PAI

O pai nasce em nós como um deus em vida de crente. Ele é o mundo todo. É aquela insondável figura que conhece todo segredo, que vem lá de fora, e que fala com a voz de quem sabe. O meu tinha cheiro de Aqua Velva e bigode fininho de Erroll Flynn. Chegava em casa com a noite, adentrava fazendo barulho e suas mãos tinham moedas para meus doces. Ele era imensamente forte, viril, e à vontade. Consertava coisas: o motor da bomba do poço, o exaustor da cozinha, a porta de mola, a fechadura da sala, meus brinquedos. Criava canários e curiós e estava sempre assobiando. Nas manhãs de domingo escutava rádio na cama, alto. Bandas marciais. E lia um infindável jornal. Pouco abraçava e pouco elogiava. Era um tímido. E sempre sentiu ciúmes de cada amigo que eu encontrava. Ele mágicamente resolvia problemas. Contas eram pagas, remédios comprados. Trazia surpresas: a maior foi uma tartaruga em caixa de papelão. Da padaria vinha sempre um bolo, brioches, frango assado. Seus bolsos tinham sempre chaves, maços de dinheiro e um pente. Roncava alto, dava broncas cruéis, era um mundo em si.
Mas o pai, que foi um deus, é aquele que se torna um nada quando na puberdade nos tornamos ateus. Baixamos esse homem à Terra porque não admitimos, cheios de hormônios, que alguém possa ser maior que nós. Ainda mais um velho! E tudo o que ele é passa a nos causar repulsa: os pássaros, o ronco, a voz alta, as músicas, as camisas listradas, a padaria e o bigode. Todos os seus filmes favoritos se tornam os mais detestados e o cheiro de Aqua Velva uma lembrança a ser apagada. O tamanho da queda é proporcional ao tamanho do deus. Trocamos o pai pelo mundo.
Vem a tragédia então: O deus morre e o mundo se faz vazio. Os olhos que te olhavam se fecham. A voz que te assombrava é calada. Voce não é mais "um filho". O silêncio vence.
Hoje é dia deles. De quem fez voce. De quem te deu a vida. De seu deus pessoal.
Passei toda a vida brigando com ele. E sei que se ele estivesse vivo, continuaríamos a brigar sem parar. Porque eu queria que ele me desse algo que ele jamais poderia dar. Amor absoluto. Dar esse amor o anularia, faria com que ele deixasse de ser pai. Minha raiva por ele tinha o tamanho exato de minha mágoa. E a ironia da vida se faz dia a dia; cada vez me pareço mais com ele. A mesma voz, o mesmo modo de andar, expressões que repito, conceitos que agora eu sigo. Em fotos me assusto com meu olhar que é o dele. Me assusto? Ou me orgulho?
Ah meu pai.... a mágica da vida é que nada sabemos sobre ela. Tudo o que eu tinha certeza não foi o certo. E agora aqui estou, vendo seus velhos faroestes, sentado em sua poltrona e assinando seu nome em cada linha que escrevo. O sangue é uma coisa séria.

PETER E WENDY- JAMES M. BARRIE, UMA OBRA-PRIMA

James Barrie nasceu em 1860. Aos sete anos sofreu um trauma: a morte do irmão David, aos treze, e a consequente tristeza da mãe. Barrie se tornaria muito famoso com uma peça: Peter Pan, que estreou em 1908. Ele viria a falecer em 1937, após um casamento infeliz e uma vida de sucesso literário. PETER E WENDY é a adpatação em prosa da peça PETER PAN, feita pelo próprio Barrie. É, sem a menor dúvida, uma obra-prima. Superlativa em termos de criação, invenção, estilo e profundidade. É ainda um testemunho do que foi a infância no século XX, e do que ela não é no século XXI.
O livro começa já em alto nonsense. Nana é a babá, e ela é uma cadela. O pai só pensa em ações e dividendos e a mãe se anula em seu amor materno. Wendy, John e Michael são os filhos e numa noite, Peter Pan invade o quarto e os leva para a Terra do Nunca. Esqueça o desenho Disney, o filme de Spielberg ou o drama sobre Barrie com Johnny Depp ( todos são bons, mas nenhum o é como aqui ), esta novela tem tons de maravilhamento, de sombras e de dor que nenhum dos veículos nomeados acima pode tocar.
Algumas falas são estupendas, e quando Peter diz: "Morrer deve ser uma maravilhosa aventura!" o livro se torna gigantesco. Raros autores conseguem espelhar a vida de forma tão profunda e tão simples. James Barrie vai se aprofundando em arquétipos sobre arquétipos, e tudo parece incrivelmente natural.
Peter não tem memória. Ele se esquece. E tudo o que ele vê é a si-mesmo. Ele se ama, se gaba e crê em sua invenção. Peter cria seu mundo todo o tempo. E a contagem de dias e meses não existe. Cada dia é uma dia encadeado no dia anterior. E cada um desses dias será igual ao anterior e ao mesmo tempo totalmente novo. Peter se move em vôo porque crê poder voar. Assim como tem contato com as fadas porque deseja ter. O mundo onde ele vive é criação sua e quem lá vive deve segui-lo e adorá-lo. E todos amam Peter Pan. Barrie não tem pudor em dizer isso: a juventude é a única sedução. Ser jovem é tudo o que importa. Envelhecer é a morte. Peter Pan atrai por ser o espirito da eterna juventude, e sendo sempre criança, ele é alegre, ágil, vivo, criativo, irriquieto e desmemoriado. Ele faz coisas, não pensa coisas, ele age por impulso, nunca planeja, ele não agrada, é agradado, ele não ama, se ama.
Wendy é a mulher, e mulheres amam Peter. Elas amam seu jeito infantil que promete fragilidade. E se surpreendem com sua força e coragem. Peter tira-as da vida tola e maçante, leva-as ao mundo da não-regra, mas tudo o que ele deseja é que ela seja SUA MÃE. Peter não tem mãe, ele nem sabe o que é uma mãe, mas ele sente precisar de uma. Ela cuida de sua casa, conta histórias e remenda suas roupas. Sininho é uma fada. Ela depende de Peter. Sem sua fé ela não pode existir. É ciumenta e vingativa. Temos aí as duas mulheres que atraem Peter, a mãe e a irmã.
Com ele vivem os Meninos Perdidos. São filhos que se perderam dos pais. Peter é seu lider, seu chefe, seu ídolo. Mas o que eles realmente querem é um lar. Têm uma vaga ideia do que seja isso.
E surge Gancho. Uma criação genial, o CAPITÃO GANCHO é vitima de uma terrível melancolia. No tic-tac do jacaré que o segue há a consciência terrível do tempo que passa e da morte que virá o comer. Gancho odeia Peter porque Peter não se preocupa com nada. Peter zomba de tudo. Gancho é preocupado com etiqueta, com bons modos e ao pensar ter vencido Peter tem seu momento shakespeareano: sente o vazio da vitória. Dois breves momentos revelam um horror subjacente a história: Wendy sente atração por Gancho, e Peter sente-se como ele ao matá-lo. Gancho é o Peter Pan que cresceu.
Wendy volta a casa e reencontra os pais. Esse reencontro é feito com maravilhosa delicadeza por Barrie. E me comove o momento em que Peter olha esse reencontro pela janela e sente que aquilo não é para ele. Peter não tem casa, lar, pais. Ele voa.
Peter visitará Wendy todo verão. Mas seu tempo não se conta e ele desaparece por vários verões. Reencontra Wendy velha, que se envergonha. Ele mal percebe que ela envelheceu, só tem olhos para si. A filha de Wendy se encanta por Peter e parte com ele. A neta irá com ele também e por todo o sempre assim será...
John se torna um homem de guarda-chuva e pasta, Michael um juiz soberbo. O dom de voar e a Terra do Nunca um vago brilho esquecido.... Será?
O livro tem tantas frases belíssimas que sinto a tentação de ficar citando e citando. Não o farei. Leiam. É lançamento recente da LPM, fácil de achar e barato. O que desejo dizer é que não sei se as crianças de agora ainda são Peter Pan. Temo que não. Elas caem logo no mundo real e são engolidas pelo tic tac do jacaré. Gancho as vence e seduz com rapidez. Porque Peter não tem horário, não segue normas, cria seu mundo e sua história, corre, voa, pula e briga. Dança e canta todo o tempo e ignora todo o mundo, menos o seu desejo. Medo? Apenas um: crescer. Observe, ele não teme morrer, ele teme crescer. Crescer seria ficar em casa, obedecer, se adaptar, deixar de voar. Peter Pan tem um limite, não pode amar de verdade. Amor seria submissão. Ele é livre.
Eu diria que hoje todo homem pensa e tenta ser Peter Pan. Mas as crianças deixaram ele e Sininho para trás. Quanto as mulheres.... elas sempre são e serão as Wendys, aventureiras que nunca se esquecem da hora do remédio, da hora de dormir e do momento de voltar pra casa.
Puxa! É um livro triste pra caramba!!!!!! Mas eu amo esse Peter Pan!!!! É a melhor parte de mim, a única que me faz feliz. E quando fecho os olhos e me sinto contente é sempre ele que me faz voar e me leva por aí. Ah! Viver, Morrer, Matar ou Perder....tudo é uma imensa aventura!!!!

