O blog do cara é nota dez. André é aquele tipo de cinéfilo Sam Peckinpah/ Robert Aldrich/ Lee Marvin e James Coburn, ou seja: show. Puro fun.
Mas não escrevo só pra ficar babando-ovo. É que ao escrever sobre seu crítico de rock favorito ( Nick Kent ), ele me recordou algo muito fundamental e muito esquecido. Coisa que as novas gerações do pop/rock nem imaginam: O fato de que até o meio da década de 80 não existia o saudosismo no rocknroll. Creia! É a pura verdade!
Quando eu lia a POP nos anos 70, tudo o que se falava era sobre aquele ano, e só sobre aquele ano. Em 1978, um disco de 1976 era muuuuuito velho. Estranho né? Ninguém falava de Syd Barret, Nick Drake ou Jim Morrison. Só Hendrix sobreviveu do mundo dos mortos. Um cara quando chegava aos 30 anos era considerado gagá !!!! ( Jagger aos 28 era ridicularizado, assim como Dylan aos 30 e Lennon aos 29 ). Para uma banda "antiga" ( Os Stones eram antigos com 8 anos de estrada, o Led Zeppelin em 1975, com sete anos (!!!!!!!) era chamado de dinossauro ) sobreviver, ela vivia se reciclando. E isso fazia com que Alice Cooper se tornasse baladeiro, ou que Rod Stewart se fizesse de Elton John. ( Aliás Elton virou titio aos 27 ). Quem sumisse das paradas era esquecido em dois anos.
Então falar de Beach Boys era considerado o máximo da caretice vovô, ouvir Beatles era para seus pais e Iggy Pop ou MC5 estavam completamente no ostracismo. Era um mundo cruel e árduo. Os caras tinham de lançar disco novo todo ano, mudar de visual sempre, excursionar sem parar, se tornar hard-rock, depois glitter, depois pop romântico, depois soul.... e afinal disco ou pseudo-punk. Pense, Elvis morreu em 1977 com quarenta anos. Para nós ele era velho como Bing Crosby ou Silvio Caldas. E isso não acontecia só comigo que tinha 14 anos, os críticos de 25, os roqueiros de 22 também eram assim. O T.Rex surgira em 1970, quando chegou 1974 eles já pareciam brontossauros.
As coisas mudaram por volta de 87/89. Foi quando o rap escancarou o plágio, a coleção de discos sempre viva, a referência assumida. James Brown reansceu. E junto com isso, bandas como REM, Smiths e U2 assumiram a dívida para seus ídolos: Byrds, Mott The Hoople, Them e Gram Parsons. Vieram os cds e o que era raro ou mal mixado se tornou "novo". Gente de 50 anos e gente de 20 começou a se misturar, bandas homenageavam os seus vovôs e fato impensável ocorreu: ser cool passou a ser quem ouvia coisas muuuuito antigas ( John Lee Hooker, Chet Baker ou Sam Cooke ).
Mas já em 1977, quando ninguém se lembrava de Brian Wilson ou de Arthur Lee, e em tempo em que Iggy era tratado como um imbecil demente, já lá estava Nick Kent, escrevendo sobre os esquecidos malditos, os irredutíveis, os que não mudavam, os veteranos cowboys. Nick não foi o único, Bangs também estava nessa, mas Nick era mais direto, mais escrachado, mais sujo. Ele não perdia tempo falando dos novos caras ( Queen, Aerosmith, Motorhead ), ele erguia tributos aos anciões de 28 anos.
Era assim.
PS: no cinema era igual. Em 1977 um ator de 35 era beeeeem velho. Quando John Travolta explodiu em 77, Robert Redford e Dustin Hoffman passaram para a muito velha guarda.
DEMOCRACIA
Democracia é juntar um monte de gente e se decidir pelo mínimo denominador comum. É colocar em votação um filme de Bergman e um de Gore Verbinski e dar Verbinski. Vence quem atinge a maioria e a maioria é burra.
Não, isto não é papo de PSDB perdedor. Serra candidato já é sintoma da tal democracia. Entre Dilma, que mesmo eleita ainda nada disse de relevante, e Serra, que disse várias coisas irrelevantes e conseguiu desunir seu partido, eu fiquei com minha consciência, votei no nada budista.
Democracia nos faz ouvir Restart e nos leva a ler John Grisham. Pior, nos convence que estamos errados se não formos pró-maioria. Se não defendermos a maioria, se não formos democráticos, seremos gente do mal. Ou pior, esnobes.
Estou falando disso porque estou lendo um livro de 1934, de editora do Porto/Portugal. É O Mandarim, de Eça de Queiroz. A antiga grafia de nossa lingua... que bela e principalmente, que invulgar!!!!!
Como é bonito o sciência, o phantasia, a palavra estylo cheia de estilo, desherdados, throno, pittoresco.... as palavras como devem ser : cheias de caráter, cheias de gosto, de cheiro, de "aristocracia". Mas, escrever assim era mais dificil, e a malta ignara precisa aprender o simples. Democraticamente rebaixa-se a língua ao burro, e ele, zurrando, balança o rabo feliz.
Tempo há de vir em que teremos cinquenta palavras em uso. E tudo "sera iscritu comu si fala". A cultura "comu coiza di mitidu a besta". Democracia é isso.
Não, isto não é papo de PSDB perdedor. Serra candidato já é sintoma da tal democracia. Entre Dilma, que mesmo eleita ainda nada disse de relevante, e Serra, que disse várias coisas irrelevantes e conseguiu desunir seu partido, eu fiquei com minha consciência, votei no nada budista.
Democracia nos faz ouvir Restart e nos leva a ler John Grisham. Pior, nos convence que estamos errados se não formos pró-maioria. Se não defendermos a maioria, se não formos democráticos, seremos gente do mal. Ou pior, esnobes.
Estou falando disso porque estou lendo um livro de 1934, de editora do Porto/Portugal. É O Mandarim, de Eça de Queiroz. A antiga grafia de nossa lingua... que bela e principalmente, que invulgar!!!!!
Como é bonito o sciência, o phantasia, a palavra estylo cheia de estilo, desherdados, throno, pittoresco.... as palavras como devem ser : cheias de caráter, cheias de gosto, de cheiro, de "aristocracia". Mas, escrever assim era mais dificil, e a malta ignara precisa aprender o simples. Democraticamente rebaixa-se a língua ao burro, e ele, zurrando, balança o rabo feliz.
Tempo há de vir em que teremos cinquenta palavras em uso. E tudo "sera iscritu comu si fala". A cultura "comu coiza di mitidu a besta". Democracia é isso.
JACKIE CHAN/ OTTO PREMINGER/ GONDRY/ THOMAS ANDERSON/ PECKIMPAH/ CLINT
CITY HUNTER de Wong Jing com Jackie Chan
Um muito jovem Chan, num filme passado em navio. Ele luta pouco e o filme é Os Trapalhões made in Hong Kong. Tem cenas inacreditáveis! É o tipo de filme que quando resolve ser engraçado não teme a bobice. Eu me diverti. Mas está mais pra circo que pra filme. Nota 5.
SIDE STREET de Anthony Mann com Farley Granger
Noir de primeira. Um carteiro rouba grana de bandidão e se perde sem saber o que fazer depois. Devolve a grana? Gasta? Distribui? A vida do cara vira um inferno! Mann sabe tudo: o filme tem suspense, drama, ação e belas imagens. Pena Farley ser tão limitado ( mas não consegue estragar o filme ). É bom para quem ainda não descobriu o noir. Nota 8.
PASSOS NA NOITE de Otto Preminger com Dana Andrews e Gene Tierney
Cada vez mais me convenço que o paraíso do cinéfilo é o filme noir. Aqui, um policial psico mata um bandido e tenta esconder esse crime. Ao mesmo tempo se apaixona por moça simples. Há um soberbo clima de paranóia e Dana está muito bem. Seu rosto é maldoso e torturado. Preminger foi um muito bom diretor que Hollywood esnobava. Adoravam seus filmes, detestavam o homem. De todo gênero de filme, é o cinema noir o que menos envelhece. E é o mais difícil de ser refeito hoje. Um pequeno clássico. Nota 9.
PRIMAVERA, VERÃO, OUTONO, INVERNO...de Kim-Ki Duk
Vamos lá. Existem filmes, como os de Aldrich ou Tarantino, que nada nos ensinam, nada têm de nobre. Mas que são cinema de primeira. Puro cinema. Esses são os grandes diretores. Artistas que se apoiam apenas no próprio veículo, nada pegando da literatura, do teatro ou da tv. Gente como Hitchcock, Ford ou De Palma. Mas existem aqueles que não são tão afinados com o puro cinema, que não fazem filmes tão excitantes, mas que enchem a tela de referências, de toques filosóficos, poluem o cinema de literatura ou de filosofia. São esses que fazem os filmes mais chatos do mundo, mas que às vezes nos fazem pensar. Este filme, como cinema puro, é apenas uma bela coleção de fotos. Mas ele faz pensar, faz viajar em idéias. Para o que se faz hoje, tá bom demais. Nota 7.
ADÚLTERA de Claude Autant-Lara com Gerard Philipe e Micheline Presle
Eis o tipo de filme que Godard/Truffaut/Chabrol adoravam esculachar nos Cahiers du Cinema. Dá pra se imaginar suas páginas furiosas sendo escritas, enquanto esta lenga-lenga sonolenta rola na tela. O filme é pesado, morto, escuro, feminino ( no pior sentido ), velho, insuportável. E todo metido a arte, tem a ilusão do bom-gosto, tenta ser belo, superior.......Não é a toa que eles amavam tanto o cinema noir e o western!!!!!! Nada é menos western e noir que esta coisa modorrenta!!!!! Mereceu cada chibatada que os jovens cineastas lhe deram. Nota Zero.
REBOBINE POR FAVOR de Michel Gondry com Jack Black
Mas Gondry não era um gênio? Onde? Como desculpar um filme tão "esperto" como este? Seu humor parece piada de fim de festa de casamento, suas sacadas são as sacadas das pegadinhas do Faustão. Um lixo que chega a ser constrangedor. Parece um filme ao qual não fomos convidados a assistir, uma brincadeira entre amigos. BáaaaaH!!!! Nota Zero.
SANGUE NEGRO de Paul Thomas Anderson com Daniel Day-Lewis
Anderson, ex-assistente de Altman, diz ter assistido toda noite a O TESOURO DE SIERRA MADRE enquanto filmava este imenso mural sobre a ambição. Foram mais de sessenta vezes que Bogart e Huston acompanharam as noites de Anderson. Deu certo? Sem dúvida é um filme invulgar. É ambicioso, cinema puro, sem popices, sem falsos toques de "genialidade". Ele é doloroso, é bonito, e tem um ator em atuação inspirada. Mas para cinéfilos ele trai várias influências e isso o esvazia um pouco. A gente percebe de onde foi tirada cada cena. Mas... e daí? pelo menos ele tem o gosto de pegar essas cenas de fontes puras e não de video-games ou da tv. Um comentário: o povo mais animadinho adora os filmes de Fincher, Gondry e Nolan. Assim como os metidos adoram Trier, Lynch e Kar Wai. Prestem atenção em Joe Wright, Alexander Payne, Todd Haynes, Irmãos Coen e James Mangold. Em 2030 é o que ficará. E Paul Thomas Anderson também. Nota 8.
PISTOLEIROS DO ENTARDECER de Sam Peckimpah com Randolph Scott e Joel McCrea
Já ví crítico dizer que é este o melhor filme de Peckimpah. Só para quem não gosta de Sam !!!! Neste que é seu segundo filme, vemos esse estupendo diretor ainda preso, ainda contido em suas doideiras. Mas já dá pra entrever seu humor tétrico, sua violência gráfica, e seu amor pelos velhos perdedores. O que há de melhor é a relação entre os dois velhos cowboys. O filme mostra o fim de sua época. Mas perde tempo demais com jovem casal ! Repare que os coadjuvantes já se parecem com aquele tipo de cowboy sujo e meio louco dos westerns da época hippie. Este filme foi feito cinco anos antes dessa época. A forma como os bandidos morrem já é de nosso tempo, eles caem para trás, o sangue escorre e vemos que a dor existe. O poeta da violência já lutava por nascer. Nota 6.
IMPACTO FULMINANTE de Clint Eastwood com ELE e Sondra Locke
Quarta aventura de Harry Callahan. É aqui que está a famosa frase : GO AHEAD, MAKE MY DAY ! Estranho, após o maravilhoso primeiro Dirty Harry, todos os outros parecem pastiches, falsos, quase gozações. E este, o único dirigido por Clint, tem a cena mais amadora que já vi : um carro estaciona num bosque, um cara desce, e vemos refletido no vidro do carro um rosto sorrindo e uma câmera ao lado!!!!!!!! Sim!!!! O câmera foi refletido pelo vidro e aparece nítido e sorrindo no filme...Como Clint não viu isso? O editor é Joel Cox, de todos os filmes de Clint, a Warner produziu, como passou uma coisa tão amadora???? É inexplicável..... Após essa cena, perdi todo o interesse pelo filme, passei a vê-lo como uma brincadeira, e fim. Clint Eastwood, ídolo meu, é um cara inescrutável. Nota 4.
SUBLIME OBSESSÃO de Douglas Sirk com Rock Hudson e Jane Wyman
Um mês atrás assisti a versão anos 30 desta história. O filme é uma babaquice melosa e insuportável. Escrevi que se Douglas Sirk tivesse conseguido salvar aquela história ridicula na sua refilmagem de 1954, eu o chamaria de gênio. Pois eis um gênio: Douglas Sirk. Este ídolo de Almodovar, Fassbinder e Todd Haynes, com ritmo, economia e objetividade, salva a história melosa, e nos dá um drama envolvente, vivo, exagerado e fascinante. O filme é tudo aquilo que toda novela de tv tenta ser, viciante. Os atores estão perfeitos e a trama, sobre playboy que se apaixona pela ex-esposa de médico por cuja morte ele foi acidentalmente responsável, acaba nos pegando, apesar de todo seu não realismo. É cinema de verdade, sem afetação, uma história sendo contada com ritmo musical, sem falhas, com tudo no lugar certo. Sirk sabe. Nota 9.
Um muito jovem Chan, num filme passado em navio. Ele luta pouco e o filme é Os Trapalhões made in Hong Kong. Tem cenas inacreditáveis! É o tipo de filme que quando resolve ser engraçado não teme a bobice. Eu me diverti. Mas está mais pra circo que pra filme. Nota 5.
SIDE STREET de Anthony Mann com Farley Granger
Noir de primeira. Um carteiro rouba grana de bandidão e se perde sem saber o que fazer depois. Devolve a grana? Gasta? Distribui? A vida do cara vira um inferno! Mann sabe tudo: o filme tem suspense, drama, ação e belas imagens. Pena Farley ser tão limitado ( mas não consegue estragar o filme ). É bom para quem ainda não descobriu o noir. Nota 8.
PASSOS NA NOITE de Otto Preminger com Dana Andrews e Gene Tierney
Cada vez mais me convenço que o paraíso do cinéfilo é o filme noir. Aqui, um policial psico mata um bandido e tenta esconder esse crime. Ao mesmo tempo se apaixona por moça simples. Há um soberbo clima de paranóia e Dana está muito bem. Seu rosto é maldoso e torturado. Preminger foi um muito bom diretor que Hollywood esnobava. Adoravam seus filmes, detestavam o homem. De todo gênero de filme, é o cinema noir o que menos envelhece. E é o mais difícil de ser refeito hoje. Um pequeno clássico. Nota 9.
