MÚSICA DE CINEMA

   Em 1962, MOON RIVER de Henry Mancini, em 63, CHARADE, em 64 MY KIND OF TOWN com Sinatra, 1965 tem WHATS NEW PUSSYCAT de Bacharach com Tom Jones, em 1966 temos BORN FREE de John Barry e ainda ALFIE de Bacharach, em 1967 vem SOMENTE O NECESSÁRIO de Mowgli e ainda THE LOOK OF LOVE de Bacharach, 1968 tem THE WINDMILLS OF YOUR MIND de Michel Legrand e em 69 RAINDROPS KEEP FALLIN ON MY HEAD, 1970 tem LET IT BE dos Beatles e em 1971 o TEMA DE SHAFT, 72 tem THE MORNING AFTER e ainda BEN com Michael Jackson, em 1973 temos THE WAY YOU WERE e ainda LIVE AND LET DIE  de MacCartney. Em 1974 WE MAY NEVER LIKE THIS AGAIN e em 1975 I'M EASY e ainda o TEMA DE MAHOGANY com Diana Ross. 1976 traz EVERGREEN com Barbra Streisand e 77 YOU LIGHT UP MY LIFE e NOBODY DOES IT BETTER com Carly Simon. Em 1978 vem LAST DANCE com Donna Summer e mais as músicas de GREASE, e em 79 IT GOES LIKE IT GOES. Vem 1980 e temos FAME e ainda NINE TO FIVE com Dolly Parton. Em 81 TEMA DE ARTHUR com Christopher Cross e ENDLESS LOVE com Lionel Ritchie. 1982 tem UP WHERE WE BELONG com Joe Cocker e ainda IT MIGHT BE YOU  de Tootsie e o EYE OF TIGER de Rocky III . Em 1983 WHAT A FEELING de Flashdance mais MANIAC. 1984 é um absurdo: vence I JUST CALL TO SAY I LOVE YOU com Stevie Wonder, mas ainda há TAKE A LOOK AT ME NOW com Phil Collins, GHOSTBUSTERS com Ray Parker, FOOTLOOSE com Kenny Loggins e PURPLE RAIN com Prince.
  Em 1985 SAY YOU SAY ME com Lionel Ritchie e THE POWER OF LOVE de De Volta Para o Futuro e em 1986 TAKE MY BREATH AWAY além de GLORY OF LOVE de Karate Kid e em 1987 THE TIME OF MY LIFE de Dirty Dancing, em 88 veio LET THE RIVER RUN da Secretária de Futuro e em 1989 a música da Pequena Sereia... E de repente, o fim.
  Desde então nós temos a música de Titanic ( Celine Dion ), uma do Guns para um filme do Schwarza e só. Vem Pulp Fiction com sua trilha de sucesso mas toda com músicas velhas e fim. O cinema deixa de tornar big hit uma canção feita para aquele filme específico. Temos velhos rocks e pops regravados, rearranjados, revividos, mas não sucessos de rádio nascidos em um filme.
  É claro que essa lista não se preocupa com qualidade, falo de sucesso. A primeira música citada é a vencedora do Oscar daquele ano, e a que cito depois esteve entre as 5 finalistas de então.
  Poderia ainda citar um monte músicas de James Bond que não chegaram a concorrer ou ao tema da Pantera Cor de Rosa, que também nunca foi indicado. O que aconteceu? Será que até na canção de um filme a preocupação  é tanta que só se joga no já testado????

OS DESCENDENTES- ALEXANDER PAYNE

    Alexander Payne. É um diretor que acompanho desde 1998. Não faz parte do hype, portanto não tem a fama pop de Nolan, Fincher e Trier. Com Payne, nada de psicoses diabólicas, firulas de câmeras moderninhas ou temas ousadinhos. Payne conta histórias, de um modo elegante, adulto, simples. E voce sabe, ser simples é a mais dura das artes.
   Barcinski acertou ao dizer que este filme lembra os filmes dos 70's de Hal Ashby. A mesma sutileza. Mas como estamos em 2012, ele não tem a intenção reformista dos filmes da década da inquietação. Payne é um pacificador. Seus filmes são sempre do bem. Mas não o bem idealizado, é o bem que nos resta, o possível.
   Com os irmãos Coen, mais Tarantino, Curtis Hanson e PT Anderson, ele é dos poucos cineastas atuais que despertam minha curiosidade. Se Coen é o cineasta da surpresa e Tarantino o da diversão, Payne é o da finura. Veja este filme:
   Voce pensa que a mãe em coma será o centro do filme. E que teremos mais um lixo em que o pai ausente passará todo o filme em crise de consciência e a mãe será vista em flash-backs como um tipo de musa. Não. Payne, sem grandes alardes, inverte as expectativas. A mãe é apenas um objeto inanimado e o pai não é um homem ruim em crise para ser bom. A mãe é que errou e ele é apenas um homem tentando acertar. O mesmo sucede com as duas filhas. Pensamos que vamos ter de aturar mais um filme com uma pequena criança geniosa e chorona, não, a criança apenas vive sua vida de criança. E quando surge a adolescente achamos que haverá uma série de crises entre ela e o pai. Não, ela ajuda o pai. É assim todo o filme. Uma expectativa é não-confirmada, sempre. Mas tudo sem grandes lances autorais, sem tiques de "olha como sou criativo", sem frescuras de "artista".
   O centro não é a mãe, aliás. É a ilha. Ao contrário do que é dito, lá existe um paraíso sim. Eu amo aquela humidade, as plantas brotando de cada canto, a vida abundante. Mas assim como a mãe está morrendo, nós sabemos que todas as ilhas estão em coma. O centro do filme é a visão do imenso terreno que está a venda. É o paraíso. Quando a filha diz: -Mas eu quero acampar...", entendemos que a dor de Clooney pela infidelidade da esposa é supérflua. Essa raiva o moverá para fazer o certo. Não vender o paraíso.
   George Clooney é o grande ator deste inicio de século. Apesar de detestar seu apreço por politica, é um ator que tem tudo. Sabe fazer drama sem parecer patético e tem um dom fantástico para comédia. Dom que Payne também tem. O filme não tem uma só cena de pastelão, mas o diretor/roteirista consegue extrair humor das situações mais dramáticas. Além de tudo raras vezes eu vi neste século a morte ser tratada de modo tão adulto. Jean Dujardim tem uma atuação de mais "gênio" em O Artista, mas se Clooney for premiado nada haverá de injusto nisso.
   Destaque também para a maravilhosa trilha sonora feita de canções havaianas. São o contraponto daquilo que os homens vivem e daquilo que a ilha é.
   Delicioso, bonito, simples, elegante. Alexander Payne deveria filmar mais. Faz poucos filmes, mas todos são interessantes e discretos. Os dois primeiros são os melhores, mas este é o mais ambicioso. Elegantemente ambicioso. Alexander Payne ainda crê na vida.
   Sem familia, sem religião, sem aventuras e sem heróis, tudo o que fazia da vida uma experiência transcendente nos foi tirado. A única coisa que se colocou no lugar foi a ciência. Mas a ciência não pode nos ensinar a viver. No máximo ela nos ajuda a não morrer. Clooney é esse homem sem nada. Ele não sabe ser pai, não tem religião, nada percebe de aventuroso em seus dias e está longe do mundo de heróis. Tudo o que lhe resta é o frio caminho racional: deixar morrer, deixar vender. Mas mesmo assim, ao ser tomado pela ira, pela surpresa, pela dor, ele faz algo. E esse algo é a última das transcendências, ele protege a vida, nega o caminho óbvio, faz sua escolha.
   Como aconteceu no ano passado com O DISCURSO DO REI, as pessoas desacostumadas a pensar não irão perceber a complexidade embutida na simplicidade. Verão aqui como lá, apenas um filme comum, bem feito, quase banal. Mas se no filme de Tom Hooper e Colin Firth havia uma profunda reflexão sobre a fragilidade humana; neste filme de Payne e Clooney temos uma visão sobre tudo aquilo que ainda pode nos salvar.
   Em meio a crimes em série, heróis mascarados e efeitos sensacionais, é mais do que ótimo. É uma esperança.

