TENHO ESCRITO SOBRE FILMES QUE VI ANTES DA EXISTÊNCIA DESTE BLOG, MEUS PRIMEIROS DVDS PORTANTO. MAIS UM? THE AWFUL THRUTH, LEO McCAREY

   Primeira cena: Cary Grant em um clube usa uma lâmpada de bronzeamento. Ele mentiu para a esposa. Disse que ia à Miami e ficou na cidade. Não saberemos o que ele fez.
  Cena seguinte: Ele chega em casa. Amigos estão à sua espera. Cadê sua esposa? Ela também sumiu. Ele inventa uma desculpa para não ficar mal com os amigos. Diz que ela está com a mãe. Mas eis que chega a mãe. E em seguida chega a esposa, Irene Dunne. Ela vem sorridente. O professor de canto a trouxe de carro. Os dois passaram o fim de semana numa pousada. O carro dele havia quebrado.
  Próxima cena: o divórcio. Quem vai ficar com a guarda de Mr. Smith, o cão do casal?
 Daí para a frente é puro prazer. Entra em cena Ralph Bellamy, fazendo um rico herdeiro de Oklahoma, caipira que se enamora dela. Grant, ainda querendo salvar o casamento, visita Mr.Smith, cruza com a esposa num night club, aparece sempre onde ela está, como quem não quer nada. Já ela, óbvio também, usa o caipira como peça de ciúmes, finge estar nem aí, se faz de tonta. Sim, voce já viu esse argumento milhares de vezes. Mas voce também já viu a saga de mafiosos ou a crise do homem moderno milhares de vezes. E daí? O que importa é como o tema é desenvolvido e não qual o tema. E aqui, Leo McCarey, diretor vindo dos curtas de Laurel and Hardy, e que seria um dos nomes mais fortes dos anos 30 e 40, conduz tudo com tanta leveza e gosto que somos pegos de surpresa. Voce pensa que será um filme frenético e maluco, mas não, ele é calmo e suave.
  Acumulam-se ótimas cenas, e a do night club é a melhor. Filmes como este não nos fazem mais rir, mas nos deixam alegres. Nessa cena porém me peguei rindo, o que não esperava.
  Os grandes filmes de humor dos anos 30 e 40 não têm mais o dever de nos fazer gargalhar. O humor, assim como o horror, envelhece e perde a força explosiva. Se tiver sido em seu tempo uma grande fonte de emoção, ele corre o risco de visto hoje ser apenas uma decepção.
  Entretanto, quando o filme é acima da média, ele sobrevive. Não nos faz mais rir, mas nos deixa num belo estado de alegria, um leve sorriso nos lábios, uma sensação de prazer indefinido. Isso ocorre aqui. Os risos não vêm, como deveriam vir em 1937, mas o otimismo se faz sentir. Estamos dentro de hora e meia de humor, de bom humor, não de risadas. Cary Grant deixou de parecer ser um humorista desde os anos 50, em lugar disso ele hoje parece um mestre de bom humor. Ele não nos faz mais rir, mas em troca nos dá um bem maior: aprender a encarar a vida de um modo leve. Isso é sublime, daí meu encanto por esse ator.
  De Irene Dunne posso dizer que ela está à altura de Grant. Acho que ela o completa melhor de Hepburn. Kate sempre é pesada, ela tem um acento de seriedade que nunca some completamente. Irene não. Ela é jovial. Sempre jovial.
  Imenso sucesso de bilheteria, o filme se mantém plenamente satisfatório, fato que não acontece com o filme que comentei acima.

DISQUE M PARA MATAR, UMA OBRA PRIMA SEM NENHUMA AFETAÇÃO

   O filme se passa quase inteiro entre quatro paredes. E voce não tem nenhuma sensação claustrofóbica. Muito menos tédio. É uma peça filmada, quase sem nenhuma modificação, e ao contrário da maioria do filmes feitos sobre peças de teatro, voce jamais lembra estar vendo um texto para o palco. O personagem central é vaidoso, frio, antipático, esnobe, e mesmo assim voce adora sua companhia. Hitchcock diz ter sido tão fácil fazer este filme que ele poderia o ter dirigido via telefone. E voce sabe que ele está brincando. É uma obra prima e ao lado de Intriga Internacional, é meu Hitch favorito.
  Genial em seu modo simples, ficamos sabendo em dois minutos quem é quem: um ex tenista casado, em Londres, é traído por sua esposa rica. O outro é um escritor americano. O marido irá elaborar um plano detalhista e racional, para assassinar a esposa. Falo o resto? O assassinato não acontece, e então ele executa outro plano: fazer a esposa ser condenada pelo crime que ele desejava cometer. O que assistimos, com supremo prazer, é  a concatenação de detalhes que compõe um todo complexo. Hitch sabia de como é satisfatório presenciar a exibição de inteligência e método, mesmo que seja em um crime. O marido, feito de modo magistral por Ray Milland, aqui melhor que no filme que lhe deu o Oscar, este é o papel de sua vida, é puro exibicionismo. Milland compõe um tipo cheio de olhares, gestos, trejeitos, tudo é como uma ourivesaria de atuação, uma joia em atuação charmosa e repulsiva. Já Grace Kelly, a esposa, além de estar no auge da beleza, não me lembro de mulher mais linda em filme nenhum, nem ela mesma nunca mais esteve tão bonita; atua com sutileza. Ela expressa culpa, sedução, medo e confusão. É o contraponto exato à Milland. O outro grande ator do elenco não é o amante, mas o inspetor de policia, John Willians, solidez e bom senso, calma e método, uma atuação de simpatia sublime.
  Há que se dizer o segredo da leveza e da inteligência deste filme: a câmera. Ela não para. Rodopia pelos móveis, vai do chão ao teto, inova em ângulos diferentes, viaja em todo canto possível e impossível. Mas com um detalhe central: jamais percebemos isso! Estamos tão envolvidos pelo roteiro perfeito que não prestamos atenção em seus truques. Hitch nunca se perdeu. Seus filmes são cheios de truques, mas o centro é sempre a história a ser narrada. Por isso sua arte nunca parece afetada. Ele jamais diz: Hey! Olhem este efeito! Seu foco é aquilo que os atores fazem e falam.
  Muita gente comenta hoje o que ele faria com nossas câmeras tão leves e nossos efeitos digitais. Provável que botasse todos os ouros no bolso e nos surpreendesse a cada filme. Isso porque ele era curioso, insaciável, irrequieto e não tinha medo de experimentar. Mas acima de tudo ele era meticuloso. Planejava. Construía e executava estritamente o que estava dentro do plano central. Nada de improviso. Nada de última hora. Para nosso cinema de alta tecnologia, seu modo de encarar a arte cairia como uma luva. Técnica acima de tudo.
  Eu devo ter visto este filme já umas cinco vezes. E sempre sou pego odiando Milland e tendo um orgasmo quando a verdade aparece. É um prazer intelectual. Sinto a satisfação de ver um plano perfeito ser desfeito por uma intuição ainda maior. Acima de tudo o cinema de Hitchcock é sempre uma questão de inteligência. Nosso cérebro é usado. E isso é cada vez mais raro.

CONTATOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU. A INFANTILIZAÇÃO DO CINEMA.

   Tenho este dvd desde 2006, mas só agora o assisti. São 3 discos, versões de cinema 1977, de cinema 1981 e do diretor. Não há prova maior do fetiche que se tem por esse diretor.
   Eu não o assistia desde que o vira no cinema, em 1978, com meu irmão. Cine Festival, na rua Lacerda Franco em Pinheiros. Quem não frequentou cinema de bairro em dia de semana não sabe o prazer que isso dava. Era como ver um filme na sala de casa. Era familiar. Era muito barato. Era como um clube. As pessoas da rua na sala. Sair da sessão, que foi mágica, nós ficamos hipnotizados pelo filme, e cair na rua, luz do sol e carros. Era um choque. Não era como sair da sala de cinema e dar de cara com luzes artificiais e vitrines de lojas. Não. Era sair da sala e ver o céu aberto, as vozes da rua, buzinas e fachadas de casas. Uma realidade penetrando outra realidade. Bem...chega, vamos à minha experiência de ontem.
  42 anos depois eu ainda lembrava de várias cenas. Provavelmente por terem se tornado ícones do cinema. Os brinquedos se movendo no quarto do menino, as luzes no carro de Richard Dreyfuss, toda a sequência final. Me surpreendo em como os primeiros minutos são fracos, uma sequência de aviões e barcos que surgem em locais estranhos. Me surpreendo também em como o filme é ótimo entre os 30 e os 70 minutos. Quase sem diálogos, é um primor de narrativa e de encanto. Esse ótimo filme dentro do filme acompanha todo o encontro na estrada até o começo da construção da "montanha" dentro de casa. O filme desaba outra vez e me lembro então como todo filme de Spielberg é sempre irregular. É um cinema feito de grandes cenas, mas nunca de filmes perfeitos.
  Eu havia esquecido a imensa quantidade de crianças no filme. É um filme infantil. Os ETs são crianças e o adulto que eles levam é fã de Pinochio. Nada há no roteiro de filosófico, não perca seu tempo procurando uma mensagem. O filme é o que vemos: um cientista criança, Truffaut, não podia ser outro, um pai criança e viajantes do espaço crianças. A mensagem é : Paz e Amor. Mais nada.
  Nos extras causa decepção ver o Spielberg de anos depois dizer que mudaria o filme se feito agora. Penso então que ele o deixaria mais complexo. Mas não. O que ele diz é que hoje não deixaria o pai ir com os ETs e largar seus filhos na Terra. Ele era um pai irresponsável. Well....
  Mesmo hoje, em filmes ditos adultos, como Schindler ou Lincoln, Spielberg não muda. Abusa da música para nos seduzir. Luta para criar grandes cenas que nos impressionem. Se esforça por agradar. E acaba fazendo filmes rasos. Um diretor com um talento imenso, com um senso de imagem tão perfeito, acabará sua carreira sem uma só obra prima. Mais frustrante ainda, ele, como Tarantino, nada tem a dizer. Ambos têm como único pensamento o amor ao cinema e uma grande cultura cinematográfica. Ambos passam a impressão de que tudo o que sabem sobre paternidade ou violência, guerra ou heroísmo, foi aprendido e vivido diante de telas de cinema. Todos os seus filmes, como de tantos outros diretores deste momento histórico, são filmes sobre filmes, histórias imaginadas enquanto se via um filme, relatos sobre experiências sentidas em filmes. Contatos Imediatos é 2001 em desenho Disney. É O Dia em que a Terra Parou como superprodução. A nave é a baleia de Pinochio.
  Muito já se falou sobre o mal que Spielberg causou ao cinema dos últimos 45 anos. A infantilização. Foi ele quem notou primeiro que o cinema seria salvo pelas crianças e não pelo público adulto. Essa foi uma guinada da qual jamais nos recuperamos. Todo grande filme, toda grande produção, graças à ele e Lucas, passou a ser dirigida à um público de 10-12 anos de idade. Mesmo que esse público tenha 40. Lucas e Spielberg não tiveram culpa nenhuma. Fizeram sempre os filmes que amaram ver. O problema foram os outros. A geração Coppola e Scorsese, com seus filmes excessivamente amargos que alienaram o público do cinema. Após Tubarão, e com Star Wars, o cinema se dividiu de vez entre filmes grandes e filmes pequenos, filmes de sucesso e filmes de festivais, filmes para todos e filmes para a elite. O Poderoso Chefão, em 1972, foi o último big big hit adulto. Feito para todos e com pretensões de elite. Nunca mais. Titanic é para meninas de 13 anos. Adultos de 35 choram. Voce entendeu....
  A sequência final deste filme foi estranha de rever. Em 1978 eu e meu irmão a assistimos como se aquilo fosse um tipo de cerimônia religiosa. Eu lembrava dela como algo longo, imenso, misterioso, incrível. Lembro que saímos do cinema nas nuvens. Foi uma experiência inesquecível. Mas visto hoje me pareceu muito curto, simples, bonito porém simplório. Gostei, mas não fui tocado.
  Bem...eis o porque: em 1978 eu era uma criança. Hoje não mais. Simplesmente isso.
  Sempre vou agradecer Spielberg por aquela tarde. Mas se quero magia e encanto...não são em seus filmes que vou procurar.
  No sir!

