazer gargalhar. O humor, assim como o horror, envelhece e perde a força explosiva. Se tiver sido em seu tempo uma grande fonte de emoção, ele corre o risco de visto hoje ser apenas uma decepção.
  Entretanto, quando o filme é acima da média, ele sobrevive. Não nos faz mais rir, mas nos deixa num belo estado de alegria, um leve sorriso nos lábios, uma sensação de prazer indefinido. Isso ocorre aqui. Os risos não vêm, como deveriam vir em 1937, mas o otimismo se faz sentir. Estamos dentro de hora e meia de humor, de bom humor, não de risadas. Cary Grant deixou de parecer ser um humorista desde os anos 50, em lugar disso ele hoje parece um mestre de bom humor. Ele não nos faz mais rir, mas em troca nos dá um bem maior: aprender a encarar a vida de um modo leve. Isso é sublime, daí meu encanto por esse ator.
  De Irene Dunne posso dizer que ela está à altura de Grant. Acho que ela o completa melhor de Hepburn. Kate sempre é pesada, ela tem um acento de seriedade que nunca some completamente. Irene não. Ela é jovial. Sempre jovial.
  Imenso sucesso de bilheteria, o filme se mantém plenamente satisfatório, fato que não acontece com o filme que comentei acima.

DISQUE M PARA MATAR, UMA OBRA PRIMA SEM NENHUMA AFETAÇÃO

   O filme se passa quase inteiro entre quatro paredes. E voce não tem nenhuma sensação claustrofóbica. Muito menos tédio. É uma peça filmada, quase sem nenhuma modificação, e ao contrário da maioria do filmes feitos sobre peças de teatro, voce jamais lembra estar vendo um texto para o palco. O personagem central é vaidoso, frio, antipático, esnobe, e mesmo assim voce adora sua companhia. Hitchcock diz ter sido tão fácil fazer este filme que ele poderia o ter dirigido via telefone. E voce sabe que ele está brincando. É uma obra prima e ao lado de Intriga Internacional, é meu Hitch favorito.
  Genial em seu modo simples, ficamos sabendo em dois minutos quem é quem: um ex tenista casado, em Londres, é traído por sua esposa rica. O outro é um escritor americano. O marido irá elaborar um plano detalhista e racional, para assassinar a esposa. Falo o resto? O assassinato não acontece, e então ele executa outro plano: fazer a esposa ser condenada pelo crime que ele desejava cometer. O que assistimos, com supremo prazer, é  a concatenação de detalhes que compõe um todo complexo. Hitch sabia de como é satisfatório presenciar a exibição de inteligência e método, mesmo que seja em um crime. O marido, feito de modo magistral por Ray Milland, aqui melhor que no filme que lhe deu o Oscar, este é o papel de sua vida, é puro exibicionismo. Milland compõe um tipo cheio de olhares, gestos, trejeitos, tudo é como uma ourivesaria de atuação, uma joia em atuação charmosa e repulsiva. Já Grace Kelly, a esposa, além de estar no auge da beleza, não me lembro de mulher mais linda em filme nenhum, nem ela mesma nunca mais esteve tão bonita; atua com sutileza. Ela expressa culpa, sedução, medo e confusão. É o contraponto exato à Milland. O outro grande ator do elenco não é o amante, mas o inspetor de policia, John Willians, solidez e bom senso, calma e método, uma atuação de simpatia sublime.
  Há que se dizer o segredo da leveza e da inteligência deste filme: a câmera. Ela não para. Rodopia pelos móveis, vai do chão ao teto, inova em ângulos diferentes, viaja em todo canto possível e impossível. Mas com um detalhe central: jamais percebemos isso! Estamos tão envolvidos pelo roteiro perfeito que não prestamos atenção em seus truques. Hitch nunca se perdeu. Seus filmes são cheios de truques, mas o centro é sempre a história a ser narrada. Por isso sua arte nunca parece afetada. Ele jamais diz: Hey! Olhem este efeito! Seu foco é aquilo que os atores fazem e falam.