PRIMAVERA, VERÃO, OUTONO, INVERNO...de Kim-Ki Duk
Vamos lá. Existem filmes, como os de Aldrich ou Tarantino, que nada nos ensinam, nada têm de nobre. Mas que são cinema de primeira. Puro cinema. Esses são os grandes diretores. Artistas que se apoiam apenas no próprio veículo, nada pegando da literatura, do teatro ou da tv. Gente como Hitchcock, Ford ou De Palma. Mas existem aqueles que não são tão afinados com o puro cinema, que não fazem filmes tão excitantes, mas que enchem a tela de referências, de toques filosóficos, poluem o cinema de literatura ou de filosofia. São esses que fazem os filmes mais chatos do mundo, mas que às vezes nos fazem pensar. Este filme, como cinema puro, é apenas uma bela coleção de fotos. Mas ele faz pensar, faz viajar em idéias. Para o que se faz hoje, tá bom demais. Nota 7.
ADÚLTERA de Claude Autant-Lara com Gerard Philipe e Micheline Presle
Eis o tipo de filme que Godard/Truffaut/Chabrol adoravam esculachar nos Cahiers du Cinema. Dá pra se imaginar suas páginas furiosas sendo escritas, enquanto esta lenga-lenga sonolenta rola na tela. O filme é pesado, morto, escuro, feminino ( no pior sentido ), velho, insuportável. E todo metido a arte, tem a ilusão do bom-gosto, tenta ser belo, superior.......Não é a toa que eles amavam tanto o cinema noir e o western!!!!!! Nada é menos western e noir que esta coisa modorrenta!!!!! Mereceu cada chibatada que os jovens cineastas lhe deram. Nota Zero.
REBOBINE POR FAVOR de Michel Gondry com Jack Black
Mas Gondry não era um gênio? Onde? Como desculpar um filme tão "esperto" como este? Seu humor parece piada de fim de festa de casamento, suas sacadas são as sacadas das pegadinhas do Faustão. Um lixo que chega a ser constrangedor. Parece um filme ao qual não fomos convidados a assistir, uma brincadeira entre amigos. BáaaaaH!!!! Nota Zero.
SANGUE NEGRO de Paul Thomas Anderson com Daniel Day-Lewis
Anderson, ex-assistente de Altman, diz ter assistido toda noite a O TESOURO DE SIERRA MADRE enquanto filmava este imenso mural sobre a ambição. Foram mais de sessenta vezes que Bogart e Huston acompanharam as noites de Anderson. Deu certo? Sem dúvida é um filme invulgar. É ambicioso, cinema puro, sem popices, sem falsos toques de "genialidade". Ele é doloroso, é bonito, e tem um ator em atuação inspirada. Mas para cinéfilos ele trai várias influências e isso o esvazia um pouco. A gente percebe de onde foi tirada cada cena. Mas... e daí? pelo menos ele tem o gosto de pegar essas cenas de fontes puras e não de video-games ou da tv. Um comentário: o povo mais animadinho adora os filmes de Fincher, Gondry e Nolan. Assim como os metidos adoram Trier, Lynch e Kar Wai. Prestem atenção em Joe Wright, Alexander Payne, Todd Haynes, Irmãos Coen e James Mangold. Em 2030 é o que ficará. E Paul Thomas Anderson também. Nota 8.
PISTOLEIROS DO ENTARDECER de Sam Peckimpah com Randolph Scott e Joel McCrea
Já ví crítico dizer que é este o melhor filme de Peckimpah. Só para quem não gosta de Sam !!!! Neste que é seu segundo filme, vemos esse estupendo diretor ainda preso, ainda contido em suas doideiras. Mas já dá pra entrever seu humor tétrico, sua violência gráfica, e seu amor pelos velhos perdedores. O que há de melhor é a relação entre os dois velhos cowboys. O filme mostra o fim de sua época. Mas perde tempo demais com jovem casal ! Repare que os coadjuvantes já se parecem com aquele tipo de cowboy sujo e meio louco dos westerns da época hippie. Este filme foi feito cinco anos antes dessa época. A forma como os bandidos morrem já é de nosso tempo, eles caem para trás, o sangue escorre e vemos que a dor existe. O poeta da violência já lutava por nascer. Nota 6.
IMPACTO FULMINANTE de Clint Eastwood com ELE e Sondra Locke
Quarta aventura de Harry Callahan. É aqui que está a famosa frase : GO AHEAD, MAKE MY DAY ! Estranho, após o maravilhoso primeiro Dirty Harry, todos os outros parecem pastiches, falsos, quase gozações. E este, o único dirigido por Clint, tem a cena mais amadora que já vi : um carro estaciona num bosque, um cara desce, e vemos refletido no vidro do carro um rosto sorrindo e uma câmera ao lado!!!!!!!! Sim!!!! O câmera foi refletido pelo vidro e aparece nítido e sorrindo no filme...Como Clint não viu isso? O editor é Joel Cox, de todos os filmes de Clint, a Warner produziu, como passou uma coisa tão amadora???? É inexplicável..... Após essa cena, perdi todo o interesse pelo filme, passei a vê-lo como uma brincadeira, e fim. Clint Eastwood, ídolo meu, é um cara inescrutável. Nota 4.
SUBLIME OBSESSÃO de Douglas Sirk com Rock Hudson e Jane Wyman
Um mês atrás assisti a versão anos 30 desta história. O filme é uma babaquice melosa e insuportável. Escrevi que se Douglas Sirk tivesse conseguido salvar aquela história ridicula na sua refilmagem de 1954, eu o chamaria de gênio. Pois eis um gênio: Douglas Sirk. Este ídolo de Almodovar, Fassbinder e Todd Haynes, com ritmo, economia e objetividade, salva a história melosa, e nos dá um drama envolvente, vivo, exagerado e fascinante. O filme é tudo aquilo que toda novela de tv tenta ser, viciante. Os atores estão perfeitos e a trama, sobre playboy que se apaixona pela ex-esposa de médico por cuja morte ele foi acidentalmente responsável, acaba nos pegando, apesar de todo seu não realismo. É cinema de verdade, sem afetação, uma história sendo contada com ritmo musical, sem falhas, com tudo no lugar certo. Sirk sabe. Nota 9.
PRIMAVERA, VERÃO, OUTONO....-KIM-KI DUK
Você um dia amarrou uma pedra à vida.
E o sapo, e o peixe e a serpente foram asfixiados em sua vida.
O sapo que se transforma, o peixe que mergulha na água, e a serpente que se renova.
Voce lhes deu uma pedra para carregar.
E sua pedra, dura/sólida/fria não tardará.
O vazio é uma casa/mosteiro. Pintada e de madeira.
O mundo é um lago onde a casa mora. Água ao redor da casa.
O velho e o menino.
O passado e o presente. O futuro nos dois.
Único modo de ser.
O desejo vem como consequencia. Sobre as águas calmas ele é febre. Cobras que se enroscam.
O desejo é vida e vida é ilusão. Etapa a ser vencida. Sabedoria sem servidão.
O desejo sempre vence. Ele se vai, fortalecido, voce fica, destruído.
A paz do lago está partida. O velho e o jovem são agora dois. A unidade se perdeu.
O mundo de coisas e de palavras chama.
O velho será serpente após o fogo.
O menino será o velho após o desejo.
O peixe será o peixe, o sapo será sapo.
E a pedra será carregada.
O cinema atual só é relevante no oriente. Kim-Ki Duk. Eis um grande cineasta. E mais que isso: um verdadeiro budista. Seu filme é um silêncio que procura um vazio. Não tem ação, apenas espera. Não tem furor, apenas quietude. Não tenta transformar budismo em filosofia existencial ( como fez Bertolucci em O Pequeno Buda ). Ele não olha o vazio de fora, como fizeram Hesse e Schopenhauer. Kim está inserido no vazio.
Conheço a casa cercada por água.
A minha era cercada por um pântano.
Após ficar, inutilmente desperdiçando tempo e fazendo nada, por várias horas lá, eu começava a sentir só o pássaro que voava, a formiga que passava e o capim que se movia.
Tudo que eu pensava era no suor que molhava minha testa e no cheiro da lama que vinha do córrego que serpenteava.
Aquele e aquilo era meu vazio onde eu nada fazia e nada era. Um que estava.
Nunca estive tão vivo.
Nada espere deste filme. Ele é um vazio. Nem bonito e nem feio, nem moderno e nem antigo, não é bom ou ruim, e não tem ação e nem é artístico.
É nada.
Mas perceba: A vida é uma casa em meio a um lago onde um velho assiste um menino.
Por mais que nos cerquemos por palavras, coisas e ações vãs, a vida é um espaço onde a serpente renova, o sapo transforma e o peixe mergulha.
Este filme é precioso.
E o sapo, e o peixe e a serpente foram asfixiados em sua vida.
O sapo que se transforma, o peixe que mergulha na água, e a serpente que se renova.
Voce lhes deu uma pedra para carregar.
E sua pedra, dura/sólida/fria não tardará.
O vazio é uma casa/mosteiro. Pintada e de madeira.
O mundo é um lago onde a casa mora. Água ao redor da casa.
O velho e o menino.
O passado e o presente. O futuro nos dois.
Único modo de ser.
O desejo vem como consequencia. Sobre as águas calmas ele é febre. Cobras que se enroscam.
O desejo é vida e vida é ilusão. Etapa a ser vencida. Sabedoria sem servidão.
O desejo sempre vence. Ele se vai, fortalecido, voce fica, destruído.
A paz do lago está partida. O velho e o jovem são agora dois. A unidade se perdeu.
O mundo de coisas e de palavras chama.
O velho será serpente após o fogo.
O menino será o velho após o desejo.
O peixe será o peixe, o sapo será sapo.
E a pedra será carregada.
O cinema atual só é relevante no oriente. Kim-Ki Duk. Eis um grande cineasta. E mais que isso: um verdadeiro budista. Seu filme é um silêncio que procura um vazio. Não tem ação, apenas espera. Não tem furor, apenas quietude. Não tenta transformar budismo em filosofia existencial ( como fez Bertolucci em O Pequeno Buda ). Ele não olha o vazio de fora, como fizeram Hesse e Schopenhauer. Kim está inserido no vazio.
Conheço a casa cercada por água.
A minha era cercada por um pântano.
Após ficar, inutilmente desperdiçando tempo e fazendo nada, por várias horas lá, eu começava a sentir só o pássaro que voava, a formiga que passava e o capim que se movia.
Tudo que eu pensava era no suor que molhava minha testa e no cheiro da lama que vinha do córrego que serpenteava.
Aquele e aquilo era meu vazio onde eu nada fazia e nada era. Um que estava.
Nunca estive tão vivo.
Nada espere deste filme. Ele é um vazio. Nem bonito e nem feio, nem moderno e nem antigo, não é bom ou ruim, e não tem ação e nem é artístico.
É nada.
Mas perceba: A vida é uma casa em meio a um lago onde um velho assiste um menino.
Por mais que nos cerquemos por palavras, coisas e ações vãs, a vida é um espaço onde a serpente renova, o sapo transforma e o peixe mergulha.
Este filme é precioso.
O BUDA
Agora chove lá fora. E vêm as palavras: pode haver uma enchente, o feriado se foi, chuva é coisa poética, molha meu amor, rega as plantas, chuva é trânsito ruim, chuva ácida, o tempo mudou, a chuva são gotas de água, chuva dos deuses.....
Modo budista de pensar a chuva: chove.
Estou vivo. Irei morrer. Estou amando, o amor pode ser perdido. Estou feliz, toda felicidade deve ser usufruida. Estarei feliz? O que me faz feliz? Satisfazer desejos. Ser livre. O que é ser livre? Livre do que? O que é o desejo? Mas todo desejo é por sí insatisfeito. O kosmos é infinito, mas o que há após o infinito? O que existia antes do primeiro segundo? De onde veio a primeira matéria???????
Modo budista de pensar. ( ).
Vazio.......................................................Vazio.
nem o sim e nem o não
silêncio
Palavras são brinquedos de criança.
Poeira que nos faz fechar os olhos.
mas até mesmo os olhos são parte do jogo.
Pensamos com palavras
Sentimos apenas o que é palavra
mas as palavras são falhas
Porque foram criadas pela ilusão
Nomeamos para deixar de ter medo
Nomeamos para poder lidar
Nomeamos para vulgarizar
sem um nome não há
sem um nome não sei lidar
sem um nome o vazio e o nada
a verdade?
Chove.
Folhas molhadas e ruído de água.
Cheiro que vem do chão.
Pássaro cantando.
Quem chove sou eu
molhado eu
chão eu
Quem canta sou eu
Mas eu sou aquilo
eu sou lá
( )
Buda.
Modo budista de pensar a chuva: chove.
Estou vivo. Irei morrer. Estou amando, o amor pode ser perdido. Estou feliz, toda felicidade deve ser usufruida. Estarei feliz? O que me faz feliz? Satisfazer desejos. Ser livre. O que é ser livre? Livre do que? O que é o desejo? Mas todo desejo é por sí insatisfeito. O kosmos é infinito, mas o que há após o infinito? O que existia antes do primeiro segundo? De onde veio a primeira matéria???????
Modo budista de pensar. ( ).
Vazio.......................................................Vazio.
nem o sim e nem o não
silêncio
Palavras são brinquedos de criança.
Poeira que nos faz fechar os olhos.
mas até mesmo os olhos são parte do jogo.
Pensamos com palavras
Sentimos apenas o que é palavra
mas as palavras são falhas
Porque foram criadas pela ilusão
Nomeamos para deixar de ter medo
Nomeamos para poder lidar
Nomeamos para vulgarizar
sem um nome não há
sem um nome não sei lidar
sem um nome o vazio e o nada
a verdade?
Chove.
Folhas molhadas e ruído de água.
Cheiro que vem do chão.
Pássaro cantando.
Quem chove sou eu
molhado eu
chão eu
Quem canta sou eu
Mas eu sou aquilo
eu sou lá
( )
Buda.
SONGS FROM THE BIG PINK - THE BAND
Não é pouca coisa.
Num tempo de doidos chapados, eles eram sóbrios.
Em era de solos de guitarra e gritos revoltosos, eles propunham a delicada atitude.
Quando todos eram terminais desesperados, eles trilhavam a esperança da amizade.
E em terra de artistas egocêntricos, tudo o que eles faziam era comunitário.
Não é pouco.
Como diz a Rolling Stone, salvaram almas perdidas na confusão pós-68.
E mais.
Mudaram os Beatles, que após ouvir este disco deixaram de lado o psicodelismo e passaram a fazer canções ( há uma famosa foto em que os fab four os homenageiam ). Desfizeram o Cream, fazendo com que Clapton jogasse fora seus solos e passasse a tentar cantar.
E deram novo significado a todo o rock americano, ao lembrar aos ídolos doidos que tudo na música americana é folclore, raiz, verdade.
Com este disco eles abrem caminho para Leonard Cohen, Neil Young, Van Morrison e Gram Parsons.
Não é pouca coisa eles terem sido a primeira banda a ser capa do Times.
E terem sido os primeiros a ser homenageados em show ( Dylan, Young, Morrison, Muddy Waters, Clapton, Joni Mitchell ) quando a moda de homenagens ainda não existia. Foram filmados por Scorsese e deixaram a banda de lado, se aposentaram, ao sentir que a inspiração se fora ( como Bergman faria no cinema ). Optaram por não explorar seus fãs.
Tudo isso é The Band. Robbie, que toca guitarra como quem toca a mulher amada, com maciez, tato, carinho; Rick e seu baixo sacolejante, Garth enfurnado em efeitos de teclado, Richard com os pianos de buteco e Levon e sua batera de ritmo estradeiro. Todos liderando, todos nos vocais, ninguém como frontman.
