SOBRE CRIANÇAS E GUERRAS

   Um tema muito duro de abordar é o da pedofilia. Se você, como eu, não milita contra esse mal, deve estar por fora do que está rolando. Creia, existem grupos na internet que lutam para dar à esse crime o mesmo status do usuário de drogas, um doente que deve ser tratado e não um criminoso. Ele é um doente? Sim, sem dúvida. Mas não seríamos doentes todos nós, desde o fumante até o serial killer?
  O problema não é mudar o status do crime, mas sim transformar o pedófilo ocasional em um tipo de "doentinho que juro que tá se tratando em psiquiatra". Para fazer isso, esquerda e direita, entendam, os mais idiotas da direita e os mais imbecis da esquerda, usam dois discursos que ao fim se completam.
  Para a direita, tudo se resume em olhar o passado. Gregos e romanos se divertiam com crianças, e foi apenas nos últimos 200 anos que isso se tornou um crime. É "histórico". Graças à Deus esse modo de pensar é individual, não tem se tornado um movimento organizado. Sua base de raciocínio é medíocre. Assim fosse eu poderia ter escravos, pois a escravidão só se tornou crime a dois séculos. Duelos ainda ocorreriam e condenados seriam enforcados na praça pública. Tudo foi "histórico".
  Já a esquerda usa o velho slogan de sempre: A inocência infantil é uma invenção burguesa. Olhar a criança como ser sagrado faz parte da filosofia do lar vitoriano. Se devemos destruir tudo o que esse lar, repressor e opressor, significa, devemos também dar à criança "seu direito de ser agente sexual". ( Me doi ter de escrever tamanhas bobagens ).
  Eu não queria crer que existisse grau tão grande de perversidade assumida, mas amigos conservadores me deram o endereço no youtube de um dos grupos. Tem no face também.
  Nos USA, e nossa mídia não divulga, está acontecendo um grande processo. Um fornecedor de "menores disponíveis" foi preso. Ele se matou na prisão, mas sua sócia resolveu abrir a boca. De políticos famosos à atores de Hollywood ( um deles com fama de bom pai ), todos estão envolvidos nessa rede mundial de pedofilia. Jamais darei nomes enquanto não forem julgados e presos. Tenho ética.
  Vivemos o começo de um século. E, como todo começo, as paixões, boas e ruins, se exacerbam. No começo do XIX houve Napoleão e a revolução romântica. O Ego como força maior da vida. No começo do XX houve a revolução russa e as guerras, o Ego sendo subjugado pelo coletivismo dos "ismos". Agora não há como saber o que está em jogo. É preciso algum distanciamento. Arrisco, e devo estar errado, em dizer que há uma luta entre o infantilismo mais vaidoso e delirante, o desejo como poder "mágico", e a caricatura da maturidade, vista como uma espécie de coragem sem culpa.
  O que é certo é que não haverá uma repetição. Nada mais de revoluções, nada mais de romantismos, nada mais de iluminismos. Apesar dos gritos, não faz mais sentido falar em luta de classes ou em ditadura da igreja. São palavras vazias, restos vomitados de slogans que morreram a mais de 40 anos.
  A briga entre brancos e negros nos USA é artificial. Uma tentativa de trocar a luta de classes, que não cola mais, pela luta racial. Artificial porque feita na nação errada. Não há lugar no planeta onde o negro viva melhor que nos EUA. Não há cultura negra mais amada que nos EUA. Falar em supremacia branca nos USA não faz agora sentido nenhum. Simplesmente porque não existe uma cultura puramente branca dentro do país. Supremacia branca existe na Russia. Ou na China. Suécia. Talvez até na Itália. Países onde um negro ainda é visto com alguma estranheza. Ser um negro hoje nos EUA é ser mais americano que qualquer outro. O americano típico é hoje uma negra.
  Comecei falando de crianças e termino falando de guerra racial. Faz todo sentido. O mundo é uma sopa. Espere esfriar e prove o sabor. Mas espere esfriar por favor.
 

UM POST DIFÍCIL: LOLITA- NABOKOV. UMA OBRA PRIMA QUE NÃO É NADA DAQUILO QUE VOCÊ PENSA.