  Muita gente comenta hoje o que ele faria com nossas câmeras tão leves e nossos efeitos digitais. Provável que botasse todos os ouros no bolso e nos surpreendesse a cada filme. Isso porque ele era curioso, insaciável, irrequieto e não tinha medo de experimentar. Mas acima de tudo ele era meticuloso. Planejava. Construía e executava estritamente o que estava dentro do plano central. Nada de improviso. Nada de última hora. Para nosso cinema de alta tecnologia, seu modo de encarar a arte cairia como uma luva. Técnica acima de tudo.
  Eu devo ter visto este filme já umas cinco vezes. E sempre sou pego odiando Milland e tendo um orgasmo quando a verdade aparece. É um prazer intelectual. Sinto a satisfação de ver um plano perfeito ser desfeito por uma intuição ainda maior. Acima de tudo o cinema de Hitchcock é sempre uma questão de inteligência. Nosso cérebro é usado. E isso é cada vez mais raro.

CONTATOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU. A INFANTILIZAÇÃO DO CINEMA.

   Tenho este dvd desde 2006, mas só agora o assisti. São 3 discos, versões de cinema 1977, de cinema 1981 e do diretor. Não há prova maior do fetiche que se tem por esse diretor.
   Eu não o assistia desde que o vira no cinema, em 1978, com meu irmão. Cine Festival, na rua Lacerda Franco em Pinheiros. Quem não frequentou cinema de bairro em dia de semana não sabe o prazer que isso dava. Era como ver um filme na sala de casa. Era familiar. Era muito barato. Era como um clube. As pessoas da rua na sala. Sair da sessão, que foi mágica, nós ficamos hipnotizados pelo filme, e cair na rua, luz do sol e carros. Era um choque. Não era como sair da sala de cinema e dar de cara com luzes artificiais e vitrines de lojas. Não. Era sair da sala e ver o céu aberto, as vozes da rua, buzinas e fachadas de casas. Uma realidade penetrando outra realidade. Bem...chega, vamos à minha experiência de ontem.
  42 anos depois eu ainda lembrava de várias cenas. Provavelmente por terem se tornado ícones do cinema. Os brinquedos se movendo no quarto do menino, as luzes no carro de Richard Dreyfuss, toda a sequência final. Me surpreendo em como os primeiros minutos são fracos, uma sequência de aviões e barcos que surgem em locais estranhos. Me surpreendo também em como o filme é ótimo entre os 30 e os 70 minutos. Quase sem diálogos, é um primor de narrativa e de encanto. Esse ótimo filme dentro do filme acompanha todo o encontro na estrada até o começo da construção da "montanha" dentro de casa. O filme desaba outra vez e me lembro então como todo filme de Spielberg é sempre irregular. É um cinema feito de grandes cenas, mas nunca de filmes perfeitos.
  Eu havia esquecido a imensa quantidade de crianças no filme. É um filme infantil. Os ETs são crianças e o adulto que eles levam é fã de Pinochio. Nada há no roteiro de filosófico, não perca seu tempo procurando uma mensagem. O filme é o que vemos: um cientista criança, Truffaut, não podia ser outro, um pai criança e viajantes do espaço crianças. A mensagem é : Paz e Amor. Mais nada.
  Nos extras causa decepção ver o Spielberg de anos depois dizer que mudaria o filme se feito agora. Penso então que ele o deixaria mais complexo. Mas não. O que ele diz é que hoje não deixaria o pai ir com os ETs e largar seus filhos na Terra. Ele era um pai irresponsável. Well....
  Mesmo hoje, em filmes ditos adultos, como Schindler ou Lincoln, Spielberg não muda. Abusa da música para nos seduzir. Luta para criar grandes cenas que nos impressionem. Se esforça por agradar. E acaba fazendo filmes rasos. Um diretor com um talento imenso, com um senso de imagem tão perfeito, acabará sua carreira sem uma só obra prima. Mais frustrante ainda, ele, como Tarantino, nada tem a dizer. Ambos têm como único pensamento o amor ao cinema e uma grande cultura cinematográfica. Ambos passam a impressão de que tudo o que sabem sobre paternidade ou violência, guerra ou heroísmo, foi aprendido e vivido diante de telas de cinema. Todos os seus filmes, como de tantos outros diretores deste momento histórico, são filmes sobre filmes, histórias imaginadas enquanto se via um filme, relatos sobre experiências sentidas em filmes. Contatos Imediatos é 2001 em desenho Disney. É O Dia em que a Terra Parou como superprodução. A nave é a baleia de Pinochio.
