OSCAR OLHO

  Uns 4 anos que o Oscar pouco me importa. Até hoje não sei quem ganhou o prêmio em 2019 ou 2018. Não é esnobismo. Apenas a constatação de que aquela não é mais a minha turma.
  Envelheci. Graças a Deus sobrevivi. E aquela gente me parece tão distante de meu mundo quanto um aborígene é distante de um inglês de 1900. Olho para seus rostos e sinto que eles são de uma outra galáxia. Nada neles me agrada. Vejo-os como bebês de foca. E eu sou um leão marinho.
  Se vestem mal. São fofos, bonzinhos, e completamente assexuados. Engraçado quase ninguém ter notado que a liberação absoluta do sexo fez com que o erotismo morresse. Eros vive na diferença e sem a aceitação da diferença ele se desfaz. Mas estou divagando...O Oscarolho não tem mais estrelas que nos fascinam. Apenas caras legais. Legais ao ponto de serem comuns. Vivemos a era do cara comum. Ser uma estrela cheira a fascismo, não é?
  Olho para aquela plateia e vejo todos iguais. Não há individualidade. Todos comem tofu. Todos lutam pelos índios. Todos fazem filmes com belas lições de moral e de humanidade. Brad Pitt nada tem de bonzinho. Mas lá, no Oscarolho, vigiado, faz de conta que ele é tão fofo como todos os outros.
  Se agradece a papai e mamãe. Se fala correndo. Se ajoelha diante de Meryl. Ninguém perde. É um mundo onde ninguém vence, apenas o Oscar vai para alguém. Como se fosse por acaso.
  Sem Jack. Sem Warren. Não importa mais.
  O Oscar é um prêmio da MTV para gente cinco anos mais velha. Tou fora.

Beat the Devil Trailer



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EU QUERO SER AMIGO DESSE CARA! BEAT THE DEVIL.

   Uma das coisas mais chatas de 2020 é que, apesar de ainda admirarmos alguns artistas, são poucos, ou quase nenhum, que adoraríamos passar ao lado três meses de férias bancadas por eles mesmos. Admiro Tarantino, mas não teria saco pra ficar 12 semanas vendo filmes dos anos 70 e conversando sobre artes marciais. Scorsese não me parece muito divertido e Wes Anderson é do tipo que me proporia brincar com trenzinhos. Muitos passariam esses meses de férias drogados e outros em clínicas de repouso. Talvez fosse divertido passar esses meses com Coppola na sua vinícola. Ou com Clint Eastwood. Posando de cowboy em Carmel. Mas não me parecem boas companhias. Os filhos chatos de Francis Ford logo iriam encher o saco e Clint deve estar cercado de enfermeiras.
   Três meses com John Huston seriam um sonho. Como era moda em seu tempo, artistas faziam coisas. Tinham a tal da "ansiedade por viver". Hoje há a tal "depressão por ter de estar vivo". John Huston criava atividades. Uma viagem ao Japão, caçar raposas na Irlanda, pescar no Pacífico, beber em Roma. Jogar em Cannes, andar pela França, ver toureiros na Espanha, nadar no Canadá. Ir em festas em Londres. E falir mais uma vez. Não importa, a vida é curta e só nos resta viver bem.
   Huston pegou uma grana de seu amigo, Bogart, e foi pra Itália em 1953 fazer Beat The Devil. Chamou Humphrey e ainda a big star Jennifer Jones. Mais Peter Lorre, Gina Lollobrigida, Robert Morley e botou atrás das câmeras Oswald Morris. Chegam todos na Itália prontos pra filmar. E descobrem que não há roteiro. A grana foi gasta com bebida, comida, hotel, jogo e mulheres. Huston chama um garoto de nome Truman Capote e juntos escrevem no hotel aquilo que será filmado no dia seguinte. O trabalho começa sem roteiro. Huston e Capote dão gargalhadas enquanto imaginam um bando de mentirosos tentando dar um golpe na Africa. Algo a ver com uranio. Bogart logo percebe que sua grana foi pro ralo. Briga com Huston e a amizade se desfaz. Os outros atores, sem terem posto dinheiro na coisa, aproveitam o sol italiano. O filme é lançado, a crítica odeia e o chama de lixo mal acabado e o público foge. Nos anos 80, três décadas depois, vira cult. É um dos meus 50 filmes favoritos.
   Demorou pra que eu gostasse dele. Só na quarta vez eu o aceitei. Na primeira achei-o chato. Na segunda incompreensível. Na terceira vi que era interessante. Na quarta me apaixonei. Ontem o revi. É uma  festa!
  Nada no filme é sério. Todos os personagens mentem uns para os outros. E Capote mais Huston mentem para os atores. A gente sente os dois rindo enquanto enrolam seus astros. É o mais malandro dos filmes. É sobre a mentira engraçada. É a alma de John Huston na tela.
  Três ladrões, Morley, Lorre e Ivor Barnard. Nunca no cinema houve um trio tão lamentável. Você ri olhando para eles. Lorre finge ser irlandês. Morley finge ser esperto. Ivor finge ser humano. Bogart é empregado deles. Finge ser Bogey. Jennifer mente o tempo todo. E finge para si mesma estar apaixonada por Bogey. Gina é a mulher de Bogey. Finge ser inglesa. E Jennifer tem um marido que finge ser rico. Pegue esses tipos e faça um roteiro. Minta para os atores. Minta para o produtor. Minta para o público que for ao cinema. E se divirta muito fazendo este carnaval em preto e branco.
  John Huston não foi o melhor diretor de cinema. Mas caramba! Não houve nenhum mais legal que ele.