Louis armstrong & Ella Fitzgerald - Cheek to Cheek



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ELLA E LOUIS, UMA QUESTÃO DE SABER OUVIR

   Nos anos 50 Norman Granz produziu uma série de discos clássicos do melhor jazz. Se a Blue Note e a Prestige lançavam o jazz mais de vanguarda, Granz gravava standards em versões definitivas. Louis Armstrong se juntou a Ella Fitzgerald para gravar este disco com canções irretocáveis da tradição americana. Mais que um item de classe e de perfeição musical, o disco é uma aula de audição.
   Aqui tudo é sutileza. Desde a voz de menina que Ella sempre manteve, até a rouquidão de Louis. Mas é ainda mais. A respiração de Louis é audível nas faixas que são como cristal. Voce percebe o ar entrando pela garganta de Louis e a voz saindo, suave, grave, rouca, do mais profundo vazio do diafragma. E ao mesmo tempo há a dicção impecável de Ella, cada sílaba tinindo e sibilando, letra e melodia sendo emitidas e produzidas dentro de nossos ouvidos. É um disco que nos salva da surdez.
  Oscar Peterson traz seu piano delicado e Herb Ellis dedilha uma guitarra harmônica. Na batera o mítico Buddy Rich, aqui contido. Isn't This a Lovely Day vale sózinha por toda uma carreira. Canção lançada em filme de Fred Astaire, ela transmite a sensação de frescor e de luxo que os filmes de Astaire e de Ginger passam. É uma alegria absoluta. Mas há também Cheek to Cheek, talvez a mais sublime das canções americanas. Linda como amar, inspiração altíssima de Irving Berlin.
   Impossível saber qual a melhor faixa, They can't Take That Away From Me poderia ser ela. Dos Gershwin, tem uma melodia tão bonita que o prazer de a escutar faz com que nos enamoremos dela para sempre. Aliás é bom eu ter citado a palavra prazer. Valor tão desvalorizado nos dias de hoje ( há quem goste de discos que fazem sofrer e sentir dor ), é esse prazer o objetivo e o ganho da carreira tanto de Ella como de Louis. Eles cantam com prazer, e nos oferecem o mesmo prazer. Após uma noite perfeita ( ou mesmo média ), colocar este disco para tocar é amplificar esse momento vivido e usufrui-lo por tempo maior.
   Como acontece com os bons musicais de Hollywood, saber apreciar esta obra é mostra de se saber escolher. Um presente dado a si-mesmo. Generosamente feliz.

O FUTURO DO CINEMA É AGORA

   O crítico do Estadão, LC Merten, excelente, publicou uma bela análise sobre O Artista. Elogiosa, diz que o filme levou 12 anos para ser iniciado, que ninguém queria produzir. Fico sabendo que Robert de Niro é fã do filme ( agradeceu em Cannes pelo prazer que lhe foi dado ), e que Jean Dujardim é desde muito uma estrela na França ( o que atesta nosso desconhecimento sobre o país do filme ).
   Mas o mais interessante é que Merten faz um paralelo entre o momento que o filme mostra, a mudança do cinema silencioso para o sonoro, e o momento atual.
   O cinema sonoro encerrou a época aventurosa do cinema. Produtores improvisadores, diretores cowboys e atores "deuses" desaparecem. Estúdios vão a falência, astros se tornam desconhecidos e o público muda. Ao mesmo tempo, críticos e a maioria dos envolvidos desaprovava o cinema sonoro. O público logo se apaixonou por filmes falados, mas diretores e produtores pensavam ser aquilo um tipo de vulgarização do meio. Merten diz que hoje vivemos um momento idêntico. É o fim da película, o que faz com que a fotografia não seja mais tão preciosa; o fim das grandes companhias, que torna toda produção muito mais arriscada ( a Paramount por exemplo, ao produzir setenta filmes podia se dar ao luxo de arriscar em dez, ganhava no atacado. Hoje a produção tem de lucrar em 100%, cada filme é como se fosse o primeiro ).  Mas a maior mudança é a digital. O futuro se apresenta com a não-necessidade do trabalho de centenas de técnicos ( figurinistas, carpinteiros, iluminadores, sonoplastas ) e mais que isso ( e já falei isso aqui ), o cinema tende a não mais precisar de atores ( o que seria o sonho de Hitchcock ).
   Ninguém mais vai ao cinema só para ver "um filme de Jim Carrey ou de Brad Pitt". Eles têm muitos fãs, mas sózinhos não garantem um sucesso. Precisam de história, produção e principalmente de divulgação. Antes qualquer lixo de John Wayne ou Gary Cooper tinha a garantia de lucro, pois já faz tempo que não há um ator que garanta seguramente o sucesso de um filme. Quem precisa deles? TinTin anuncia o futuro.
   Não demorará dez anos para que clones de Bogart ou de Steve McQueen sejam usados. Veremos um sonho realisado: Audrey Hepburn contracenando com Cary Grant mais uma vez. Atores que não serão vistos farão movimentos imitativos de Bogey ou de Marlon Brando e digitalmente as feições do "personagem"  James Dean ou Bette Davis serão inseridas sobre os modelos. Bonito e simples assim.
   Vamos mais longe: festivais de cinema, Oscar, não têm mais respeitabilidade. Perderam a décadas seu caráter de "Nobel". Apelativos, se fazem show de TV por saber de sua leviandade. Perderam a realeza no momento em que sua nobreza morreu ( o Oscar era sagrado porque era a única chance de vermos James Stewart ou Akira Kurosawa ao vivo. Hoje vemos na festa atores desconhecidos e estrelas cada vez mais raras e banais ).
   O Artista nos recorda então da outra grande mudança, que também parecia temporária, mas que se mostrou definitiva. Já existem pessoas que não se interessam mais por filmes normais, e isso será regra. Pessoas que não suportam takes com menos de dez cortes, cãmera parada ou cenários reais. Gente que está pouco se lixando para os atores ou a fotografia do filme. Que só procuram aquilo que lhes recorda o mundo onde vivem: o mundo digital. O filme deve se parecer com imagens de câmara de celular, video-game e internet. Histórias fracionadas, sem grandes pausas, frenéticas e não-sutis. Adrenalina eterna e em doses cada vez maiores. Cavalo de Guerra é um filme anti-novo mundo. A Arvore da Vida já vive dentro desse novo universo. É o tipo de ousadia que ainda será possível. Uma salada pseudo-filosófica cheia de imagens digitais. A pausada narração de Spielberg jamais encontrará público.
   O medo desse novo mundo faz com que a nostalgia de O Artista seja desejável. Quem vive do cinema, ou ama os filmes se sentirá grato ao filme francês. Mas todos sabemos que a arte que nos deu narrações poderosas como aquelas de Kurosawa, Ford ou Wyler está morta e enterrada. O que nos resta é torcer por mais Wall E e por menos Matrix e Spirit.
   Felizmente existem os DVDs...

