REI LEAR- WILLIAM SHAKESPEARE, O MUNDO FAZ SENTIDO?

   O mundo como planicie onde o que impera é o ciúme, a incompreensão. O ruim se fortalece, o bom padece. Shakespeare ergue um monumento. Difícil lembrar de texto mais capital. De Dostoievski à Bernanos, todos beberam aqui.
   Lear é o rei-patriarca. Que se deixa levar por duas filhas invejosas, e renega a única que o ama, Cordelia. Pois Cordelia é incapaz de verbalizar ( e assim vulgarizar ) o amor que sente pelo pai. Lear é vaidoso, deseja adulação, homenagem.
   Ao mesmo tempo, em outra casa, vemos Edmundo, o mal, filho bastardo, enganar Edgard, seu irmão, e através de trama bem urdida, fazer seu pai, Gloucester, renegar o bom e ingênuo filho, Edgard. Edgard foge e se faz mendigo, louco em meio a lama-caos. Rei Lear é sobre o amor, e esse amor, amor entre pai e filhos, único verdadeiro, é também o caminho para a dor, a loucura e a morte. Terrível mensagem da peça: amamos apenas nossa origem ( o pai ), mas esse amor nos arruina.
   As filhas invejosas de Lear o expulsam de casa, e ele enlouquece. Outro tema, a dor da velhice, a dor da impotência. O rei vaga na chuva e na planicie, vaga e simboliza todos nós, sem lar, sem prole, sem honra, sem razão. O bobo o acompanha, Kent, nobre fiel o segue disfarçado e Cordelia se casou e vive longe, na França. As dores crescem: o pai de Edgard e Edmund, graças a tramóia de Edmund tem seus olhos arrancados e passa a andar sem rumo também. Imagem que não nos abandona: todos os bons vagam, cegos ou loucos, a esmo. Esse pai, Gloucester, acaba por ser guiado pelo filho mendigo, Edgard, sem o saber. É salvo do suicidio, é guiado por aquele que renegou injustamente.
  Edmund torna-se amante das duas filhas más de Lear. A violência cresce e atinge seu ápice no duelo dos irmãos, Edgard e Edmund. O mal é vencido, mas surge a terrível ironia da peça....
  O pai de Edgard morre e Lear entra em cena com Cordelia morta em seus braços. O velho rei, patético, lamentando a filha morta é daquelas cenas que jamais serão esquecidas por quem a viu. E brota a certeza, o mal é eliminado, mas a vitória não é do bem. Ficamos estupefatos. Não existe catarse em Lear, não há alivio. O mal deixa herança, deixa destruição, o bem persiste, mas não vence...
   Rei Lear, com sua linguagem chegando aos limites do cognoscível, demonstra o quanto nosso público teatral decaiu. No Globe Theatre, a ingressos que equivaliam a uma cerveja, o povão ia em massa ver Rei Lear ou Macbeth. Urrava de prazer, recitava as partes conhecidas, ria com o absurdo. Hoje, Shakespeare é entendido apenas pelos letrados, pelos atentos, pelos cultos... Porque? Estaremos mais burros?
   Walter Benjamim dizia que perdemos a humanidade. Nosso dom ( base do ser humano ) de compreender narrativas, de se deixar conduzir pela palavra, foi perdido em prol da mecanização. Hoje compreendemos somente o que é mecânico, o que tem um sistema claro e único, o que é plano e funcional. Será?
   Shakespeare nos recorda do quanto fomos grandes, de como nossas emoções podem ser vastas, da distância que nossa lingua pode percorrer, e de como perdemos a alma em favor do poder.
   A versão que assisti tem Olivier como Lear. Talvez um Lear bonito demais, mas como é bom ouvir sua voz em frases perfeitas e claras! Bravo!

TOMAS TRANSTROMER

   Um suéco. Nunca o li, mas já gosto. Seus temas são meus temas: a tentativa de encontrar transcendência no pequeno universo que nos sobrou. Há uma frase ótima: O mundo da matéria é como uma festa, em que não fomos convidados. Penso: Sempre que falam do maravilhoso mundo que virá, próteses, robots, pílulas e engenharia genética, me dá uma certeza intuitiva: e NÓS com isso?
   Um suéco. Me parece que seus temas são os mesmos de Bergman. Mas a diferença é que Ingmar por ser mais velho é mais materialista, desencantado, final. Tomas vê uma luz que foi vedada à Ingmar. Suécos pensam demais por não precisar brigar.
   O artigo do Estadão dá de pau na Folha. E Tomas é muito elogiado. O comparam a Swedenborg e a Blake. Se for por aí o homem é um deus. Mas ele gosta do pequeno, então talvez seja um deusinho.
   Unânime a opinião de que foi justo. Eu acho ótimo não terem premiado Roth ( um chato ).
   Sua poesia ensina a viver melhor, mas não edifica; conversa e compreende. É isso que Vinicius Jatobá diz. Não li Tomas, mas já estou gostando.