HAJA EGO ORSON WELLES!!!!

   Lá vem o EGO gigantesco usando um ridículo sotaque irlandês. Orson Welles tinha uma vaidade tão imensa que ele só funciona quando sua personagem é tão ególatra quanto ele mesmo foi. Othelo, Macbeth, Kane. Aqui ele é apenas um marinheiro da Irlanda. Mas, claro, um marujo que dispensa grana e lutou na guerra civil da Espanha. E lá vai Orson com um sotaque irlandês grotesco se exibindo como rei da ética em um roteiro, dele mesmo, onde nada faz sentido algum.
  Casado na vida real com Rita Hayworth, que em 1948 era a maior estrela do cinema global, ele a coloca no filme apenas para poder ganhar dinheiro da Columbia, estúdio onde sua mulher era rainha. E faz este fiasco. Rita, mal utilizada, é uma vamp sem eira nem beira. Suas falas são banais e não cola a conclusão de sua personagem. Sem surpresas, tudo no filme é forçado.
  Ah! Mas o "pobre" Orson pode culpar o estúdio maldoso. Dá sempre pra chorar e dizer que a Columbia não deixou ele fazer o que queria. É por isso que admiro tanto Hawks e Huston. Fizeram o que queriam dentro dos estúdios e sem chorar nunca. Mas Orson...coitadinho! Tantos filmes ruins por culpa do meio que o massacrou...Bah! Não cola! Ele foi e é ídolo de quem se vê como "artista vítima do meio hostil", ou seja, 99% dos artistas medíocres e dos críticos que são cineastas frustrados. Orson era um ego inflado que só fazia coisas boas, Macbeth, quando o material era tão imenso quanto aquilo que ele imaginava ser.
  Lady from Shanghai poderia ser divertido se tivesse uma gota de humor. Mas Orson sempre se leva a sério. Então, essa sopa muito cheia de cebola, uma confusão de ricos neuróticos e um marujo que se vê dentro da vida deles, é uma chatice sem fim. De bom só a fotografia de Stanley Cortez. Aliás, Orson sempre soube que um bom fotógrafo salva metade de um filme. A outra metade um roteiro mal escrito e um ator egocêntrico se encarregam de aniquilar.