CLINT/ BOB FOSSE/ FORD/ WILLIAM POWELL/ SPIELBERG/ STEVE MARTIN

   O DESAFIO DAS ÁGUIAS de Brian G. Hutton com Richard Burton e Clint Eastwood
Tudo dá errado. Pelo menos este filme serve pra valorizarmos ainda mais a Dirty Dozen. Fala sobre grupo de soldados que deve invadir a Alemanha para resgatar general. Burton está passivo, com expressão de completo tédio. Clint nada tem a fazer. Seu personagem é apenas um enfeite, um americano bonitão zanzando pelo set. Uma aventura que não tem suspense, não tem humor, não tem nada. Nota 1.
   LENNY de Bob Fosse com Dustin Hoffman e Valerie Perrine
A vida do humorista Lenny Bruce é contada como uma febre de jazz. Em luxuoso P/B, Dustin Hoffman dá uma interpretação frenética, se entrega ao personagem. O filme tem uma falha: não revela a alma de Lenny. Mas suas qualidades, a criativa ousadia de Fosse, homem que conhecia o ambiente de cabaret onde Lenny viveu. Valerie Perrine tem uma atuação à altura, sexy e vulnerável. Belo filme. Nota 8.
   SANGUE POR GLÓRIA de John Ford com James Cagney
Talvez seja o pior filme de Ford. Não se decide entre drama e comédia. Passado na guerra, brinca com situações espinhosas, nunca convence. Nota 3.
   O RAPTO DA MEIA-NOITE de Stephen Roberts com William Powell e Ginger Rogers
O diretor é fraco, mas Powell e Ginger são excelentes, e então se torna um prazer ver o filme. Feito em 1935, ele lembra muito Thin Man, sucesso de Powell na época. Ele é um advogado que desvenda um rapto. Ginger é sua namorada. Powell desfila seu humor fino, sua classe, a voz que baila pelos diálogos. Ginger, o rosto cheio de ironia, é sexy em todas as cenas. Os olhos zombeteiros e a voz em desafio constante. O filme é para os dois. Nota 6.
   O ARTISTA de Michel Hazanavicius com Jean Dujardim e Bérenice Bejo
Ele é corajoso, excêntrico e tem uma atuação genial de Dujardim. Ele faz uma mistura de Douglas Fairbanks com Gene Kelly que é comovente. Mas tem suas falhas, a foto em P/B é pobre e a história é simplória. De qualquer modo, é um filme realmente diferente, que ousa não apostar em efeitos, em sexo e violência. O Oscar 2012 toma partido, tenta valorizar filmes de bons sentimentos. Missão inglória, nosso tempo é de bad feelings. Nota 7,
   O GRANDE ANO de David Frankel com Steve Martin, Owen Wilson e Jack Black
O diretor fez o Diabo veste Prada e Marley e Eu. Se esses dois filmes eram ainda agradáveis, este é irritante. Consegue se deslocar do Alasca até o Texas e mesmo assim não ter uma só imagem memorável. Isso porque tudo é feito em close e com uma insistência ridicula em cortar e cortar e mover o foco. Todos os cortes são exagerados, eles são errados todo o tempo. E tome movimento, tome mudança de cena, tome narração de fundo ( pelo Monty Python John Cleese ). Histerismo, nulidade. A história, que fala sobre 3 homens apaixonados por observar pássaros, é desperdiçada. O que dizer de um filme sobre a natureza que exibe muito mais celulares e carros que paisagens e bichos? Steve Martin, que foi um talento imenso, destruiu seu rosto: as plásticas eliminaram seu talento facial. Jack Black faz as mesmas caras e bocas de sempre e Owen é o mais esforçado, o que não significa muito aqui. Eis um filme que demonstra o tipo de cinema televisivo que está matando o cinema cinema. Nota ZERO.
   CAVALO DE GUERRA de Steven Spielberg
Careta, conservador, pouco ousado, e delicioso. Um mestre fazendo um filme de mestre. Há idiotas que reclamaram da guerra ser "mal mostrada"... Como? É coisa daquela gente que só consegue se emocionar às porradas. Precisa de visceras e sangue para sentir. Coitados.... Outra crítica é ao encontro do soldado inglês com o soldado alemão. Para mim é uma cena belíssima. Fantasiosa, hilária, corajosa. Viagem de Steven? Sim! Que bom! É um prazer assistir esta história. Plenamente satisfatória, seu não-sucesso atesta a decadência do público de cinema e não de seu diretor. Ele nos relembra o prazer de se ver e ouvir uma história bem contada. Nota 9.