ACONTECEU NAQUELA NOITE, O FILME MAIS FELIZ DA HISTÓRIA

     Em 1934 os EUA eram um país muito, muito triste. Era a nação dos livros de John Steinbeck. Quebrado. Filas de sopa. Muito crime. Suicídios. O país tentava se reerguer e uma das apostas para isso foi a de não permitir que o espírito americano se quebrasse. Os EUA são assim: ao contrário da maioria das nações, quando a coisa aperta eles olham para o espelho e reafirmam aquilo que são. É como se eles necessitassem da crise para se renovar.
    O cinema participou dessa recuperação de várias formas. Uma delas foi a de fixar, recordar, afirmar o tal espírito da América. Frank Capra ganhou 3 Oscars durante essa crise. Ninguém fez mais pela democracia americana no cinema. Em 1934 ele ganhou o primeiro de seus prêmios. Aconteceu Naquela Noite foi o primeiro filme a vencer os 5 prêmios principais: filme, direção, ator, atriz e roteiro. Só 39 anos mais tarde, em 1975, Um Estranho no Ninho repetiria esse feito. Seria interessante comparar os dois filmes para ver o que mudou na América. Muito menos do que voce imagina. Ambos os filmes reafirmam o poder do indivíduo contra o sistema. Mas este texto não é sobre 1975. É sobre 1934. E em 34 ainda se podia apostar na alegria.
   Uma menina milionária foge do pai para se casar com um playboy. Na fuga ela conhece um jornalista desempregado. Os dois se odeiam e se ajudam. O resto voce já sabe. O tema lhe parece batido? Bem...a teoria literária diz que não existem mais de 20 temas para se narrar e todos estão na Bíblia. Desde os tempos de Lot e Set, a gente repete os temas. O que importa é como esse tema é narrado. Neste filme a narrativa chega à absoluta perfeição.
   Observe a edição. Cena a cena voce tem a sensação de que não há um segundo de filme desperdiçado. Ele não é rápido, não é lento, ele é exato. Tudo, tudo o que acontece tem a marca de profundo interesse. Primeiro acerto raro: O filme interessa. Os personagens são interessantes, todo coadjuvante é marcante, e cada diálogo parece ao mesmo tempo real e interessante. O filme é pura fantasia, mas parece realidade. Capra sabia como nenhum outro fazer isso. Seus melhores filmes parecem ser o mundo que queremos crer. Desse modo parecem mais reais que o realismo pode ser. Porque eles são aquilo que vive dentro de nós. Capra sabia, por intuição, qual era a verdade do coração médio. Populista no melhor sentido, ele traduzia em filmes aquilo que restara de bom em meio ao desespero. Isso era magia.
  O filme é, durante 90% do tempo, o mais feliz dos filmes. A fotografia brilha. Os contornos parecem de neon. Todos os personagens são vivos, não necessariamente felizes, porém vivos, cheios de energia. Claudette Colbert está frágil e adorável, a rica herdeira mimada que nada sabe da vida. Clark Gable rouba o filme. Ele é duro. Realista. Violento às vezes. E incrivelmente verdadeiro. É o cara que toda mulher queria ter como namorado e todo cara queria ter como amigo. Como Capra conseguiu criar isso? Com cenas despretensiosas e de extrema concisão. Por exemplo, a famosa cena da carona, uma obra prima de tempo e movimento. Toda a sequência da cantoria no ônibus, uma das cenas mais alegres do cinema. O modo como Clark Gable fala do livro que vai escrever, a troca de olhares entre os dois, a maneira como ele estende uma coberta entre os dois. Capra veio do cinema mudo, e como todo diretor que trabalhou só com imagens, ele sabia falar sem som.
  Talvez os melhores momentos do filme sejam os mais tristes, os 10% quase ao final. O casal vai chegando ao fim da viagem e a hora da separação se aproxima. Ela toma consciência do que sente e descobre que não quer chegar a seu destino. Observe como o filme muda. A fotografia fica mais escura, sem brilho, dura. Clark perde a agilidade, seu corpo fica pesado. Sentimos na alma a dor de um amor que nasce errado. Eles brigam, óbvio. O filme tem de desabar. Ficamos com raiva. Mas é tudo plano de Capra. Quando o final feliz acontece não nos sentimos enganados, nos sentimos vingados. Tem de ser assim. O fim tem de ser feliz. Não haveria outra possibilidade.
   Quando comecei minha coleção de DVDs, já 15 anos atrás, Frank Capra foi um dos últimos dos grandes que assisti. Eu tinha imensa má vontade com ele. Isso porque nos anos 70, quando comecei a ler jornal, críticos de cinema diziam ser ele um direitista quase fascista. Já gente como Rubens Ewald Filho dizia que Capra era um maravilhoso defensor da democracia americana. Direitista, liberal, usando seus filmes para afirmar o valor do individuo contra o sistema. Seguindo a maioria eu o queimei. Como queimei Hawks, McCarey e Ford, todos "de direita". Nos anos 80 essa bobagem se desfez e um diretor passou a ser medido pela sua obra e não por seu engajamento. Mas ficou um resquício em mim. O nome Capra me dava uma sensação de filme velho, piegas, tolo. Que surpresa quando assisti este filme pela primeira vez! Era leve, alegre, jovial, otimista, e celebrava as pessoas comuns, banais, o tal povo.
  É um filme festa. E como tal ele nos adverte de que o homem pode ser um ser feito de esperança. De sonho. E acima de tudo, de fé.

