MURILO MENDES E CAXINGUI E ANJOS E SONO

A idade do Serrote, de Murilo Mendes. Não vou falar do livro mas só vou falar do livro. Os anjos de Charles Citrine. ( Citrine é o cara. Um herói, um herói ). Diz :
O mundo é mistério. O encantamento acontece todo o tempo. O que podíamos ver na infância continua no mesmo lugar e do mesmo jeito. Não percebemos porque somos treinados a não ver. Portanto não tenha saudades do mundo como foi. Toda magia será sempre viva, pois ela NÃO LIGA PRA NOSSA RAZÃO. O que vemos hoje, adultos em linhas retas, é ínfimo perante aquilo que existe. Educados para a cegueira.
Mais.
Anjos não existem. Eu os uso como símbolos para aquilo que não tem nome. E símbolos é tudo que me importa. Citrine diz que neste mundo, com tanto barulho, bips, crás, zuuuum e tanta informação acumulada na cabeça ( números de telefone, de cartões, convites, leis, deveres, notícias distantes ), anjos, que podiam ler nossa mente enquanto dormíamos, não conseguem mais se comunicar conosco. É uma bela imagem : um anjo pairando sobre nosso quarto e dialogando com a criança que fomos : sol, vai chover ? , gosto de Roseli, sapos, porão, medo de cobra... São pensamentos de cristal, legíveis, nitidos, de água que corre. O anjo lê.
A insônia é a vergonha de ser lido. Que belo pensamento de Charles Citrine !
A IDADE DO SERROTE é para ser lido por anjos.
O CAXINGUI ERA UM SAPO. Era preciso tomar cuidado para não pisar neles. E toda noite era uma sinfonia de rãs cantando. Mas de manhã eu acreditava que todos morriam para ressuscitar às 18 horas. Porque detrás das nuvens estava Deus. E o raio, que caía lá pros lados de Santo Amaro ( tudo era pros lados de Santo Amaro, tudo de ruim. Tudo de bom era aqui. ) o raio era um bandido que Deus pegava pelos cabelos, jogava ao chão da nuvem, e a queda do bandido produzia a faísca que era o raio. Era assim. Como por detrás de cada parede de casa havia um quarto secreto e um dia eu derrubaria essas paredes e veria esse segredo.
No Morumbi abundavam cupinzeiros e onde existia cupinzeiro existia uma cobra-cega. Abundavam trabalhos de macumba também, e se voce pisasse na macumba seu pé caía. Assim como olhar pra cobra-cega te deixaria cego. As nuvens eram habitadas e no porão de casa morava um rato que falava ( mas eu nunca o escutei ).
O bairro era cheio de água. Quando fazia calor voce ficava surdo de tanta cigarra cantando. O som do Caxingui era o som de cigarras de dia e dos sapos de noite. Um gambá apareceu num buraco e uma preguiça numa árvore. Apareceu sim, assim como uma menina foi atropelada pelo caminhão do lixo.
Cada quarteirão tinha próximo seu córrego e havia tanta mamona que daria para em nossas guerras destruir o mundo. Pinheiros era longe...... ao lado do rio corria o trem, fazia neblina e umas casinhas ficavam onde surgiria a marginal. Nos córregos meu coração batia forte ao ver peixinhos quase transparentes atravessados pelo sol que cruzava a água. EM CADA METRO UMA VIDA VIVIA.
Coloquei espelho retrovisor na bicicleta ( que não era bike, era magrela ). Paralamas também e buzina. Descia sem freio pela terra. Na granja matavam galinhas, e os galos cantavam enquanto eu andava para a escola. Às sombras dos eucaliptos. Cheiro de terra, de folha de eucalipto e de galinha viva. Minha escola cheirava a eucalipto. O dentista elogiava meus dentes e eu amava uma lourinha que se chamava Dona Baratinha, esse tinha sido o papel dela numa peça que não fiz. Dona Baratinha passava e eu me sentia Charlie Brown.
O Japão havia invadido o bairro e eu andava com eles. Comentávamos Nationalo Kido. De tarde dava pra ouvir todas as casas ao mesmo tempo sintonizadas no SPEED RACER. Mas aos domingos era "SILVIO SANTOS VEM AÍ..." Eu bebia Cerejinha.
Mas eu pensava que só eu assistia OS MONKEES. E eu amava os Monkees e pensava ser pecado gostar mais de David Jones que de meu pai. Mas eu gostava e decorava as músicas e obrigava meu irmão e minha prima a me ouvir cantar. TAKE THE LAST TRAIN TO CLARKSVILLE. E minha professora usava uma saia muito curta e eu sentia um calor na barriga quando a via de pernas cruzadas.
Quando chovia a água corria pelas calhas de lata e fazia barulho de sono. Da janela de meu quarto eu via vários quintais com cães e árvores e hortas e galinhas e patos. Eu cavava a terra úmida e os patos comiam as minhocas. Na janela havia uma aranha que eu assistia. E na cama, toda noite, um anjo me assistia. Eu o vi uma vez. E cobri minha cabeça, com medo. Não queria que ele me visse.
No terrão da escola os moleques brigavam e se faziam festas juninas. Eu recebia medalhas douradas e desenhava guitarras dos Monkees nas carteiras. O tempo era longo e a vida era sem conta. Minhas primas cheiravam a meia branca, sandálias novas e cabelo escovado. Mamãe cantava enquanto lavava a louça e meu pai trouxe uma tartaruga numa caixa de sapatos.
Citrine diz : todo esse encanto está intacto. Nossa cabeça é que se alienou.
O livro de MURILO MENDES é a confirmação e o testemunho disso.
Minha prima sentava-se no chão, abria seus livros e estudava. Os pássaros cantavam e eu me sentava ao lado dela, abria meus cadernos e fingia estudar. Ao lado dela. E na casa onde eu ia ler livros de religião, havia no jardim um jacaré com olhos de vidro. Ele era vivo mas não se mexia. Ele era vivo. E a dona da casa permitia que encostássemos a mão nele se aprendêssemos a lição. Jamais tive tanta coragem.