Neste seu primeiro disco, gravado na casa de fazenda Big Pink, onde Dylan se recuperava de acidente, eles são mais pó e solidão em grupo que nunca. Eles são o melhor equivalente que o rock já produziu dos filmes de John Ford e dos poemas de Whitman. Tudo é estrada, tudo é casa em comunhão, tudo é pra valer.
Quando a primeira faixa entra, Tears of Rage, voce já sente: nada aqui é comum, mas tudo lhe será familiar. Poucos discos têm uma faixa 1 tão pouco pop, tão pra baixo, tão íntima. Eles choram uma derrota, mas no resto do disco veremos que essa derrota não os destruiu. Faixa a faixa, são onze, eles vão se erguendo, se aprumando, reconstituindo o mito do herói, e dando injeção de ânimo ao combalido rocknroll.
Seu som, escutado hoje não te impressionará por sua originalidade. Foi tão copiado desde então ( e ainda é ) que parece apenas mais uma banda fazendo outra vez esse tipo de som pop. Mas na época de Beatles, Doors e Zappa, em que todo disco era psicodélico, eles foram os criadores desse som. Adulto, masculino e sensível sem ser frouxo.
O que irá te impressionar agora é a beleza das melodias, a nobreza das vozes e a sinceridade de um grupo que transpira verdade em cada segundo de som.
Quando a música Long Black Veil irrompe ( faixa 7 ) voce desaba. Nada em rock soa tão verdadeiro. E trágico.
Ouvir este disco é então ser testemunha de uma cerimônia onde a fé é na força do homem, na inspiração da raiz e na aventura da estrada. Vindos do Canadá ao mundo, The Band será sempre a lembrança do grau máximo de dignidade em música. Pois talvez existam bandas melhores (quais? ) mas nenhuma é tão amiga.
Num tempo de doidos chapados, eles eram sóbrios.
Em era de solos de guitarra e gritos revoltosos, eles propunham a delicada atitude.
Quando todos eram terminais desesperados, eles trilhavam a esperança da amizade.
E em terra de artistas egocêntricos, tudo o que eles faziam era comunitário.
Não é pouco.
Como diz a Rolling Stone, salvaram almas perdidas na confusão pós-68.
E mais.
Mudaram os Beatles, que após ouvir este disco deixaram de lado o psicodelismo e passaram a fazer canções ( há uma famosa foto em que os fab four os homenageiam ). Desfizeram o Cream, fazendo com que Clapton jogasse fora seus solos e passasse a tentar cantar.
E deram novo significado a todo o rock americano, ao lembrar aos ídolos doidos que tudo na música americana é folclore, raiz, verdade.
Com este disco eles abrem caminho para Leonard Cohen, Neil Young, Van Morrison e Gram Parsons.
Não é pouca coisa eles terem sido a primeira banda a ser capa do Times.
E terem sido os primeiros a ser homenageados em show ( Dylan, Young, Morrison, Muddy Waters, Clapton, Joni Mitchell ) quando a moda de homenagens ainda não existia. Foram filmados por Scorsese e deixaram a banda de lado, se aposentaram, ao sentir que a inspiração se fora ( como Bergman faria no cinema ). Optaram por não explorar seus fãs.
Tudo isso é The Band. Robbie, que toca guitarra como quem toca a mulher amada, com maciez, tato, carinho; Rick e seu baixo sacolejante, Garth enfurnado em efeitos de teclado, Richard com os pianos de buteco e Levon e sua batera de ritmo estradeiro. Todos liderando, todos nos vocais, ninguém como frontman.
Neste seu primeiro disco, gravado na casa de fazenda Big Pink, onde Dylan se recuperava de acidente, eles são mais pó e solidão em grupo que nunca. Eles são o melhor equivalente que o rock já produziu dos filmes de John Ford e dos poemas de Whitman. Tudo é estrada, tudo é casa em comunhão, tudo é pra valer.
Quando a primeira faixa entra, Tears of Rage, voce já sente: nada aqui é comum, mas tudo lhe será familiar. Poucos discos têm uma faixa 1 tão pouco pop, tão pra baixo, tão íntima. Eles choram uma derrota, mas no resto do disco veremos que essa derrota não os destruiu. Faixa a faixa, são onze, eles vão se erguendo, se aprumando, reconstituindo o mito do herói, e dando injeção de ânimo ao combalido rocknroll.
Seu som, escutado hoje não te impressionará por sua originalidade. Foi tão copiado desde então ( e ainda é ) que parece apenas mais uma banda fazendo outra vez esse tipo de som pop. Mas na época de Beatles, Doors e Zappa, em que todo disco era psicodélico, eles foram os criadores desse som. Adulto, masculino e sensível sem ser frouxo.
O que irá te impressionar agora é a beleza das melodias, a nobreza das vozes e a sinceridade de um grupo que transpira verdade em cada segundo de som.
Quando a música Long Black Veil irrompe ( faixa 7 ) voce desaba. Nada em rock soa tão verdadeiro. E trágico.
Ouvir este disco é então ser testemunha de uma cerimônia onde a fé é na força do homem, na inspiração da raiz e na aventura da estrada. Vindos do Canadá ao mundo, The Band será sempre a lembrança do grau máximo de dignidade em música. Pois talvez existam bandas melhores (quais? ) mas nenhuma é tão amiga.
O MELHOR DOS PSICÓLOGOS ( SOBRE A PAIXÃO ) - STENDHAL
Concordo com Harold Bloom ( e tantos outros ), Stendhal é o escritor que melhor analisou a paixão, desde o momento em que ela nasce ( é o único que consegue demonstrar como e porque ela surge ) até sua morte. Apenas Tolstoi lhe faz sombra.
Recordo de momento em minha vida, doente de paixão frustrada, em que comecei a ler O VERMELHO E O NEGRO. Sem muita vontade, achando ser incapaz de concentração, insone. Mas aconteceu a magia: logo em suas primeiras páginas Stendhal me capturou. Alí estava tudo o que eu vivera, eu não estava só. O livro me reergueu e só então percebi o quanto um livro pode ser precioso. Mas o que Stendhal faz é ainda melhor: ele descreve a paixão em profundidade, mas jamais deixa de nos exibir o ridículo que vive ao lado do sublime. Ele não faz sátira, respeita o amor, mas demonstra o quanto nosso sofrimento tem de consciente, de livre-escolha, de masoquismo. Stendhal sabe exatamente onde mora a armadilha.
E sempre é um prazer ler seus livros. A escrita varia entre a alegria solar ( o amor para ele, mesmo se sofredor, é sempre vital, portanto, alegre ) e o sonho. Ele consegue nos fazer mergulhar no delírio da paixão, mas nunca parece "místico" ou poeta, é sempre um realista.
Julien, personagem deste livro, é um frio ambicioso. Ou não? Ele sabe usar o amor, trata-se de um sedutor. Ou não? Essa dubiedade acontece também com as duas personagens femininas centrais. Ficamos em dúvida: aquilo é amor verdadeiro ou é narcisismo? Eles se amam ou se usam para se amar? A vítima é uma vítima ou é uma atriz/autora, presa em sua peça feita de espelhos?
Stendhal usa todos os artifícos do romantismo, mas os analisa, esvazia-os, mostra a bufonaria dos hábitos. Julien paga por seus crimes, mas mesmo o cadafalso é ilusório, teatral, mascarada de convenções.
Como dizem tantos críticos, mais que o amor, Stendhal mostra que é o desejo que sempre nos cega e nos faz errar. E preciosamente, em sua escrita, Stendhal transmite cada meandro, cada fagulha desse desejo, seja o subjetivo desejo pela felicidade, seja o urgente desejo pelo poder. Ele demonstra que amor é carne, é posse, é ter, mas que também pode ser alma, deixar de ser, dar-se e se iludir.
Nietzsche chamava-o de O GRANDE PSICÓLOGO. Percebeu Stendhal que todos os nossos erros nascem de nossa impaciência, que bastava saber esperar e conseguir calar para deixar de errar. Que toda a dor do homem nasce do fato de que somos incapazes de nos aquietar. É urgente que façamos coisas, que matraqueemos, que "vivamos". E toda essa ação, essa falação sem fim nos leva ao erro, principalmente em amor, mundo onde o silêncio e a quietude são regras de ouro.
Tudo o que sofri e tudo o que errei estão em Stendhal. O VERMELHO E O NEGRO, obra-prima de tempo em que o gênio abundava no ocidente, é manual de paixão, auto-ajuda de verdade, monumento à mente sagaz de um homem.
Stendhal sabia tudo.
Recordo de momento em minha vida, doente de paixão frustrada, em que comecei a ler O VERMELHO E O NEGRO. Sem muita vontade, achando ser incapaz de concentração, insone. Mas aconteceu a magia: logo em suas primeiras páginas Stendhal me capturou. Alí estava tudo o que eu vivera, eu não estava só. O livro me reergueu e só então percebi o quanto um livro pode ser precioso. Mas o que Stendhal faz é ainda melhor: ele descreve a paixão em profundidade, mas jamais deixa de nos exibir o ridículo que vive ao lado do sublime. Ele não faz sátira, respeita o amor, mas demonstra o quanto nosso sofrimento tem de consciente, de livre-escolha, de masoquismo. Stendhal sabe exatamente onde mora a armadilha.
E sempre é um prazer ler seus livros. A escrita varia entre a alegria solar ( o amor para ele, mesmo se sofredor, é sempre vital, portanto, alegre ) e o sonho. Ele consegue nos fazer mergulhar no delírio da paixão, mas nunca parece "místico" ou poeta, é sempre um realista.
Julien, personagem deste livro, é um frio ambicioso. Ou não? Ele sabe usar o amor, trata-se de um sedutor. Ou não? Essa dubiedade acontece também com as duas personagens femininas centrais. Ficamos em dúvida: aquilo é amor verdadeiro ou é narcisismo? Eles se amam ou se usam para se amar? A vítima é uma vítima ou é uma atriz/autora, presa em sua peça feita de espelhos?
Stendhal usa todos os artifícos do romantismo, mas os analisa, esvazia-os, mostra a bufonaria dos hábitos. Julien paga por seus crimes, mas mesmo o cadafalso é ilusório, teatral, mascarada de convenções.
Como dizem tantos críticos, mais que o amor, Stendhal mostra que é o desejo que sempre nos cega e nos faz errar. E preciosamente, em sua escrita, Stendhal transmite cada meandro, cada fagulha desse desejo, seja o subjetivo desejo pela felicidade, seja o urgente desejo pelo poder. Ele demonstra que amor é carne, é posse, é ter, mas que também pode ser alma, deixar de ser, dar-se e se iludir.
Nietzsche chamava-o de O GRANDE PSICÓLOGO. Percebeu Stendhal que todos os nossos erros nascem de nossa impaciência, que bastava saber esperar e conseguir calar para deixar de errar. Que toda a dor do homem nasce do fato de que somos incapazes de nos aquietar. É urgente que façamos coisas, que matraqueemos, que "vivamos". E toda essa ação, essa falação sem fim nos leva ao erro, principalmente em amor, mundo onde o silêncio e a quietude são regras de ouro.
Tudo o que sofri e tudo o que errei estão em Stendhal. O VERMELHO E O NEGRO, obra-prima de tempo em que o gênio abundava no ocidente, é manual de paixão, auto-ajuda de verdade, monumento à mente sagaz de um homem.
Stendhal sabia tudo.
OCTAVIO PAZ - UM GIGANTE ( O ÚLTIMO ? )
TODA SOCIEDADE AGONIZANTE OU ESTÉRIL TENTA SE SALVAR CRIANDO UM MITO DE REDENÇÃO, QUE TAMBÉM É UM MITO DE FERTILIDADE.
A ESTERILIDADE DO MUNDO BURGUÊS ACABARÁ EM SUICÍDIO.
Esta é a conclusão de O Labirinto da Solidão. Análise de Paz sobre o México. Fascinante viagem entre política, religião, ciência, dinheiro e poesia.
Falar de Octávio Paz não é fácil. Ele foi um gigante! Homem tipo Goethe, Homem que procura saber tudo, mais que saber, compreender tudo. Se temos hoje alguns bons escritores ( Clézio, Coetzee, Doyle, Theroux...), desde a morte de Paz e de Sebald, gigantes não há mais. Octávio tinha a presença.
Cito Pedra do Sol :
AMAR É LUTAR, E SE DUAS PESSOAS SE BEIJAM O MUNDO SE TRANSFORMA
DESEJOS SE ENCARNAM, INTELECTO SE ENCARNA
GRANDES ASAS SE ABREM, NASCENDO NOS OMBROS DO ESCRAVO
O MUNDO É REAL E DEVE SER TOCADO
VINHO É VINHO, PÃO VOLTA A TER GOSTO, ÁGUA É ÁGUA
AMAR É LUTAR, É ABRIR PORTAS, PARAR DE SER FANTASIA NUMERADA
CONDENADA A SENTENÇA DE CORRENTE INFINDA POR SENHOR SEM CARA
O MUNDO SE TRANSFORMA QUANDO DUAS PESSOAS SE OLHAM
RECONHECENDO QUE AMAR É SE DESPIR DE NOMES E ROUPAS (...)
MELHOR TER O CRIME
OS AMANTES SUICIDAS OU O INCESTO ENTRE IRMÃOS
COMO ENTRE DOIS ESPELHOS QUE SE APAIXONAM POR SEUS REFLEXOS
MELHOR SE ARRISCAR A COMER PÃO ENVENENADO
O ADULTÉRIO EM LEITO DE CINZAS, PAIXÕES FEROZES, DELÍRIO
COM SUA HERA VENENOSA, O SODOMITA COM O CRAVO NA LAPELA GOTA DE CUSPE
MELHOR SER MORTO A PEDRADAS EM PRAÇA PÚBLICA
QUE SE DEIXAR VENCER POR PROVAÇÕES QUE ANULAM A SUBSTÂNCIA DA VIDA
FAZEM DA ETERNIDADE HORAS VAZIAS, DOS MINUTOS PENITENCIÁRIAS
E DO TEMPO CENTAVOS DE COBRE E MERDA ABSTRATA.
Esse poema é do Paz de 68, crente nos novos tempos da revolução. Mas logo ele perceberia que essa revolução fez do jovem uma vítima da opressão. Os gritos libertários adotados pelos inimigos e regorgitados como peças de moda.
Uma professora de português, ao ler minha primeira redação, em meu primeiro ano de Fiam, me disse: " leia Octávio Paz! suas dúvidas são as dúvidas dele." Não li. Só o conheci uma década depois.
A PALAVRA POÉTICA E A PALAVRA RELIGIOSA SE CONFUNDEM ATRAVÉS DA HISTÓRIA. (...) MAS O ATO EM QUE O HOMEM SE FIXA E SE REVELA É A POESIA. A RELIGIÃO E A POESIA TÊM ENTÃO ORIGEM COMUM. MAS A RELIGIÃO CANALIZA, INTERPRETA, RITUALIZA, SISTEMATIZA E NOS DEVOLVE ESSA INSPIRAÇÃO NUMA TEOLOGIA. A POESIA ABRE-NOS A POSSIBILIDADE DE EXISTÊNCIA A CADA NASCIMENTO. RECRIA O HOMEM E FAZ COM QUE ELE ASSUMA SUA VERDADEIRA CONDIÇÃO: VIDA E MORTE EM UM ÚNICO INSTANTE DE INCANDESCÊNCIA.
Não conheço definição mais perfeita de poesia. E penso que todo poeta é homem nascendo. Homem vendo a vida pela primeira vez. E penso que todo homem que repele a poesia é homem com medo de nascer ( e de morrer, pois viver é morrer toda hora ).
A religião nos dá essa experiência deglutida. Nos dá esse nascer/morrer com seguro de vida.
