GENIALIDADE É UMA ESTRADA QUE SE ABRE

Uma das piores coisas que o mundo- supermercado fez, foi transformar certas palavras em absoluto vazio. Guru é uma. Reinvenção é outra. E "genial" é uma das mais vulgarizadas. Do jogador de dezoito anos ao cozinheiro de restaurante espanhol, gênio é questão de empolgação. Claro que não quero impedir ninguém de chamar seu cabelereiro de genial ou de bradar por aí que o Seu Chico faz um beirute de gênio. Mas em arte são tantos gênios que a coisa se torna até ridicula.
Para os mais rigorosos, gênio só pode ser aquele que abre novos caminhos. Ele é o grande fertilizador, o que surge do nada e faz com que uma multidão de grandes talentos flutue sob sua influência. Em gênio verdadeiro há a história em todo o seu resumo. Ele absorve todo o passado, e o devolve renovado, insuspeito. O gênio faz com que olhemos para trás vendo beleza onde pensávamos nada haver. E principalmente, faz brotar todo um novo universo.
Rigorosamente então, cada arte tem um único gênio. O homem que fez com que aquela arte se tornasse aquilo que até hoje conhecemos. Shakespeare é o caso mais exaltado. O teatro como o pensamos nasce com ele. Shakespeare absorve todo o passado, assombra seu tempo e fertiliza tudo o que o tocou. Trancado em vida de mistérios, alegre como um sátiro e ao mesmo tempo sombrio como um maldito, ele é o centro e o criador, simboliza um sempre-nascer e estranhamente ele é o futuro que sempre nos aguarda.
Na música há uma briga entre Bach e Beethoven. Se Bach é o homem que organiza e harmoniza o que entendemos até hoje por "música ocidental", é Beethoven quem se faz "músico artista". É com Beethoven que nasce o criador comprometido apenas com si-mesmo, o artista livre, ambicioso como um deus, louco e ousado, incansável. Para mim, é ele o gênio da música.
Na poesia Dante é o gênio inevitável. Tudo o que entendemos por "vida poética", por "busca pela inspiração", por musa, simbologia e musicalidade está em Dante. Cada poeta esbarra na imensa presença desse irado cantor de vingança. De sua irradiação brota toda a poesia que conhecemos. Ele eleva o poeta de menestrel a fazedor de mundos.
Na pintura a coisa se complica. Giotto, Leonardo, Velazques e Rembrandt brigam pela honra. Não me meto nessa briga, o próprio hábito de se chamar arte de coisa genial começa na pintura. Adoro todos os quatro e leio críticos que colocam cada um deles no patamar mais alto. Me parece que Giotto foi o criador, Leonardo o insaciável, Velazques o melhor dotado e Rembrandt o inventor do pintor como hoje o conhecemos.
A prosa é caso a parte. Não há na prosa um titã central. Nada que se compare a Shakespeare, Dante ou Beethoven. Porque? Há algo de operário na prosa, de trabalho de formiga, de lento construir. Como todo artista, o autor de prosa é também um egocentrico, mas ele não pode ter a cara dionisíaca do grande músico ou do poeta maldito. Seu trabalho é mais racional, menos tempestuoso. E assim, a história da prosa é feita de monstros que rugem alto, de florestas de talento, mas não de uma explosão criadora. O maior candidato a gênio central seria Cervantes, mas mesmo ele não é universo fertilizador e inventor de novas formas como o são Giotto ou Bach. De qualquer modo, O Quixote é molde e norte de todo romancista de brilho.
Chegamos então as sub-artes, e com elas vem o cinema. Ora, se na prosa já há essa dificuldade de se encontrar o centro criador, imagine uma arte tão fugaz e recente como o cinema. Mas podemos tentar vislumbrar esse gênio.
Todo gênio surge como recomeço. Se pensamos que para se ser gênio é preciso ser "muito antigo", não entendemos nada. Quando Shakespeare surge, o teatro já possuia 2000 anos de história, o mesmo com a poesia, pintura e música. O que eles fazem é criar um tipo de ponto zero. Assim, é como se o teatro começasse com Shakespeare, a música com Bach ( ponto para Bach sobre Beethoven ) e a pintura com Giotto. Quem dá essa sensação de ser o ponto zero do cinema? Murnau? Lang? Ford? Pode ser, mas é necessário ainda que ele seja um fertilizador, alguém que trouxe consigo toda uma leva de novos talentos, de gente refazendo tudo. Godard? Rosselini? Ele precisa ser um deus de potência feliz e um demonio de sombria danação, um individualista. Bunuel? Bergman? Fellini? Mas acima de tudo, ele tem de destruir o passado e fazer nascer um mundo novo. Quem mais chega perto de TODAS essas características é Orson Welles. Se o cinema criou um gênio verdadeiro, esse foi Orson.
Com tudo isso eu explico o porque de ter dito que se o rock possui um gênio esse cara só poderia ser Bob Dylan. Mito, individualista, fertilizador, criador de um novo marco zero. Sem ele o rock teria seguido o destino que se lhe afigurava: yeah yeah yeah. Pop para adolescentes caipiras. Irresistivelmente dançante, maravilhosamente impetuoso. Eternamente alienado. Mas Dylan cria um mundo novo, ele traz RELEVÂNCIA ao rock, ambição, respeito intelectual, raiva e muita inquietação. Pega todo o passado e o engole. O que ele cospe é o que entendemos por "artista do rock", um cara de óculos escuros ligado em cinema, livros e drogas. O rock, como o jazz, não tem gênios. Eles não têm tempo para os criar. Mas se os houvesse, Dylan seria o gênio do rock. Sem ele, todos os caras que voce poderia contrapor ( Lennon, Lou Reed, Leonard Cohen, Bowie, Patti Smith.... ) , não teriam existido.
Afinal, todo gênio tem de saber "como é estar por si-mesmo/ like a rolling stone"...