Um embate entre um poeta anarquista e um policial democrata. Por artimanhas do destino, o policial se vê nas redes de um movimento que visa levar o anarquismo a toda a Europa. O livro, que começa com belas tintas de humor, vai se tornando cada vez mais negro. Paranóico até. Chesterton, polemista conservador, toma partido: ele é pela ordem. O tempo mostrou que ele estava certo. Todos esses ismos da época parecem hoje pueris. Pior, seus "bons propósitos" se mostraram falsos.
Há uma fuga pela Inglaterra. Fogem dos anarquistas que se espalham pelos campos. Chesterton é também contra os modernos. Percebe no modernismo uma enfadonha anarquia. Nisso ele errou. O modernismo era muito mais que anarquismo. Well.... é um romance de antecipação, é inevitável o erro. De qualquer modo é ainda bastante lido hoje em dia, em que pese estar longe de ser uma obra fundamental.
Bons tempos em que best-seller era alguém como Chesterton ( ou Maugham, ou Pearl Buck, ou Orwell, ou Exupery, ou Conan Doyle... ).
MARCELO COELHO NA MISSA
Surpreende alguém que um ateu convicto como Marcelo Coelho escreva um texto sobre sua ida a missa do Pátio do Colégio e ao final do culto descubra que não só gostou como que irá voltar?
Marcelo Coelho de todos os colunistas da Folha é o mais rigoroso. Ele não faz concessões ao gosto médio. Se é pra falar de cinema ele fala de Carl Dreyer. Se é pra falar de música ele fala de Bach e se é para elogiar um escritor contemporâneo ele escreve sobre Sebald. Um homem como ele tem óbviamente sinais de desconforto com a crueza vulgar do mundo atual. Há um desencanto em tudo o que ele escreve, mas ao mesmo tempo o niilismo passa longe de seu texto. Ele ainda ama certas coisas, e a cultura é uma delas.
Na missa ele se surpreende com tudo. Estranha o fato de nada nela se parecer com repressão ou fanatismo. Se surpreende com o fato do padre ser um mestre da oratória e mais, possuir um discurso articulado e límpido. Coelho fala do quanto a arte da oratória inexiste hoje ( para os gregos era a arte principal ). Políticos, artistas, filósofos, poetas, desaprenderam essa arte. E para uma pessoa de cultura, nada é mais prazeroso que ouvir alguém falar bem. Atores inclusive desaprenderam a falar. Me delicio sempre que ouço gente como Rex Harrison ou Peter O'Toole falando. Colin Firth e Daniel Day Lewis ainda sabem falar, mas são tão poucos hoje...weeeelllll....
Como acontece comigo, Coelho não consegue se ajoelhar ( é vaidade ), não crê em Deus ou em seus santos, mas como eu ele percebe que há algo naquele lugar. Dois mil anos não podem ser descartados por preconceito.
Estou lendo Chesterton e no seu texto ( deliciosamente vitoriano, e voce sabe, em termos de civilização a era vitoriana foi o auge do gênero humano ), ele diz que tal personagem de seu livro, era "tão revolucionário que ele se revoltara contra as revoluções e se tornara um amante da lei e da ordem". Penso em Eliot, Evelyn Waugh, Auden e o próprio Chesterton, todos foram jovens modernistas e rebeldes, todos se converteram ao catolicismo ao final da vida. Sempre pensei que fosse por medo da morte, mas percebo com a idade que esse medo é maior aos vinte anos que aos quarenta. Talvez tenha ocorrido com eles o que se passa comigo, uma vontade de negar todo esse modernismo de araque, vazio e frouxo, abraçando aquilo que os "inteligentinhos modernos" menos prezam: a religião institucionalizada, a religião careta. Uma conversão sem fé, feita por um excesso de rebeldia. Talvez...
De qualquer modo me lembro da missa por meu pai e do modo como me senti bem na igreja. Não por crer que a alma de meu pai pudesse estar lá, não por crer que Deus pudesse me ajudar, mas apenas por sentir o alivio de estar numa casa onde a morte e a dor podiam se expressar livremente, sem remédios, sem modismos e sem pseudo soluções. Um canto de atemporalidade.
Em tempo sem filosofia prática, sem mestres e eruditos, sem ideologias e sem artistas sábios, é a experiência individual na religião que ainda pode nos dar rumo. Mesmo que seja vã.
Marcelo Coelho de todos os colunistas da Folha é o mais rigoroso. Ele não faz concessões ao gosto médio. Se é pra falar de cinema ele fala de Carl Dreyer. Se é pra falar de música ele fala de Bach e se é para elogiar um escritor contemporâneo ele escreve sobre Sebald. Um homem como ele tem óbviamente sinais de desconforto com a crueza vulgar do mundo atual. Há um desencanto em tudo o que ele escreve, mas ao mesmo tempo o niilismo passa longe de seu texto. Ele ainda ama certas coisas, e a cultura é uma delas.
Na missa ele se surpreende com tudo. Estranha o fato de nada nela se parecer com repressão ou fanatismo. Se surpreende com o fato do padre ser um mestre da oratória e mais, possuir um discurso articulado e límpido. Coelho fala do quanto a arte da oratória inexiste hoje ( para os gregos era a arte principal ). Políticos, artistas, filósofos, poetas, desaprenderam essa arte. E para uma pessoa de cultura, nada é mais prazeroso que ouvir alguém falar bem. Atores inclusive desaprenderam a falar. Me delicio sempre que ouço gente como Rex Harrison ou Peter O'Toole falando. Colin Firth e Daniel Day Lewis ainda sabem falar, mas são tão poucos hoje...weeeelllll....
Como acontece comigo, Coelho não consegue se ajoelhar ( é vaidade ), não crê em Deus ou em seus santos, mas como eu ele percebe que há algo naquele lugar. Dois mil anos não podem ser descartados por preconceito.
Estou lendo Chesterton e no seu texto ( deliciosamente vitoriano, e voce sabe, em termos de civilização a era vitoriana foi o auge do gênero humano ), ele diz que tal personagem de seu livro, era "tão revolucionário que ele se revoltara contra as revoluções e se tornara um amante da lei e da ordem". Penso em Eliot, Evelyn Waugh, Auden e o próprio Chesterton, todos foram jovens modernistas e rebeldes, todos se converteram ao catolicismo ao final da vida. Sempre pensei que fosse por medo da morte, mas percebo com a idade que esse medo é maior aos vinte anos que aos quarenta. Talvez tenha ocorrido com eles o que se passa comigo, uma vontade de negar todo esse modernismo de araque, vazio e frouxo, abraçando aquilo que os "inteligentinhos modernos" menos prezam: a religião institucionalizada, a religião careta. Uma conversão sem fé, feita por um excesso de rebeldia. Talvez...
De qualquer modo me lembro da missa por meu pai e do modo como me senti bem na igreja. Não por crer que a alma de meu pai pudesse estar lá, não por crer que Deus pudesse me ajudar, mas apenas por sentir o alivio de estar numa casa onde a morte e a dor podiam se expressar livremente, sem remédios, sem modismos e sem pseudo soluções. Um canto de atemporalidade.
Em tempo sem filosofia prática, sem mestres e eruditos, sem ideologias e sem artistas sábios, é a experiência individual na religião que ainda pode nos dar rumo. Mesmo que seja vã.
SINDROME DO PÂNICO
Não ter ligação com nada e fazer tudo. Naquele ano eu não ficava uma noite em casa. Me sentia psicodélico e apaixonado. Engraçado, eu amava Jane, mas me sentia desconectado de tudo. Década de 80, época em que era obrigatório ser moderno. Então eu fazia video-arte, escrevia textos niilistas e lia Bukowski, Heminguay, Nietzsche e Dostoievski. Os gênios do cinema se chamavam Peter Greenway, Terry Gillian e Wim Wenders ( engraçado como os gênios passam.... ). Como todo cara "inteligente" eu odiava os EUA, a igreja, meu pai e toda forma de poder. E saía pro Bixiga, pros Jardins e pra praia. Pra beber e fumar. Engraçado como não me reconheço nessa época. Era um eu sem Yeats, sem cães, sem sol e sem dúvidas. Pois não havia dúvida alguma: o mundo era um acidente. Deus, pai e familia eram imposturas.
Como hoje eu sei, meu ego me asfixiava. Tudo era: eu sei, eu sou, eu sinto, eu quero. Nada mais entrava nesse eu. Até que numa noite quente alguma coisa entrou. Na marra.
Me entupi de haxixe. E, apaixonado que estava por Jane, que havia dormido com meu melhor amigo, pirei. Na época ninguém sabia qual o nome daquilo. Eu tive ondas de pavor com ondas de frio. E a terrível constatação que derrubou meu mundo: eu não sou dono de mim. Nada controlo, nada sei, nada posso prever. Eu desabei. Era a tal síndrome do pânico, doença que salvou minha vida. Porque salvou? Ela derrubou muros que me deixavam estagnado. Explodiu meu mundinho niilista. E me fez sentir dor de verdade, dor vinda de fora, não imaginada. Eu nasci naquela noite. A síndrome foi um parto.