A ALMA DE UMA CIDADE- RENATO SÉRGIO ( O RIO DE JANEIRO FOI UM DIA LINDO )

  O Rio existiu ou não? Dizem que existiu, dizem que se foi por volta de 1980...
  Renato dá aulas de carioquice e escreve aqui uns capítulos em que se elogia a preguiça, a safadeza inocente e bem-humorada, a amizade, o talento, e os botecos cariocas ( botecos que em São Paulo são moda e centro de caretice explícita ). Renatinho fala de Jardel, de Irene, de Leila, de Clovis, de Joãozinho, de Carlinhos, de Walmor, de Fernando, de Di, de Vinicius, de Paulinho... Renato escreve em bom carioca: frases cheias de malandrice, de cor, de rebolado, de ritmo, de sabor apimentado. São frases curtas, diretas, espertas, solares, quentes, risonhas, tesudas, orgiásticas.
  O Rio foi um paraíso idilico. Acabou em droga-lixo e roubalheira. O Rio foi inocente. Não pense que na malandragem cafa do Rio de sempre havia o embrião daquilo que ele é agora. Não. O que havia era inocencia, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi vitima fácil, porto para o aporto de parasitas que nada sabiam de malemolencia e sorrisos amigos da onça. Renato sabe e diz.
  Havia uma doce sofisticação nobre por lá. Uma doce falta de ambição. Entre ganhar mais um milhão e jogar um frescobol a escolha era sempre pela praia. Entre gravar mais um disco e namorar a menina era sempre namorar a menina. E tudo isso entre ruas que eram amigas de amigos e de meninas sozinhas em fins de tarde de barquinhos e de beijinhos que haviam de ser dados. Não havia melhor lugar no mundo pra morar que Ipanema.
  Mas esse Rio se foi. E o carnaval virou competição. E o samba virou funk. A bossa se fez pornografia. E o Rio, ilhado, sufocado, desamado, tornou-se o bode expiatório do Brasil.
  Renato escreve bem pacas. E seu livro é bom a beça. Valeu!

ROBINSON CRUSOE- DANIEL DEFOE, O NASCIMENTO DO HOMEM MODERNO

   Escrevo aqui observações minhas sobre texto de Ian Watt ( e aula de M. Pen ).
   Calvinismo. Ao contrário do catolicismo, aqui o trabalho é um bem e não maldição. O homem deve, quer e pode trabalhar. E se for iluminado, obterá sucesso. Bens materiais. Mas deve ser modesto, jamais ostentar, e mesmo rico, continuar na labuta. A natureza existe para ser domada pela razão e pelo trabalho, civilizada. John Locke diz que o homem progride por ser inquieto, essa inquietude é sua benção. Pascal, francês, é seu oposto: o homem é amaldiçoado pela inquietude, deve procurar a quietude.
   Robinson Crusoe, livro- produto, feito para vender, é lançado em meio ao século XVIII, época da consolidação de Inglaterra e Holanda como modelos do futuro. Robinson é inquieto, e portanto ele viaja. Vai a Africa buscar aventura e a aventura é só uma: enriquecer. Depois vem ao Brasil e fica por aqui ao longo de quatro anos. Faz-se católico ( por interesse ) e latifundiário, negocia escravos. Viaja mais e naufraga nas costas da Venezuela. Encontra sua ilha, isolado por mais de vinte anos.
   Na ilha o que faz Robinson? Lastima o destino? Chora sua solidão? Fosse latino, provávelmente. Mas ele trabalha, cria e é absolutamente feliz. Eis nosso nascimento: ilhados em trabalho, felizes em ganhar o dia. Felizes?
   Robinson faz casa, faz encanamento, faz ferramenta, arma e plantação. Mas acima de tudo ele domina a ilha, domina a matéria, se faz dono do mundo. Ele é um INDIVIDUALISTA.
   Tem um Deus, afinal é cristão, mas esse Deus é visto como algo seu, um ente com quem ele dialoga. Sua ética é dada pela sua consciência, Robinson fala consigo mesmo, mede seus atos, e sempre vai em frente, nada pode o deter. Essa ética se molda a sua ambição.
   No mundo medieval, Robinson Crusoe seria impossível. Sua aventura deveria ser em grupo, sua ilha seria um reino de encantamento, seu Deus seria distante e inflexível, seus laços com familia e cidade fariam dele um poço de saudades. Ele choraria a distancia das mulheres, da igreja, dos amigos, lamentaria as dificuldades, temeria a natureza. Jamais seria feliz na sua ilha ( que nem seria vista como sua ). Mas não aqui, aqui Robinson se adapta, vê oportunidades, progride. Faz ciência.
   Gênese do mundo que herdamos, aventura sobre a vida desterrada, personagem sem laços com ninguém a não ser com sua própria ambição, dono de seu nariz, e habitante de mundo onde o único sentido é ganhar dinheiro e deter poder, não seria ele nosso trisavô? Mergulhado no mundo em que vivia, Defoe criou a bíblia do mundo do capital.