ALL THAT JAZZ/TARANTINO/PAUL NEWMAN/BECKER

A LENDA DOS DESAPARECIDOS de Henry Hathaway com John Wayne e Sophia Loren
Aquele tipo de filme de cara que vai pro Saara descobrir tesouro. A fotografia de Jack Cardiff ajuda, Wayne exibe seu carisma e Loren faz a italiana emotiva. Competente. Nota 6.
BASTARDOS INGLÓRIOS de Tarantino
Os 3 grandes defeitos do cinema atual : 1. péssimos diálogos, 2. roteiros cheios de complicações que existem sem razão nenhuma. Apenas disfarçam banalidades, 3. visual de TV, muitos closes, muitos zooms, imagens estouradas, edição frenética ( tenta se dar ação pela edição ! ). Pois bem. Neste filme Tarantino faz um filme com cara de cinema. A estética é a dos grandes filmes de aventura dos anos 60. O roteiro é certo e direto, nada de pseudo-intelectualismos. E os diálogos são dignos dos anos 30. Ele faz seu filme mais adulto. O cara sabe tudo e ama a arte com sinceridade. Ele me dá esperança. Nem tudo se perdeu ! Nota DEZ.
O INDOMÁVEL de Robert Benton com Paul Newman, Bruce Willis, Jessica Tandy, Melanie Griffith e Philip Seymour Hoffman
O último grande desempenho do mais simpático dos atores americanos ( de 1960 pra cá... ). Paul é um velho quebra-galhos numa cidade pequena. É um perdedor. O filme não é triste, é quase uma comédia lenta. Willis é seu patrão muito mal caráter. E a maior atriz do teatro americano, Tandy, é sua senhoria; Melanie é a esposa do patrão e Philip um guarda fascista. Robert Benton foi um roteirista de gênio ( Bonnie e Clyde ). Como diretor sempre foi apenas OK. Mas o filme é bonitinho. Paul Newman é excelente. Nota 7.
PAIXÃO PROIBIDA de Serge Gainsbourg com Jane Birkin, Joe Dalessandro e Depardieu
Dalessandro foi ator dos filmes de Andy Warhol. Ele se parece com um jovem Iggy Pop mais bonito. Péssimo ator, ele apenas posa fazendo cara de mau. Ele aqui é um caminhoneiro. Gay. Ele viaja com seu namorado. O filme foi feito nos USA. É um filme estradeiro. A trilha sonora, do próprio Serge, é um tipo de som "Bonnie e Clyde". Pois bem... o caminhoneiro conhece num posto de gasolina uma moça que é muito magra. Tão magra que se parece com um garotinho andrógino. Joe se apaixona por ela. Mas por ser gay, ele só faz com ela "sexo gay". Entendeu ? A moça é Jane Birkin, esquisita e com um rosto lindo. O filme é cheio de lixo, poeira e fedor. É ruim pra caramba. Serge põe a câmera sempre em lugares errados e os atores ficam perdidos. Os diálogos são de doer ! Gerard Depardieu faz um gay sempre de branco, longos cabelos e sobre um cavalo também branco. O filme nunca teme o ridículo. Eu achei muito divertido. Mas é um lixo. Lixo que me seduz. Nota invisível. ( ).
ERA NOITE EM ROMA de Roberto Rossellini
3 homens fogem da prisão dos nazistas. Se abrigam na casa de uma romana. O filme mostra o cotidiano da Roma da guerra. Os fugitivos são cada um de uma nação. Roberto dirige daquele modo seco e pobre de sempre, parece televisão educativa. nota 2.
FANTASMA de F.W.Murnau
Ele seria o grande diretor na América dos anos 30/40 se não houvesse morrido em acidente de carro tão cedo. Este é um filme silencioso sobre a perdição da paixão. Há uma cena de baile que usa câmera na mão, efeitos de zoom e fundo psicodélico !!!! Em 1922 !!!!! Murnau sabia ser ousado. Mas este roteiro é bastante piegas.... nota 4.
MULHERES NO FRONT de Valerio Zurlini com Anna Karina, Marie Laforet, Lea Massari
Fala dos grupos de prostitutas que eram usadas no front pelos soldados italianos. Cada moça era objeto de um batalhão inteiro !!!!! Zurlini era um diretor maravilhoso ! Seus filmes são poemas à melancolia que não nos deprimem. Anna está lindíssima como uma prostituta que ainda vê humor na vida, uma bela comediante. O filme é trágico e apesar de ser um dos menos conhecidos de Zurlini, é ainda invulgarmente bom. Nota 7.
LE TROU de Jacques Becker
Um milagre ! Eis um filme de duas horas e quinze minutos, todo passado entre uma cela e uma rede de buracos, que jamais entedia ou irrita. Becker, grande diretor, se deu este desafio, e o venceu. O filme é viril e apaixonante aventura. Tem, inclusive, um dos melhores e mais terríveis finais que já assisti. São cinco prisioneiros, que com engenho e calma, tentam fugir da prisão. O filme evita os chavões : a prisão é limpa e tranquila, não há violência alguma, o diretor é compreensivo e os presos comem bem e são camaradas. Mas eles estão confinados ! E como o homem está condenado à liberdade.... O filme não tem trilha musical nenhuma, e os sons do esforço físico daqueles homens abrindo túneis na rocha pura é aterrorizante ! Fime diferente de tudo que voce já viu, ele permanece na memória. Becker ( pai do também bom diretor, Jean Becker ) era um talento gigantesco ! Esta OBRA-PRIMA o prova. Nota DEZ.
OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR de Jacques Demy com Catherine Deneuve
Ah!!!!!! Jovem Deneuve... tão lindamente perfeita que chega a parecer uma ficção ! Este filme, com trilha musical de gênio de Michel Legrand, é todo cantado. Quando digo todo é todo : quando alguém diz : - Quanto custa ? Isso é falado em música. Ou seja, é uma ópera. Mas em ritmo de jazz pop. O filme é colorido, fantasioso, feliz e hiper-romântico. Se voce gosta das melodias vai amar, se detesta musicais, irá rir dele. Nota 6.
ALL THAT JAZZ DE BOB FOSSE COM ROY SCHEIDER E JESSICA LANGE
FELLINI JAZZ E ANSIA POR VIVER = O FILME DA MINHA VIDA.
Quantas vezes ? Vinte... mais... trinta...talvez. Só no cinema foram quatro. Este não é o filme que penso ser o melhor que já assisti, mas é MEU filme. Tenho de o rever todo ano.
Bob Fosse... ele foi o mais sexy coreógrafo e diretor da Broadway , e é, até hoje, o único cara a ter ganho no mesmo ano os 3 grandes prêmios : Oscar/Tony e Emmy- cinema, teatro e TV, tudo em 72. Se ele escrevesse teria ganho o Pulitzer naquele ano... Bob Fosse era como Joe Giddeon, o personagem deste filme ( ah... se voce não sabe, o Oscar de 1972 foi por Cabaret, vencendo O Poderoso Chefão ). Mas voltando, Fosse era fumante doido ( quatro maços por dia, inclusive no chuveiro e na cama ), mulherengo, egocêntrico, anfetamínico, criativo, cardíaco e genial. Morreu na reestréia de Chicago, Broadway... Como acontece aqui, em ALL THAT JAZZ, morte na estréia. Fosse escreveu o roteiro de sua futura partida.
A verdade é que nunca desejei ser O Homem-Aranha ou Bill Gates. Eu queria ser Joe Giddeon/ Bob Fosse. Brinquei disso por mais de uma década, na faculdade e na vida. Namorei e escrevi como se "fosse" Joe Giddeon. Confesso. Foi muito bom...
Cada década tem um musical que espelha o que ela foi. Não é necessariamente o melhor da época, mas é seu retrato. Os anos 2000 têm o chatíssimo CHICAGO, que desmerece o trabalho no palco de Fosse. É um filme cheio de acontecimentos, truques e baboseiras. É a cara deste cinema. Os anos 90 são representados pela jovialidade colorida de ROMEU + JULIETA, aquele de Baz Luhrman com Di Caprio. Bobinho e bacaninha, como os 90. Nos 80 temos FLASHDANCE, e nem preciso dizer nada... e os 60 têm o muito otimista e cômico POSITIVAMENTE MILLIE. Nos anos 70, os anos de drogas, sexo, loucura e nóia, existe este plásticamente exagerado, histéricamente fascinante ALL THAT JAZZ.
Bob Fosse pega o roteiro de OITO E MEIO de Fellini, diretor pelo qual ele tinha obsessão confessa, e o refilma. No lugar do diretor de cinema em crise, um diretor de teatro. Sai a Itália, entra New York. Continuam as mulheres, as memórias e a doença. Permanece a absoluta e completa genialidade. A memória, sonhos, ideal de beleza, música.
Joe Giddeon, numa impressionante atuação "de macumba" de Roy Scheider, acorda ( esta cena é repetida por todo o filme ) e ao som de Vivaldi, se entope de bolinhas e cigarros ( o Camel que eu fumava...) Pinga colírio no olho vermelho, e em frente ao espelho, ele repete a sí-mesmo : "- SHOWTIME FOLKS!" Todas as manhãs..... Hoje, quando em ansiedade, ainda me pego neste " Showtime folks! " para mim mesmo... Então ele vai ao teatro ensaiar uma peça que não evolui. Ele está em crise.
Ao mesmo tempo ele sofre com a consciencia de ter estragado um bom casamento, mas continua não resistindo às jovens atrizes. E ainda tem de editar seu novo filme, ineditável. E sofre a pressão de um ator perfeccionista e crítico temível ( o filme, na vida real era LENNY e o ator carrasco era Dustin Hoffman, famoso por torturar diretores com sua mania de perfeição ).
Giddeon sofre infarte e o anjo da morte é Jessica Lange, de branco, maravilhosamente linda ( em Fellini foi Claudia Cardinale ). O filme ousa : sua hora final é a descrição da morte do diretor do filme. Giddeon conversa com a morte/mulher, e beleza das belezas : tenta flertar com ela.
Joe/Bob Fosse tem apenas um grande amor real : aquele anjo da morte.
As cenas de ensaio, de bastidores e a atuação dos bailarinos chega a ser comovente. Mas na morte do diretor, longa cena dançada, com enfermeiras, corações de plástico, sangue e seringas, Bob Fosse atinge o mal-gosto e o sublime, o mais feroz pessimismo, mas também uma garra vital dionisíaca. Não há filme que nos dê tão explícita imagem da força da arte dionisíaca. A agonia da criação está toda em exposição. Dor e prazer, vaidade e aniquilamento.
ALL THAT JAZZ mostra a vida que desejei ter. Bela e perigosa, glamurosa e podre. É óbvio que não sou Fosse ou Giddeon. Sempre soube disso, minha viagem não foi tão doida. Mas a graça estava em seguir a miragem. Bob Fosse me deu um presente que iluminou meu caminho. É pouco ?
Perfeição é sempre sinal de má arte. Perfeição é para ciência. Chicago tentou ser perfeito. Moulin Rouge é perfeito. ALL THAT JAZZ é todo errado. E por ser torto, chega lá. Não é feito de luz e música. Ele é semem, tabaco, coxas, traição, sangue, suor, solidão, tosse, doença e inenarrável beleza. Transcende. Ele é eterno. Anjo da morte que seduz Joe Giddeon e nos arrebata.
Continuo fã deste filme. Não precisaria de nenhum outro se tivesse de levar um só para a tal ilha deserta. Me diverte, me inspira e me guia. Joe Giddeon é meu xamã.
ALL THAT JAZZ. Voces queriam saber ? Sempre ( desde 1979 ) foi meu filme favorito. Não o melhor, mas o mais amado.
Fecho o zíper : riiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiipppppppppppppp..... fim.