Jamais deixei de trabalhar ou de ir a faculdade. É engraçado isso. Me encolhi em pavor na certeza de ter enlouquecido, mas nunca deixei de ir à rua. O triste é que naquela época não havia um diagnóstico. Ou não, isso fez com que eu pudesse ser esse barco a deriva.
Me aconselharam a umbanda. Fui. A mãe de santo disse que alguém me fazia mal. Pediu um caminhão de mantimentos. Depois fui a centro espírita. Tomei doze passes e fiquei com mais medo ainda. E uma amiga me indicou seu terapeuta. Fui na esperança de que ele me dissesse que não era caso de internação. Não era. É engraçado. Eu pensava que todo psicólogo era um sábio. Que para ser terapeuta era preciso ter lido tudo de Freud, de Lacan, de Jung e de Adler. Que todo psicólogo sabia tudo sobre filosofia, história e religião. Quando notei que ele lera apenas dois livros de Freud e alguns capítulos aqui e ali, me decepcionei. Mas criamos uma relação de amizade. Na verdade é apenas isso, voce paga um estranho para que ele faça o papel de seu amigo. Triste, mas é só isso. Em quatro anos ele me ajudou a falar de mim mesmo e assim me amar um pouco mais. Mas todos os problemas que eu tinha permaneceram exatamente iguais. E provávelmente alguém dirá que dizer isso agora é parte do processo. Bem... cada um é livre para crer no que quiser. Ele me mostrou que terapia é questão de fé, jamais de ciencia. Funciona se voce crer. Voce não precisa crer num comprimido. E ciência é o comprimido.
Naqueles anos o que mais me ajudou foi o amor que tive por Andrea, uma menina louca que me levava à praia. Com ela eu redescobri o surf e o rocknroll. E logo em seguida a volta da minha tia ao Brasil, o que me fez redescobrir a felicidade que existe em se ter uma familia. Aprendi muito com meu cão, Nicky. Ele me livrou da insonia, fez com que eu aprendesse a cuidar sem esperar retorno e me obrigava a brincar, brincar como uma criança. Até hoje desconfio de quem é incapaz de amar um bicho. De quem só ama quem pode lhe retribuir. É a grande lição que aprendi, foi meu renascimento: amor, familia e animais. A poesia veio junto e o prazer de ler surgiu depois. Renascimento.
Mas a deprê persistia. Todo fim de tarde era aquele aperto no peito e a vontade de chorar. Eu ria, fazia piadas, brincava e me apaixonava, mas a dor estava sempre lá, ao meu lado.
Então deram nome à coisa. Sindrome do Pânico. Fui me medicar e o aperto se foi. É óbvio que me tornei um fã de biologia e quimica. Durante algum tempo a vida era questão de substâncias que se combinam. Toda a dor é uma questão de desequilibrio quimico. Nunca fui tão ateu! O protótipo do materialista. Estranho notar hoje que eu não pensava nada, tudo estava respondido. Árido. Seco. Sem dor.
A morte de meu pai veio balançar toda essa certeza. Me tornei um Espinozista, a vida é uma aposta. Voce aposta num caminho sem jamais ter como saber o resultado desse lance. Me tornei um seguidor de Pascal. O eu é a raiz de todo mal. Somos felizes quando abrimos mão desse eu, quando ele se torna nosso escravo. E me vejo como aquele que sabe que nada sabe, mas que curioso, tenta compreender esse não-saber. A sindrome me ensinou o quanto somos limitados, que nosso cérebro é apenas músculo, que a vida nos é incompreensível, mas que é nossa sina procurar entender. O tempo só existe em nós.
É lógico que eu preferia jamais ter vivido nada disso. Ter sido um.... o que mesmo?
Talvez a lição seja essa, é tudo um caso não saber.
Como hoje eu sei, meu ego me asfixiava. Tudo era: eu sei, eu sou, eu sinto, eu quero. Nada mais entrava nesse eu. Até que numa noite quente alguma coisa entrou. Na marra.
Me entupi de haxixe. E, apaixonado que estava por Jane, que havia dormido com meu melhor amigo, pirei. Na época ninguém sabia qual o nome daquilo. Eu tive ondas de pavor com ondas de frio. E a terrível constatação que derrubou meu mundo: eu não sou dono de mim. Nada controlo, nada sei, nada posso prever. Eu desabei. Era a tal síndrome do pânico, doença que salvou minha vida. Porque salvou? Ela derrubou muros que me deixavam estagnado. Explodiu meu mundinho niilista. E me fez sentir dor de verdade, dor vinda de fora, não imaginada. Eu nasci naquela noite. A síndrome foi um parto.
Jamais deixei de trabalhar ou de ir a faculdade. É engraçado isso. Me encolhi em pavor na certeza de ter enlouquecido, mas nunca deixei de ir à rua. O triste é que naquela época não havia um diagnóstico. Ou não, isso fez com que eu pudesse ser esse barco a deriva.
Me aconselharam a umbanda. Fui. A mãe de santo disse que alguém me fazia mal. Pediu um caminhão de mantimentos. Depois fui a centro espírita. Tomei doze passes e fiquei com mais medo ainda. E uma amiga me indicou seu terapeuta. Fui na esperança de que ele me dissesse que não era caso de internação. Não era. É engraçado. Eu pensava que todo psicólogo era um sábio. Que para ser terapeuta era preciso ter lido tudo de Freud, de Lacan, de Jung e de Adler. Que todo psicólogo sabia tudo sobre filosofia, história e religião. Quando notei que ele lera apenas dois livros de Freud e alguns capítulos aqui e ali, me decepcionei. Mas criamos uma relação de amizade. Na verdade é apenas isso, voce paga um estranho para que ele faça o papel de seu amigo. Triste, mas é só isso. Em quatro anos ele me ajudou a falar de mim mesmo e assim me amar um pouco mais. Mas todos os problemas que eu tinha permaneceram exatamente iguais. E provávelmente alguém dirá que dizer isso agora é parte do processo. Bem... cada um é livre para crer no que quiser. Ele me mostrou que terapia é questão de fé, jamais de ciencia. Funciona se voce crer. Voce não precisa crer num comprimido. E ciência é o comprimido.
Naqueles anos o que mais me ajudou foi o amor que tive por Andrea, uma menina louca que me levava à praia. Com ela eu redescobri o surf e o rocknroll. E logo em seguida a volta da minha tia ao Brasil, o que me fez redescobrir a felicidade que existe em se ter uma familia. Aprendi muito com meu cão, Nicky. Ele me livrou da insonia, fez com que eu aprendesse a cuidar sem esperar retorno e me obrigava a brincar, brincar como uma criança. Até hoje desconfio de quem é incapaz de amar um bicho. De quem só ama quem pode lhe retribuir. É a grande lição que aprendi, foi meu renascimento: amor, familia e animais. A poesia veio junto e o prazer de ler surgiu depois. Renascimento.
Mas a deprê persistia. Todo fim de tarde era aquele aperto no peito e a vontade de chorar. Eu ria, fazia piadas, brincava e me apaixonava, mas a dor estava sempre lá, ao meu lado.
Então deram nome à coisa. Sindrome do Pânico. Fui me medicar e o aperto se foi. É óbvio que me tornei um fã de biologia e quimica. Durante algum tempo a vida era questão de substâncias que se combinam. Toda a dor é uma questão de desequilibrio quimico. Nunca fui tão ateu! O protótipo do materialista. Estranho notar hoje que eu não pensava nada, tudo estava respondido. Árido. Seco. Sem dor.
A morte de meu pai veio balançar toda essa certeza. Me tornei um Espinozista, a vida é uma aposta. Voce aposta num caminho sem jamais ter como saber o resultado desse lance. Me tornei um seguidor de Pascal. O eu é a raiz de todo mal. Somos felizes quando abrimos mão desse eu, quando ele se torna nosso escravo. E me vejo como aquele que sabe que nada sabe, mas que curioso, tenta compreender esse não-saber. A sindrome me ensinou o quanto somos limitados, que nosso cérebro é apenas músculo, que a vida nos é incompreensível, mas que é nossa sina procurar entender. O tempo só existe em nós.
É lógico que eu preferia jamais ter vivido nada disso. Ter sido um.... o que mesmo?
Talvez a lição seja essa, é tudo um caso não saber.
INIMIGOS, UMA HISTÓRIA DE AMOR- ISAAC BASHEVIS SINGER
O horror. Uma moça judia, de 18 anos, filha de rabinos, anda sobre uma tábua. Se ela cair o que a espera é uma fossa de escrementos. Ela cai, em meio ao riso de soldados nazistas. Todos esses soldados, ao fim da guerra, foram para casa beber cerveja e esquecer. Foram ouvir Bach e ler Hesse.... Este livro nos recorda todo o tempo desse horror, o horror proposital, científico, racional, calculado, moderno. E sem remissão.
Senhoras nazistas pisam nos olhos de crianças judias esqueléticas, enquanto no campo judeus delatam judeus e irmãos copulam na frente de todos. É um pesadelo ler tudo isso. Nosso mundo é consequencia nefasta desses anos, nossa descrença no homem vem daí. A negação do futuro e o desapego a cultura. Sem saber sempre pensamos: pra que? De certo modo todos nós nos tornamos judeus, e também nazistas.
