As malas estavam prontas e nós iríamos para Paris em 3 dias. Eu não queria ir. Era ainda um anglófono, não gostava da empáfia parisiense. Mas alguma coisa estava mudando em mim. Era a copa da Espanha, uma copa marcada pelo sol e por alguns jogos inesquecíveis. A última copa em que quatro seleções poderiam ser campeãs com justiça. ( Itália, Alemanha, Brasil e França. ) Foi a copa de Rossi, Rummenigge, Falcão e Platini. Mas também de Antognoni, Breitner, Junior e Tigana. E muito mais...
No meu quarto, eu, que durante a copa aprendera a amar a seleção da França, assistia mais uma exibição de gala desse time que era como Mozart em campo : refinadíssimo toque angélico. Eles jamais davam um chutão, nunca faziam um lançamento longo. Eram passes curtos, milimétricos, dribles limpos, claros, refinados. Uma completa âusência de violência. As camisas azuis, da Le Coq Sportiff, jamais erravam. Aprendi a idolatrar aquele meio campo que era um quarteto de cordas digno de Haydn : Alain Giresse, um ladrão de bolas, um baixinho de Marselha, um Napoleão da bola; Ghenghini, o rei do passe, príncipe de modos sublimes, magro garçon; Tigana, o ágil, veloz, surpreendente Tigana, primeiro ídolo negro da bola tricolor, habilidoso atacante de raio sem fim; e o maior de todos : Michel Platini, apesar de Zico, Maradona, Zidane, Romário, Crujff, Van Basten e vasto etc, foi este 10 tricoleur, o mais perfeito toque que um time já teve. É dele o mais belo gol que ví ( Juventus x Argentinos Júniors em Tóquio. Três chapéus, limpos e longos na pequena área, e o gol. Tudo sem deixar a bola cair e sempre com o mesmo pé. O juiz anulou esse gol. Porquê ? Nunca ninguém soube. A Juve venceu com gol de Michel. )
O jogo naquele dia era pela semi-final, contra a Alemanha de Rummenigge, Breitner, Hansi Muller e Kaltz. Detalhe : a França até então jamais vencera os alemães em competições oficiais. Mas o jogo foi uma festa francesa ! Toques e mais toques de classe, dribles maravilhosos e um fato raro : essa seleção nunca errava um passe ! Era um ballet dos quatro mosqueteiros do meio campo. Mas... tragédia de Racine : o ataque de Rocheteau e de Six perdia gol atrás de gol ! Um gol fez a França, um mísero gol ( como em 2006 contra o Brasil, em que moralmente o jogo deveria ter sido 3x0 ). E a Alemanha, que na época ainda era A Alemanha, fez um também, e levou o jogo para a prorrogação.
Vieram então os mais fantásticos 30 minutos de toda a história do esporte ( e quem diz isso não sou eu, é a FIFA. Este jogo é o quarto maior da história. Os outros 3 são : 1970- Alemanha 4x4 Itália, 1982: Brasil 2x3 Itália, 1970: Brasil 4x1 Itália e este França e Alemanha ).
Nessa prorrogação a França, nos quinze primeiros minutos, jogou o melhor futebol que presenciei em toda minha longa vida. Fez 3x1 nos alemães e começou a comemorar a final, que seria contra Brasil ou Itália. Trocava passes, dava dribles, e finalmente, fazia gols. Veio o segundo tempo e nada mudou : um show de classe. O quarteto tocava Beethoven para os germânicos. Mas... aos 10 do segundo tempo Rocheteau invade a área livre para fazer o quarto. O goleiro Schumacher, sai e tromba com Rocheteau. O francês sairá de campo com o maxilar fraturado. A França desaba. O pênalti não foi marcado e Rummenigge, aos 12 e aos 15 do segundo tempo da prorrogação faz o milagre : 3x3.
Quando Six chuta fora o último pênalti... eu choro. Porquê chorei neste jogo e não em Brasil e Itália ? Porquê a Itália jogou melhor aquele jogo. Os dois jogaram bem na verdade, mas os italianos tiveram mais raça. Mereceram. ( e, típico daquela nobre geração brasileira, de Sócrates e Zico, de Falcão e Júnior, de Telê e Leandro; jamais se contestou a vitória italiana. Choraram, mas nunca criaram teorias conspiratórias, como fez a vergonhosa geração de 98, dos amarelões Ronaldo e Júnior Baiano. )
Chorei naquela tarde/noite porque assistí a derrota da beleza frente a eficiência, da arte frente a guerra, do melhor frente ao aplicado. Ver Platini chorar ao final me engasga até hoje, e fez com que nascesse minha francofilia ( sim. Não foi Sartre ou Godard. Foi Platini e Ghenghini. )
A geração do cérebro Zidane, o maior jogador dos últimos 15 anos, lhes faria justiça. Seriam duas euros, uma olimpíada, duas copas das confederações e uma das mais belas vitórias em copa. ( Contestada só no Brasil, que é parte interessada. Um time com Vieira, Deschamps, Desailly, Zidane, Pires, Henry e Trezeguet não mereceu ? Na verdade a França foi prejudicada naquela copa em casa : Zidane foi expulso na primeira fase e suspenso, injustamente, por três jogos, só retornou na final. )
O que me levou a escrever este texto foi exatamente o São Paulo e Flamengo de ontem. Um lançamento banal de um jogador paulista e uma exibição normal de um velhinho europeu bastaram para mostrar a carência de cérebros que há no futebol. De alguém que pense o jogo, que encontre soluções, que faça o inesperado. Como faziam em superlativo grau os 4 mosqueteiros, como Zidane sempre fez, com frieza Descatiana, e como tantos brasileiros sempre souberam fazer ( Gerson e Rivelino eram mestres nisso. ) Aqui, Raí foi um dos últimos. O estilista, o mago, o simplificador. Naquela tarde maldita isso começou a morrer. Faríamos melhor se, como Telê fez com Crujff, aplaudìssemos Zidane e Platini, e não culpássemos os deuses, a Nike, a bola ou o acaso. Pet mostrou a elegância que o futebol deve ter. Ou então, é o tédio de super-atletas correndo e berrando até morrer. A Alemanha venceu naquele dia. Mas o mundo chorou por Platini. Justiça, enfim.
HOLANDA, 1974, SONHO E DECEPÇÃO
Como dizia Nelson Rodrigues, "meninos, eu ví ! " Holanda 3x0 Uruguai. Não era o uruguaizinho de hoje, era o Uruguai de Forlan e Pedro Rocha. Após o jogo, Rocha disse que durante todo o primeiro tempo ele não vira a bola. A celeste não passara uma só vez de seu meio campo.
Era a copa da Alemanha, 1974, e a equipe sul-americana fora pega de surpresa porque era um tempo em que ainda poderiam ocorrer surpresas no futebol. ( Não falo de zebras. Zebra é quando o fraco vence o forte. Surpresa é quando algo totalmente surpreendente acontece. Independe de sorte, é puro talento. ) A surpresa era possível porque a tv não podia exibir TUDO o que acontecia no futebol. Conhecia-se um ou dois jogadores europeus durante o ano, e era só na copa do mundo que se podia ver quem era quem. Assim, um técnico tinha a chance de montar um time realmente surpreendente, e pegar o adversário com as calças na mão. Foi o que aconteceu com o Uruguai. Apesar do Ajax ser tri-campeão do mundo ( vencendo os sul-americanos na casa deles. O formato antigo era muito dramático : o campeão europeu tinha de jogar a final na Bombonera ou no Centenário, e o latino tinha de ir a Milão ou Madrid. ) O Feyenord também fora campeão em 1970, mas ninguém espionava nada. Brasileiros, argentinos e uruguaios se achavam os melhores. A Holanda trucidou os três.
Holanda 4x0 Argentina. Foi, junto com a França jogando contra a Alemanha em 1982 e o Brasil contra a Argentina também em 82, a maior exibição de um time que já vi. Com uma diferença : aquilo era realmente novo. Foi a última vez que o futebol evoluiu. Telê Santana e Claudio Coutinho caíram estarrecidos na época. Os tempos mudavam, mas os conservadores acabariam por vencer. O que era esse time ?
Simples. O gênio chamado Rinus Mitchel, maior técnico do esporte, pegou a molecada da perifa de Amsterdã e montou um time : o futuro Ajax imbatível. Moldou uma tática à eles : a pelada organizada, o tal do "futebol total ", todos jogando em todas as posições, todos marcando gols e marcando o adversário, todos tendo a habilidade de jogar como centro-avante e líbero. Deu certo. Deu certo porque aquela geração tinha muito talento, muita técnica e três gênios de elevadíssimo QI : Neeskens, Van Hannigan e Johnan Crujff, este, o mais talentoso jogador que vi jogar. Quando o Uruguai, e depois a Argentina, viram a bola rolar, cinco ( cinco !!!!! ) jogadores se atiravam sobre quem estivesse com a bola, a roubavam, e em vez de lançar a bola ao atacante, tocavam ao "zagueiro" que avançava com ela e tocava ao "volante" que fazia o gol. Tudo de primeira. Mas quem era zagueiro ? Rudi Krol ? ( Após tanto tempo eu lembro todos os nomes ), Suurvier ? Van der Kerkoff ? Quem era volante ? Neeskens ? E atacantes ? Johnny Rep ? Resenbrinck ? Não foi Crujff que marcou Rivelino ? Mas principalmente, porque esse time se tornou a estrela no céu dos fãs de Bowie, Che e Kubrick ?
Simples saber. Eles tinham uma atitude de "não estou nem aí ". Passavam a impressão de jogar brincando, rindo, e de que, de uma hora para outra, poderiam abandonar a partida se ela não lhes desse prazer. Mas havia mais. Eles transavam na véspera do jogo. Na concentração, esposas e namoradas podiam dormir com seus amores. Eles podiam fumar, podiam sair quando quisessem, podiam falar. Eram livres, e seu futebol era espelho disso. Era Dionísio no futebol.
Então entravam em campo. Cabelos longos e desgrenhados, camisas fora do calção, conversando, falando piadas, rindo. E jogavam. Corriam muito, tocavam rápido, e driblavam. Tudo feito com simplicidade, com prazer, com leveza. Foi a última evolução técnica no esporte.
Os técnicos do resto do planeta logo os copiaram. O Barcelona, com Mitchels e Crujff foi quase igual. Mas o Barcelona não tinha o QI dos jovens holandeses. Pois para jogar daquele modo era preciso inteligência, amizade, alegria, ter crescido junto, criado junto. Os outros times adotaram a superfície do estilo : a linha de impedimento, o atacante que também deve marcar, o toque rápido, o carrinho na bola e zagueiros que atacam. Mas era diferente, não era natural, era uma obrigação. O futebol que hoje você assiste, menino, é neto dessa Holanda. O melhor Manchester, o Barça e o Real que vocês viram eram rascunhos pobres dessa equipe e o São Paulo do Telê ( que exibia jogos de Crujff para seus talentos ) foi uma bela tentativa. ( Assim como o Flamengo de Claudio Coutinho e de Carpeggiani ).
O futebol evolui sempre, claro. A ciência do esporte evolui. Correr mais e ser mais forte. As táticas e o modo de jogar é o mesmo desde 1974. A Holanda era um 3/5/2, que se tornava 6/3/1 e metamorfoseava-se em 1/3/6. A Alemanha, que venceu, jogava como jogam os times de Muricy e de 90 % dos times. Jogava defendendo bem e contra-atacando com força. Venceram e não foi injusto, se mataram em campo na final, tinham de vencer, e a Holanda foi vítima de seu único ponto vulnerável : a vaidade. Amoleceram ao fazer 1x0 com três minutos de jogo, perderam gols e interesse e quando acordaram já era tarde. Um time que tinha Beckenbauer, Breitner, Gerd Muller e Sepp Maier não pode ser zebra. Foi a vitória de Apolo. A Alemanha jogava com clareza, objetividade, eficiencia. Com o talento de Franz e Paul, e os gols de Gerd.