Em 1968 centenas de estudantes mexicanos foram mortos em passeata. Protestavam. Eis a interpretação de Paz:
OS EVENTOS DE 2 DE OUTUBRO NA PLAZA DE TLATELCOLO, INVOCARAM, REPETIRAM, OS RITOS ASTECAS: CENTENAS DE JOVENS SACRIFICADOS NAS RUÍNAS DE UMA PIRÂMIDE. O PODER MEXICANO PUNIA SEU PRÓPRIO PASSADO REVOLUCIONÁRIO AO PUNIR ESSES JOVENS.
Paz fala sobre a paisagem da Cidade do México:
ARQUITETURA PARALÍTICA
BAIRROS ISOLADOS, JARDINS MUNICIPAIS PODRES, MONTES DE SALITRE
TERRENOS BALDIOS, ACAMPAMENTOS DE NÔMADES URBANOS
FORMIGUEIROS E CRIAÇÃO DE MINHOCAS
VIAS PÚBLICAS DE CICATRIZES, BECOS DE CARNE VIVA
FUNERÁRIAS, ATAÚDES NAS JANELAS, PROSTITUTAS-PILARES DA NOITE VÃ
ALVORECER, BAR À DERIVA
O ESPELHO ENORME DERRETE
BÊBADOS SOLITÁRIOS CONTEMPLAM A DISSOLUÇÃO DE SEU ROSTO
O SOL SE ERGUE DA CAMA DE OSSOS
O AR NÃO É AR, ESTRANGULA
ALVORADA QUE RASGA CORTINAS
CIDADE PILHA DE PALAVRAS QUEBRADAS
VENTO NAS ESQUINAS EMPOEIRADAS EMBOLA JORNAIS
NÃO EXISTE CENTRO PRAÇA DE CONGREGAÇÃO
NÃO EXISTE EIXO
ANOS SE DISPERSARAM, HORIZONTES DEBANDARAM
MARCARAM A CIDADE EM CADA PORTA EM CADA FRONTE
COM APENAS UM SÍMBOLO $
E Paz viaja: India, Paris, EUA. E em cada viagem traz uma revelação.
Escreve sobre o Budismo:
TODA PALAVRA GERA UMA PALAVRA QUE É SUA NEGAÇÃO. PORTANTO VIVEMOS NA DIALÉTICA. DESTRUIÇÃO E RENASCIMENTO. SIM E NÃO. TESE E ANTÍTESE.
COM O SILÊNCIO DE BUDA CESSAM O MOVIMENTO, A OPERAÇÃO, A DIALÉTICA, A PALAVRA. AO MESMO TEMPO NÃO É A NEGAÇÃO DA DIALÉTICA NEM DO MOVIMENTO: O SILÊNCIO DE BUDA É A RESOLUÇÃO DA LINGUAGEM.
VIEMOS DO SILÊNCIO E VAMOS AO SILÊNCIO. O QUE BUDA EM SEU SILÊNCIO REVELA NÃO É NEGAÇÃO E NEM AFIRMAÇÃO: É SUNYATA: TUDO ESTÁ VAZIO PORQUE TUDO ESTÁ CHEIO.
A PALAVRA NÃO É AFIRMAÇÃO PORQUE A ÚNICA AFIRMAÇÃO É O SILÊNCIO.
A NEGAÇÃO DO MUNDO IMPLICA O RETORNO AO MUNDO, O ASCETISMO É O RETORNO DOS SENTIDOS, A REALIDADE É A CHAVE QUERIDA E TERRÍVEL DA IRREALIDADE.
O CORPO NÃO É JANELA AO INFINITO, É O PRÓPRIO INFINITO.
NÃO SE TRATA DO CONHECIMENTO DO VÁCUO: UM CONHECIMENTO VAZIO.
O SILÊNCIO DE BUDA NÃO É CONHECIMENTO, MAS ALGO ALÉM, É SABEDORIA. UM NÃO-SABER. UM SER DESPRENDIDO, E PORTANTO, RESOLVIDO. QUIETUDE É DANÇA, E A SOLIDÃO DO ASCETA, NO CENTRO DA ESPIRAL IMÓVEL, É IDÊNTICA AO ABRAÇO DO CASAL DE AMANTES NO SANTUÁRIO DE KALI. UM SABER QUE NADA SABE E QUE CULMINA EM POÉTICA, EM ERÓTICA.
A ARTE DE BAILAR ACIMA DO ABISMO.
Releia até que as palavras percam sentido.
Tudo está vazio porque tudo está cheio. Olhe ao seu redor.....
Octávio Paz, em sua busca poética pelo vazio o encontrou. O vazio onde tudo faz sentido porque tudo se resolve. O vazio onde ao cessar a palavra, cessa a dúvida.
Como Ocidental do século xx, Paz tentou essa iluminação através da palavra.
Usou então as palavras em outro sentido, fez poesia.
Não há autor recente com tão nobre proposta.
A ESTERILIDADE DO MUNDO BURGUÊS ACABARÁ EM SUICÍDIO.
Esta é a conclusão de O Labirinto da Solidão. Análise de Paz sobre o México. Fascinante viagem entre política, religião, ciência, dinheiro e poesia.
Falar de Octávio Paz não é fácil. Ele foi um gigante! Homem tipo Goethe, Homem que procura saber tudo, mais que saber, compreender tudo. Se temos hoje alguns bons escritores ( Clézio, Coetzee, Doyle, Theroux...), desde a morte de Paz e de Sebald, gigantes não há mais. Octávio tinha a presença.
Cito Pedra do Sol :
AMAR É LUTAR, E SE DUAS PESSOAS SE BEIJAM O MUNDO SE TRANSFORMA
DESEJOS SE ENCARNAM, INTELECTO SE ENCARNA
GRANDES ASAS SE ABREM, NASCENDO NOS OMBROS DO ESCRAVO
O MUNDO É REAL E DEVE SER TOCADO
VINHO É VINHO, PÃO VOLTA A TER GOSTO, ÁGUA É ÁGUA
AMAR É LUTAR, É ABRIR PORTAS, PARAR DE SER FANTASIA NUMERADA
CONDENADA A SENTENÇA DE CORRENTE INFINDA POR SENHOR SEM CARA
O MUNDO SE TRANSFORMA QUANDO DUAS PESSOAS SE OLHAM
RECONHECENDO QUE AMAR É SE DESPIR DE NOMES E ROUPAS (...)
MELHOR TER O CRIME
OS AMANTES SUICIDAS OU O INCESTO ENTRE IRMÃOS
COMO ENTRE DOIS ESPELHOS QUE SE APAIXONAM POR SEUS REFLEXOS
MELHOR SE ARRISCAR A COMER PÃO ENVENENADO
O ADULTÉRIO EM LEITO DE CINZAS, PAIXÕES FEROZES, DELÍRIO
COM SUA HERA VENENOSA, O SODOMITA COM O CRAVO NA LAPELA GOTA DE CUSPE
MELHOR SER MORTO A PEDRADAS EM PRAÇA PÚBLICA
QUE SE DEIXAR VENCER POR PROVAÇÕES QUE ANULAM A SUBSTÂNCIA DA VIDA
FAZEM DA ETERNIDADE HORAS VAZIAS, DOS MINUTOS PENITENCIÁRIAS
E DO TEMPO CENTAVOS DE COBRE E MERDA ABSTRATA.
Esse poema é do Paz de 68, crente nos novos tempos da revolução. Mas logo ele perceberia que essa revolução fez do jovem uma vítima da opressão. Os gritos libertários adotados pelos inimigos e regorgitados como peças de moda.
Uma professora de português, ao ler minha primeira redação, em meu primeiro ano de Fiam, me disse: " leia Octávio Paz! suas dúvidas são as dúvidas dele." Não li. Só o conheci uma década depois.
A PALAVRA POÉTICA E A PALAVRA RELIGIOSA SE CONFUNDEM ATRAVÉS DA HISTÓRIA. (...) MAS O ATO EM QUE O HOMEM SE FIXA E SE REVELA É A POESIA. A RELIGIÃO E A POESIA TÊM ENTÃO ORIGEM COMUM. MAS A RELIGIÃO CANALIZA, INTERPRETA, RITUALIZA, SISTEMATIZA E NOS DEVOLVE ESSA INSPIRAÇÃO NUMA TEOLOGIA. A POESIA ABRE-NOS A POSSIBILIDADE DE EXISTÊNCIA A CADA NASCIMENTO. RECRIA O HOMEM E FAZ COM QUE ELE ASSUMA SUA VERDADEIRA CONDIÇÃO: VIDA E MORTE EM UM ÚNICO INSTANTE DE INCANDESCÊNCIA.
Não conheço definição mais perfeita de poesia. E penso que todo poeta é homem nascendo. Homem vendo a vida pela primeira vez. E penso que todo homem que repele a poesia é homem com medo de nascer ( e de morrer, pois viver é morrer toda hora ).
A religião nos dá essa experiência deglutida. Nos dá esse nascer/morrer com seguro de vida.
Em 1968 centenas de estudantes mexicanos foram mortos em passeata. Protestavam. Eis a interpretação de Paz:
OS EVENTOS DE 2 DE OUTUBRO NA PLAZA DE TLATELCOLO, INVOCARAM, REPETIRAM, OS RITOS ASTECAS: CENTENAS DE JOVENS SACRIFICADOS NAS RUÍNAS DE UMA PIRÂMIDE. O PODER MEXICANO PUNIA SEU PRÓPRIO PASSADO REVOLUCIONÁRIO AO PUNIR ESSES JOVENS.
Paz fala sobre a paisagem da Cidade do México:
ARQUITETURA PARALÍTICA
BAIRROS ISOLADOS, JARDINS MUNICIPAIS PODRES, MONTES DE SALITRE
TERRENOS BALDIOS, ACAMPAMENTOS DE NÔMADES URBANOS
FORMIGUEIROS E CRIAÇÃO DE MINHOCAS
VIAS PÚBLICAS DE CICATRIZES, BECOS DE CARNE VIVA
FUNERÁRIAS, ATAÚDES NAS JANELAS, PROSTITUTAS-PILARES DA NOITE VÃ
ALVORECER, BAR À DERIVA
O ESPELHO ENORME DERRETE
BÊBADOS SOLITÁRIOS CONTEMPLAM A DISSOLUÇÃO DE SEU ROSTO
O SOL SE ERGUE DA CAMA DE OSSOS
O AR NÃO É AR, ESTRANGULA
ALVORADA QUE RASGA CORTINAS
CIDADE PILHA DE PALAVRAS QUEBRADAS
VENTO NAS ESQUINAS EMPOEIRADAS EMBOLA JORNAIS
NÃO EXISTE CENTRO PRAÇA DE CONGREGAÇÃO
NÃO EXISTE EIXO
ANOS SE DISPERSARAM, HORIZONTES DEBANDARAM
MARCARAM A CIDADE EM CADA PORTA EM CADA FRONTE
COM APENAS UM SÍMBOLO $
E Paz viaja: India, Paris, EUA. E em cada viagem traz uma revelação.
Escreve sobre o Budismo:
TODA PALAVRA GERA UMA PALAVRA QUE É SUA NEGAÇÃO. PORTANTO VIVEMOS NA DIALÉTICA. DESTRUIÇÃO E RENASCIMENTO. SIM E NÃO. TESE E ANTÍTESE.
COM O SILÊNCIO DE BUDA CESSAM O MOVIMENTO, A OPERAÇÃO, A DIALÉTICA, A PALAVRA. AO MESMO TEMPO NÃO É A NEGAÇÃO DA DIALÉTICA NEM DO MOVIMENTO: O SILÊNCIO DE BUDA É A RESOLUÇÃO DA LINGUAGEM.
VIEMOS DO SILÊNCIO E VAMOS AO SILÊNCIO. O QUE BUDA EM SEU SILÊNCIO REVELA NÃO É NEGAÇÃO E NEM AFIRMAÇÃO: É SUNYATA: TUDO ESTÁ VAZIO PORQUE TUDO ESTÁ CHEIO.
A PALAVRA NÃO É AFIRMAÇÃO PORQUE A ÚNICA AFIRMAÇÃO É O SILÊNCIO.
A NEGAÇÃO DO MUNDO IMPLICA O RETORNO AO MUNDO, O ASCETISMO É O RETORNO DOS SENTIDOS, A REALIDADE É A CHAVE QUERIDA E TERRÍVEL DA IRREALIDADE.
O CORPO NÃO É JANELA AO INFINITO, É O PRÓPRIO INFINITO.
NÃO SE TRATA DO CONHECIMENTO DO VÁCUO: UM CONHECIMENTO VAZIO.
O SILÊNCIO DE BUDA NÃO É CONHECIMENTO, MAS ALGO ALÉM, É SABEDORIA. UM NÃO-SABER. UM SER DESPRENDIDO, E PORTANTO, RESOLVIDO. QUIETUDE É DANÇA, E A SOLIDÃO DO ASCETA, NO CENTRO DA ESPIRAL IMÓVEL, É IDÊNTICA AO ABRAÇO DO CASAL DE AMANTES NO SANTUÁRIO DE KALI. UM SABER QUE NADA SABE E QUE CULMINA EM POÉTICA, EM ERÓTICA.
A ARTE DE BAILAR ACIMA DO ABISMO.
Releia até que as palavras percam sentido.
Tudo está vazio porque tudo está cheio. Olhe ao seu redor.....
Octávio Paz, em sua busca poética pelo vazio o encontrou. O vazio onde tudo faz sentido porque tudo se resolve. O vazio onde ao cessar a palavra, cessa a dúvida.
Como Ocidental do século xx, Paz tentou essa iluminação através da palavra.
Usou então as palavras em outro sentido, fez poesia.
Não há autor recente com tão nobre proposta.
ASH WEDNESDAY - TS ELIOT ( E ROXY'S MOTHER OF PEARL)
Aqui Eliot entra em sua terceira fase. Não mais o coloquialismo, não mais o modernismo. Agora ele tenta encontrar o sagrado na vida.
Escreverei sobre este poema sem citar uma só linha de seus versos. Basta saber que Eliot sempre escreve poesia sem poetasiar. É totalmente anti-Vinicius. Nada tem de poeta-das-menininhas. E também nada faz dele um "irmãos Campos". Eliot não faz experiências.
Sem rimas, seu segredo é o ritmo. Tudo que ele escreve é musical. As imagens e as palavras vêm e vão e se repetem como se fossem notas e arranjos. Sua escrita é um tornado.
Aqui ele fala do que?
Dos ossos. Dos leopardos que comeram sua carne. Da árvore seca. E de uma Dama de azul e branco. Deserto.
Mas o texto é otimista. Pois ele não mais tem medo. Eliot entendeu.
ASH WEDNESDAY, de 1930, me faz pensar. Em escolhas.
Escolhemos o dois mais dois como eternamente quatro. E agora pagamos o pato.
Optamos pelo olho e pelo ouvido. A mão e o osso. Enterramos ( no inconsciente? ) o não visível.
Religião virou igreja. Torre de pedra com ritos e mandamentos sem nenhum significado.
E arte se tornou cada vez mais a assinatura de uma vaidade.
Mas já falei tanto disso e me dá tanta preguiça..... Pois o que me motiva é a Dama de azul e branco, a rica simbologia dessa mulher que não se pode ter e jamais será conhecida. Essa imagem de religião verdadeira e de morte gloriosa. Esse sentimento que a arte superior tenta nos fazer rememorar.
Em 1300 a arte toma o lugar do sagrado ( já que a igreja se torna PODER ).
E passa a ser, quando verdadeira, a busca pelo invisível e pelo atemporal. Um sentido para uma vida que passa a negar toda transcendencia, que só crê no provado e comum. É na arte, poesia e música, depois teatro e prosa, que se ora.
Mas agora, de 1800 em diante, também a arte lentamente apodrece. Vai perdendo o dom de engrandecer e de sacralizar. Torna-se uma questão de refazer e de erguer egos.