Singer não conheceu os campos. Mas viveu na América em meio a seus sobreviventes. E percebeu que todos repetiam que apenas os maus judeus sobreviveram. Os bons morreram. O personagem central sobreviveu, e ele é odioso. Herman vive com a polonesa cristã que o salvou dos nazis. Vive em Coney Island e estamos em 1949 ( o livro é de 1972. Singer venceu o nobel de 1978 ). O que sua polonesa não sabe é que Herman tem uma outra mulher, Masha, uma ex-interna de campo de concentração. E pior, a esposa de Herman, que ele pensava morta, retorna. Ele se vê com 3 esposas.
Herman é um fraco. Ele nada decide, nada faz de verdade. Mente, improvisa, e sofre. Como sofrem esses personagens!!!! Perderam sua fé, perderam a história, descrêem de tudo. O romance é uma saga, às vezes irônica, de perdedores absolutos, mas perdedores que nunca despertam nossa pena. São irritantemente neuróticos.
Todo bom livro nos faz mergulhar em seu universo. Mergulhamos nesse mundo americano/polonês/judaico. Na incessante narração de Herman e em sua nóia absoluta. Singer, autor muito conhecido na América e pouco lido por aqui, escreve simples, fácil, sem floreios de estilo. O incômodo nos toma e constatamos sermos todos um pouco Herman. E isso dói, creia, dói.
Senhoras nazistas pisam nos olhos de crianças judias esqueléticas, enquanto no campo judeus delatam judeus e irmãos copulam na frente de todos. É um pesadelo ler tudo isso. Nosso mundo é consequencia nefasta desses anos, nossa descrença no homem vem daí. A negação do futuro e o desapego a cultura. Sem saber sempre pensamos: pra que? De certo modo todos nós nos tornamos judeus, e também nazistas.
Singer não conheceu os campos. Mas viveu na América em meio a seus sobreviventes. E percebeu que todos repetiam que apenas os maus judeus sobreviveram. Os bons morreram. O personagem central sobreviveu, e ele é odioso. Herman vive com a polonesa cristã que o salvou dos nazis. Vive em Coney Island e estamos em 1949 ( o livro é de 1972. Singer venceu o nobel de 1978 ). O que sua polonesa não sabe é que Herman tem uma outra mulher, Masha, uma ex-interna de campo de concentração. E pior, a esposa de Herman, que ele pensava morta, retorna. Ele se vê com 3 esposas.
Herman é um fraco. Ele nada decide, nada faz de verdade. Mente, improvisa, e sofre. Como sofrem esses personagens!!!! Perderam sua fé, perderam a história, descrêem de tudo. O romance é uma saga, às vezes irônica, de perdedores absolutos, mas perdedores que nunca despertam nossa pena. São irritantemente neuróticos.
Todo bom livro nos faz mergulhar em seu universo. Mergulhamos nesse mundo americano/polonês/judaico. Na incessante narração de Herman e em sua nóia absoluta. Singer, autor muito conhecido na América e pouco lido por aqui, escreve simples, fácil, sem floreios de estilo. O incômodo nos toma e constatamos sermos todos um pouco Herman. E isso dói, creia, dói.
LEI, BONS MODOS, VIRTUDE E AMOR
Uma das melhores sacadas de Comte-Sponville é quando ele percebe que se houvesse o amor, se ele fosse predominante, a virtude, a boa educação e a lei seriam supérfluas.
A lei, a coerção, só é necessária quando não existem bons modos. Em lugar onde todos respeitassem a boa educação, o bom convívio, não haveria a necessidade de leis ou de quem observasse sua vigência. Onde a virtude fosse seguida, com naturalidade, não haveria o porque do código de educação e civilidade. Pessoas virtuosas não precisam seguir código nenhum para o convivio entre iguais. E onde o amor fosse dominante a virtude seria vã.
O homem criou as virtudes para que onde não há amor possa haver o simulacro desse amor ausente. As virtudes são as regras de comportamento de quem não ama mas se comporta como se amasse.
Assim, os bons modos são o simulacro da virtude quando ausente. Dar o lugar no ônibus não é ser virtuoso, é parecer ser. Dizer obrigado ou por favor não é ser compassivo ou agradecido, mas é uma forma pobre de parecer ser.
Onde nem os bons modos existem é necessária a lei. O convívio se faz pela ameaça e pela vigilancia. O respeito entre iguais é obrigatório. Haverá um simulacro de bons modos.
Me parece que estamos indo a passos largos para o mundo da lei. Apenas a vigilancia e o castigo mantém algum nivel de civilidade. Humildade, caridade, coragem, amor, sinceridade, castidade... só à força da lei. Só aos olhos vigilantes do mundo.
O que leva também a constatação de que o amor eros só é dominante onde o amor philia não se faz presente e o amor philia domina quando não há agape. Se todo amor fosse agape não haveria necessidade de philia e se todo amor fosse philia não seria preciso eros. Temos a necessidade de leis porque os bons modos se foram, temos necessidade de bons modos porque a virtude desapareceu e criamos as virtudes porque o amor deixou de comandar.
A lei, a coerção, só é necessária quando não existem bons modos. Em lugar onde todos respeitassem a boa educação, o bom convívio, não haveria a necessidade de leis ou de quem observasse sua vigência. Onde a virtude fosse seguida, com naturalidade, não haveria o porque do código de educação e civilidade. Pessoas virtuosas não precisam seguir código nenhum para o convivio entre iguais. E onde o amor fosse dominante a virtude seria vã.
O homem criou as virtudes para que onde não há amor possa haver o simulacro desse amor ausente. As virtudes são as regras de comportamento de quem não ama mas se comporta como se amasse.
Assim, os bons modos são o simulacro da virtude quando ausente. Dar o lugar no ônibus não é ser virtuoso, é parecer ser. Dizer obrigado ou por favor não é ser compassivo ou agradecido, mas é uma forma pobre de parecer ser.
Onde nem os bons modos existem é necessária a lei. O convívio se faz pela ameaça e pela vigilancia. O respeito entre iguais é obrigatório. Haverá um simulacro de bons modos.
Me parece que estamos indo a passos largos para o mundo da lei. Apenas a vigilancia e o castigo mantém algum nivel de civilidade. Humildade, caridade, coragem, amor, sinceridade, castidade... só à força da lei. Só aos olhos vigilantes do mundo.
O que leva também a constatação de que o amor eros só é dominante onde o amor philia não se faz presente e o amor philia domina quando não há agape. Se todo amor fosse agape não haveria necessidade de philia e se todo amor fosse philia não seria preciso eros. Temos a necessidade de leis porque os bons modos se foram, temos necessidade de bons modos porque a virtude desapareceu e criamos as virtudes porque o amor deixou de comandar.
O AMOR- ANDRÉ COMTE-SPONVILLE
Um pequeno livro lançado primeiro no Brasil. Trata-se de uma compilação de alguns dvds em que André discorre sobre o amor. Para quem leu o obrigatório "PEQUENO TRATADO DAS GRANDES VIRTUDES", este livro é um complemento.
Existem 3 formas de amor, como voces sabem. Eros, Philía e Agápe. Eros sendo o mais básico e comum, e Agápe o mais raro. Platão institui o amor Eros, Schopenhauer o desenvolve e Freud, discípulo de Schopenhauer, o cristaliza. O que seria esse amor-Eros? No Banquete, Aristófanes fala da história dos hermafroditas. Seríamos esses seres incompletos, e o amor seria a busca por essa outra metade. Todos conhecem essa lenda. O que muitos esquecem é que Platão discorda dessa crença. No Banquete, como em tudo, Platão está ao lado de Sócrates, e Sócrates fala que amor é falta, vazio, desejo puro. Desejamos aquilo que não temos, e como desejar aquilo que temos? Impossível. O amor nada mais é que essa insatisfação sem fim, miragem que ao ser atingida se desfaz. Desejamos, obtemos e descobrimos então que não era aquilo que queríamos. Partimos pra outra busca. Schopenhauer vai mais longe, é famosa sua frase que diz que viver é estar num pêndulo: balançamos entre o desejo e o tédio, pois sempre que conseguimos o que queremos ( seja trabalho, bens materiais ou vida amorosa ) nos deparamos com o desencanto que leva ao tédio. Um homem, ou uma sociedade que satisfaça todos os desejos será uma sociedade desencantada e entediada.
Mas Comte-Sponville diz que algo não bate aí. Existem casais que permanecem em constante desejo. Existem amores ( ao trabalho, a arte, a vida, aos amigos ) que não morrem, embora sejam raros. O que os explica? Que amor é esse?
Surgem Aristóteles e Espinoza dizendo que o amor é "regozijar-se". O amor não é um vazio que ansiamos por preencher, ele é antes uma potência, uma força que nos leva ao prazer, ao usufruto da vida. Não somos seres desesperados, incompletos, que sem livre-arbítrio algum, correm em busca de um amor que será sempre uma decepção. Somos sim seres que nascem com uma potência amorosa, uma vontade de amar, e livremente, partimos em busca desse amor pleno. Ao ser encontrado podemos gozar essa potência, podemos nos realizar como seres potentes. Esse é o amor Philia, amigo.