Falta falar de Holanda 2x0 Brasil. Foi um jogo feio. O Brasil bateu muito. Poderia ter sido 5x0 para os holandeses. Poderia ter sido 1x0 para o Brasil. ( O Brasil jogou melhor os dez minutos iniciais. A Holanda observou o Brasil de Rivelino, Luis Pereira, Carpegiani, Marinho Peres e Jairzinho no início. Então começou a jogar. ) Para o Brasil foi uma vergonha : jogamos feio e sujo. Telê lutaria contra essa lembrança.
Em 1988 a Holanda ganhou a eurocopa com Rinus Mitchel novamente no banco. O convenceram a sair da aposentadoria. Aquele time de Gullit, Rijkaard, Van Basten deu show, mas nada tinha da "Laranja Mecânica" de 74. Nunca mais aquele estilo, nunca mais aquele sonho. A mais poética das equipes, a mais amada pelos adversários, a mais copiada e a mais frustrante, nunca mais.
Você, jovem que tem como referência Christiano Ronaldo e Kaká, talvez entenda agora o porque de em todas as copas, os caras de cerca de 40 anos, sempre torcerem pela Holanda, e a olharem com carinho e respeito. É que em meio àqueles Davids, Bogardes, Seedorfs e que tais, jogadores tão comuns, tão como todos o são, nós temos a esperança de rever, nem que seja por cinco minutos, a festa laranja, a orgia de pernas que se confundem, o prazer da pelada. É como se fantasmas pairassem sobre o campo verde onde joga a Holanda. E nos frustramos.
Meninos eu ví. E não me esquecí.
Era a copa da Alemanha, 1974, e a equipe sul-americana fora pega de surpresa porque era um tempo em que ainda poderiam ocorrer surpresas no futebol. ( Não falo de zebras. Zebra é quando o fraco vence o forte. Surpresa é quando algo totalmente surpreendente acontece. Independe de sorte, é puro talento. ) A surpresa era possível porque a tv não podia exibir TUDO o que acontecia no futebol. Conhecia-se um ou dois jogadores europeus durante o ano, e era só na copa do mundo que se podia ver quem era quem. Assim, um técnico tinha a chance de montar um time realmente surpreendente, e pegar o adversário com as calças na mão. Foi o que aconteceu com o Uruguai. Apesar do Ajax ser tri-campeão do mundo ( vencendo os sul-americanos na casa deles. O formato antigo era muito dramático : o campeão europeu tinha de jogar a final na Bombonera ou no Centenário, e o latino tinha de ir a Milão ou Madrid. ) O Feyenord também fora campeão em 1970, mas ninguém espionava nada. Brasileiros, argentinos e uruguaios se achavam os melhores. A Holanda trucidou os três.
Holanda 4x0 Argentina. Foi, junto com a França jogando contra a Alemanha em 1982 e o Brasil contra a Argentina também em 82, a maior exibição de um time que já vi. Com uma diferença : aquilo era realmente novo. Foi a última vez que o futebol evoluiu. Telê Santana e Claudio Coutinho caíram estarrecidos na época. Os tempos mudavam, mas os conservadores acabariam por vencer. O que era esse time ?
Simples. O gênio chamado Rinus Mitchel, maior técnico do esporte, pegou a molecada da perifa de Amsterdã e montou um time : o futuro Ajax imbatível. Moldou uma tática à eles : a pelada organizada, o tal do "futebol total ", todos jogando em todas as posições, todos marcando gols e marcando o adversário, todos tendo a habilidade de jogar como centro-avante e líbero. Deu certo. Deu certo porque aquela geração tinha muito talento, muita técnica e três gênios de elevadíssimo QI : Neeskens, Van Hannigan e Johnan Crujff, este, o mais talentoso jogador que vi jogar. Quando o Uruguai, e depois a Argentina, viram a bola rolar, cinco ( cinco !!!!! ) jogadores se atiravam sobre quem estivesse com a bola, a roubavam, e em vez de lançar a bola ao atacante, tocavam ao "zagueiro" que avançava com ela e tocava ao "volante" que fazia o gol. Tudo de primeira. Mas quem era zagueiro ? Rudi Krol ? ( Após tanto tempo eu lembro todos os nomes ), Suurvier ? Van der Kerkoff ? Quem era volante ? Neeskens ? E atacantes ? Johnny Rep ? Resenbrinck ? Não foi Crujff que marcou Rivelino ? Mas principalmente, porque esse time se tornou a estrela no céu dos fãs de Bowie, Che e Kubrick ?
Simples saber. Eles tinham uma atitude de "não estou nem aí ". Passavam a impressão de jogar brincando, rindo, e de que, de uma hora para outra, poderiam abandonar a partida se ela não lhes desse prazer. Mas havia mais. Eles transavam na véspera do jogo. Na concentração, esposas e namoradas podiam dormir com seus amores. Eles podiam fumar, podiam sair quando quisessem, podiam falar. Eram livres, e seu futebol era espelho disso. Era Dionísio no futebol.
Então entravam em campo. Cabelos longos e desgrenhados, camisas fora do calção, conversando, falando piadas, rindo. E jogavam. Corriam muito, tocavam rápido, e driblavam. Tudo feito com simplicidade, com prazer, com leveza. Foi a última evolução técnica no esporte.
Os técnicos do resto do planeta logo os copiaram. O Barcelona, com Mitchels e Crujff foi quase igual. Mas o Barcelona não tinha o QI dos jovens holandeses. Pois para jogar daquele modo era preciso inteligência, amizade, alegria, ter crescido junto, criado junto. Os outros times adotaram a superfície do estilo : a linha de impedimento, o atacante que também deve marcar, o toque rápido, o carrinho na bola e zagueiros que atacam. Mas era diferente, não era natural, era uma obrigação. O futebol que hoje você assiste, menino, é neto dessa Holanda. O melhor Manchester, o Barça e o Real que vocês viram eram rascunhos pobres dessa equipe e o São Paulo do Telê ( que exibia jogos de Crujff para seus talentos ) foi uma bela tentativa. ( Assim como o Flamengo de Claudio Coutinho e de Carpeggiani ).
O futebol evolui sempre, claro. A ciência do esporte evolui. Correr mais e ser mais forte. As táticas e o modo de jogar é o mesmo desde 1974. A Holanda era um 3/5/2, que se tornava 6/3/1 e metamorfoseava-se em 1/3/6. A Alemanha, que venceu, jogava como jogam os times de Muricy e de 90 % dos times. Jogava defendendo bem e contra-atacando com força. Venceram e não foi injusto, se mataram em campo na final, tinham de vencer, e a Holanda foi vítima de seu único ponto vulnerável : a vaidade. Amoleceram ao fazer 1x0 com três minutos de jogo, perderam gols e interesse e quando acordaram já era tarde. Um time que tinha Beckenbauer, Breitner, Gerd Muller e Sepp Maier não pode ser zebra. Foi a vitória de Apolo. A Alemanha jogava com clareza, objetividade, eficiencia. Com o talento de Franz e Paul, e os gols de Gerd.
Falta falar de Holanda 2x0 Brasil. Foi um jogo feio. O Brasil bateu muito. Poderia ter sido 5x0 para os holandeses. Poderia ter sido 1x0 para o Brasil. ( O Brasil jogou melhor os dez minutos iniciais. A Holanda observou o Brasil de Rivelino, Luis Pereira, Carpegiani, Marinho Peres e Jairzinho no início. Então começou a jogar. ) Para o Brasil foi uma vergonha : jogamos feio e sujo. Telê lutaria contra essa lembrança.
Em 1988 a Holanda ganhou a eurocopa com Rinus Mitchel novamente no banco. O convenceram a sair da aposentadoria. Aquele time de Gullit, Rijkaard, Van Basten deu show, mas nada tinha da "Laranja Mecânica" de 74. Nunca mais aquele estilo, nunca mais aquele sonho. A mais poética das equipes, a mais amada pelos adversários, a mais copiada e a mais frustrante, nunca mais.
Você, jovem que tem como referência Christiano Ronaldo e Kaká, talvez entenda agora o porque de em todas as copas, os caras de cerca de 40 anos, sempre torcerem pela Holanda, e a olharem com carinho e respeito. É que em meio àqueles Davids, Bogardes, Seedorfs e que tais, jogadores tão comuns, tão como todos o são, nós temos a esperança de rever, nem que seja por cinco minutos, a festa laranja, a orgia de pernas que se confundem, o prazer da pelada. É como se fantasmas pairassem sobre o campo verde onde joga a Holanda. E nos frustramos.
Meninos eu ví. E não me esquecí.
FOREVER CHANGES- love is arthur lee
Demoro muito para escrever sobre este disco, pois temo não fazer justiça a sua beleza. É um disco cheio de segredos, de recantos úmidos, de radiante fé e de sombras tenebrosas, assustadoras. Nada nele é explícito, portanto, é incompreensível para cultores da pornografia. Ser sutil é seu maior mérito, ser obra de gênio. Arthur Lee, homem impregnado de Lewis Carrol, Poe e Shelley, bruxo leve/ voador, um pássaro.
Sua gravadora, Elektra, colocou todas as fichas neste álbum. Mas não estourou, nem poderia. Excesso de sofisticação, fineza em tempo de grossura, e acima de tudo, Lee era um negro, líder de banda branca, fazendo música nada africana. Não há swing aqui.
Antes de ouvir este disco, para quem se interessar, sugiro que primeiro procurem no youtube seu show em Glastonbury. Para vocês meninos, creio que será mais familiar assistir Lee no palco, com seu carisma fantástico, sendo aclamado pelo que sempre foi : gênio fecundador, músico hiper plagiado ( ontem, hoje e sempre. Até Madonna o roubou. ) Se você gostar do show, lindo, talvez você consiga entender o disco. Se não te emocionar, sinto por sua alma, estás definitivamente corrompido.
Primeira faixa : alone again or- é uma cascata de violões e de melodia que dão ao que virá seu caráter, música feita de água. Fluida e incorruptível. A harmonia ameaça desabar todo o tempo, mas se mantém em suspenso, à tona quase num milagre de engenho. A música, feita cachoeira, muda de rumo diversas vezes, e aqui há o maior encanto deste gênio : sua música muda a cada minuto, fica mais intrincada, complexa, mas jamais adquire peso e nunca parece pedante. O segredo de toda arte perfeita é jamais parecer difícil e sempre ser leve. A alma comunga com o universo desta canção.
a house is not a motel. Quantas vezes isto foi copiado. Quantas mais será imitado ? É a menos suave, tem um solo ácido de guitarra elétrica. Básica para a geração dos anos 80 inglesa, paira na geração inglesa de hoje como desafio etéreo. O Love foi a mais inglesa das bandas, apesar de ser da Califórnia.
andmoreagain. Alguém pensa à janela na chuva que cai e no amor que faz o coração bater arrastado. A melancolia impera, a dor vem em sedas rasgadas. Como tudo no Love, a música varia e quase afunda, mas o rumo não se perde. Isto não ter sido um hit atesta a burrice das paradas, em 67 ou em qualquer tempo.
the daily planet. A vida é urgente. Chove cristal de imaginação. Música melhor que isto ? Onde ? É brilho visual, música que aquece a alma e os ossos. É como nascer em meio a flores e sol, tudo é imperiosamente belo aqui. Uma pausa que remete a dúvida no meio da canção e então vem mais um milagre. Tudo dá certo e volta a melodia original : mas ela se enche de ácido ! Eis Lewis Carrol !!!! Sobe e desce e vai e vai e vai....... roda em cores e risos. Arthur Lee foi um anjo se anjos pudessem ser.
old man. Num bosque há uma torre mofada e lá um velho. Faço-lhe um pedido e me sinto velho como ele, ou mais. É música medieval, de sempre, é melodia para se morrer de tristeza. Mas, milagre ! ela cresce e renasce ! Violinos, este é um disco de violinos e desse piano dedilhado por mãos de gelo. Nada na música de Arthur é força. Tudo é poder.
the red telephone. Abre-se uma outra porta : cuidado ! Você vê mortos do outro lado. Mas você crê em mágica e muda de canal : olhe os olhos de Lee, o que você vê ? O que você sente ? Passos dentro de seu corpo e a vida flue dia a dia a dia... ser feliz é não saber o quanto se é infeliz... pare e veja : eu sinto você uma vez e estive em você duas... e às vezes viver é estar entre números e fora de tudo. Esta é a mais mágica das canções, ela é fora de tempo, fora de você e de mim e de mundo. Roda e roda e enlouquece e é um perigo em forma de poesia. Leve como dormir no verão.
maybe the people. A canção de estrada do disco. Talvez seja a mais simples e a mais influente. É quase feliz e chega a ser solar. Os metais guiam toda a melodia.
live and let live. Um gnomo a canta. Medieval ao extremo. Mas muda, tudo muda neste disco. Ela é na verdade um enorme ponto de interrogação. Um encontro de dois rios que vão para uma queda que dá no espaço e volta ao nascedouro. Há ira, mas existe a fonte também. Ela é uma prece e é blasfema. Agulha no ponto vital.
the good humor man. Ironia. Uma cançoneta de ironia. Elegancia profanada : Lee estraga a popicidade que ela poderia ter. A letra é alegrinha, tola, infantil e se torna ferina por tanto ser boba. Arremedos de outras possíveis melodias se vão. Ele mata sua beleza sendo mais belo do que se poderia tentar ser.
bummer in the summer. Uma homenagem a Dylan. Mas é um Dylan celta. Letra longa que se vomita, mas a melodia é tingida por música tonta, folk de sonho, acordes de poetas provençais turbinados. Dylan de erudição, Dylan à Paul MacCartney. É lindo.
you set the scene. O fim. Um hino. Você anda por onde andou e não sabe que já lá andou. É pra cantar junto se você souber cantar... ela roda.