KIRK DOUGLAS

   Não havia ator melhor para expressar raiva. Raiva contida, raiva que explode. Seja fazendo um lutador de box, um escravo ou um cowboy, Kirk nos fazia admirar a raiva. Foi além de tudo, na vida pessoal, um inconformado. Além de desafiar proibições, comprou os direitos de UM ESTRANHO NO NINHO ainda nos anos 60, e se viu depois velho demais para o protagonizar. Seu filho Michael o produziu então. E foi o que foi.
  Kirk era bonito sem parecer delicado, fazia humor e jamais perdia a elegância e foi uma estrela sem perder a dignidade. Uma estrela...para quem chama atores como Benedict ou Adam de estrelas, chega a ser humilhação pensar em Kirk. Ele é uma estrela de 8 décadas! De um tempo em que uma estrela lotava salas independente de que filme fizesse. O nome no cartaz arrastava multidões. Estrelas de hoje não são assim. Mesmo Brad ou Leo dependem do tipo de filme que fazem. Seus nomes não garantem lucro.
  Meu pai adorava Kirk. E via qualquer filme que tivesse seu nome. Wayne, Kirk e Mitchum, esses eram seus favoritos. Douglas está no meu top dez. Seu filho Michael carrega um pouco de seu carisma. Mas só um pouco. Foi uma longa vida. Agora ele se une aqueles de seu tamanho: Bogey, John, Gary Cooper, Stewart. Burt Lancaster, com quem ele fazia uma dupla perfeita.
  Caramba! Eles eram gigantes...

Adam's Apple - Aerosmith - By DLSS84



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VOCÊ É AQUILO QUE VOCÊ LÊ, OU PORQUÊ EM 1975 A MELHOR COISA DO ROCK NÃO ERA PATTI SMITH MAS FAZIA DE CONTA QUE ERA.

   Ana Maria Bahiana. José Emilio Rondeau. Pepe Escobar. E Zeca Jagger ( Ezequiel Neves ). Zeca era o melhor. E eu amava o cara. Mas, Jeca que eu era, algo em mim, inseguro pra caramba, queria ser alta classe-intelectual. Então os outros críticos me diziam: O rock tá um lixo e só Patti Smith conta. Patti e Bruce. Mas muito mais Patti. Nos anos seguintes eles diriam que o Clash era a maior banda da história do rock e que Stones, Led, Dylan estava mortos e esquecidos. Bem....eu acreditei neles. Eu queria ser chique. Então me obrigava a escutar o que eles achavam relevante: Talking Heads. Gang of Four. Elvis Costello. Clash Clash e Clash.
 Zeca elogiava esses caras. Mas ele dizia, só ele, que os Stones estavam vivos e bem. Lendo os críticos cabeça, eu achava que o Led vendia uns 2000 discos e olhe lá. E que as paradas eram dominadas pelo Joy Division e Bow Wow Wow. Minha cabeça tava feita. Muito bem formatada.
 Bem mais tarde eu me informei melhor e vi que entre 1975 e 1980 o que mais vendia na Inglaterra era Queen e Iron Maiden, Dire Straits e bandas de ska. Elton John e das mais novas, The Police. Tudo o que eles mais desprezavam. E diziam, forçando a barra, que estavam no gelo, esquecidas. Estranhei quando em 1981 fui no Morumbi e vi 100 mil pessoas delirando com Freddie Mercury. Mas, eles tinha a resposta pronta: só no Brasil atrasado o Queen enchia estádio. Deus, quanta mentira! No Rock in Rio falaram que só aqui Iron e AC DC existiam. É 2020 e eles ainda lotam arenas. Já Nina Hagen e B 52s...por onde andarão?
 Fui enganado. Muita gente foi. Nos tempos pré internet, um jornalista era a lei. E se ele queria nos fazer crer que Bob Dylan já era ( em 1978 ), a gente engolia como fato. Elton John tava esquecido pelos fãs e relevante era Boy George. Pois é...
 Escrevo isso após ouvir de novo Toys in The Attic e dizer aqui e agora, sem vergonha nenhuma, que em 1975 o Aerosmith tinha lançado um disco perfeito. Toys não tem uma só faixa menos que ótima e em 2020 continua a ser um sincero convite à alegria, ao sexo e a sacanagem geral. Como diria Zeca, é descaralhante. Os críticos metidos nem se deram ao trabalho de ouvir. Estavam desvendando Van der Graaf Generator e Warren Zevon. Enquanto isso Joe Perry detonava riffs perfeitos e Tyler esburacava mentes e cinturas. E vendiam toneladas. Em 1975 era Aerosmith nos USA e Queen nos UK. Mas fazia de conta que não.
 O tempo mostra a verdade. 45 anos depois você sabe de quem o mundo lembra.
 PS: a melhor banda de 1975 era o Roxy Music. Os tais críticos nunca falaram do Roxy. Zeca sim. Uma crítica dele no Jornal da Tarde mudou minha vida.