CONVERSAS COM PICASSO- BRASSAI

   Entre os anos de 1939/1944, Brassai, fotógrafo e escritor de origem húngara, travou amizade e conviveu com Pablo Picasso na Paris da segunda-guerra. E travar contato com Pablo era viver com as dezenas de pessoas que gravitavam a seu redor. Celebridade desde os anos 10, as casas onde Picasso vivia eram invadidas diariamente por amigos, mas principalmente por turistas, compradores de arte e jovens artistas em busca de direção. O livro, descrição do cotidiano do gênio espanhol, consegue fazer algo muito raro em livros desse tipo: faz com que nos sintamos em companhia de Picasso. E estar com ele é acima de tudo um prazer, uma inspiração.
   Henri Matisse está no livro. Matisse, verdadeiro negativo de Picasso e seu único rival de fato e de direito.
Mas vemos por lá também Sartre e Simone, Camus, Miró. Jean Cocteau com sua elegãncia fulgurante e Jean Marais. Ficamos sabendo de fofocas dos surrealistas, de Breton e Dali, de Jacques Prevert. Conversas com todos eles e ainda com Henry Miller, Man Ray e Malraux. Mas é Pablo quem mais nos fascina.
   Picasso não gosta de artistas que posam como "artistas". Ele gosta de quem faz coisas. Ama toureiros, poetas, garçons, cães, gatos, cabras, e principalmente mulheres. Sentimos nele seu segredo revelado, Picasso ama a vida com paixão amorosa e com rancor furioso. Ele é vivo, muito vivo. Jamais está só, embora tente. Há sempre gente anunciando visita, americanos ricos, jornalistas, autores. Picasso, em mundo que ainda tinha vivos Heminguay, Mann, Huxley e Eliot; Stravinsky, Chagall, Hesse e Faulkner, é o artista central do planeta, o gênio entre gigantes. Mas ele não faz pose. Se veste sempre mal ( ternos amassados, bonés sujos, e principalmente shorts sem camisa, o torso nú ), suas casas ( imensos apartamentos e palácios no campo e praia ) são vazios. Poucos móveis, muito espaço. Salas cheias de pó, de caixas de fósforo, de maços de cigarros, de telas e tintas, de esculturas e tralhas pegas na rua. Picasso vasculha o lixo, atrás de coisas interessantes: uma velha caixa de madeira, um caco de espelho, um brinquedo quebrado. Ele dá vida à esses objetos, faz de um pedaço de papelão, uma muralha chinesa; de uma garrafa, um ser de mitologia. Picasso cria sem parar, usa as mãos, esculpe, gruda coisas, pinta, e olha tudo com seus imensos olhos de louco. Nada joga fora, nada lhe é indiferente. Vê em cada coisa uma possibilidade de criação. E faz.
  Sua esposa vive em casa vizinha, casa bem decorada, luxuosa, rica. Pablo mora no caos, bagunça que lhe inspira, caos onde ele dá vida. O livro, cheio de fotos, é delicioso, instigante e dá desejo. De criar, de fazer, de olhar.
  Quem já viveu em casa grande sabe o que irei falar.
  É preciso espaço para ser solto. Paredes onde eu esparramava tinta e portas que eu quebrava ( com arte ). Para criar é preciso sujeira, pó, caos, é necessário poder mudar tudo toda hora, revirar, buscar um carburador e o pintar de dourado, quebrar um relógio de parede e fazer dele um robot, usar um velho rádio como palácio de indios apaches. Dormir no chão e sonhar com a chuva caindo dentro. Nunca fui artista, nunca tive talento algum, mas eu me inspirava então, naquela enorme casa de caos ( e de cães ) e me soltava com tintas, com martelos, com o corpo.
  Este livro me lembrou essa fase de minha vida. E ainda volto a viver lá !!!! Volto sim !

All Quiet on The Western Front - Butterfly Ending



leia e escreva já!

SEM NOVIDADES NO FRONT- LEWIS MILESTONE ( O MELHOR FILME DE GUERRA JÁ FEITO? )

   Filmes de guerra, mesmo os melhores, e penso em PATTON  e APOCALYPSE NOW, sempre acabam tendo alguma cena em que a guerra é mostrada como algo "heróico". O bom GUERRA AO TERROR acaba, em meio a toda nóia, exibindo algum fascínio por toda aquela adrenalina. Isso não acontece com este filme. Aqui não há um segundo, uma fala, uma imagem que remeta a algum tipo de heroísmo, de glamour ou de transcendencia. A guerra como absurdo sem sentido. Radicalmente pacifista, eis o que este filme é.
   E mesmo assim, provando a falta de poder da arte, ele não pode evitar a segunda guerra. Sim, como voce sabe, este filme fala sobre a primeira guerra mundial, é um filme de 1930, vencedor dos Oscars de filme e direção. Baseado no livro de Erich Maria Remarque, conta a experiência de onze jovens alemães na guerra mais cruel já feita ( a segunda foi mais violenta e satãnica, mas a primeira foi a perda da virgindade humana. Soldados ainda saídos do mundo pré-guerra total, ainda crendo em honra e pátria, sendo jogados na carnificina industrial moderna ).
   O filme começa com uma sala de aula onde o professor instiga os alunos a se alistarem e marcharem rumo a Paris. Os alunos, sonhadores, se alistam com alegria. Para eles a guerra é ainda um jogo, mortal, eles sabem, mas um jogo de cavalheiros, com regras e com limpeza moral. Logo em seu primeiro contato com o quartel todos começam a perder a ilusão. O treinamento é baseado em crueldade e humilhação. Mas nada se compara a guerra em si.
   Milestone, que foi um grande diretor épico, cria cenas de batalha que ainda hoje impressionam por seu realismo. São cenas que se parecem com a vida real, um documentário. Cada explosão, e são muitas, dá a sensação de morte, de terror, de paranóia. Sentimos medo, muito medo. O campo de guerra se revela um inferno de lama, arame farpado, ratos, fome, e desespero. Não há heroísmo, não há honra nenhuma, medo apenas, medo constante. O filme exibe a podridão da vida na trincheira. Os soldados, sem comida, sem equipamento algum, chegavam a ficar semanas em buracos subterrâneos, cercados de explosões, pulgas, carrapatos, ratos e água de fossa. Fedor, coceiras, doença, lama, e muita escuridão. Desabamentos, soldados enlouquecendo, gritos de medo, tremedeiras, mortes e mais mortes. As tropas passam semanas para avançar cem metros e depois recuam duzentos. São encurraladas por chuvas de bombas e estão todo o tempo com frio e com fome. O filme mostra tudo isso, sem medo, com ira, com coragem, sem aliviar. O que pensamos todo o tempo é: Porque eles estão lá?
   Várias cenas se fixam na memória. Soldados correndo e morrendo, os hospitais com seus amputamentos e mortes às dúzias, os soldados com saudades de casa. Mas talvez a mais crua cena seja a da morte do inimigo. A crueldade da batalha com baionetas, a agonia do inimigo que demora horas para morrer, o cara-a-cara da dor. Não se engane, toda nossa arte moderna, toda nossa filosofia pessimista, nasce dessa loucura. A segunda guerra foi a consequencia daquilo que nascia aqui, o nosso tempo.
   Toda guerra sempre foi cruel. Mas havia uma diferença. Existiam regras. Se escolhia um campo de guerra, se esperava o inimigo e se ( creia, é fato ) tentava matar o mínimo possível. O objetivo era capturar as tropas adversárias, cercá-las, vencer o rival, fazê-lo se entregar. Nunca se pensava em aniquilar, esmagar, destruir.
   Com as bombas modernas, o gás quimico, os aviões, os super canhões, pela primeira vez matou-se às centenas. De forma anônima, sem captura e resgate, sem atos de heroísmo, sem regra alguma. A guerra se faz impessoal ( como já era o trabalho e se tornaria a vida ). O filme mostra jovens que ainda pensavam em Napoleão e Julio César perdidos em meio a explosões vindas não se sabe de que lado, aviões assassinos dos céus, distãncia de seus chefes, regras abolidas. Caos absoluto.
   A cena final é uma das mais famosas da história do cinema e após 81 anos ainda emociona e muito. Em meio a lama e aos mortos, um soldado vê uma borboleta tentando voar. Ela se debate presa na sujeira. O soldado estica seu braço para tentar a libertar. Ouve-se um tiro e o braço se torna rígido. A tela fica negra. O filme termina em silêncio....
   Uma certeza se faz: isso é cinema puro, sem literatice, sem teatro, sem enfeite. Imagem que narra, que conta, que diz. Ainda contundente, moderno, forte, eis um muito grande filme. Veja!!!!