CAVALO DE GUERRA- SPIELBERG, CINEMA PURO

   Como é bom assistir um mestre em ação! Um diretor que sabe desenvolver sua história, sem atropelos, pausando as imagens, mostrando as paisagens, longe de qualquer estética que não seja a da tela grande. Gente filmada à distância, corpos inteiros, grandes multidões, cenas com vários personagens agindo ao mesmo tempo, céu e chão no mesmo take. Ah.... que coisa boa....um filme que se parece com cinema!
   Steven Spielberg adora David Lean, mas apesar de alguns criticos muito mal informados falarem que este filme lembra Lean, ele na verdade é puro "Hollywood Clássica". David Lean faria cenas muito mais longas, colocaria a ênfase no pacifismo e usaria menos diálogos. O que vemos aqui é um filme como os de Clarence Brown ou Sam Wood, competência e entertainment.
   O filme é lindo e satisfatório. O fato de não ser um big sucesso mostra onde estamos. Hoje ET seria um fiasco. Bons sentimentos não fazem mais bilheteria e Spielberg ainda acredita no ser-humano. Ele insiste em ver beleza na vida e em tentar compreender as pessoas. Não tem medo de parecer careta ( sempre foi ), infantil ou piegas. Ele é tudo isso, e hoje em tempos de cinismo chique, Spielberg se torna um original, um diferente. Daí seu não-sucesso. Seu filme, hiper-pop, parecerá de outro planeta para quem cresceu com video-games e Guy Ritchie. Ele fala de familia, de bondade e de nobreza. Alguém se importa?
   Plasticamente o filme é o mais belo do ano. Não há sovinismo, ele mostra e sabe mostrar. Poucos closes, sem efeitos modernosos, sem frescuras. Desde a primeira cena voce sabe do que se trata: uma narrativa, uma clássica e bela narrativa, com começo, meio e fim, simples e bem contada, e eu percebo: como isso é hoje raro!
   Adorei o filme! Fiquei absorvido por cada minuto. Queria que ele durasse mais. Mas vamos à história.
   Ela vai de uma fazenda pobre da Inglaterra à França durante a primeira guerra. E tudo é brilhantemente mostrado. O cavalo, que jamais é humanizado, é testemunha passiva da loucura dos homens. Vítima. Como também são os alegres soldados. Aquela guerra foi a pior por ter sido a primeira guerra mecanizada. Foi uma guerra em que os soldados e as defesas eram ainda de 1880, mas o armamento e as crueldades já eram as do século XX. Quando os soldados ingleses avançam à cavalo, de surpresa, contra as metralhadoras alemãs, vemos toda a tragédia. A quebra de um código de conduta ( ataque sem aviso ), e o absurdo de se usar espada e cavalo contra metralhadora e canhões. É um massacre. É patético. Spielberg consegue ser veemente sem mostrar uma só cena de sangue jorrando ou de membros voando. Isso é arte.
   O cavalo vive então quatro etapas: na fazenda com arreios, na guerra, numa fazenda francesa e na guerra de novo. Em todas ele sofre como um animal. Mas repito, nada há de humano nele, é sempre um cavalo, e isso faz dele algo de muito mais terrível: ele nos acusa. Seu olho natural nada pode entender, ele apenas sofre, e vai em frente. Ao contrário de O ARTISTA, que é um filme nobre mas com uma história muito pobre; aqui temos nobresa com história, o roteiro é bem articulado, sabe criar tipos críveis, sabe avançar. E temos o belo animal.
   Fato estranho acontece no Oscar deste ano. Temos dois filmes radicalmente antiquados, que optam corajosamente por não ser "como se deve ser agora". Nada de cortes e mais cortes e de cenas com dois personagens no máximo. Bennet Miller e o filme sobre beisebol com Brad Pitt é a antitese deste filme. Mundo minúsculo, pobre, nervoso e labirintico, versus o universo vasto, rico, observador e observado, cheio de história.
   Volto a dizer: Como é bom ver um filme assim. Observe a casa onde Joey, o potro, nasce. Como ela é rica em detalhes e em como Spielberg a exibe com calma, carinhosamente. Depois veja as trincheiras, os jovens soldados. Eles têm chance de se tornar gente, o diretor permite que eles falem, que seus rostos sejam conhecidos. O mesmo com a fazenda na França. Vemos a menina e seu avô por apenas vinte minutos. Mas Spielberg consegue fazer com que os conheçamos, entendemos quem são e o que fazem. Como Steven Spielberg consegue isso? Porque ele ama os personagens, ama aquele cavalo, ama o cinema. Onde a câmera toca ele cria vida. O filme se torna admirável.
   Há uma cena ao final. A silhueta do cavalo e do jovem,  finalmente de volta pra casa. O que vemos é um imenso horizonte amarelo. Isso me lembrou John Ford. É o tipo de cena que um diretor televisivo jamais fará. É o tipo de cena que fica grudada na memória de quem a vê.
   CAVALO DE GUERRA não ganhará o Oscar. Mas ficará como etapa belissima da história do cinema. Um dos últimos filmes a contar um conto à beira da fogueira. Tem de se ver. É de verdade.

ÁGUA, SOL E ARQUITETURA

   Wallace Stevens, um dos 3 melhores poetas do último século, tem uma imagem maravilhosa. Ele imagina o fim do pensamento. O que haveria no fim. A maioria das pessoas falaria numa parede. Ou uma porta. Um abismo. Depende da criatividade de cada um. Stevens imagina que ao fim do pensamento, no final do novelo de ideias, lembranças, possibilidades, medos e desejos, existe uma Palmeira balançando ao vento.
   Pense então. Em meio ao siêncio o suave barulho das folhas e do vento. O azul do céu ao fundo e a sombra dessa palmeira sobre a areia que é amarela. E ela está ao final de tudo.
   Sol e água, Água e sol. Eu penso que toda a felicidade da vida pode se resumir nessas duas entidades. Toda a alegria vem do sol e toda vida da água. Sem o sol e sem a água, a morte.
   No livro de arquitetura que leio o autor diz que toda a história da arquitetura se resume à combinação de luz e de sombra. Edificar bem é saber usar essa combinação. Ele cita os árabes, os palácios e mesquitas da Espanha como o mais elevado grau arquitetônico atingido. Colunas criando sombra nos jardins que jorram água e alimentam plantas. Deleite para os olhos ( sol e sombra ), deleite para os ouvidos ( água ) e para o olfato ( plantas e água ).
   Um pedaço de parede de Pompéia. Azul claro celeste e vermelhos ocres. Cores nas paredes que abriam a vida de seus moradores para o que está lá fora. Arquitetar é abrir para fora, é deixar a vida entrar. Sol e água. Sol e chuva. E lagos e fontes e córregos. As paredes de Pompéia anunciam sol e oliveiras e palmeiras e muita água. Anunciam gente que bebe vinho e carrega água em garrafas grandes. Peles que se bronzeiam entre panos claros. E aqueles azuis únicos nas lascas das paredes preservadas.
   São Paulo esconde a água debaixo do asfalto. E emporcalha o rio que resta. São Paulo ensombreia o sol nas sombras dos prédios que matam o céu. Feio, sujo, escuro, e muito seco.
   E a Palmeira dança ao fim de tudo.

Ronnie Von - Cavaleiro de Aruanda



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RONNIE VON É UM CARA MUITO INTERESSANTE

   Uma bio sobre Ronnie Von seria muito interessante. Ele nasceu no Rio, em berço de ouro e viveu várias etapas de uma vida complexa. Aviador, ator, cantor e compositor, apresentador de Tv, brega e chique, doido e andrógino. E sempre um gentleman. Bonito como Alain Delon, namorou várias e encontrou uma no caminho que quase o matou ( e é a única de quem ele não fala o nome ). Mas resolvo escrever isto porque ontem um amigo me mostrou o disco psicodélico que ele lançou nos 60's. Cheio de surpresas, inclusive uma vinheta de rádio e uma conversa ao telefone, as músicas têm influências de Beach Boys, Love, Who e claro, Beatles. Guitarras ácidas e baixos estourados, é um grande disco. Com a voz de Ronnie, que em meio a toda aquela zoeira soa sempre sob controle, distanciada, um Bowie antes de Bowie ser Bowie.
  Ouço falar de Ronnie a exatamente 46 anos. Quando eu tinha dois anos, minha mãe é quem fala, eu já cantava "Meu Bem", a versão dele de "Girl" dos Beatles, um hiper sucesso por aqui. Fui uma criança que cantava, os vizinhos vinham em casa me ouvir cantar. Eu ficava cantando o dia todo e pra mim sempre foi natural me exibir. Com a entrada na puberdade perdi a voz e a confiança. Bem.... E lá estava Ronnie Von na TV, com seu cabelo Chanel e terninho justo "feminino". Eu o achava intrigante e meu pai o detestava. Sei hoje que ele foi um dos primeiros caras no Brasil a escutar Hendrix e Doors. Ele tinha acesso a importações, numa época em que coisas importadas no país eram mais raras que ladrão em Ipanema.
   Depois, nos anos 70, ele entrou numa viagem de ser ator e começou a gravar músicas muito adocicadas. Mas mesmo assim existem coisas de interesse, como a faixa que posto acima, que é de 1974. Eu a escutava na rádio Difusora e gostava pacas. Mas cheio de vergonha, pois ouvir Ronnie Von em 74 já era uma vergonha. Na virada pros anos 80 ele tinha um programa de Tv e lançava músicas à Roberto Carlos, como o hit "Tranquei a Vida". Ficou doente, paralisado na cama, e quase se foi. Deu a volta, e me acredite, o cara é um sobrevivente.
   Hoje ele é um digno representante de sua geração. Conseguiu não ser um tio-doidão e nem um saudosista chato. Se empolga com Bossa Nova e Soul Music, Beatles e Blues. Seu programa de TV é uma coisa totalmente alienigena, tentativa de ser sóbrio e familiar num meio que é hoje histérico e individualista. Ele leva as coisas com seu jeito de bom filho e bom marido, sem baixarias e sem apelações. O ibope é ignorado.
   Caraca! 46 anos ouvindo falar do cara! 46 anos vendo o tempo passar nele e em mim. Falar mais o que? Respeitem o homem. Ele não é pouca coisa.