TÉDIO E FUTILIDADES

Primeiro a futilidade. Adoro listas. Como Nick Hornby, adoro fazer listas. Livros favoritos, livros mais chatos, amores inesquecíveis, músicas que mais me fizeram chorar. O TIMES fez a sua lista. Os cem melhores filmes desta década. Pela lista desse jornal, se voce passou a década sem ir ao cinema não perdeu nada. Qualquer um sabe que a qualidade nas telas já foi bem melhor. Esta década é a pior da história dos filmes. Mas o Times não precisava esculhambar ! A lista mostra que mais que os filmes, a crítica está no fundo do abismo.
Você pode fazer uma lista alternativa, com ironia, contra as expectativas. Uma lista anti-intelectual. Ou ir pelo caminho do bom senso. A lista do Times é apenas tosca.
Para eles, CACHÊ de Michael Haneke é o filme da década. Forte ele é, mas o melhor ? Melhor em que ? O segundo é O ULTIMATO BOURNE de Greengrass... aí a coisa pega. Talvez seja uma bela aventura, meia fru-fru, mas se este é o segundo maior filme de uma década inteira... bem, então a década foi dispensável.
A coisa melhora com o terceiro : ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ, dos Coen. Adoro e acho que é um dos cinco melhores em qualquer lista. Mas O HOMEM URSO de Werner Herzog como quarto ! É um grande filme, mas é exagero colocá-lo aqui. No resto dos dez primeiros vêm TEAM AMERICA de Trey Parker, o filme de Danny Boyle em sexto, O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA, CASSINO ROYALE do veterano Martin Campbell em oitavo, A RAINHA do grande Stephen Frears em nono e em décimo HUNGER de um diretor que se chama Steve McQueen. BORAT é o décimo primeiro...
Adoro os Coen e gosto muito de Herzog e Stephen Frears. Mas de 2000 pra cá não houve nada de melhor ? Lí toda a lista dos 100. Tem Cidade de Deus, mas tem também o medíocre Irreversível !!!! Tem Os Anéis, tem Lynch bem colocado e tem até alguns desenhos ( o melhor classificado é PROCURANDO NEMO ). Mas dá pra levar a sério uma lista que ignora TUDO o que Tim Burton e Clint Eastwood fizeram nesta década ? Que coloca Almodovar lá atrás e não cita KILL BILL ( nem em centésimo.... ) Qual é ? O filme com que Scorsese levou o Oscar é pior que a bobagem de Danny Boyle ?
Falando agora de algo mais importante.
Lí em algum lugar isto : Que o ser-humano só é feliz quando está cem por cento em esforço. Como um motor : você tem uma potência e só se realiza quando esse motor solta toda essa força. Pois bem. Os deprimidos são aqueles que têm um potencial jamais utilizado. Tipo de falcão preso num mundo de galinheiros. Neste mundo, onde tudo é facilitado e já vem pronto, o ser-humano estaria condenado ao tédio e a deprê. Pois a vida, só pode ser plenamente vivida, na dificuldade, na luta, no esforço. Quem luta vive. Livra-se da sensação, terrível, de vida jogada fora, de energia desperdiçada, de viver por nada.
Em um mundo onde se lutava por tudo ( pela comida, pela liberdade, pelo direito de fazer sexo, pelo voto, pela vida enfim ) a deprê era inviável, o tédio, um luxo. Ficava-se triste, morria-se até de tristeza ou de melancolia, mas não se definhava no desinteresse por tudo, no fastio que nunca passa, enjôo de viver. Fazer sexo era uma festa de liberdade, trabalhar era questão de honra. Hoje tentamos encontrar essa luta no "amor". Procuramos o amor como a grande luta, o campo onde podemos jogar tudo, deixar irromper toda energia. Ou então nos matamos num esporte desumano ou em drogas suavizantes. ( E talvez as pessoas se viciem para depois ter algo pelo que lutar : a cura. )
Não é a toa que os doentes desenganados sentem-se ao mesmo tempo aterrados e muito vivos. É uma briga verdadeira que ainda podemos ter, a briga contra a doença. Filmes com velhinhos perdendo a memória ou com jovens aidéticos provam isso. Nosso herói de hoje é o doente que sobrevive.
O meu e o seu potencial, adormecido, espera ansioso, com medo e ao mesmo tempo com ansiosa alegria, pela batalha que nunca chega. Que batalha ? Que luta ? Ir pro Big Brother ? No Limite ? Ou um tumor escondido ? Onde podemos lutar, usar toda nossa inteligência, fé, força muscular, habilidade manual, espírito de cooperação, raiva, desejo ? Onde ?
Num mundo sem revoluções, sem tabús para romper, sem ideologias para alcançar, sem inimigos reconhecíveis, sem tiranos e cheio de "tudo pode", brigar pelo que ?
Então vem os rachas no asfalto, tiros na policia, tráfico na rua, viagens sem destino. É a luta que resta, é a promessa de vida vivida. Lutas pelo mal, já que as lutas pelo bem foram decididas em outra geração.
Triste ironia. Quanto melhor nosso corpo, quanto mais protegido, cuidado, acalmado, paparicado; mais nossa alma se aflige, grita, se debate, se exaspera e por fim se entrega, dócil, podada e totalmente inutilizada. A alma/potencia não se desenvolve no conforto absoluto, na ausência de fome, de dor ou do "dragão a ser vencido".
Como disse em outro texto, Goethe temia que o mundo se tornasse um grande hospital. Que no futuro todos tivessem alguma doença para tratar. Eu completo isso dizendo : estamos sim num grande hospital. Um misto de clínica cardíaca com spa. Mas esse hospital não tem camas. Ele tem berços.

FLANEUR, SEMPRE...

Andar flanando. Deixar que as ruas te levem para onde elas desejarem. Seu fio de pensamento se faz circular e unido com a rua, trafega com liberdade ao vento que voa pelas esquinas. Para o flaneur a poesia existe, mesmo que seja poesia ruim.
Desço na rua Butantã, e fico feito um tonto na calçada, sem nenhuma idéia de para onde seguir. Mas lembro do cine Goiás, e resolvo tirar uma foto do lugar onde ele ficava. Cruzo a rua e percebo que não faço mais a menor idéia de onde ele ficava. Bom... fotografo a fachada da antiga Mesbla. Chego a igreja e entro na rua que me levava ao Objetivo. A luz ainda é a mesma daqueles dias em que matava aula nos fliperamas, com Mauro, Tinho e Dió. Isso foi ontem, essas ruas estão congeladas ou talvez se movam em círculo. Até hoje eu penso que jogar qualquer coisa sem ter adversário e platéia é de uma idiotice suprema.
Bom... adoro escrever "Bom"... como franceses, lá eles vivem com esse "Bom".... é um tipo de "Pois é..."
Viro à esquerda, para ver a bandeira britânica tremular. Depois viro à direita, só para passar em frente à uma paineira que acho bonita. Resolvo ver o Bresson outra vez... estou francês hoje.
Eis. Fotos. Hoje me ligo na geometria das imagens. No equilibrio. Parecem humanos aqueles modelos. São fotos cheias de narração. Há uma alma nelas. Melodia. As pessoas ainda conseguem ver ? Está passando um documentário sobre o mestre. Percebo que esquecí de tirar meus óculos escuros. Na escuridão, só eu e uma criança assistimos a Henri ser entrevistado. Ele fala de flanar. Coincidência número um da tarde. Várias fotos passam na tela. Vejo-as e estou de pé. Porquê eu choro ?
Pessoas jogam xadrez na rua. A tarde é tão linda que dá vontade de viver para sempre.
Rua Pedroso de Moraes. Um filme novo de Michael Powell chegou na 2001. Compro. No sebo de livros nada há que valha a pena. Fotografo uma menina que acabou de sair da natação. Ela tem algo de atemporal. Subo pela Inácio. Desço por ruas que não sei o nome. Tenho uma teoria de que a criatividade está ligada a dentes ruins. Mendigo adormecido com cachorro ao lado. Fotografar os dois seria um pecado.
Faria Lima. Esta rua está morta. Nada há nela que valha a pena. O Papai-Noel já está na calçada ! Virou um escravo, agora trabalha um mês a mais !
No Iguatemi um menino diz ao pai : -" O Bruno não acredita no Santa, pai ! " Sem comentários... Santa !!!!!!!!
Itaim-Bibi. Era um bairro de meninas bonitas e de sobrados com bicicletas. Surf shops e lanchonetes. Agora é um caos de comércio pseudo-chic e trânsito barulhento. Entro num boteco. Um boteco real. Não é mais um boteco virtual, desses que são todos idênticos. Até as pessoas são sempre as mesmas. Este não : todos se conhecem, os petiscos são baratos e bons, o dono fala com você. Cerveja gelada de doer a cabeça. Inesquecível. Namorei lá, naquela mesa, anos atrás.
Pedro de Toledo. Bandeira Paulista. Adoro os nomes das ruas do Itaim. Fábrica da Kopenhaguen...onde ? Cinema. Espero amiga. Tarantino. Café, ela diz :-"Para o Zen, a vida é um círculo."
Sim, mas vivemos numa reta. Porquê ? Quem sabe... Ela quer paz espiritual. Mas odeia submeter-se a qualquer tipo de rotina. A armadilha da ansiedade. É noite.
Me conta de uma nova teoria : somos o que nossos antepassados fizeram. A paz está em seguir o destino inscrito no legado familiar. Bom...
Flanar. Luzes noturnas. Estou só. Demolição na Clodomiro. Belos escombros. Alguém os assiste ? Sou como um anjo de "Asas do Desejo", mas não assisto pessoas, assisto as coisas. Elas me falam. Falam sua língua de pedra e de madeira. Foi Baudelaire quem criou o flaneur. Bom Charles.
Quero ver o rio com luzes. A brisa bate e a noite é quente. Saul Bellow é o cara. Serge Gainsbourg é o cara. Eu quero uma Jane Birkin.
" O pai de George era uma pessoa simples e modesta. Tudo que ele queria era viver para sempre... Myron declarava que devia sua longevidade ao calor e ao vapor, ao pão preto, à cebola crua, ao bourbon, ao scotch, ao arenque, à linguiça, às cartas, ao bilhar, aos cavalos e às mulheres. Goethe temia que o mundo moderno se tornasse um grande hospital. Todos os cidadãos doentes. Segundo Romains, quando a sociedade falha em estabelecer contatos entre o sentimento de vazio e o pânico para o qual o homem é predisposto, outros agentes avançam para nos colocar em contato com a terapia. O que isso significa é que os seres humanos são loucos. A última instituição que controlou essa doideira foi a igreja. Agora são os médicos." Cito Saul Bellow. Bom pra cacete !!!!
"O geminiano é um moinho mental de sensações onde a alma é despedaçada e pulverizada " isto é Bellow também. Sou geminiano. Atravessei a ponte sobre o rio Pinheiros. Estou na Francisco Morato. Esta avenida sou eu. Feia e cheia de coisinhas bacanas. Entro nas ruas do Butantã. Este bairro foi criado para os professores e funcionários da USP, nos anos 30. Em cada casa, com seu jardim e suas janelas de vidro grosso, respiro professores de literatura e de física. Passo na minha padaria favorita. Panettone quente. Nada pode ser mais feliz.
Eu amo as fotos de Bresson, eu amo Tarantino, amo Saul Bellow. Eu amo o rio Pinheiros, amo o Butantã e o Itaim. Amo todo sebo e todo DVD de Michael Powell. Amo as amigas que ainda procuram entender a vida, amo ser geminiano, amo a noite quente cheia de bichos voando na luz. Amo o panettone e a cerveja que faz doer. Mas eu flano, e sou o moinho e este mundo é um hospital.
Charlie me espera em casa. Lambe minha mão e quer fazer hoje exatamente o que fez ontem. Ir à rua, voltar e dormir. Charlie é o círculo. Filosofia canina. Bom...
Sinto saudades de quando UM MAÇO DE GITANES CUSTAVA O PREÇO DE UM MARLBORO!!!!!!!!!