O dois mais dois se torna a única realidade.
A grande obra hoje é sempre da ciência. O acelerador de partículas, o ônibus espacial, o micro. Nosso engenho está todo focado nisso e sómente nisso. O hiper talento humano não mora na arte, muito menos na religião. Ele é todo matemático, o que existe é o que pode ser medido, pesado e transformado em equação.
Todo o resto é poesia.
Mas é aí que a porca torce o rabo.
Pois não há satisfação nessa lousa e nesse chip. Continuamos os mesmos caras de 1300.
Queremos glória viril. Queremos ser lembrados. Queremos uma casa em paz e um campo de provas. A Dama de azul e branco. Êxtase e transcendência. Vinho e sono.
O dois mais dois nos oferece em troca glória virtual. Esquecimento. A morte da casa e o fim da busca pela sóbria paz. A não-concentração e relativização. Uma dama de preto e de vermelho, sem segredos e sem sacrifícios. Comodismo e eficiência. Pílulas e insônia.
Ouça.
Mother of Pearl, Roxy Music.
Tudo isto está lá. É como She Comes in Color do Love de Arthur Lee. Transcendência no pop. A chance de perfeição. Nosso espírito cantando.
Ouça.
Após Mother of Pearl vem Sunset.
Não há mais chance para nós?
Escreverei sobre este poema sem citar uma só linha de seus versos. Basta saber que Eliot sempre escreve poesia sem poetasiar. É totalmente anti-Vinicius. Nada tem de poeta-das-menininhas. E também nada faz dele um "irmãos Campos". Eliot não faz experiências.
Sem rimas, seu segredo é o ritmo. Tudo que ele escreve é musical. As imagens e as palavras vêm e vão e se repetem como se fossem notas e arranjos. Sua escrita é um tornado.
Aqui ele fala do que?
Dos ossos. Dos leopardos que comeram sua carne. Da árvore seca. E de uma Dama de azul e branco. Deserto.
Mas o texto é otimista. Pois ele não mais tem medo. Eliot entendeu.
ASH WEDNESDAY, de 1930, me faz pensar. Em escolhas.
Escolhemos o dois mais dois como eternamente quatro. E agora pagamos o pato.
Optamos pelo olho e pelo ouvido. A mão e o osso. Enterramos ( no inconsciente? ) o não visível.
Religião virou igreja. Torre de pedra com ritos e mandamentos sem nenhum significado.
E arte se tornou cada vez mais a assinatura de uma vaidade.
Mas já falei tanto disso e me dá tanta preguiça..... Pois o que me motiva é a Dama de azul e branco, a rica simbologia dessa mulher que não se pode ter e jamais será conhecida. Essa imagem de religião verdadeira e de morte gloriosa. Esse sentimento que a arte superior tenta nos fazer rememorar.
Em 1300 a arte toma o lugar do sagrado ( já que a igreja se torna PODER ).
E passa a ser, quando verdadeira, a busca pelo invisível e pelo atemporal. Um sentido para uma vida que passa a negar toda transcendencia, que só crê no provado e comum. É na arte, poesia e música, depois teatro e prosa, que se ora.
Mas agora, de 1800 em diante, também a arte lentamente apodrece. Vai perdendo o dom de engrandecer e de sacralizar. Torna-se uma questão de refazer e de erguer egos.
O dois mais dois se torna a única realidade.
A grande obra hoje é sempre da ciência. O acelerador de partículas, o ônibus espacial, o micro. Nosso engenho está todo focado nisso e sómente nisso. O hiper talento humano não mora na arte, muito menos na religião. Ele é todo matemático, o que existe é o que pode ser medido, pesado e transformado em equação.
Todo o resto é poesia.
Mas é aí que a porca torce o rabo.
Pois não há satisfação nessa lousa e nesse chip. Continuamos os mesmos caras de 1300.
Queremos glória viril. Queremos ser lembrados. Queremos uma casa em paz e um campo de provas. A Dama de azul e branco. Êxtase e transcendência. Vinho e sono.
O dois mais dois nos oferece em troca glória virtual. Esquecimento. A morte da casa e o fim da busca pela sóbria paz. A não-concentração e relativização. Uma dama de preto e de vermelho, sem segredos e sem sacrifícios. Comodismo e eficiência. Pílulas e insônia.
Ouça.
Mother of Pearl, Roxy Music.
Tudo isto está lá. É como She Comes in Color do Love de Arthur Lee. Transcendência no pop. A chance de perfeição. Nosso espírito cantando.
Ouça.
Após Mother of Pearl vem Sunset.
Não há mais chance para nós?
ANOS 90- MODA E BELEZA- CLIPS E ESPORTES
O livro dos 50 anos da Ilustrada, após os intelectuais anos 80, explica e exibe os anos 90.
Vamos lá!!!!
Erika Palomino entra na Folha. E surgem os Andrés, todos filhos pop de Pepe Escobar. Mas são os anos 90 ( que começaram em 89 ) que lançam a ditadura da página de moda. Desde então, e para sempre, viver bem será estar em páginas da Elle ou da Vogue.
No começo foi bonito. Havia um belo senso de beleza superficial. O belo que se justifica pela aparência. Beleza é só pele e casca, e daí? Esse é o slogan desse tempo. Todos querem ser bonitos.
Na noite é tempo de Sra. Kravitz e do Hells. Hedonismo após o pesadelo deprê dos anos 80. Mal sabíamos que isso levaria ao vazio....
É tempo de moda. Novas marcas e novos nomes: Galliano, McQueen, Diesel, Dolce e Gabbana, Versace, Gaultier ( sei que não surgiram nesse tempo. Mas é aí que se tornam gurus ).
Tempo das Uber-model: Linda Evangelista, Cindy Crawford, Claudia Schiffer.
E já havia os sujos Pixies, Janies Addiction e Sonic Youth; mas este é o tempo dos super clips. Os clips belos como fotos de Richard Avedon, clips "fresquíssimos", dirigidos por alguns dos melhores fotógrafos de moda ou pelos futuros cineastas de filmes moderninhos. São clips pelos quais me apaixonei na época ( essa é a última vez em que corrí atrás de novidades ). Clips que hoje, pós-Nirvana, são irrecuperáveis.
O luxo de Madonna cantando Vogue, Chris Isaak dirigido pelo gênio Bruce Webber em Wicked Game, US3 e sua estética de rap com cool jazz, C and C Music Factory e seus grafismos extra cool, o Soul To Soul que dava toda a atenção ao visual, e que tinha um líder que se assinava Jazzie B., Bryan Ferry e a elegãncia espanhola de Mamouna, um clip de luxo ostensivo e de cafonália estilosa, e principalmente o clip símbolo da época: Being Boring dos Pet Shop Boys, hino ao prazer da carne, a beleza de jovens ricos, a pele perfeita. Being Boring é um tratado filosófico. E é mais um de Bruce Webber ( que fez um doc sobre Chet Baker que é o sublime levado ao inferno ).
É nesse começo de anos 90 que temos o auge da moda skate e surf. De luxo, claro. Bermudões e camisas coloridas, leves e soltas. Como disse, o que podemos falar desse tempo é sempre MODA E VISUAL. NBA e seus tênis. Chicago Bulls e Hornets.
Valoriza-se o jazz, por seu aspecto visual e não por sua revolução; valoriza-se a escrita de Scott Fitzgerald, Auden, Wilde, Forster, Evelyn Waugh, por causa de seus ambientes chic, sua decadência bonita, seu "visual" elegante.
No cinema se fala em Audrey e em Montgomery Clift. Porque? O visual, lógico!
Cinema de Terry Gillian, de Bertolucci, de Ridley Scott e de David Lynch. Experiências visuais de Soderbergh e de Van Sant. Imagem. Tudo é imagem.
Mas essa "década" dura apenas 6 anos.
O grunge assassina tudo isso e traz a feiúra metal unida aos valores hippies. Ser tosco e sujo se torna padrão. Os clips partem para a tosqueira ( Loser e Even Flow ). Até as bandas inglesas deixam de ter "visual" e os eletros passam a cultivar o não-visual. A excessão é o Prodigy.
Todo esse glamour jamais seria recuperado. Grupos de rock hoje têm sempre a imagem dos anos 70 em mente. Seja punk, metal ou glitter. Toda banda flutua entre Led Zeppelin, Clash ou T.Rex.
Os clips da época são recuperados, de modo muito mais histérico e raso, pelo pop: Black Eyed Peas, Beyoncé ou Shakira. Mas é como comparar Madonna com Lady Gaga.
Foram anos muito divertidos! O que importava ( como diz Being Boring ) era ter 19 anos, porque aos 19 nada enche o saco, tudo é bonito e voce nunca é chato.
PS: Esqueci do cara símbolo da época, e que foi massacrado no tempo de grunges "feios": George Michael e seu clip Freedom. Lá estão Cindy e Linda e Claudia e Naomi. Lá tudo é bonito e sexy. Lá a vida se parece com jazz e Audrey e Clift e um poema de Auden.
E tudo acabou em policia e banheiro.....
Entendeu?
Vamos lá!!!!
Erika Palomino entra na Folha. E surgem os Andrés, todos filhos pop de Pepe Escobar. Mas são os anos 90 ( que começaram em 89 ) que lançam a ditadura da página de moda. Desde então, e para sempre, viver bem será estar em páginas da Elle ou da Vogue.
No começo foi bonito. Havia um belo senso de beleza superficial. O belo que se justifica pela aparência. Beleza é só pele e casca, e daí? Esse é o slogan desse tempo. Todos querem ser bonitos.
Na noite é tempo de Sra. Kravitz e do Hells. Hedonismo após o pesadelo deprê dos anos 80. Mal sabíamos que isso levaria ao vazio....
É tempo de moda. Novas marcas e novos nomes: Galliano, McQueen, Diesel, Dolce e Gabbana, Versace, Gaultier ( sei que não surgiram nesse tempo. Mas é aí que se tornam gurus ).
Tempo das Uber-model: Linda Evangelista, Cindy Crawford, Claudia Schiffer.
E já havia os sujos Pixies, Janies Addiction e Sonic Youth; mas este é o tempo dos super clips. Os clips belos como fotos de Richard Avedon, clips "fresquíssimos", dirigidos por alguns dos melhores fotógrafos de moda ou pelos futuros cineastas de filmes moderninhos. São clips pelos quais me apaixonei na época ( essa é a última vez em que corrí atrás de novidades ). Clips que hoje, pós-Nirvana, são irrecuperáveis.
O luxo de Madonna cantando Vogue, Chris Isaak dirigido pelo gênio Bruce Webber em Wicked Game, US3 e sua estética de rap com cool jazz, C and C Music Factory e seus grafismos extra cool, o Soul To Soul que dava toda a atenção ao visual, e que tinha um líder que se assinava Jazzie B., Bryan Ferry e a elegãncia espanhola de Mamouna, um clip de luxo ostensivo e de cafonália estilosa, e principalmente o clip símbolo da época: Being Boring dos Pet Shop Boys, hino ao prazer da carne, a beleza de jovens ricos, a pele perfeita. Being Boring é um tratado filosófico. E é mais um de Bruce Webber ( que fez um doc sobre Chet Baker que é o sublime levado ao inferno ).
É nesse começo de anos 90 que temos o auge da moda skate e surf. De luxo, claro. Bermudões e camisas coloridas, leves e soltas. Como disse, o que podemos falar desse tempo é sempre MODA E VISUAL. NBA e seus tênis. Chicago Bulls e Hornets.
Valoriza-se o jazz, por seu aspecto visual e não por sua revolução; valoriza-se a escrita de Scott Fitzgerald, Auden, Wilde, Forster, Evelyn Waugh, por causa de seus ambientes chic, sua decadência bonita, seu "visual" elegante.
No cinema se fala em Audrey e em Montgomery Clift. Porque? O visual, lógico!
Cinema de Terry Gillian, de Bertolucci, de Ridley Scott e de David Lynch. Experiências visuais de Soderbergh e de Van Sant. Imagem. Tudo é imagem.
Mas essa "década" dura apenas 6 anos.
O grunge assassina tudo isso e traz a feiúra metal unida aos valores hippies. Ser tosco e sujo se torna padrão. Os clips partem para a tosqueira ( Loser e Even Flow ). Até as bandas inglesas deixam de ter "visual" e os eletros passam a cultivar o não-visual. A excessão é o Prodigy.
Todo esse glamour jamais seria recuperado. Grupos de rock hoje têm sempre a imagem dos anos 70 em mente. Seja punk, metal ou glitter. Toda banda flutua entre Led Zeppelin, Clash ou T.Rex.
Os clips da época são recuperados, de modo muito mais histérico e raso, pelo pop: Black Eyed Peas, Beyoncé ou Shakira. Mas é como comparar Madonna com Lady Gaga.
Foram anos muito divertidos! O que importava ( como diz Being Boring ) era ter 19 anos, porque aos 19 nada enche o saco, tudo é bonito e voce nunca é chato.
PS: Esqueci do cara símbolo da época, e que foi massacrado no tempo de grunges "feios": George Michael e seu clip Freedom. Lá estão Cindy e Linda e Claudia e Naomi. Lá tudo é bonito e sexy. Lá a vida se parece com jazz e Audrey e Clift e um poema de Auden.
E tudo acabou em policia e banheiro.....
Entendeu?
A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER- MILAN KUNDERA
É o vômito de uma derrota. Mas Kundera não escreve vomitando. Ele é autor que escreve sempre sob-controle, sua escrita é estranhamente fria. Isso explica seu imenso sucesso em 1984/85. Em tempo blasé, nada é mais aparentemente blasé que este livro. Suas frases são como objetos de estilo em apto moderno.
Mas é só aparência. Por trás de suas frases distantes há a emoção dilacerante de uma derrota. A derrota da mais linda das revoluções: a primavera de Praga. Movimento libertário ( feito de sexo e arte ) que foi esmagado pelos tanques russos e se tornou no Ocidente uma palhaçada de marketing. A primavera de 68 nada teve de midiática. Foi o sonho de um socialismo humanista. De uma politica não científica. Foi absoluto desastre. Traumatizante derrota.
No livro Teresa é o símbolo do povo tcheco. Ela acorda para a vida tarde demais, é usada e entra em noia. Termina descobrindo a paz de se "cultivar seu jardim" ( como dizia Voltaire ).
A livre Sabrina é o espírito de 68. Ela a nada se prende e bate asas, vai à California, onde assiste a derrota como estrangeira em terra de estrangeiros.
Mas quem é Thomas? Esse médico que se humaniza e parece ser derrotado, mas que também aprende a cultivar seu jardim? Thomas é Milan? Thomas é o leitor? Não importa. Ele é um médico, um homem feito para ajudar, para curar, para servir. A escrita de Kundera é curativa. Neste relato ele se cura e tenta curar almas que se tornaram estéreis.
Há uma frase de antologia: " Se o paraíso é um círculo, onde o tempo não se esvai mas é repetição de prazer, os cães, em sua doce e não-ambiciosa rotina, vivem no Eden do não-tempo." Esse cão é Karenin ( homenagem a Anna Karenina ). Morre com um tumor.
O nome Karenin não é em vão. Este livro tem muito em comum com a obra-prima de Tolstoi ( o melhor livro já escrito? ). A vida de Kitty e Lievin antecipa a vida de Thomas e Teresa. Tolstoi adivinhou a vida possível.
Hoje nada é mais fora de moda que Kundera. Ele não é exagerado. Não é drogado ou sujo. É sempre elegante, distante, preciso.
O filme de Philip Kauffman ( diretor da obra-prima Os Eleitos ) é tão bom quanto o livro. Tem Daniel Day Lewis e Juliette Binoche ( perfeitos ). Quem amou o livro amará o filme.