CONFERÊNCIAS- HENRI BERGSON

   Não existem coisas feitas, mas apenas coisas que se fazem. Não estados que se mantém, mas apenas estados que mudam. O repouso é sempre apenas aparente, tão somente relativo. A consciência que temos de nossa pessoa faz com que criemos um ente estático para assim podermos nos representar às outras pessoas. Toda realidade é tendência.
   Tomamos instantâneos e os imobilizamos como pontos de apoio. Se constroem assim as sensações e as ideias. Mudamos o que é movimento em coisa estática. Isso é necessário para que se produza linguagem, vida prática, produção. A mente esforça-se por prender alguma coisa que passa. O cérebro funciona como uma rede, um filtro, um orgão que faz contato entre o interior e o exterior.
   Toda ideia genuína nasce de uma intuição. Intuição é a percepção sem tempo ou linha, o pensamento livre e sem linguagem, a vida em seu estado de FLUIR CONSTANTE E CRIATIVO. Após essa intuição, o filósofo passa a destrinchá-la, a complicá-la, a tentar captar em tempo estático uma intuição fluida. Eis o porque das questões sem respostas.
   A intuição diante de um fato comprovado e aceito pelo senso-comum dirá no ouvido do filósofo: Impossível. As coisas não se passam assim.
  A intuição nega, nega de forma definitiva, de forma "para sempre", com DURAÇÃO. A verdade do senso-comum é uma verdade estática e portanto ela é passível de ser ultrapassada. E sempre será. A verdade intuitiva dura.
  Mas atenção! A ilusão não dura. E como separar a intuição da ilusão? Ilusões criam sistemas ilusórios, teses e provas que se apoiam na "ciência", certezas. A intuição não necessita de sistema, de provas temporais e espaciais, ela é. Não deixa de ser porque sempre será. É mudança sem fim.
  O espírito filosófico percebe a continuidade da vida. O tempo não é visto em espaços descontínuos, mas sim numa fluidez sem final. Não mais coisas mortas, inertes, mas agora uma visão de vida como coisa contínua e indivisível.
  Vivemos entre essa razão matemática ( imprescindível de fato e de direito ) e a vida intuitiva, a DURAÇÃO. De um lado o mundo feito em função do espaço e do tempo, em que o que existe deve ter peso e tamanho, e de outro lado o mundo como ele é, independente de nossos medos, além de nossa razão, fora/dentro do homem.
  E sendo fora do homem, esse mundo sem esquadro e sem contagem, pode ser vivenciado no mais profundo de seu ser. É a única e a decisiva prova: ele não pode ser medido e contado, mas está lá dentro de cada um de nós. A intuição, a voz sem linguagem, a razão que vai além da razão.
  A vida tende à inconsciência. Quanto mais fácil uma ação se torna, mais ela se faz automática-inconsciente. Nos tornamos concientes em momentos de crise, uma vida sem crises seria a vida inconsciente. Inconsciente no sentido de NÃO POSSUIR CONSCIÊNCIA DA PRÓPRIA VONTADE. Um acomodar-se no senso comum e nos hábitos de sempre. Amordaçar a intuição.
  Na renascença, Kepler e Galileo mostraram ser possível reduzir e simplificar todos os problemas da física em fórmulas de matemática. Desde então, todos os problemas do homem são vistos em termos físicos. Desde então tudo se resume a fórmulas quantitativas, equações de movimento e probabilidades. O homem fez-se uma IMENSA MÁQUINA EXATA, E ILUDIU-SE PENSANDO DAR ASSIM UM SENTIDO A SUA VIDA.
  Tudo o que somos é memória. Aquilo sobre o que pensamos, as palavras que usamos, as ideias que expressamos, estão todas num tempo contínuo, num fluir que carregamos conosco. O presente é um mirar ao passado, um firmar-se no que é conhecido, no conceito aprendido. Na visão física de tempo como reta subdividida em segmentos mortos, isso não faz sentido. O passado está distante, cada vez mais distante, morto. Mas não é isso que INTUIMOS. Somos um movimento, éramos antes o mesmo movimento. O que era, estando em movimento, vivo, permanece vivo e em mutação eterna. Nosso cérebro, feito para apreender e trabalhar a matéria "INERTE", não deve e não quer apreender esse fluir. Como fazer coisas em meio ao turbilhão?
  Tudo o que fazemos é feito com tudo o que foi feito.
  Não nos peçam para explicar ou deduzir a intuição. Ela não se presta a linguagem matemática. Colocá-la nesses termos seria negá-la. ( Como não pode haver uma matemática intuitiva. Ela só pode existir no espaço e no tempo.)
  Como é mais simples e fácil a vida da linguagem e do número! Ater-se às poucas noções de espaço e de tempo! Reduzir tudo a substantivos e predicados. Maravilhosa criação do homem para tornar a vida fácil: a linguagem e o número. Mas isso é apenas um recorte da realidade, uma forma artificial de se ver a vida. Uma construção cerebral que visa o trabalho e o fazer coisas.
  A ciência tem o poder de desvendar TODA A MATÉRIA. Nada terá segredos para ela. Mas, e as grandes questões? De onde veio a matéria? O que havia antes do primeiro minuto? E antes do antes? O que há depois do depois? O que é o pensamento? Porque a vida se fez? Se o cérebro visa a utilidade e o bem do corpo, porque existem pensamentos "inúteis'? Antes do primeiro átomo e da explosão do espaço, o que havia?
  Bertrand Russell, o melhor lógico do século XX diz que essas são questões absurdas. Que pela ótica da razão as únicas questões lógicas são aquelas que admitem uma prova e uma contra-prova. E que portanto essas questões são não-lógicas, ou seja, absurdas. Pois bem, essa resposta satisfaz sua razão. Mas isso não pode ser também chamado de "fugir da questão"?
  A razão, nascida para defender a vida, e portanto TENDO DE SER SEMPRE MEDROSA, tende a ver na diversidade uma uniformidade. Quer ter certezas, lhe é insuportável a dúvida, o acaso, o não visto. A intuição tem sua duração, curta, nas fraturas desse arcabouço racional.
  Nunca confie em filósofos que falam de VAZIO e de ABISMO.
  Eis um apanhado de frases de Henri Bergson. ( A frase sobre Russell, é óbvio, é minha. )
  Um verdadeiro filósofo.