BASTARDOS INGLÓRIOS - TARANTINO

Em 1995, uma nova amiga, uma delicada menina de 18 anos, me emprestou um CD com a trilha de PULP FICTION. Eu via até então aquele modismo travoltiano com desconfiança; mas foi ouvindo aquele cd, pelo qual me apaixonei, que descobri Quentin Tarantino. Depois aluguei o VHS de PULP e assisti o filme duas vezes seguidas, num fim de semana em que descobri também ASSASSINOS POR NATUREZA.
Hoje, provando que a vida é sim um círculo, entro numa sala de cinema, com a mesma menina, que continua parecendo ter 18 anos, e continua delicada, para assistir um novo Tarantino. E o filme é circular também e é fascinante. Principalmente se voce conhecer um pouquinho das fontes do filme.
O letreiro e a música de abertura é spaguetti-western. Ennio Morricone pontua todo o filme, com sua grandiloquencia genial. Mas vai haver também um clip com David Bowie que será uma beleza.
Então vem uma paisagem bela e a famosa lentidão de Tarantino. Voce consegue perceber como seus filmes são feitos "à moda antiga" ? Não há zoom, não há câmera na mão, nada de chicote. Os cortes são mínimos, sómente quando necessários. A imagem é para ser vista, olhada, apreciada, voce realmente VÊ um filme, não é invadido por ele. E vem o diálogo. Muito já se elogiou o diálogo de Quentin. O que posso dizer é que este é seu primeiro filme maduro. O diálogo do alemão com o francês é um aperitivo, o que virá depois é ainda melhor.
Quanta ação há no filme ? Se voce notar, quase nehuma. O filme é feito de diálogos. Sintomático são os trailers que passaram antes do filme. Um, sobre mais uma produção de fim-do-mundo ( se não me engano, de Emmerich, de novo... ). Outro, totalmente digital, um desenhão travestido de filme para adultos ( o novo de James Cameron ). Nesses filmes só existe o susto, sensações histéricas, a pornografia do gozo imediato. Filmes óbvios. Tarantino, por outro lado, nos faz esperar, ele não nos assusta, ele nos conduz até a emoção final. Jamais uma porrada, sua ação é um arranjo sinfônico, tudo começa num sussurro e cresce até a coda.
O ator que faz o alemão... o que é aquilo ? O prazer que ele demonstra em fazer tal papel é passado para quem o assiste. Sonho de todo ator - troca com a platéia. Mas todos brilham. Veja a cena em que os dois alemães conversam de pé. A câmera foca no rosto da francesa, por vários segundos, mostrando sua reação ao diálgo e não o próprio diálogo. Nessa cena, o filme atinge a perfeição. Na verdade é uma comédia. Sua violência é cômica. Seus personagens são hilários, nazistas de vaudeville e judeus de anedota.
O filme não é sobre a guerra. O filme é sobre o cinema de guerra.
Brad Pitt se chama Aldo Raine. Houve um ator nos anos 50, com sotaque do sul, que se chamava Aldo Ray. Os Bastardos lembram OS DOZE CONDENADOS de Robert Aldrich, e há uma cena típica de STEVE MCQUEEN e seu FUGA DO INFERNO. Vemos cartazes dos filmes dos anos 40, e há uma linda homenagem à Clouzot. Fala-se de Pabst, de Chaplin e até Emmil Jennings aparece ( ator allemão que foi o primeiro da história a ganhar um Oscar. Era nazista. ). David Selznick é citado. Se voce conhecer esses filmes seu prazer será ainda maior. Mas mesmo que não...
A cena ( como Godard, ele divide tudo em capítulos ) do bar no porão, que termina num tiroteio à John Woo é, possivelmente, a melhor coisa que Tarantino já filmou. Vale sózinha pelo filme inteiro. Mas o final, com a tela incendiada voando em meio as chamas, é de magnífica beleza. Um filme sobre filmes termina num cinema e com a explosão de películas cinematográficas. Um círculo perfeito é feito.
A cúpula nazista morre. Mas sabemos que aquele é o Hitler do cinema, como aquele é o exército nazista do cinema. Vemos um filme. Tarantino aprendeu isso com Godard : um filme é sempre um filme, e nunca pode querer ser vida real. Mas Quentin Tarantino é americano. E ama o cinema de ação clássico, o cinema de Aldrich, de Siegel, Sturges e Leone. Une os dois, e dá isto : BASTARDOS INGLÓRIOS, um filme muito acima de tudo que rola pelas telas agora.
Um toque : se voce gostou deste filme, faça um favor a si mesmo e assita OS DOZE CONDENADOS e depois FUGINDO DO INFERNO. Voce vai se divertir demais !!!!!!!
Com BASTARDOS INGLÓRIOS, Quentin Tarantino se afirma como o melhor de sua geração, e se mostra pronto para se juntar a Scorsese, Coppolla, Eastwood como um mestre. Mal posso esperar pelo próximo...

O LEGADO DE HUMBOLDT - SAUL BELLOW

Saul Bellow é o único autor obrigatório que escreveu de 1955 pra cá. Depois da geração de Waugh, Greene, Faulkner e Camus, é Bellow quem melhor sintetiza o que de melhor se escreveu nesses últimos sessenta anos. Nele vemos fagulhas de Updike, Roth, Atwood, Murdoch, Will Self, Pynchon, Barnes e Sebald. Apenas a literatura latino-americana nada tem a ver com sua escrita. Ele é o centro, então, da Europa e EUA em livros de ficção.
Começou a escrever nos neuróticos anos 50 e logo fez sucesso. Durante os anos 60 foi autor meio recluso, deixando os holofotes para Mailer e Capote. Nos anos 70 ganhou seu Nobel, sendo um dos mais jovens autores a atingirem essa glória. Faleceu no final dos anos 90. Publicou cerca de 12 livros, dos quais uns sete são centrais em qualquer biblioteca.
Sua escrita, quanto ao estilo, é aquilo que TODO escritor tenta fazer : simples e profunda. Não há nada de complicado, de barroco, de precioso em seu estilo. É um modo de escrever nervoso, rápido, febril, e que dá a impressão de ser fácil. Mas atenção : nunca se parece com o modo jornalístico de Heminguay. Bellow se enfia na mente dos personagens, mostra seus pensamentos, seus diálogos inteiros, suas caras e sua alma. Mostra o medo e o mal, principalmente. O personagem central, aqui como nos outros que li, é alguém em crise, acuado, à procura de alguma coisa.
Bellow é para homens adultos. Creio que as mulheres não irão gostar tanto. Ele é decididamente hetero, e nada tem de juvenil. Lembra filmes de Woody Allen ( porém, com muito mais ação ). Muitas coisas acontecem em seus livros : viagens para a Africa, cenas com a máfia, brigas a socos, tiros, mortes, sexo ocasional, sexo com amor, muitas cenas de grande cidade, pensamentos sobre livros e filmes, escursões ao campo, fugas e enlouquecimentos. Tudo com humor muito negro, com rapidez, com coragem, e com um dom de saber criar personagens... nunca li nada dele que não tivesse montes de tipos bem delineados e inesquecíveis ( e bastante ridículos também ).
Aqui ele fala de um escritor ( Citrine ) de muito sucesso, que se sente culpado pela miséria de seu guru ( Humboldt ) um autor alcoólatra/ anti-sistema, que foi seu mestre e seu descobridor. Mas o livro ainda encaixa histórias sobre a cidade de Chicago, sobre máfia, sobre jogo, sexo, mulheres tirânicas, vítimas e muito mais. É hilariante, e é um pesadelo. Não é a toa que Paulo Francis dizia ser Bellow o criador da atual literatura sobre a loucura urbana. Todos em Bellow são loucos. E ninguém percebe isso, pois são loucos também.
O livro tem a mesma ação doida de filmes como WONDER BOYS ou BARTON FINK. Tem clima de carrossel descontrolado. Mas é só o clima. O livro é obra de arte refinada, revisada, lapidada, de mestre. Saul Bellow acima de tudo sabe escrever. E escreve sem medo nenhum. Seu texto é como carruagem sem freio. Ou melhor : é como Chicago, cidade que destrói a sí mesma sem parar. Se engole. Texto faminto.
É pura perda de tempo ler outro autor atual sem conhecer Saul Bellow. Nossa cidade é a cidade em que ele escreveu, nossa vida é a que ele descreveu, e nossa loucura é a observada por ele.
O LEGADO DE HUMBOLDT é um maravilhoso e delicioso presente que foi deixado para nós. Além do que, ler Bellow dá uma vontade doida de escrever muito, escrever bem, escrever melhor. Bellow É o cara!