GENIALIDADE É UMA ESTRADA QUE SE ABRE

Uma das piores coisas que o mundo- supermercado fez, foi transformar certas palavras em absoluto vazio. Guru é uma. Reinvenção é outra. E "genial" é uma das mais vulgarizadas. Do jogador de dezoito anos ao cozinheiro de restaurante espanhol, gênio é questão de empolgação. Claro que não quero impedir ninguém de chamar seu cabelereiro de genial ou de bradar por aí que o Seu Chico faz um beirute de gênio. Mas em arte são tantos gênios que a coisa se torna até ridicula.
Para os mais rigorosos, gênio só pode ser aquele que abre novos caminhos. Ele é o grande fertilizador, o que surge do nada e faz com que uma multidão de grandes talentos flutue sob sua influência. Em gênio verdadeiro há a história em todo o seu resumo. Ele absorve todo o passado, e o devolve renovado, insuspeito. O gênio faz com que olhemos para trás vendo beleza onde pensávamos nada haver. E principalmente, faz brotar todo um novo universo.
Rigorosamente então, cada arte tem um único gênio. O homem que fez com que aquela arte se tornasse aquilo que até hoje conhecemos. Shakespeare é o caso mais exaltado. O teatro como o pensamos nasce com ele. Shakespeare absorve todo o passado, assombra seu tempo e fertiliza tudo o que o tocou. Trancado em vida de mistérios, alegre como um sátiro e ao mesmo tempo sombrio como um maldito, ele é o centro e o criador, simboliza um sempre-nascer e estranhamente ele é o futuro que sempre nos aguarda.
Na música há uma briga entre Bach e Beethoven. Se Bach é o homem que organiza e harmoniza o que entendemos até hoje por "música ocidental", é Beethoven quem se faz "músico artista". É com Beethoven que nasce o criador comprometido apenas com si-mesmo, o artista livre, ambicioso como um deus, louco e ousado, incansável. Para mim, é ele o gênio da música.
Na poesia Dante é o gênio inevitável. Tudo o que entendemos por "vida poética", por "busca pela inspiração", por musa, simbologia e musicalidade está em Dante. Cada poeta esbarra na imensa presença desse irado cantor de vingança. De sua irradiação brota toda a poesia que conhecemos. Ele eleva o poeta de menestrel a fazedor de mundos.
Na pintura a coisa se complica. Giotto, Leonardo, Velazques e Rembrandt brigam pela honra. Não me meto nessa briga, o próprio hábito de se chamar arte de coisa genial começa na pintura. Adoro todos os quatro e leio críticos que colocam cada um deles no patamar mais alto. Me parece que Giotto foi o criador, Leonardo o insaciável, Velazques o melhor dotado e Rembrandt o inventor do pintor como hoje o conhecemos.
A prosa é caso a parte. Não há na prosa um titã central. Nada que se compare a Shakespeare, Dante ou Beethoven. Porque? Há algo de operário na prosa, de trabalho de formiga, de lento construir. Como todo artista, o autor de prosa é também um egocentrico, mas ele não pode ter a cara dionisíaca do grande músico ou do poeta maldito. Seu trabalho é mais racional, menos tempestuoso. E assim, a história da prosa é feita de monstros que rugem alto, de florestas de talento, mas não de uma explosão criadora. O maior candidato a gênio central seria Cervantes, mas mesmo ele não é universo fertilizador e inventor de novas formas como o são Giotto ou Bach. De qualquer modo, O Quixote é molde e norte de todo romancista de brilho.
Chegamos então as sub-artes, e com elas vem o cinema. Ora, se na prosa já há essa dificuldade de se encontrar o centro criador, imagine uma arte tão fugaz e recente como o cinema. Mas podemos tentar vislumbrar esse gênio.
Todo gênio surge como recomeço. Se pensamos que para se ser gênio é preciso ser "muito antigo", não entendemos nada. Quando Shakespeare surge, o teatro já possuia 2000 anos de história, o mesmo com a poesia, pintura e música. O que eles fazem é criar um tipo de ponto zero. Assim, é como se o teatro começasse com Shakespeare, a música com Bach ( ponto para Bach sobre Beethoven ) e a pintura com Giotto. Quem dá essa sensação de ser o ponto zero do cinema? Murnau? Lang? Ford? Pode ser, mas é necessário ainda que ele seja um fertilizador, alguém que trouxe consigo toda uma leva de novos talentos, de gente refazendo tudo. Godard? Rosselini? Ele precisa ser um deus de potência feliz e um demonio de sombria danação, um individualista. Bunuel? Bergman? Fellini? Mas acima de tudo, ele tem de destruir o passado e fazer nascer um mundo novo. Quem mais chega perto de TODAS essas características é Orson Welles. Se o cinema criou um gênio verdadeiro, esse foi Orson.
Com tudo isso eu explico o porque de ter dito que se o rock possui um gênio esse cara só poderia ser Bob Dylan. Mito, individualista, fertilizador, criador de um novo marco zero. Sem ele o rock teria seguido o destino que se lhe afigurava: yeah yeah yeah. Pop para adolescentes caipiras. Irresistivelmente dançante, maravilhosamente impetuoso. Eternamente alienado. Mas Dylan cria um mundo novo, ele traz RELEVÂNCIA ao rock, ambição, respeito intelectual, raiva e muita inquietação. Pega todo o passado e o engole. O que ele cospe é o que entendemos por "artista do rock", um cara de óculos escuros ligado em cinema, livros e drogas. O rock, como o jazz, não tem gênios. Eles não têm tempo para os criar. Mas se os houvesse, Dylan seria o gênio do rock. Sem ele, todos os caras que voce poderia contrapor ( Lennon, Lou Reed, Leonard Cohen, Bowie, Patti Smith.... ) , não teriam existido.
Afinal, todo gênio tem de saber "como é estar por si-mesmo/ like a rolling stone"...

A INOCÊNCIA DO PADRE BROWN- G.K. CHESTERTON

Os contos policiais de Padre Brown foram enorme sucesso na Inglaterra dos começos do século XX. Chesterton, polemista refinado, tornou-se umas das estrelas da época ( e que belas estrelas: Noel Coward, HG Wells, Churchill, Russell, Shaw ). Os contos, curtos, primam pela forma de dedução lógica utilizada pelo Padre ( sim, ele é um padre católico inglês ). Uma série de pistas que são unidas e de onde se tira seu sentido. Mas, ao contrário de Sherlock Holmes, as pistas são nos dadas desde o inicio, Chesterton não endeusa seu personagem, ele é um modesto. Perto dele, Holmes é um tipo de James Bond vitoriano.
Todos os 12 contos são deliciosos. Levemente góticos, tangem todas as formas de tragédia humana. E causa um delicioso prazer observar que em alguns casos, Brown obtém a confissão e o arrependimento do criminoso, deixando-o em seguida livre para viver. Chesterton, defensor da ortodoxia católica, jamais deixa de usar exemplos de virtude cristã em suas histórias. Padre Brown compreende racionalmente os criminosos e é daí que tira suas conclusões. O autor também não perde a chance de mostrar o perigo de religiões exotéricas, de crendices pseudo-racionais e de ateus vazios. Nada de carola há nos contos. O Padre jamais prega ou moraliza, mas seu pensamento, sutil, está sempre em voga.
Ficaram famosos nos anos 30 as transmissões da BBC, em que Chesterton discutia ateísmo com Bertrand Russell, socialismo com Bernard Shaw e materialismo com Wells. A forma calma e ponderada de Chesterton, calma típica de Padre Brown, levava sempre o antagonista ao desânimo. Bons tempos do rádio.
Fácil de achar em banca, este livro é indicado para aqueles dias/noites de tédio, em que tudo que voce quer é um livro que divirta e instrua, passe o tempo em prazer calmo e instigante. Vale cada minuto gasto.

UM PLANETA CHAMADO ADOLESCÊNCIA

Eu tinha dezesseis anos quando numa varanda em Santos tive essa conversa deprê com uma prima de minha mãe....
Que nada fazia sentido porque tudo acabava em morte e cinzas. Para que viver se o fim era certo? Qual a utilidade de um livro, pra que escrever, se tudo vira passado? Falamos mais: que Deus era um consolo de fracos, que o capitalismo era canibalismo e que o socialismo era a igreja de ateus. E em meio a tanta coisa óbvia, infantil, digo que a dor era de verdade. Éramos incapazes de ver qualquer coisa que fosse mais que nossa imensa dor. Nos achando clarividentes, víamos apenas um espelho. Pois não percebíamos que o mundo era triste porque éramos tristes. Nós dois. Mas o mundo estava além de nós.
Mas eu pensava como um romântico melancólico de 16 anos.
Com o tempo passei a usar a melancolia como estilo de sedução. Mas não suspeitava que a melancolia era a parte de um todo. Pensava ser ela o todo. E via tristeza em tudo: o mar era triste, a noite era fúnebre, as mulheres eram vítimas e os bichos eram sombras. A melancolia virou depressão e a dor se tornou um eu. Único.
Quando encontrei uma muleta, tudo mudou radicalmente. A razão ocupou o lugar da dor.
Ora, se um simples comprimido fazia com que toda a minha visão da vida se modificasse, então a vida era questão de quimica. Somos um composto de reações quimicas e de evolução genética, cuidar do balanceamento quimico e compreender a evolução é entender a vida. Um macaco que deixou de estar confortável em seu planeta: somos isso. Amor é desejo de procriar disfarçado e enobrecido pelo cristianismo, guerra é uma lei geral de sobrevivência, arte é ilusão de covardes, e a religião é o grande besteirol da vida. A euforia pela ilusão da resposta é sempre ridicula, eu o fui. Converse com qualquer pessoa que pense ter respostas, seja um sociólogo, um filósofo ou um psicólogo, eles sempre cairão em dogmatismo, viverão na fé da certeza.
Mas isso foi se desgastando e foi a arte que mais fez esse trabalho. Se a quimica tudo explica a questão é: de onde vem a quimica. Se a evolução é fato, a questão se faz: de onde vem a vida? Sim, emoções podem ser desarranjos quimicos, sim, o amor pode ser desejo animal disfarçado, mas de onde vem o desejo? O que é procriar?
Dizer que a vida é triste melancolia é adolescência.
Pensar saber que tudo pode ser explicado pela razão é deslumbre de jovem adulto.
Perceber que não temos a possibilidade de entender é começar a compreender.
Continuo com minhas muletas. Não quero mais retornar ao planeta romantico. Optei por me mudar de lá. Mas, passado o desbunde pela potência, recordo sua existência e entendo ser ele apenas uma face, pequena, de um todo inalcansável.