Love. Forever. Changes. Após isto, a decadência. Arthur Lee não poderia repetir o que já fizera. Então... o nada. A geração de 1999 lhe fez justiça e lhe paga tributo até hoje e para todos os sempres. Ouvir isto é amar.
Sua gravadora, Elektra, colocou todas as fichas neste álbum. Mas não estourou, nem poderia. Excesso de sofisticação, fineza em tempo de grossura, e acima de tudo, Lee era um negro, líder de banda branca, fazendo música nada africana. Não há swing aqui.
Antes de ouvir este disco, para quem se interessar, sugiro que primeiro procurem no youtube seu show em Glastonbury. Para vocês meninos, creio que será mais familiar assistir Lee no palco, com seu carisma fantástico, sendo aclamado pelo que sempre foi : gênio fecundador, músico hiper plagiado ( ontem, hoje e sempre. Até Madonna o roubou. ) Se você gostar do show, lindo, talvez você consiga entender o disco. Se não te emocionar, sinto por sua alma, estás definitivamente corrompido.
Primeira faixa : alone again or- é uma cascata de violões e de melodia que dão ao que virá seu caráter, música feita de água. Fluida e incorruptível. A harmonia ameaça desabar todo o tempo, mas se mantém em suspenso, à tona quase num milagre de engenho. A música, feita cachoeira, muda de rumo diversas vezes, e aqui há o maior encanto deste gênio : sua música muda a cada minuto, fica mais intrincada, complexa, mas jamais adquire peso e nunca parece pedante. O segredo de toda arte perfeita é jamais parecer difícil e sempre ser leve. A alma comunga com o universo desta canção.
a house is not a motel. Quantas vezes isto foi copiado. Quantas mais será imitado ? É a menos suave, tem um solo ácido de guitarra elétrica. Básica para a geração dos anos 80 inglesa, paira na geração inglesa de hoje como desafio etéreo. O Love foi a mais inglesa das bandas, apesar de ser da Califórnia.
andmoreagain. Alguém pensa à janela na chuva que cai e no amor que faz o coração bater arrastado. A melancolia impera, a dor vem em sedas rasgadas. Como tudo no Love, a música varia e quase afunda, mas o rumo não se perde. Isto não ter sido um hit atesta a burrice das paradas, em 67 ou em qualquer tempo.
the daily planet. A vida é urgente. Chove cristal de imaginação. Música melhor que isto ? Onde ? É brilho visual, música que aquece a alma e os ossos. É como nascer em meio a flores e sol, tudo é imperiosamente belo aqui. Uma pausa que remete a dúvida no meio da canção e então vem mais um milagre. Tudo dá certo e volta a melodia original : mas ela se enche de ácido ! Eis Lewis Carrol !!!! Sobe e desce e vai e vai e vai....... roda em cores e risos. Arthur Lee foi um anjo se anjos pudessem ser.
old man. Num bosque há uma torre mofada e lá um velho. Faço-lhe um pedido e me sinto velho como ele, ou mais. É música medieval, de sempre, é melodia para se morrer de tristeza. Mas, milagre ! ela cresce e renasce ! Violinos, este é um disco de violinos e desse piano dedilhado por mãos de gelo. Nada na música de Arthur é força. Tudo é poder.
the red telephone. Abre-se uma outra porta : cuidado ! Você vê mortos do outro lado. Mas você crê em mágica e muda de canal : olhe os olhos de Lee, o que você vê ? O que você sente ? Passos dentro de seu corpo e a vida flue dia a dia a dia... ser feliz é não saber o quanto se é infeliz... pare e veja : eu sinto você uma vez e estive em você duas... e às vezes viver é estar entre números e fora de tudo. Esta é a mais mágica das canções, ela é fora de tempo, fora de você e de mim e de mundo. Roda e roda e enlouquece e é um perigo em forma de poesia. Leve como dormir no verão.
maybe the people. A canção de estrada do disco. Talvez seja a mais simples e a mais influente. É quase feliz e chega a ser solar. Os metais guiam toda a melodia.
live and let live. Um gnomo a canta. Medieval ao extremo. Mas muda, tudo muda neste disco. Ela é na verdade um enorme ponto de interrogação. Um encontro de dois rios que vão para uma queda que dá no espaço e volta ao nascedouro. Há ira, mas existe a fonte também. Ela é uma prece e é blasfema. Agulha no ponto vital.
the good humor man. Ironia. Uma cançoneta de ironia. Elegancia profanada : Lee estraga a popicidade que ela poderia ter. A letra é alegrinha, tola, infantil e se torna ferina por tanto ser boba. Arremedos de outras possíveis melodias se vão. Ele mata sua beleza sendo mais belo do que se poderia tentar ser.
bummer in the summer. Uma homenagem a Dylan. Mas é um Dylan celta. Letra longa que se vomita, mas a melodia é tingida por música tonta, folk de sonho, acordes de poetas provençais turbinados. Dylan de erudição, Dylan à Paul MacCartney. É lindo.
you set the scene. O fim. Um hino. Você anda por onde andou e não sabe que já lá andou. É pra cantar junto se você souber cantar... ela roda.
Love. Forever. Changes. Após isto, a decadência. Arthur Lee não poderia repetir o que já fizera. Então... o nada. A geração de 1999 lhe fez justiça e lhe paga tributo até hoje e para todos os sempres. Ouvir isto é amar.
DE ANJOS E DE VERDADES
Vejo um belo filme : UM ANJO CAIU DO CÉU. Filme de natal, doce, bem feito, simples. Fala de um anjo ( Cary Grant ) que vem a terra ajudar um pastor ( David Niven ) que sofre. Esse anjo, sempre feliz, sempre calmo e sedutor, se indispõe com o tal pastor, que é incapaz de ver onde ele pode lhe ajudar. Pois o anjo, aparentemente, rouba o amor de sua esposa ( Loretta Young ) e de sua filha. ( Assim como de todos que lhe cercam ). O que ele faz para os seduzir é simplesmente os escutar. O anjo escuta o coração dos outros, faz com que eles falem o que lhes aflige, faz com que avistem seu caminho. Na verdade o anjo nada lhes dá que eles já não possuíssem. Mas o pastor, cego em ambição, não percebe nada e vê nele um simples sedutor.
O filme é apenas isso, mas há algo de profundamente comovedor nele. Principalmente no momento, terrível, em que ele vai embora. O anjo se vai, e sentimos que alguma coisa de muito especial se parte naquelas vidas. O preto e branco do filme fica mais cinzento e sua trilha sonora parece vazia. Alguma coisa de muito profunda ( sem querer ? ) é tocada.
Nos vemos naquele momento. Assumimos nossa condição de orfãos, de ignorantes, de vaidosos cegos simplórios, de egoístas. Sentimos um vazio quando ele parte, que na verdade é o vazio onde sempre estamos, feito mais forte. E para piorar as coisas, esse anjo tem a cara de Cary Grant....
Não importa se anjos existem ou não. Eu particularmente creio que jamais existiram. Mas o que interessa é sua criação, o porque de os termos criado e o motivo de os termos dispensado. ( Que é o que ocorre no filme, o pastor que o convocou o despede depois ). Me parece que existiu um momento ( existe ainda em cada um de nós ) em que devemos escolher entre o anjo e a ambição. Se tornar "adulto" e portanto jogar fora anjos, fadas, brinquedos e ingenuidades, ou abrir mão da vontade de poder, e deixar-se guiar como ovelhinha dócil continuando docemente obediente a anjos, destinos e mandamentos. Tudo bobagem !!!!
O mundo tentou se tornar livre, adulto, dono de sí mesmo. Dispensou anjos, reis, heróis e poetas. E se tornou mais adulto por ter feito isso ? Claro que não. Continua apegado a brinquedos, fadas e ingenuidades ( na forma de produtos fúteis, gurus new age e ismos vários ). Transformamos o mundo num playground sem magia, bosque artificial sem encanto.
Dissecamos todo o mistério. O que colocamos no lugar ? Nada que dure ou permaneça.
Volto a dizer, se anjos existiram e foram depois expulsos por nossa ciência, ou se jamais existiram, não é a questão. O que me toca é a idéia de não conseguirmos aceitar sua ajuda, seu exemplo, sua alegria.
Fazem alguns milhares de anos que temos em nossa mente, bem lá no fundo, um pequeno poema que citarei a seguir. Por mais que filósofos, artistas e gurus tenham tentado esquecer suas palavras elas continuam a ecoar entre o dia em que nascemos e o dia em que morremos. Pois foi o pensamento que guiou o pai do pai do pai do pai de nosso avô. Ainda é, além de toda vaidade, de todo orgulho, a imagem do conforto e da doce alegria plena :
"Deus é meu pastor e nada me faltará
Leva-me a descansar em pastagens verdes e me conduz a águas refrescantes;
Conforta minha alma, guia-me pelas sendas direitas,
Para que eu honre seu nome.
Ainda que eu caminhe pelos vales da morte
Nada temerei, porque Ele está comigo.
Vosso cajado e vossa voz são meu conforto. "
Várias centenas de anos, milhares na verdade, de anos depois, este texto, creditado ao rei David, ainda é, quando você sente dor ou medo, o mais belo consolo já escrito. Esta é a tal voz angelical, este é o caminho indicado e não imposto ( caminho de submissão ? de auto-negação ? Alguém pode me indicar alguma crença que não tenha alguma submissão ? ). Ter um pai que nos guia e conforta. Aqui se exemplifica o mais profundo desejo humano. Seja esse pai um Deus, um psicólogo, um imperador ou um filósofo. Ou, nesta era do desejo sem fim, o vendedor de drogas ou de carros importados da esquina.
Mostre-me a senda verdejante. Acalme minha dúvida. Venda-me um apartamento no condominio The Eden.....
O filme merecia ser refilmado para ser visto nos shoppings ( vocês já estão chamando os shoppings de Mall ? ). Mas provavelmente o anjo seria mais histérico, se apaixonaria pela esposa e sucumbiria aos prazeres do consumo de luxo.
A pureza só se perde uma vez, não pode ser readquirida. Eu perdí meu anjo muito cedo ( aos 9 anos ). Hoje me consolo crendo em artistas e filósofos e sendo o Senhor de meu cachorro. È... pode rir, mas estou falando sério. Pois eu o levo a vales verdejantes e nada deixo lhe faltar. E sei que comigo ele é feliz.
Pense nisso.