Comte-Sponville alerta que principalmente para jovens adolescentes, esse amor descrito lhes parecerá decepcionante. Estamos condicionados ao sofrimento romântico e pior, ao eterno mercado da atualidade. Um amor Eros consome sem parar, um amor Philia usufrui do que já possui. É um amor que dá todo o tempo, se doa, pensa no prazer do outro. Nele existe a chance de se livrar do Ego ( e Sponville cita a terrível frase de Pascal : "Odeie seu Ego", e a explica. Todo o inferno do mundo vive no ego. Matar o ego, que é o que ocorre em Philia, é viver o outro, se dar, livrar-se de si. ), é um amor que aumenta com o convívio, que procura mais no que já se tem.
Por fim, e estou condensando bastante o texto, há o amor Agape, amor a Deus. André é ateu, mas ele explica algo que me intriga: Como é possível que pessoas que se dizem "cultas" possam ignorar a religião? Nada pensar e nada saber sobre religião é como estudar medicina sem querer entender de biologia. Nosso mundo, nossa filosofia, nossa arte, nossa mente, nossos sentimentos são todos consequencia de um mundo de religião. Nada saber sobre isso é optar pela cegueira.
O que seria então esse amor Agape? André confessa que nunca o viu. O que não o invalida. Seria um amor que existe como ideal, como meta máxima a nos guiar. É o amor que se retira, o amor que dá espaço, que dá vida. Explico. André usa como exemplo o amor de mãe. A mãe ama seu bebê. E provávelmente não é amada do mesmo modo. Primeiro fato: Agape é um amor que existe por si-mesmo, não precisa de reciprocidade. Segundo: a mãe, que ama seu filho, poderia sufocá-lo de amor. Fazer dele seu brinquedo, ser para ele TUDO. Mas, e essa é a maior prova de amor possível, ela lhe dá espaço, afasta-se para que ele possa crescer, para que ele possa SER. Esse é o amor de Agape, amor que não é comentado entre os gregos e que nasce com o cristianismo. O amor da potência que se nega, da força que se torna conscientemente fraca, da auto-anulação. É o amor que se retira. Entre homens e mulheres é um amor que André jamais viu. Mas entre mãe e filho ele ocorre a toda hora. Amar e abrir mão. Sponville cita então a mais perfeita filósofa moderna do amor, Simone Weill: "Amar um estranho é transformar a si-mesmo num estranho". Esse é o caminho de Agape, o ego deixa de ser o centro, o outro é o que importa.
Leiam. Amorosamente.
Existem 3 formas de amor, como voces sabem. Eros, Philía e Agápe. Eros sendo o mais básico e comum, e Agápe o mais raro. Platão institui o amor Eros, Schopenhauer o desenvolve e Freud, discípulo de Schopenhauer, o cristaliza. O que seria esse amor-Eros? No Banquete, Aristófanes fala da história dos hermafroditas. Seríamos esses seres incompletos, e o amor seria a busca por essa outra metade. Todos conhecem essa lenda. O que muitos esquecem é que Platão discorda dessa crença. No Banquete, como em tudo, Platão está ao lado de Sócrates, e Sócrates fala que amor é falta, vazio, desejo puro. Desejamos aquilo que não temos, e como desejar aquilo que temos? Impossível. O amor nada mais é que essa insatisfação sem fim, miragem que ao ser atingida se desfaz. Desejamos, obtemos e descobrimos então que não era aquilo que queríamos. Partimos pra outra busca. Schopenhauer vai mais longe, é famosa sua frase que diz que viver é estar num pêndulo: balançamos entre o desejo e o tédio, pois sempre que conseguimos o que queremos ( seja trabalho, bens materiais ou vida amorosa ) nos deparamos com o desencanto que leva ao tédio. Um homem, ou uma sociedade que satisfaça todos os desejos será uma sociedade desencantada e entediada.
Mas Comte-Sponville diz que algo não bate aí. Existem casais que permanecem em constante desejo. Existem amores ( ao trabalho, a arte, a vida, aos amigos ) que não morrem, embora sejam raros. O que os explica? Que amor é esse?
Surgem Aristóteles e Espinoza dizendo que o amor é "regozijar-se". O amor não é um vazio que ansiamos por preencher, ele é antes uma potência, uma força que nos leva ao prazer, ao usufruto da vida. Não somos seres desesperados, incompletos, que sem livre-arbítrio algum, correm em busca de um amor que será sempre uma decepção. Somos sim seres que nascem com uma potência amorosa, uma vontade de amar, e livremente, partimos em busca desse amor pleno. Ao ser encontrado podemos gozar essa potência, podemos nos realizar como seres potentes. Esse é o amor Philia, amigo.
Comte-Sponville alerta que principalmente para jovens adolescentes, esse amor descrito lhes parecerá decepcionante. Estamos condicionados ao sofrimento romântico e pior, ao eterno mercado da atualidade. Um amor Eros consome sem parar, um amor Philia usufrui do que já possui. É um amor que dá todo o tempo, se doa, pensa no prazer do outro. Nele existe a chance de se livrar do Ego ( e Sponville cita a terrível frase de Pascal : "Odeie seu Ego", e a explica. Todo o inferno do mundo vive no ego. Matar o ego, que é o que ocorre em Philia, é viver o outro, se dar, livrar-se de si. ), é um amor que aumenta com o convívio, que procura mais no que já se tem.
Por fim, e estou condensando bastante o texto, há o amor Agape, amor a Deus. André é ateu, mas ele explica algo que me intriga: Como é possível que pessoas que se dizem "cultas" possam ignorar a religião? Nada pensar e nada saber sobre religião é como estudar medicina sem querer entender de biologia. Nosso mundo, nossa filosofia, nossa arte, nossa mente, nossos sentimentos são todos consequencia de um mundo de religião. Nada saber sobre isso é optar pela cegueira.
O que seria então esse amor Agape? André confessa que nunca o viu. O que não o invalida. Seria um amor que existe como ideal, como meta máxima a nos guiar. É o amor que se retira, o amor que dá espaço, que dá vida. Explico. André usa como exemplo o amor de mãe. A mãe ama seu bebê. E provávelmente não é amada do mesmo modo. Primeiro fato: Agape é um amor que existe por si-mesmo, não precisa de reciprocidade. Segundo: a mãe, que ama seu filho, poderia sufocá-lo de amor. Fazer dele seu brinquedo, ser para ele TUDO. Mas, e essa é a maior prova de amor possível, ela lhe dá espaço, afasta-se para que ele possa crescer, para que ele possa SER. Esse é o amor de Agape, amor que não é comentado entre os gregos e que nasce com o cristianismo. O amor da potência que se nega, da força que se torna conscientemente fraca, da auto-anulação. É o amor que se retira. Entre homens e mulheres é um amor que André jamais viu. Mas entre mãe e filho ele ocorre a toda hora. Amar e abrir mão. Sponville cita então a mais perfeita filósofa moderna do amor, Simone Weill: "Amar um estranho é transformar a si-mesmo num estranho". Esse é o caminho de Agape, o ego deixa de ser o centro, o outro é o que importa.
Leiam. Amorosamente.
QUANDO LONDRES CONHECEU O ARRASTÃO ( TÁ DOMINADO!)
Jamais eu escreveria sobre esses arrastões londrinos. Londres não me interessa. E tudo que eu queria dizer já foi escrito ( Patricia Mello escreveu que nenhum livro foi roubado.... Bingo!). Mas o texto que Calligaris publicou é tão ruim, tão medíocre, que preciso dar um pitaco!
Existe um certo tipo de tiozão que tenta ser simpaticão às novas moçoilas jogando ao lixo tudo aquilo que ele fora um dia. Há já algum tempo Calligaris caiu nesse engodo. Seus textos têm sido justificativas sobre seu passado "maio 68". Ele tenta ser agradável ao que ele imagina ser o leitor jovem de hoje. Se perde: as moçoilas sentem desejo pelos tiozões de 68 que continuam acreditando em 68. O ancião que aceita e compreende tudo o que lhe parece "de agora" não está se renovando, está às portas do ridículo.
Mas porque tanta ira, ó Tony Roxy??? Porque neste momento sério, em que temos a obrigação moral de tomar partido contra a barbárie, ele, Calligaris, defende a "profundidade" do "movimento". Como bom terapeuta, que tem o dever de tudo aceitar e absolver, ele se coloca ao lado dos ladrões. E pasmem, os compara aos esfaimados da revolução francesa!!!!
Ninguém morre de inanição por falta de I Pod. Se morre por falta de pão. Só isso basta para marcar a diferença. Negar como ele faz, vulgarizar a fome, relativizar, é imoral. Ele compara a falta de pão com a falta de bens de consumo, legitimiza os ladrões, passa a mão sobre suas cabeças ocas. Mas vai mais longe.... Diz que na revolução de Robespierre e Marat não havia também uma ideia, que tudo era questão de querer. Então toda a preparação iluminista nada teve a ver? Voltaire e Rousseau jamais existiram? A independência da América nada influenciou? Existiam ideias desde antes do movimento, ideias conhecidas, explícitas, flagrantes. O populacho precisava de pão, mas também sabia que a velha ordem morria ali. Eles não roubaram comida apenas, mataram os donos da comida. Em Londres alguém gritou palavras de ordem contra os donos das fábricas dos I Pods??? Algum jovem ladrão deseja a morte de Steve Jobs??? Revolução seria a destruição do poder, e o que se viu foi o contrário, o desejo por aquilo que o poder produz.