AS ILHAS DA CORRENTE- ERNEST HEMINGUAY

Releio mais uma vez este que é um dos últimos livros de Heminguay. Foi um fiasco. Mas, não sei porque, é dos livros que mais gosto.
Sei que ele é vazio. Dividido em 3 partes, na primeira lemos sobre um pai que vive em ilha tropical, confortávelmente só. Tem um amigo bêbado, ocasionais casos com prostitutas nativas e escreve. Seu casamento foi um fracasso e ele se culpa por isso. Três filhos vêm o visitar. Há uma longa pesca e lautos jantares. E o tom dessa primeira parte é de desencanto, monotonia. Mas ao lado disso, há uma soberba descrição do mar, da praia, do sol. Há a descrição da comida, e este livro abre nosso apetite, há receitas nele que fiz em casa, bebidas. Ao lado da dor do tempo perdido, existe uma descrição do prazer, dos apetites, e do sol. O sol brilha forte todo o tempo, e tudo é mar...
Na segunda parte a ex-esposa vem o visitar. Um dos filhos morre em desastre de avião ( é época de guerra ) e a dor se instala de vez. Heminguay se desnuda na forma como o personagem enfrenta a dor. A esposa é exemplo de elegância e os tons sombrios se instalam. Se gosto do livro é por sua primeira parte.
Na terceira, ele parte em barco à caça de submarino nazista que foi visto por lá. Aqui Heminguay se perde. Como aventura é inconvincente, como narração, repetitiva. Se já li este livro 3 vezes, esta terceira parte foi lida apenas uma. E basta.
Há um belo filme de Franklyn Schaffner que segue este livro. George C. Scott nasceu para ser Heminguay. De certo modo ele é mais Heminguay que o escritor. No filme, a parte um é esticada, a parte três diminuída. É o que eu faria.
Ernest Heminguay tem quatro livros que gosto ( ainda ). O SOL TAMBÉM SE LEVANTA é o melhor. Seus livros de contos são todos bons. O volume onde recorda sua vida em Paris é ótimo. E este imperfeito AS ILHAS DA CORRENTE. Vazio, às vezes tolo, sem rumo.
Mas há algo na descrição da vida, do azul do mar e da força do sol que nos cativa. Heminguay teve o DUENDE.... a força vital que os espanhóis descrevem. Só que ele cometeu um erro: vulgarizou esse DUENDE. E o perdeu. Toda a parte final da vida de Heminguay é a dor dessa perda, a impotência criadora.
Mas ele o revê, longe, em certos parágrafos deste livro. VALE!!!!

WOODY ALLEN/ GORE VERBINSKI/ ANTHONY MANN/ JAMES STEWART/ FELLINI/ BERGMAN

O DORMINHOCO de Woody Allen com Diane Keaton
Em termos de humor puro, nenhum filme de Allen é melhor ( entendam, este é o mais pastelão,e eu adoro pastelão ). Na saga do nerd que é adormecido em 1973 e acorda em meio a revolução séculos mais tarde, encontramos defeitos de diretor iniciante ( irregularidade ) e qualidades dessa mesma juventude ( irresponsabilidade ). Uma delicia!!! E que humorista genial Diane sempre foi ! São dela as melhores cenas. Nota 7.
RANGO de Gore Verbinski
Cheio de altos e baixos, esta homenagem ao western melhora muito ao final. Seu defeito é ter um personagem central fraco. A homenagem a Clint Eastwood é excelente! Aliás, a trilha sonora paga tributo a Morricone. Nota 5.
WINCHESTER 73 de Anthony Mann com James Stewart
Primeiro dos clássicos de Mann/Stewart. Um rifle é o que move bando de homens no oeste. Na verdade há mais que isso, há o ódio entre irmãos. O western de Mann em nada se parece com aquele de Ford, onde Ford canta a vastidão e a camaradagem, Mann destaca a solidão e a desconfiança. Stewart exibe uma então nova faceta de seu talento: o dom de mostrar a fúria contida. Um filme maravilhoso. Nota DEZ.
DESTRY RIDES AGAIN de George Marshall com James Stewart e Marlene Dietrich
Stewart é um muito calmo filho de antigo justiceiro que vai a cidade dominada por chefão. Ele, com seu jeito calmo e cheio de "causos" acaba por vencer, claro. Esta comédia-western é uma graaande diversão. Há humor genuíno neste excelente personagem. Nota 8.
...E O SANGUE SEMEOU A TERRA de Anthony Mann com James Stewart, Arthur Kennedy e Rock Hudson
Aqui Stewart cria amizade com tipo suspeito e ficamos sem saber por quase todo o filme o que os une. A fotografia é espetacular. Mas a ação carece da eletricidade de Winchester 73. De qualquer modo é um bom exemplar do filme de bangue-bangue. Nota 7.
A DOCE VIDA de Federico Fellini com Marcello Mastroianni, Anouk Aimée, Anita Ekberg, Yvonne Furneaux, Alain Cuny e Magali Noel
Crítica abaixo ( no texto sobre a avendia Sumaré ). Numa estranha coincidência, revi este filme antes de saber que ele seria vendido em banca de jornal. A figura do paparazzo é criada e batizada neste filme. Que marca a segunda fase da carreira de Fellini. Ele deixa de ser realista e passa a se aprofundar dentro de si-mesmo. Acompanhamos Marcello ( um soberbo Mastroianni ) em sua jornada por Roma. Ele caminha para o esvaziamento, o que vemos são mortes, de mitos, de sonhos e de intenções. Roma nunca esteve tão bela, escura, misteriosa, sexy. Não é uma obra-prima, tem muitas cenas falhas, mas suas grandes cenas ( o final é histórico ) são de antologia. Nosso mundo nasce neste filme. Nota 9.
UM ESPÍRITO BAIXOU EM MIM de Carl Reiner com Steve Martin e Lily Tomlin
A excelente história da ricaça que morre e encarna no corpo de Steve é ótima. Mas Reiner perde o ritmo várias vezes. Steve Martin, o melhor humorista americano dos últimos trinta anos, brilha. Seu papel é não só engraçado, é uma peça de arte. Nota 6.
MORANGOS SILVESTRES de Ingmar Bergman com Victor Sjostrom, Ingrid Thulin e Bibi Andersson
Em coincidencia, além de ver A Doce Vida, ainda tive minha quarta apreciação de Morangos Silvestres. Que também sai em banca de jornais. Vou passar o resto de minha vida vendo este filme uma vez por ano. Já o comentei longamente neste blog. Suas imagens são de sonho. Mostram a busca de resgate/remissão de um velho médico em viagem. Nesse caminho ele descobre ter errado sempre. É genial a forma como Bergman mistura o velho homem alquebrado com suas lembranças sempre jovens. A famosa cena do sonho ainda é rica em material e em sentidos. E tem um final inigualável, o velho homem olha seus jovens pais a pescar em lago, o velho sorri para eles e todo o sentido do filme se revela. Ele está conciliado com seu inferno. Em que pese duas cenas ruins, o filme é tão superior ao meio "cinema" que só pode ser comparado a Mozart ou Tolstoi.
SORRISOS DE UMA NOITE DE AMOR de Ingmar Bergman com Harriet Andersson, Ulla Jacobson, Eva Dahlbeck, Margit Carlvist
Uma constatação: onde Bergman acha tantas atrizes bonitas? Esta é uma comédia de Bergman, ou seja, é um filme estranho. Fez imenso sucesso de público ( o que testemunha a favor do público de 1955 ). Conta, com ironia, a história de casais que se traem, mentem, falam bobagens e seduzem uns aos outros. E se vingam também. É dos mais imitados filmes da história. Woody Allen já o refilmou e Paul Mazurski também. Mais Altman, o próprio Allen e uma infinidade de nomes têm se inspirado nele. Há ainda uma aula de sensualidade sem culpa da vulcânica Harriet Andersson. Leve, bonito, mas com um amargor que permanece. Nota 7.
A VIDA DURANTE A GUERRA de Todd Solondz
Adorei o que Cássio Starling Carlos escreveu na Folha. Ele denuncia esses filmes "chantagistas". Filmes como Rio Congelado, Preciosa e Inverno da Alma, todos milimetricamente formatados para ganhar festivais indie e serem endeusados por pessoas "com bom coração". Quem não gosta desses filmes é rotulado de insensível. Necas!!!! São filmes ruins feitos para enganar. Fáceis de fazer, fáceis de inscrever em festivais, fáceis de esquecer. Este é um deles. ZERO!!!!!!!!!!!!!