HURRICANE, JOHN FORD. QUEM É O MELHOR DIRETOR DA HISTÓRIA DO CINEMA AMERICANO?

   A cada ano que o século XXI ganha, menos John Ford é lembrado. Politicamente correto, feminismo e anti-individualismo não casam bem com o cinema de Ford. Seu cinema é masculino. E elogia o indivíduo dentro da comunidade. Sim, a coisa é complexa. Ford ama o herói como ser à parte do mundo comum. Mas ao mesmo tempo, ele elogia a família, a pequena comunidade, e neste filme, a tribo.
  Produzido por Samuel Goldwyn em 1937, este imenso sucesso, tem efeitos especiais que ainda hoje não passam vergonha. Quando o furacão chega ele ainda nos emociona. Mas antes há uma história, e como o filme é de Ford, a narrativa é o centro e o motivo do filme existir.
  Há uma ilhota nos mares do sul. Nela vive uma tribo de nativos. E a França é a força colonizadora da ilha. Vemos a alegria da vida lá. Mas logo acontece um erro. Esse erro repercute em mais erros. E tudo sai de controle. O filme, que parecia ser apenas um agradável passeio turístico, vira uma tragédia sobre a injustiça e por fim uma aventura típica dos anos 30 : ação pacas.
  Jon Hall é o herói. O bom selvagem. Corta o coração ver o quanto ele é vítima da civilização. Dorothy Lamour é sua esposa. O vilão é Raymond Massey, ou seja, um vilão odiável. E temos ainda Thomas Mitchell fazendo um médico bêbado e desiludido e Mary Astor como a esposa do vilão. Não é preciso dizer que todos estão ótimos. Hollywood em seu sistema de estúdios errava pouco em casting. Cada ator fazia seus 3 ou 4 filmes por ano e se especializava em um tipo de personagem. Virava dono do tipo. Ver esse filme hoje é uma experiência invulgar. Começa devagar, mas em 10 minutos voce já está dentro da fantasia.
  Quanto ao melhor diretor americano...Creio que hoje Orson Welles ganharia se a eleição fosse entre críticos e cineastas. Talvez até mesmo Hawks ficaria à frente de Ford. Entre o público, os mais informados talvez votassem em Scorsese. Ou Copolla. Já o resto elegeria Fincher ou Tarantino. Ford não.
  Não me arrisco a votar. Ao contrário da Inglaterra ou da França, onde as escolhas são mais fáceis, os EUA têm tantos cineastas que viveram dez ou vinte grandes anos, que fica duro escolher.