Mas é só aparência. Por trás de suas frases distantes há a emoção dilacerante de uma derrota. A derrota da mais linda das revoluções: a primavera de Praga. Movimento libertário ( feito de sexo e arte ) que foi esmagado pelos tanques russos e se tornou no Ocidente uma palhaçada de marketing. A primavera de 68 nada teve de midiática. Foi o sonho de um socialismo humanista. De uma politica não científica. Foi absoluto desastre. Traumatizante derrota.
No livro Teresa é o símbolo do povo tcheco. Ela acorda para a vida tarde demais, é usada e entra em noia. Termina descobrindo a paz de se "cultivar seu jardim" ( como dizia Voltaire ).
A livre Sabrina é o espírito de 68. Ela a nada se prende e bate asas, vai à California, onde assiste a derrota como estrangeira em terra de estrangeiros.
Mas quem é Thomas? Esse médico que se humaniza e parece ser derrotado, mas que também aprende a cultivar seu jardim? Thomas é Milan? Thomas é o leitor? Não importa. Ele é um médico, um homem feito para ajudar, para curar, para servir. A escrita de Kundera é curativa. Neste relato ele se cura e tenta curar almas que se tornaram estéreis.
Há uma frase de antologia: " Se o paraíso é um círculo, onde o tempo não se esvai mas é repetição de prazer, os cães, em sua doce e não-ambiciosa rotina, vivem no Eden do não-tempo." Esse cão é Karenin ( homenagem a Anna Karenina ). Morre com um tumor.
O nome Karenin não é em vão. Este livro tem muito em comum com a obra-prima de Tolstoi ( o melhor livro já escrito? ). A vida de Kitty e Lievin antecipa a vida de Thomas e Teresa. Tolstoi adivinhou a vida possível.
Hoje nada é mais fora de moda que Kundera. Ele não é exagerado. Não é drogado ou sujo. É sempre elegante, distante, preciso.
O filme de Philip Kauffman ( diretor da obra-prima Os Eleitos ) é tão bom quanto o livro. Tem Daniel Day Lewis e Juliette Binoche ( perfeitos ). Quem amou o livro amará o filme.
ALTMAN/ LEONE/ FORD/ STEVE MCQUEEN/ MAX VON SYDOW
ERA UMA VEZ NO OESTE de Sergio Leone com Henry Fonda, Jason Robards, Claudia Cardinale e Charles Bronson
Impressiona e muito. Raros filmes são tão bonitos de se olhar. Cada gesto e cada ângulo de tomada é um primor. Apesar de por vezes cansar ( é longo e lento ) não conseguimos desistir de o acompanhar. Seus primeiros trinta minutos são das melhores coisas ( em termos de diversão ) da história da arte. O final deixa saudades. Após ver este filme, o Bastardos de Tarantino lhe parecerá bem menos atraente. Nota DEZ!!!!!!!!!!!!!
ONDE OS HOMENS SÃO HOMENS de Robert Altman com Warren Beatty e Julie Christie
Foi Pauline Kael quem disse que este filme é como viagem de ópio. Revendo-o agora percebo isso. As vozes vêm não se sabe de onde, todos os diálogos parecem distantes, murmurosos. As imagens são embaçadas, desfocadas, estrábicas. Tudo no filme se parece com sonho, é um tipo de longo devaneio sobre o fracasso e sobre a melancolia de se viver sem ninguém. Beatty ( excelente ) é um pseudo-malandro, que chega a vila do Alasca ( o filme tem muita neve ) e monta um bordel. Interesses capitalistas irão lhe destruir. Warren está comovente, seu tipo é de uma doçura/malandrice cativante. Julie faz uma puta pretensiosa e esperta. Sem coração. A trilha sonora é feita por canções de Leonard Cohen. São amargas baladas sobre a solidão e a estrada. Cortam nosso coração, são de uma beleza absurda. Todo o filme é como a música de Cohen: bela preparação para o fracasso. E o filme, feito no auge do sucesso pop de Altman, foi um proposital fiasco. Altman desejou destruir sua chance de ser mainstream. Conseguiu. O filme é das coisas mais originais já feitas. Nota 8.
O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA de John Ford com James Stewart, John Wayne, Vera Miles, Lee Marvin e Edmond O'Brien
Este, que é o último grande filme de Ford, trata de dois tipos de herói. O individualista e o comunitário. Stewart é o senador que vai a enterro de velho amigo. Conta-se sua história. De como ele foi um jovem advogado e de como foi ajudado por Wayne, que faz o solitário e duro herói cowboy. O filme chora o fim desse tipo de homem, o homem que fez os EUA. Stewart é o homem politico, o homem da lei, do futuro. Há muito de elegia neste filme e tem a famosa frase: Se a lenda é melhor, que se publique a lenda! Mas não é um tipo de western que empolgue. Ele é muito mais uma revisão de todo o Ford que uma obra vital e criativa. De qualquer modo, é adorado por todos os fãs de western. John Wayne está soberbo e o filme peca por usá-lo menos do que queríamos. A cena do incendio é o ponto alto. Nota 7.
FUGINDO DO INFERNO de John Sturges com Steve McQueen, James Garner, Charles Bronson, Richard Attenborough, James Coburn
O rei do cool se tornou rei neste filme. Steve McQueen faz um prisioneiro de campo nazista que é conhecido por ser o rei do cooler ( solitária ). O filme é isso, prisioneiros que tentam fugir e alemães que tentam impedir. Dirigido com profissionalismo, o filme vai crescendo conforme avança e sua hora final é extremamente empolgante. É mais um dos top 20 de Tarantino. É este tipo de filme que faz falta hoje: muito popular, simples, sem nenhum tipo de enfeite, mas de produção cara, divertido, sem grandes tolices, que vale cada centavo gasto. É dos filmes mais queridos dos anos 60 e foi grande sucesso. Nota 8.
O MENINO E O SEU CACHORRO de LQ Jones com Don Johnson e Jason Robards
Como lançam este dvd? É um muito obscuro filme doido dos anos 70 que exemplifica o ponto de piração que a época chegou. Em mundo do futuro, destruído pela radiação, um garoto anda pelo deserto com seu cão. O cão fala, e fala como um muito prático e ranzinza conselheiro. O garoto o usa para conseguir mulheres, que são estupradas e descartadas. O cão quer comida, e no fim o garoto lhe dá uma moça para comer. Um pesadelo mal feito e muito doentio. Nota 1.
ANUSKA de Francisco Ramalho Jr. com Francisco Cuoco e Jairo Arco e Flexa
Um jornalista se divide entre o mundo politizado do jornal e o mundo da moda de sua paixão, Anuska. O tema é bom, o filme é inacreditávelmente amador. Simplesmente o diretor não sabe como contar uma história. E ainda tem patética homenagem a Jules et Jim!!!!! ZERO!!!!!
O LOBO DA ESTEPE de Fred Haines com Max Von Sydow e Dominique Sanda
Baseado em Hesse e tendo o bergmaniano Sydow no elenco. O ator é o certo, o filme é errado. Não li o livro, mas dá pra notar que tudo se torna confusão neste filme que não tem uma só cena criativa. Um blá blá blá sem fim. Andam por bares e cabarets, mulher oferece sexo e por aí vai. Incompreensível. Nota ZERO
THE HIT de Stephen Frears com Terence Stamp, Tim Roth e John Hurt
Grande Frears!!!! O talentoso diretor de Ligações Perigosas, fez em 1984 este muito bom policial. É sobre dedo-duro que é caçado na Espanha por enviados do dedurado. O filme é a viagem pela Espanha dos dois assassinos e do capturado. Conseguirão executá-lo em Paris? Os três atores estão excelentes. Stamp, ex-sex symbol inglês que optou pela boemia, faz um blasé dedo-duro. Nas mãos dos executores, ele jamais demonstra medo. Hurt faz o calado matador. Frio. E Roth, bem jovem, é o bandidinho novato, bobo e afobado. O filme é diversão de primeira linha ( apesar de barato ). Frears sabe tudo. Nota 7.
DUPLO SUICIDIO EM AMIJIMA de Masahiro Shinoda
A nouvelle vague de Godard fez com que brotassem nouvelles vagues mundo afora ( foi o último movimento em cinema a fazer isso ). Tivemos uma nouvelle alemã, uma brasileira, australiana e até a japonesa. Na Alemanha ela se caracterizava pelo seu esquerdismo radical, e no Japão por sua fascinação por morte e sexo. A nouvelle vague made in Japan é toda calcada nisso: sexo e morte. Este filme fascinante e original trata disso. Uma paixão sexual que leva a morte. As imagens são belíssimas e desde seu incio vemos que o filme é especial. Nota 7.
FILHOS DE HIROSHIMA de Kaneto Shindo
Moça volta a Hiroshima. Estamos em 1951. A cidade é ainda uma cicatriz. Ruínas e gente abandonada. O filme é quase um documentário. Fortemente influenciado pelo neo-realismo italiano. Nota 5.
O VINGADOR de F.Gary Gray com Vin Diesel
Continuo tentando. Este trata de policial que tem a esposa morta por traficante e parte pra vingança. As cenas de ação são tão rápidas que mal se vê o que acontece. Mas o filme não é ruim. A gente assiste sem sentir tédio ou sono. O único problema é que depois que ele termina nada resta para ser recordado. Será que ninguém sabe mais escrever diálogos bons em filmes de ação??? Nota 5.
RAW DEAL de Anthony Mann com Claire Trevor e Dennis O'Keefe
Um dos primeiros filmes de Mann, é um noir barato que funciona bem. Um cara foge da prisão com duas mulheres: sua garota e a outra. Uma é do mal, a outra é do bem. Com trama tão frágil, é construído um sólido filme sem uma cena fraca. Rápido e viril. Cinema noir com suas sombras, suas noites quietas e seus tipos perdidos. Muito cigarro e carrões. Uma tremenda diversão! John Alton fez a foto contrastada. Nota 7.
Impressiona e muito. Raros filmes são tão bonitos de se olhar. Cada gesto e cada ângulo de tomada é um primor. Apesar de por vezes cansar ( é longo e lento ) não conseguimos desistir de o acompanhar. Seus primeiros trinta minutos são das melhores coisas ( em termos de diversão ) da história da arte. O final deixa saudades. Após ver este filme, o Bastardos de Tarantino lhe parecerá bem menos atraente. Nota DEZ!!!!!!!!!!!!!
ONDE OS HOMENS SÃO HOMENS de Robert Altman com Warren Beatty e Julie Christie
Foi Pauline Kael quem disse que este filme é como viagem de ópio. Revendo-o agora percebo isso. As vozes vêm não se sabe de onde, todos os diálogos parecem distantes, murmurosos. As imagens são embaçadas, desfocadas, estrábicas. Tudo no filme se parece com sonho, é um tipo de longo devaneio sobre o fracasso e sobre a melancolia de se viver sem ninguém. Beatty ( excelente ) é um pseudo-malandro, que chega a vila do Alasca ( o filme tem muita neve ) e monta um bordel. Interesses capitalistas irão lhe destruir. Warren está comovente, seu tipo é de uma doçura/malandrice cativante. Julie faz uma puta pretensiosa e esperta. Sem coração. A trilha sonora é feita por canções de Leonard Cohen. São amargas baladas sobre a solidão e a estrada. Cortam nosso coração, são de uma beleza absurda. Todo o filme é como a música de Cohen: bela preparação para o fracasso. E o filme, feito no auge do sucesso pop de Altman, foi um proposital fiasco. Altman desejou destruir sua chance de ser mainstream. Conseguiu. O filme é das coisas mais originais já feitas. Nota 8.
O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA de John Ford com James Stewart, John Wayne, Vera Miles, Lee Marvin e Edmond O'Brien
Este, que é o último grande filme de Ford, trata de dois tipos de herói. O individualista e o comunitário. Stewart é o senador que vai a enterro de velho amigo. Conta-se sua história. De como ele foi um jovem advogado e de como foi ajudado por Wayne, que faz o solitário e duro herói cowboy. O filme chora o fim desse tipo de homem, o homem que fez os EUA. Stewart é o homem politico, o homem da lei, do futuro. Há muito de elegia neste filme e tem a famosa frase: Se a lenda é melhor, que se publique a lenda! Mas não é um tipo de western que empolgue. Ele é muito mais uma revisão de todo o Ford que uma obra vital e criativa. De qualquer modo, é adorado por todos os fãs de western. John Wayne está soberbo e o filme peca por usá-lo menos do que queríamos. A cena do incendio é o ponto alto. Nota 7.
FUGINDO DO INFERNO de John Sturges com Steve McQueen, James Garner, Charles Bronson, Richard Attenborough, James Coburn
O rei do cool se tornou rei neste filme. Steve McQueen faz um prisioneiro de campo nazista que é conhecido por ser o rei do cooler ( solitária ). O filme é isso, prisioneiros que tentam fugir e alemães que tentam impedir. Dirigido com profissionalismo, o filme vai crescendo conforme avança e sua hora final é extremamente empolgante. É mais um dos top 20 de Tarantino. É este tipo de filme que faz falta hoje: muito popular, simples, sem nenhum tipo de enfeite, mas de produção cara, divertido, sem grandes tolices, que vale cada centavo gasto. É dos filmes mais queridos dos anos 60 e foi grande sucesso. Nota 8.
O MENINO E O SEU CACHORRO de LQ Jones com Don Johnson e Jason Robards
Como lançam este dvd? É um muito obscuro filme doido dos anos 70 que exemplifica o ponto de piração que a época chegou. Em mundo do futuro, destruído pela radiação, um garoto anda pelo deserto com seu cão. O cão fala, e fala como um muito prático e ranzinza conselheiro. O garoto o usa para conseguir mulheres, que são estupradas e descartadas. O cão quer comida, e no fim o garoto lhe dá uma moça para comer. Um pesadelo mal feito e muito doentio. Nota 1.
ANUSKA de Francisco Ramalho Jr. com Francisco Cuoco e Jairo Arco e Flexa
Um jornalista se divide entre o mundo politizado do jornal e o mundo da moda de sua paixão, Anuska. O tema é bom, o filme é inacreditávelmente amador. Simplesmente o diretor não sabe como contar uma história. E ainda tem patética homenagem a Jules et Jim!!!!! ZERO!!!!!
O LOBO DA ESTEPE de Fred Haines com Max Von Sydow e Dominique Sanda
Baseado em Hesse e tendo o bergmaniano Sydow no elenco. O ator é o certo, o filme é errado. Não li o livro, mas dá pra notar que tudo se torna confusão neste filme que não tem uma só cena criativa. Um blá blá blá sem fim. Andam por bares e cabarets, mulher oferece sexo e por aí vai. Incompreensível. Nota ZERO
THE HIT de Stephen Frears com Terence Stamp, Tim Roth e John Hurt
Grande Frears!!!! O talentoso diretor de Ligações Perigosas, fez em 1984 este muito bom policial. É sobre dedo-duro que é caçado na Espanha por enviados do dedurado. O filme é a viagem pela Espanha dos dois assassinos e do capturado. Conseguirão executá-lo em Paris? Os três atores estão excelentes. Stamp, ex-sex symbol inglês que optou pela boemia, faz um blasé dedo-duro. Nas mãos dos executores, ele jamais demonstra medo. Hurt faz o calado matador. Frio. E Roth, bem jovem, é o bandidinho novato, bobo e afobado. O filme é diversão de primeira linha ( apesar de barato ). Frears sabe tudo. Nota 7.
