A ALMA DE UMA CIDADE- RENATO SÉRGIO ( O RIO DE JANEIRO FOI UM DIA LINDO )

  O Rio existiu ou não? Dizem que existiu, dizem que se foi por volta de 1980...
  Renato dá aulas de carioquice e escreve aqui uns capítulos em que se elogia a preguiça, a safadeza inocente e bem-humorada, a amizade, o talento, e os botecos cariocas ( botecos que em São Paulo são moda e centro de caretice explícita ). Renatinho fala de Jardel, de Irene, de Leila, de Clovis, de Joãozinho, de Carlinhos, de Walmor, de Fernando, de Di, de Vinicius, de Paulinho... Renato escreve em bom carioca: frases cheias de malandrice, de cor, de rebolado, de ritmo, de sabor apimentado. São frases curtas, diretas, espertas, solares, quentes, risonhas, tesudas, orgiásticas.
  O Rio foi um paraíso idilico. Acabou em droga-lixo e roubalheira. O Rio foi inocente. Não pense que na malandragem cafa do Rio de sempre havia o embrião daquilo que ele é agora. Não. O que havia era inocencia, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi vitima fácil, porto para o aporto de parasitas que nada sabiam de malemolencia e sorrisos amigos da onça. Renato sabe e diz.
  Havia uma doce sofisticação nobre por lá. Uma doce falta de ambição. Entre ganhar mais um milhão e jogar um frescobol a escolha era sempre pela praia. Entre gravar mais um disco e namorar a menina era sempre namorar a menina. E tudo isso entre ruas que eram amigas de amigos e de meninas sozinhas em fins de tarde de barquinhos e de beijinhos que haviam de ser dados. Não havia melhor lugar no mundo pra morar que Ipanema.
  Mas esse Rio se foi. E o carnaval virou competição. E o samba virou funk. A bossa se fez pornografia. E o Rio, ilhado, sufocado, desamado, tornou-se o bode expiatório do Brasil.
  Renato escreve bem pacas. E seu livro é bom a beça. Valeu!