Londres é o futuro. A imoral barbárie, o vale tudo, o eu quero-eu posso. Um arrastão. Por ter sido na outrora relevante Londres, as pessoas tentam encontrar algo que dê nobre ressonância ao fato. Necas! Arrastão como numa praia do Rio ou em centro paulista. Só isso. Ato que anuncia o fim da virtude. Não é uma revolução, é a morte da ideia revolucionária.
Pobre tiozão....
Existe um certo tipo de tiozão que tenta ser simpaticão às novas moçoilas jogando ao lixo tudo aquilo que ele fora um dia. Há já algum tempo Calligaris caiu nesse engodo. Seus textos têm sido justificativas sobre seu passado "maio 68". Ele tenta ser agradável ao que ele imagina ser o leitor jovem de hoje. Se perde: as moçoilas sentem desejo pelos tiozões de 68 que continuam acreditando em 68. O ancião que aceita e compreende tudo o que lhe parece "de agora" não está se renovando, está às portas do ridículo.
Mas porque tanta ira, ó Tony Roxy??? Porque neste momento sério, em que temos a obrigação moral de tomar partido contra a barbárie, ele, Calligaris, defende a "profundidade" do "movimento". Como bom terapeuta, que tem o dever de tudo aceitar e absolver, ele se coloca ao lado dos ladrões. E pasmem, os compara aos esfaimados da revolução francesa!!!!
Ninguém morre de inanição por falta de I Pod. Se morre por falta de pão. Só isso basta para marcar a diferença. Negar como ele faz, vulgarizar a fome, relativizar, é imoral. Ele compara a falta de pão com a falta de bens de consumo, legitimiza os ladrões, passa a mão sobre suas cabeças ocas. Mas vai mais longe.... Diz que na revolução de Robespierre e Marat não havia também uma ideia, que tudo era questão de querer. Então toda a preparação iluminista nada teve a ver? Voltaire e Rousseau jamais existiram? A independência da América nada influenciou? Existiam ideias desde antes do movimento, ideias conhecidas, explícitas, flagrantes. O populacho precisava de pão, mas também sabia que a velha ordem morria ali. Eles não roubaram comida apenas, mataram os donos da comida. Em Londres alguém gritou palavras de ordem contra os donos das fábricas dos I Pods??? Algum jovem ladrão deseja a morte de Steve Jobs??? Revolução seria a destruição do poder, e o que se viu foi o contrário, o desejo por aquilo que o poder produz.
Londres é o futuro. A imoral barbárie, o vale tudo, o eu quero-eu posso. Um arrastão. Por ter sido na outrora relevante Londres, as pessoas tentam encontrar algo que dê nobre ressonância ao fato. Necas! Arrastão como numa praia do Rio ou em centro paulista. Só isso. Ato que anuncia o fim da virtude. Não é uma revolução, é a morte da ideia revolucionária.
Pobre tiozão....
A VERDADEIRA VIDA DE SEBASTIAN KNIGHT- VLADIMIR NABOKOV
Nada é pior que um livro frustrante. Podemos perdoar um livro ruim, afinal, a expectativa que tínhamos não foi jogada ao lixo; mas um livro frustrante é uma brochada. É o caso deste livro do grande Nabokov, autor que é um dos maiores do século XX e que tem LOLITA e FOGO PÁLIDO entre os monumentos das letras universais. O que acontece com este livro é trágico, principalemte porque ele começa em muito alto nível e então despenca para o nada.
O irmão mais novo de um refugiado russo, nobre, procura escrever uma biografia fiel sobre esse irmão, irmão que foi um escritor de talento. Uma biografia mentirosa, rancorosa, recém lançada, é que o motiva a essa empreitada. Até aí tudo funciona. Nabokov esparrama prosa saborosa em cada sentença. Há uma complexidade de múltiplos espelhos e melhor: toques de humor cáustico em frases inesperadas. O livro cresce e voce fica absorvido pela busca de pistas desse irmão misterioso. Mas de súbito o humor se torna drama pesado, pior, inconvincente. Quanto mais o irmão, que jamais é nomeado, se aproxima da verdade, mais o livro naufraga. As coisas se atropelam, os novos personagens parecem ocos, Nabokov se esvai em nada.
Uma pena, pois o assunto é fascinante. O irmão poderia ser o próprio autor e o livro que lemos pode ser a própria biografia, que assim se faria uma auto-biografia. Mas o que parece é que Nabokov perde a mão, talvez o interesse em seu livro, perde o amor ao personagem central.
Vladimir Nabokov foi filho daquelas famílias nobres russas que fugiram ao ocidente com a revolução de 1917. Ele acabou adquirindo um inglês perfeito e se tornou um mestre das letras americanas. Lolita é eleito desde que saiu ( 1955 ) um dos melhores livros do século XX. E é, sem dúvida. Hoje Nabokov está um pouco fora de moda, não só por seus temas amorais, mas principalmente por sua escrita quase barroca. Ele escreve muito, fala bastante, tem o que dizer e não se censura. Embeleza, enriquece, é um anti-minimalista.
PS: Um dos charmes da década de 20 eram os refugiados russos. Em Paris era normal ser servido em cafés por garçons que foram condes em St. Petersburgo, e contratar um chauffeur que fora um rico proprietário de terras na Ucrânia. Nabokov não passou necessidades, seu pai as passou por ele. Sua prosa sempre tem um jeito snob, refinado, bastante conservador. Ou seja, não é para hoje, não é?
O irmão mais novo de um refugiado russo, nobre, procura escrever uma biografia fiel sobre esse irmão, irmão que foi um escritor de talento. Uma biografia mentirosa, rancorosa, recém lançada, é que o motiva a essa empreitada. Até aí tudo funciona. Nabokov esparrama prosa saborosa em cada sentença. Há uma complexidade de múltiplos espelhos e melhor: toques de humor cáustico em frases inesperadas. O livro cresce e voce fica absorvido pela busca de pistas desse irmão misterioso. Mas de súbito o humor se torna drama pesado, pior, inconvincente. Quanto mais o irmão, que jamais é nomeado, se aproxima da verdade, mais o livro naufraga. As coisas se atropelam, os novos personagens parecem ocos, Nabokov se esvai em nada.
Uma pena, pois o assunto é fascinante. O irmão poderia ser o próprio autor e o livro que lemos pode ser a própria biografia, que assim se faria uma auto-biografia. Mas o que parece é que Nabokov perde a mão, talvez o interesse em seu livro, perde o amor ao personagem central.
Vladimir Nabokov foi filho daquelas famílias nobres russas que fugiram ao ocidente com a revolução de 1917. Ele acabou adquirindo um inglês perfeito e se tornou um mestre das letras americanas. Lolita é eleito desde que saiu ( 1955 ) um dos melhores livros do século XX. E é, sem dúvida. Hoje Nabokov está um pouco fora de moda, não só por seus temas amorais, mas principalmente por sua escrita quase barroca. Ele escreve muito, fala bastante, tem o que dizer e não se censura. Embeleza, enriquece, é um anti-minimalista.
PS: Um dos charmes da década de 20 eram os refugiados russos. Em Paris era normal ser servido em cafés por garçons que foram condes em St. Petersburgo, e contratar um chauffeur que fora um rico proprietário de terras na Ucrânia. Nabokov não passou necessidades, seu pai as passou por ele. Sua prosa sempre tem um jeito snob, refinado, bastante conservador. Ou seja, não é para hoje, não é?
OLIVIER/ VISCONTI/ RAY/ RENOIR/ CLAUDIA/ HUXLEY/ STAMP
ORGULHO E PRECONCEITO de Robert Z. Leonard com Greer Garson, Laurence Olivier, Maureen O'Sullivan e Edmund Gwenn
Olivier compõe um excelente Mr.Darcy. Sua mistura de timidez com altivez atinge a medida certa. O roteiro deste belo exemplo de produção MGM, ou seja, muito luxo, é de Aldous Huxley. Sim jovens, houve um tempo em que gente como Huxley, Faulkner e Hecht trabalhavam para Hollywood. O roteiro consegue condensar o romance de Austen em duas movimentadas horas. Não senti falta de nenhuma cena. Há uma versão recente deste livro igualmente boa. Nota 8.
VAGAS ESTRELAS DA URSA de Luchino Visconti com Claudia Cardinale, Jean Sorel e Michael Craig
Logo após o soberbo O Leopardo, Visconti fez este pesado drama sobre casal de irmãos que tem relação dúbia ( incesto? ). Claudia, estranhamente feia, é uma recém casada que leva o marido inglês a mansão onde ela e irmão cresceram. O irmão, meio doido, logo tenta voltar aos tempos de contato íntimo com a irmã. O filme não flui. Visconti tenta se renovar, pega alguns tiques da nouvelle-vague e se perde. O visual é estranho, às vezes se parece com tv. A questão é: quem se interessa por personagens tão vazios? Nota 4.