HENRI BERGSON: UMA REAÇÃO CONTRA A VOZ COMUM

   Filósofo central da virada do século XIX para o XX, Bergson, Nobel de 1928, sempre correu riscos. Sua filosofia se ergue contra o senso-comum de seu tempo. Ele faz o elogio da ciência, mas não se esquece de falar que à ciência cabe o que é científico. A vida é outra coisa. O que?
   Primeiro a inteligência. A inteligência existe para lidar com a matéria. E a linguagem, atributo básico da inteligência, é ferramenta que possibilita vida em sociedade. Para lidar com a matéria o homem usa sua mente em termos materiais, que seja: espaço e tempo. Uma pedra tem peso, tem tamanho e tem presença. Nossa mão tem tamanho, peso e presença. Nossa inteligência tem o dom de trabalhar sobre essa realidade. Ela entende a vida nesses termos, geometria e tempo. Mas há um problema nisso: a vida não é assim.
   Espaço. Nada no universo é linear. Nossa inteligência se move em linha, como a fala, como a linguagem. Mas o espaço fora de nós nada tem de linear, de ordenado, de sujeito-predicado. É então que Bergson passa a falar do tempo. Mas antes faço um parênteses.
   A sensação espacial-temporal que Bergson revela me é muito conhecida. Várias vezes em minha vida tive essa impressão de que bastaria deixar meu cérebro ir mais fundo, deixar as certezas sumirem, para que então a verdade da vida me fosse dada. Uma sensação de que todas as linhas, mapas e coordenadas poderiam ser apagadas, esquecidas, perdidas. Esse momento, que tanto me é próximo, é aquilo que Bergson chama de intuição. Eis a coragem de sua filosofia: é baseada em intuição e não em razão. Bergson usa a razão para chegar a intuição. Para ele, é no momento fluido do vislumbre criativo que a verdade surge. Ele diz que todo pensador teve um breve momento intuitivo, e que todo seu filosofar posterior é uma tentativa de descrever em palavras "alguma coisa que nega a palavra, que não se presta ao discurso", a intuição primeira.
   O tempo só pode ser apreendido pela razão ( como todo o real ) se for contado e dividido em pequenas unidades. Aprendemos a pensar em termos de um tempo que pode ser contado. Mas "sabemos" que não é assim. Não há um momento que nasce, acontece, termina, e um outro que nasce, acontece e termina. Não há passado e não pode haver uma parada-final para o homem ( como há para as pedras ). O tempo é uma fluidez contínua, um incessante nascer e acumular, um fluxo criativo que nunca cessa, um vir a ser que não pode ser datado, contado ou capturado. Internamente ( e toda a filosofia de Bergson é sobre a interioridade ), o tempo é eterna presença, o ontem é sempre agora. E é isso que é inalcansável para a ciência: a vida é movimento incessante, e a razão só pode trabalhar com aquilo que está estático ( mesmo que seja o movimento, ele será dividido em unidades estáticas ), a fluidez é incompreensível para a razão, mas é intuida pelo espírito. Não há um só átomo parado no universo, nada portanto pode ser entendido sem que se entenda seu movimento. O tempo é essa hiper-fluidez que foge, que carrega o acúmulo de tudo já vivido, que se debruça e se esparrama.
   O conceito de "duração", tão dificil de ser entendido, seria então esse constante fluir. A contagem de tempo e a medição de espaço seriam operações, artificiais, do cérebro-razão, modo de se proteger da insegurança do que escapa do controle, modo de lidar com a técnica-sobrevivência. A duração é o tempo real, tempo criação, mutável eternamente, um incessante nascer.