A HISTÓRIA DO MAGO MERLIN- FRIEDRICH e DOROTHEA SCHLEGEL, o poder dos contrários

Se Deus fez com que Maria desse à luz a Jesus, então o diabo fertiliza uma virgem e faz com que Merlin nasça. Merlin nasce então para vingar o diabo, mas a força de sua mãe faz com que ele traia seu pai e se volte ao bem. Um ser que conhece o mal e o bem, que sabe ver o futuro e o presente, eis o poder de Merlin.
Criança prodigio, ele logo passa a dar provas de seus dons. Ele sabe tudo e nada lhe escapa. Abandona a mãe e parte, será arquiteto de reinos e de vitórias. Ao fim de sua saga, Merlin cai de amores por Ninyanne, torna-se seu escravo e é trancafiado para sempre em círculo. Ele sabia que ela era seu fim, mesmo assim não pode resistir, entrega-se.
Escrito no século XII, aqui temos uma versão do século XIX em seus começos, obra de casal central do romantismo alemão. Os romanticos viam nessa lenda a recuperação de vitalidade espiritual perdida, um simbolismo sem fim, imagens de sonho. Mas o que essa história significaria para um homem do século XII ?
Até o encontro com a mulher, jamais Merlin se analisa. Ele faz o que deve ser feito, age. É homem que une os contrários: homem e animal, bem e mal, etéreo e sólido. Não pense que nossos antepassados eram tão ingênuos. Sabiam que ninguém voava ou vivia para sempre. Mas ainda não haviam perdido a certeza de que existem coisas que são sem parecer, manifestações que acontecem sem testemunhas, tempo sem relógio. Principalmente, o lugar do homem ainda era central, a dilaceração ainda não acontecera. A vida era o que era, e o homem vivia como deveria viver. O universo era de Deus, e Deus era seu pai. Nesse sistema, o homem reage a vida como se tudo fosse parte de um todo, a compartimentação não existia. Merlin é então uma manifestação desse todo, homem que sabe ler e antecipar esse universo.
Lição mais importante, ele compreende que a paixão é sua perdição, mas jamais ataca ou difama a mulher. Ela cumpre seu papel e cabe a ele cumprir o seu. E é essa paixão que faz com que Merlin se indague, se questione e pela primeira vez olhe para dentro de si. Mas ele crê na vida e sabe que na vida tudo é o que deve ser.
Pequeno livro de eterno saber.

CAMINHANDO NA SUMARÉ COM UM AMIGO ( E "A DOCE VIDA" )

Um helicóptero leva uma estátua de Cristo pelos céus de Roma. No ar, Marcello, um jornalista, vai sorridente, e paquera algumas moças de bikini em terraço ensolarado. Não se deixe enganar, neste filme, que marcou época e criou toda uma moda de paparazzi e azarações, o que Marcello irá testemunhar é um apocalipse.
O filme, três horas de caos, é dividido em blocos. Marcello e um bando de fotógrafos ( o filme criou o termo paparazzo ), andam pelas noites romanas. Sabemos que ele sonhava em ser "um escritor" e que agora se conforma em viver de noticias. Então uma atriz americana chega a Roma, bebe em boate, anda bêbada pela cidade e toma banho numa fonte ( uma das mais famosas cenas do cinema, e que sexy o decote de Anita! ). A desilusão de Marcello começara antes, sua namorada, ciumenta, tentara se matar. Com a estrela americana ele tenta ficar, conhece seu namorado decadente ( um ex-Tarzã ) e conhece a tolice das estrelas.
Depois, e só então, o filme começa a atingir sua grandeza. Duas crianças dizem ter visto Nossa Senhora em descampado periférico romano, sobre uma árvore. A imprensa vai para lá, os paparazzi fotografam os pais das crianças em poses de "milagre", doentes fazem oração, o povo invade tudo. Um circo é armado e as crianças apontam onde a aparição está. Mas chove e todos se vão. Um dos doentes morre, as luzes são desligadas e Marcello parte para outra. Que milagre?
Ele vai a casa de intelectual seu amigo. Lá estão artistas e a familia feliz do amigo. Esse amigo ama seus filhos e é calmo, correto, a imagem que Marcello gostaria de ter. Há uma linda cena desse pai ao berço de seus filhos, amoroso. Mas, mais ao fim do filme, esse homem assassinará seus dois filhos e se matará. Marcello, em cena fortíssima, irá lá reconhecer os corpos, e verá os livros, a sala, a casa de seu amigo sendo profanada pela policia e pela imprensa. O corpo do amigo ao canto, sob um lençol. Quando a esposa volta a casa, há uma cena maravilhosa, dúzias de paparazzi a cercando e fotografando sua dor. O patético em seu auge.
O pai de Marcello vem o visitar. Se encontram na via Appia ( Roma nunca foi tão bela e fútil ), carros, vespas, paqueras. Ele leva o pai a cabaret e o apresenta a moça da noite. Mais tarde ela o chama, o pai passou mal no quarto. Marcello o encontra à janela do quarto, humilhado, impotente, velho...
Ele sai então com Nico ( sim, é a cantora do Velvet Underground, quando ainda era modelo e atriz ). Vão a casa de nobres romanos. Nesse palácio, vemos filhos esquisitos, gays, matronas, travestis, velhos loucos, e uma excursão às ruínas da casa dos fundos do palácio. Em cena de terrível beleza, adentramos a escuridão vazia dessa casa mofada. Lá está uma mulher que Marcello talvez ame, mas ela beija outro, longe de seus olhos, isso logo após dizer que o ama.
Vem então a morte de seu amigo e Marcello vai a orgia. Invade a casa de milionário e com "amigos", bebado, tem noite de violência, ridiculo, gratuidade, vazio. Marcello encontra o nada.
Todos vão para praia, onde magnifico ser marinho é achado morto. A câmera insiste em mostrar seus olhos de vidro. Todos se vão e Marcello vê ao lado uma menina loura que o chama com um aceno. Ele não a entende. O filme termina.
Ontem eu andei por ruas da cidade, de tarde, com um amigo. De certa maneira nosso assunto foi todo o tempo o mesmo: onde encontrar sentido. Comprei um livro que abre seu texto com frase que espelha este filme: Platão podia escrever sobre justiça, beleza e ética porque ele é de um tempo em que o sentido e a existência eram plenas. A preocupação desses filósofos arcaicos era então o estudo da vida cidadã. Hoje, tempo em que nada mais fazemos que destruir todos os mitos, passamos todo o tempo tentando criar sentido, criar razão. Não podemos mais filosofar sobre a beleza, o bem ou a moral, porque não temos o minimo para começar a pensar nesses temas nobres: sentido.
E numa carta a Einstein, Freud diz: " Voce me acusa de tentar criar mitos. Não o nego. Não é isso que sua física também faz? Vivemos tempo que precisa de novos mitos."
A Doce Vida demonstra de forma exemplar o esvaziamento da vida. A jornada de Marcello é perda de inocências, de mitos, de belezas. Sua última chance é a menina que o chama. Mas, infelizmente, Marcello, como nós, não a entende mais. O que lhe resta são orgias de sexo e drogas e o sensacionalismo de eventos vazios. Fellini cria um filme tão rico ( que não é seu melhor ) que poderíamos ficar dias a falar sobre seus símbolos.
Se hoje ir ao cinema é gritar e ter sensações ( o que não deixa de ser legal ), em filmes como este, ir ao cinema equivalia a adentrar uma catedral. Tentar encontrar um mito na morte dos mitos. Procurar sentido na falta de sentido. Não deixa de ser uma jornada heróica. Mas o ser marinho é morto e a menina-anjo nos acena em vão....
Que Bello Federico!!!!!!!

Roxy Music -04- For Your Pleasure [BBC TV '72].mov

E TODAS AS DORES DE AMOR NASCERAM PARA QUE ESTA CANÇÃO FOSSE OUVIDA....

leia e escreva já!

FOR YOUR PLEASURE.... ROXY MUSIC. A BELEZA DA TRISTEZA INFINITA.....

A tristeza é bonita. E não me venham falar de seus porques. A tristeza é bonita se voce souber olhar, ouvir e sentir. Não há motivo. Não é culpa cristã ( quando voce irá crescer. óh tolo infante ), não é repressão ( quando jogarás tuas frases prontas no lixo, óh pequeno inteligentinho ). Eu digo: a tristeza é bela, mas a beleza não é triste. Entendeu ?
Quando a bateria dá alguns toques no silencio absoluto ela anuncia a voz de mr. Ferry. E a voz vem com teclados esparsos que ecoam do fim dos tempos. E tudo aquilo é for your pleasure.
O disco é o segundo do Roxy. 1973. Ano chave em que eles lançariam dois discos da banda e mais um album solo de cada componente. For your pleasure, que é o último com Eno, e Stranded, o primeiro da ditadura Ferry. Os dois são históricos. E escutar aos dois juntos dá uma ideia de tudo o que foi feito desde então no tal pop-rock inglês.
Eu poderia falar da caleidoscópica do the strand. Música que inaugura o atemporalismo premeditado. Música enigma, alegre e rodopiante. Poderia falar de the bogus man, a canção que é simbolo do que é soturno. O gótico, o clima de medo, a tarada voz de Bryan. Eu ainda falaria de editions of you, um hit de coloração matisseana, uma festa de ansiedade rosa-choque. E ainda falaria sobre as canções de névoa branca, os ecos medievais que exalam merlineanos de todo o disco. A profana mistura de rock puro com Sinatra em alma, de rock cabeça alemão com glitter adolescente.
Mas o que faz a coda fatal é a última faixa: for your pleasure é compromisso de amante calejado. Que morre em palavras repetidas e confusão de sons noturnos. Canção que vem de antes que se inventasse a canção. Inumana.
E cada lágrima que derramei um dia por cada mulher adorada fica vingada.
Toda dor de amor existiu para que canções como esta nascessem....

GARGANTUA - FRANÇOIS RABELAIS, UM MALOQUEIRO.