WOODY ALLEN

Conheci Woody pela TV. Nos anos 70 ( eu devia ter uns 12 anos ) a Globo anunciava BORIS GRUSHENKO que estava em cartaz. Depois, em 1977, mesmo ainda não tendo 14 anos ( era a censura do filme ) assisti ANNIE HALL no cinema. Era o filme da moda, o filme "indiano de Danny Boyle" da época. Fui ao cine Cal-Center, na Faria Lima. Era um cinema muito pequeno, uns 150 lugares e com uma tela mínima. Era diferente ir no cinema naquele tempo. As pessoas aplaudiam o filme ao final ( apenas quando gostavam. O maior aplauso que presenciei foi para Z de Costa-Gavras. Ou terá sido para OS EMBALOS DE SÁBADO A NOITE ? Não, John Travolta era aplaudido durante todo o filme, e as pessoas viam o filme de pé, dançando. Assisti OS EMBALOS 8 vezes, todas matando aula, a primeira vez com minha mãe !!!!!!! no mesmo Cal-Center, e depois com meus amigos no Gazetão. Sempre com filas na rua. A gente sabia os diálogos de cor... )
Bem... ANNIE foi aplaudido e foi o filme daquela geração. Não da minha, daquela, o povo que hoje tem 60 anos. Ele mostrava exatamente a vida de uma certa classe média, intelectualizada, antenada. Eu adorei o filme, mas na verdade não entendi quase nada. Adorei as piadas, adorei a criatividade da direção. Mas achei Annie uma chata e odiei a cara e a voz de Woody. Naquele ano eu adorava muito mais JULIA, que perdera o Oscar para ANNIE.
O tempo passou, e reencontrei Woody Allen nos anos 80. Foi revendo ANNIE, na TV, que percebi tudo : Woody Allen era o cara que melhor representava TODOS os neuróticos do mundo. Seus medos eram meus medos, suas alegrias eram as minhas. Até seu humor era meu humor. E principalmente, sua complicada maneira de amar era a minha/nossa. Woody Allen dizia querer ter nascido Marlon Brando ou Ingmar Bergman, e era essa divisão entre o pop e o intelectual que me dividia também. Além do que, foi na trilha de MANHATTAN que descobri a música de Gershwin...
Ele faz parte da última grande geração de diretores americanos. A última que conseguiu aliar sucesso popular com realização artística. A geração de Spielberg, Lucas, Altman, Coppolla, De Palma, Scorsese, Clint Eastwood, Mel Brooks, Mike Nichols, Pollack, Lumet e um imenso etc. Gente que começou na TV ou em escolas de cinema, mas que por seu genuíno amor a arte, conseguiu fazer verdadeiro cinema, e não televisão em tela maior. Woody é central nessa geração. Seus filmes analisaram a vida de gente que todos nós conhecemos. Como disse alguém recentemente, é ótimo ver filmes que ainda são feitos para adultos. Seus filmes podem ser geniais ( MANHATTAN, HANNAH, DESCONSTRUINDO HARRY, ZELIG, CRIMES E PAIXÕES ) ou ruins ( TUDO QUE VOCE QUERIA SABER SOBRE SEXO, INTERIORES, O ESCORPIÃO DE JADE ), mas nunca são desonestos.
Disse que Allen não é da minha geração, e realmente não é. O retrato fílmico de meu tempo está em Oliver Stone, David Lynch, Tarantino e nos Coen. Já não é o tempo da neurose analítica de Woody, já é o tempo de pura piração. O que define meu tempo não é a procura da felicidade ou do eu-verdadeiro, como o é nos filmes de Allen; mas a aceitação da infelicidade da vida, e a tentativa de escapar disso pela pura ironia ou pela negação da realidade. Woody Allen sofre com a vida, mas tenta ser feliz. A partir dos anos 80 tenta-se ignorar a vida real.
Quem retrata a geração de hoje é provávelmente Lars Von Trier. Ou talvez Gus Van Sant também. Preciso dizer mais sobre uma geração que vaia moças de minissaias ???? Onde estava o Clint Eastwwod da sala para resmungar e a defender ? Fico feliz em fazer parte da geração que se uniu pelas diretas já. A geração que ainda compreendeu Woody Allen.
Ele uma vez listou tudo aquilo que o fazia querer continuar vivo. Lembro que ele citou os filmes de Bergman, Groucho Marx, beisebol e Louis Armstrong. Woody Allen me faz querer continuar vivo. Recordo que ANNIE HALL na TV, em 1989, me ajudou a superar uma deprê braba. E TODOS DIZEM EU TE AMO me recuperou de um pé na bunda em 1998. Ele é um tio que eu adoraria ter tido.
Nunca mais surgirá outro Woody porque o mundo não quer mais Woodys. Ele pensa demais, fala demais, analisa demais. O mundo em que ele cresceu era um mundo onde ainda se podia ler Dostoievski e jogar bola na rua ao mesmo tempo. Onde ele assistia Bergman em cinemas e depois ia ouvir jazz de big band num bar barato. Um mundo onde o muito sério podia conviver com o muito povão, sem problema nenhum. Mundo de imigrantes, de fim de guerra, de mobilização política e do começo da TV. Um mundo de começos, e onde quase tudo era feito em grupo. Voce ouvia música em grupo, via filmes em grupo e até assistia TV em grupo.
Os filmes de Woody Allen falam de solidão, mas repare, são cheios de gente !!!!! Não há a imagem fria do cara em sua sala com seu laptop. Não existe a falta do que dizer. Existe gente.
Se ele fizer realmente um filme no Brasil será incrível. Não sei se o Rio de hoje merece um filme de Woody. Sei que SP nada tem de Woodyano. Mas talvez ele consiga fazer o milagre de por 90 minutos nos fazer ver o Rio que ainda existe em fantasmas e em vislumbres.
Talvez ele até consiga fazer as pessoas tirarem a bunda da poltrona, largarem seus baldes de Coca e aplaudirem mais um Woody Allen film.