  Muito já se falou sobre o mal que Spielberg causou ao cinema dos últimos 45 anos. A infantilização. Foi ele quem notou primeiro que o cinema seria salvo pelas crianças e não pelo público adulto. Essa foi uma guinada da qual jamais nos recuperamos. Todo grande filme, toda grande produção, graças à ele e Lucas, passou a ser dirigida à um público de 10-12 anos de idade. Mesmo que esse público tenha 40. Lucas e Spielberg não tiveram culpa nenhuma. Fizeram sempre os filmes que amaram ver. O problema foram os outros. A geração Coppola e Scorsese, com seus filmes excessivamente amargos que alienaram o público do cinema. Após Tubarão, e com Star Wars, o cinema se dividiu de vez entre filmes grandes e filmes pequenos, filmes de sucesso e filmes de festivais, filmes para todos e filmes para a elite. O Poderoso Chefão, em 1972, foi o último big big hit adulto. Feito para todos e com pretensões de elite. Nunca mais. Titanic é para meninas de 13 anos. Adultos de 35 choram. Voce entendeu....
  A sequência final deste filme foi estranha de rever. Em 1978 eu e meu irmão a assistimos como se aquilo fosse um tipo de cerimônia religiosa. Eu lembrava dela como algo longo, imenso, misterioso, incrível. Lembro que saímos do cinema nas nuvens. Foi uma experiência inesquecível. Mas visto hoje me pareceu muito curto, simples, bonito porém simplório. Gostei, mas não fui tocado.
  Bem...eis o porque: em 1978 eu era uma criança. Hoje não mais. Simplesmente isso.
  Sempre vou agradecer Spielberg por aquela tarde. Mas se quero magia e encanto...não são em seus filmes que vou procurar.
  No sir!

ACONTECEU NAQUELA NOITE, O FILME MAIS FELIZ DA HISTÓRIA

     Em 1934 os EUA eram um país muito, muito triste. Era a nação dos livros de John Steinbeck. Quebrado. Filas de sopa. Muito crime. Suicídios. O país tentava se reerguer e uma das apostas para isso foi a de não permitir que o espírito americano se quebrasse. Os EUA são assim: ao contrário da maioria das nações, quando a coisa aperta eles olham para o espelho e reafirmam aquilo que são. É como se eles necessitassem da crise para se renovar.
    O cinema participou dessa recuperação de várias formas. Uma delas foi a de fixar, recordar, afirmar o tal espírito da América. Frank Capra ganhou 3 Oscars durante essa crise. Ninguém fez mais pela democracia americana no cinema. Em 1934 ele ganhou o primeiro de seus prêmios. Aconteceu Naquela Noite foi o primeiro filme a vencer os 5 prêmios principais: filme, direção, ator, atriz e roteiro. Só 39 anos mais tarde, em 1975, Um Estranho no Ninho repetiria esse feito. Seria interessante comparar os dois filmes para ver o que mudou na América. Muito menos do que voce imagina. Ambos os filmes reafirmam o poder do indivíduo contra o sistema. Mas este texto não é sobre 1975. É sobre 1934. E em 34 ainda se podia apostar na alegria.
   Uma menina milionária foge do pai para se casar com um playboy. Na fuga ela conhece um jornalista desempregado. Os dois se odeiam e se ajudam. O resto voce já sabe. O tema lhe parece batido? Bem...a teoria literária diz que não existem mais de 20 temas para se narrar e todos estão na Bíblia. Desde os tempos de Lot e Set, a gente repete os temas. O que importa é como esse tema é narrado. Neste filme a narrativa chega à absoluta perfeição.