Gargantua nasce filho de rei e cresce como gigante. Come, come e bebe vinho. E tudo no livro de Rabelais se resume a isso: vinho. A lei é: bebamos!!!!!
Dizem que o francês cartesiano é uma farsa. Que Montaigne e Racine não são a alma francesa. Que a verdadeira França está em Rabelais e em Villon. ( E consequentemente em Asterix ). Comida, bebida e escatologia, isso é o que define o francês real. Gargantua tem como palavra mais usada "cu" e há um capítulo sobre a arte de limpar o olho do cu. Rabelais escreveu no inicio do século XVI um livro que é uma das obras capitais do começo da moderna França. O espírito gaulês está todo lá. E ele é anárquico, sujo, glutão e bêbado.
Gargantua cresce, e come 13000 bois, bebe 800 barris de vinho e ao mijar afoga 20000 parisienses. Tudo nesse livro é assim: imenso, exagerado e despudorado. Bebês são fazedores de bosta, reis vivem a peidar, e nas batalhas os soldados morrem com paus enfiados no cu. Rabelais desconhece a palavra pudor e vai desabaladamente contra o tal bom gosto. O livro fede. E é divertido. Escrito antes da divisão da literatura em alta-literatura e baixa-literatura, ele escreve o que o diverte.
Bons tempos em que escritores eram mais que "empurradores de canetas". Eram soldados, navegadores, nobres perseguidos ou ladrões. Nas horas livres, escreviam. O romantismo ainda não criara essa imagem maldita do "escritor como ungido de uma missão". Montaigne ou Machiavel até poderiam se ver como "escritores", mas jamais como "autores". E Rabelais, que teve vida aventurosa e cheia de altos e baixos, escreveu um sucesso: Gargantua, que foi seguido por Pantagruel. Lê-lo é adentrar o fim da idade média. E o que define esse fim é o esculacho.
Marcelo Coelho escreveu nesta semana que Heine às vezes parece brasileiro. Pois Rabelais parece um maloqueiro. Se maloqueiros desejassem ser autor central, todos seriam Rabelais.
No mais vale dizer que o livro é engraçado, ainda, e que seus palavrões ainda causam espanto. A alma francesa tem aqui sua sombra. E veja bem: uma nação que se destaca por seus perfumes, roupas, finésse e que tais, com certeza é porque tem em sua sombra muito cu e muita merda para esconder. Aquilo que mais exibimos SEMPRE revela o que queremos esconder. A França nos exibe Montaigne e Descartes, e esconde as almas ( mas não as obras, pois ambos são clássicos ) de Villon e Rabelais. Tá dito.

MÚSICAS NOVAS....

Simon Reynolds escreve no New York Times: Houve um tempo em que a música pop era algo com o qual voce podia identificar uma época. Assim, os 60 eram identificados pelo soul, pelo folk e pelo psicodélico. Os 70 pelo heavy-metal, o punk , o disco e o rock-progressivo, os anos 80 pelo rap, o tecno e o gótico, os 90 pelo grunge e o eletro. Bom.... Simon continua, e diz que no pop de hoje nada há que identifique este tempo. Tudo é xerox de algo já feito N vezes. Daí vem o fato de que a tecnologia seviu na verdade para estancar o avanço e criar o conceito de ATEMPORALIDADE. Tudo ao mesmo tempo agora. Assim, a molecada se liga em blues dos anos 30, soul dos 60 ou tecno alemão dos anos 70 e apenas recicla o que já existe. Simon ainda fala da mania de se comprar teclados de 1965, ampli valvulados de 1970 e guitarras de 1955.
Engraçado....
Uma das coisas que mais comprovam o tal inconsciente coletivo de Jung é essa coisa com a qual vivo me deparando: voce acha que só voce sente e pensa tal coisa, e aí percebe que existe uma onda mundial pensando exatamente o mesmo que voce. A tal ATEMPORALIDADE da internet, coisa com a qual me pego refletindo todo o tempo. Coisa deliciosa, mas que além de sua delicia tem o poder de destruir toda a espontaniedade em arte. Como?
Primeiro digo que Simon tenta ser otimista. O grunge e a música eletrônica dos anos 90 já não eram tão anos 90 assim. Na verdade vinham dos anos 80. E se voce pensar que os grandes nomes dos anos 90 eram Beastie Boys, Smashing Pumpkins, Oasis, Radiohead ou Pearl Jam, voce vai notar que nenhum deles trouxe algo de realmente novo. O que eles faziam era fazer de outro modo o que já havia sido feito antes. O que acontece então?
Como sou do tempo pré-informação, posso arriscar uma chave. A gente ouvia falar de novas bandas, e lia sobre grupos maravilhosos do passado, mas não tinha como os escutar. Eu fiquei dois anos lendo sobre o Velvet Underground sem ter escutado nada. Até encomendar no Museu do Disco o White-Light e finalmente o escutar ( e pirar ). Ao mesmo tempo lia sobre um tal de punk rock acontecendo, mas também sem poder ouvir disco nenhum ( só os Pistols ). O que essa condição de ilha humana fazia comigo? Fazia com que o vazio de não poder ouvir criasse a imagem do que deveria ter sido o Velvet. Ou do que era o Buzzcocks. Então eu pegava minha banda ( eu tinha uma ) e fazia um som furioso, tipo Velvet ( e que nada tinha de Velvet ). Quando os escutei, finalmente, percebi meu erro. E daí? Tentando criar "meu Velvet" eu fizera meu som.
Hoje um garoto de 12 anos pode escutar tudo o que existe agora e antes ( atemporalidade ). Nada resta para ele imaginar "como teria sido" ou "como deve ser". Ele é esmagado pela ousadia do Velvet, pelo poder do Led ou pela arte de Eno ainda na infancia. Ou pior que isso, é afogado por milhares de suas cópias, milhões de clones e cria a ideia de que "o rock e o pop são isso mesmo". Ele sabe tudo, ouve tudo, vê tudo, onde o espaço para imaginar/criar/errar?
A música de hoje nada cria de novo porque ela está ocupada descobrindo coisas como bossa-nova da letônia, punk das ilhas Fiji ou tecno da Croácia. Gente "nova" fazendo coisas velhas. Vejo ( e olhe que eu procuro...) N bandinhas novas inglesas e TODAS se parecem com Jam/Small Faces/Buzzcocks. Ou, quando piores, vão na linha Roxy/Eno/King Crimsom. Tudo com uma produzidinha à anos 90, claro. Na música negra a coisa é ainda pior. Marvin Gaye e Aretha Franklyn são as únicas referências. E tome Madonna clones.
Voce, menino, talvez não saiba, mas houve um tempo em que o hype não era por um novo nome, era por um novo estilo musical. Kraftwerk ou Mc5 criaram algo de diferente a partir de quase nada. E lembro do que era estranho ouvir Run DMC e Public Enemy em 1986. O que te pergunto é: existe hoje algum som que choque um cara de 30 anos? Não falo de músicas que revoltam por serem ruins, falo que causem reação por serem realmente jovens, inéditas e que ROMPAM com todo o passado. Que joguem Bowie, Dylan, Thom Yorke, Morrissey e Neil Young no lixo. Alguém tem essa ousadia? Como ter, se um moleque um dia vê no YouTube o grupo Love em 1967 fazendo aquilo que ele sonha em fazer?
Eu só consegui conhecer o Love em 1999. Sinal dos tempos. O Love se tornou minha "nova" banda favorita no começo do século XXI. No mundo atemporal, Beatles/Stones/Led e Dylan serão para sempre o máximo. E Velvet/ Stooges/Sabbath e Clash os exemplos a serem seguidos.
PS: No cinema a coisa é ainda mais grave. Ter tudo de todos os tempos, com boa imagem, a disposição, amassa as ambições de todo estudante de cinema. A cópia se torna uma imensa tentação. E Bogart/Brando/Kate e Audrey se fazem mais mitos que nunca.