SHANE/GODARD/DON CAMILLO/PETER O'TOOLE

TROCANDO AS BOLAS de John Landis com Dan Akroyd, Eddie Murphy e Jamie Lee Curtis
Uma dupla de velhos milionários ( Don Ameche e Ralph Bellamy ) faz uma aposta e transforma o sem-teto Murphy em rico executivo. Não é muito engraçado. Causa tristeza ver nos extras Eddie dizer hoje, que desde esse filme ( de 1983 ) tudo o que ele fez foi só por dinheiro. O prazer de atuar se encerrou nesse filme... De qualquer modo, este é um exemplo de uma grande época da comedia americana, a da geração de Steve Martin, John Belushi, Chevy Chase, Leslie Nielsen, Bill Murray e Martin Short. Nota 5.
DON CAMILLO de Julien Duvivier com Fernandel e Gino Cervi
A série de Don Camillo fez enorme sucesso popular na Europa dos anos 50. Fernandel era um superstar por lá e assisiti este dvd recém lançado pensando em ver uma comédia tolinha e ingênua, bem nostálgica. Qual não foi minha surpresa ( boa ) ao me deparar com uma comédia profundamente humana, real e com enorme viés político !!!! Fernandel é um padre de direita, Cervi é o prefeito, comunista, e o filme trata das birras dos dois. Didaticamente se mostra o lado "rato de igreja" da direita e o lado "só nós sabemos a verdade" da esquerda. O roteiro é maravilhosamente criativo, coisas acontecem todo o tempo, o filme surpreende e jamais aborrece. Este é o tipo de filme familiar, popular e inteligente cuja receita foi perdida no histerismo do mal gosto atual. ( Claro que existem excessões ! Mas são tão poucas.... ) Nota 7.
VELOZES E FURIOSOS de Rob Cohen com Vin Diesel e Paul Walker
O fato de em 2000 eu não ter morrido na avenida Giovanni Gronchi às 3 da manhã de um sábado atesta a existencia de anjos da guarda. Após ver este filme em estréia no cinema, saí dirigindo feito um doido, insandecido pela adrenalina que o filme tem. Revendo-o agora, noto que filmes de muita adrenalina ( como Matrix, que é o melhor exemplo ) tendem a parecer embustes na segunda olhada. É como se já estivéssemos vacinados contra a adrenalina do filme e ela não mais fizesse efeito. Na verdade são filmes feitos com esse propósito : veja e jogue fora. Mas que os carros são legais, são !!!!!! A trilha sonora é do cacete também. Nota 5.
KES de Ken Loach
Um poema sobre um garoto tentando sobreviver em meio a aridez geral. O filme chega a doer de tão belo. Tem também uma partida de futebol que é comédia magnífica ! ( Porque os garotos escolhem o Totenham ? Porque os Hotspurs, assim como o Newcastle, sempre foi o time dos proletários ). Filme que dignifica o cinema, enobrece a profissão de diretor e nos faz felizes como espectadores. O segredo é só um : Loach crê no ser-humano. Seu filme é vivo como o adolescente central. Loach vê todo o mal que existe, mas também percebe uma saída. Seu filme é uma luz. Nota Dez.
O RETORNO DE DON CAMILLO de Julien Duvivier com Fernandel e Gino Cervi
Humanismo há neste filme também. Tão bom quanto o primeiro da série, aqui Fernandel mostra quão grande ele foi. Seres humanos de verdade em filme caloroso. Uma delícia ! Nota 7.
CINEMA PARADISO de Giuseppe Tornatore com Philippe Noiret, Brigitte Fossey
Devo ser o único apaixonado por cinema que não gosta deste filme. São 3 intermináveis horas... A primeira parte ainda se mantém, graças aos trechos de grandes filmes e aos cômicos sicilianos que dão um show como o público da sala. A segunda hora é medíocre. Uma boba história de amor adolescente. O filme fica um pouco menos ruim no final, quando o menino já maduro ( feito pelo grande Jacques Perrin ) reencontra seu antigo amor ( é a bela Brigitte Fossey, de Brinquedo Proibido ). Mas já se passaram as 3 horas e estamos chateados. O filme mostra aquilo que se tornou o cinema italiano ( que foi o melhor do mundo entre 45/65 ) : belas imagens e excesso de sentimento. Nota 2.
A CLASSE GOVERNANTE de Peter Medak com Peter O'Toole e Alastair Sim
Este é um exemplo daquilo que sempre repito : que entre 62/78 o mundo esteve completamente louco. Que é isto ? A história é a de um herdeiro inglês ( Peter, ótimo como sempre ) que pensa ser Jesus Cristo. Ele dorme numa cruz e abençoa todo mundo. Seus parentes fazem de tudo para o internar, mas então ele se torna um ferrenho aristocrata conservador. Crítica a classe dominante inglesa, crítica ao próprio cinema. O filme é doido, torto, exagerado e até ridículo. Mas não deixa de ser corajoso. Quando o ví na TV, aos 15 anos, fiquei muito tocado. Hoje, após tantos filmes melhores e piores... Nota 4.
O GATO E O CANÁRIO de Paul Leni
Cada vez mais percebo que do cinema mudo o que sobrevive são suas comédias e seus filmes de aventuras ( piratas e sheiks ). Este suspense de terror é chato chato chato... Um excesso de diálogos, excesso de pretensão, excesso de tudo. Nota 1.
UMA MULHER É UMA MULHER de Jean-Luc Godard com Anna Karina, Jean-Claude Brialy e Jean-Paul Belmondo
Nada, ainda hoje, é mais jovem em cinema que o jovem Godard. Ele brinca com filmes. Aqui ele destrói o som, destrói o romance, rí dos cenários. Anna está apaixonante, linda como o paraíso. Belmondo É o cara ! E Brialy exibe seu mal-humor costumeiro. O filme mostra o que é a alma feminina ? Sei lá ! Isso importa ? Temos aqui uma alegoria sobre a felicidade de se viver e de se fazer um filme. Que mais pode importar ? As cores são de sonho ( Raoul Coutard ) a trilha sonora é genial ( Michel Legrand ) e tem Anna Karina.... Nota Dez.
O CAMPO DOS SONHOS de Phil Alden Robinson com Kevin Costner, Ray Liotta e Amy Madigan
Vamos aos fatos : este filme é um cult na América. Como os filmes de Capra, ele é sempre reprisado no natal, e é o que restou da carreira de Costner. É a história de um cara que ouve uma voz lhe mandar construir um campo de beisebol. Ele o faz... James Earl Jones é um escritor recluso e Burt Lancaster ( ele é o cara ! ) faz o fantasma de um ex-jogador. Nos primeiros vinte minutos temos dificuldade em engolir tamanha asneira, mas depois, vemos que o filme é feito com tamanha convicção que nos rendemos : ok, vou me emocionar. O filme é bonito. Nota 6.
MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO de Marc Foster com Will Ferrell, Maggie Gyllenhall...
Um cara metódico e nerd entra em crise e se apaixona ( como todo chavão ) por maluquinha carente. O filme é só isso. Nada há de original em sua alma. Mas como esta é a era em que se vende o velho maquiado de novo, vamos colocar um rótulo moderninho : vamos fingir que é um filme original e colocar uma escritora ( Emma Thompson, soberbamente excelente, como sempre ) que escreve aquilo que ele vive ! PÕ cara ! Não faz o menor sentido, mas é genial !l cara !!!!! Dustin Hoffman, presença calorosa num filme gélido, faz um professor viciado em café e doces melados. Ferrell foi chamado aqui de bom ator... onde ? Tudo que ele faz é parecer com muito sono. Maggie é mais uma dessas atrizes que desconhecem sabonete. O filme é enganação braba ! Mas serve como retratinho miúdo da depressão atual : cenários frios, luz fraca, gente vazia. Um horror!!!! Nota ZERO!!!!!!
MARES DA CHINA de Tay Garnett com Clarck Gable, Jean Harlow, Rosalind Russel
A Metro não corria riscos. Capitão beberrão conduz navio pelo mar chinês infestado de piratas malaios. De quebra, uma mulher duvidosa o disputa com outra sofisticada. Temos tempestades, ataque pirata, bêbados cômicos, mocinha sexy, fracasso redimido, tiros e piadas. O cinema compensava cada tostão gasto pelo povão em suas salas. Os atores dão aquilo que esse povo espera : Gable é o macho, Jean a vagabundinha engraçada, Russel a classuda e ainda tem Wallace Beery como o vilão e Robert Benchley de porre. Isto era a TV da época, um produto fácil de vender. Mas que belo produto!!!! Nota 7.
SHANE de George Stevens com Alan Ladd, Jean Arthur, Van Heflin, Jack Palance
Esta crítica é para meu amigo Fernando. É a quarta vez que vejo Shane ( OS BRUTOS TAMBÉM AMAM ) e é a quarta vez que me emociono. Tudo é mito neste filme : o herói é Lincoln e será Kennedy, a esposa é toda esposa fiel, o marido é o pioneiro, o garoto é o filho arquétipo e o vilão é o MAL. Tem gente que acha que Shane é um fantasma, ou um anjo. Pode ser que sim. Para mim, ele significa o que temos de melhor em nós. Mas vamos ver o trabalho de Stevens. Note como cada tomada se parece com uma pintura. O cão no canto esquerdo, o cavalo no direito, o menino ao centro, o céu imaculado. A morte do cara na lama : o marrom em contraste com o azul, a imagem baixa, o vilão enorme. Plasticamente o filme é irretocável. Mas há mais : os diálogos são curtos, básicos, o que entendemos está no gestual dos atores e nos olhares que se cruzam todo o tempo. Ouvimos milhares de coisas que nunca serão ditas. Shane é amado pela mulher do fazendeiro, mas jamais será dito.
O filme é, depois de CIDADÃO KANE, aquele que mais teve livros publicados sobre seu significado. George Stevens foi, com David Lean, o mais perfeccionista dos diretores. Shane é um monumento ao cinema, um monumento ao western. Seu final, após aquele duelo que é uma aula de edição, é uma ode ao homem e ao heroísmo. Shane se encerra como aquilo que sempre foi, um mito. O roteiro pega todos os chavões e os limpa, purifica. Nos dá a raiz das coisas, o que importa. Não enfeita, revela. Shane é aula de honestidade, tanto de Stevens como diretor, como de Shane como personagem. O filme é aula de saúde.
Enquanto o mundo valer a pena Shane será cultuado. Com os filmes de Ford e Capra, ele mostra o que temos de melhor. Amar este filme é amar o bem. Nota ZILHÕES DE MILHÕES.

GNOSSIENE 3 - ERIK SATIE

Um eco permanece. A última imagem da terra pode ser a primeira, o derradeiro pode ser sua criação.
O espaço daquele lugar lhe parecia vazio inundado pela luz de um sol que doía.
Não era na verdade vazio pois tinha uma árvore e um ninho de ratos. O garoto matava o tempo lendo um jornal velho com notícias interessantes. Os ratos brincavam ( ratos adoram brincar ). A luz batia e se esparramava pelo capim e pelas folhas da árvore esquecida. O tempo insistia em não passar. Deitado no capim ele contava gotas de suor em sua testa.
Na casa ao lado, música de piano dedilhado com preguiça veio lhe distrair do jornal velho. Se ergueu para escutar melhor. O dedilhar preguiçoso começou a divagar e logo encontrou notas que dormiam com a luz da tarde.
A brisa que dançava com a cortina do quarto brincava com as mãos que tocavam as teclas. Ele parou junto ao portão da casa e a tarde parou de fazer hora.
No momento em que as nuvens fecharam os raios do sol a melodia começou a derreter, mas nunca a se encerrar. Os ecos de seu hesitante inicio imortalizavam o garoto e a pianista. Fragilidade sólida.
Era Gnossiene trois.
A árvore de seu amor futuro estava então plantada. Gnossiene trois. O garoto queria ver o rosto daquela que tocava. Não viu. Ouviu.
A brisa, agora vento, levou o jornal e fez com que os ratos se erguessem em suas pernas traseiras.
O simbolismo da vida, o pássaro pousado em fio contra nuvens de chumbo. Beleza impossível.
Pacto feito : a fidelidade do jovem homem. Jamais esquecer aquela tarde e jamais ser esquecido pelos símbolos da vida. Sua alma - imortal - transfigurada. Seu mapa está nas notas de Gnossiene trois. Quando a morte chegar o pássaro irá voar de seu fio e adentrar o chumbo.
A música não existe.
Cinzas flutuarão entre as asas do pássaro.

VINTE ANOS- ADEUS TIGRE...