O TESOURO DE SIERRA MADRE E A ARTE COMO SIMBOLO DE VIRILIDADE

   Nunca mais teremos alguém como John Huston. Ou Humphrey Bogart. Eles, assim como Heminguay e John Ford, são homens fora de moda. Figuras patriarcais. Interessante observar que Cary Grant é um modelo perfeitamente condizente com os tempos de hoje. George Clooney sabia disso e seguiu o modelo até onde pode. Spencer Tracy cabe em 2020. Mas John Wayne jamais. Scott Fitzgerald é admirado como homem sensível. Henry James como personalidade complexa. Mas Mark Twain não.
  Roger Scrutton defendia a caça à raposa, esporte que eu considero absurdo. E temos um presidente que defende armas como garantia de liberdade civil. Eu vivi nos anos 70, época em que se comprava um 38 na Mesbla. A liberdade não era maior por causa disso. Mas... há sempre um "mas" não é?
  Scrutton estava longe de ser um idiota e ele sabia que tudo era uma questão de símbolo. O simples fato de se ter a liberdade de caçar ou de se ter uma arma, de forma aberta e clara, é uma afirmação de poder, e portanto, de liberdade individual. Toda a constituição americana se baseia nisso. E se nas democracias inglesa e japonesa não há essa garantia, isso se deve ao fato de que lá nem polícia e nem bandidos possuem armas. A igualdade é plena. Uma das características do artista viril, o tipo que hoje é impossível, é o fato de ele ter sempre uma arma por perto. Cary Grant muito raramente usa uma arma. Muito menos posa com uma.
  Uma das várias armadilhas em que a esquerda se colocou é a questão das armas. Ao se feminilizar, eles chutaram as armas para longe. E esqueceram assim, pasmem, que homens como Heminguay e Huston foram de esquerda. E que tanto Fidel como Che Guevara, Mao e Stalin, estavam sempre armados. Não se faz revolução sem armas. O que se faz é perfumaria.
  Eu sou muito mais Cary Grant que John Huston. E não é surpresa nenhuma o fato de nenhum dos dois jamais ter cogitado em trabalhar juntos. Mas eu adoraria ser John Huston. E fosse eu um diretor de cinema, amaria ter tido a capacidade de fazer um filme como O Tesouro de Sierra Madre. Ele tem toda a virilidade que Clint Eastwood procurou por toda a vida. E é seco, duro, direto como Tarantino jamais conseguiu ser.
  Três fracassados, no México dos anos 1920, partem para a busca de ouro. Nada mais que isso. Nada de romance. Nada de diálogos bacaninhas. Nada de filosofia barata. É sobreviver. Sair da merda. Como voce reage? Com o fígado. Entra na coisa em dois minutos de filme. Huston te fisga. E pronto.
  Bogart tem a maior atuação de sua vida. Faz de um tipo banal um ser humano completo. Walter Huston cativa como o velho minerador. É uma performance icônica. A gente sente que o filme foi feito entre goles de tequila e baforadas de charutos. Ele transpira virilidade. É arte. Do mais alto nível. Mas infelizmente é um filme inviável hoje. Duvido que muita gente ainda o assista. De Huston andam vendo muito mais os filmes problema: aqueles sobre Lautrec, Freud e o que tem Marlon Brando.
  O cinema viril de hoje é sempre uma caricatura. Não exibe homens patriarcais, são na verdade adolescentes brincando de bandido. São filmes às vezes deliciosos, como os primeiros de Guy Ritchie ou os melhores de Tarantino. Mas são fantasias de adolescente. São homens como garotos imaginam que homens são. Não são pais. São filhos.
  Sem as figuras guias, os modelos de masculinidade, nossa sociedade se torna cada vez mais aquilo que ela já é agora: um mundo de filhos sem rumo. Filhos de 20, 40, 60 anos de idade. As mulheres, obrigadas a fazer papel duplo, provedora e mãe, arcam com uma responsabilidade desumana. E enlouquecem. Homens que fogem da vida e mulheres que brigam com a hiper realidade da natureza. Nunca os dois estiveram tão distantes.
  Fui longe não é? Divaguei. E provavelmente falei muita asneira. Coisa de homem falar asneira. Mas eu digo que às vezes falta na vida um John Huston que grite com a gente. E fale: Garoto! Se joga nesse lago gelado e cura essa gripe na marra! Deixa de frescura e vai logo se alistar na porra dessa guerra. A guerra é a pior merda do mundo, mas voce não pode se omitir. Garoto! Vai até essa menina e fala logo o que voce quer. Se ela não quiser azar o dela e bola pra frente. E por favor, come esse bife e deixa de pensar na morte da bezerra! Shit!