DUPLO SUICIDIO EM AMIJIMA de Masahiro Shinoda
A nouvelle vague de Godard fez com que brotassem nouvelles vagues mundo afora ( foi o último movimento em cinema a fazer isso ). Tivemos uma nouvelle alemã, uma brasileira, australiana e até a japonesa. Na Alemanha ela se caracterizava pelo seu esquerdismo radical, e no Japão por sua fascinação por morte e sexo. A nouvelle vague made in Japan é toda calcada nisso: sexo e morte. Este filme fascinante e original trata disso. Uma paixão sexual que leva a morte. As imagens são belíssimas e desde seu incio vemos que o filme é especial. Nota 7.
FILHOS DE HIROSHIMA de Kaneto Shindo
Moça volta a Hiroshima. Estamos em 1951. A cidade é ainda uma cicatriz. Ruínas e gente abandonada. O filme é quase um documentário. Fortemente influenciado pelo neo-realismo italiano. Nota 5.
O VINGADOR de F.Gary Gray com Vin Diesel
Continuo tentando. Este trata de policial que tem a esposa morta por traficante e parte pra vingança. As cenas de ação são tão rápidas que mal se vê o que acontece. Mas o filme não é ruim. A gente assiste sem sentir tédio ou sono. O único problema é que depois que ele termina nada resta para ser recordado. Será que ninguém sabe mais escrever diálogos bons em filmes de ação??? Nota 5.
RAW DEAL de Anthony Mann com Claire Trevor e Dennis O'Keefe
Um dos primeiros filmes de Mann, é um noir barato que funciona bem. Um cara foge da prisão com duas mulheres: sua garota e a outra. Uma é do mal, a outra é do bem. Com trama tão frágil, é construído um sólido filme sem uma cena fraca. Rápido e viril. Cinema noir com suas sombras, suas noites quietas e seus tipos perdidos. Muito cigarro e carrões. Uma tremenda diversão! John Alton fez a foto contrastada. Nota 7.
ILUSTRADA PÓS-TUDO- MARCOS AUGUSTO GONÇALVES
50 anos de Ilustrada.
Meu primeiro jornal foi o JT ( Jornal da Tarde ). Telmo Martino foi meu primeiro jornalista herói. Neste livro falam dele: Telmo mostrou a São Paulo o que era um aristocrata de Botafogo. Ele tirava uma de tudo. Dava apelidos que pegavam. Detestava tudo que não era Botafogo. Eram os anos 70. E nessa época, culturalmente, SP não existia. O BR era Rio e Bahia.
Tarso de Castro foi pra Folha. E o ar começou a circular por lá. Depois vieram Nelson Rodrigues e Paulo Francis. E quando chegam os anos 80 vem a molecada da USP. Molecada mesmo. Gente de 22 anos botando banca de diretor. Podia-se escrever sobre tudo. Sem a pressão do mercadão. Como fala Pepe Escobar, era um jato na mão de um moleque.
Não havia infra. Não tinha nem máquina de escrever pra todo mundo. Nem ar condicionado. nem salário digno. Mas se trabalhava por tesão. Até 14 horas por dia.
Já falei muito sobre a cena paulista desse tempo. Meu bode de sair de noite hoje é o tédio de quem conheceu essa noite de 82/85. No Carbono voce assistia o filme Performance e depois dançava tecno. Enquanto um cara grafitava a parede ao seu lado e outro se picava no banheiro. Voce nunca sabia o que esperar daquela noite. Mas sabia que sempre ia acontecer. Era o despertar pós-repressão. Louca euforia. A gente tinha a absoluta certeza de ser absolutamente moderno. Ninguém era mais moderno que eu. Um ego do tamanho de uma estrela. E todo mundo queria fazer arte.
No Satã cuspiam repolho na gente. E alguns iam de dinner jacket ( voce chama de smoking? ). Rolavam umas poesias que eram vaiadas. Bandas punks e dancinhas pop. Gays montados e drogas a vontade. Na rua voce era abordado por bêbados decadentes. Video-makers. Tirava-se a roupa no porão. Vomitava-se. Depois do Satã tudo na noite me parece careta.
Mas havia o luxo dos jardins. E se é pra se ter luxo, tem de se ter garçon. Toda balada tem de ter garçon e chapelaria. E banda tocando no fim de noite. E café da manhã quando amanhece para os que ficaram. Antes de sair voce cria seu tipo. E o tipo que mais faz sucesso é o suicida terminal. Todos são Rimbauds.
Gente vinha de Paris ou de Toronto para cair na noite de SP. Era o underground do mundo. Um esgoto com cheiro de maconha e de Chanel 5. Quanta frescura!!!! Eu cheguei a sair com um ramo de orquídeas nas mãos!!! Pra que e porque? Pourquoi pas? Eu tava triste e era bacana ser triste e raivoso.
A Ilustrada ajudou a criar tudo isso. Os caras chegaram botando banca e todo mundo lia. Não havia internet, então voce lia o papel. E era bombardeado por informação afirmativa. Os caras partiam pro pau. Pau em Caetano, pau na tv, pau no cinema brasileiro, pau na mpb, pau puro. As reações eram a base de socos. Voce tinha de ler tudo isso. Voce não ia na internet procurar o que te interessa. Voce tinha de ver e absorver tudo. E os caras falavam muito. O texto era longo, com letras pequenas. E o design do jornal mudava todo dia. O título podia vir em japonês, colorido, no rodapé ou à esquerda. Podia até não ter título. E os que escreviam foram os melhores.
Fico assombrado com o fato de que alguns textos que li a mais de vinte e cinco anos ainda me acompanham. Tem no livro um texto de Flavio Rangel que saiu em julho de 78 !!!!! E eu me lembrava dele!!!! Fala do bebê de proveta e de Marx, Freud, Einstein. Do quanto o homem tem diminuido. Fala do bilhete que George Sanders ( ator ) deixou ao se suicidar ( "encheu" ). E tem uma frase que mudou minha cabeça: " Deus morreu, Marx morreu, Freud morreu, e eu mesmo não estou passando muito bem."
E nos anos 80 chegam os meninos recém formados. Caio Túlio Costa, Otávio Frias, Matinas Suzuki ( um gênio! ), Marcos Augusto Gonçalves, Inácio Araújo, Barbara Gancia, Pepe Escobar. Os caras botaram Foucault, Lacan e Hannah Arendt no jornal. Faziam crítica de um disco pop citando Cioran e Kierkegaard. Misturavam Clash e Blondie com Faulkner e Derrida. Era um jornalismo elitista, esnobe, ultra culto e diário. Quando Chet Baker morreu, Matinas podia escrever dezenas de laudas sobre seu amor por Baker. E como eles escreviam!!!!
Foi o tempo em que Humphrey Bogart se tornou moda. Assim como o cinema noir, a nouvelle vague e os livros policiais baratos. Mas eles misturavam esse pop com a turma alemã ( Adorno ), com as novas bandas inglesas ( foram eles que inventaram a moda de que Londres é o máximo ), a moda japonesa ( Comme les Garçons ) e a tecnologia de ponta. Era um futurismo que unia tempos. Tudo podia e eu ia junto. A Ilustrada era educação que pirava.
Eles atacavam o Estadão, o Rio, a Bahia, e adoravam jazz, cinema e beats.
Ruy Castro e Sergio Augusto vieram. Já veteranos, se sentiram em casa. Sergio foi o melhor crítico de cinema que já li. Me ensinou a amar musicais e westerns. Ruy contava histórias sobre BB, MM e CC. E sobre Billie Holliday e Frank Sinatra. Tudo podia desde que fosse trés chic!!!
Texto que não esqueci ( de agosto de 85 ) by Matinas Suzuki ( o grande ):
"Chamo de juveniilismo a um disperso, mas cada vez mais popular, movimento de negativismo que se espalha pelos jovens de SP."
E vai Matinas por montes de laudas discorrendo sobre a "moda" paulista de se ser melancólico, de se negar tudo, de se vestir de preto. Ele cita de Cyd Charisse à Lyotard, do rock londrino à Lebrun, e chega a bela conclusão: tudo é uma forma oca de sedução. E em mundo de sedutores, em que todos tentam seduzir, não pode haver contato real, pois inexiste o seduzido. E tome Helio Oiticica, Arrigo Barnabé, Julio Bressane. E tome eu lendo tudo isso, esse monte de referências e indo procurar saber o porque de Matinas citar Oiticica, quem era esse tal de Lyotard e porque Cyd era tão fascinante.
Coluna de Paulo Francis, 1986. Sei ela decorada.
" Adoro Pd James e Rendell, mas nada é melhor que Proust e Stendhal.....a humanidade não resiste a muita verdade.....amigos profundos só os temos na nossa geração.....leio a noite e gostaria de ir para o sul no inverno, isto é Saul Bellow, um poeta." Francis, meu patriarca, vai nesse texto de Fidel a Janio, de Edmund Wilson a Wall Street, de Eliot a Pinter. Quem lia isso? Eu lia, meus amigos da FIAM liam, todo mundo comentava todo dia. Uns odiavam, outros amavam, todos liam e reagiam. E Francis atacava baianos, Lula e o feminismo. O que ele teria a dizer de Tiririca e de Chavez?
Caetano na Folha falando de Francis: É uma bicha amarga. Bonecas travadas são danadinhas.
Como eu disse, se brigava muito. O mercado ainda não nos disciplinara.
Os dez melhores westerns por:
Paulo Francis: Warlock de Dymytrick ( vou escrever só o number one de cada um ), Sergio Augusto: Rastros de Ódios de Ford, Inacio Araújo: Onde Começa o Inferno de Hawks, Ruy Castro: O Homem que Matou o Facínora de Ford, Pepe Escobar: Johnny Guitar, José Trajano: Shane, Renato Pompeu: Winchester 73.
Perry White ( Casseta ) escrevia lá. Em 86 ele deu de título: AJOELHOU TEM DE GODARD.
E eis o irritante e glamuroso Pepe. O cara que é imitado por todo crítico moderninho até hoje.
Eu odiava Pepe Escobar. Tudo o que ele escrevia ia contra o que eu pensava. Basta ver isso:
Em julho de 84 ele diz que Michael Jackson é Jesus Cristo. Que o filho Dele voltou à Terra como neguinho gênio, com ginga e com mensagem de prazer. Hoje eu acho esse texto maravilhoso, mas na época eu não tinha o humor para entender. Pepe era assim. Ao escrever sobre o Clash citava anarquismo e Lenine, ao falar do The Who tascava um Cioran e um Camus. Para ele a noite de SP era como Londres em 67, aquela coisa Mick e Marianne Faithfull, a vida era meio Paris 1925, meio Montmartre e Cocteau.
Texto dele: " No principio era o tédio. Depois foi criado o Punk."
É fantástico o estilo de Pepe! Leiam:
"...Imagem congelada. Foco. Guitarrista abre linha de fogo. Mergulho na pressão. É a bateria. Executores/carrascos. Música nua acariciada por velocidade. Júbilo maníaco...."
Isso é crítica musical. É esse o modo de ouvir e sentir que mais me influenciou. Mesmo que naquele tempo eu tanto o odiasse ( porque não o entendia ).
Mais dele:
"...Johnny Rotten dissolve todas as contradições pelo abandono. Lautreamont e Rimbaud..."
E havia Nicolau Sevcenko. Isto ele escreveu em junho de 86. E me marcou para sempre ( também a decorei )
" Saiu... os corações mais trêfegos já podem se tranquilizar, podem jogar no lixo todo o estoque de valium e diempax, dar folga a unhas e cigarros. Já se pode trocar a insonia pelo pesadelo: até que enfim saiu o novo disco dos Smiths!......." E para falar desse disco Sevcenko fala de Nietzsche, de Yeats e de muito Oscar Wilde.
Vem Marcelo Coelho, que em entrevista de agora ( 2008 ) diz que a história realmente terminou. Que tudo em arte já foi feito, não há mais o que possa chocar. Que só nos resta a eterna repetição, citações sobre citações.....
E é IMPOSSÍVEL outro momento como a da Ilustrada dos 80. Pois além de a arte ter se tornado pura mercadoria, a pulverização da informação tornou inviável um tal agrupamento de talento.
O cara que quer ler sobre Clash vai ler só sobre Clash. Não vai querer saber nada sobre Adorno ou anarquismo. A informação é hoje só informação, não mais educação.
FIM DA HISTÓRIA.
Franceses, agora, fazem greves e protestos. Sempre eles.
Mas veja: eles não pedem uma nova politica, um novo mundo, uma revolução. Pedem que tudo fique como está. Eles pregam a não-mudança.
Em todo movimento, hoje, há o medo. Medo de sonhar e de errar.
A história acabou. O mundo é isso. Vivemos o máximo dos máximos. Todo o nosso caminhar era para chegar aqui.
Os anos 80 foram a constatação desse fim.
Lendo-os hoje os acho arrogantes, tolos, esnobes, anglófilos, e surpresa, escreviam mal, sem clareza.
Mas tinham coragem, brilho, idealismo, ingenuidade, fé no leitor, FÉ NA INTELIGÊNCIA DO LEITOR. O Jornal não devia ser útil. Devia ser vivo. E era. Como era.
Meu primeiro jornal foi o JT ( Jornal da Tarde ). Telmo Martino foi meu primeiro jornalista herói. Neste livro falam dele: Telmo mostrou a São Paulo o que era um aristocrata de Botafogo. Ele tirava uma de tudo. Dava apelidos que pegavam. Detestava tudo que não era Botafogo. Eram os anos 70. E nessa época, culturalmente, SP não existia. O BR era Rio e Bahia.
Tarso de Castro foi pra Folha. E o ar começou a circular por lá. Depois vieram Nelson Rodrigues e Paulo Francis. E quando chegam os anos 80 vem a molecada da USP. Molecada mesmo. Gente de 22 anos botando banca de diretor. Podia-se escrever sobre tudo. Sem a pressão do mercadão. Como fala Pepe Escobar, era um jato na mão de um moleque.
Não havia infra. Não tinha nem máquina de escrever pra todo mundo. Nem ar condicionado. nem salário digno. Mas se trabalhava por tesão. Até 14 horas por dia.
Já falei muito sobre a cena paulista desse tempo. Meu bode de sair de noite hoje é o tédio de quem conheceu essa noite de 82/85. No Carbono voce assistia o filme Performance e depois dançava tecno. Enquanto um cara grafitava a parede ao seu lado e outro se picava no banheiro. Voce nunca sabia o que esperar daquela noite. Mas sabia que sempre ia acontecer. Era o despertar pós-repressão. Louca euforia. A gente tinha a absoluta certeza de ser absolutamente moderno. Ninguém era mais moderno que eu. Um ego do tamanho de uma estrela. E todo mundo queria fazer arte.
No Satã cuspiam repolho na gente. E alguns iam de dinner jacket ( voce chama de smoking? ). Rolavam umas poesias que eram vaiadas. Bandas punks e dancinhas pop. Gays montados e drogas a vontade. Na rua voce era abordado por bêbados decadentes. Video-makers. Tirava-se a roupa no porão. Vomitava-se. Depois do Satã tudo na noite me parece careta.
Mas havia o luxo dos jardins. E se é pra se ter luxo, tem de se ter garçon. Toda balada tem de ter garçon e chapelaria. E banda tocando no fim de noite. E café da manhã quando amanhece para os que ficaram. Antes de sair voce cria seu tipo. E o tipo que mais faz sucesso é o suicida terminal. Todos são Rimbauds.
Gente vinha de Paris ou de Toronto para cair na noite de SP. Era o underground do mundo. Um esgoto com cheiro de maconha e de Chanel 5. Quanta frescura!!!! Eu cheguei a sair com um ramo de orquídeas nas mãos!!! Pra que e porque? Pourquoi pas? Eu tava triste e era bacana ser triste e raivoso.