O filme é apenas isso, mas há algo de profundamente comovedor nele. Principalmente no momento, terrível, em que ele vai embora. O anjo se vai, e sentimos que alguma coisa de muito especial se parte naquelas vidas. O preto e branco do filme fica mais cinzento e sua trilha sonora parece vazia. Alguma coisa de muito profunda ( sem querer ? ) é tocada.
Nos vemos naquele momento. Assumimos nossa condição de orfãos, de ignorantes, de vaidosos cegos simplórios, de egoístas. Sentimos um vazio quando ele parte, que na verdade é o vazio onde sempre estamos, feito mais forte. E para piorar as coisas, esse anjo tem a cara de Cary Grant....
Não importa se anjos existem ou não. Eu particularmente creio que jamais existiram. Mas o que interessa é sua criação, o porque de os termos criado e o motivo de os termos dispensado. ( Que é o que ocorre no filme, o pastor que o convocou o despede depois ). Me parece que existiu um momento ( existe ainda em cada um de nós ) em que devemos escolher entre o anjo e a ambição. Se tornar "adulto" e portanto jogar fora anjos, fadas, brinquedos e ingenuidades, ou abrir mão da vontade de poder, e deixar-se guiar como ovelhinha dócil continuando docemente obediente a anjos, destinos e mandamentos. Tudo bobagem !!!!
O mundo tentou se tornar livre, adulto, dono de sí mesmo. Dispensou anjos, reis, heróis e poetas. E se tornou mais adulto por ter feito isso ? Claro que não. Continua apegado a brinquedos, fadas e ingenuidades ( na forma de produtos fúteis, gurus new age e ismos vários ). Transformamos o mundo num playground sem magia, bosque artificial sem encanto.
Dissecamos todo o mistério. O que colocamos no lugar ? Nada que dure ou permaneça.
Volto a dizer, se anjos existiram e foram depois expulsos por nossa ciência, ou se jamais existiram, não é a questão. O que me toca é a idéia de não conseguirmos aceitar sua ajuda, seu exemplo, sua alegria.
Fazem alguns milhares de anos que temos em nossa mente, bem lá no fundo, um pequeno poema que citarei a seguir. Por mais que filósofos, artistas e gurus tenham tentado esquecer suas palavras elas continuam a ecoar entre o dia em que nascemos e o dia em que morremos. Pois foi o pensamento que guiou o pai do pai do pai do pai de nosso avô. Ainda é, além de toda vaidade, de todo orgulho, a imagem do conforto e da doce alegria plena :
"Deus é meu pastor e nada me faltará
Leva-me a descansar em pastagens verdes e me conduz a águas refrescantes;
Conforta minha alma, guia-me pelas sendas direitas,
Para que eu honre seu nome.
Ainda que eu caminhe pelos vales da morte
Nada temerei, porque Ele está comigo.
Vosso cajado e vossa voz são meu conforto. "
Várias centenas de anos, milhares na verdade, de anos depois, este texto, creditado ao rei David, ainda é, quando você sente dor ou medo, o mais belo consolo já escrito. Esta é a tal voz angelical, este é o caminho indicado e não imposto ( caminho de submissão ? de auto-negação ? Alguém pode me indicar alguma crença que não tenha alguma submissão ? ). Ter um pai que nos guia e conforta. Aqui se exemplifica o mais profundo desejo humano. Seja esse pai um Deus, um psicólogo, um imperador ou um filósofo. Ou, nesta era do desejo sem fim, o vendedor de drogas ou de carros importados da esquina.
Mostre-me a senda verdejante. Acalme minha dúvida. Venda-me um apartamento no condominio The Eden.....
O filme merecia ser refilmado para ser visto nos shoppings ( vocês já estão chamando os shoppings de Mall ? ). Mas provavelmente o anjo seria mais histérico, se apaixonaria pela esposa e sucumbiria aos prazeres do consumo de luxo.
A pureza só se perde uma vez, não pode ser readquirida. Eu perdí meu anjo muito cedo ( aos 9 anos ). Hoje me consolo crendo em artistas e filósofos e sendo o Senhor de meu cachorro. È... pode rir, mas estou falando sério. Pois eu o levo a vales verdejantes e nada deixo lhe faltar. E sei que comigo ele é feliz.
Pense nisso.
brilhante, feliz, exultante: TOM JONES de Richardson
Sim meus meninos. Eu espero a trinta anos para poder assistir TOM JONES, este famoso e sumido filme de 1963, que venceu, mesmo sendo 100% inglês, os principais Oscars daquele ano ( filme, direção e roteiro ). Albert Finney infelizmente perdeu para Sidney Poitier, mas depois eu falo disso.
Você sabe que quando a gente espera tanto tempo por alguma coisa a chance de se decepcionar é enorme. Mas hoje tal coisa não aconteceu. Finalmente saiu o dvd e finalmente pude ver o tal filme. A única tristeza foi a de não ser uma versão restaurada. Mas vale!!!
Nesse tempo todo eu pude ler o livro de Henry Fielding. É de 1749 e é um dos livros chave do nascimento do romance moderno. Pois o romance precisou ser inventado, não pense que o homem sempre fez romances. Livro era coisa para religião, história, filosofia e poesia. Talvez DOM QUIXOTE já fosse um romance, mas isso é discutível. De qualquer modo, o livro é aquela coisa típica de seu tempo. É livre, picaresco, sensual, muito fantasioso, e crítico. Delicioso. E infilmável por sua abrangência.
Tony Richardson resolveu tentar. Ele era um jovem diretor da moda, no auge da fama, na Londres em seu último apogeu. Deixe eu dizer : deve ter sido super ter 20 anos na Londres de 63. Sabe como é... Beatles, Stones, Kinks, Who, Yardbirds, Them, Pretty Things, Small Faces, Mayall, Spencer Davis. As minissaias, Carnaby Street. Você tinha o melhor teatro do mundo, a melhor poesia, os pintores mais quentes, e os romancistas mais interessantes. Tudo estava em Londres!!!! E ainda ganharia a copa do mundo de futebol em 66 ! E no cinema você tinha acabado de criar o mais famoso herói do mundo ( Bond ), possuía os melhores atores e agora ( chorem franceses ! ) tinha diretores como Anderson, Reisz, Schlesinger e Boorman. E este Richardson, este jovem irado, que chamou então John Osborne para escrever o roteiro. Pra quem não sabe, Osborne era ao lado de Pinter, o grande nome do novo teatro. O roteiro deste filme é a tradução, moderna e bem-humorada, da Inglaterra de 1749, e da Grã-Bretanha de 63, a ilha que ainda tinha Jim Clark e George Best. ( Um escocês e um irlandês. Mas faziam parte da cena ).
O filme é uma ode à juventude. Ele brilha em exuberância, em alegria de viver. É profunda e absolutamente feliz. Seria impossível de ser feito hoje; tanta alegria ingênua nos ofende.
Há uma famosa cena de caçada que realmente merece toda sua fama. Nos sentimos dentro da caça e percebemos que os atores realmente se divertem com ela. Aliás, Richardson joga tudo para nos divertir. O filme tem uma profusão de cenas de brigas, duelos, namoros eróticos, correrias, fugas e bebedeiras. A câmera, às vezes trêmula, usada na mão ( achaste que fosse invenção recente ? ), às vezes voando em avião, outras correndo em trilho, em closes, em panorâmicas. Certas imagens são congeladas, e em outras os atores falam conosco. E tem uma maravilhosa cena em que Tom e uma mulher comem à mesa se seduzindo, porca e desajeitadamente, que vale seu Oscar. Aliás, esqueça os bonitinhos filmes de época, geralmente feitos com Kate Winslet ou Keira Knightley. Este filme se aproxima do que deve ter sido a vida em 1749. Ele é sujo, exagerado, desajeitado, obcecado por sexo e deliciosamente despudorado.
Tom é Albert Finney, ator da brilhante geração de Peter O'Toole, Terence Stamp, Sean Connery, Michael Caine, John Hurt, Alan Bates e Peter Finch. Formado na tradição teatral britânica ( muito jovem o ator já enfrentou de Shakespeare a Shaw, de Wilde a Beckett ), Finney passa uma coisa muito difícil para quem já tentou atuar : felicidade de se estar atuando. Ele flutua em cenas burlescas, passa todo o filme sendo chamado de "belo" e comendo todas as mulheres, mas nunca o vemos como vaidoso ou maldoso, Finney cria um personagem que é feito de jovialidade, alegria e fé em sí mesmo. Representa a jovem Inglaterra, ainda virgem do cinismo enfadonho de 1880.
Você, jovem imberbe, deve conhecer Finney do filme que deu o Oscar a Julia Roberts. Ele era o advogado que a ajuda. Esteve no policial de Lumet, aquele do ano passado. Fez o tio boa-vida de Russel Crowe no ruim filme de Ridley Scott. E principalmente : Albert Finney foi o pai, que nada mais é que um Tom Jones ancião, no Peixe Grande de Tim Burton. ( E agora eu percebo que Burton o chamou como homenagem a seu Tom. )
Mas o filme tem mais. Hugh Griffith como o chacareiro vizinho, sempre às voltas com suas caçadas, seus bichos e seus palavrões; tem a histórica Edith Evans, aquela que Olivier considerava a maior atriz da história, com cenas e frases de uma comicidade irresistível. Ninguém, jamais, pronunciou a língua inglesa como ela. Sua presença é solar. Mas há ainda Susannah York, a linda Susannah, atriz com quem eu queria casar aos 12 anos. Ela é tudo o que imaginamos que deva ser uma heroína de romance.
E então, após um milhão de voltas, de idas e de outras idas, o filme termina como deve terminar. E eu penso, após três décadas de espera, que se eu tivesse visto o filme aos 12 anos, ele teria sido meu filme favorito por muito tempo.
O que me resta é agradecer ao inventor do dvd.
Se você for assistir este filme já lhe aviso : não é arte. Guarde a arte para os artistas. É um filme para se divertir, para se admirar, para sorrir. Para gostar dele é preciso apenas uma coisa : um espírito leve e jovial. Eis um filme que se fosse gente eu chamaria de amigo. Prazer o conhecer.
Você sabe que quando a gente espera tanto tempo por alguma coisa a chance de se decepcionar é enorme. Mas hoje tal coisa não aconteceu. Finalmente saiu o dvd e finalmente pude ver o tal filme. A única tristeza foi a de não ser uma versão restaurada. Mas vale!!!
Nesse tempo todo eu pude ler o livro de Henry Fielding. É de 1749 e é um dos livros chave do nascimento do romance moderno. Pois o romance precisou ser inventado, não pense que o homem sempre fez romances. Livro era coisa para religião, história, filosofia e poesia. Talvez DOM QUIXOTE já fosse um romance, mas isso é discutível. De qualquer modo, o livro é aquela coisa típica de seu tempo. É livre, picaresco, sensual, muito fantasioso, e crítico. Delicioso. E infilmável por sua abrangência.
Tony Richardson resolveu tentar. Ele era um jovem diretor da moda, no auge da fama, na Londres em seu último apogeu. Deixe eu dizer : deve ter sido super ter 20 anos na Londres de 63. Sabe como é... Beatles, Stones, Kinks, Who, Yardbirds, Them, Pretty Things, Small Faces, Mayall, Spencer Davis. As minissaias, Carnaby Street. Você tinha o melhor teatro do mundo, a melhor poesia, os pintores mais quentes, e os romancistas mais interessantes. Tudo estava em Londres!!!! E ainda ganharia a copa do mundo de futebol em 66 ! E no cinema você tinha acabado de criar o mais famoso herói do mundo ( Bond ), possuía os melhores atores e agora ( chorem franceses ! ) tinha diretores como Anderson, Reisz, Schlesinger e Boorman. E este Richardson, este jovem irado, que chamou então John Osborne para escrever o roteiro. Pra quem não sabe, Osborne era ao lado de Pinter, o grande nome do novo teatro. O roteiro deste filme é a tradução, moderna e bem-humorada, da Inglaterra de 1749, e da Grã-Bretanha de 63, a ilha que ainda tinha Jim Clark e George Best. ( Um escocês e um irlandês. Mas faziam parte da cena ).
O filme é uma ode à juventude. Ele brilha em exuberância, em alegria de viver. É profunda e absolutamente feliz. Seria impossível de ser feito hoje; tanta alegria ingênua nos ofende.