   É muito difícil escrever sobre Lolita. Não só pelo seu tema espinhoso. Mas também por ser uma obra muito, muito complexa. Os filmes péssimos feitos com base no livro, até Kubrick se perdeu e fez uma chatice sem fim, apenas deturparam o texto do romance. Então vamos deixar claro certas coisas que são óbvias mas que muita gente não sabe:
1- Nabokov nunca gostou de meninas. É até ridículo falar isso, mas ele amava mulheres que tinham um jeito de nobreza perdida, e todas eram profundamente intelectuais.
2- O livro não tem nenhuma cena erótica e é tão bem escrito que você mal percebe quando ele está descrevendo uma cena de masturbação.
3- Humbert Humbert, o narrador, é uma pessoa bastante fantasiosa. Tudo o que sabemos é aquilo que ele nos conta. E o que ele percebe é aquilo que ele quer perceber.
4- O tema do livro não é a tara, é a América. Lolita fala do deslumbramento de um emigrante da Europa central por uma americana jovem, muito jovem ( ela tem 12 anos e um metro e quarenta de altura ).
   Lançado em 1956, e ainda acho um milagre ele ter sido editado, Lolita se tornou um best seller de escândalo. Penso na quantidade de gente que pensou estar comprando pornografia e comprou um romance poético. Sórdido, imoral, cruel e às vezes até mesmo repugnante, porém sempre poético. A linguagem é hipnótica. Nabokov escreve com toda sua potência. Ele escreve como uma força da natureza.
  A história você conhece: ele chega a América, se casa com a mãe de Lolita, a mãe morre e ele e a criança partem numa viagem pelos motéis do país. Os capítulos em que os USA são descritos são maravilhosos. Humbert sente ódio e amor pela nação jovem e brega, linda e óbvia, vulgar e inesgotável. Os USA são Lolita. Uma ninfeta ( Nabokov criou esse nome neste livro ) que mistura sujeira e saúde, voracidade e ignorância, praticidade e inocência.
  Humbert narra e mesmo assim, se voce prestar atenção, verá onde suas mentiras surgem: ele diz que Lolita o seduziu, mas lemos que ela chora de manhã, tenta escapar e é chantageada por ele. Estamos diante de simples rapto. Lolita é orfâ, não tem ninguém no mundo, Humbert se aproveita disso. Eles transam o tempo todo. Ele diz que ela é indiferente. Estupro é a palavra. Humbert é asqueroso. E mesmo assim lemos com prazer tudo que ele diz. Milagre de grande autor: seguirmos as palavras de um pulha.
  O livro é delicioso. O livro é revoltante. Lolita não é adorável. Ela é uma menina com poucos banhos e muita fome. Apenas uma ninfeta. Nabokov descreve o que é uma. Seria uma menina que olha para adultos com curiosidade. Apenas isso. Ah sim, antes que acusem o autor de machista: há na história a plena sensação de como é difícil ser desejada. Os homens são descritos como maduros homens frustrados ou meninos cheios de espinhas loucos para transar. Humbert é interessante como personagem, mas voce jamais iria querer o encontrar na vida. Quanto à Lolita...ela nunca parece real. A olhamos pelos olhos de Humbert, e ele jamais a viu de fato.
   Muito se fala sobre a coragem de Joyce ou Kafka por escreverem os livros difíceis que escreveram. Mas este ex nobre russo teve uma coragem de titã ao lançar este romance. Não usarei a palavra imoral. Mas ele vai fundo contra o tabu. E para deixar tudo ainda mais complicado, Lolita o chama de pai.
   Nabokov percebeu como estrangeiro a hiper sexualização dos EUA. E viu que essa sexualização vinha via adolescentes. Não esqueça que 1956 é o ano de Elvis e do rock n roll. Lolita é lançado no tempo de Good Golly Miss Molly e de Be Bop a Lula. Já naquele tempo meninas de 12 anos pensavam em transar todo o tempo, e algumas faziam a coisa em moitas e banheiros públicos. Adultos ficavam loucos em meio à essa liberalidade. Queriam fazer parte da festa. Humbert enlouquece no processo. É o scholar europeu, o professor que escreve livros sobre poesia francesa, que mergulha na vertigem sexual do país novo, muito novo, jovem, muito jovem, caipira, muito caipira. Lolita TINHA de ter 12 anos. Fosse uma garota de 18 ou 19 a mensagem e a loucura não seria tão clara e tão poderosa. A Europa, sábia e morta, com seus 3000 anos de cultura se deixa levar pelo desejo americano, desejo que tem apenas 456 anos. Posso ir mais longe e dizer que Humbert está morto. Ele nunca viveu. Nasceu sem nascer. Lolita é viva. E por isso lhe escapa. Mesmo no ato sexual ela nunca está presente.
   Lolita foi nos anos 60 chamado de o melhor livro do século. Um milagre de escrita refinada. Nem tanto. Mas...caramba! Que grande livro!!!!

DYLAN E ENNIO

   Grande comoção geral pela morte de Ennio Morricone. Já aviso que não sou fã. Ele compôs as trilhas dos westerns que todo mundo conhece e que todo mundo acha as melhores já feitas para westerns. Não são. Elmer Bernstein e Jerome Morros compuseram coisa bem melhor. Isso não significa que não goste da música dos tais filmes. Como não gostar? Como bom italiano, ele mistura tudo numa receita que acaba dando certo. Tem as guitarras de James Bond com vozes de Burt Bacharach. Percussão de Yojimbo com melodia de Max Steiner. Deu certo. E por ser....cômica? O povo ama.
   Desde Wagner muita gente comenta que música italiana é sempre melada. Ennio fez algumas trilhas apelativas que pra mim são imperdoáveis. O italiano sempre quer uma lágrima sua. Ele se esforça por isso. A arte do país foi destruída muitas vezes por essa mania de achar que a lágrima é o maior dos prêmios. Rossini, Mascagni, Leoncavallo, até Vivaldi às vezes caía nisso. Verdi se deixou tomar também.
   Nino Rota foi muito maior que Ennio. Tão melado quanto, mas muito mais belo. Nino voava.
   Um nobre amigo me manda o disco novo de Bob Dylan. Surpresa! Bob melhorou a voz. Ele não tenta mais cantar. Ele ruge. O disco todo é um leão velho emitindo ainda seus urros guturais. É rock n roll puro. Bob é da geração que ainda faz rock não parecer paródia. Isso porque essa gente nascida entre 1940-1950 ouviu rock e só rock como referência. Não adquiriram o distanciamento que faz com que todo músico de rock nascido em 1960 ou 1990 pareça sempre estar reinterpretando criticamente algo já feito antes. O que é verdade.
   Quando Bob fala de Jimmy Reed ele fala como quem conheceu Reed. Dylan e MacCartney. A idade nunca foi inimiga da arte. Pensava-se que seria ridículo cantar rock aos 40. Townshend e Jagger diziam isso num tempo em que ninguém tinha 30. Hoje a gente sabe que não. Dylan gravou discos aos 30 anos muito ruins. E desde que fez 60 tem acertado muito.
   Me inquieta saber que algum imbecil irá dizer que Dylan é apenas um judeu branco macho. Mas quer saber? Isso vai passar! Este é um novo século, o XX se foi, e é normal que se tentem novos modos de viver e pensar. O lixo irá sumir e o que vale será preservado. Dylan será como Shelley ou Whitman. O novo século o poupará.