UM FILME RELEMBRANDO UM PASSADO QUE NUNCA HOUVE

   Pra muita gente nos EUA, o melhor filme de Richard Linklater é ainda o primeiro que ele dirigiu, este DAZED AND CONFUSED. Eu o vi pela primeira vez em 1998, na TV. Me causou espanto um filme tão despojado conseguir me seduzir. O tema é simples ao extremo, fala do último dia de aula de um grupo de alunos em 1976. Mas, ao contrário do que se espera, não é mais um filme piada, sobre jovens tarados ou nerds azarados. Ele procura ser "vida real". Não é engraçado, mas também não é drama.
  Revi este filme mais duas vezes já neste século. Sempre gostei. Muito. E ontem, mais uma vez, visitei aquele grupo de jovens. Estranho eu nunca ter notado o que notei ontem...
  O filme se passa no dia 28 de maio de 1976. A trilha sonora, excelente, tem Foghat, Alice Cooper, War, Dr. John, Kiss, Aerosmith ( era a nova banda do momento ) e um soberbo etc. As roupas são corretas: jeans muito justos com bocas muito largas, camisetas curtas, cabelos sem corte. Os carros estão lá: Fords e Chevys imensos. Mas...NÃO É UM FILME SOBRE 1976. É UM FILME SOBRE OS ANOS 90. Assim como o último filme de Tarantino se passa em 1968, mas fala sobre 2019, este filme de Linklater, visto hoje, nos dá saudade de 1995 e nos transporta ao dia 26 de maio de....1996.
  Quando ele começa eu logo penso: Não estou gostando mais deste filme...1976 não era assim...não havia tanta maconha...as pessoas não eram tão politicamente corretas....as gírias eram outras...e esses atores são velhos demais para esses papeis!!!
  Sinto um certo desconforto. Tudo parece fake. Isso dura cerca de 15 minutos, mas então a poesia seca do filme reaparece, e eu volto a gostar do que vejo. O filme é tão banal, tão simples, tão sincero, que não há como não se deixar pegar. Mas um novo ponto de vista se instaura: Por mais que Linklater queira falar sobre 1976, ele está nos anos 90. Não há como situar-se lá outra vez. E se vemos filmes realmente feitos em 76 vemos que nada se parece com Dazed and Confused. Há aqui a consciência de se estar em 90. Olha-se para 76 com um carinho que em 1976 não havia. Peter Frampton era brega. Era odiado. Hoje ele é cool.
  O filme é bom. É ótimo. É o American Graffitti da sua época. Os caras bebem cerveja. Beijam. Andam de carro. E fumam maconha. Ben Affleck, Mila Jovovich, Parker Posey aparecem no filme. Mas quem o rouba é Mathew McConaughey. Voce ouve ele falar "All Right", é basicamente sua única fala, e sente que uma estrela nasce ali. Ele faz o papel do cara que largou a escola pra trabalhar. Mega cool, é um texano que jamais fica nervoso e nunca tem pressa. Vence no bilhar e ganha as meninas. Mas parece não estar nem aí pra nada.
  Os anos 90 foram uma tentativa, feita por uma geração nascida entre 1962-1972, de reviver a década de 70. Tanto o rock de Seattle, como as bandas inglesas tipo Supergrass ou Blur, procuravam recuperar aquilo que eles imaginavam ter sido a década do hedonismo. Filmes de caras como Soderberg ou Tarantino bebiam na fonte do cinema B de 1971. Revisto ou escutado hoje, nada dos anos 90 lembra os anos 70. Nem mesmo o Aerosmith de 1998 se parece com o Aerosmith de 1978.
  Dazed and Confused é uma das mais bonitas tentativas de dar vida a um tempo que só existiu na imaginação saudosista. Os anos 70 são Tony Manero entrando numa disco. E se esse personagem de John Travolta for visto como cômico ou heroico...bem...é sinal de que a coisa se perdeu.

JACK WHITE E SEU LAZARETTO

   O disco é ótimo. Rock cheio de garra etc etc etc. Criativo. Mas não é sobre isso que eu quero falar. Espero conseguir falar com clareza. Vamos lá.
  Jack sofre a mesma influência que eu sofri: um cara branco que cresceu ouvindo rock tradicional e ao mesmo tempo punk e tudo que foi criado nos anos 80 em diante. É um caldeirão imenso que se inicia com o blues rural e chega ao eletrônico. Um cara com uma cabeça boa recebe toda essa influência, não há como ser diferente. Isso é ótimo, mas há um lado perverso nessa história. O medo de ser comum.
  O disco, Lazaretto, tem composições excelentes, é rock pesado, é blues, é country. E em todas essas faixas, Jack White dá um jeito de as destruir. É como se ele lembrasse dos milhares de discos ouvidos e pensasse: Opa! Esta canção tá muito comum! Vamos inventar! ...Então o que ele faz? Quebra a melodia com barulho, dá um break e insere ruídos estranhos, destrói a harmonia, desfaz o refrão. Há um motivo para isso. O desejo de usar tudo aquilo que se ouviu, todas as influências, todo o ambiente.
  Fazer rock, hoje, é uma luta perdida contra o plágio. É quase impossível compor rock sem que se perceba de onde aquilo foi chupado. Geralmente de forma inconsciente. Quando o autor é ambicioso, ele tenta bravamente obter alguma originalidade. Então insere elementos de funk, jazz ou rap. Mas mesmo essas misturas já são datadas. Então que se faça ruído. Que se quebre a linda canção country ou o blues rural. Mixagem torta. Corte absurdo.
  O disco é lindo.