A Ilustrada ajudou a criar tudo isso. Os caras chegaram botando banca e todo mundo lia. Não havia internet, então voce lia o papel. E era bombardeado por informação afirmativa. Os caras partiam pro pau. Pau em Caetano, pau na tv, pau no cinema brasileiro, pau na mpb, pau puro. As reações eram a base de socos. Voce tinha de ler tudo isso. Voce não ia na internet procurar o que te interessa. Voce tinha de ver e absorver tudo. E os caras falavam muito. O texto era longo, com letras pequenas. E o design do jornal mudava todo dia. O título podia vir em japonês, colorido, no rodapé ou à esquerda. Podia até não ter título. E os que escreviam foram os melhores.
Fico assombrado com o fato de que alguns textos que li a mais de vinte e cinco anos ainda me acompanham. Tem no livro um texto de Flavio Rangel que saiu em julho de 78 !!!!! E eu me lembrava dele!!!! Fala do bebê de proveta e de Marx, Freud, Einstein. Do quanto o homem tem diminuido. Fala do bilhete que George Sanders ( ator ) deixou ao se suicidar ( "encheu" ). E tem uma frase que mudou minha cabeça: " Deus morreu, Marx morreu, Freud morreu, e eu mesmo não estou passando muito bem."
E nos anos 80 chegam os meninos recém formados. Caio Túlio Costa, Otávio Frias, Matinas Suzuki ( um gênio! ), Marcos Augusto Gonçalves, Inácio Araújo, Barbara Gancia, Pepe Escobar. Os caras botaram Foucault, Lacan e Hannah Arendt no jornal. Faziam crítica de um disco pop citando Cioran e Kierkegaard. Misturavam Clash e Blondie com Faulkner e Derrida. Era um jornalismo elitista, esnobe, ultra culto e diário. Quando Chet Baker morreu, Matinas podia escrever dezenas de laudas sobre seu amor por Baker. E como eles escreviam!!!!
Foi o tempo em que Humphrey Bogart se tornou moda. Assim como o cinema noir, a nouvelle vague e os livros policiais baratos. Mas eles misturavam esse pop com a turma alemã ( Adorno ), com as novas bandas inglesas ( foram eles que inventaram a moda de que Londres é o máximo ), a moda japonesa ( Comme les Garçons ) e a tecnologia de ponta. Era um futurismo que unia tempos. Tudo podia e eu ia junto. A Ilustrada era educação que pirava.
Eles atacavam o Estadão, o Rio, a Bahia, e adoravam jazz, cinema e beats.
Ruy Castro e Sergio Augusto vieram. Já veteranos, se sentiram em casa. Sergio foi o melhor crítico de cinema que já li. Me ensinou a amar musicais e westerns. Ruy contava histórias sobre BB, MM e CC. E sobre Billie Holliday e Frank Sinatra. Tudo podia desde que fosse trés chic!!!
Texto que não esqueci ( de agosto de 85 ) by Matinas Suzuki ( o grande ):
"Chamo de juveniilismo a um disperso, mas cada vez mais popular, movimento de negativismo que se espalha pelos jovens de SP."
E vai Matinas por montes de laudas discorrendo sobre a "moda" paulista de se ser melancólico, de se negar tudo, de se vestir de preto. Ele cita de Cyd Charisse à Lyotard, do rock londrino à Lebrun, e chega a bela conclusão: tudo é uma forma oca de sedução. E em mundo de sedutores, em que todos tentam seduzir, não pode haver contato real, pois inexiste o seduzido. E tome Helio Oiticica, Arrigo Barnabé, Julio Bressane. E tome eu lendo tudo isso, esse monte de referências e indo procurar saber o porque de Matinas citar Oiticica, quem era esse tal de Lyotard e porque Cyd era tão fascinante.
Coluna de Paulo Francis, 1986. Sei ela decorada.
" Adoro Pd James e Rendell, mas nada é melhor que Proust e Stendhal.....a humanidade não resiste a muita verdade.....amigos profundos só os temos na nossa geração.....leio a noite e gostaria de ir para o sul no inverno, isto é Saul Bellow, um poeta." Francis, meu patriarca, vai nesse texto de Fidel a Janio, de Edmund Wilson a Wall Street, de Eliot a Pinter. Quem lia isso? Eu lia, meus amigos da FIAM liam, todo mundo comentava todo dia. Uns odiavam, outros amavam, todos liam e reagiam. E Francis atacava baianos, Lula e o feminismo. O que ele teria a dizer de Tiririca e de Chavez?
Caetano na Folha falando de Francis: É uma bicha amarga. Bonecas travadas são danadinhas.
Como eu disse, se brigava muito. O mercado ainda não nos disciplinara.
Os dez melhores westerns por:
Paulo Francis: Warlock de Dymytrick ( vou escrever só o number one de cada um ), Sergio Augusto: Rastros de Ódios de Ford, Inacio Araújo: Onde Começa o Inferno de Hawks, Ruy Castro: O Homem que Matou o Facínora de Ford, Pepe Escobar: Johnny Guitar, José Trajano: Shane, Renato Pompeu: Winchester 73.
Perry White ( Casseta ) escrevia lá. Em 86 ele deu de título: AJOELHOU TEM DE GODARD.
E eis o irritante e glamuroso Pepe. O cara que é imitado por todo crítico moderninho até hoje.
Eu odiava Pepe Escobar. Tudo o que ele escrevia ia contra o que eu pensava. Basta ver isso:
Em julho de 84 ele diz que Michael Jackson é Jesus Cristo. Que o filho Dele voltou à Terra como neguinho gênio, com ginga e com mensagem de prazer. Hoje eu acho esse texto maravilhoso, mas na época eu não tinha o humor para entender. Pepe era assim. Ao escrever sobre o Clash citava anarquismo e Lenine, ao falar do The Who tascava um Cioran e um Camus. Para ele a noite de SP era como Londres em 67, aquela coisa Mick e Marianne Faithfull, a vida era meio Paris 1925, meio Montmartre e Cocteau.
Texto dele: " No principio era o tédio. Depois foi criado o Punk."
É fantástico o estilo de Pepe! Leiam:
"...Imagem congelada. Foco. Guitarrista abre linha de fogo. Mergulho na pressão. É a bateria. Executores/carrascos. Música nua acariciada por velocidade. Júbilo maníaco...."
Isso é crítica musical. É esse o modo de ouvir e sentir que mais me influenciou. Mesmo que naquele tempo eu tanto o odiasse ( porque não o entendia ).
Mais dele:
"...Johnny Rotten dissolve todas as contradições pelo abandono. Lautreamont e Rimbaud..."
E havia Nicolau Sevcenko. Isto ele escreveu em junho de 86. E me marcou para sempre ( também a decorei )
" Saiu... os corações mais trêfegos já podem se tranquilizar, podem jogar no lixo todo o estoque de valium e diempax, dar folga a unhas e cigarros. Já se pode trocar a insonia pelo pesadelo: até que enfim saiu o novo disco dos Smiths!......." E para falar desse disco Sevcenko fala de Nietzsche, de Yeats e de muito Oscar Wilde.
Vem Marcelo Coelho, que em entrevista de agora ( 2008 ) diz que a história realmente terminou. Que tudo em arte já foi feito, não há mais o que possa chocar. Que só nos resta a eterna repetição, citações sobre citações.....
E é IMPOSSÍVEL outro momento como a da Ilustrada dos 80. Pois além de a arte ter se tornado pura mercadoria, a pulverização da informação tornou inviável um tal agrupamento de talento.
O cara que quer ler sobre Clash vai ler só sobre Clash. Não vai querer saber nada sobre Adorno ou anarquismo. A informação é hoje só informação, não mais educação.
FIM DA HISTÓRIA.
Franceses, agora, fazem greves e protestos. Sempre eles.
Mas veja: eles não pedem uma nova politica, um novo mundo, uma revolução. Pedem que tudo fique como está. Eles pregam a não-mudança.
Em todo movimento, hoje, há o medo. Medo de sonhar e de errar.
A história acabou. O mundo é isso. Vivemos o máximo dos máximos. Todo o nosso caminhar era para chegar aqui.
Os anos 80 foram a constatação desse fim.
Lendo-os hoje os acho arrogantes, tolos, esnobes, anglófilos, e surpresa, escreviam mal, sem clareza.
Mas tinham coragem, brilho, idealismo, ingenuidade, fé no leitor, FÉ NA INTELIGÊNCIA DO LEITOR. O Jornal não devia ser útil. Devia ser vivo. E era. Como era.
EZRA POUND
Aqui no Brasil, graças aos irmãos Campos, achamos Pound maior do que ele realmente foi. Quem acompanha as resenhas/textos/antologias de poesia moderna achará que Ezra é do tamanho de Yeats, Eliot ou Stevens. Que nada!
Pound fez um troço bem estranho: ele pegava um poeta arcaico, tipo Arnaut Daniel ( séc. xii ) e escrevia como ele escrevia. Entenda, não era uma citação ou uma homenagem, Pound se tornava aquele autor, e escrevia no estilo, com a sintaxe, com o sentimento e com o tema daquele autor.
Ele foi assim em toda sua primeira e melhor fase. Cada poema é um poema "escrito" por algum poeta antigo. Depois, com Os Cantos, ele passa a misturar tudo. Ele se torna um mix de autor chinês com provençal, grego e latino. Um vale tudo.
Mas às vezes ele é grande. Embora a gente nunca saiba se aquela bela frase é uma tradução, uma adaptação ou criação própria.
"TUDO PROS DIABOS! TODO ESTE SUL JÁ FEDE A PAZ!
ANDA CACHORRO BASTARDO, A MÚSICA!
SÓ SEI QUE VIVO SE OUÇO ESPADAS QUE RESSOAM.
MAS AH! COM OS ESTANDARTES OURO E ROXO E VAIR SE OPONDO
POR CIMA DE AMPLOS CAMPOS ENCHARCADOS DE CARMIM
-UIVA MEU PEITO ENTÃO DOIDO DE JÚBILO!
..... QUANDO A TORMENTA MATA A HORRENDA PAZ.
..... NÃO HÁ VINHO COMO O SANGUE E SEU CARMIM!"
"CARNE DE FAUNO É NOS DEFESA
COMO A SACRA VISÃO
TEMOS POR HÓSTIA A IMPRENSA
O VOTO POR CIRCUNCISÃO"
Pond é pela maior parte do tempo essa nostalgia de idade medieval. Essa saudade do homem-como-homem, da vida como prova de valor. Mas esse saudosismo, tão século xx, é tragado pelo seu excesso de citações, de cultura erudita, de febre por absorção. Pound acaba cansando, é um excesso de energia, de vigor e ao mesmo tempo, um peso de esnobismo dandy, daquela coisa de americano querendo ser mais europeu que o europeu ( que nunca foi tão europeu assim ). Essa sindrome de emigrados americanos, se deu certo em James e em Eliot, não dá tão certo em Pound. Ele joga fora seu americanismo e coloca no lugar o desejo de ser chinês/provençal e francês. Desejo febril. Não satisfeito.
"O QUE AMAS DE VERDADE PERMANECE
O RESTO É ESCÓRIA
O QUE AMAS DE VERDADE NÃO TE SERÁ ARRANCADO
O QUE AMAS DE VERDADE É TUA HERANÇA VERDADEIRA
MUNDO DE QUEM, MEU OU DELES
OU NÃO É DE NINGUÉM?
(...)
QUE MESQUINHOS TEUS ÓDIOS NUTRIDOS NA MENTIRA
ABAIXO TUA VAIDADE
ÁVIDO EM DESTRUIR, AVARO EM CARIDADE
ABAIXO TUA VAIDADE, EU DIGO, ABAIXO
(...)
AQUI O ERRO TODO CONSISTE EM NÃO TER FEITO
NA TIMIDEZ QUE VACILOU.
Em páginas assim, Ezra Pound fala de si mesmo. E se torna maior.
Fosse um pouco menos "culto", teria Pound sido imenso.
"APRENDE COM O MUNDO VERDE O TEU LUGAR
NA ESCALA DA INVENÇÃO OU DA ARTE VERDADEIRA
ABAIXO TUA VAIDADE
O ELMO VERDE SUPEROU TUA ELEGÂNCIA
DOMINA-TE E OS OUTROS TE SUPORTARÃO
ABAIXO TUA VAIDADE"
Pound fez um troço bem estranho: ele pegava um poeta arcaico, tipo Arnaut Daniel ( séc. xii ) e escrevia como ele escrevia. Entenda, não era uma citação ou uma homenagem, Pound se tornava aquele autor, e escrevia no estilo, com a sintaxe, com o sentimento e com o tema daquele autor.
Ele foi assim em toda sua primeira e melhor fase. Cada poema é um poema "escrito" por algum poeta antigo. Depois, com Os Cantos, ele passa a misturar tudo. Ele se torna um mix de autor chinês com provençal, grego e latino. Um vale tudo.
Mas às vezes ele é grande. Embora a gente nunca saiba se aquela bela frase é uma tradução, uma adaptação ou criação própria.
"TUDO PROS DIABOS! TODO ESTE SUL JÁ FEDE A PAZ!
ANDA CACHORRO BASTARDO, A MÚSICA!
SÓ SEI QUE VIVO SE OUÇO ESPADAS QUE RESSOAM.
MAS AH! COM OS ESTANDARTES OURO E ROXO E VAIR SE OPONDO
POR CIMA DE AMPLOS CAMPOS ENCHARCADOS DE CARMIM
-UIVA MEU PEITO ENTÃO DOIDO DE JÚBILO!
..... QUANDO A TORMENTA MATA A HORRENDA PAZ.
..... NÃO HÁ VINHO COMO O SANGUE E SEU CARMIM!"
"CARNE DE FAUNO É NOS DEFESA
COMO A SACRA VISÃO
TEMOS POR HÓSTIA A IMPRENSA
O VOTO POR CIRCUNCISÃO"
Pond é pela maior parte do tempo essa nostalgia de idade medieval. Essa saudade do homem-como-homem, da vida como prova de valor. Mas esse saudosismo, tão século xx, é tragado pelo seu excesso de citações, de cultura erudita, de febre por absorção. Pound acaba cansando, é um excesso de energia, de vigor e ao mesmo tempo, um peso de esnobismo dandy, daquela coisa de americano querendo ser mais europeu que o europeu ( que nunca foi tão europeu assim ). Essa sindrome de emigrados americanos, se deu certo em James e em Eliot, não dá tão certo em Pound. Ele joga fora seu americanismo e coloca no lugar o desejo de ser chinês/provençal e francês. Desejo febril. Não satisfeito.
"O QUE AMAS DE VERDADE PERMANECE
O RESTO É ESCÓRIA
O QUE AMAS DE VERDADE NÃO TE SERÁ ARRANCADO
O QUE AMAS DE VERDADE É TUA HERANÇA VERDADEIRA
MUNDO DE QUEM, MEU OU DELES
OU NÃO É DE NINGUÉM?
(...)
QUE MESQUINHOS TEUS ÓDIOS NUTRIDOS NA MENTIRA
ABAIXO TUA VAIDADE
ÁVIDO EM DESTRUIR, AVARO EM CARIDADE
ABAIXO TUA VAIDADE, EU DIGO, ABAIXO
(...)
AQUI O ERRO TODO CONSISTE EM NÃO TER FEITO
NA TIMIDEZ QUE VACILOU.
Em páginas assim, Ezra Pound fala de si mesmo. E se torna maior.
Fosse um pouco menos "culto", teria Pound sido imenso.
"APRENDE COM O MUNDO VERDE O TEU LUGAR
NA ESCALA DA INVENÇÃO OU DA ARTE VERDADEIRA
ABAIXO TUA VAIDADE
O ELMO VERDE SUPEROU TUA ELEGÂNCIA
DOMINA-TE E OS OUTROS TE SUPORTARÃO
ABAIXO TUA VAIDADE"
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