Há uma famosa cena de caçada que realmente merece toda sua fama. Nos sentimos dentro da caça e percebemos que os atores realmente se divertem com ela. Aliás, Richardson joga tudo para nos divertir. O filme tem uma profusão de cenas de brigas, duelos, namoros eróticos, correrias, fugas e bebedeiras. A câmera, às vezes trêmula, usada na mão ( achaste que fosse invenção recente ? ), às vezes voando em avião, outras correndo em trilho, em closes, em panorâmicas. Certas imagens são congeladas, e em outras os atores falam conosco. E tem uma maravilhosa cena em que Tom e uma mulher comem à mesa se seduzindo, porca e desajeitadamente, que vale seu Oscar. Aliás, esqueça os bonitinhos filmes de época, geralmente feitos com Kate Winslet ou Keira Knightley. Este filme se aproxima do que deve ter sido a vida em 1749. Ele é sujo, exagerado, desajeitado, obcecado por sexo e deliciosamente despudorado.
Tom é Albert Finney, ator da brilhante geração de Peter O'Toole, Terence Stamp, Sean Connery, Michael Caine, John Hurt, Alan Bates e Peter Finch. Formado na tradição teatral britânica ( muito jovem o ator já enfrentou de Shakespeare a Shaw, de Wilde a Beckett ), Finney passa uma coisa muito difícil para quem já tentou atuar : felicidade de se estar atuando. Ele flutua em cenas burlescas, passa todo o filme sendo chamado de "belo" e comendo todas as mulheres, mas nunca o vemos como vaidoso ou maldoso, Finney cria um personagem que é feito de jovialidade, alegria e fé em sí mesmo. Representa a jovem Inglaterra, ainda virgem do cinismo enfadonho de 1880.
Você, jovem imberbe, deve conhecer Finney do filme que deu o Oscar a Julia Roberts. Ele era o advogado que a ajuda. Esteve no policial de Lumet, aquele do ano passado. Fez o tio boa-vida de Russel Crowe no ruim filme de Ridley Scott. E principalmente : Albert Finney foi o pai, que nada mais é que um Tom Jones ancião, no Peixe Grande de Tim Burton. ( E agora eu percebo que Burton o chamou como homenagem a seu Tom. )
Mas o filme tem mais. Hugh Griffith como o chacareiro vizinho, sempre às voltas com suas caçadas, seus bichos e seus palavrões; tem a histórica Edith Evans, aquela que Olivier considerava a maior atriz da história, com cenas e frases de uma comicidade irresistível. Ninguém, jamais, pronunciou a língua inglesa como ela. Sua presença é solar. Mas há ainda Susannah York, a linda Susannah, atriz com quem eu queria casar aos 12 anos. Ela é tudo o que imaginamos que deva ser uma heroína de romance.
E então, após um milhão de voltas, de idas e de outras idas, o filme termina como deve terminar. E eu penso, após três décadas de espera, que se eu tivesse visto o filme aos 12 anos, ele teria sido meu filme favorito por muito tempo.
O que me resta é agradecer ao inventor do dvd.
Se você for assistir este filme já lhe aviso : não é arte. Guarde a arte para os artistas. É um filme para se divertir, para se admirar, para sorrir. Para gostar dele é preciso apenas uma coisa : um espírito leve e jovial. Eis um filme que se fosse gente eu chamaria de amigo. Prazer o conhecer.
STERNBERG/STAGE DOOR/ALTMAN/BETTE DAVIS
MOLIERE de Laurent Tirard com Romain Duris, Fabrice Luchini, Laura Morante e Ludivine Sagnier
Houve tempo em que filmes europeus eram lançados toda semana no Brasil. Romy Schneider era mais famosa que Jane Fonda e Catherine Deneuve que Barbra Streisand. Mais que Jack Nicholson, Dustin Hoffman ou Clint Eastwood, as pessoas amavam Yves Montand, Jean-Paul Belmondo, e principamente Mastroianni. Alain Delon era tão famoso quanto é hoje Brad Pitt ( Delon era mais bonito ) e o mais amado diretor era Fellini. Nos anos 80, com os filmes tipo Rambo/ Robocop/ Duro de Matar, a América se tornou a única fornecedora de filmes pop. Rompeu-se a ligação, e hoje, estrelas européias com menos de 40 anos... quem ?
Romain Duris é o maior ator/estrela da França hoje, e penso que muito pouca gente o conhece fora de seu país. Ele faz Moliere neste filme, e o faz muito bem. Seu Moliere é o Moliere que imaginamos, se parece com alguém que escreve, atua e possui gênio. O filme, belo e alegre, é delicioso. Mas é esse estupendo Fabrice Luchini, diabólicamente engraçado, fazendo um nobre cornudo com raro talento, que nos impressiona. Torcemos para mais cenas com ele, são hilárias. O filme é cheio de frases elegantes ( tem ótimos diálogos ) e se passa em palácios suntuosos ( que nos fazem ter consciência da triste condição de nossa arquitetura ), o filme é um prazer para a vista. Na França ainda se fazem filmes para o povão em que não há um só tiro, nada é digital e nada se passa num mundo de sonhos. São bons atores, bons diálogos e uma boa história. Aliás, às vezes é um alívio ver atores europeus : você já notou que eles têm rosto de "gente" ? Nota 7.
NAKED CITY de Jules Dassin
Um narrador conta o que vamos ver : um dia na vida de Nova Iorque. As imagens das ruas e dos bares, metrô, barbearias são sensacionais. Na verdade o filme é quase um documentário. Depois vem uma boa trama policial, toda filmada em locais autênticos. São as lições do Neo-realismo colocadas em prática por esse excelente Jules Dassin. O filme é elétrico, rápido, viril, magistral. nota 8.
O RETRATO DE DORIAN GRAY de Albert Lewin com George Sanders, Donna Reed, Angela Lansbury e Hurd Hatfield
O doido diretor do maravilhoso PANDORA, filmou antes este hiper enfeitado Dorian Gray. È irritante ver Sanders vomitar epigramas de Wilde colocados a torto e a direito na história. O filme é enjoativo como glacê branco. nota 3.
A GUERRA DO FOGO de Jean-Jacques Annaud
Após ganhar o Oscar em seu filme de estréia, Annaud passou anos para conseguir fazer este filme. Usando o trabalho do autor de Laranja Mecânica ( Anthony Burgess ) que criou uma língua ancestral, Annaud filma uma aventura passada no início da nossa história, no nascimento da civilização como a conhecemos, na hora da descoberta e da valorização do fogo. O filme é bela aventura, bastante plausível, sério, e com tema tão difícil, consegue se sair muito bem. Mas é isento da poesia maravilhosa que 2001 tem em seu início. Os temas dos dois filmes são complementares, mas Kubrick fez coisa de gênio e Annaud é bom diretor, não um criador original. Mas este filme é ok. nota 7.
PEFÍDIA de William Wyler com Bette Davis e Herbert Marshall.
Baseado em peça de Lilian Hellman, o filme foi feito no tempo em que Lilian era a heroína da esquerda americana. O filme nos mostra como os ricos são maus e não se cansa de acumular maldade sobre maldade. Wyler, um dos gigantes, dirige tão bem que nem tomamos consciência de seu trabalho. Não há um só erro, uma só tomada a mais, uma cena longa demais ou feita às pressas. Wyler trabalha para nosso prazer e para o brilho de texto e atores. Ambos brilham. Bette dá seu show costumeiro. Ela exala maldade. Você é hipnotizado. nota 8.
A IMPERATRIZ VERMELHA de Joseph Von Sternberg com Marlene Dietrich
Entre 1930/1937, Sternberg fez uma série de filmes com sua musa, Dietrich, e a transformou em super-estrela, rival mais quente de Garbo. Marlene foi crescendo filme a filme, e quando os dois se separaram Sternberg se apagou. Os filmes são todos parecidos : lugar exótico, cenários imensos e barrocos, insinuações fortes de sexo anormal e closes e mais closes de Marlene hiper-glamurosa ( Madonna copia esses closes até hoje ). Este é o pior dos que ví. Sternberg enlouquece e perde o senso do ridículo. Nesta história passada na Rússia de Catarina, o palácio é uma gororoba de caveiras e monstrengos, Marlene dorme com metade do exército e os diálogos são risíveis. É exemplo de cafonice chique, de pesadelo gótico. nota 2.
STAGE DOOR de Gregory La Cava com Kate Hephurn, Ginger Rogers e Lucille Ball.
Comédia dos nos 30 é assim : diálogos apimentados que jogam ironia sobre ironia e nos fazem sentir mais espertos se os entendemos e mais sofisticados se os citarmos. São tão bem escritos que continuam, mais de setenta anos depois, a ser o modelo de tudo o que é cosmopolita, fino e elegante. Aqui vemos uma pensão onde vivem aspirantes a atriz. Ginger é a mais cínica e a líder do grupo, Kate é a bem nascida que quer brincar de ser atriz. Ou seja, Kate e Ginger fazem elas mesmas. Kate está linda. É fantástico como ela, que não era bonita, parece a mais bela das atrizes em vários filmes. Isto é diversão inteligente, atemporal, que só não é genial porque tem duas cenas de drama sério que desandam com o ritmo esperto. nota 8.
SILLY SYMPHONIES
Comentei esta coletânea abaixo, em texto próprio. A nota é DEZ !!!!!!
BASQUIAT de Julian Schnabel com Jeffrey Wright, David Bowie, Gary Oldman e Benicio del Toro
Julian foi artista plástico nos anos 80. Amigo de Basquiat. O filme é mensagem carinhosa e saudosa ao amigo morto. A trilha sonora é cheia de canções fantásticas ( Cale cantando Cohen é de matar ). Triste, pesado, tortuoso, funciona a perfeição, por fazer aquilo que Kael reclamava em outros filmes : fala de um artista tortuoso de forma tortuosa. Como o filme de Dylan, que fala de um artista multi-facetado em filme multi-facetado. Kael falava ( mal ) de "Sociedade dos poetas Mortos", filme que era contra a repressão, mas que fora filmado como o mais conservador dos dramalhões. Assim como ruim é RAY, filme que fala de um cantor que era puro calor, sensualidade e feeling, mas que teve como bio um filme que é frio, pudico e calculado. Basquiat é um filme perdido, desencantado e incompleto... como seu personagem foi. nota 8.
ASSASSINATO EM GOSFORD PARK de Robert Altman com Maggie Smith, Helen Mirren, Clive Owen, Emily Watson
A única pessoa no mundo que poderia ter feito este filme é Altman. O fato de ele não se perder e conseguir fazer fluir uma tão vasta galeria de rostos, vozes e sentimentos, atesta, mais uma vez, sua genialidade. Ele era mestre em "colcha de retalhos", em sinfonia de atores, em modernidade anárquica-total. Este jamais brilha como SHORT CUTS ( afinal, Cuts É o maior filme dos últimos vinte anos ), mas é filme de mestre. Um micro exemplo, da mais ampla ressonância, de tudo que há de mesquinho e torpe nas relações de classe. Gol de placa. nota 9.
SOB O SIGNO DE CAPRICÓRNIO de Hitchcock com Ingrid Bergman e Joseph Cotten
Que bela era Ingrid ! E que desamparo ela passa ! Mas este filme, o único Hitch feito na América que eu nunca vira, foi feito sob as ordens de Selznick, não é puro A.H. Melodrama gótico, foi adorado pela crítica francesa e odiado pela americana. É um filme muito esquisito...nota 5.
Houve tempo em que filmes europeus eram lançados toda semana no Brasil. Romy Schneider era mais famosa que Jane Fonda e Catherine Deneuve que Barbra Streisand. Mais que Jack Nicholson, Dustin Hoffman ou Clint Eastwood, as pessoas amavam Yves Montand, Jean-Paul Belmondo, e principamente Mastroianni. Alain Delon era tão famoso quanto é hoje Brad Pitt ( Delon era mais bonito ) e o mais amado diretor era Fellini. Nos anos 80, com os filmes tipo Rambo/ Robocop/ Duro de Matar, a América se tornou a única fornecedora de filmes pop. Rompeu-se a ligação, e hoje, estrelas européias com menos de 40 anos... quem ?