AINDA EXISTEM TOM SAWYERS NO MUNDO

   Releio Tom Sawyer.
   Se voce nunca leu não sabe o que é infância. Sim, ele é do século XIX. Mas que alegria! Lendo-o percebo que na escola onde trabalho ainda existem dois ou três Tom Sawyer. É aquele menino que inventa. Que cria e crê. Que foge. Faz e depois pensa. E que também tem pontadas de melancolia, como se uma voz lhe dissesse que tudo vai acabar. Eu sempre me ligo à esses alunos. São brilhantes. Mas podem se perder facilmente. A sorte cumpre um papel imenso na vida deles.
  Ler o livro é como comer o doce que voce mais gosta. Leitura banquete. Voce se pega lembrando de tudo o que pensava, sentia e fazia aos 12 anos. Como o mundo era pequeno e imenso, horrível e sedutor, aborrecido e fantástico. Cada manhã era um: E agora? Mesmo que todas fossem iguais. Sim meus queridos, eu brinquei de pirata e procurei um tesouro. Eu acreditava que havia um segredo atrás de cada parede e uma arca debaixo de cada quintal. Tudo era vivo, inclusive este livro que guardo a já 50 anos.
  Não deixem que os Tom Sawyer de hoje sejam chamados de hiper ativos. Permitam que ele pule os muros e construa jangadas. Um mundo sem eles é planeta frio. E já que não há mais Mark Twains que haja ao menos seus moleques.

CASABLANCA E O COMPLEXO DO BESOURO

   Alguém já te perguntou se voce gosta do sol? Não de sol, do sol. É uma pergunta logicamente absurda. Isso porque sem o sol nada de vida por aqui. E portanto, nem mesmo essa questão seria possível. Mesmo assim voce tem todo o direito de dizer EU NÃO GOSTO DO SOL. Não faz sentido, mas talvez voce esteja querendo ser nonsense. Provocar.
  O que podemos inferir então é que não há como perguntar se voce gosta do sol. Pois só poderão existir duas respostas. A- Sim, pois sem ele NADA do que eu gosto existiria. Ou B- Não. E esse não anula a si mesmo, pois sem o sol nem mesmo a palavra não teria sido criada. Então corrijo o que disse acima e digo que só há uma resposta cabível: sim, eu gosto do sol. Pois o não é apenas um ato de nonsense. Inconsequente e sem lógica alguma.
  Digo então que perguntar se voce gosta de Casablanca te joga no mesmo beco sem saída. Temos duas respostas, sim ou não, mas, ao contrário de 99.99% dos filmes, todo sim parecerá suspeito e todo não será mais suspeito ainda.
  Ao dizer sim, eu gosto de Casablanca, imediatamente parecerá que voce diz apenas o óbvio. Casablanca é um clássico, e como tal, é um tipo de sol. Se eu for adiante e perguntar o porquê, voce dirá que é por causa de Bogey. Ingrid. O roteiro. A fotografia aveludada. Os coadjuvantes. E até por causa de as times goes by. Tudo isso será tão banal como dizer que voce gosta do sol porque ele é quente. Mas, pior ainda será dizer que voce não gosta de Casablanca. Imediatamente será constatado que voce quer apenas causar um erguimento de sobrancelhas. Se eu perguntar o porquê, a resposta será óbvia: Casablanca é superestimado. AS PESSOAS FINGEM GOSTAR DELE. Vemos aí o hiper nonsense. Aquele que diz que SE EU NÃO GOSTO DE ALGO, NINGUÉM MAIS PODE DISSO GOSTAR. A NÃO SER QUE MINTAM.
  Faço todo esse texto para dizer que Casablanca, assim como 2001, não pode mais ser analisado. Não porque haja algum tipo de empecilho, mas sim porque toda análise estará poluída por dois desejos: ser diferente ou demonstrar amor à história do cinema. Então melhor ser lógico e dizer assim: Casablanca é como um sol. Gostar dele é gostar do óbvio, pois é um filme tão conhecido, tão influente, que tudo o que veio depois é resultado de sua existência. Seja o negando, seja o adorando. Portanto não se coloca se voce gosta ou não, muito melhor perguntar como voce REAGE à ele.
  Chamei de COMPLEXO DO BESOURO porque nada é mais claro que os Beatles. Conhecidos como o sol, eles são amados e odiados de um modo sempre ilógico. Sem eles não haveria a ideia de BANDA. Haveria o que havia antes: cantores e seus grupos. Ou grupos vocais. Bandas que tocam e compõe é invenção deles. Portanto se voce vive ouvindo bandas e diz: Odeio Beatles, bem, seria como comer alface e falar: odeio o sol. Ilógico.
  Isso faz com que criticar sua música seja sempre um ato suspeito. Então, melhor calar.

HOUVE UMA TARDE NOS ANOS 70 ( SOBRE MEU PRIMEIRO VERDADEIRO LIVRO )