ELIA KAZAN/ WARREN BEATY/ TOTÓ/ PAUL GIAMATTI/ GAINSBOURG/ MICKEY ROURKE/ RENE CLAIR/ BERGMAN

TOTÓ PROCURA CASA de Mario Monicelli e Steno com O Grande Totó
Que humorista foi esse tal de Totó!!!! Que rosto! Não espere elaboração dele. Não espere "humor sofisticado". Totó é um palhaço, como Mazzaropi, como Renato Aragão, como Buster Keaton e o Jim Carrey dos bons tempos. Seu humor é infantil, direto, simples, e portanto corajoso. Aqui o objetivo é o riso, só o riso, se seu público não ri o humorista falhou, daí sua coragem. Neste filme ( dos primeiros desse fenômeno chamado Monicelli ) ele é um pai de familia sem casa. O filme mostra ele tentando achar lugar para morar ( tenta uma escola, cemitério e até no Coliseu ele se aloja ). Uma chanchadona que é de um doce saudosismo. Totó foi um graaaande comediante! Nota 7.
CLAMOR DO SEXO de Elia Kazan com Warren Beaty e Natalie Wood
Crítica abaixo... É mais um belo retrato da América feita por esse tão importante diretor. Warren está muito bem como o jovem aluno inocente e rico ( é seu primeiro filme ). Natalie não está a sua altura na primeira parte do filme, depois ela cresce e acaba por nos comover. Drama de primeira. Nota 8.
FAY GRIM de Hal Hartley com Parker Posey e Jeff Goldblum
Talvez um Alphaville? Uma brincadeira de Hartley que lamentávelmente não dá certo. Parker está muito sexy ! Mas que roteiro é esse???? Nota 2.
NINHO DE COBRAS de Joseph L. Mankiewicz com Kirk Douglas, Henry Fonda e Warren Oates
Pois bem... este é um filme muuuuito errado! Explico o porque. Temos David Newman e Robert Benton, os dois mais brilhantes roteiristas da época. Eles escrevem uma história sobre um cowboy ladrão e uma prisão de desajustados. O roteiro, típico da época contracultural, atira em xerifes, racistas, mulheres, westerns etc. Mas, chamam para dirigir o filme Joseph L. Mankiewicz, o diretor, excelente, de A Malvada. Um grande nome, mas um estranho no ninho!!! O que acontece então? Nada. O roteiro, cheio de boas ideias, é asfixiado numa direção acadêmica. O resultado é morno. Kirk é perfeito para esse tipo de perverso/espertinho e Fonda brinca com seu tipo de americano/Lincoln. Mas é Hume Cronyn, fazendo uma espécie de debilóide que mais impressiona. Não é uma grande comédia, mas é ok. Nota 6.
PASSION PLAY de Mitch Glazer com Mickey Rourke, Megan Fox e Bill Murray
A capa do dvd promete: Rourke como um trompetista de jazz decadente. O ambiente é Utah. Fox é uma angelical esperança de redenção e Murray um empresário sacana. Atraente né? Pois é um drama risível de tão ruim. Deve ter sido escrito por algum fã de cinema com 8 anos de idade ( o roteiro macaqueia Asas do Desejo e um monte de filmes noir dos anos 40 ), o diretor, é flagrante, pensava estar fazendo um bom filme, deve ser um nerd de 11 anos e quem o produziu crê que o público de cinema é imbecil. Megan Fox é um anjo ( ela tem asas )..... e na última cena Mickey Rourke voa com ela rumo ao céu.... se aqui descrito parece ruim, creia-me, é bem pior na tela. Chega a ser cretino. Sem nota. Faz de conta que jamais o vi.
SLOGAN de Pierre Grimblat com Serge Gainsbourg e Jane Birkin
Um publicitário conhece em Veneza Jane Birkin. Ele é casado. Se amam, mas Jane o abandona. Pois é.... eu gosto muito de Serge e este é o filme em que ele conheceu Jane. Mas que lixo é este? Serge é péssimo ator e Jane chega a rir em cena !!! O filme é constrangedor de tão amador!!! Não é um filme, é muito mais um documentário sobre um flerte. Nota 1.
PORTE DE LILÁS de René Clair com Pierre Brasseur e Henri Vidal
Em favela francesa ( sim, são barracos em ruinas ) um assassino se esconde. Fica no porão de um cantor fracassado e é ajudado por um tolo ingênuo. O filme tem belas imagens, mas se perde em sua excessiva glamurização da pobreza. Clair funciona melhor em fantasias puras, onde ele pode "levantar vôo". Nota 5.
ATRAVÉS DE UM ESPELHO de Ingmar Bergman com Harriet Andersson, Max Von Sydow, Lars Passgard e Gunnar Bjorsson
Uma obra-prima, devastadora. Retrato de uma personalidade em crise ou retrato de nossa condição desde sempre? Bergman nada enfeita, nada exagera, nada dramatiza. Faz o que ele pensa dever ser feito, sem jamais mudar de rumo. É um filme de tristeza polar, mas também de uma beleza profunda, seca, perturbadora. Nota DEZ.
A MINHA VISÃO DO AMOR de Richard J. Lewis com Paul Giamatti, Dustin Hoffman e Rosamund Pike
Uma coleção de clichés. Acompanhamos a vida de um mala por 3 décadas. Cliché: a década de 70 e suas drogas, a esposa doidona, a vida como irresponsável flerte. Segundo cliché: a segunda esposa é uma chata judia à woodyallen... Já a terceira esposa é dos tempos atuais, mais cliché: gente que só pensa em saúde e equilíbrio. No final, supremo cliché: violinos e pianinho enquanto ele sofre de doença incurável.... Os críticos gostaram? Pobre crítica! Paul Giamatti imita Jack Nicholson. Faz exatamente o tipo que ele faz desde 1983. Mas é bom ator. É imitação de bom nível. Dustin nada tem a fazer. Fica lá, como um tipo de velho tarado. A direção é franciscana: pobre. O filme já nasce velho e com cheiro de reprise do SBT. Nota 3.

OS MOEDEIROS FALSOS- ANDRÉ GIDE

Dizem que Aldous Huxley leu este livro antes de escrever CONTRAPONTO. Estranha sina a de Gide. Até os anos 70 ele era tão grande/famoso quanto Mann ou Joyce. Agora, em 2011, há quem goste de livros e não o conheça ( como desconhece Malraux, Claudel ou Colette ). Porque? Eu não sei.
Os Moedeiros é seu grande livro e vale dizer que em 1948 Gide ganharia seu Nobel. O livro é de 1926.... O que havia com a década de 20? Se pensarmos que entre 1921 e 1929 foram lançados os melhores livros de Heminguay, Fitzgerald, Faulkner, Joyce, Eliot, Lorca, Yeats, DH Lawrence, Dos Passos, Stein, Cocteau e ainda as pinturas de Picasso e Matisse, Chagall e Miró.... Que década! E ainda Bunuel, Lang, Murnau, Buster Keaton, Chaplin, Jean Renoir e René Clair... e o jazz, e Cole Porter, Irving Berlin, os Gershwin... Paul Klee e Kandinski.... Murilo Mendes e Oswald, mais Mario de Andrade e Fernando Pessoa... Como seria viver em mundo com tanto talento vivo e produzindo? Thomas Mann e Hesse, Proust e Valéry, Ezra Pound e Kafka. Bem...
Mas o livro....
Gide é moderno. Seu livro não tem enredo. Tem vários personagens que vivem. Gide os segue e cria algo de muito dificil de se fazer ( e o faz bem ) livro dentro do livro: um dos personagens escreve o livro que lemos. Enquanto a história corre, Edouard descreve o livro que prepara, o livro se chama OS MOEDEIROS FALSOS. Assim, enquanto lemos o livro, um dos personagens o comenta. E nos fala aquilo que dá certo, o que foi um erro, que personagens merecem mais espaço, quais devem sumir. Essa técnica, que poderia ser pedante ou hermética, funciona por ser natural em Gide. Não nos chóca, nos surpreende.
A base do livro é Edouard, um escritor que se apaixona por seu sobrinho, um adolescente brilhante. Há ainda Laura, amiga de Edouard que fica grávida de Vincent apesar de casada com outro. Vincent é irmão de Bernard, adolescente amigo de Olivier ( o sobrinho de Edouard ). Bernard foge de casa e prega a anarquia. Mas ao se apaixonar por Laura muda de opinião e seu crescimento espiritual é a melhor coisa do livro. Ele percebe que sua raiva era uma convenção, que ser rebelde pode ser um hábito, uma moda. Sua mudança é maravilhosamente bem escrita. Muitos outros personagens habitam o livro: condes decadentes e sórdidos, escritores vaidosos, putaines bem sucedidas, crianças desequilibradas... O mundo gay é mostrado sem bandeirices ou exageros, há inveja, há paixão, há timidez. André Gide foi militante, seus livros eram abertas confissões sem culpa ( e não vamos esquecer que André Gide, que morreu em 1951, ainda teve tempo de conhecer e ser amigo de Oscar Wilde, o que mostra como Wilde poderia ter vivido mais e o quanto deveria ter produzido ). Há um fato no livro que irritará meus amigos psicólogos. Gide mostra o quanto a psicanálise tem de "otimismo cristão". A fé na compreensão, na ajuda, no descobrimento do bem, na confissão, no "bom espírito". Ele diz que o trabalho desses profissionais é útil como consolo a almas atormentadas, mas não diferente de qualquer outra fé. Se o paciente não possuir a fé cega em seu guia, adeus ciência.
Mas não pense que Gide é um anti-freudiano. Ele usa essa dúvida em relação a tudo. Inclusive as paixões. O quanto não escolhemos aquilo que gostamos, aquilo que desejamos, e mais, o quanto nossos sofrimentos não são papéis que escolhemos seguir. Gide nos joga essa dúvida no meio de seu livro, para ao final demonstrar que pode não ser assim. Talvez não tenhamos poder algum sobre sentimentos, vida, destino, gostos, afetos e repulsões. A vida como escolha de explicações, sempre falhas, consolos, falsas teorias. O que sabemos?
Ah.... esses franceses! É o mesmo tipo de escrita de Camus, Malraux, Sartre ou Lolita Pille. Uma montanha de pensamentos, tudo analisado a exaustão, derrotas e medos, dúvidas, e aquele enorme EU no centro de tudo. Esse tipo de narrativa não conta uma história, ela analisa e reanalisa os personagens, os disseca, os explica, e os faz perder. Me cansa. Nos cansa. É febril.
André Gide pode um dia voltar a moda. Georges Bernanos voltou. E Bernanos e bem mais árduo. Ler Gide não nos faz felizes. Mas pode abrir algumas portas. Vá lá....

AMY WINEHOUSE, EXPLICA-SE?