HENRI BERGSON TALVEZ TENHA ACERTADO

   Um dos aspectos mais enganosos de todo pensador é quando ele generaliza o que é particular. Digamos que um jovem inteligente, por um azar ou acaso da vida, tenha tido um pai extremamente severo e frio. Se pensador, o maior erro que esse homem poderia cometer seria o de formar uma tese geral baseada na frieza de todo pai. Ou digamos que um outro fosse incapaz de sentir amor. Como artista ele teria todo o direito de expressar o desamor da vida, sua má sorte amorosa, ou o pouco amor que é dado a seres como ele. Mas se ele formasse uma teoria em que a ausência de amor fosse lei geral, aí o particular se confundiria com o todo. Muitos se identificariam com a tese do pai frio e com a tese do amor ausente; mas aqueles que discordassem não estariam necessariamente errados. A teoria "chutada" por Mr.X não os teria conquistado porque sua vida nada teria de comum com sua tese. A maioria dos filósofos comete esse erro. Confunde sua visão pessoal de vida com a verdade geral. Generalisa. Faz do particular e original algo de geral e comum. Bergson, dentre várias outras coisas, se debate contra isso. Se ao falar do tempo ( duração ) e do pensamento ele é mais interessante, não deixa de ser fascinante a forma como ele demonstra o quanto há de ressentimento pessoal na filosofia, na sociologia e na psicologia. Pessoas que por serem incapazes de viver ou sentir alguma coisa da vida, passam a crer que não viver e não sentir tal aspecto seja o geral. Transformam a cegueira em falsa visão.
   Toda a teoria de Bergson tem a saudável fonte da dúvida. Ele jamais diz "é assim", ou "deve ser isso". O que ele fala é "talvez seja" ou "pode ser que". Não temo dizer que é o meu filósofo. Dúvidas e ansiedades que tenho desde sempre são compartilhadas por Bergson. O que a mim importa é o que lhe importa. Autor que me surge na hora exata ( intuição? ). Me vem quando posso enfim o entender e ver o que ele viu.
   O que mais se pode querer de alguém que pensa, a não ser pensar com voce sobre aquilo que é seu?

CINEMA TRANSCENDENTAL- CAETANO VELOSO ( O REINO DE EROS )

   Sempre que estou feliz estou em sentimento erótico e sempre que me sinto em Eros ouço música de meu país. Pretensioso? O fato é que o ressentimento baixa de grau e então me permito ser o que sou desde sempre. Voce sabe, por aqui ninguém é mais vítima de ressentimento que Caetano. Tem uns criticos de rock que adoram falar mal dele ( crítico de rock falando de Caetano....é como crítico de cinema falar de teatro ou de pintura palpitar sobre arquitetura. O que um cara que opina sobre Rem e Clash tem a ver com Caetano? ). Ressentimento. Caetano canta muito, fala muito, sabe muito e pior, parece ser feliz. Imperdoável. Lembro que fui adolescente ressentido. Ateu, revoltado, anti-tudo, nada me irritava mais que aqueles bicho-grilos do Objetivo que amavam Caetano. Asquerosos. O que não queria perceber é que o que me irritava é que eles tinham tudo o que eu queria e não tinha. Parecia que eles estavam sempre em paz, rindo, parecia que rolava muito sexo, droga, folias e festas. Estavam sempre cantando, beijando, meio pelados e cheios de sol. Eu me ressentia e criava uma raiva anti-erótica sombria e mortal. Isso tudo mudou quando amei de verdade pela primeira vez e descobri o sol, o suor, eros e a felicidade. Este disco veio junto. Entendi. Não sou brasileiro. O Brasil não é meu país. Eu sou do Brasil. Por mais que engula litros de Henry James e Roxy Music, eu sou daqui. Sem ressentimentos, please.
   As letras. Gringos diziam que era incompreensível como um país de iletrados podia ter uma música popular de letras tão sofisticadas. Tão profundas. É provável que essas letras ainda sejam escritas, mas não são mais populares. Regredimos. O ressentimento vingou-se de sua ignorância. Oração ao Tempo é filosofia profunda em forma de mpb. Caetano diz ter recebido toda a letra de seu inconsciente enquanto fazia a barba. Não vou citar aqui trecho nenhum da letra, seria injusto não citá-la inteira. Não conheço letra popular mais complexa.
   O disco é todo solar. É pele bronzeada com gota de suor. Areia voando e cheiro de mar. Mas é todo voltado pra dentro, é auto-análise, é divagação aprofundada. Pretensioso? Qual o pecado desde que exista prazer? Uma canção de Jorge Mautner: O Vampiro. Eu amava Aninha e a ouvia todo dia. Feliz mas chorando de amor que crescia sem parar. A canção diz tudo. Não há melhor letra sobre a dor de amar e amar cada vez mais. " Voce é o estandarte da agonia/ Que tem a lua e o sol do meio dia". Só voz e violão e solidão. A voz dele parece cantar para mim e só pra mim. Outra canção é Elegia, baseada em John Donne. Erótica. Tropical. Feliz, muito feliz.
   As mais belas rimas estão em Trilhos Urbanos. Todas as palavras se chamam umas às outra e andam como vento em ruas de verão. É uma aula completa sobre ritmo e poética. Tivesse nascido vinte anos antes e Caetano teria sido nosso melhor poeta "de livro". Mas ele cresceu com Caymmi, João e samba e deu no que deu. Além da voz, a voz que nunca desafina.
   Vale dizer que ao escutar tudo isto durante meses todos os dias aos 15 anos o disco gravou-se em mim. E o reencontrando hoje, impregnado neste dia, de Bergson e de uma primavera que promete, percebo ser este disco mais "eu" que tantos outros eus que conheci em discos e livros desde então. Graças aos céus conheci este mundo a tempo. Nas faixas deste disco mora não só meu melhor lado, como brilha ao sol meu mais feliz mundo.
   COMPOSITOR DE DESTINOS/ TAMBOR DE TODOS OS RITMOS/ TEMPO TEMPO TEMPO TEMPO/ ENTRO NUM ACORDO CONTIGO...
  

