KEN LOACH - KES. ANTÍDOTO CONTRA O MAL CINEMA

A mostra de cinema deste ano tem entre seus homenageados Ken Loach. Homenagear Kenneth dignifica a mostra. Ken Loach é o último diretor de cinema realmente humanista a ainda filmar. Espero que ele viva até os 100.
Kes é uma obra-prima. Nada pode ser dito contra isso. Ao filmar a história de um garoto pobre numa industrial cidade inglesa, ele nos pega profundamente. Sem usar música melosa, sem jamais apelar para nada de chocante. Usando tudo aquilo que já vimos ou sabemos ser real. E principalmente num exemplo de sabedoria, dando voz a todos os lados.
Como seus outros filmes ( TERRA E LIBERDADE. VIDA EM FAMÍLIA. PÃO E ROSAS ) o filme se situa no limite entre ficção/documentário. O grande diretor de fotografia Chris Menges não embeleza nada. A luz é natural, os atores não estão maquiados. E que atores são esses ? Amadores, que atuam como se estivessem em reportagem. Ao contrário de Bresson, que usa amadores para que não exista a performance, Loach usa amadores que transmitam a emoção bruta. O adolescente que faz o herói é sublime. Acompanhamos sua vida torcendo por ele, cada derrota sua é uma flexa em nossa alma.
Kes é um falcão que ele captura e treina. O falcão é sua alma livre e nobre. Em todos seus filmes Ken Loach não se cansa de dizer : todo o desejo do homem se traduz em uma única palavra - liberdade. Ser livre para ser o que se é. Tudo ( escola, trabalho, religião, preconceito, guerra, ideologia, consumismo, família ) que corta a chance de se alcançar essa plenitude nos mata lentamente. Neste filme é o próprio garoto que sem o saber mata sua liberdade.
O filme exibe sua vida, sem nunca apelar : mãe ausente, irmão estúpido ( belo retrato de um pavãozinho trabalhador. Sua descida à mina onde trabalha é para não se esquecer. Há gente que trabalha no inferno. ). Professores insensíveis ( mas se dá voz à eles ). O jogo de futebol, alívio cômico ao drama poético, é exemplar da pressão que um adulto pode fazer sobre um jovem. O professor de e.física é execrável.
Uma das mais belas cenas que já ví ( e de nobreza descomunal ) é aquela em que um professor, finalmente, lhe dá voz. O rapaz exibe seu conhecimento sobre seu falcão e fascina a classe. Cena sem corte, precisa, de absoluta verdade e de absoluta emoção. Esqueçam 'Sociedades de Poetas" ou o filme de Truffaut sobre sua vida escolar, aqui está a realidade total, completa, absurda.
Ken Loach é um poeta, mas atenção, é um poeta que não fabrica poesia. Nada nele é belo, e nada é sofrimento exagerado. Loach ama a vida e ama as pessoas. Ele não mostra a beleza do campo, e mesmo o falcão é secundário. O que lhe interessa é o rosto dos garotos, suas vozes desajeitadas ( sotaques deliciosos ! ), medos e sonhos. Loach é do mundo de Ozu, De Sica, Clement, Bergman ou Chaplin : ele ama as pessoas. Loach é nobre.
O final é anti-dramático. É o esperado. Mas é de tristeza dilacerante. Você leva o filme dentro de você. Não irá o esquecer. Assití-lo é passar a olhar garotos rebeldes de outro modo ( não como anjos, jamais ! A coisa é bem mais complicada. ) É ver a armadilha onde os enfiamos e onde nos enfiaram antes. Pois tudo nega a liberdade. Tudo. Estar na escola é, hoje como sempre, aprender a abrir mão dessa liberdade necessária, vital, único desejo real que temos. Para fazer parte do jogo, a primeira regra é : jogue esse desejo no lixo e assuma outros em seu lugar. Nenhum dos quais é muito real. Mas é o que nos dão...
Assistir Kes, principalmente agora em que o cinema assumiu seu caráter de parte do jogo da irrealidade mofinizante contra a vitalidade libertária, é uma atitude obrigatória para aqueles que ainda conservam restos desse dom de viver. Viver da maneira como se pode, se deixa e se deve viver. Kes é uma ave que voa num céu cinzento opressivo. Voa nobremente, elegantemente. Caça, pousa, come, voa mais e volta. Destruir essa ave é o crime mais hediondo que um ser pode cometer. Estamos desde sempre fazendo isso. Kes é inesquecível.