Terminei um livro de André Gide. Interessante. Ele diz em certo momento que tudo em nossa vida depende de querer acreditar. Voce acredita no que voce escolhe, nunca na verdade. Damos explicações estapafúrdias para aquilo que não tem explicação. Mas, como não suportamos um mundo irracional, criamos crenças para consolo de nossa consciencia. Dito isso....
Amy Winehouse morre e iremos crer que foi "a pressão da fama", que a matou. Que foi o vazio de ter muito jovem "chegado ao topo". Ou que foi "a solidão da fama".... Voce escolhe crer no que preferir engolir. Mas saiba, nada explica. Nada. E é isso que voce teme, ver que a vida não tem razão, ela é feita além de nosso entendimento.
Se a pressão da fama mata, então Os Beatles teriam se matado. Se a chegada ao topo muito rápido mata, então Marlon Brando ou John Travolta teriam se matado. E se a solidão da fama é fatal, bem, Mick Jagger deveria ser um melancólico suicida. Mas não. O que une Morrison a Keith Moon, Gram Parsons a John Bonham ou Hendrix a Kurt Cobain? Nada. Considerar a idade como um sinal é computar só os que morreram aos 27 e esquecer o resto. Amy, uma bela voz, morre porque as pessoas morrem. Morrem de acidentes, de cancer, de droga ou de tédio. Morrem aos 12, aos 30, aos 88. Morrem.
O que me enoja é tratar esse mortos como heróis simplesmente por terem morrido. Hendrix é maior que Jimi Page não por ter morrido. Mas Keith Richards é um herói num nível que Jim Morrison jamais poderia ser. Keith sobreviveu. Ousou ficar velho. E jamais pagou por sua loucura. Não se arrependeu, não se sacrificou. E NUNCA chorou seus erros num disco. Como Iggy, Ozzy, Lou.
Amy deveria ter conversado com os sobreviventes. Só isso.

ATRAVÉS DE UM ESPELHO-INGMAR BERGMAN, O OLHAR IMPASSÍVEL DE DEUS.

Não há maior prazer em arte que ver um mestre dispor de seus elementos e exibi-los a nosso olhar. O que temos aqui é a radiografia de uma crise, e também a questão que funda nossa civilização.
Sven Nykvyst fotografa o filme. Temos a ilha, o universo limitado, o isolamento. Horizonte sem fim. Temos uma familia. Moradores únicos daquele mundo. Últimos ou primeiros seres. O filme, como tudo em Bergman, começa expondo seus personagens, sem apelação, sem atropelos, com musical crescendo.
Karin é a filha. Ela acabou de voltar de hospital. Seu caso psiquiátrico é incurável. Karin está em um de seus bons momentos. Aparentemente. Com ela vem seu namorado, que realmente a ama e sofre com ela. Há um irmão mais jovem, assustado com aquela situação e o pai, escritor famoso e distante da familia. Bergman em 80 minutos nos mostra esse drama cósmico, de quebra ganha seu segundo Oscar e modifica o alcance do cinema para sempre.
O filme é dedicado a esposa de Bergman ( uma das várias ) e é fácil perceber que o pai distante é Bergman. Mas na verdade ele é também Karin e sua loucura, o namorado amoroso e o irmão que odeia as mulheres ( e é fascinado por elas ). O filme em primeira visão é retrato de uma alma ilhada em conflito consigo mesma. Fosse apenas isso seria um ótimo filme, mas sendo muito mais alcança uma estatura de obra-prima ( isso se voce possuir a mente capaz de ver o que lhe é mostrado. Não indico o filme a meninos e inteligentinhos. Fiquem com a tola obviedade pornô de Cisne Negro/Anticristo e que tais ).
Karin começa a voltar a seu mundo dividido. E em quarto da casa "tenta entrar na parede". Alguma coisa a chama. A sutileza impera. Bergman não grava vozes a chamando, não usa trilha sonora de suspense, não exagera coisa alguma. Karin parece "normal", não somos invadidos por sua loucura, somos convidados a compreender e observar. Começamos então a sentir um incômodo imenso, vazio, começamos a sentir, suavemente, a loucura de Karin.
Há uma cena brilhante dentro de um barco encalhado. Chove, e os dois irmãos se escondem lá dentro. A água escorre pela madeira, eles se abraçam e se encolhem. Eis uma das mais belas cenas da história do cinema. O que vemos ali é toda a condição humana, desamparo,crise, e então voce começa a perceber o alcance do filme. A partir daí ( em seus vinte minutos finais ) o que temos é superlativo. Como gênio que é, Bergman traz a tona, sem estardalhaço, a questão fundamental de nossa civilização.
Karin volta ao quarto. A voz que a chama é Deus. E ela quer ir a seu encontro. Uma porta se abre e Ele vem a seu encontro. Karin grita, foge, se apavora. Ela é levada por sua familia e medicada. E diz: Eu vi Deus e Ele é como uma aranha, um terrível animal que me olhou com seu impressionante olhar frio, ausente, vazio. Karin optará por voltar ao hospital. No conflito de seus dois mundos, ela escolhe a loucura.
Mas o filme continua. E é nesse final que o toque do mestre se faz. Mas antes um comentário.
Deus seria uma aranha, a vida a teia em que Ele nos captura. Somos insetos em sua teia, presos. Mas não é apenas isso. O pai, numa cena crucial, diz que observa Karin, sem se envolver em seus problemas. Eis outra imagem de Deus, alguém que nos observa, indiferente, rompido com os homens. O filme tange a ideia de que somos um tipo de experimento que não deu certo, Deus nos virou as costas.
O irmão reclama logo no inicio que o pai não fala com ele, o ignora. Após Karin ir embora, rumo ao hospital, o irmão pergunta ao pai se Deus existe. O pai diz que não sabe, mas que o amor existe, com certeza o amor existe. O irmão pergunta se Deus não seria esse amor. O pai responde que isso não importa, o que interessa é que Karin está cercada pelo amor de sua familia. Esse diálogo, breve, é feito à luz de uma janela. O pai sai de lá e o filho, sózinho, diz com um quase sorriso: "Meu pai falou comigo!" Imediatamente o filme se encerra. Sem música, sem The End, sem nada, simplesmente vem o final. Seco.
Quem já tentou produzir arte, seja romance, pintura ou música, sabe o quanto é dificil chegar a simplicidade plena. Como é árduo conseguir dizer muito falando pouco. Impressionar sem chocar e despertar emoções sem violência. Quando o rapaz diz sua fala final, todo o drama de pais e filhos, de mestres e discípulos, de fiéis e Deus, cai sobre mim. Cubro meus olhos com a mão e choro. E peço a meu pai que fale comigo. Fale comigo como jamais falou. Fale comigo. Eis o drama central de toda a nossa civilização, esse pungente pedido de que alguém fale conosco, nos olhe, preste atenção, afirme que existo.
Karin foi sacrificada ( auto-sacrificada ) para chegarmos a esse encontro de pai e filho. E o mar, liso, vasto, magnífico, a tudo assiste sem se importar. A ilha permanecerá a mesma, mas aqueles quatro seres terão chegado perto de um sentido.
O que mais algum filme pode dizer?