NUVENS DE PÁSSAROS BRANCOS - YASUNARI KAWABATA

    Mais um Kawabata, este o mais curto romance que li até agora. Presente nele o estilo simples e objetivo do mestre. Um jovem vai à uma cerimônia de chá. Lá estão presentes duas das amantes de seu pai já falecido. Deverei contar o resto? Melhor não.
   Mulheres conduzem a história. Em Kawabata o ponto de vista é do homem, mas esse personagem masculino é sempre passivo. Ele vê. Ele sofre a ação. Mas são as mulheres que movem a história. E que mulheres! Kawabata é o mais sensual dos autores. Em poucas palavras vemos e gostamos de suas jovens mulheres. Há nele um certo desprazer pela idade. Algo de grotesco em toda personagem idosa. Já em relação às jovens há sempre o amor pela flor e pela estação do ano. Isso me leva a pensar que Kawabata ainda é editado por ser japonês. Entenda, eu amo Kawabata e sempre leio tudo dele que encontro, mas é o tipo de literatura fora de moda. Penso que por ser "de outra cultura" o beneficia. É bacana ler um japonês. Como é bacana ler um turco ou um finlandês.
  Me irritei muito com a passividade do personagem central. Ele não age. Se deixa levar. Quando resolve sair da letargia já é tarde demais. Kawabata, jamais um autor comprometido com o velho Japão de antes da guerra, não deixa de espelhar o mundo da gueixa. A mulher como o ser que faz, que serve, que se dá. E o homem como o senhor que espera ser servido. Senhor gentil, mas sempre um senhor. A tara do Japão pós moderno por mulheres de rosto infantil revela muito isso.
  É o menos bom dos livros desse autor. Mas isso não é pouco.

PORQUÊ DEIXEI DE SER VEGETARIANO

   Voltei a comer carne. Foram vinte anos de vegetarianismo. Falar do porque retornei ao consumo de hamburger pode explicar o que é o mundo de hoje.
   Minha decisão de parar de comer animais foi puramente piedosa. Nada de medicina. Eu amo bichos e sentia que comê-los seria uma crueldade. Tinha também a ideia de que comer animais aumentava minha animalidade. Minha alma seria mais pura não os comendo.
   Cresci comendo carne. A nostalgia do sabor delicioso da carne habitava minha memória. Resistir à esse desejo aumentava minha auto estima. É claro que eu me sentia superior a quem comia bife.
   Mas, estranho isso, eu adorava assistir programas de culinária na TV. Durante anos eu tinha prazer em ver um churrasco sendo assado e mais ainda em ver um gordo consumir um hamburger de 5 andares. Eu babava. E resistia.
  Meu primeiro incômodo foi político. Os professores que menos gosto se gabam de sua condição vegana. Eles realmente acreditam que o veganismo é o passo seguinte da evolução. Me sentia incomodado por me parecer com eles. Deles quero a maior distância possível.
  O segundo incômodo, mais sério, foi ético. Eu via um programa de TV sobre churrasco como quem assiste um vídeo pornô. E quando percebi isso me senti realmente esquisito. Eis a situação de nosso tempo: Ver e não fazer. Como quem olha fotos de viagens que jamais fará ou saliva por cenas de sexo que nunca irá se permitir, eu babava pela carne mal passada. E, pior, exatamente como um fanático religioso, me sentia superior por resistir à tentação. A carne como pecado.
  Foi a partir daí que comecei a pensar. Pensar na realidade e nos animais.
  Vivemos o tempo onde uma geração não aceita a realidade de forma absoluta. Sempre tivemos uma dificuldade em aceitar o lado sujo da vida, mas agora a não aceitação se tornou ódio. Pessoas não aceitam o fato da Terra ser redonda ou da biologia do sexo ser uma lei natural. Não se aceita a necessidade de existir uma obrigação e também não se aceita a história da humanidade. Tudo pode ser apagado e deletado. Mas a verdade é que não pode. E como demonstra a atual pandemia, por trás de todas essas não aceitações, vive a maior não aceitação de todas: Não se aceita a morte. Todo psicólogo sabe que por detrás de toda fobia existe o medo de morrer. Pois uma geração que cresceu matando virtualmente em games, não consegue encarar a morte real.
  Antes íamos à enterros todo ano. Morria um irmão, um vizinho, um tio. E desde crianças íamos aos velórios. Meu primeiro velório foi aos 45 anos. Do meu pai. Sim, eu faço parte da geração que não aceita a morte, e portanto, não aceita a vida.
  Tigres comem gazelas vivas. Cobras esmagam filhotes de zebras. Herbívoros velhos morrem devorados por hienas. Leões velhos morrem lentamente, de fome. Na natureza não se aplica o conceito de crueldade. A vida para existir tem de ser como ela é. Seu gato querido torturará um rato se puder. Irá bater nele até ele morrer. Isso durará horas.
  Vegetarianos adoram falar da crueldade humana. Pois digo que somos o único bicho que sente a morte de sua vítima. Perto da forma como um elefante morre na floresta, nossos matadouros são o paraíso.
  NÃO HÁ MORTE SEM DOR. NÃO HÁ MORTE BONITA. E NÃO HÁ VIDA SEM MORTE. É isso que se tornou tão difícil admitir.
  Veganos querem que não se coma mais carne. E fico pensando no que se fará com o bilhão de bois e porcos que existem nas fazendas do planeta. Deixar que eles vivam até morrer? Soltar na natureza? Queimar todos? Sinto dizer que todos eles vão morrer do mesmo modo, assim como uma anta morre. E a morte desses porquinhos, de doença, seca ou fome, não vai ser nada indolor.
  Então saia da frente dessa tela e coma um bife bem temperado.
  E faça sexo.
  Seu corpo é uma fábrica de prazer, até o dia em que a doença chegar e a morte fechar suas portas.
  Não compete a nós entender porque a vida é como é. Mas aceite que voce é parte dela. Seu corpo não é virtual e seus desejos não podem ser deletados. Não há reset na vida.
  Paro aqui. Meu hamburger está ao ponto e ele me chama. Toda a felicidade possível na vida está em viver de acordo com seu corpo. A alma sabe disso. E ela irá te aconchegar.