   Antes houve O Zorro. Capa preta com uma ilustração de Guy Willians, o Zorro da série Disney na TV. Mas não foi meu primeiro livro de verdade. A filha da minha madrinha, Lena, o deixou em casa. Já usado, meio amassado. Depois houve Renard, A Velha Raposa. Esse dado para mim por minha madrinha. Mas eu não o escolhera e ele já vinha rabiscado. Também era usado.
   Agora não! Este eu pedira para meu pai, e ele o encomendara ao dono da banca de jornais que ficava em frente á padaria. Meu pai era o proprietário da padaria, e um dia ele chegou. Meu primeiro livro! A capa roxo escuro com uma pintura de um navio e um bote ao lado. A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson. Rapidamente arranco o plástico transparente e recebo nas narinas o perfume que nunca mais sairia da minha memória. Uma mistura de tinta fresca, papel e cola. O cheiro de livro novo. Eu tive a sensação de que ele estava quente ainda, parecia pão saindo do forno. Me deitei no sofá e comecei a ler, em voz alta, para meu irmão, que aos 6 anos ainda não conseguia ler.
  Black Dog, Long John Silver, Jim Hawkins, a cidade de Bristol, a hospedaria Benbow. Tudo isso grudou na minha alma. Como grudou o navio, o nome de cada vela, de cada corda, o mapa do tesouro, o papagaio. Enterrei um tesouro no Caxingui. Não sei onde. Tentei fazer um navio usando paus, latas e uma mala de viagem de papelão e couro. Várias lutas de espadas com meu irmão, e a certeza de que meu quarteirão era uma ilha. Quando muito jovem, voce não lê um livro, voce não pensa que alguém escreveu aquilo. Voce assiste uma história que acontece na sua cabeça. Mais real que tudo que o cerca.
  Relendo hoje, tenho consciência de que aquilo é Stevenson. Um escocês viajante, que Borges considerava o melhor narrador da história. Stevenson viajou pelos mares do sul, foi o primeiro europeu a falar de surf. E note bem, ele não é, nem quer ser, um artista. Ele é um narrador. Seu objetivo é descrever e desenvolver. Te envolver. Fazer com que voce se sinta lá, onde acontece a ação. Eu não poderia ter começado em melhor companhia. Por isso é amor eterno.

O GRANDE ACORDO FEITO NOS ANOS 80

   Acompanho vários grupos de direita nas redes sociais. A maioria mal sabe o que seja conservadorismo. Os membros variam entre um anti socialismo difuso e um liberal capitalismo histérico. Não é diferente nos grupos de esquerda. Quase todos querem o melhor do capitalismo com um leve verniz de "bondade social", seja lá isso o que for. Nos grupos de direita, apenas uma vez encontrei alguém que falou a mais profunda das realidades, ele tocou no grande acordo feito nos anos 80. O acordo que selou o fim da história.
  Explico isso agora, ok?
  Até os anos 70, ser comunista era querer o fim do capitalismo. A Sony ou a Ford seriam tomadas pelo Estado. Operários assumiriam as fábricas. Todo cidadão seria um funcionário do estado. Para atingir esse fim, era usada toda tática possível. Terrorismo e sabotagem faziam parte. Mas vieram os anos 80, época de Thatcher, Reagan e João Paulo II. E houve um acordo geral, o tal do final da história de que falava Fujyama. O mundo, em quase sua totalidade, seria um meio termo, nem conservador, nem socialista. Revoluções e mudanças radicais seriam eliminadas do mapa mundial. A direita caberia aceitar o liberalismo de costumes e o ateísmo dos socialistas light, e a esquerda, em troca, nunca mais falaria em estado totalitário. A agenda da direita liberal incorporaria valores como ecologia, feminismo e igualdade racial, e a agenda da esquerda eliminaria de suas aspirações a estatização de bancos e de fábricas. A esquerda iria começar a tolerar a democracia burguesa. Havendo esse acordo, todo conflito entre os dois campos seria apenas sobre hábitos e costumes, e nunca mais sobre economia e poder. Nas eleições, vencendo a direita, a única novidade seria uma menor tolerância a aborto ou drogas, vencendo a esquerda, menor tolerância a armas ou individualismo radical. Pura perfumaria. O Sistema estaria sempre seguro.
  Não é necessário te dizer que nesse mundo, grandes empresas como Microsoft ou Bayer, podem ter uma postura de esquerda. Vende bem entre jovens e é uma posição segura, suas empresas jamais serão do estado. Hoje, todo grande capitalista venderá uma imagem de esquerdista se for esperto, falará em proteger o ambiente e diante da imprensa irá atacar o direitista da hora. Já os esquerdistas, facilmente iludidos, acharão cada vez mais que ser de esquerda é apenas defender negros pobres e apoiar o aborto. Não percebem mais que tudo isso está inserido dentro do grande capital. Droga liberada, festinhas de arte e mulheres poderosas dentro do Sistema de lucro e venda. Sem perigo nenhum. O Itaú adora.
  Comunistas tradicionais não têm vez nesse mundo. Assim como conservadores verdadeiros. Os comunistas esperam uma revolução que jamais virá. E querem crer que as ditaduras militares de Coreia e China são um tipo de comunismo. Já os conservadores, fatalistas por natureza, sabem que seu tempo passou. Insistem em se fazer ouvir, mas percebem que sua mensagem não agrada quase ninguém. Porque ela fala em deveres e obrigações. Não em desejos.
  É um mundo que desistiu de mudar. E que muda sem cessar. Muda em aparência. Muda para mudar cada vez menos. Por isso não espere um novo mundo pós epidemia. Farão propagandas lindas. Falarão da paz universal. E venderão produtos capitalistas como nunca.