O ARTISTA- MICHEL HAZANAVICIUS

   Absurdamente corajoso!!!    Existem duas cenas que definem este filme. Numa delas, o ator/artista, deprimido, vai ao cinema, e ri com o filme, sonoro, da atriz que ele ajudara. Na outra cena, já ao fim do filme, a arma desse ator dispara, o cachorro se finge de morto, e o que era muito triste se torna muito engraçado. Essas duas transições, do drama à comédia, são um dos segredos perdidos do cinema atual. O fato deste filme conseguir fazer isso de uma forma tão natural atesta talento de quem o escreveu e dirigiu, no caso, Michel Hazanavicius.
   Não é filme para agradar o grande público. Ele nada tem daquilo que garante interesse. Não tem violência, não tem sexo, nenhum tiro, nenhuma perseguição de carro. Não fala de politica e não é "rebelde". Mais que isso, não é barulhento, não é colorido, não tem efeitos especiais. Então o que ele tem? Nada?
   Ele não tem cor e não tem diálogos. Um suicidio de quem o produziu. Assistir à um filme silencioso é tão dificil para quem não está acostumado, como é assistir a ópera ou ballet para quem não frequenta grandes teatros. Isso faz com que este filme seja algo de muito raro: um filme excêntrico que recebe atenção da midia graças a suas premiações. Mas voltando a questão, o que ele tem?
   Genuino amor ao cinema. Tirando todo artificio dos filmes, o que resta é cinema puro, uma história contada em imagens. E indo ainda mais fundo em sua proposta, o filme conta uma história que tem o odor e o gosto de 1927.
   Douglas Fairbanks é o modelo de Jean Dujardim. Fairbanks foi um semi-deus neste planeta. O inventor do herói de capa e espada, do pirata sorridente, do atleta bem-humorado. Mas, em 27, com a invenção do cinema sonoro, seus filmes se tornaram velhos, passados, falidos.  Alcoólatra, logo iria encontrar a morte ainda jovem. Dujardim, numa atuação de gênio, tem o tipo de Fairbanks, mas seu sorriso tem a maravilhosa alegria de Gene Kelly também. O filme é todo dele. É um ator que flutua do cômico ao drama com imensa facilidade. Sua atuação é a garantia do filme. Com ator menos dotado nada aconteceria.
   É triste dizer que não há mais películas para filmes em P/B. Se compararmos a riquesa do preto e branco clássico com a pobresa do que vemos aqui, perceberemos que este filme pode deseducar as novas gerações. Elas pensarão que o luxuoso P/B era só o que se vê aqui. Muito pouco. É uma fotografia sem cor, nunca em preto e branco. Mas não pense que é um filme de visual pobre. Os atores se movem com admirável fluência e os sets são muito detalhistas, pesquisados. Aqui nada há do visual miserável da TV.
   A história é simples: o super-star que não acredita no futuro ( filmes falados ), e vê sua carreira se encerrar. Uma atriz que ele ajudou se faz estrela e o resgata do limbo. Bérenice Bejo também brilha intensamente. Pena os dois não terem mais cenas juntos.
   Esse amor de que falei se revela no carinho com que os atores são tratados, na história que une montes de filmes clássicos e na coragem de se fazer algo tão contrário a tudo que é feito hoje. Ele não se parece com filme nenhum feito de 1940 pra cá. Tem a pureza visual dos filmes dos anos 20 com a ingenuidade moral dos anos 30. ( É claro que nem todo filme dos anos 20 era puro. Lang e Pabst nada têm de puro. E é óbvio que Lubistch ou Mae West nada tinham de ingênuo. Falo do cinema mais característico da época ).
   É apenas um poema de amor ao cinema. Um parênteses que nos recorda aquilo que fomos e que jamais voltaremos a ser. Todo cinéfilo se sentirá em casa com este filme. E todo não-cinéfilo se sentirá desconfortável. No mundo ideal ele seria um esmagador sucesso e o estilo de Fairbanks se faria moda. Os filmes recordariam que é possível se fazer um sucesso sem violência e sem palavrões. Mas não. Será apenas mais um desse filmes "de criticos", que tanto irritam o povão e que quando vencem o Oscar são imediatamente esquecidos ( vide O DISCURSO DO REI ).
   Raras vezes nos últimos anos um filme foi tão corajoso, e raras vezes mereceu tanto ser chamado de "Um Belo Filme".

ROMA NO MASP

   Fico pensando no ano de 4012.... Pessoas andando e olhando com respeito:
   Para uma garrafa de vidro de Guaraná, uma escova de dentes verde e para um pedaço de parede com grafiti onde se lê: vote em Carlos Daniel.
   Olharão com interesse para uma caneta da Copa da África do Sul e para uma página de papel com uma foto da Luana Piovani pelada. Uma calça jeans esfarrapada e uma capa do vinil do Jorge Ben.
   Um garfo de plástico e um pôster do Hawaii. Uma foto do marceneiro Zé da Moóca e um lápis preto.
   Swatch de plástico vermelho e um livro rasgado de Harold Robbins.
    Daqui a 2000 anos olharão para pedaços de túmulos e não entenderão nada. E para cruzes cristãs e nada vão lembrar. E uma moeda de niquel.
    Nossos objetos terão a honra de viver por vinte séculos?
    Vejo a exposição sobre a Roma Imperial e penso isso. Mas penso mais. Que há um patético em se olhar para um garfo, para uma lasca de parede, para uma urna funerária. Aquilo tudo não é obra de um artista, é artesanato, coisas úteis e arte é inutil. Admiramos o lixo de Roma, os restos. E também constato que fora de seu ambiente aquilo tudo se torna mudo. Uma estátua de Nero longe de Roma é como um tigre no zoo de Londres. Saímos da avendia Paulista e nos vemos diante de um bronze de 2000 anos de idade. Não há como entrar no espirito daqueles objetos. Eles estão isolados, exilados de seu mundo. Mortos.
    Sinto mais uma vez o quanto sou romântico. Preciso do grande nome de um artista, de um rastro de um ego imenso. Preciso de Arte e não de artesanato. Preciso ver El Greco, preciso das imagens religiosas da Espanha católica. E dos retratos de Gainsborough, de Watteau. Preciso lembrar de Modigliani. Na frieza dos mármores de Roma eu nada vi. São objetos de vidas que se foram. Mas a menina de Renoir não é um objeto. É vida para sempre. Ela vive, ela me alegra, ela é a beleza.
   Vá ver as coisas que eram cotidianas na cidade de Roma e na vida romana. Mas aproveite e reveja a arte não cotidiana de seres nossos irmãos. Saia de um mundo morto e respire a vida das telas de Monet e de Rafael. E perceba mais uma vez: arte é vida e vida é para sempre.