QUEM PERDE GANHA - GRAHAM GREENE...DIVERTIMENTO SOBRE PASCAL

   Por escrever com facilidade, Greene se deu ao luxo de construir duas carreiras. Uma ambiciosa, onde seus livros, pesados, falam sobre Deus e a culpa. Outra, leve, feita de livros que desejam apenas divertir. Este é curto, simples, divertido. Li em apenas um fôlego, 130 páginas curtas. Conta a história de um casal. Ele é um modesto funcionário que se casará. Ela uma menina otimista com momentos de dúvida. O chefe dele, um poderoso dono de empresa, boa vida e culto, temido, dá à ele um casamento e uma lua de mel em Monte Carlo. Mas lá, o casal se perde em meio ao jogo e à sorte. Ele fica rico, muito rico, e o patrão desaparece.
  Oh Graham Greene! Mesmo numa diversão aqui está seu tema de sempre: Deus, sorte, culpa, ingratidão. O pobre noivo constrói um sistema para vencer no cassino. Vence, mas perde a esposa e a felicidade. Como Pascal, que é citado bem de passagem no livro, ele procura febrilmente enfiar a vida e Deus dentro de um sistema. E ao fazer isso, perde o amor. Briga com Deus ( o chefe ), por achar que ele o esqueceu, o abandonou em Monte Carlo, causou todo seu mal.
  Penso que voce não vai achar este livro. É uma edição de 1960, da Civilização Brasileira. Talvez em um sebo, com sorte...Não crie um sistema para o encontrar. Essa a mensagem do livro. Não o procure. Não O procure. Se Ele te esqueceu, conforme-se com esse mistério. Talvez ganhar seja seu azar e ao perder voce ganhe algo. Ninguém sabe.
  É um delícia de livrinho!

O HOMEM INVISÍVEL - H.G. WELLS

    Viagem no tempo, homem invisível, invasão de discos voadores...engraçado como os temas de Wells são, dentre os autores que inauguraram aquilo que viria a ser a sci fi, aqueles que provavelmente jamais serão realidade. Jules Verne falou sobre voltas ao mundo e idas à Lua, e bem ou mal, eles aconteceram. George Orwell e Aldous Huxley previram ditaduras do prazer ou um mundo hiper vigiado, e acertaram, mas Wells, logo o mais social dentre todos eles, não. Provável que viajar no tempo seja inviável e que ser invisível seja impossível. Para sempre.
   O livro é uma espécie de pesadelo lúgubre. O Homem Invisível é violento, desagradável e infeliz. Há ótimas descrições da vida simples nas pequenas cidades inglesas e Wells dá ritmo frenético à tudo.
  H.G. Wells foi famoso, muito famoso. Ao falecer, nos anos 50, era quase um mito. De origem muito pobre, enriqueceu escrevendo, mas jamais esqueceu sua origem. Ele foi um dos primeiros autores a temer o futuro. Sua mensagem acabou por dar o tom que prevalece ainda hoje: o futuro científico promete exploração e desastre. Eu pessoalmente discordo disso. Penso que o mundo nunca teve tão pouca doença e tão pouca fome. Interessante...noto agora que houve um momento, antes da TV e do rádio, que estar em casa era conversar e ler. Fins do século XIX até mais ou menos os anos 30, foi a era de ouro do conto, da novela, do romancista popular. Tempo de Sherlock Holmes, Father Brown, do começo do conto policial e de horror, do conto em lugares exóticos, de Tarzan, Joseph Conrad, O.Henry, da popularização de Poe, Bram Stoker, Agatha Christie, Le Blanc, Twain. E de Wells.
 

ANJOS, FANTASMAS E ESPÍRITOS

   Michael Almereyda é um famoso diretor de teatro inglês atual. Nos extras do filme que acabei de ver, ele narra um texto soberbo sobre a atriz Gail Russel e o ator Ray Milland. Tão informativos quanto poéticos, comecei a perceber que há algo de muito estranho alí. Pois bem, na última parte do extra, ele fala algo que cala fundo no meu coração: Virginia Woolf dizendo, em 1926, auge do filme sem som, que a invenção do cinema trouxe uma experiência inédita até então: a de se ver fantasmas. Pela primeira vez nós estávamos vendo gente que era pura luz, aparições irreais, espectros. Almereyda desenvolve isso, e além de mostrar que com o correr do tempo o que vemos são pessoas realmente mortas, o que deixa a observação de Virginia ainda mais verdadeira, nós, diante de um filme, somos os fantasmas, os anjos, os espíritos.
 O extra mostra então cenas de filmes sobre almas, e dentre eles, Asas do Desejo, o filme magia de Wim Wenders. A câmera rodopia entre as pessoas naquilo que imaginamos ser o modo angelical de ver a vida. Pois então, o que somos nós, ao ver um filme, senão anjos vendo algo sem ser percebido? Se as imagens do filme são de uma realidade de espectros, sem solidez, nós as vemos como anjos, olhamos mas não podemos tocar, falamos mas não somos ouvidos, torcemos mas não podemos influir.
  Incrível não? Eu jamais havia notado que vendo um filme estou no lugar de um anjo vendo a Terra. Vejo, mas não estou lá. Me coloco numa dimensão à parte. Torço. Rezo. Quero. Mas não posso agir. Os atores não podem me ver. Meu desejo não mudará o roteiro. A vida no filme acontece lá e eu vivo aqui. Olho. Rodopio. Os anjos de Berlin sou eu.
  Mas incrível ainda é uma cena do filme em que esses extras estão. Ray Milland e Gail Russel andam por uma rua inglesa de 1942. A câmera foca neles, acompanha seu passeio posicionada na frente do dois. Ao fundo vemos uma rua de paralelepípedos, casas de comércio, umas poucas pessoas vivendo seu dia a dia. A cena não tem nada de extraordinário. Uma simples cena de diálogo em um filme. Mas quando vejo essa cena, não sei o porque, penso: Espera! O que houve? Estou vendo magia aqui! Esse lugar...essa gente...são...fantasmas! Belos fantasmas, cotidianos fantasmas...que se passa? Estou hipnotizado...
  Pensei ser esse apenas um lapso meu. Mas não é que nos extras Almereyda mostra essa cena, tão banal, como momento em que a teoria dele se prova? São fantasmas. Estão mortos. São intocáveis. Mas eu os vejo como espectros de luz. Vivos. Vivendo uma vida deles, só deles. Em um local que é COMUM MAS AO MESMO TEMPO É FANTÁSTICO.
  O filme se chama O SOLAR DAS ALMAS PERDIDAS e é nele que pela primeira vez se ouviu Stella by Starlight, uma canção de Victor Young que se tornou ícone do jazz ( vc já a ouviu com Miles Davis, Charlie Parker, Sinatra, Ella, Chet... ). Nunca pensei que fosse uma canção de um filme sobre fantasmas. O roteiro fala de um casal que se muda para um casa que tem dois fantasmas. E, como diz Almereyda, é um filme muito ruim com cenas maravilhosas. Ele é todo errado, esquisito, com momentos ridículos, mas ao mesmo tempo tem duas atuações sobrenaturais ( Gail e Ray ) e os fantasmas ainda dão grande incômodo. Foi o primeiro filme da história a tratar o sobrenatural não como aventura ou comédia, mas como um fenômeno sério. Grande sucesso em seu tempo, 1944, merece ser visto por aquilo que nos provoca. E em dvd, pelo extra.
  Com ele assisti também O SOLAR DE DRAGONWYCK, primeiro filme de Joseph L. Mankiewicz, que não vale à pena, e THE GHOST AND MRS MUIR, também do mesmo diretor e que vale muito à pena. Muir é uma viúva que vai morar numa casa na praia e lá conhece o fantasma do capitão que lá vivia. É romance total e tem Gene Tierney hiper bonita e Rex Harrison estreando na América. Ver Rex é sempre prazer supremo. O filme é dos três, o melhor. Não tem nada de ruim ou menos que bom.
  Ah sim, o filme que contém a cena fantástica e os extras, O SOLAR DAS ALMAS PERDIDAS, não é de Mankiewicz. É de Lewis Allen, um diretor classe B. Ray Milland ganharia o Oscar no ano seguinte por FARRAPO HUMANO, de Wilder.