CLARK GABLE/ WELLMAN/ WELLES/ KEVIN KLINE/ WOODY ALLEN/ ASTAIRE

O GRANDE MOTIM de Frank Lloyd com Clark Gable, Charles Laughton e Franchot Tone
A clássica história do navio Bounty, que no século xviii foi palco de famoso motim. Laughton faz com vivo prazer o capitão cruel e de rígido costume; Gable é o jovial imediato que acaba por apoiar o motim; Tone é um nobre que viaja para pegar experiência. O filme, maravilhosamente bem produzido em padrão MGM, é diversão típica dos anos 30, ou seja, simples, eficiente, inteligente. Caso raro de filme que ganhou Oscar de filme e mais nada. As cenas na ilha onde eles se exilam são belíssimas! O desempenho de Laughton é de não se esquecer. Nota 8.
BEAU GESTE de William Wellman com Gary Cooper, Ray Milland, Robert Preston, Brian Donlevy e Susan Hayward
Outra aventura clássica. Três irmãos de familia nobre-decadente servem na legião estrangeira. É o filme onde se criou a imagem do "sargento durão". Cooper está no auge da fama e nasceu para ser herói. O filme, muito bem dirigido, tem humor, drama e suspense. Wellman, diretor sempre confiável, tem senso de timing, de visual, de leveza. É um mestre. Assistir este filme é como ler uma velha história de HQ. Puro escapismo fofo. Nota 8.
MR. ARKADIN de Orson Welles com Welles, Paola Mori, Patricia Medina, Akim Tamiroff
É um dos vários filmes que Welles fez em condições muito precárias. Ele antecipa muito do clima nouvelle vague, tem às vezes algo de filmes como Alphaville. Welles brinca com a câmera, com os atores, com o enredo ( um tipo de policial complicado ), mas tudo acaba parecendo muito confuso, estranhamente vazio, e em seu pior, pedante. Nota 4.
ANTIGONE de Georges Tzavellas com Irene Papas, Manos Katrakis
A peça de Sofocles sobre a moça que enfrenta o rei para poder honrar seu irmão morto. O filme é belíssimo. Não houve medo algum de ser solene, distanciado, e o texto poético é bastante preservado. Mais uma prova de que grandes peças podem ser grandes filmes. Irene faz Antigone com senso maravilhoso de destino, mas Creon, feito por Katrakis, rouba o filme. É um rosto inesquecível, feito de pedra, cruel e rígido, terrível. As vozes são aterradoras. É um filme inesquecível. Nota 9.
XEQUE-MATE de Caroline Bottaro com Sandrine Bonnaire e Kevin Kline
Kevin sempre foi e é um ótimo ator. Fez então este filme francês, provávelmente por falta de bons papéis em Hollywood. Sandrine é uma camareira de hotel de luxo em cidade de veraneio. Ela se apaixona pelo jogo de xadrez ao vê-lo como algo que simboliza aquilo que ela não tem. É casada e completa o orçamento fazendo faxina na casa de um americano que escreve. Eles jogam xadrez. O filme é muito ruim. Entediante, nada nele faz sentido. Não se entende o porque de sua súbita paixão pelo jogo, o porque do arrogante americano abrir a guarda com ela, o porque de se ter feito tal filme. Não passou por aqui até agora e ficará bem se não passar. Nota Zero.
MEIA-NOITE EM PARIS de Woody Allen com Owen Wilson e Marion Cotillard
Owen está ok. É mais um ator que consegue fazer Woody Allen como o próprio. Marion está bem como a modelo de Picasso. Mas Adrien Brody como Dali está hilário!!!! É um filme que de certa forma celebra a vida. Mas a celebra de forma sem riscos, tudo dá certo sempre. É um prazer apaixonante ver Heminguay falar, Zelda e Scott dançar e Cole Porter tocar piano. Eles são meus mitos e portanto são parte do que me faz estar vivo. Belo filme. Crítica mais longa abaixo. Nota 7.
TRÊS PALAVRINHAS de Richard Thorpe com Fred Astaire, Red Skelton, Vera-Ellen
Longe de ser um grande musical. É do tempo de "vacas magras" de Astaire. Mas...caramba! Como é bom ver um filme de Fred Astaire!!!!! Há um alto astral tão grande e convincente que seus filmes servem como um tipo de mensagem, são como um lembrete daquilo que podemos ser. O que temos de leve, nobre e bonito em nós. Os serviços que Astaire nos fez são inestimáveis. Eis um anjo. Nota 7.