MORTE EM VENEZA de Luchino Visconti com Dirk Bogarde
Dificil falar desse filme. Porque? Por ser um dos mais esquizos filmes já feitos. E também por ser exemplo de um tipo de filme velho, morto, mumificado. Vamos aos porques. Ele é esquizo por ser ao mesmo tempo ruim e excelente. Excelente são as roupas de Piero Tosi, figurinista mais famoso do mundo. Um desfile de detalhes, cores, requinte, soberba. Excelente são os cenários e a fotografia de Pasqualino de Santis. Veneza no explendor. A produção reformou e restaurou um hotel de verdade para filmar o luxo de 1911. Excelente a trilha sonora de Mahler, de tristeza cósmica. Então a gente fica meio hipnotizado ( se voce for um esteta ) admirando o visual e escutando a trilha sonora. Mas por outro lado, o filme em si é risivel. Discussões filosóficas sobre arte, pedantes e redundantes; movimentos de câmera irritantes e atores conduzidos como zumbis empaturrados. O efebo é anódino e Bogarde interpreta Thomas Mann como um entediado burguês. Detalhe: é um filme com som à Jacques Tati: diálogos que não se ouvem e muito som ambiente, o que ressalta seu caráter visual, de turismo em Veneza. Não é um filme, é uma coleção de souvenirs de uma viagem de um velho. Fofocas: Visconti era tão perfeccionista, que na obra-prima O Leopardo, ele atrasou a filmagem em horas para que em cena as champagnes estivessem na temperatura exata. E observe em como Dirk Bogarde tem o rosto de Johnny Depp!!!!!!! Nota 5.
BILLY BUDD de Peter Ustinov com Terence Stamp, Peter Ustinov, Robert Ryan, Melvyn Douglas e Paul Rogers
Navios ao mar. Preto e branco fantástico de Robert Krasker. Um marujo ingênuo é recrutado para a guerra. No navio ele se verá em conflito com o mal nada ingênuo. Stamp faz um retrato preciso, seu marujo é exemplo do bem e do bronco, é tolo e é angelical. O filme jamais filosofa por nós. Ryan é o mal, e o mal vence. Uma aula de cinema. Nossa mente fica completamente ligada ao filme, ele diverte e faz pensar. O final é digno de grandes filmes, exato. Nota 9.
O ATALHO de Kelly Richardt com Michelle Willians, Bruce Greenwood e Paul Dano
Western de arte. Argh!!! Para mostar três meninas cruzando um riacho são gastos vários minutos. Há quem confunda arte com fazer sofrer. É o pensamento do jeca: se voce quer arte, sofra de tédio. Imagens escuras, múrmurios, ação lentíssima, pseudo-profundo. Um porre!!!! Pra que fazer isso? Nota ZEEEEEEERO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
A SALA DE MÚSICA de Satyajit Ray
Um nobre empobrecido. Um palácio sujo. Um rio vasto. E muita música. Com poucos elementos Ray faz um imenso filme. É cheio de falhas. Algumas cenas são excessivas e outras chegam perto da caricatura. Mas perto do valor de seu todo é uma obra de poesia cósmica e original. Cinema atemporal, belo e sincero. Nota 9.
O SEGREDO DO PÂNTANO de Jean Renoir com Dana Andrews, Walter Huston, Anne Baxter, Walter Brennan, Ward Bond
Pântanos. Belas imagens da água e lodo. Um jovem atrás de seu cão conhece condenado que lá se esconde. A história corre através dessa relação e da relação do jovem com seu pai e com sua vila. Renoir fugiu da França nazista e fez alguns filmes americanos. São bons filmes, mas não procure o estilo Renoir neles. São impessoais. Nota 6.
Olivier compõe um excelente Mr.Darcy. Sua mistura de timidez com altivez atinge a medida certa. O roteiro deste belo exemplo de produção MGM, ou seja, muito luxo, é de Aldous Huxley. Sim jovens, houve um tempo em que gente como Huxley, Faulkner e Hecht trabalhavam para Hollywood. O roteiro consegue condensar o romance de Austen em duas movimentadas horas. Não senti falta de nenhuma cena. Há uma versão recente deste livro igualmente boa. Nota 8.
VAGAS ESTRELAS DA URSA de Luchino Visconti com Claudia Cardinale, Jean Sorel e Michael Craig
Logo após o soberbo O Leopardo, Visconti fez este pesado drama sobre casal de irmãos que tem relação dúbia ( incesto? ). Claudia, estranhamente feia, é uma recém casada que leva o marido inglês a mansão onde ela e irmão cresceram. O irmão, meio doido, logo tenta voltar aos tempos de contato íntimo com a irmã. O filme não flui. Visconti tenta se renovar, pega alguns tiques da nouvelle-vague e se perde. O visual é estranho, às vezes se parece com tv. A questão é: quem se interessa por personagens tão vazios? Nota 4.
MORTE EM VENEZA de Luchino Visconti com Dirk Bogarde
Dificil falar desse filme. Porque? Por ser um dos mais esquizos filmes já feitos. E também por ser exemplo de um tipo de filme velho, morto, mumificado. Vamos aos porques. Ele é esquizo por ser ao mesmo tempo ruim e excelente. Excelente são as roupas de Piero Tosi, figurinista mais famoso do mundo. Um desfile de detalhes, cores, requinte, soberba. Excelente são os cenários e a fotografia de Pasqualino de Santis. Veneza no explendor. A produção reformou e restaurou um hotel de verdade para filmar o luxo de 1911. Excelente a trilha sonora de Mahler, de tristeza cósmica. Então a gente fica meio hipnotizado ( se voce for um esteta ) admirando o visual e escutando a trilha sonora. Mas por outro lado, o filme em si é risivel. Discussões filosóficas sobre arte, pedantes e redundantes; movimentos de câmera irritantes e atores conduzidos como zumbis empaturrados. O efebo é anódino e Bogarde interpreta Thomas Mann como um entediado burguês. Detalhe: é um filme com som à Jacques Tati: diálogos que não se ouvem e muito som ambiente, o que ressalta seu caráter visual, de turismo em Veneza. Não é um filme, é uma coleção de souvenirs de uma viagem de um velho. Fofocas: Visconti era tão perfeccionista, que na obra-prima O Leopardo, ele atrasou a filmagem em horas para que em cena as champagnes estivessem na temperatura exata. E observe em como Dirk Bogarde tem o rosto de Johnny Depp!!!!!!! Nota 5.
BILLY BUDD de Peter Ustinov com Terence Stamp, Peter Ustinov, Robert Ryan, Melvyn Douglas e Paul Rogers
Navios ao mar. Preto e branco fantástico de Robert Krasker. Um marujo ingênuo é recrutado para a guerra. No navio ele se verá em conflito com o mal nada ingênuo. Stamp faz um retrato preciso, seu marujo é exemplo do bem e do bronco, é tolo e é angelical. O filme jamais filosofa por nós. Ryan é o mal, e o mal vence. Uma aula de cinema. Nossa mente fica completamente ligada ao filme, ele diverte e faz pensar. O final é digno de grandes filmes, exato. Nota 9.
O ATALHO de Kelly Richardt com Michelle Willians, Bruce Greenwood e Paul Dano
Western de arte. Argh!!! Para mostar três meninas cruzando um riacho são gastos vários minutos. Há quem confunda arte com fazer sofrer. É o pensamento do jeca: se voce quer arte, sofra de tédio. Imagens escuras, múrmurios, ação lentíssima, pseudo-profundo. Um porre!!!! Pra que fazer isso? Nota ZEEEEEEERO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
A SALA DE MÚSICA de Satyajit Ray
Um nobre empobrecido. Um palácio sujo. Um rio vasto. E muita música. Com poucos elementos Ray faz um imenso filme. É cheio de falhas. Algumas cenas são excessivas e outras chegam perto da caricatura. Mas perto do valor de seu todo é uma obra de poesia cósmica e original. Cinema atemporal, belo e sincero. Nota 9.
O SEGREDO DO PÂNTANO de Jean Renoir com Dana Andrews, Walter Huston, Anne Baxter, Walter Brennan, Ward Bond
Pântanos. Belas imagens da água e lodo. Um jovem atrás de seu cão conhece condenado que lá se esconde. A história corre através dessa relação e da relação do jovem com seu pai e com sua vila. Renoir fugiu da França nazista e fez alguns filmes americanos. São bons filmes, mas não procure o estilo Renoir neles. São impessoais. Nota 6.
ARNALDO JABOR
Muito bom o texto dele no Estadão de ontem. Ele chorou com o filme de Woody Allen, na hora em que Cole Porter canta ao piano. OK. Voce menino inteligentinho antenadinho, voce pode dizer: eis um filme comum que pegou o pessoal do passado, o tipo "homem inteligentão desligado"... eu sei que voce prefere os filmes de "arte" feitos calculadamente para impressionar gente como voce ( A REDE SOCIAL, CISNE NEGRO, MELANCOLIA ), aqueles produtos de filosofia fácil, que ditem aquilo que voce já sabe e sente, com o visual que voce conhece e um certo climinha tristinho e escurinho... Mas o que Jabor diz, e eu digo, é que não há nada que vá te fazer chorar quando voce tiver 70 anos. Talvez apenas o seu umbigo em horas de terapia. Por não saber nada sobre cinema voce cai fácil na colonização desses dois únicos tipos de filme que voce entende: o filme tristinho e o filme pop fofinho.