O FIO DA NAVALHA + GASLIGHT. DIVERSÃO PARA ADULTOS BABY

   O FIO DA NAVALHA de W. Somerset Maugham é daqueles best sellers que ninguém mais lê. Maugham, escritor profissional ao extremos, escreveu de tudo: romances, contos, teatro, cinema. Em certo momento, anos 40 e 50, ele era um dos cinco autores mais lidos no mundo. Hoje seus livros não interessam mais. São muito pop para serem estudados pelo povo metido a artista, e muito adultos para serem lidos por quem quer apenas fantasia, afinal, nossos atuais best sellers são todos fantasias sobre horror ou ciência, ou algum tipo de auto ajuda disfarçada.
  O FIO DA NAVALHA foi um dos romances formadores em minha vida. Como Zorba O Grego, Cândido, Complexo de Portnoy, são aqueles livros que me fizeram amar a leitura já em minha época de adulto. Se a história de meus livros amados começou com Tom Sawyer e A Ilha do Tesouro, foi com O Fio da Navalha que essa história se confirma. Li 3 vezes e me identifiquei com Larry, o homem que traumatizado pela guerra, passa a vida fugindo do mundo à procura da iluminação. Maugham escreve como quem fala à beira da lareira fumando um cachimbo. Pausado, calmo, jamais cansativo. Literatura de alta gastronomia. Como a de Isak Dinesen. Evelyn Waugh.
  Em 1984, Bill Murray, apaixonado pelo livro, fez um filme sobre a obra de Maugham. Larry feito por Bill Murray. Um filme longo e aborrecido. Pior que tudo, metido à arte. Salva-se apenas a Sophie feita por Theresa Russel. Ontem vi a versão de Edmund Goulding, Fox, 1946, época em que a moda Maugham estava no auge. É um típico filme adulto POP de Hollywood. O tipo de filme que hoje só pode ser feito na TV. Estranhamente o filme foca muito mais em Elliot, o velho esnobe, e Maugham, o próprio escritor que conta a história de Larry. Funciona? Muito. Larry no filme se torna aquilo que ele é na vida: personagem esquivo, que surge e desaparece, um solitário. Gene Tierney faz a maldosa ex noiva de Larry. Há que se dizer, Gene Tierney foi a mais bonita mulher do cinema. Estranho fato, todas as divas da tela hoje parecem grotescas. Marilyn, Greta, Marlene, Rita, são como bonecas em show de travestis. Porém Gene Tierney, assim como Grace Kelly ou Jeanne Crain, são tão belas hoje como sempre foram. É um bom filme.
  Patrick Hamilton escrevia teatro popular-chique. Esse tipo de teatro hoje sobrevive apenas em alguns musicais. O público era o casal de 35-60 anos, classe média, curso superior, querendo se divertir ao mesmo tempo que usava sua inteligência. O filme Gaslight, direção de George Cukor, Oscar para Ingrid Bergman, é eletrizante. Ingrid é a pobre mulher que quase enlouquece nas mãos de Charles Boyer. NUNCA ME IRRITEI TANTO com um vilão como com esse CRÁPULA feito por Boyer. Não me importa se ele exagera ou não. Eu fiquei a ponto de destruir a TV. Eu o odiei muito! MUITOOOOOOOOOOO!!!!!!!! Ótimo filme. Dizem que a versão inglesa é ainda melhor. Vou vê-la.
  Ingrid Bergman? Ela exala sexualidade até quando dorme. Tivesse sido atriz nos mais despudorados anos 60 ou 70, teria enlouquecido homens em salas de cinema. Ela tem traços nórdicos demais, mãos grandes, mas seu olhar e suas cenas de beijo são de absoluta entrega. Sentimos que ela é ultra quente. Aqui ela ganhou seu Oscar, merecido, e os USA se apaixonaram por ela. Ingrid vinha da sequência Casablanca, Por Quem Os Sinos Dobram, Notorious de Hitchcock...difícil achar atriz com sequência de filmes tão icônica. Mas em 48 ela destruiria tudo ao largar marido médico para viver com Roberto Rosselini, logo um italiano!!!! Corajosa Ingrid.
  Dois ótimos filmes. Gaslight é melhor.