Romain Duris é o maior ator/estrela da França hoje, e penso que muito pouca gente o conhece fora de seu país. Ele faz Moliere neste filme, e o faz muito bem. Seu Moliere é o Moliere que imaginamos, se parece com alguém que escreve, atua e possui gênio. O filme, belo e alegre, é delicioso. Mas é esse estupendo Fabrice Luchini, diabólicamente engraçado, fazendo um nobre cornudo com raro talento, que nos impressiona. Torcemos para mais cenas com ele, são hilárias. O filme é cheio de frases elegantes ( tem ótimos diálogos ) e se passa em palácios suntuosos ( que nos fazem ter consciência da triste condição de nossa arquitetura ), o filme é um prazer para a vista. Na França ainda se fazem filmes para o povão em que não há um só tiro, nada é digital e nada se passa num mundo de sonhos. São bons atores, bons diálogos e uma boa história. Aliás, às vezes é um alívio ver atores europeus : você já notou que eles têm rosto de "gente" ? Nota 7.
NAKED CITY de Jules Dassin
Um narrador conta o que vamos ver : um dia na vida de Nova Iorque. As imagens das ruas e dos bares, metrô, barbearias são sensacionais. Na verdade o filme é quase um documentário. Depois vem uma boa trama policial, toda filmada em locais autênticos. São as lições do Neo-realismo colocadas em prática por esse excelente Jules Dassin. O filme é elétrico, rápido, viril, magistral. nota 8.
O RETRATO DE DORIAN GRAY de Albert Lewin com George Sanders, Donna Reed, Angela Lansbury e Hurd Hatfield
O doido diretor do maravilhoso PANDORA, filmou antes este hiper enfeitado Dorian Gray. È irritante ver Sanders vomitar epigramas de Wilde colocados a torto e a direito na história. O filme é enjoativo como glacê branco. nota 3.
A GUERRA DO FOGO de Jean-Jacques Annaud
Após ganhar o Oscar em seu filme de estréia, Annaud passou anos para conseguir fazer este filme. Usando o trabalho do autor de Laranja Mecânica ( Anthony Burgess ) que criou uma língua ancestral, Annaud filma uma aventura passada no início da nossa história, no nascimento da civilização como a conhecemos, na hora da descoberta e da valorização do fogo. O filme é bela aventura, bastante plausível, sério, e com tema tão difícil, consegue se sair muito bem. Mas é isento da poesia maravilhosa que 2001 tem em seu início. Os temas dos dois filmes são complementares, mas Kubrick fez coisa de gênio e Annaud é bom diretor, não um criador original. Mas este filme é ok. nota 7.
PEFÍDIA de William Wyler com Bette Davis e Herbert Marshall.
Baseado em peça de Lilian Hellman, o filme foi feito no tempo em que Lilian era a heroína da esquerda americana. O filme nos mostra como os ricos são maus e não se cansa de acumular maldade sobre maldade. Wyler, um dos gigantes, dirige tão bem que nem tomamos consciência de seu trabalho. Não há um só erro, uma só tomada a mais, uma cena longa demais ou feita às pressas. Wyler trabalha para nosso prazer e para o brilho de texto e atores. Ambos brilham. Bette dá seu show costumeiro. Ela exala maldade. Você é hipnotizado. nota 8.
A IMPERATRIZ VERMELHA de Joseph Von Sternberg com Marlene Dietrich
Entre 1930/1937, Sternberg fez uma série de filmes com sua musa, Dietrich, e a transformou em super-estrela, rival mais quente de Garbo. Marlene foi crescendo filme a filme, e quando os dois se separaram Sternberg se apagou. Os filmes são todos parecidos : lugar exótico, cenários imensos e barrocos, insinuações fortes de sexo anormal e closes e mais closes de Marlene hiper-glamurosa ( Madonna copia esses closes até hoje ). Este é o pior dos que ví. Sternberg enlouquece e perde o senso do ridículo. Nesta história passada na Rússia de Catarina, o palácio é uma gororoba de caveiras e monstrengos, Marlene dorme com metade do exército e os diálogos são risíveis. É exemplo de cafonice chique, de pesadelo gótico. nota 2.
STAGE DOOR de Gregory La Cava com Kate Hephurn, Ginger Rogers e Lucille Ball.
Comédia dos nos 30 é assim : diálogos apimentados que jogam ironia sobre ironia e nos fazem sentir mais espertos se os entendemos e mais sofisticados se os citarmos. São tão bem escritos que continuam, mais de setenta anos depois, a ser o modelo de tudo o que é cosmopolita, fino e elegante. Aqui vemos uma pensão onde vivem aspirantes a atriz. Ginger é a mais cínica e a líder do grupo, Kate é a bem nascida que quer brincar de ser atriz. Ou seja, Kate e Ginger fazem elas mesmas. Kate está linda. É fantástico como ela, que não era bonita, parece a mais bela das atrizes em vários filmes. Isto é diversão inteligente, atemporal, que só não é genial porque tem duas cenas de drama sério que desandam com o ritmo esperto. nota 8.
SILLY SYMPHONIES
Comentei esta coletânea abaixo, em texto próprio. A nota é DEZ !!!!!!
BASQUIAT de Julian Schnabel com Jeffrey Wright, David Bowie, Gary Oldman e Benicio del Toro
Julian foi artista plástico nos anos 80. Amigo de Basquiat. O filme é mensagem carinhosa e saudosa ao amigo morto. A trilha sonora é cheia de canções fantásticas ( Cale cantando Cohen é de matar ). Triste, pesado, tortuoso, funciona a perfeição, por fazer aquilo que Kael reclamava em outros filmes : fala de um artista tortuoso de forma tortuosa. Como o filme de Dylan, que fala de um artista multi-facetado em filme multi-facetado. Kael falava ( mal ) de "Sociedade dos poetas Mortos", filme que era contra a repressão, mas que fora filmado como o mais conservador dos dramalhões. Assim como ruim é RAY, filme que fala de um cantor que era puro calor, sensualidade e feeling, mas que teve como bio um filme que é frio, pudico e calculado. Basquiat é um filme perdido, desencantado e incompleto... como seu personagem foi. nota 8.
ASSASSINATO EM GOSFORD PARK de Robert Altman com Maggie Smith, Helen Mirren, Clive Owen, Emily Watson
A única pessoa no mundo que poderia ter feito este filme é Altman. O fato de ele não se perder e conseguir fazer fluir uma tão vasta galeria de rostos, vozes e sentimentos, atesta, mais uma vez, sua genialidade. Ele era mestre em "colcha de retalhos", em sinfonia de atores, em modernidade anárquica-total. Este jamais brilha como SHORT CUTS ( afinal, Cuts É o maior filme dos últimos vinte anos ), mas é filme de mestre. Um micro exemplo, da mais ampla ressonância, de tudo que há de mesquinho e torpe nas relações de classe. Gol de placa. nota 9.
SOB O SIGNO DE CAPRICÓRNIO de Hitchcock com Ingrid Bergman e Joseph Cotten
Que bela era Ingrid ! E que desamparo ela passa ! Mas este filme, o único Hitch feito na América que eu nunca vira, foi feito sob as ordens de Selznick, não é puro A.H. Melodrama gótico, foi adorado pela crítica francesa e odiado pela americana. É um filme muito esquisito...nota 5.
JEaN miChEL BAsquIAt- julian schnabel
O começo. Uma onda do Hawaii atrás dos prédios de NY. É 1980. O último momento em que o mundo brilhou sem vergonha, sem noção, sem medo do ridículo. É o som, soberbo, do PIL tocando Public Image. Um tempo em que o globo ainda poderia perigar e em que os ratos de Wall Street tinham algum medo. O filme começa e é uma bio para ensinar aquilo que toda bio deveria saber : queremos a tentativa de se mostrar o artista criando. Não quero ver quem ele comeu ou o que ele fez, quero a agonia de sua criação, a alegria de seu parto, o nascimento diário de sua vida. Este filme é triste pacas, porque aquele foi um tempo de profunda tristeza. A gente sabia, intuia, que era a última chance, que a revolução anterior fora alegre e ingênua e que esta, 1981, era desesperada e cínica. Tão cínica que seu cinismo sujou o mundo e o deixou cínico para sempre. Mas ..... hoje... Eu quero esquecer...
Esquecer os anos 81/88 e esquecer que um dia eu pintei camisetas, eu e DiPierre. Que eu peguei uma camiseta com a foto de Keith e escrevi em vermelho sangue "hell"... queria esquecer que eu e Frank Chico andávamos de sobretudo, bêbados, e vomitávamos enquanto cantávamos poemas sem rima que não tinham o menor valor. Quero esquecer os péssimos vídeos de arte que fiz, onde Eliana L era amarrada em arame e uma tv era destruída com tinta branca. Quero nunca mais ouvir Tom Waits e John Cale e esquecer que eu vivi num tempo em que Miles Davis e Andy Warhol estavam vivos.
Mas eu lembro do dia em que Miles morreu. Eu estava na garagem da casa em que morava, onde todas as paredes tinham palmeiras e peixes rabiscados e onde tudo cheirava a tinta. Naquela noite, Miles morto, escreví para ele algo sobre tigres e deuses. Eu queria que ele nunca morresse. Como quando Andy se foi e eu queria que ele fosse/é o último a rir : ele adivinhou e criou nosso mundo. Andy sabia que se você ficar algum tempo em exposição numa tela, mesmo que fazendo nada, as pessoas tenderão a te considerar uma estrela. Andy sabia de tudo.
Jeffrey Wright está sublime. Benicio está lá, e tem Bowie como Andy e onde Bowie está Andy sempre estará. Schnabel foi amigo de Basquiat. Será ele um diretor central de hoje ? Julian é.
Mas quero esquecer a voz de John Cale cantando Hallelujah. Esquecer o suicídio lento e sujo de uma geração brilhante. Esquecer a música pop de NY que era irmã incestuosa do mundo das artes plásticas onde bandas e pintores e fotógrafos e cineastas e escultores viviam no mesmo barco e comiam-se uns aos outros. Não vou e não posso lembrar de Julio que se caiu de um andar e se espatifou. Dele na tv, a gente amava tanto a tv e as câmeras de vídeo, tv era chic e vídeo era arte, dele na tv insultando os ratos e falando de Cocteau e Rimbaud. Não.
Este filme é um coquetel deprimente de sujeira e de pintura colorida e de sexo sem companheirismo e de vida ansiosa. A gente errou em tudo, mas pelo menos tentamos acertar. Pior é não tentar e mesmo assim errar.
Tinha de ter aids.
81/88 de porões transformados em galerias e de galerias que eram puteiros. O filme é uma porcaria pretensiosa. O filme é 81/88. Em 1988 voltou essa merda hippie e voltou Seattle e voltou Manchester e essa saudade de 67... shit !!!!!! 81/88 era a saudade do futuro, de Pollock, de Van Gogh, de Dadá, de Duchamp. 81/88 é futuro.
Este filme é uma bosta.
Este escrito é uma merda.
E Basquiat vê imagens de Andy numa tv velha e derrama uma lágrima. E eu vejo Wright que é Basquiat ver Bowie que é Andy e derramo um suspiro. Os filmes de Schnabel são tristes demais.
Consigo esquecer essa época. O mundo tenta esquecer essa época. Você nasceu nessa época. Este apodrecido e limpo universo nasceu nessa época. Uma brilhante geração de olhos arregalados e nariz com sangue. Que ao vestir uma camiseta precisava colocar algo de diferente para realçar. Geração pavão. Cometas de rabos brancos cheios de brilho efêmero. Abismos de glamour amoroso.
Este escrito é para aqueles que tentaram e erraram. Todos vocês, Oh you pretty things...