A HISTÓRIA DA ARQUITETURA- JONATHAN GLANCEY

   Acabou de sair este livro, bastante ilustrado, que engloba de forma simples e direta, toda a história da arquitetura. Desde a Mesopotâmia até o século XXI. Algumas fotos são de tirar o fôlego, outras são enervantes. A pior das imagens é uma que mostra o centro de São Paulo. O inferno feito pelo homem. Não é um lugar para gente viver, é uma máquina de trabalhar e de dormir, um kaos que obriga a que os humanos à ele se adaptem e não o inverso, que seria o correto.
   Impossível destacar a mais bela construção. A MESQUITA DE DJENNE,  em Mali, do século XIV, toda feita em tom de areia queimada, tem o visual de uma construção de outro planeta. Todo seu desenho lembra filmes de sci-fi, um monumento à invenção dos homens. E se SP é o inferno, a VILLA DE ADRIANO pode ser o paraíso. Dificil existir algo de mais bonito feito por nós. Colunas, estátuas e água formando um ambiente de absoluta paz e de harmonia celeste. Eis um ambiente onde tudo convida a felicidade.E o que dizer de CHARTRES, uma gloriosa tentativa de se alcançar a Deus. Uma afirmação de que nada somos e que tudo fazemos para ser mais que esse nada. A arte perdida de se tecer em pedra. Pedra que se faz renda e renda que se faz luz. O PALAZZO DEL TE em Mântua, ícone do renascimento, a beleza sóbria, limpa, refinada, brancos e ocres, retidão e curvas perfeitas, um convite ao olhar sem fim.... Posso ficar aqui por linhas e mais linhas falando das maravilhas que existem aqui. Mas faço questão de citar textualmente um trecho da introdução. Para mim ninguém define melhor a arquitetura:
   " No inicio do século XXI há muito mais pessoas e exponencialmente arquitetos do que já houve em qualquer outro tempo. Isso certamente não levou a um aumento na qualidade da arquitetura. Por que? Porque não construimos mais para ligar a humanidade a Deus ou para dar sentido a nosso lugar no Cosmos, mas por qualquer uma das razões banais, mundanas, vaidosas e lucrativas que reduzem a arquitetura a um empreendimento vulgar e terreno. É paradoxal que JUSTAMENTE NA ÉPOCA DA HISTÓRIA EM QUE A TECNOLOGIA PERMITE QUE AS CONSTRUÇÕES SEJAM MAIS EMOCIONANTES DO QUE NUNCA, EXISTAM TANTAS QUE SEJAM TÃO INSÍPIDAS E DEGRADANTES. Na verdade, o papel do arquiteto decaiu. Para sobreviver, para continuar a entusiasmar como fizeram as grandes mesquitas e templos ao longo dos milênios, os arquitetos precisam redescobrir o campo elevado da imaginação, ser os xamãs e os mágicos que seus predecessores foram antes da revolução industrial, quando construir tornou-se fácil demais..... mas naturalmente temos a arquitetura que merecemos. Se queremos naturalmente VIVER VIDAS BANAIS, ENTÃO O MUNDO SEM ARTE DO SHOPPING CENTER, O MUNDO DO PARQUE TEMÁTICO E DO CENTRO DE LAZER, O MUNDO FURTIVO DO CONDOMINIO FECHADO, COM SUAS 3 GARAGENS PROJETADAS EM PÚDICOS ESTILOS TRADICIONAIS, JUNTAMENTE COM O MUNDO DOS ESTACIONAMENTOS COMERCIAIS...É uma grande distância dos deuses e da arquitetura como gostaríamos que fosse. Uma história que foi contada a 10.000 anos."
   A magnífica grandesa do homem. A ansiosa busca por Deus. A afirmação de uma inteligência. A magia do inesperado. Glancey nos mostra que isso ainda existe no mundo de hoje. Mas se torna cada vez mais excessão, e não regra. Nossa arquitetura, pelo contrário, tem afirmado a insignificãncia do homem, a negação do divino e o tédio da preguiça. Se deslumbrar com a beleza dessas fotos e com o texto de Glancey é entender o porque do erro e onde pode estar a solução.
   Somos onde vivemos. Pense nisso. O banal é lar de mentes banais. O confuso dá nascimento a confusão, o medíocre cria mediocridade e o insípido é lar de insipidez. O brasileiro tem por tradição dar pouco valor ao visual de suas casas. Por que? Caixas com grades onde o carro da familia toma o lugar do jardim. Apartamentos clean onde não há espaço para se receber amigos. Decoração tecnológica onde nada é criativo e nada tem a marca do caráter de quem lá vive. Casas sem nada que revele uma história, uma alma. Casas que poderiam ser de qualquer um. Casas anônimas. Quem vive nelas? Anônimos.
   Somos onde vivemos.

Trailer: Lenny. de Bob Fosse



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LENNY, UM FILME DE BOB FOSSE ( A REALIDADE DO CINEMA )

   Numa crítica da Veja sobre o DVD de "PARCEIROS DA NOITE", filme de 1979 sobre o mundo hardcore-gay, com Al Pacino, fala-se que o filme exibe uma coisa que sumiu do cinema atual: a realidade. Hoje vemos violência chocante, dramas contundentes, sexo doentio, emoções aviltantes, mas não a tal realidade. A realidade é feita de cenários comuns, nem bonitos e nem imundos, de tempos longos e mortos e de pessoas complexas. LENNY, feito em 1974, portanto do período mais realista do cinema, é de verdade.
   Lenny Bruce foi um humorista, tipo stand-up, que ajudou, e muito, a quebrar o puritanismo americano. Nos anos 50, enquanto na França, Itália ou mesmo no Brasil, se escutavam palavrões no teatro, Lenny era perseguido nos EUA por falar de masturbação, homossexualismo e falar palavras como "cocksucker". Casado com uma stripper, viciado em heroína, morto ainda jovem, Lenny acabou se tornando um tipo de herói outsider no momento em que as coisas mudaram. Bob Dylan e Leonard Cohen o têm como mito.
   O filme nada glamuriza. E nem faz dele um trapo. Nada de cenas bem-loucas e nada de sofrimento cruel. É um cara de verdade, às vezes legal e às vezes um crápula. Miles Davis cedeu 3 músicas para o filme, é um dos filmes mais jazz que já vi. Talvez seja o mais jazzy.
   Bob Fosse foi um gênio. Surgiu como coreógrafo nos anos 50. No musical "KISS ME KATE", há um número coreografado pelo jovem Fosse. Já antecipa tudo o que ele traria à Broadway: sexo, leveza, esperteza, malandragem. Ele logo estourou no teatro e começa no cinema em 1968, com CHARITY, uma homenagem á Fellini. Fracasso de público, é um grande filme. Em 1972 ele faz um filme barato, um tal de CABARET. Sucesso absoluto, é o filme que melhor exibe o clima da Alemanha nazista. Com esse filme, Fosse ganha o Oscar de direção, vencendo "apenas" Coppolla em O PODEROSO CHEFÃO. Bob Fosse nesse ano conquista um recorde que nunca será batido, ganha os 3 maiores prêmios numa mesma temporada: o Oscar no cinema, o Tony na Broadway por PIPPIN' e o Emmy na TV pelo show LIZA COM Z. Mas o que ningém sabia é que Fosse era muuuuito INTENSO demais. Mulheres, cigarros, álcool, insônia, anfetaminas, estimulantes. Faria apenas mais 3 filmes, este LENNY, e depois venceria Cannes com ALL THAT JAZZ ( o filme que vi mais vezes na minha vida ). O final seria com seu maior fracasso, STAR 80, um lixo. Na Broadway continuaria vitorioso, até ter um enfarte em 1987 e falecer. Junto a John Huston, Bob Fosse é o cara que eu queria ter sido.
   Dustin Hoffman faz Lenny. E sabemos que trabalhar com Dustin em 74 era um inferno. Exageradamente perfeccionista, ele exigia inúmeras refilmagens, discutia os motivos dos diálogos e se trancava para estudar a psicologia do papel. Em ALL THAT JAZZ, Fosse mostra o clima insuportável das filmagens de Lenny. Ele sofreu um enfarte ao fim da montagem, exatamente como em JAZZ. Mas valeu a pena, o que vemos é Dustin Hoffman se tornar Lenny diante de nossos olhos. Cada cena que passa é mais um passo na direção da total transformação e ao fim do filme não há mais Dustin, o que há é Lenny.
   O filme mostra o ambiente que Fosse melhor conhecia: espeluncas, bares pequenos, cheios de putas, cafetões, músicos de jazz, ladrões e fracassados. Feito em P/B, tem uma fotografia granulada, cheia de closes, rostos sem maquiagem, feios, gordurosos, enrugados. É um filme desagradável, crú, sem nada de "bonito". Mas é belo, forte, vivo. Tem uma cena, ao final, em que Lenny entra em cena drogado e não consegue dizer coisa com coisa, que é feita sem um só corte. São cerca de 10 minutos de câmera parada e nem uma só concessão. Dustin se desnuda, a ausência de cortes faz com que a alma de Lenny se revele.
   Valerie Perrine, atriz que tinha tudo pra se fazer star mas que não deu certo, está soberba como a stripper. Decadente, sexy, tem uma cena ao telefone, patética, que lhe garantiu um lugar de destaque. É chocantemente real.
   Longe da perfeição ( o filme jamais exibe o porquê de Lenny ser tão genial ), é um filme que se arrisca, que aposta, que faz o que quer sem pensar nas consequências. Como foi Lenny Bruce. Como foi Bob Fosse.