O PODER E A GLÓRIA + THE QUIET AMERICAN

   Depois de Conan Doyle e Agatha Christie, somente Shakespeare tem mais textos adaptados ao cinema que Graham Greene. E que estranho momento vive esse autor inglês! Por eu ter nascido nos anos 60, ainda peguei o final da imensa fama de Greene. Entre os anos 40 - 80, Graham Greene foi candidato eterno ao Nobel e junto à Borges, o maior dos derrotados. Para quem frequentava livrarias e cadernos culturais em 1970, 1980, Greene era figura constante. Mesmo aqui neste sub sub continente, vários de seus livros estavam sempre sendo editados. Porém hoje, em 2020, vigésimo ano da Nova Idade Medieval, há montes de jovens leitores que nunca ouviram falar de tal autor. E se conhecem vagamente o nome, é por ter ouvido falar de alguma adaptação para a tela.
   Li O PODER E A GLÓRIA. É meu quinto Greene e o mais difícil de ler. Figura engraçada esse Greene. Ele escrevia muito e dividiu sua obra em dois campos: livros sérios e livros de divertimento. O PODER E A GLÓRIA é dos sérios. O tema é árduo: estamos em algum país da América Central. Houve uma revolução socialista. Todas as igrejas foram queimadas e em seu lugar foram construídos campos de esportes. Todos os padres foram fuzilados. A população, que mal compreende o que se passa, vive em miséria terminal. O livro acompanha essa situação de dor e de inescapável inferno. Como personagens há um ex padre que foi obrigado a casar e se desmoralizar, um tenente que  DESEJA DESTRUIR TODO O PASSADO DO PAÍS E COMEÇAR TUDO DO PONTO ZERO. Há ainda um padre que tenta fugir da nação e se tornou alcoólatra. Em meio a tudo isso, temos ainda um dentista inglês e um funcionário americano de uma empresa que exporta as bananas do país. O texto é escuro, sombrio, quente, úmido, mofado, doentio, sem nenhum alívio.
  Graham Greene se converteu ao catolicismo aos 26 anos de idade. Seus livros têm por tema a dor. A culpa. E a absolvição. Acho que já deu para voce entender porque em 2020 não se lê mais Greene não é? É um autor que odeia profundamente a esquerda. Mas ao mesmo tempo não acredita na direita. Niilista? Seria simples se ele fosse um niilista anarquista. Greene estaria na moda. Mas não. Ele crê na vida como dor. Viver é para ele, sofrer, sofrer para assim poder, quem sabe, se redimir em outra vida. É catolicismo radical. E por ser assim, se aproxima de Dostoievski: A santidade possível vive nos piores dentre nós. Pois são eles os que mais sofrem.
  Aproveitei para ontem rever o filme THE QUIET AMERICAN, feito por Joseph L. Mankiewicz em 1958. Texto de Greene, claro. O filme foi feito em Saigon-Vietnã, antes da guerra, e só por isso já vale ser visto.
  Estamos em 1952, em plena guerra de independência. Tropas francesas, os colonizadores, lutam contra os guerrilheiros do norte, comunistas. Mas o filme não é sobre guerra. É, como só poderia ser em Greene, sobre culpa. Um jornalista inglês, vivido com a maestria discreta habitual por Michael Redgrave, namora uma nativa vietnamita muito mais jovem. Eles se amam. Mas surge um jovem americano e aos poucos ele conquista a menina. O inglês é tomado pelo ódio e acaba por trair o americano, levando-o à morte. No fim ele perde tudo: mulher, honra, sossego, consciência, auto estima. o redor desse drama, a situação trágica do país: de um lado a abusiva e incompetente colonização francesa, do outro os comunistas, matando franceses e vietnamitas aos montes. O jovem americano está no país movido pelo ideal ingênuo de uma terceira via: Liberdade com democracia. Sabemos no que isso ia dar no futuro. Quando o filme foi feito os americanos ainda não estavam lá. Seriam precisos 50 anos de dor para se alcançar o que o país é hoje.
   O inglês não acredita em nada. Velho europeu desencantado, ele zomba da França, teme os comunistas e acha ridículo o americano. O filme é excelente.
   Joseph L. Mankiewicz é outro grande nome esquecido. Foi o único diretor a vencer dois Oscars de diretor seguidos, e em ambos ganhando também pelo roteiro: QUEM É O INFIEL em 1949 e A MALVADA ( ALL ABOUT EVE ) em 1950. Típico americano liberal da época, ele consegue não tomar partido. Mérito de seu bom roteiro.
   Graham Greene voltará um dia? Penso que sim. Quanto maiores os erros do mundo, mais rápido as pessoas olharão para seus pontos de apoio e de estabilidade. E a alta literatura é sempre um desses pontos.

ADEUS JOHN WAYNE ( PORQUÊ O NAZISMO VENCEU )VOLTAIRE!