   Observe a edição. Cena a cena voce tem a sensação de que não há um segundo de filme desperdiçado. Ele não é rápido, não é lento, ele é exato. Tudo, tudo o que acontece tem a marca de profundo interesse. Primeiro acerto raro: O filme interessa. Os personagens são interessantes, todo coadjuvante é marcante, e cada diálogo parece ao mesmo tempo real e interessante. O filme é pura fantasia, mas parece realidade. Capra sabia como nenhum outro fazer isso. Seus melhores filmes parecem ser o mundo que queremos crer. Desse modo parecem mais reais que o realismo pode ser. Porque eles são aquilo que vive dentro de nós. Capra sabia, por intuição, qual era a verdade do coração médio. Populista no melhor sentido, ele traduzia em filmes aquilo que restara de bom em meio ao desespero. Isso era magia.
  O filme é, durante 90% do tempo, o mais feliz dos filmes. A fotografia brilha. Os contornos parecem de neon. Todos os personagens são vivos, não necessariamente felizes, porém vivos, cheios de energia. Claudette Colbert está frágil e adorável, a rica herdeira mimada que nada sabe da vida. Clark Gable rouba o filme. Ele é duro. Realista. Violento às vezes. E incrivelmente verdadeiro. É o cara que toda mulher queria ter como namorado e todo cara queria ter como amigo. Como Capra conseguiu criar isso? Com cenas despretensiosas e de extrema concisão. Por exemplo, a famosa cena da carona, uma obra prima de tempo e movimento. Toda a sequência da cantoria no ônibus, uma das cenas mais alegres do cinema. O modo como Clark Gable fala do livro que vai escrever, a troca de olhares entre os dois, a maneira como ele estende uma coberta entre os dois. Capra veio do cinema mudo, e como todo diretor que trabalhou só com imagens, ele sabia falar sem som.
  Talvez os melhores momentos do filme sejam os mais tristes, os 10% quase ao final. O casal vai chegando ao fim da viagem e a hora da separação se aproxima. Ela toma consciência do que sente e descobre que não quer chegar a seu destino. Observe como o filme muda. A fotografia fica mais escura, sem brilho, dura. Clark perde a agilidade, seu corpo fica pesado. Sentimos na alma a dor de um amor que nasce errado. Eles brigam, óbvio. O filme tem de desabar. Ficamos com raiva. Mas é tudo plano de Capra. Quando o final feliz acontece não nos sentimos enganados, nos sentimos vingados. Tem de ser assim. O fim tem de ser feliz. Não haveria outra possibilidade.
   Quando comecei minha coleção de DVDs, já 15 anos atrás, Frank Capra foi um dos últimos dos grandes que assisti. Eu tinha imensa má vontade com ele. Isso porque nos anos 70, quando comecei a ler jornal, críticos de cinema diziam ser ele um direitista quase fascista. Já gente como Rubens Ewald Filho dizia que Capra era um maravilhoso defensor da democracia americana. Direitista, liberal, usando seus filmes para afirmar o valor do individuo contra o sistema. Seguindo a maioria eu o queimei. Como queimei Hawks, McCarey e Ford, todos "de direita". Nos anos 80 essa bobagem se desfez e um diretor passou a ser medido pela sua obra e não por seu engajamento. Mas ficou um resquício em mim. O nome Capra me dava uma sensação de filme velho, piegas, tolo. Que surpresa quando assisti este filme pela primeira vez! Era leve, alegre, jovial, otimista, e celebrava as pessoas comuns, banais, o tal povo.
  É um filme festa. E como tal ele nos adverte de que o homem pode ser um ser feito de esperança. De sonho. E acima de tudo, de fé.

O TESOURO DE SIERRA MADRE E A ARTE COMO SIMBOLO DE VIRILIDADE

   Nunca mais teremos alguém como John Huston. Ou Humphrey Bogart. Eles, assim como Heminguay e John Ford, são homens fora de moda. Figuras patriarcais. Interessante observar que Cary Grant é um modelo perfeitamente condizente com os tempos de hoje. George Clooney sabia disso e seguiu o modelo até onde pode. Spencer Tracy cabe em 2020. Mas John Wayne jamais. Scott Fitzgerald é admirado como homem sensível. Henry James como personalidade complexa. Mas Mark Twain não.