On Her Majesty's Secret Service (1969) - Official Trailer - George Lazen...



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JAMES, JAMES BOND: UMA QUESTÃO DE MÚSICA

   Andei revendo os 10 primeiros filmes de James Bond. Todos são pelo menos divertidos, alguns se tornaram icônicos, outros são ridículos. Mas como disse, sempre divertidos.
  O primeiro, DR NO, é apenas uma aventura de espionagem inglesa feita na Jamaica. Um monte de coisas que se tornaram "trademark" da série ainda não existiam. Mas já está lá o nome de John Barry na trilha sonora, e creia, muito do sucesso de Bond se deve a sua música. Este primeiro filme é basicamente um filme cheio de perseguições de carros e os cenários, outra marca da série, também já possuem a assinatura de Ken Adam. O super macho Alfa, Sean Connery, diz presente. Todas as mulheres caem aos pés dele. TODAS. Em 1962 ele é o sonho assumido de todo homem. O mega seguro. O ultra poderoso. O invulnerável. Bond é peludo, bebe, fuma e pensa em transar 24 horas por dia. No segundo filme, MOSCOU CONTRA 007, from russia with love, algumas marcas nascem. A canção de abertura feita para ser um hit, as armas originais, o carro, e principalmente o hiper vilão. Talvez seja este o mais hitchcockiano da série inteira. Tem clima. E possui um clima de perversão. Pra quem não sabe, dizem que a ideia da série surgiu quando Ian Fleming viu INTRIGA INTERNACIONAL de Hitch, no cinema, em 1958. E que o sonho de Ian era ver Cary Grant como Bond. ( Penso que seria perfeito. Assim como o Bond ideal de 2000 seria George Clooney ).
  GOLFINGER é considerado o ápice da série inteira. Austin Powers bebe quase tudo aqui. É um filme perfeito mas não é meu favorito. Depois temos THUNDERBALL e aquele que se passa no Japão, SÓ SE VIVE DUAS VEZES, que tem a maravilhosa canção de abertura com Nancy Sinatra. Este é o mais machista de todos, e também é onde começa a auto-gozação que quase matou a série. De todo modo, Sean Connery quis dar voos mais artísticos e saiu da série. Ele era então, 1967, o ator mais famoso e mais bem pago do mundo.
  A SERVIÇO DE SUA MAJESTADE traz um ator desconhecido, o australiano George Lazenby. Ele é tudo que Sean não era, desajeitado, inseguro, parece um garoto caipira brincando de 007. Mas o filme, que foi malhado na sua época, é hoje considerado um dos melhores. Foi o que mais gostei de rever. As cenas de ação são ótimas e Bond se torna humano. Ele até mesmo chora. Sean Connery retorna mais uma vez e temos a era de Roger Moore. Bond deixa de ser Bond. Ele se torna Roger Moore. E Roger é sempre irônico. O primeiro Bond de Roger, LIVE AND LET DIE tem trilha não de John Barry, mas sim de George Martin, ele mesmo, e é um desastre. Se voce quer saber o quanto uma trilha sonora ruim pode destruir um filme, veja este. Mas ainda pior foi em 1983, quando Sean Connery voltou ao personagem numa produção americana. NUNCA DIGA NUNCA DE NOVO. Sem poder contar com a equipe inglesa, deram a música para Michel Legrand!!!! Deus! Quem teve essa ideia? James Bond em ritmo de romance francês, em clima disco, em ritmo de boate...tudo menos o apropriado. Uma piada sem graça.
  Foi ouvindo essas duas trilhas que me toquei da imensa importância da música em 007.