   Uma comissão na cidade de Orange County vai retirar a estátua de John Wayne. Ela ficará num porão. Eis um assunto difícil de falar.
   Cresci em um mundo cultural com espaço. Espaço é a palavra. Havia espaço para Eliot e para Marianne Moore. Para James Baldwin e para Mishima. O que se amava era a excelência. Podia-se lamentar a posição de Ezra Pound durante a guerra, podia-se odiar o que Elia Kazan fez, mas JAMAIS se imaginava censurar ou apagar da história alguém que tivesse contribuído para a diversidade cultural do planeta. Desde 1960 John Wayne era chamado, injustamente, de fascista. Mas seus filmes passavam normalmente na TV, ele era homenageado em festivais e respeitado por seu legado. Isso não poderia ser apagado, pois apagar a cultura seria como empobrecer nosso espírito. Porém, a partir dos anos 80 esse amor se perdeu.
  Uso a palavra amor de forma bastante apropriada. O amor pela cultura faz com que eu ame Acossado, mesmo odiando a posição política de Godard. Faz com que eu leia Heminguay, mesmo sabendo que eu o detestaria como pessoa. Esse amor a cultura morreu e não estou sendo exagerado ao dizer isso. Os fariseus tomaram o museu e compraram a editora. Eles não amam a cultura, eles amam o seu PRÓPRIO ESPELHO e esse espelho não aceita nada que não seja ele mesmo.
  Perversamente a diversidade está matando a....diversidade. Essa diversidade, made in 2020, é uma festa entre iguais, inclusive no modo de vestir e falar. Penso que eles estão tão profundamente condicionados que perderam a capacidade de perceber essa armadilha. Diversidade pequena, limitada, diversidade que tem pauta, censura, manual de bom comportamento. Uma festa que não permite a entrada de quem foge a seus ditames, e pior, uma festa que expulsa fantasmas.
  Aldous Huxley já dizia em 1930 que a pior opressão parte de quem diz defender o bem. Vegetarianos, pacifistas, naturistas, liberais, além de oprimir com suas regras, nos fazem mal por nos legarem a culpa. Se eles são bons, então somos o mal. Eles produzem o mesmo efeito do cristianismo que dizem odiar. Erguem o nariz arrotando sua superioridade. São anjos. E têm má digestão.
  Agora, neste exato momento, eles estão limpando a história do mundo. Desinfetam páginas e páginas do passado, tudo em nome do bem e da justiça. Desde a inquisição não se via tamanho fanatismo. Não é coincidência usarem a fogueira. O que os move é o ódio. Eles não compreendem o passado, não entendem a arte fora do utilitarismo político e por isso vivem em ressentimento. Discursam contra o racismo, mas dão cor à todo espírito e toda arte. Para eles um ser humano se resume a cor de sua pele. A raça condiciona toda arte que podemos produzir, tudo o que podemos falar. Segundo eles, não há como escapar do seu condicionamento racial. Se voce é branco voce só pode produzir arte de branco. Eles negam a alma, sem cor e sem sexo, e se prendem ao conceito que dizem exterminar. Bem...desde Hitler não se vê e ouve nada tão estúpido. Não à toa nazistas também se viam como puros.
  Alguns anos atrás eu li alguém que dizia que na verdade os nazis venceram a guerra. Leio dois livros por semana e é difícil lembrar todo autor, baby. Mas ele dizia que depois da guerra vivemos em um mundo armado, vigiado e desencantado, e por isso os nazis haviam vencido por terem mudado o mundo. Pois agora a coisa piorou. O modo nazi, inconsciente, toma conta da diversidade perversa. O ódio ao diferente é absoluto, e pior, é visto como O BEM.
  Não, não estou exagerando e explico mais um pouco.
  Sim, voce sempre teve sua turma. Vamos a chamar de turma da Vila Madalena. Ou galera do Baixo Leblon. Ou jovens de Greenwich Village. Voce odiava, digamos, os caras da Mooca, ou da Barra, ou de Boston. Havia um atrito. Uma discussão. Mas não havia a tentativa de fazer com que a Barra deixasse de existir. Voce odiava Roberto Carlos ou o general Geisel, mas não pensava em queimar seus discos ou apagar seus anos de governo da história. Pois é isso que agora se apresenta. A absoluta negação da cultura. Pois cultura é história e história é passado.
  Roger Scrutton diz que o conservadorismo se resume a amar as coisas do passado e lutar para as preservar. Nunca na história recente, a civilização, que eu amo, aquela criada por judeus e gregos, romanos e celtas, foi tão atacada. Há um plano óbvio de a cancelar.
  Não é a primeira vez que isso ocorre. Crises culturais cíclicas, em que todo o mundo cultural parece afundar, são inevitáveis. Houve isso nas invasões bárbaras, na crise da reforma, na guerra contra os nazistas. A diferença é que agora é uma guerra não declarada, uma guerra sem batalhas, de guerrilha, de pequenas e constantes destruições.
  Eu defenderei sempre o direito de voce assistir o filme que voce quiser. Mesmo que eu o deteste.
  Isso é Voltaire.
  E ontem vandalizaram sua estátua em Paris. Nela escreveram: Racista.
  Meu amor chora.
 

FOGO-FÁTUO, ALDOUS HUXLEY

   Dentre os livros que peguei na casa do meu amigo, livros deixados por seus pais, está este volume de Huxley, um dos escritores do século XX que mais admiro. São quatro contos, que vão do muito bom ao enfadonho.
  O último conto, DEPOIS DOS FOGOS, é o mais longo e o enfadonho. Huxley tem uma frase muito boa onde ele diz que cultura é quando tomamos contato com aquilo que nada tem a ver conosco. Frase ótima para os dias de grupo social. Diz ele que ler ou conhecer apenas aquilo que tem "tudo a ver" conosco é apenas narcisismo. Adquirir cultura é expandir a alma, ela cresce quando conhecemos aquilo que é diferente de nós. Bem, apesar desse belo e correto pensamento, este conto me entediou. E, que estranho, o motivo foi o de ser dos quatro o mais próximo de mim. Conta a história de um terrivelmente pedante e bem sucedido escritor que se envolve com uma fã. Ele tem 51 anos, ela tem 21. Ela se apaixona por ele, ele tenta resistir. Lemos os dois pontos de vista. Ele é incrivelmente chato, tenta educar a menina, a leva a museus, restaurantes típicos, tudo se passa na Itália. A atração que ele sente é física, puramente física, e por isso, segundo ele, irresistível. Diabólica. A atração que ela sente é a de admiração. O tema é interessante, mas por Deus!, como Miles Fanning, o escritor, é chato! Filosofa sem parar, tece longos discursos sobre deuses e demônios, exibe seu charme urbano pedante e blasé, e pior que tudo, chafurda no medo. Ela é prática. Ele é um monstro de falsidade auto imposta.
  Os quatro contos têm isso em comum: a exibição de pessoas de alta cultura e de alta hipocrisia. Sinto um temor: será que Huxley teve esse objetivo? Será que esses escritores falam por ele? Ou será que esses intelectuais são modelos para serem criticados?
  No primeiro conto, o melhor, temos basicamente a conversa entre dois amigos. Um praticamente só escuta, o outro é um escritor frustrado, rico, mas que vive do jornalismo. Ele escreveu a auto-biografia de um milionário. O conto fala da vida desse magnata, Chawdron. O escritor é a imagem perfeita da antipatia. Tece epigramas e lições de vida sobre tudo! Mas o conto é tão bem escrito e o que ele diz é tão afirmativo, que acabamos lendo com prazer. É um personagem terrível. Ele chega muito perto de parecer um nazista. ( Os contos são de antes da guerra ).
  O segundo conto, Cura de Repouso, centra-se numa mulher que foge do marido. Vai para Roma e lá se envolve com um italiano. Fim trágico aqui. O marido abandonado é mais um escritor. Dessa vez um inglês seco e frio.
  OS CLAXTONS é o segundo melhor conto. Bastante atual, fala de um casal que é vegetariano, liberal, bondoso, que deseja educar os filhos no caminho certo, e que por isso acabam por se revelar dois tiranos que usam seu vitimismo como modo de oprimir suas crianças. Lembra o mundo de hoje? Muito! Huxley tinha esse dom de antecipação, e ele já percebia nos anos 20, que a bondade era a pior forma de opressão possível. O casal Claxton é correto, liberal, tem pena dos pobres bichinhos, quer a paz universal, e impõe a seus filhos a culpa eterna por serem humanos. É impossível para os filhos serem apenas crianças. Eles precisam ser um projeto de futuro.
  Interessante o que percebo agora...o escritor do primeiro conto é quase nazista em certas opiniões , e não consigo saber se Huxley na época as endossava. Mas...todos os personagens centrais dos quatro contos têm esse aspecto de intelectualidade vaidosa, de donos da verdade que jamais duvidam de si mesmos. Dos quatro, três se passam na Itália, e os Claxton, que não tem nada de italiano, zomba da mania dos Claxton de andarem com mochilas e amarem as longas caminhadas. Calções, botas, meias, e as mochilas eternas, mochilas como símbolo de superioridade moral. Fascistas? Mussolini?
  Na sequência Huxley mergulharia no mundo Admirável e Novo.