Gilberto Gil - "Babá Alapalá"



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REFAVELA- GILBERTO GIL ( O MUNDO NOVO É UM MUNDO NEGRO )

   A gente não percebe porque se acostumou, mas se um homem do século XIX ( ou mesmo de 1910 ), viesse cair em Paris hoje, ou New York ou Londres ou Sidney ou meu bairro em São Paulo; o que esse homem do passado mais estranharia? Os prédios? Os carros, as telas acesas?  Não meus caros, seriam os negros. E mesmo em cidades desde sempre negras, como Rio ou New Orleans, esses homens estranhariam negros vivendo e tendo o poder de brancos. A grande revolução do século XX foi a cultura negra se fazer dominante, o homem negro ser, e será cada vez mais, a cara do planeta. Este disco, uma obra-prima irretocável, é uma espécie de biblia desse momento histórico.
   Gilberto Gil foi à Africa e voltou mudado. Não se ia muito a Africa em 1975 e a miséria lá, se hoje revolta, imagine então. Ele voltou ainda mais negro do que sempre fora e aqui ele faz uma coisa que antecipa a moda de dez anos depois: um disco world music. Em 1976 não existia nem o termo. Os criticos não sabiam como classificar este disco, foi mal falado. É genial. World Music com muita testosterona. É reggae, é batuque africano, é funk, é musica de terreiro, é filhos de Gandhi. Gil sempre foi um duende, sua alma é dionisíaca ( Caetano é Apolo ), aqui ele está em casa, feliz, solto, explosivo.
   Refavela a música, começa com lindos acordes e vai num rápido crescendo de percussão. Um monte de instrumentos, uma festa, e um refrão harmônico que é um êxtase. Uma alegria colorida que canta a favela paradoxal. Lugar feliz de miséria e dor. Toda a criatividade de um talento imenso está aqui em pleno poder. Este aliás é seu último grande disco.
   Aqui e Agora. Uma divagação mistica, daquelas que ele tão bem sabia fazer. Gil não é exatamente religioso porque ele não fala de religião. Para ele a religião é coisa resolvida, ele vive nela e pronto. Aqui ele fala do espaço e do tempo, com calma, com tranquilidade. Uma canção suave, soft, de belíssima harmonia.
   Norte da Saudade é reggae primitivo. De sertão, tosco e com um baixo ( Rubão ) absurdamente bom. A banda que o acompanha suinga, ginga e cria sem parar. Jogo de cintura, muito suór e sangue na veia.
   Ilê Ayê fala exatamente da negritude. Rápida, quase agressiva, tem uma levada que não é funk, não é samba, não é reggae, é o que? Um momento de criação solar.
   Babá Alapalá. Uma obra-prima. Isto é uma obra-prima. Ela desliza pelo ar, primitiva e sofisticada. É como um tesouro. O baixo e a percussão mandam, a voz inspiradíssima. Seu corpo vai junto. O disco anuncia: não mais melodia, ritmo e dança, música é milagre, uma coisa que é um nada invisível e que faz a cabeça pensar e o corpo pirar. Como diria o grande Ezequiel Neves: Descaralhante!
   Sandra é linda. Uma canção com letra que é poesia literária, múltipla de sentidos e uma melodia que se parece a hino de harmonização. Ela hipnotiza. Me recordo de aos 18 anos ficar tardes e tardes, ao pôr-do-sol,  cantando essa melodia.
   Era Nova é quase psicodélica. Bastante "mutante", ela tem três andamentos e uma letra complexa, e ao mesmo tempo, festiva. Aliás o disco inteiro é feliz, alegre, otimista.
   Samba do Avião. E ele transforma uma bossa de Tom Jobim em música de Cameroon. Fica bom pra caramba!
   Balafon é mais uma obra-prima. Um primor de ritmo africano, de alegria esfuziante. Impossível voce não sair rebolando pelo quarto, pela sala ou pelo carro. Uma música tão maravilhosa que ela deveria ser vendida nas farmácias, para doentes e perdidos. Voce a escuta e vê trilhas africanas diante de seus pés. E sorrisos bonitos.
   Patuscada de Gandhi. A mais simples das músicas. Uma batucada, meio terreiro, dos Filhos de Gandhi. É preciosa e muito rebolativa. Em 1981, eu, Mauro e Dió destruímos a sala de casa ouvindo isso. Acho que a escutamos dez vezes e ainda ligamos pros amigos pra mostrar nosso novo arranjo. Foi uma das mais brilhantes noites da minha vida.
   Nos anos 80, como aconteceu com todo mundo, de MacCartney a Lou Reed, passando por Bowie e Neil Young; Gilberto Gil se tornou fã de si-mesmo e isso o levou a ser uma caricatura. Seus discos se tornaram hiper-produzidos, preguiçosos e bobos. Mas é impressionante o nível de genialidade que ele demonstrava nos anos 70. Assim como Caetano, Jorge Ben, Tim Maia, Ney Matogrosso, Novos Baianos e tantos outros, Gil cria sem parar, mistura tudo, absorve o ambiente e nos dá uma salada que nunca desanda. Essa linha de evolução seria rompida pelos próprios criadores a partir de 82/83 e nunca mais seria retomada. A música feita no Brasil passaria a ser de segunda categoria, cópia de cópias ou saudosas tentativas de revivier o já ido. Chico Science tentou retomar e até conseguiu. Seu primeiro disco é filho direto de REFAVELA. Mas Chico morreu e o mangue beat se perdeu na nascente.
   De qualquer modo, aqui está o material. O futuro preto e gingado. E genial. Maravilhosa refavela!