MÃE X FILHA. THE BIRDS, UM FILME TERRÍVEL DE ALFRED HITCHCOCK

   Há uma corrente crítica que diz que este filme é sobre a frigidez da personagem de Tippi Hedren. Acho isso absurdo. Pois é ela quem sexualiza todo o filme. Como todo grande filme, The Birds nos mostra algo de novo a cada revisão. Ontem eu o revi e percebi algo não notado antes: É uma guerra entre mulheres. E as duas, fêmeas lutando pela posse do personagem de Rod Taylor, invocam a mãe natureza. Os pássaros são os soldados dessa luta cruel.
   Tippi é uma menina rica. Visitando uma pet shop, ela conhece Rod, que lá foi para comprar um casal de Passion Birds, nome em inglês de periquitos. Ela o seduz ostensivamente, tanto que viajará 150 km para lhe entregar o casal de passarinhos. Ao cruzar de barco o canal que a levará à casa dele, o primeiro ataque: uma gaivota bica sua testa. Começa a guerra.
  A mãe está na casa, e desde a primeira cena vemos a raiva em seu rosto. As duas se odeiam. Sentimos o ar pesar. Jamais se atacam explicitamente, não precisam, há os pássaros. Uma cena perturbadora: após o primeiro ataque á casa, a mãe recolhe cacos de suas xícaras do chão. Meticulosa, ela tenta recuperar a ordem perdida. Voltar ao estado anterior. A namorada do filho a observa. No rosto, desprezo, raiva, nojo até. Hitch, sempre esperto, não foca a cena nelas. Rod Taylor fala sobre o ocorrido, mas a câmera, como quem não quer nada, observa as duas.
  O filho vive entre mulheres: mãe, agora uma namorada, a irmã, e uma professora. Muitos filmes de Hitchcock têm mães dominadoras. É sabido que havia um problema entre ele e a mãe. The Birds, feito logo após Psycho, é o mais feroz exemplo de sua neurose. E ao mesmo tempo, é um filme POP. Divertido. Assustador. Um sucesso nas sessões pipoca. Por isso Hitch é único.
  O filme tem duas cenas profundamente eróticas. Na primeira, Tippi Hedren é atacada numa cabine telefônica. Os pássaros se chocam, ferozes, contra o vidro. Tentam perfurar seu corpo. Ela se contorce. Na segunda cena, já ao final, os pássaros a atingem. Ela é bicada por todos os lados. Enquanto sangra, ela geme, e em meio aos gemidos, murmura o nome do namorado. Ela geme o nome como quem goza. Hitch consegue o impensável: uma cena de masoquismo, de sexo pervertido em 1963. Os censores viram apenas violência sem sentido. Nós entendemos o que aquilo é. Não é à toa que Bunuel gostava tanto de Hitchcock. O inglês fazia o mesmo que o espanhol. Sem deixar de ser POP.
  É um filme perturbador. Não tem trilha sonora. O filme inteiro não se beneficia do clima que a trilha sonora dá. A história é quase nada. O roteiro, simples, talvez o mais simples de toda sua vida. E mesmo assim o filme é grande, vasto, imenso.
  No final, Tippi Hedren é carregada por Rod Taylor. Os dois andam com a mãe e a irmã em meio aos pássaros que os observam. Não sabemos se eles sobreviverão. Não sabemos o porque dos ataques. Mas veja: a mãe não tem um só ferimento. E a namorada, talvez esteja morta.
  O filme termina assim, inconclusivo. Lembro que quando o vi pela primeira vez, criança ainda, TV Tupi, minha mãe ficou brava com esse final. Eu tremia de medo. Nunca tive tanto medo vendo um filme.
  Hoje eles gravariam cenas dos pássaros entrando no ânus das pessoas. Ou comendo seus miolos. Anestesiados por anos de violência televisiva, nossas reações estão cada dia mais enterradas. Em 1974 eu era uma corda de violino. O vento me fazia vibrar. Genial, Hitchcock lidava com nossas cordas usando dedos de solista.
  The Birds é um terrível pesadelo.

O LIVRO QUERIDO

   Eu gostava era da Bagdá Books. Foi meu primeiro sebo.  Fechou as portas em 2004. É meu favorito até hoje. Sou fiel. Ficava no Itaim, na Joaquim Floriano. Vitrine, fachada de tijolos. Longo corredor atulhado de livros. Logo na entrada, à esquerda, uma estante cheia de edições de Shakespeare. Enormes Cervantes ilustrados. Milton e Chaucer. Por ser um sebo antigo, muitas edições raras, edições que o dono mal dava valor. Foi lá, que em 1992, comprei uma edição de peças de teatro de William Butler Yeats. Capa dura, o livro estava bem judiado. Cinco peças com um mini biografia do autor, por Franck Kermode. Lembro de o ler sentado ao quintal, sol fraco, em duas tardes de maio.
  Abro esse livro hoje, quase 30 anos depois. E percebo que suas frases estão gravadas na minha alma. São filosofias, frases que me guiam, que repito em pensamentos todo dia, frases tão "minhas" que já não sabia serem elas "dele". Eu vejo que anotei todas as vezes que o li e reli: 1994, 1996, 2008. Não vou falar da biografia de Yeats pois contei sua vida em algum outro post aqui neste blog. Mas as peças...Yeats apresentou quatro delas no Abbey Theatre, a famosa casa de Dublin que ele e Synge ajudaram a fundar. Outras duas foram apresentadas no castelo de Lady Gregory para os amigos. O ideal de Yeats era aristocrático. Teatro que não tivesse por alvo o público e muito menos a crítica. Teatro feito para ele e seus amigos, peças para vinte pessoas. Yeats brigou pela independência da Irlanda, foi senador, copilava contos folclóricos do país, estudava a cultura celta, mas sempre foi um aristocrata do espírito. Simbolista, saudoso, e ao mesmo tempo modernista.
  As peças conseguem nos fazer entrar em outro mundo. Fantasmas surgem nelas como fossem uma visita comum. Almas dos mortos continuam a agir sobre a vida das pessoas. Aparições, sensações, maldições. É um mundo remoto, e ao mesmo tempo, ele parece estranhamente vivo. Seriam imagens de nosso inconsciente?
  A linguagem é simples. Toda poesia de Yeats é de sintaxe e vocabulário claro. Cinco personagens no máximo. Um cenário quase nu. Meia hora de duração. Sem nada de dramático, são peças quase silenciosas, equilibradas, plácidas. Não existem grandes frases, discursos, cenas violentas. O destino se cumpre. O certo acontece. O fim chega.
  A mais bela fala da morte de um herói. Que não acontece. Há outra sobre uma fada má que tenta uma jovem esposa. Marujos amaldiçoados no mar. Um espírito que baixa numa vidente. É um mundo além. Fora daqui, Fora daí, onde voce está. E ao mesmo tempo conhecido. Com poucos meios e poucas palavras, Yeats cria algo muito raro. Uma presença.