Leio que em vinte anos ( apenas ) os tigres terão sumido das florestas. Teus filhos só conhecerão os tristes tigres nascidos no zoo. Trocamos a magnífica presença sagrada do mais belo dos animais por casacos, tapetes e afrodisíacos. Uma espécie que faz isso não pode ser grande coisa. ( E também trocamos a Amazonia por um bife ).
Mudando de assunto.
Como jamais iremos construir novamente um Coliseu ou uma catedral de Notre-Dame, toda a beleza que se pode encontrar hoje está na destruição/construção das coisas. Não procure mais beleza/transcendente ou a eternidade do espírito humano. O interesse está na obra em construção e depois em sua demolição. Nossa vida é assim.
O edifício, vulgar como é nossa arquitetura, tem como interesse único seu projeto. Sua demolição também é relevante. Sua existência é ínfima. Esta é a era do erguimento e da destruição imediata.
Procure a beleza nos escombros e no resto. Procure o amor no "talvez" e no "terminou". A realidade do dia a dia não importa mais.
Na arte nada mais pode estar terminado/polido/finalizado. É necessário o aspecto de "em construção", inacabado ou decadentemente abandonado. Tudo deve ser "quase" : quase pronto e quase extinto.
A música não interessa se não for destrutivamante anti-harmônica. Esta época não cabe em qualquer harmonia. A melodia deve ser um constante começo inacabado. O fim é como um tropeço. A música tem de ser parte do ruído ambiente.
A nobre tranquilidade do tigre não cabe neste mundo. Seu olhar não comporta esta amarga confusão. No mundo da utilidade ele é engolido por ser útil quando morto. Seu fantasma nos irá assombrar. O espetáculo da vida se traduz em demolição.

UMA MULHER É UMA MULHER - GODARD

Quando John Lennon encontrou Yoko ele perdeu toda sua leveza. Quando Godard perdeu Anna Karina tudo de colorido e vivo que ele tinha se foi. O filme "UMA MULHER É UMA MULHER" é um poema de cores fortes, música sinfonica, amor simples, livros e filosofia. O filme é homenagem a Anna, a mulher que é uma mulher, a mais bela das mulheres.
Godard irrita aqueles que vêm um filme para serem iludidos. Em seus filmes você jamais irá acreditar que o que está na tela é real. Marianne é todo o tempo Anna Karina e Emile é Brialy. A emoção nascerá de vermos Anna na tela, de olharmos o que Godard faz em 80 minutos, do que Belmondo é. Esse tipo de cinema existe apenas pelo mundo do cinema. Ele não quer ser mundo real, não quer nos iludir. Você vê um filme.
Marianne é artista de strip-tease ( o filme nada tem de erótico ) e quer ter um filho. Ela tem dois namorados. Briga com um e é amiga do outro. Mas nada disso importa. O que nos fascina é o som do filme. Godard brinca com o som da rua, com a trilha sonora que sempre entra na hora errada. Ele brinca com os diálogos que são artificiais. Tudo o que o anti-Godardiano chama de irritante é exatamente aquilo que o Godardiano ama.
O filme é Anna Karina. Por todo o tempo nós a amamos. Ela faz caretas para a câmera, chora, rí, grita, posa, dança, frita um ovo, canta, dorme, discute, anda pela rua, se veste, beija, brinca. O filme é uma homenagem a amada. O filme é retrato de amor. E o amor é uma mulher. E ela é amada por ser uma mulher. E uma mulher é uma mulher. E Anna é essa mulher.
A alegria do amor descoberto resplandece por todo o filme. Tudo nele é alegria. Mesmo as brigas são felizes. As cores são vibrantes, as citações intelectuais são brincadeiras, as ruas parecem sorrir. Os figurantes flutuam na tela. Raros filmes demonstraram tão nitidamente a sensação do amor que nasce. O filme é absolutamente jovem.
Mas não procure nele a poesia da lágrima ou o envolvimento visceral com a vida de Marianne. Não. O que há é Anna, Jean e Belmondo. O que se vê é um diretor genial em seu auge brincando com o cinema. Uma mulher fascinante em technicolor. A emoção vem da consciencia desse trabalho.
Godard é influência subterrânea no cinema de hoje porque todo bom diretor atual brinca com a tela. Dos Coen a Tarantino, de Woody Allen a Todd Haynes ( as excessões são Clint e Almodovar. Nada têm de Godard ). Todos eles nos mostram um mundo que só existe na tela, todos brincam com diálogos, cores, citações e performances, todos têm a tal "alegria de filmar". Jean Luc ensinou que uma câmera é um brinquedo. ( Lição tomada de Welles ). Godard falou que o único mundo do cinema é o próprio cinema. E nos disse : isto é apenas um filme.
UMA MULHER É UMA MULHER é absolutamente delicioso.

O PÁSSARO DE PEITO AMARELO

Começaram a derrubada exatamente no ano em que ele faleceu. Todos os passos que meu pai deixou estão sendo apagados. A primeira casa onde ele morou é hoje uma obra. lá será erguido mais um prédio de apartementos, de luxo, que será habitado por novos casais. A primeira loja onde ele trabalhou é agora uma montanha de tijolos e de canos retorcidos. Todas aquelas esquinas onde o jovem homem, que viria a ser meu pai, cruzava, não são mais esquinas, foram redesenhadas. Havia um mercado onde ele me levava para fazer as compras de Natal. Onde ele está ? E uma banca onde eu comprava os gibis com o trocado que ele me dava. Para onde ?
O primeiro bar que ele comprou é hoje uma avenida e o bar onde ele mais foi feliz é uma ruína reformada. O balcão onde eu tomava Fanta e comia misto-quente foi substituído por medíocres mesinhas de metal. O escritório dos fundos onde ele contava seu dinheiro é um depósito de garrafas vazias.
Minha casa vende telefones celulares. É a casa onde eu deitava em seu colo e ria com os 3Patetas. A casa dos patos em tanque de louça, de coelhos brancos soltos na grama, de uvas adoçando ao sol. Hoje ela é cimento que vende celulares de plástico. Onde descobrí Os Monkees e as manhãs de neblina, o que existe agora é trânsito e buzina.
A outra casa vende casas, é imobiliária. O quarto grafitado foi arrombado, exposto, deflorado. O quintal de Nicky, o mais amado dos cães, tornou-se um estacionamento e onde descobrí o amor com uma menina cheia de ansiedade e de olhar risonho, hoje há um balcão onde se fala de aluguel. A árvore que me fazia sombra e tinha cheiro verde é nada.
O lago onde meu pai criou carpas está seco. O rio de onde eu trazia peixinhos em lata enferrujada é agora um esgoto encanado. O lugar onde enterrei meu papagaio tornou-se lixo.
Todas as pegadas de meu pai estão sendo apagadas. Todos os locais onde Nicky deixava suas marcas se foram. Aquilo que meu pai viu não mais é visto por mim. O que viu Nicky passar não pode mais ver.
Quem recolherá meu rastro ? Nada do que ví sobreviverá a mim ? Tudo o que tanto amei será feito pó ?
Nestes tempos virtuais nada é mais importante que esta pergunta : O que resta de tudo ?
A videira que meu pai podava e acariciava, a rua onde ele caminhava segurando minha mão, a praça onde namorou minha mãe. O vinho que a videira daria é hoje uma laje onde passam carros. A rua é um conjunto de prédios, onde meninos passeiam e vão ao cinema. A praça é um camelódromo onde se vende e se rouba. O mundo dele ainda existe ? Meu mundo, para onde irá ?
É essa estupefação que nos faz crer em "Realidade ilusória", "Outras dimensões ", e baboseiras mais. O bicho que somos não aceita um ambiente, um habitat, um ninho que se desfaz assim. Nosso campo de caça, nosso rastro de bosta, nosso totem sagrado... onde ?
O que resta então é fechar os olhos e nada ver ? Fazer de conta que tudo sempre foi nada.
Mas eu lembro da rua de Aninha, eu sei onde fica a casa de Mauro, onde era o futebol e porque eu adorava passar por lá. Se eles se foram que deixem ao menos seus rastros ! Não esburaquem a rua de Mauro, não transformem a casa de Aninha, implodam o prédio de Jane... deixem meu mundo de pé !
Coração de melancolia nascido antes da hora ou depois da hora, mas nunca no tempo certo.
Locais de melancolia, amados quando deixam de existir, procurados na destruição.
Desconectado melancólico, como ver uma rua que não será amanhã o que foi agora ?
A loja onde meu velho comprava carrinhos Matchbox pra mim é agora um boteco sujo. Era onde eu era feliz. Ainda vou lá, passo na porta, espreito. Procuro ver se algum fantasma ficou preso naquele endereço. Bato uma foto escondido.
Nada do que vivermos então importa. Será, cedo ou tarde, destruído. Esquecido.
O vasto campo silencioso onde eu me escondia da vida é hoje um shopping center vulgar. As formigas que me fascinavam, estão enterradas em concreto. E o lodo do lago virou escada rolante.
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Um Bem-Te-Vi passa voando, agora, pela frente de minha janela. Ele pousa na árvore da esquina e toma fôlego. Canta e voa mais. Vai.
Com meu pai, na rua que não mais existe, eu ví um Bem-Te-Vi pousar numa árvore. E cantar.
Ele permaneceu.