Firenze



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FLORENÇA, UM CASO DELICADO- DAVID LEAVITT ( A CIDADE E SUA SÍNDROME )

   Florença é uma cidade pequena. Ela pode ser toda percorrida a pé. E nesse espaço pequeno ela comporta um quinto de toda a arte do mundo. Um quinto! Isso provoca uma síndrome conhecida como "Síndrome de Stendhal", o autor francês teria sido o primeiro a descrevê-la. Ela ocorre quando após horas vendo tantas maravilhas, achatado e asfixiado pelo tamanho do que há de genial naquilo tudo, o pobre visitante perde a noção de onde está, quem é e o que faz ali. Uma sensação de que não se é nada, de que a própria vida nada é, de que as obras são maiores que tudo, faz com que a consciência se esfarele. Vem a palpitação, as vertigens e o desmaio.  Eis a tal síndrome. E creia, ela não ocorreu só com um romancista francês de mente criativa, ela aconteceu inúmeras vezes. Inclusive neste ano. Vivi uma coisa parecida em Chartres. Um maravilhamento tão intenso que é como se não pudéssemos mais existir. A completa perda do senso do eu-presente.
   David Leavitt é um atual bom autor americano. E ele sabe que essa sensação era cotidiana na Renascença. O mundo moderno, não tendo a coragem de vivenciá-la, a nega. De que modo? Vulgarizando a arte. Michelangelo em canecas, bonés e chaveiros. Michelangelo como um artista pop.
   O livro não é uma descrição da cidade. Volume da Cia das Letras, da mesma coleção do Flanêur, Florença não é cidade de flanêur. Nela os passeios têm objetivo, é uma cidade pequena, e onde cada rua é uma história. David Leavitt se prende então a história recente da cidade, de 1850 para cá, e eu não sabia: ela é uma cidade "inglesa" e é um tipo de consulado gay.
   Inglesa porque desde 1850 todo inglês perseguido por ser excêntrico acabou indo viver em Florença. Em 1920 eram 50.000 numa cidade de 450.000 habitantes. Eram escritores, pintores, poetas e simples vagabundos. A tragédia deles, é que quase todos perderam o que tinham de talento na cidade. Vivendo em lugar onde tudo podia ser feito ( e esse tudo ia desde se casar com sua tia a ter amantes de 12 anos ), eles perdiam a garra e acabavam se tornando um tipo de playboys ultra-esnobes, fofocando uns dos outros todo dia, e escrevendo livros enfadonhos sobre seus casos. E.M. Forster foi o único que não perdeu seu dom, simplesmente por não ter se misturado a colônia inglesa. Os ingleses eram capazes de ficar trinta anos na cidade e continuar tomando chá e comendo sanduíches de pepino. Vinho, café e feijão, jamais! Foster se misturou, provou a cidade, conheceu a vida. David Leavitt dá breves relatos de vários desses autores. Muitos foram amigos de Oscar Wilde, e nem todos eram gays. Huxley esteve por lá, assim como Berenson, que viveu meia vida na cidade.
   Florença é considerada a mais esnobe cidade da Itália. A lingua italiana nasceu na cidade e o visitante fica impressionado com a quantidade de nomes famosos que são relembrados em cada esquina. O rio Arno, que corta a cidade em duas, é hoje um pardacento rio imundo, mas mesmo assim as pessoas se encantam com sua cor de café com leite. Se o visitante não se cercar das amarras de sua fraqueza, a cidade o deixará enfeitiçado. Ela coloca todos de joelhos.
   Em 1966 uma terrível inundação pegou a cidade inteira. Na TV da Itália, tudo o que se falava era do número de carros levados pelas águas do Arno. Mas, sem internet e sem ninguém planejar, uma quantidade enorme de jovens estudantes da Inglaterra, da Alemanha e até dos EUA se dirigiu para a cidade. O que eles foram fazer? Salvar o tesouro artístico da cidade. Eram filas de jovens, água suja até a barriga, passando de mão em mão, livros, quadros, estatuetas para lugar seguro. Há uma outra história tão bela quanto essa que se passou em 1945. Uma tropa de americanos veio libertar a cidade. Tudo pacificado, eles entram numa granja na periferia de Florença. Três oficiais entram num quarto e acendem a luz. Um deles diz: - Major! Giotto!, o outro fala: - Aqui!!! Botticelli!!! , ao que o major diz: -"E aqui um....Leonardo!!!!...
   As obras eram escondidas em casas humildes durante a guerra para não serem levadas pelos alemães. Naquele quarto simples, 45 milhões de dólares, em valores de 1945, estavam nas paredes.
   Florença é isso. Uma cidade agarrada a seu passado. Consciente do que foi e que estranhamente sabe que desde 1850 tem como moradores famosos, estrangeiros. A cidade parou de produzir nativos de brilho. Mas, orgulhosa, assoberbada, ela exibe a maior abundância de arte por metro quadrado em todo o globo.
   É um belo livrinho!

OSCAR 2012

   Leio que todos os concorrentes são fracos de bilheteria. Alguns são mais que isso, fracassos. O filme francês tem sido vítima de um fenômeno que atesta a ignorãncia do público atual do cinema. As pessoas saem no meio do filme "por não suportarem assistir um filme em preto e branco". Nos EUA inclusive vaiam as legendas. Não entendem legendas em filme. Mas não só ele. Os filmes de Scorsese, de Alexander Payne ( diretor que adoro ) e etc.... Todos fracassos. Mas há mais um sinal: em 1972 a média de idade dos concorrentes a melhor diretor era 35 anos. Este ano é de 61. E não é um fenômeno isolado, a média é maior de 50 desde a década de 80.
   O filme de Meryl Streep também é um pavoroso fiasco de bilheteria. Assim como no ano passado o ótimo filme sobre o rei George não interessou ninguém ( provávelmente por ninguém saber quem era o tal George e o tal Edward ), agora parece que já não sabem quem foi Thatcher. Chegaremos a um tempo em que dez anos atrás será "antiguidade". O DISCURSO DO REI merecia ser visto por todos. Não o viram. Era elegante demais para um público que só compreende emoções violentas.
   George Clooney x Brad Pitt. Belo enfrentamento. Vai dar Pitt. O filme é um lixo.
   Gostaria que Max Von Sydow fosse o melhor coadjuvante. Há quem o chame de "o maior ator vivo". Basta dizer que é ele o herói do SÉTIMO SELO de Bergman. Depois do gênio sueco, esteve em filmes de Woody Allen, Scorsese e que tais. É o único gênio indicado.
   Uma banda brasileira que faz covers de músicas de filmes disse algo que nunca notei: desde os anos 80 tem diminuído a quantidade de hits vindos do cinema. As superproduções têm usado temas antigos, tipo Ac/Dc no Homem de Ferro. Se a gente parar percebe, de Footloose à Eye of Tiger, passando por todos James Bond e Rocky, Dama de Vermelho e De Volta para o Futuro, há uma imensa quantidade de músicas famosas dos 80's.
   O que notei é que filmes que unam sucesso popular e qualidade artistica não existem mais. Falo de grande sucesso popular, não de filmes que apenas se pagam. Os concorrentes deste ano deram prejuízo.
   Um dia veremos um Oscar só de blockbusters. Ou ele se tornará um saudosista prêmio festivo.