GASOLINE ALLEY - ROD STEWART. CREIA EM MIM PEQUENO MILLENIAL, ELE FOI UM DIA UM GRANDE, GRANDE POETA

   O Rod Stewart que existiu entre 1969-1975 era acima de tudo um cantor folk com voz de negro da soul music. Foi a melhor voz do rock. E logo no início, neste disco de 1970, seu segundo disco solo, voce já percebe tudo isso.
  Há um acorde de violão. E um acorde slide guitar. E em seguida a voz. Imediatamente voce entende o recado. E é transportado para aquele mundo. Chão de pedras, garoa, pobreza, melancolia viril, beleza entre o vazio. Lembro a primeira vez que escutei essa canção. Era 1982 e eu tava beeeem mal. Ela soou então como um tipo de consolo. Havia uma mensagem clara naquela voz: Resista. Ronnie Wood me ensinou então onde estava a beleza do slide. Ele era mais que blues, ele era uma afirmação. Um imenso ponto de exclamação: Eu estou aqui. É muito difícil encontrar um disco que comece melhor que este.
   Depois vem a festa: Its All Over Now, um dos muitos covers que Rod fez a vida toda. Versões que são sempre ou quase sempre melhores que a verão original. Em seu disco de estreia, Rod conseguiu gravar uma versão de Street Fighting Man que é melhor que a original dos Stones. E isso foi quase um milagre. Pois aqui ele gravou Only a Hobo, e sua versão de Bob Dylan mostra uma beleza que Dylan apenas sugere. Rod Stewart tem a voz para revelar todo o potencial que uma canção pode ter. O que ele faz com Country Comfort de Elton John é sublime. Rod dá voz à uma multidão de perdidos. Nossa alma, em sua profunda imensidão, agradece.
  O que posso acrescentar sobre CUT ACROSS SHORTY? Em outros posts falei muito dela. Descrever? Uma bateria surpreendente ( Mick Waller ), tropeçando bêbada entre o som do violino cigano que promete banditismo. O suspense do violão em seu acorde que lembra uma cascavel. O contra baixo ( Pete Sears ), é uma locomotiva que resolve o Kaos inicial e faz a música avançar. Rod começa a cantar e nós seguimos a saga. É uma saga, uma lenda, um conto, uma oferenda. Desde a primeira vez que a ouvi ( dizem que as grandes músicas se gravam de tal modo em nós, que sempre vamos lembrar da primeira vez que as ouvimos, onde estávamos, que clima fazia, como nos sentimos ), cut across shorty é das minhas cinco favoritas em qualquer tipo de escolha. Ela ergue o espírito. Fala direto à ele. Carrega-o.
 Jo's Lament é de uma tristeza aceita. O disco todo tem um caráter melancólico. Sempre impressiona o fato de como pode esse compositor se perder. Não há exemplo maior de dinheiro em excesso e mulheres erradas como agentes de corrupção do talento. Tento escapar desse chavão, mas é exatamente o que aconteceu com Rod. Na história do rock, apenas Al Green teve uma transformação para pior tão absoluta. No caso de Green foi seu encontro com Deus que o desviou da música sexy e secular que ele fazia. Green se tornou ministro da fé e cantor de gospel. No caso de Rod foi a auto satisfação que o desviou de seu talento de compositor de hinos aos pobres perdidos e cronista do cotidiano redescoberto. Ninguém escrevia melhor que ele sobre o comum. Um pente encontrado, uma foto perdida, uma rua revisitada. Ele fazia poesia de qualquer coisa, e com a ajuda de Ron Wood e de Martin Quinteton, dava melodia adequada a essas joias da alma.
  Gasoline Alley não é o melhor disco solo de Rod. O primeiro é o mais bonito e Every Picture Tells a Story é o album mais genial. Mas Alley foi meu primeiro Rod da fase heroica.  Eu tinha os LPs de 1975, 1976, 1977, conhecia o Rod que era um mix de Chuck Berry com Sam Cooke, o Rod bem sucedido e hiper profissional. Quando descobri o artista primitivo foi um choque. E foi Alley quem primeiro me mostrou isso.
  Então querido millenial, jogue teu preconceito no lixo e aprenda que o senhor que hoje canta Cole Porter e o playboy que cantava disco music teve uma alma. Ele a deu de presente à uma centena de louras, mas felizmente essa alma ficou gravada em discos.
  Poder ouvir esse cara é um imenso privilégio.