  Roger Scrutton defendia a caça à raposa, esporte que eu considero absurdo. E temos um presidente que defende armas como garantia de liberdade civil. Eu vivi nos anos 70, época em que se comprava um 38 na Mesbla. A liberdade não era maior por causa disso. Mas... há sempre um "mas" não é?
  Scrutton estava longe de ser um idiota e ele sabia que tudo era uma questão de símbolo. O simples fato de se ter a liberdade de caçar ou de se ter uma arma, de forma aberta e clara, é uma afirmação de poder, e portanto, de liberdade individual. Toda a constituição americana se baseia nisso. E se nas democracias inglesa e japonesa não há essa garantia, isso se deve ao fato de que lá nem polícia e nem bandidos possuem armas. A igualdade é plena. Uma das características do artista viril, o tipo que hoje é impossível, é o fato de ele ter sempre uma arma por perto. Cary Grant muito raramente usa uma arma. Muito menos posa com uma.
  Uma das várias armadilhas em que a esquerda se colocou é a questão das armas. Ao se feminilizar, eles chutaram as armas para longe. E esqueceram assim, pasmem, que homens como Heminguay e Huston foram de esquerda. E que tanto Fidel como Che Guevara, Mao e Stalin, estavam sempre armados. Não se faz revolução sem armas. O que se faz é perfumaria.
  Eu sou muito mais Cary Grant que John Huston. E não é surpresa nenhuma o fato de nenhum dos dois jamais ter cogitado em trabalhar juntos. Mas eu adoraria ser John Huston. E fosse eu um diretor de cinema, amaria ter tido a capacidade de fazer um filme como O Tesouro de Sierra Madre. Ele tem toda a virilidade que Clint Eastwood procurou por toda a vida. E é seco, duro, direto como Tarantino jamais conseguiu ser.
  Três fracassados, no México dos anos 1920, partem para a busca de ouro. Nada mais que isso. Nada de romance. Nada de diálogos bacaninhas. Nada de filosofia barata. É sobreviver. Sair da merda. Como voce reage? Com o fígado. Entra na coisa em dois minutos de filme. Huston te fisga. E pronto.
  Bogart tem a maior atuação de sua vida. Faz de um tipo banal um ser humano completo. Walter Huston cativa como o velho minerador. É uma performance icônica. A gente sente que o filme foi feito entre goles de tequila e baforadas de charutos. Ele transpira virilidade. É arte. Do mais alto nível. Mas infelizmente é um filme inviável hoje. Duvido que muita gente ainda o assista. De Huston andam vendo muito mais os filmes problema: aqueles sobre Lautrec, Freud e o que tem Marlon Brando.
  O cinema viril de hoje é sempre uma caricatura. Não exibe homens patriarcais, são na verdade adolescentes brincando de bandido. São filmes às vezes deliciosos, como os primeiros de Guy Ritchie ou os melhores de Tarantino. Mas são fantasias de adolescente. São homens como garotos imaginam que homens são. Não são pais. São filhos.
  Sem as figuras guias, os modelos de masculinidade, nossa sociedade se torna cada vez mais aquilo que ela já é agora: um mundo de filhos sem rumo. Filhos de 20, 40, 60 anos de idade. As mulheres, obrigadas a fazer papel duplo, provedora e mãe, arcam com uma responsabilidade desumana. E enlouquecem. Homens que fogem da vida e mulheres que brigam com a hiper realidade da natureza. Nunca os dois estiveram tão distantes.
  Fui longe não é? Divaguei. E provavelmente falei muita asneira. Coisa de homem falar asneira. Mas eu digo que às vezes falta na vida um John Huston que grite com a gente. E fale: Garoto! Se joga nesse lago gelado e cura essa gripe na marra! Deixa de frescura e vai logo se alistar na porra dessa guerra. A guerra é a pior merda do mundo, mas voce não pode se omitir. Garoto! Vai até essa menina e fala logo o que voce quer. Se ela não quiser azar o dela e bola pra frente. E por favor, come esse bife e deixa de pensar na morte da bezerra! Shit!