MASSIVE ATTACK MEZZANINE, E CERTOS CLIMAS ANGÉLICOS

   Prove ouvir Mezzanine vendo na tela de sua TV o filme de Victor Sjostrom, A Carruagem Fantasma. O filme é silencioso, de 1920, sim, cem anos. Observe como voce terá a impressão de que o som dos Massive Attack foi escrito e pensado pra esse filme. Isso porque é a mesma sensibilidade que orquestra as duas obras:
  O inefável, pequenos ruídos que nascem e desaparecem, sombras que escondem algo que não pode ser visto. Não será. O disco, de fins do século XX, dialoga com o filme, do começo do mesmo século.
  Foi o século que cumpriu obediente tudo o que o século XIX queria: o espírito e suas coisas foram tiradas da luz e conduzidos à sombra. Lá ficaram, produzindo ecos e sombras.
  Todo o album bebe em Low, o famoso lado B de Bowie. Mas também é Kraftwerk. Trans Europe Express. E se mira em NEU! e mais algumas luzes obscuras e que pirilampam por aí. Foi um ápice soturno e que, para surpresa de todos, deu em nada. No século XXI, tempo histérico e que abomina o vazio e o silêncio, o Massive Attack não tem vez. Este século é iluminado, colorido, estridente, veloz, e absolutamente tolo. O som de Mezzanine flerta com o silêncio, o vazio e o vácuo. Tudo o que um cara de 2020 mais teme.
  Há uma profunda elegância neste album. O menos que é mais e um mais que sempre parece menos. Cada toque de percussão faz nossa cabeça tremer, mas essa cadência é incompleta. Cada uma de suas canções é vazia de conclusão. É um som que fica suspenso em suspense. Não é gótico, pois o gótico pesa como pedra, é antes uma sombra, ou a luz na tela de um filme silencioso. Leve como a alma de um inseto.
  Inertia Creeps sintetiza o disco.
  

TOM JONES - HENRY FIELDING, O PAI DO ROMANCE

   Antes houve Robinson Crusoe, mas Defoe escreveu uma reportagem romanceada. É quase um manual de sobrevivência. E tem o estilo do jornal. Depois veio Richardson, mas a forma é ainda a da troca de cartas, da confidência sentimental, e creia, ele é hoje ilegível. Nesse ponto, na Inglaterra de 1740, um escritor já podia viver da pena. Incrível. Já existia um público leitor grande o bastante para enriquecer editores e livreiros. E para sustentar um autor. Henry Fielding surge como o primeiro verdadeiro romancista moderno. Ele cria histórias fictícias, e usa o formato que conhecemos até hoje como romance. Mais importante ainda, ele se vê e fala com o leitor como um escritor. Fielding nunca esquece e nos deixa esquecer deste fato: isto é ficção e eu sou o dono do que estou inventando.
  O livro é uma sátira aos costumes ingleses, à moral e ao próprio modo britânico de ser. E Fielding conversa conosco todo o tempo. Como depois faria Machado de Assis, que adorava este livro, Fielding comenta, explica, divaga, dá opiniões. Ler Tom Jones é como ouvir um amigo contar uma história enquanto se bebe um Porto e se fuma um cachimbo. É um desses raros livros amigo, companheiro. Sentimos o autor na sala. Ele vive ao nosso lado enquanto lemos.
  Há quem diga ser este o grande livro inglês da história. Penso que não. Ao contrário da França ou da Alemanha, literaturas que cresceram ao redor de duas ou três forças centrais, a escrita inglesa sempre negou o centro, sempre quis ser multifacetada, variada, desfocada. Talvez o surgimento de um grande mercado logo em seu começo tenha produzido essa variedade de produtos. De todo modo, se Tom Jones não pode ser a obra central numa cultura que nega ter uma obra central, é ele um dos pilares da história preciosa dessa literatura que é sempre realista mesmo quando pensa ser fantasiosa.
  Perfeitamente legível após 3 séculos.