THE THIRD MAN - Official Trailer - Restored in Stunning 4K



leia e escreva já!

O TERCEIRO HOMEM. É ELE O MELHOR FILME INGLÊS DA HISTÓRIA?

   Ele tem sido eleito neste século o melhor filme britânico da história. Breve Encontro, de David Lean é seu concorrente direto. O Terceiro Homem foi dirigido por Carol Reed. E se voce não sabe, nas décadas de 40, 50 e 60, ele é tão poderoso quanto Lean. Já assisti quase todos os seus filmes. Sempre são bons, e às vezes impressionantes. Em 1968 ele ganhou Oscar de direção pelo seu pior filme, OLIVER. Eu acho que a crítica nunca o perdoou por ter derrotado Kubrick e 2001 nesse Oscar. Carol Reed foi meio que exilado das citações críticas. E O TERCEIRO HOMEM passou quase, que idiotice!, a ser considerado um filme de Orson Welles!!!! ( Uma tese idiota e puramente política. Orson faz um papel. E só isso. Em 1949, ano do filme, ele já estava em baixa. O roteiro é de Graham Greene, um dos mais fortes e famosos escritores da Inglaterra, o diretor, Reed, era um dos reis do cinema inglês. Onde eles deixariam Welles meter o nariz no filme? ). Além do que, a famosa fotografia deste filme, de Robert Krasker, fotografia que é das mais bonitas já feitas em preto e branco, bem, esse estilo de fotografia é o estilo presente em 70% dos filmes ingleses da época. A Inglaterra dos anos 40 tem a fotografia de cinema mais fascinante de seu tempo. Krasker, Jack Cardiff, Otto Heller, Oswald Morris, Ronald Neame, todos usam sombras, névoas, umidade, como em nenhum outro lugar.
  O filme se passa em Vienna, no imediato pós segunda guerra. Um americano, Joseph Cotten, veio encontrar um amigo, Orson Welles. Mas esse amigo está morto. Ou não? Pra não estragar o prazer do roteiro genial, não conto mais nada. Há no filme doses imensas de tragédia, maldade, tudo com o cenário de uma cidade em ruínas, um povo faminto, noites geladas, desconfiança geral. Foram à Vienna filmar tudo, usaram toda avenida bombardeada, cada beco sujo, hotéis suspeitos, e até o esgoto imenso. Orson Welles é talvez o mais odioso vilão já visto, e Cotten o mais ingênuo doa americanos. Temos ainda Alida Valli como uma tcheca fatalista e Trevor Howard como o inspetor inglês, uma ilha de bom senso em um universo de desespero.
  Carol Reed não comete um só erro. É daqueles filmes perfeitos, tudo exato, nada demais, nada de menos. Cenas que se sucedem, esteticamente magníficas, mas jamais bonitas, mais que isso, são fantásticas. É uma obra prima e um dos mais belos filmes que assisti na vida.
  Será o melhor filme inglês? Claro que não. Ou claro que sim. Como saber? Temos uns 10 filmes que merecem essa posição. Escolher um é trair os outros. E de traição, basta este filme.

A MÍDIA CERTA

   Não sei se alguém fez a pesquisa, mas é imenso o valor de um DVD. Agora que ele é uma mídia totalmente ultrapassada, digo, sem medo de errar, que ele foi até agora, o melhor meio de se ver um filme e principalmente se aprender sobre o cinema.
  Acompanho vários grupos de Blu Ray, e apesar da vantagem de som e imagem, todos reclama dos extras. Eles simplesmente não existem. Ou são raros. Quanto às formas como se vêm filmes na Netflix, bem....nela não existe sequer o pensamento de se educar alguém;
  Pois veja...acabo de pegar meu DVD de NORTH BY NOTHWEST de Hitchcock, para rever. Não recordava que eram dois discos. No disco um temos o filme. No disco dois: Documentário sobre Cary Grant. Hora e meia sobre o ator com depoimentos de Peter Bogdanovich, Martin Landau, diversos críticos, tudo narrado por Helen Mirren e Jeremy Northam. Depois um doc sobre Hitchcock. Hora e meia com participação de Camille Paglia, Curtis Hanson, Guillermo del Toro, William Friedkin, Scorsese, Francis Lawrence, e mais um bando de roteiristas e críticos. Acabou? Não. Temos ainda um doc sobre o filme em si e ainda um making of. Qual o valor de toda essa informação? O quanto aumenta para um novato o prazer em ver o filme? Saber o que ele é e o que significa.
  A cultura do DVD criou uma geração de cinéfilos jovens, muito bem informados. Um povo que tem hoje por volta de 40 anos. Esta geração dos anos 2000, gente com 20, 22 anos, está sendo jogada aos filmes em nenhuma informação. Sim, voce pode pesquisar e achar tudo isso na rede. Mas se voce não faz ideia de quem seja Cary ou Lehman, o roteirista do filme, a chance de voce pesquisar é zero. O DVD te dava a informação ao lado do filme, na mesma mídia e no mesmo aparelho. Era cultura E prazer.
  Uma pena.