O que voce não pode saber, e jamais saberá, é que existe uma coisa chamada paixão e é sobre isso que Jabor fala. Paixão pelo povo de 1920 em Paris, pelos intelectuais ferinos e elegantes da New York dos anos 30. E pelo cinema sem moda e sem cálculo. Cinema que não é pro seu narizinho sensível e bonitinho.
Amava-se Tarkovski como quem ama o Corinthians. E era-se anti-Bunuel como quem é anti-Gaviões. Questão de paixão baby. Eu chorava ao PENSAR em ir aos bares onde Heminguay, Cocteau, Man Ray ou Capa estiveram ( e chorei ). Sabe o que eu ganhei com essa paixão? Cor, sangue, faro e muito espírito. E é o que eu procuro e não acho no cinema de agora: paixão viva. Tarantino sempre demonstra essa paixão viva. Tem mais uns cinco ou seis que também têm isso. Mas eles não conseguem fazer um movimento. Pior, para voces, ó seres inteligentinhos, eles são apenas pop. Afinal, não falam do "sentido da vida". Surpresa pra voce baby: seus falsos gurus falam o que voce quer ouvir. Nada de novo no front.
Como paixão o cinema morreu a vinte anos pelo menos. A reverência que cheguei a ver no fim dos anos 70 ( que era demonstrada pelo fato de que filmes eram aplaudidos e seus letreiros de encerramento acompanhados até o fim ), se encerrou. Recordo aplausos em "cena aberta" para Annie Hall e Z de Costa-Gavras. E discussões acaloradas sobre Rede de Intrigas e Lenny ( na sala de cinema, entre estranhos ). Parece que quem ia ao cinema era mais vivo.
Hoje o fime de arte é um tipo de cantiga de deprimidos que embalam bonecos mortos em seu colinho flácido. Nada têm a dizer e nada despertam de novo. Porque voce pode com seu pensamento inteligentinho estar pensando: Esse cara é saudosista! Mas o que voce não consegue perceber é que o que desejo ( pasmem! Eu ainda desejo algo que não me é oferecido para ser desejado!!!!! ), é exatamente o novo, a surpresa, o inesperado.
Belo texto Jabor!!!!!
O que voce não pode saber, e jamais saberá, é que existe uma coisa chamada paixão e é sobre isso que Jabor fala. Paixão pelo povo de 1920 em Paris, pelos intelectuais ferinos e elegantes da New York dos anos 30. E pelo cinema sem moda e sem cálculo. Cinema que não é pro seu narizinho sensível e bonitinho.
Amava-se Tarkovski como quem ama o Corinthians. E era-se anti-Bunuel como quem é anti-Gaviões. Questão de paixão baby. Eu chorava ao PENSAR em ir aos bares onde Heminguay, Cocteau, Man Ray ou Capa estiveram ( e chorei ). Sabe o que eu ganhei com essa paixão? Cor, sangue, faro e muito espírito. E é o que eu procuro e não acho no cinema de agora: paixão viva. Tarantino sempre demonstra essa paixão viva. Tem mais uns cinco ou seis que também têm isso. Mas eles não conseguem fazer um movimento. Pior, para voces, ó seres inteligentinhos, eles são apenas pop. Afinal, não falam do "sentido da vida". Surpresa pra voce baby: seus falsos gurus falam o que voce quer ouvir. Nada de novo no front.
Como paixão o cinema morreu a vinte anos pelo menos. A reverência que cheguei a ver no fim dos anos 70 ( que era demonstrada pelo fato de que filmes eram aplaudidos e seus letreiros de encerramento acompanhados até o fim ), se encerrou. Recordo aplausos em "cena aberta" para Annie Hall e Z de Costa-Gavras. E discussões acaloradas sobre Rede de Intrigas e Lenny ( na sala de cinema, entre estranhos ). Parece que quem ia ao cinema era mais vivo.
Hoje o fime de arte é um tipo de cantiga de deprimidos que embalam bonecos mortos em seu colinho flácido. Nada têm a dizer e nada despertam de novo. Porque voce pode com seu pensamento inteligentinho estar pensando: Esse cara é saudosista! Mas o que voce não consegue perceber é que o que desejo ( pasmem! Eu ainda desejo algo que não me é oferecido para ser desejado!!!!! ), é exatamente o novo, a surpresa, o inesperado.
Belo texto Jabor!!!!!
A SALA DE MÚSICA- SATYAJIT RAY, UM DIRETOR COMO NENHUM OUTRO
Índia. A vastidão sem fim de um rio. Um horizonte que não termina. Um palácio a beira desse rio. Decadente, sujo, úmido. No terraço vive um velho que foi rico, e seus serviçais. Esse homem não desce aos outros andares faz muito tempo. Em flash-back saberemos o porque.
Ray criou o cinema de arte na India. Antes dele só havia Bollywood. Nascido rico, Ray usou o que tinha e o que não tinha para fazer seu primeiro filme. Este é o segundo, feito em meio a trilogia de Apu. No caos da falta de recursos, Ray fazia a direção, produção, cenários, figurinos e ainda ajudava na fotografia e na música. O milagre é que seus filmes são plasticamente maravilhosos, amplos, abertos, e também são lentos, sujos, cruéis até, mas sempre belos. Chega a emocionar vermos um tipo de vida, um tipo de cinema tão diferente do Ocidente. O tempo é outro, os sets são outros, a língua ( deliciosa ) é exótica, os rostos são estranhos. Mas há em seu cinema o mesmo espírito do cinema de Mizoguchi: nobreza. Ray ama seus personagens, mais que isso, ele nos faz sentir esse amor, mais ainda, ele nos faz sentir a dor do tempo que se vai, das mortes inevitáveis ( sempre há uma morte em seus filmes ), dos erros e dos vicios.
O erro aqui é o orgulho. O nobre decadente perderá tudo por seu orgulho, por se sentir obrigado a ser superior sempre, por acreditar em seu sangue, por vaidade sem fim. E por seu amor a música. O filme é cheio de cenas de música, todas lindíssimas, porque ele insiste em fazer saraus para e pela música. Gasta o dinheiro que já não tem com músicos e festas para seus amigos. E no ápice do filme, já no tempo presente, ele dá a última festa e o que vemos é uma execução perfeita. Música indiana ( Ustad Vilayat Khan ) que empolga, e dança que beira o sublime. Atenção às mãos da dançarina, é nas mãos que vive a arte da dança hindú. Toda a melodia é traduzida em movimentos que voam e falam.
O nobre fica extasiado, e parte numa última cavalgada, rumo ao fim. Bêbado.
Difícil fazer justiça ao cinema de Ray. Ele não deixou herdeiros ( ou todo o cinema do terceiro mundo o é? ). Seus filmes devem ser vistos em tranquilidade. Nada têm de filosóficos ou religiosos. São belas observações, isentas, sobre a vida da India de seu tempo. E se há uma moral em sua obra é apenas esta: a vida passa como dor, mas existe um momento em que ela vale a pena e se explica. Cada um de seus filmes mostrou esse momento. Um nobre.
Ray criou o cinema de arte na India. Antes dele só havia Bollywood. Nascido rico, Ray usou o que tinha e o que não tinha para fazer seu primeiro filme. Este é o segundo, feito em meio a trilogia de Apu. No caos da falta de recursos, Ray fazia a direção, produção, cenários, figurinos e ainda ajudava na fotografia e na música. O milagre é que seus filmes são plasticamente maravilhosos, amplos, abertos, e também são lentos, sujos, cruéis até, mas sempre belos. Chega a emocionar vermos um tipo de vida, um tipo de cinema tão diferente do Ocidente. O tempo é outro, os sets são outros, a língua ( deliciosa ) é exótica, os rostos são estranhos. Mas há em seu cinema o mesmo espírito do cinema de Mizoguchi: nobreza. Ray ama seus personagens, mais que isso, ele nos faz sentir esse amor, mais ainda, ele nos faz sentir a dor do tempo que se vai, das mortes inevitáveis ( sempre há uma morte em seus filmes ), dos erros e dos vicios.
O erro aqui é o orgulho. O nobre decadente perderá tudo por seu orgulho, por se sentir obrigado a ser superior sempre, por acreditar em seu sangue, por vaidade sem fim. E por seu amor a música. O filme é cheio de cenas de música, todas lindíssimas, porque ele insiste em fazer saraus para e pela música. Gasta o dinheiro que já não tem com músicos e festas para seus amigos. E no ápice do filme, já no tempo presente, ele dá a última festa e o que vemos é uma execução perfeita. Música indiana ( Ustad Vilayat Khan ) que empolga, e dança que beira o sublime. Atenção às mãos da dançarina, é nas mãos que vive a arte da dança hindú. Toda a melodia é traduzida em movimentos que voam e falam.
O nobre fica extasiado, e parte numa última cavalgada, rumo ao fim. Bêbado.