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO- ALDOUS HUXLEY

Nesse mundo a velhice não existe. Fisicamente e mentalmente, voce é o mesmo dos 19 aos 60 anos. Pensar e agir aos 60 como aos 19, eis uma conquista de feliz realidade. Mais, nesse mundo voce deve se portar como adulto no trabalho, e ser uma criança no resto do tempo. Ser uma criança por toda a vida, uma conquista a ser conseguida.
Ser promíscuo é a regra. Quem não possuir cinco ou seis pessoas diferentes por semana será considerado estranho. Pior, uma ameaça ao bem comum. Transar muito e não se apegar, jamais. Saber então que voce e eu somos cambiáveis. Mais que isso: entre o desejo e a satisfação não pode haver um buraco. Ao querer, ser imediatamente satisfeito. Desejo que se demora faz pensar, faz sofrer, faz questionar. Faz com que voce seja diferente.
O passado não existe. O que é velho deve ser esquecido por ser velho. Pois conhecer o passado faz com que tenhamos como comparar e avaliar o presente. Poesia e religião são abolidos então. A realidade é o visível, o não-perceptível não existe. O real pode ser vendido e controlado, o subjetivo não.
A solidão é odiada. Tudo é feito em grupo. Introspecção e silêncio são temidos. Existir é estar em grupo. Quem ama a solidão é defeituoso. Música incessante, ruídos, gente, espaço preenchido.
Todo contato social tem apenas um objetivo: transar. Sai-se para fazer sexo. Qualquer outra coisa seria surpreendente. Conversar, flanar ou fazer nada seria excêntricidade.
As mulheres são todas magras e os homens altos.
A liberdade é plena. Voce é livre para se divertir todo o tempo. O prazer é ilimitado. Para que mais serviria a liberdade?
Nada pode ser arrumado, remendado, construído em casa. Tudo deve ser jogado fora e comprado de novo. Coisas, seres e vidas são trocadas com alegria. A alegria é o único objetivo da vida.
Joga-se, vai-se ao cinema e ingere-se Soma. A vida é isso.
Aldous Huxley não escreveu em 1932 uma obra-prima. O livro não é perfeito. Não é sequer bem escrito ( e ele sabe disso. A leitura da introdução escrita em 1946 é muito reveladora ). Mas é um livro forte, objetivo e de leitura obsessiva. Li-o em poucas horas, com prazer e ao mesmo tempo impressionado pelos acertos de Huxley.
Ele erra ao prever um sistema de castas. O mundo tem uma tendencia contrária: a abolição de diferenças e a absorção de todos os grupos diferentes. Desde que se tornem uma coisa só. O que vemos é a destruição de diferenças, aristocratas, proletários, tendem a sumir. Uma imensa classe média e meia dúzia de donos-do-mundo. E só. Fora disso, vácuo.
Mas não há como não se impressionar com seus acertos. A eterna juventude mental negando o amadurecimento da idade. O passado jogado ao esquecimento ( e tudo isso já é fato. Conheço quem leia apenas a literatura de Salinger pra cá e assista só o cinema de Spielberg em diante. Há quem pense que a música começou com os Beatles. Arte sem passado é arte sem comparação, arte fácil de enganar e de vender, ignorância bem-vinda, onde toda a cópia-pobre parecerá sempre rica-original ).
A poesia, assim como a religião ( verdadeira ), faz das pessoas seres pensativos/distanciados, que não dão coragem-alegria aos outros, e pior, deixam de desejar- consumir. Descobrem que há outra coisa além da matéria. E é o sexo desenfreado que ocupa o vazio deixado pela arte e pela religião. Tudo é o corpo. E o corpo deseja, deseja coisas que podem ser avaliadas, vendidas, estragadas.
No livro surge um selvagem: John. Uma de suas melhores tiradas é essa: tudo o que existe nesse "admirável mundo novo" é destrutível. Muda, se esvai, acaba. Nada é feito para durar, e ao homem nada pode restar a não ser um gozo efêmero. Ele também percebe que a vida pode não ser "busca de felicidade", mas talvez "busca de algo mais".
John conhece textos de Shakespeare. As pessoas riem com Shakespeare. Não conseguem entender mais seu mundo e riem do que não entendem. Têm horror a palavra família e acham a palavra "mãe" pornográfica. Pois em mundo de bebês de laboratório, sexo com procriação é pornografia, coisa de bestas.
Huxley vai fundo em sua raiva. E um dos momentos mais interessantes é quando uma mulher "civilizada" se apaixona pelo selvagem. Como os poetas e a Bíblia, a paixão também foi banida. Mas essa moça sente essa coisa esquisita pelo fato de que o selvagem é "estranho". Ele não a pega e satisfaz logo seus desejos. Ele demora, fala coisas complicadas, sente veneração, culpa. Essa demora, essa não-praticidade desperta nela a paixão. Que logo morre pela incapacidade de ser vivida. O selvagem, cheio de culpa, se refugia em martírio e ritos mal compreendidos.
Na introdução Huxley diz que se reescrevesse o livro faria diferente. Como está, ou o selvagem aceita a loucura da Utopia, ou volta ao barbarismo de onde veio. Huxley crê ser possível uma terceira via, a sanidade, onde a ciência se adapta ao homem e a religião existe para levar a consciência ao limite do conhecimento. Se o reescrevesse faria do livro algo mais filosófico...
Mas do jeito que está, da maneira seca, breve, compacta que está, ele obriga a que nós façamos mentalmente sua parte filosófica, ele nos instiga a pensar e pensar melhor.
Esse futuro de drogas para ser feliz, de imagens para sentir "uma nova sensação", de viagens para transar e de alegria "infinita" é nosso conhecido. A liberdade para ser consumido, as novidades que são vazias, os entorpecentes.... A estranheza que já nos causa quem fala em amor familiar, fidelidade absoluta, tradição artística, deveres e pecados... Ler o livro dá uma perturbadora sensação de que o mundo-pesadelo de Huxley está próximo demais.
Afinal, se meu avô estivesse aqui ele acharia loucura um mundo onde pessoas ficam trancadas em frente a tv vendo pessoas em casa trancada, onde se paga para ver gente em tela grande ser destruída, violada e torturada, mundo em que amigos se encontram para jogar jogos em tela e ficam calados em sua amizade fria, mundo em que lunáticos abrem um lap-top e se absorvem numa virtualidade passiva, e em que espertamente tudo é logo permitido e assimilado, desde que não ponha em risco o consumo e o movimento incessante da roda do futuro.
Admirável mundo novo!!!!

CLAMOR DO SEXO- ELIA KAZAN ( EXEMPLO DO MAIOR DOS PECADOS )

William Inge, no auge do teatro dramático americano, foi um dos grandes. Se Tennessee Willians e Eugene O'Neill dominaram a cena, ele e Arthur Miller vieram logo após. Edward Albee surgiria na sequencia e Thorton Wilder merece um lugar à parte. Neste filme de 1961, Inge consegue tocar num dos mais dificeis temas de qualquer drama: o mal sem intenção, o maior dos pecados: o sofrimento imposto a inocentes.
Estamos em 1928, nos cafundós do Kansas. Bud é o filho bacana do líder local. Dean é sua namorada. Os pais concordam com o namoro, os dois se amam, ninguém tem qualquer doença ou problema econômico e mesmo assim o sofrimento do dois é insuportável. Porque?
O pai de Bud é um ex-jogador de futebol, agora aleijado. Um macho milionário que deseja o "bem" do filho. Eis o primeiro problema: seu ego amassa o amável ego de seu favorito. Segundo problema: Dean é boa aluna e ama seus pais. Mas sua mãe vê nela um bebê e seu pai deixa tudo a cargo da mãe. Dean luta para ser sempre uma "dama", uma lady, o orgulho dos pais. Vem daí um terceiro e atroz problema: o casal se ama, se adora, mas não pode fazer sexo. Bud quer, Dean não. Depois, ao final, Dean quer, mas Bud não pode, afinal, ela não é uma puta...
A conselho do pai, Bud arruma uma amante, "para se aliviar". Bud detesta fazer isso, pois ela "não é Dean ", mas se conforma. Isso destrói Dean. O longo caminho da inocente garota rumo ao inferno, a forma desajeitada como ela tenta se tornar "fácil" é de cortar o coração. ( Confesso que chorei muito... ). Ao fim do filme, sem final feliz, mas doce a seu modo, fica uma terrível lição: nada temos de controlável na vida. Bud e Dean nasceram um para o outro, mas terminam com outras pessoas, distantes, conformados. Tudo dá errado.
Mas o que me emociona no filme não é isso. É o modo como é demonstrado o maior pecado humano ( sim inteligentinho, pecados irremediáveis existem. E são imperdoáveis. ) O pecado da difamação da inocência. O amor dos dois é real, é inocente, é forte. E todos, sem saber e querer, destroem esse amor. Cada palavra da mãe e do pai, sempre bem intencionados, é uma facada, um pecado irremediável. Dean enlouquece e é internada. Bud empobrece e se casa. Nosso coração é cortado ao meio.
Warren Beaty faz Bud. É seu primeiro filme. Quem leu o livro "Sex, drugs e rocknroll" de Peter Biskind, sobre a revolução em Hollywood, sabe o quanto Warren foi/é importante para o cinema que se faz agora. Seu Bud é correto, mas nas cenas finais, na fazenda, é brilhante. Natalie Wood faz Dean. E a partir das cenas de enlouquecimento ela nos dá uma atuação emocionante. O modo como ela olha e conversa com o psiquiatra e a maneira como ela corre e pula nos jardins do hospital são inesquecíveis. Para quem conhece a triste sina que Natalie viveu na vida real, ver o filme é ainda mais cortante.
Mas todo o elenco é superlativo. Não houve diretor de elenco como Kazan. O homem que lançou Montgomery Clift, Brando, James Dean e Warren Beaty, faz um filme de pungente beleza e emoção que se acumula até explodir. Belíssimo!

HISTÓRIAS MEDIEVAIS- HERMANN HESSE

Na década de 1920, Hesse traduziu e comentou uma série de contos medievais de Cesarius Von Heilsterbach, escritos originalmente por volta de 1240. Leio esses contos e me assombro com aquilo que um dia fomos. ( Fomos? )
Todos são contos de feroz moralidade. Não há neles a menor dúvida: o pecado existe e quem peca sofrerá no inferno para sempre. Essa verdade é verdade completamente aceita ( como hoje nos é aceita a evolução do macaco ou o big bang ), nada é questionado. Essa certeza leva então o homem medieval a se preocupar acima de tudo com sua alma, com o possível castigo, com suas culpas e sua vida no além. Tudo é pesado em face do que será, da eternidade. Todo ato, toda obra, toda ação é PARA SEMPRE. Não existe o esquecimento.
Um marxista moderno dirá simploriamente que isso se ajusta ao jogo de poder da classe dominante. Mas o que esse inteligentinho não dirá é que essa classe dominante também sofre essa culpa e esse medo. Montanhas de nobres arrependidos se enfiam em mosteiros, partem para a mendicancia, vão lutar nas cruzadas. O cerne da questão é bem mais complexo.
Um inteligentinho do tipo "numa boa", dirá que tudo era questão de liberdade sexual, que a igreja reprimia a sexualidade, e que essa repressão se tornava culpa. Esquece o inteligentinho que hoje, na era do sexo numa boa, continuamos criando culpas, medos, dores e doenças. E então?
Hesse foi um escritor do tipo mais perigoso que existe ( e que mais falta nos faz hoje ), o escritor que prova de tudo, que procura o que é oculto, o verdadeiro peregrino. Ele sabe que não se explica a idade medieval, o que se faz é se penetrar nela e perceber não seus porques mas seus comos. Como é essa culpa, como é esse pecado, como é essa visão de vida.
A época medieval durou mil anos. Nossa época tem pouco mais de duzentos ( começamos em 1789 ). Não estaria em toda mente européia, reprimida e latente, toda essa imensa história de trevas e de vida? E quanto mais voce, ó doce menino inteligentinho, reprime essa memória, não estaria mais a mercê dela? Pois o que voce vê no cinema, seja Batman, Harry Potter ou Von Trier, não são imagens e mitos medievais pobremente e envergonhadamente reelaborados?
Desconfio muito de todo mocinho anti-medieval. É como alguém de sapatos novos que nega seus pés sujos. E desconfio mais ainda do puro ser racional. Esse tem o fanatismo de monge travestido em objetividade vã. É preciso ser um homem completo, sem amputações. É preciso ter antiguidade, era medieval, renascença e modernidade vivas em si. Negar uma delas é fanatismo, cegueira, e pior, é se fazer refém dela.
Hesse andou por todas essas vias. Se encontrou no hinduismo, no budismo... provou sua vida, abriu suas ideias, tentou ser si-mesmo. Este pequeno livro é parte de seu caminho.