Esquecer os anos 81/88 e esquecer que um dia eu pintei camisetas, eu e DiPierre. Que eu peguei uma camiseta com a foto de Keith e escrevi em vermelho sangue "hell"... queria esquecer que eu e Frank Chico andávamos de sobretudo, bêbados, e vomitávamos enquanto cantávamos poemas sem rima que não tinham o menor valor. Quero esquecer os péssimos vídeos de arte que fiz, onde Eliana L era amarrada em arame e uma tv era destruída com tinta branca. Quero nunca mais ouvir Tom Waits e John Cale e esquecer que eu vivi num tempo em que Miles Davis e Andy Warhol estavam vivos.
Mas eu lembro do dia em que Miles morreu. Eu estava na garagem da casa em que morava, onde todas as paredes tinham palmeiras e peixes rabiscados e onde tudo cheirava a tinta. Naquela noite, Miles morto, escreví para ele algo sobre tigres e deuses. Eu queria que ele nunca morresse. Como quando Andy se foi e eu queria que ele fosse/é o último a rir : ele adivinhou e criou nosso mundo. Andy sabia que se você ficar algum tempo em exposição numa tela, mesmo que fazendo nada, as pessoas tenderão a te considerar uma estrela. Andy sabia de tudo.
Jeffrey Wright está sublime. Benicio está lá, e tem Bowie como Andy e onde Bowie está Andy sempre estará. Schnabel foi amigo de Basquiat. Será ele um diretor central de hoje ? Julian é.
Mas quero esquecer a voz de John Cale cantando Hallelujah. Esquecer o suicídio lento e sujo de uma geração brilhante. Esquecer a música pop de NY que era irmã incestuosa do mundo das artes plásticas onde bandas e pintores e fotógrafos e cineastas e escultores viviam no mesmo barco e comiam-se uns aos outros. Não vou e não posso lembrar de Julio que se caiu de um andar e se espatifou. Dele na tv, a gente amava tanto a tv e as câmeras de vídeo, tv era chic e vídeo era arte, dele na tv insultando os ratos e falando de Cocteau e Rimbaud. Não.
Este filme é um coquetel deprimente de sujeira e de pintura colorida e de sexo sem companheirismo e de vida ansiosa. A gente errou em tudo, mas pelo menos tentamos acertar. Pior é não tentar e mesmo assim errar.
Tinha de ter aids.
81/88 de porões transformados em galerias e de galerias que eram puteiros. O filme é uma porcaria pretensiosa. O filme é 81/88. Em 1988 voltou essa merda hippie e voltou Seattle e voltou Manchester e essa saudade de 67... shit !!!!!! 81/88 era a saudade do futuro, de Pollock, de Van Gogh, de Dadá, de Duchamp. 81/88 é futuro.
Este filme é uma bosta.
Este escrito é uma merda.
E Basquiat vê imagens de Andy numa tv velha e derrama uma lágrima. E eu vejo Wright que é Basquiat ver Bowie que é Andy e derramo um suspiro. Os filmes de Schnabel são tristes demais.
Consigo esquecer essa época. O mundo tenta esquecer essa época. Você nasceu nessa época. Este apodrecido e limpo universo nasceu nessa época. Uma brilhante geração de olhos arregalados e nariz com sangue. Que ao vestir uma camiseta precisava colocar algo de diferente para realçar. Geração pavão. Cometas de rabos brancos cheios de brilho efêmero. Abismos de glamour amoroso.
Este escrito é para aqueles que tentaram e erraram. Todos vocês, Oh you pretty things...
SILLY SYMPHONIES- WALT DISNEY
Saiu um dvd duplo com as Silly Symphonies. Era o nome que levavam os curtas ( de 6 a 8 minutos ) que a Disney fez entre 1929/ 1938. Vários ganharam Oscars e passavam nos cinemas antes do filme principal ( da United Artists ou da RKO ). Porque assistí-los tantos anos depois ? Acima de tudo porque são todos muito bons e alguns são geniais.
Primeiro um fato que eu não sabia : foram estes desenhos que inauguraram a cor na tela. A Technicolor usava a Disney para aprender o uso do colorido, então os desenhos são luxuriantes em cor e brilho.
Segundo : qual a diferença entre a animação manual e a por computador ? A mesma que existe entre o recebimento de uma carta impressa e uma manuscrita. A impressa é limpa, perfeita e uniforme do começo ao fim. A manuscrita tem erros e flutuação de estilo, mas tem a marca autoral de quem a escreveu. Os traços da mão. Existem obras-primas do cartoon digital. Mas seu brilho se deve ao roteiro maravilhoso, não ao traço, que é sempre frio e pouco surpreendente. Desenho manual é pintura. Digital é gravura. Não a toa a Disney acaba de reabrir o departamento de desenhos à lápis e pincel. O domínio da animação digital se deve apenas a pressa e ao barateamento de custos, não ao mérito.
Os destaques dos dvds.
TERRA DA CANÇÃO DE NINAR. Um desenho que te leva ao mundo do "berço" e do "pijama". È como dormir aos 3 anos. Os traços, suaves, quase em aquarela. Lindo. O RATO VOADOR. Tem uma cena com morcegos numa caverna maravilhosa. WYNKEN,BLYNKEN E NOD. Disney pegou um poema e o desenhou. Três crianças pescam estrelas no céu. Uma das coisas mais bonitas que já assisti. Um céu noturno como só eles faziam e um clima onírico que te faz querer reassistir o desenho várias vezes. Soberbo. O GAFANHOTO E AS FORMIGAS. Tem uma canção maravilhosa, alegre, vibrante. O personagem do gafanhoto é genialmente simpático. O VELHO MOINHO. Este é considerado o melhor cartoon já feito. Chove num moinho. Pássaros e ratos tentam sobreviver. Depois amanhece. O roteiro é sómente isso. Mas com esses recursos ( e apenas 7 minutos de tempo ) eles conseguiram fazer uma obra-prima. Talvez seja mesmo o mais lindo desenho já feito. Digno do melhor cinema e da melhor poesia, equivale a uma aula de sensibilização e de existencialismo. Morrer sem o assistir é não ter existido. O PRATO CHINÊS. A animação de uma cena em cerâmica chinesa. Ainda em P/B. Fascinante. Personagens e cenários do oriente e um jazz chinês (????) vibrante e muito hot. MELODIAS EGÍPCIAS. Uma aranha invade uma pirâmide e as pinturas adquirem vida. Delicioso. A DANÇA DOS ESQUELETOS. Um dos primeiros ( 1929 !!!! ). Esqueletos dançam no cemitério. Jazz e terror. Hilário.
Destaquei aqui os geniais. Mas há muito mais. Nenhum é apenas médio. Os demais variam entre bons e ótimos. Veja, grave, compre, roube, pegue, assista!!!!!
Toque final: Quem era melhor, a Disney ou a Warner ? Bem.... A Disney era mais infantil ( mas jamais tola, e aqui, nada melosa ), a Warner é adolescente ( mais rebelde, suja e mal educada ). Digamos que a Disney é Chaplin e a Warner é Groucho Marx. Uma se apóia na imagem pura e na poesia, a outra no diálogo malicioso e no humor anárquico. Não se pode dizer quem é melhor. O que se deve é agradecer sua existência. Raras vezes tive tanto prazer diante de uma tela como com estes dois dvds.
Primeiro um fato que eu não sabia : foram estes desenhos que inauguraram a cor na tela. A Technicolor usava a Disney para aprender o uso do colorido, então os desenhos são luxuriantes em cor e brilho.
Segundo : qual a diferença entre a animação manual e a por computador ? A mesma que existe entre o recebimento de uma carta impressa e uma manuscrita. A impressa é limpa, perfeita e uniforme do começo ao fim. A manuscrita tem erros e flutuação de estilo, mas tem a marca autoral de quem a escreveu. Os traços da mão. Existem obras-primas do cartoon digital. Mas seu brilho se deve ao roteiro maravilhoso, não ao traço, que é sempre frio e pouco surpreendente. Desenho manual é pintura. Digital é gravura. Não a toa a Disney acaba de reabrir o departamento de desenhos à lápis e pincel. O domínio da animação digital se deve apenas a pressa e ao barateamento de custos, não ao mérito.
Os destaques dos dvds.
TERRA DA CANÇÃO DE NINAR. Um desenho que te leva ao mundo do "berço" e do "pijama". È como dormir aos 3 anos. Os traços, suaves, quase em aquarela. Lindo. O RATO VOADOR. Tem uma cena com morcegos numa caverna maravilhosa. WYNKEN,BLYNKEN E NOD. Disney pegou um poema e o desenhou. Três crianças pescam estrelas no céu. Uma das coisas mais bonitas que já assisti. Um céu noturno como só eles faziam e um clima onírico que te faz querer reassistir o desenho várias vezes. Soberbo. O GAFANHOTO E AS FORMIGAS. Tem uma canção maravilhosa, alegre, vibrante. O personagem do gafanhoto é genialmente simpático. O VELHO MOINHO. Este é considerado o melhor cartoon já feito. Chove num moinho. Pássaros e ratos tentam sobreviver. Depois amanhece. O roteiro é sómente isso. Mas com esses recursos ( e apenas 7 minutos de tempo ) eles conseguiram fazer uma obra-prima. Talvez seja mesmo o mais lindo desenho já feito. Digno do melhor cinema e da melhor poesia, equivale a uma aula de sensibilização e de existencialismo. Morrer sem o assistir é não ter existido. O PRATO CHINÊS. A animação de uma cena em cerâmica chinesa. Ainda em P/B. Fascinante. Personagens e cenários do oriente e um jazz chinês (????) vibrante e muito hot. MELODIAS EGÍPCIAS. Uma aranha invade uma pirâmide e as pinturas adquirem vida. Delicioso. A DANÇA DOS ESQUELETOS. Um dos primeiros ( 1929 !!!! ). Esqueletos dançam no cemitério. Jazz e terror. Hilário.
Destaquei aqui os geniais. Mas há muito mais. Nenhum é apenas médio. Os demais variam entre bons e ótimos. Veja, grave, compre, roube, pegue, assista!!!!!
Toque final: Quem era melhor, a Disney ou a Warner ? Bem.... A Disney era mais infantil ( mas jamais tola, e aqui, nada melosa ), a Warner é adolescente ( mais rebelde, suja e mal educada ). Digamos que a Disney é Chaplin e a Warner é Groucho Marx. Uma se apóia na imagem pura e na poesia, a outra no diálogo malicioso e no humor anárquico. Não se pode dizer quem é melhor. O que se deve é agradecer sua existência. Raras vezes tive tanto prazer diante de uma tela como com estes dois dvds.
OLHO DE GATO-MARGARET ATWOOD
Melhor que "Lago Sagrado" ? Talvez.
Para Atwood, o tempo é questão central da vida, e aqui ela nos mostra que a dor da infância é a única que permanece. Elaine cresce no subúrbio de Toronto, viaja com seus pais, felizes e pouco convencionais, para as matas canadenses, tem um admirável irmão e amigas como todas as amigas aos nove anos são : cruéis. Cordelia é a mais amada e a pior das três amigas, uma líder egoísta e narcisista. Lendo a primeira parte deste longo volume, nos pegamos apaixonados por Elaine. Ela é um patinho manco, uma desaptada selvagem, uma menina. Somos testemunhas da terrível dificuldade que é a de se crescer, existir, escolher, conviver. O texto é poético, leve, belíssimo em sua descrição de lugares, objetos e roupas antigas, mas o desespero é constante, a solidão abissal.
Ela cresce e acompanhamos sua adolescência e sua vida na faculdade. Vem o primeiro casamento, a filha, a maturidade. Elaine se torna uma pintora, uma insegura mulher madura, uma viajante entre pensamentos e resquícios. Vaga pelo feminismo sem nunca chegar a ser feminista, como não se sente confortável no meio da arte. Percebe que jamais deixou de ter nove anos e que jamais deixou de ser atormentada e seduzida pela melhor amiga daquele tempo : Cordelia.
As primeiras duzentas páginas, que tratam da infância, dos 7 aos 13 anos de Elaine, são simplesmente magníficas. Cada parágrafo brilha como as bolinhas de gude que ela adora, cada capítulo é cheio de vida, de encanto, nos conduzindo a nossas próprias lembranças de nossa própria infância. Apesar dela ser menina, canadense e criança dos anos 40, me peguei em comunhão profunda com toda lembrança, toda alegria e todo medo de Elaine. É magia total.