Difícil fazer justiça ao cinema de Ray. Ele não deixou herdeiros ( ou todo o cinema do terceiro mundo o é? ). Seus filmes devem ser vistos em tranquilidade. Nada têm de filosóficos ou religiosos. São belas observações, isentas, sobre a vida da India de seu tempo. E se há uma moral em sua obra é apenas esta: a vida passa como dor, mas existe um momento em que ela vale a pena e se explica. Cada um de seus filmes mostrou esse momento. Um nobre.
DÁ PRA CRER NISSO???? Ô SE DÁ !!!!!!
Dá uma olhada no vídeo daí de baixo. 50 anos de pop em cinco minutos de inspiração profética. É um momento de um filme de 1941, uma comédia clássica. Do começo ao fim, do r and b ao rap, do rock ao disco tá tudo mostrado nesses cinco minutos.... Conclusão? Caraca!!!! Como a América foi fértil um dia!!!!!
POR ONDE VOCÊ ANDOU, ROBERT? - HANS MAGNUS ENZENSBERGER
É um autor que frequenta sempre os postulantes a vencedor do Nobel. Poeta, ensaísta, crítico, romancista. Aqui, em tom de literatura juvenil mas na verdade com implicações adultas, ele conta a saga de Robert, um adolescente alemão de classe média, que sem saber como, acaba por viajar por sete locais e sete épocas diferentes. Ele se vê na Sibéria dos anos 50, na Austrália de 1946 e por aí vai.... Fantasia? Sim, da melhor safra, e penso em como eu adoraria ter lido este livro aos 16 anos ( Mas quando eu tinha 16 este livro não havia sido escrito! )
Aventura. Como é bom ler um livro de ação bem escrita. Coisas acontecem, crimes, fugas, guerras, quase amores... E Enzensberger consegue algo muito raro: nos sentimos nos lugares onde a ação se passa. Quase podemos sentir o cheiro da Estrasburgo do século XVII ou ver a ordem e o asseio da Amsterdam de 1617. Mas nada há de romantico aqui. Robert percebe a pobreza de cada cidade vista, a falta de bens que lhe são tão comuns hoje, a falta de comida. Enzensberger nunca glorifica o passado, ele sabe que cada um só pode viver em seu tempo. Quem vier amanhã também nos achará limitados.
Dificil saber se a intenção do autor foi "quântica". Há um flerte com a noção de que todo tempo é aqui/neste lugar/agora. Que os ontem acontecem indefinidamente para todo o sempre. Que o futuro e o passado moram em todo presente. Mas ele não aprofunda nada disso, apenas sugere, felizmente!
Precisamos de mais autores como Hans Magnus. Que escrevam com gosto e não com sofrimento. Que parecem sorrir de prazer ao criar e que não nos obriguem a sentir pena de seu dom. Aqui temos um muito bom livro, que diverte, absorve e toca nos tais "temas sérios". O que mais voce quer? Não temos mais um Henry James ou um Joseph Conrad. Um Enzensberger está de bom tamanho.
Aventura. Como é bom ler um livro de ação bem escrita. Coisas acontecem, crimes, fugas, guerras, quase amores... E Enzensberger consegue algo muito raro: nos sentimos nos lugares onde a ação se passa. Quase podemos sentir o cheiro da Estrasburgo do século XVII ou ver a ordem e o asseio da Amsterdam de 1617. Mas nada há de romantico aqui. Robert percebe a pobreza de cada cidade vista, a falta de bens que lhe são tão comuns hoje, a falta de comida. Enzensberger nunca glorifica o passado, ele sabe que cada um só pode viver em seu tempo. Quem vier amanhã também nos achará limitados.
Dificil saber se a intenção do autor foi "quântica". Há um flerte com a noção de que todo tempo é aqui/neste lugar/agora. Que os ontem acontecem indefinidamente para todo o sempre. Que o futuro e o passado moram em todo presente. Mas ele não aprofunda nada disso, apenas sugere, felizmente!
Precisamos de mais autores como Hans Magnus. Que escrevam com gosto e não com sofrimento. Que parecem sorrir de prazer ao criar e que não nos obriguem a sentir pena de seu dom. Aqui temos um muito bom livro, que diverte, absorve e toca nos tais "temas sérios". O que mais voce quer? Não temos mais um Henry James ou um Joseph Conrad. Um Enzensberger está de bom tamanho.
BILLY BUDD, O MAL ENCONTRA A INOCÊNCIA
Acaba de ser lançado o dvd do filme de Peter Ustinov, Billy Budd. A Veja também o comenta nesta semana. O que dizer? Se ando pegando no pé de certos filmes que nada têm a dizer e se fingem de filosofia, este, aparente aventura marítima, é arte absoluta, arte que diverte também, mas que faz pensar, pensar bem. O livro original é de Hermann Melville e Ustinov, ator que aqui se faz diretor, se mostra a altura do que a história lhe exige.
Em fins do século XVIII, a marinha inglesa, em guerra, recrutava a força qualquer marinheiro civil inglês que fosse pego. O ambiente no navio mercanto "RIGHTS OF MEN" é de camaradagem, mas o navio de guerra 'AVENGER" recruta a força Billy Budd e o que vemos é como esse marujo muito jovem se vira em seu novo trabalho.
Billy é orfão, ignorante, bronco, um rapaz sem nenhuma cultura. Mas ele tem algumas coisas que o ajudam: é bonito, acredita na vida e em sua inocência persevera em teimosa obstinação. Billy crê em seu mundo. Acredita que a verdade prevalece, que o bem traz o bem e que todos gostam de quem for um bom camarada. Esse Budd é feito pelo iniciante Terence Stamp, e Stamp está a altura de Billy Budd. Ele jamais se torna um anjinho piegas, nunca faz humor. O marujo do bem é um tolo, um iletrado, e Stamp nunca nos deixa esquecer disso. Mais, ele o faz sempre sorridente, e nesse sorriso vemos algo de "quase maligno" em Budd.
Voce já deve ter visto Terence Stamp em algum filme atual. Ele se tornou uma estrela nos anos 60, mas na loucura da época se perdeu por todos os anos 70, retornando a vida nos 80/90. Foi Priscilla, a Rainha do Deserto que o recolocou no mercado. Se na juventude seu rosto transparecia inocência, hoje é o rosto da maldade. É um dos vilões mais usados. Voltando ao filme....
No navio, Billy entra em atrito com o encarregado da disciplina, papel feito de forma magnífica pelo sempre marcante Robert Ryan. Se Billy crê no bem, Ryan é o mal. Ele tem êxtases em cada chicotada dada em cada marujo ( o chicote era norma na marinha inglesa de então. Foi norma no Brasil até o século XX ), e passa a sofrer intensamente com a bondade de Billy Budd. Os diálogos entre os dois são maravilhosos, Billy levando o bem adiante em lógica natural absoluta e Ryan usando o mal como escudo onde se protege de seu desencanto. O filme não freudianiza nada, não evangeliza nada, não faz poesia, ele conta a história, dá chance a 8 atores soberbos e se encerra em final afiado, cruel, incômodo.
Obrigatório. É um filme para todo adulto que goste de filmes.
Em fins do século XVIII, a marinha inglesa, em guerra, recrutava a força qualquer marinheiro civil inglês que fosse pego. O ambiente no navio mercanto "RIGHTS OF MEN" é de camaradagem, mas o navio de guerra 'AVENGER" recruta a força Billy Budd e o que vemos é como esse marujo muito jovem se vira em seu novo trabalho.
Billy é orfão, ignorante, bronco, um rapaz sem nenhuma cultura. Mas ele tem algumas coisas que o ajudam: é bonito, acredita na vida e em sua inocência persevera em teimosa obstinação. Billy crê em seu mundo. Acredita que a verdade prevalece, que o bem traz o bem e que todos gostam de quem for um bom camarada. Esse Budd é feito pelo iniciante Terence Stamp, e Stamp está a altura de Billy Budd. Ele jamais se torna um anjinho piegas, nunca faz humor. O marujo do bem é um tolo, um iletrado, e Stamp nunca nos deixa esquecer disso. Mais, ele o faz sempre sorridente, e nesse sorriso vemos algo de "quase maligno" em Budd.
Voce já deve ter visto Terence Stamp em algum filme atual. Ele se tornou uma estrela nos anos 60, mas na loucura da época se perdeu por todos os anos 70, retornando a vida nos 80/90. Foi Priscilla, a Rainha do Deserto que o recolocou no mercado. Se na juventude seu rosto transparecia inocência, hoje é o rosto da maldade. É um dos vilões mais usados. Voltando ao filme....
No navio, Billy entra em atrito com o encarregado da disciplina, papel feito de forma magnífica pelo sempre marcante Robert Ryan. Se Billy crê no bem, Ryan é o mal. Ele tem êxtases em cada chicotada dada em cada marujo ( o chicote era norma na marinha inglesa de então. Foi norma no Brasil até o século XX ), e passa a sofrer intensamente com a bondade de Billy Budd. Os diálogos entre os dois são maravilhosos, Billy levando o bem adiante em lógica natural absoluta e Ryan usando o mal como escudo onde se protege de seu desencanto. O filme não freudianiza nada, não evangeliza nada, não faz poesia, ele conta a história, dá chance a 8 atores soberbos e se encerra em final afiado, cruel, incômodo.
Obrigatório. É um filme para todo adulto que goste de filmes.
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