SHELLEY E O HOMEM MODERNO

Termino de reler ADONAIS de Percy Shelley. Ao longo de centenas de versos Shelley se despede de Keats, morto tuberculoso em Roma, jovem e em seu apogeu criativo. Mas Shelley se despede também de sí mesmo : pouco tempo depois ele morreria aos 30, afogado num lago italiano, em desastre com seu iate. Nos bolsos ele levava Platão e Keats. Nascia com ele o artista sensível moderno.
Shelley nasceu nobre e rico. Sua família vinha de 1200. Cresceu amado pelo pai, em terras férteis e imensas. A criança Shelley foi educada para ser fazendeiro e artista. Vagou livre pelos lagos, grutas, bosques de seu pai; e estudou línguas, quimica, música. Nesse ambiente cheio de pássaros, flores e recantos vazios, Shelley criou sua persona poética. Tudo o que ele viu quando criança alimentou sua obra até o fim. ( E não somos todos assim ? ).
Jovem, foi expulso de Oxford por ser ateu e escrever um panfleto : " A necessidade do ateísmo". Travou contato com líderes políticos rebeldes, promovia poetas republicanos, vivia o amor livre. Shelley pregava a fidelidade ao ideal do amor, nunca a pessoa. Casou-se e foi infiel, foi pai, perdeu filho, provocou o suícídio de sua ex-esposa e de uma apaixonada. Enamorou-se da irmã do grande Lord Byron, e numa noite de festa entorpecida, ela, Mary Shelley, escreveu "Frankenstein". Orgias de ópio, de sexo, de poesia. Ele vaga pela Itália, tem melancolia, ajuda crianças pobres, doa dinheiro a amigos sem talento. Veleja e morre velejando, numa tempestade. E escreve.
Shelley define, conscientemente, o que é a poesia : uma religião para quem não tem religião. O poeta é uma antena que capta o que virá, define seu tempo. Ele, Percy, viveu intensamente o parto de nossa era. Sua obra é uma quebra, um conflito, um confronto. De um lado a natureza, a eternidade, o UNO imutável. De outro lado o vento, a mudança, o corpo apodrecido. Shelley, ateu, fala da alma que não muda, daquele centro incorruptível que há em todo homem, da força da vida. E ao mesmo tempo ele chora a folha que cai, o amigo morto, o amor que nunca se encontra. Yeats será seu melhor discípulo. O mundo é sua casa.
Percy é, com Keats, Byron e Wordsworth, o poeta que nos define, o poeta do novo tempo, a era da ruptura. do tempo que voa, da mudança que nada muda, do desumanismo. Desde então, todo artista que merece tal nome, é Byron, é Keats e é Shelley.
Byron é o criador satânico. O artista incestuoso, sádico e que ao mesmo tempo luta em guerras pela liberdade. Tem a sexualidade dúbia, um narcisismo imenso e tem fama, muita fama.
John Keats é o talentoso isolado. O ídolo dos ídolos. Pobre, sem fama, mas o mais genial. Keats cria o mito do "famoso após a morte", do talento desperdiçado.
E Shelley que é o dínamo, o incansável, o insatisfeito, o ansioso, o leão entre feras. É o jovem que rompe com a tradição, com a família, é o auto-exilado, o generoso, o sensível aventuroso.
Você encontra seus clones por aí desde então. Entre atores, músicos de rock, escritores e entre falsos poetas principalmente. O exemplo de jovens bonitos e sensíveis, correndo mundo atrás da poesia de viver, amando livremente, se drogando, e se consumindo cedo. Indo onde há vida.
Nós amamos Cervantes e Dante. Rembrandt e Velazquez. Mas o que eles eram ? É impossível ser Dante ou ser Velazquez. O mundo que os criou morreu com a industrialização. Adoramos Ésquilo e Sêneca, mas eles eram homens de um mundo povoado por deuses e por faunos. O único homem moderno antes da geração romântica é Montaigne, mas Montaigne é um mistério insondável : ele está fora do tempo ( como Shakespeare ). Shelley já nos é familiar. Seu medo é nosso medo, sua raiva é a que sentimos.
Tempo glorioso esse ! Entre 1790/1810, o mundo tendo em seus braços todos aqueles que fertilizaram os 200 anos seguintes : a louca audácia de Goethe, o orgulho profano e monstruoso de Beethoven, Napoleão criando a idéia de que tudo é possível, e os poetas românticos ingleses. Goethe nos dando a idéia de que um homem para ser grande precisa saber tudo sobre todos os assuntos; Beethoven clamando que nada e ninguém pode ser maior que a mente criativa e que mesmo um rei deve pagar para vê-lo tocar; Napoleão invadindo monarquias, ousando derrubar reinos milenares, dizendo que o tempo é hoje e agora; e Shelley, desafiando crenças, ansiando sempre por mais e sendo eternamente e belamente : jovem. Com ele nasce o mito da adolescência procurada, cultivada, acariciada. O poeta nunca mais será um sábio ancião, será antes, um jovem rebelde. Nós seremos a última geração a ouvir sua voz.
Não vou dizer da excelência de sua obra. Leia. Leia no mato, entre vozes de pássaros, ou leia de noite, a luz de velas, chovendo. Leia. Sua voz é a voz de 'MORRO DOS VENTOS UIVANTES", é a voz do que vale a pena. É dele a mais bela idéia sobre o que seja a vida :
DOMO COLORIDO, DE VIDRO
QUE SE DESPEDAÇA EM MILHÕES DE ESTILHAÇOS
BELEZA QUE SE FAZ BELEZA.
MORRER É ACORDAR DO SONHO DE VIVER
A VIDA, VAZIA, É DORMIR.
Percy Bysshe Shelley foi o cristal mais puro.

KEN LOACH - KES. ANTÍDOTO CONTRA O MAL CINEMA

A mostra de cinema deste ano tem entre seus homenageados Ken Loach. Homenagear Kenneth dignifica a mostra. Ken Loach é o último diretor de cinema realmente humanista a ainda filmar. Espero que ele viva até os 100.
Kes é uma obra-prima. Nada pode ser dito contra isso. Ao filmar a história de um garoto pobre numa industrial cidade inglesa, ele nos pega profundamente. Sem usar música melosa, sem jamais apelar para nada de chocante. Usando tudo aquilo que já vimos ou sabemos ser real. E principalmente num exemplo de sabedoria, dando voz a todos os lados.
Como seus outros filmes ( TERRA E LIBERDADE. VIDA EM FAMÍLIA. PÃO E ROSAS ) o filme se situa no limite entre ficção/documentário. O grande diretor de fotografia Chris Menges não embeleza nada. A luz é natural, os atores não estão maquiados. E que atores são esses ? Amadores, que atuam como se estivessem em reportagem. Ao contrário de Bresson, que usa amadores para que não exista a performance, Loach usa amadores que transmitam a emoção bruta. O adolescente que faz o herói é sublime. Acompanhamos sua vida torcendo por ele, cada derrota sua é uma flexa em nossa alma.
Kes é um falcão que ele captura e treina. O falcão é sua alma livre e nobre. Em todos seus filmes Ken Loach não se cansa de dizer : todo o desejo do homem se traduz em uma única palavra - liberdade. Ser livre para ser o que se é. Tudo ( escola, trabalho, religião, preconceito, guerra, ideologia, consumismo, família ) que corta a chance de se alcançar essa plenitude nos mata lentamente. Neste filme é o próprio garoto que sem o saber mata sua liberdade.
O filme exibe sua vida, sem nunca apelar : mãe ausente, irmão estúpido ( belo retrato de um pavãozinho trabalhador. Sua descida à mina onde trabalha é para não se esquecer. Há gente que trabalha no inferno. ). Professores insensíveis ( mas se dá voz à eles ). O jogo de futebol, alívio cômico ao drama poético, é exemplar da pressão que um adulto pode fazer sobre um jovem. O professor de e.física é execrável.
Uma das mais belas cenas que já ví ( e de nobreza descomunal ) é aquela em que um professor, finalmente, lhe dá voz. O rapaz exibe seu conhecimento sobre seu falcão e fascina a classe. Cena sem corte, precisa, de absoluta verdade e de absoluta emoção. Esqueçam 'Sociedades de Poetas" ou o filme de Truffaut sobre sua vida escolar, aqui está a realidade total, completa, absurda.
Ken Loach é um poeta, mas atenção, é um poeta que não fabrica poesia. Nada nele é belo, e nada é sofrimento exagerado. Loach ama a vida e ama as pessoas. Ele não mostra a beleza do campo, e mesmo o falcão é secundário. O que lhe interessa é o rosto dos garotos, suas vozes desajeitadas ( sotaques deliciosos ! ), medos e sonhos. Loach é do mundo de Ozu, De Sica, Clement, Bergman ou Chaplin : ele ama as pessoas. Loach é nobre.
O final é anti-dramático. É o esperado. Mas é de tristeza dilacerante. Você leva o filme dentro de você. Não irá o esquecer. Assití-lo é passar a olhar garotos rebeldes de outro modo ( não como anjos, jamais ! A coisa é bem mais complicada. ) É ver a armadilha onde os enfiamos e onde nos enfiaram antes. Pois tudo nega a liberdade. Tudo. Estar na escola é, hoje como sempre, aprender a abrir mão dessa liberdade necessária, vital, único desejo real que temos. Para fazer parte do jogo, a primeira regra é : jogue esse desejo no lixo e assuma outros em seu lugar. Nenhum dos quais é muito real. Mas é o que nos dão...
Assistir Kes, principalmente agora em que o cinema assumiu seu caráter de parte do jogo da irrealidade mofinizante contra a vitalidade libertária, é uma atitude obrigatória para aqueles que ainda conservam restos desse dom de viver. Viver da maneira como se pode, se deixa e se deve viver. Kes é uma ave que voa num céu cinzento opressivo. Voa nobremente, elegantemente. Caça, pousa, come, voa mais e volta. Destruir essa ave é o crime mais hediondo que um ser pode cometer. Estamos desde sempre fazendo isso. Kes é inesquecível.