CORONEL BLIMP, MICHAEL POWELL. GENTLEMAN

   Tendemos a não crer que um dia as coisas foram diferentes. Não existem mais pessoas vivas que eram adultas nos anos de 1930. Então quando lemos testemunhos de um mundo diferente, tendemos a pensar que tudo é apenas caso de nostalgia. Coronel Blimp, filme de Michael Powell feito em 1942, no auge da segunda guerra, o momento em que realmente parecia que Hitler iria vencer, fala do assunto que Churchill menos queria ouvir falar então: Bons Modos.
  Churchill tinha sangue azul e era um conservador. Portanto ele conhecera o mundo de Blimp. Mas em 1942 ele já incutira na mente dos ingleses que para vencer a Alemanha era preciso lutar como os nazis lutavam: de um modo sujo. Sem respeitar acordos. O vale tudo absoluto. A destruição total. Blimp é um general que ainda crê na honra entre iguais e nos bons modos mesmo na guerra.
  O filme foi em seu tempo um fracasso de público e poucos críticos lhe deram atenção. Hoje é chamado de obra prima por gente como Roger Ebert, Martin Scorsese e Copolla. Falo agora do que vemos...
  Ele é dividido em 3 grandes blocos. No primeiro, todo em clima de comédia farsesca, vemos Blimp já velho, em 1942, sendo ofendido por jovens soldados da nova geração. Fazem uma palhaçada com ele. Então vem um flash back e vamos à 1902. Jovem, Blimp vai à Berlin resolver um problema. Lá, se envolve em duelo com oficial alemão. Estranhamos o duelo e o que acontece depois como se fosse um tipo de fantasia para crianças. Mas aquele é exatamente o mundo dos oficiais em 1902. O mesmo mundo que Renoir mostra em outro filme sobre o mesmo tema. Acima de tudo há o orgulho em se manter um bom nome. Um compromisso de classe. Um código de honra que precisa ser mantido para que a civilização que se defende não desabe. Observe bem essa frase: A civilização não desabe. A educação humanista da época pregava isso: Acima de Alemanha ou Inglaterra, vinha a civilização romana-cristã-ocidental. Tudo poderia ser perdido, menos essa base. O código de honra a mantinha a salvo.
  No segundo bloco está a primeira guerra mundial, e aí o código começa a ruir. A guerra química destrói o acordo de cavalheiros e a Alemanha dá o primeiro chute no início do fim. Blimp diz que é um orgulho ter vencido a guerra dentro do código de respeito e honra, mas ele está enganado. Os ingleses já usam a tortura para obter confissões. E após a guerra erram ao humilhar os vencidos. Esse segundo bloco é já em outro clima, o filme fica mais seco e a comédia desaparece.
  O terceiro bloco é trágico. É a segunda guerra e Blimp é afastado do exército. Suas crenças atrapalham a nação. A Inglaterra luta como a Alemanha, de modo sujo. O filme se torna trágico e de uma beleza absoluta. A fala do amigo alemão, tentando obter refúgio em solo inglês, é comovente.
  Paralelamente à tudo isso, há a amizade entre os dois duelistas. Blimp e o alemão mantém a amizade porque ambos acreditam nas mesmas coisas. Mais que ingles e alemão, eles são civilizados. A mulher que o alemão rouba de Blimp, sem saber, é o símbolo do mundo perdido pelo general, a beleza que jamais poderá voltar.
  É um filme imenso em todos os sentidos. Roger Livesey como Blimp tem uma das melhores atuações da história do cinema, e Anton Wallbrock como o alemão é ainda mais fascinante. O filme é considerado um exemplo do estilo biográfico. Ele humilha as biografias feitas nos últimos anos.
  Voce pode falar que na idade média se torturava etc etc etc. Sim. É fato. Mas se torturava quem não fazia parte do universo dentro do código: o herege. Entre iguais se observava a honra da guerra justa. Cinismo? Pode ser. Mas dentro dessa civilização, a nossa, havia pelo menos essa certeza. A guerra feita com hora e local marcado, dentro de um limite. Quando esse limite era quebrado, e era, a punição era exemplar. Os crimes cometidos em países fora da Europa eram crimes contra outra civilização. O que Blimp diz, e que tanto irritou Churchill, é que ingleses e alemães são da mesma origem, têm os mesmos códigos e se os alemães erraram, e realmente erraram, o filme deixa isso muito claro, são ainda participantes da mesma civilização.
  Vivemos um tempo de relativismo e achamos extremamente falso um código de honra que abrange apenas os iguais. Mas mesmo no globalismo atual é isso que acontece. Voce respeita quem é da sua tribo e só quem compartilha de suas crenças. O problema pós nazismo é que não há limite algum mesmo dentro da tribo. Vale tudo para vencer, mesmo que se negue a sua própria honra.
  Não existe civilização sem acordo. Não vale a pena manter uma estrutura baseada apenas no prazer. Blimp sabe que o que dá sentido à vida é a crença em coisas que estão acima e além de voce mesmo.
  O filme, antigo, velho, ultrapassado, está muito além do cinema.