AS AVENTURAS DO BARÃO DE MUNCHAUSEN- RUDOLF ERICH RASPE

Talvez eu quisesse viver em fins do século XVIII.... se eu tivesse sangue azul e vivesse longe da França, claro. Melhor ainda, se fosse ligado ao alto clero!!!! Se uma época tem seu espírito revelado pela literatura que deixa à posteridade, o século XVIII tem na aventura e na busca pelo exótico seu talento mais especial. De Cândido à Tom Jones, de Crusoe à Gulliver, é esta a época dos livros de aventuras, de viagens, de contos filosóficos. O prazer guia a prosa.
Munchausen existiu de fato. Ele foi um militar-nobre, que ao se aposentar ( esteve em duas guerras ), entretia seus constantes convidados ( estamos em século que deplora a solidão ) com as fantasiosas histórias de sua vida. Logo, contos baseados em seus "causos" expalharam-se pela Europa ( nenhum deles escrito por ele mesmo ). Rudolf Erich Raspe, aventureiro que frequentou sua casa, escreve na Inglaterra ( estava vivendo por lá foragido ), as memórias do Barão. Um êxito! Um best-seller!!!! Desde então várias outras versões são coligidas, mas digamos que é esta a mais célebre.
O Barão viaja por mares, ares, chega a ir à Lua, ao inferno, voa pelos céus. A fantasia toma conta do escritor, e assim invade também quem o lê. O personagem é imenso, ele vai caçar e traz centenas de patos, se atira contra inimigos turcos mata logo um batalhão, e se sai voando numa bala de canhão, cai na Lua e conhece os lunáticos. Há uma exuberância em seu modo de narrar que não se esgota.
Nosso tempo precisaria de livros como este, de pura fantasia, de prazer sem propósito "nobre", de total "sem noção". Deixar a criação mandar na ação, ser levado para onde a fantasia desejar, liberar a mente de qualquer decoro ( e de qualquer objetivo simbólico ). Seria pedir demais?

MEIA NOITE EM PARIS- WOODY ALLEN

Quando o personagem de Owen Wilson procura aceitar sua condição temporal, tudo o que ele faz é recordar seus antibióticos. Vivemos a época do medo e é interessante que sempre que tentamos valorizar nosso tempo em relação aos "good old times", tudo o que conseguimos lembrar são nossos medicamentos e as condições de higiene. Woody, neste bom filme, errou em seu final. Ele acomoda as coisas e faz um final Disney. Muito mais interessante seria se o escritor se perdesse para sempre em seu devaneio. De qualquer modo ele encontra uma alma romântica como a dele, que se emociona com Cole Porter e ainda vê a "Paris" na Paris.
Todo amante de arte tem seu tempo mítico. Para quem ama a pintura ( como a personagem de Marion Cotillard ) esse seria a Paris de Gauguin e de Degas. Para um pintor, seria a renascença de Michelangelo. Um filósofo provávelmente iria desejar viver na Grécia de Platão e um músico na era de Mozart e Haydn. Como típico escritor americano, o personagem de Wilson ama a época de Heminguay e Fitzgerald. Woody Allen, que sempre viveu de certa forma nesse mundo de jazz e music hall, faz com que Cole Porter cante ao piano dando as boas vindas à Wilson no paraíso. Zelda e Scott Fitzgerald são seus anfitriões e nada poderia ser melhor. Ao contrário de Arnaldo Jabor, minha maior emoção não foi ver Cole ao piano ( e eu adoro Cole Porter ), mas sim a hora em que Dali, Bunuel e Man Ray sentam-se à mesa ( faltou Lorca ). Adrien Brody faz uma participação hilária ( '- Dali! Sou Dali!!!"), e Man Ray ( Voces que me lêem precisam ver seus curtas ) está lá, com seu olhar duro e curioso. Bunuel permanece silencioso, e é nessa hora que me emociono. Em mim surge uma vontade poderosa, um desejo de estar lá, sentado naquele lugar, desejo de ficar para sempre ali, rodeado por meus mitos.
O filme é exemplar nisso. Wilson, por mais inadaptado que seja, tem em si a possibilidade de ser feliz. Porque ele crê em algo, ele crê na Paris de 1926. Quando ele viaja para lá, tudo o que ele sente é maravilhamento, nunca medo. Mergulha em seu sonho, entra em contato com seus deuses e se encontra, pronto para o necessário retorno. Comparado a sua noiva, ele é vivo, grande, interessante e interessado. Aliás é sintomático observar como sua noiva está o tempo todo comprando coisas ou indo a algum lugar. Ela jamais usufrui, reflete ou espera. Combina com as ruas assépticas de Paris, em oposição as ruas enevoadas e escuras da "Paris".
Tudo fica mais belo com o jazz à Grapelli e Django, e ouvir o veemente Heminguay falar é para mim como encontrar um irmão mais velho. Não sei qual seria meu tempo ideal. Eu adoraria viver nessa Paris de 1926, como amaria a Londres de 1890. A vantagem de meu tempo é o de poder ler sobre Paris e Londres e ver este muito romântico filme. Mas acho dificil que alguém em 2094 sonhe em conhecer a época de Johnathan Frazen e Philip Roth. De Saramago e Llosa.
Mas talvez exista então, em um mundo que será provávelmente mais controlado e frio, o desejo de se visitar a época de Woody Allen.