O livro se banaliza conforme ela cresce. Nunca se torna fraco, mas sentimos falta do mundo do início. Mas tinha, precisava ser assim ! Pois o personagem sente, de forma nunca assumida, o mesmo que o leitor : um fascínio, difícil de ser aceito, pelas coisas da meninice.
No final o livro volta a crescer, e Elaine percebe que o que ela sempre tentou foi deixar os nove anos para trás, esquecer. Mas num avião, finalmente, ela entende. Que a velhice pode ser uma benção, que ela pode nos conceder a paz de não mais se preocupar com aparência, boa educação, sexo. Que ela pode nos dar a liberdade de dar uma banana para o mundo. Mas que essa velhice só seria completa se Cordelia estivesse a seu lado.
Eis a grande melancolia : é preciso completar o círculo, levar algo ou alguém com você, uma testemunha de quem você realmente é, um companheiro de trajeto. Elaine perdeu Cordelia, e Cordelia se foi para sempre.
Uma dor fina, incômoda, constante, se desprende desse livro. È a dor que ela sente. A dor de quem vê demais e questiona muito. Elaine é menina/moleque, moça/desajustada, senhora/esquisita; tudo nela é vazio, e a vida nela é plena. Amamos aquela criança que jamais muda dentro da mulher. Torcemos por ela. E terminamos a leitura entendendo melhor nossas mães, nossas namoradas ou nossas irmãs. Não é pouca coisa o que Atwood nos dá. Sua mente é gigantesca.
Para Atwood, o tempo é questão central da vida, e aqui ela nos mostra que a dor da infância é a única que permanece. Elaine cresce no subúrbio de Toronto, viaja com seus pais, felizes e pouco convencionais, para as matas canadenses, tem um admirável irmão e amigas como todas as amigas aos nove anos são : cruéis. Cordelia é a mais amada e a pior das três amigas, uma líder egoísta e narcisista. Lendo a primeira parte deste longo volume, nos pegamos apaixonados por Elaine. Ela é um patinho manco, uma desaptada selvagem, uma menina. Somos testemunhas da terrível dificuldade que é a de se crescer, existir, escolher, conviver. O texto é poético, leve, belíssimo em sua descrição de lugares, objetos e roupas antigas, mas o desespero é constante, a solidão abissal.
Ela cresce e acompanhamos sua adolescência e sua vida na faculdade. Vem o primeiro casamento, a filha, a maturidade. Elaine se torna uma pintora, uma insegura mulher madura, uma viajante entre pensamentos e resquícios. Vaga pelo feminismo sem nunca chegar a ser feminista, como não se sente confortável no meio da arte. Percebe que jamais deixou de ter nove anos e que jamais deixou de ser atormentada e seduzida pela melhor amiga daquele tempo : Cordelia.
As primeiras duzentas páginas, que tratam da infância, dos 7 aos 13 anos de Elaine, são simplesmente magníficas. Cada parágrafo brilha como as bolinhas de gude que ela adora, cada capítulo é cheio de vida, de encanto, nos conduzindo a nossas próprias lembranças de nossa própria infância. Apesar dela ser menina, canadense e criança dos anos 40, me peguei em comunhão profunda com toda lembrança, toda alegria e todo medo de Elaine. É magia total.
O livro se banaliza conforme ela cresce. Nunca se torna fraco, mas sentimos falta do mundo do início. Mas tinha, precisava ser assim ! Pois o personagem sente, de forma nunca assumida, o mesmo que o leitor : um fascínio, difícil de ser aceito, pelas coisas da meninice.
No final o livro volta a crescer, e Elaine percebe que o que ela sempre tentou foi deixar os nove anos para trás, esquecer. Mas num avião, finalmente, ela entende. Que a velhice pode ser uma benção, que ela pode nos conceder a paz de não mais se preocupar com aparência, boa educação, sexo. Que ela pode nos dar a liberdade de dar uma banana para o mundo. Mas que essa velhice só seria completa se Cordelia estivesse a seu lado.
Eis a grande melancolia : é preciso completar o círculo, levar algo ou alguém com você, uma testemunha de quem você realmente é, um companheiro de trajeto. Elaine perdeu Cordelia, e Cordelia se foi para sempre.
Uma dor fina, incômoda, constante, se desprende desse livro. È a dor que ela sente. A dor de quem vê demais e questiona muito. Elaine é menina/moleque, moça/desajustada, senhora/esquisita; tudo nela é vazio, e a vida nela é plena. Amamos aquela criança que jamais muda dentro da mulher. Torcemos por ela. E terminamos a leitura entendendo melhor nossas mães, nossas namoradas ou nossas irmãs. Não é pouca coisa o que Atwood nos dá. Sua mente é gigantesca.
PATTON/MASTROIANNI/DELIVERANCE/KATE E CARY GRANT/
CRY OF THE CITY de Robert Siodmak com Victor Mature e Richard Conte
Siodmak foi um dos vários alemães que emigraram para os EUA e que criaram o estilo noir do cinema americano. Este é um belo exemplo. Filme muito forte, sobre bandido italiano que usa todos para tentar escapar da lei. Mature está ok, como o policial que cresceu no mesmo bairro e tenta incriminá-lo. Mas é Conte quem impressiona, mais uma vez dando show. O filme tem um clima realista, sujo, feio, que o torna muito absorvente e emocionante. nota 8.
SIROCCO de Curtis Bernhardt com Humphrey Bogart, Lee J. Cobb e Marta Toren
Conhecido como um dos piores filmes de Bogey, ele incomoda por ser seu personagem um fraco. Ele nada consegue e tem um fim nada heróico. Mas tem seus méritos, nesta história onde franceses colonialistas tentam domar revolta na Siria. nota 5.
PATTON de Franklyn J. Schaffner com George C. Scott e Karl Malden
Grande vencedor do Oscar de 1970, este filme representa bem uma das melhores safras do cinema americano ( 66/74 ). Trata-se de uma bio como não se faz mais : completamente verdadeira, mas sem jamais perder o caráter de espetáculo. Caramba ! Porque não se fazem mais filmes como este ??????????? Patton, feito por um Scott endiabrado, é fascista, egocentrico, homossexual enrustido, cruel, vaidoso ao extremo. Mas o admiramos, e depois o odiamos e voltamos a admirar. Na história deste gênio da guerra, que amava ópera e acreditava em reencarnação, assistimos a um filme perfeito em seu gigantismo. Gigantismo que jamais se torna frio, falso, impessoal. Tudo nele é belo e cruel, verdadeiro e mitológico. Foi este filme que deu o primeiro Oscar à Coppolla ( é dele o roteiro ) e deu a Scott um Oscar merecido. Aliás, bem de acordo com o clima político desse tempo, Scott não aceitou o prêmio e nunca foi o buscar. Disse que atores não são esportistas para concorrer entre sí, e que o único modo de se julgar dois atores seria dar a ambos o mesmo papel no mesmo filme em condições iguais. Ele está errado ? Tudo neste filme é superior : a música de Jerry Goldsmith, a fotografia de Fred Koenekamp, e esse absoluto extase que é assistir à Scott como este magnífico e inesquecível general. Apesar da concorrência fortíssima de 1970, o filme mereceu cada prêmio ganho. Trata-se de cinema de primeira, de arte e diversão, de política e emoção. Assistir este filme é compreender o que o cinema popular pode e deve ser. nota Dez.
THE LOVE PARADE de Ernst Lubistch com Maurice Chevalier, Jeannete MacDonald e Lilian Roth
Envelheceu muito este filme do importante Ernst. É um tipo de filme realmente morto, ancião, enterrado. De bom, os cenários luxuosos e Lilian, uma maliciosa atriz de beleza sapeca, que teve a carreira destruída pelo alcoolismo. Seria uma estrela. O que encanta é a malicia do filme, feito antes da criação do código de censura. nota 4.
UN FLIC de Jean-Pierre Melville com Alain Delon, Richard Crenna e Catherine Deneuve
John Woo, Guy Ritchie e Tarantino adoram os filmes de Melville. Neste, que é seu último trabalho, dá pra se notar o porquê. É cinema policial durão, nada simpático, árido, cool, muito cheio de coisas dúbias, onde o bandido é tão ruim quanto o policial e tudo cheira a corrupção e existencialismo crú. Melville adotou este sobrenome como homenagem ao autor de Moby Dick. Amava tudo o que era americano, se vestia como Bogey, ouvia jazz e acima de tudo, assistia os noir de Huston, Wilder, Wise, Preminger e Dassin. Alain Delon, com sua cara de absurda beleza gelada, nasceu para fazer este papel. nota 7.
O BELO ANTONIO de Mauro Bolognini com Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale e Pierre Brasseur
Em toda a história do cinema de qualquer nação, ninguém fez tantos filmes bons em tão pouco tempo quanto Marcello. Entre 55/75, a quantidade de filmes eternos que ele fez é impressionante. Mesmo tendo de concorrer com Gassman, Tognazzi, Manfredi e Sordi. Nesse período o cinema italiano era o melhor do mundo e Marcello seu rei. Este foi um de seus maiores papeis : um homem da Sicilia, lugar de machismo absoluto, que não consegue consumar seu casamento, pois ama demais sua bela esposa, que vê como um anjo. Este poderia ser tema de comédia, mas aqui, graças a sensibilidade de Bolognini, discípulo de Visconti, o que seria riso se torna melancolia. Marcello tem uma interpretação digna de um deus. Seu olhar na cena final é coisa para se guardar para a eternidade. Seu personagem, que tem fama de comedor, se torna a piada da cidade. Claudia brilha, com sua transformação de belo anjo para mulher rancorosa e Brasseur, como o pai orgulhoso e maschio, passa toda a patetice desse garanhão de meia idade. Em destaque a bela cidade de Palermo, cheia de vielas, varandas e varais. Rica de gente. Um filme belo, vivo e muito triste. nota 8.
DELIVERANCE de John Boorman com Jon Voight e Burt Reynolds
A coisa de uma semana assiti um filme de Boorman feito antes deste. Um filme em que Lee Marvin e Mifune duelam numa ilha deserta. Agora me cai em mãos este Deliverance. Outra prova da maestria desse inglês Boorman, cineasta ainda na ativa, poeta da violência e da sobrevivência. Este filme é, em seu gênero, uma pequena obra-prima da crueldade. Poderia ser feito hoje ? Com certeza não. Sua violência é real demais, seu sangue não é glamuroso, seu horror é adulto, nunca infantil. Sua história : quatro amigos partem para a mata. Irão remar num rio que será eliminado, transformado em lago de represa. O que acontece com eles ? O absoluto horror. O filme nos mostra todo o tempo o ridículo de cada um deles. Como nos tornamos seres desajeitados, anti-naturais, desconfortáveis em meio a mata, e em como tentamos crer em nossa " pureza". Eles erram em tudo e todo o tempo, e pagam caro por todo erro. Cada passo que dão é um passo de aliem num planeta que nunca é o deles. A mata os repele, e os caipiras são de um mundo distante, além do que eles podem ver. Nada neste filme é bonito. Ninguém é heróico. Não há poesia: a mata é o que é, mundo fechado, inescrutável. Surpresa : o filme não tem trilha sonora, apenas o som de pássaros, da água, de gemidos e gritos, de conversas tolas. É uma obra-prima feita por um corajoso. Cineasta que se queimou nos anos oitenta com dois filmes muito ruins ( inclusive um deles feito no Amazonas, com Sean Connery e José Wilker ). Mas Boorman é invulgar, original, forte e difícil. Este Deliverance ( grande sucesso na época ) é para se guardar e rever. nota Dez.
SYLVIA SCARLETT de George Cukor com Kate Hepburn, Cary Grant, Edmund Gwenn, Brian Aherne.
Maior prazer que ver Kate na tela ( minha atriz favorita ), só o de ver Grant na tela ( meu ator favorito ). Cukor, que apesar de grande diretor, não é ousado ou muito criativo, faz aqui um filme completamente doido. Sua primeira parte ( 40 minutos ) é deslumbrante ! Pai e filha fogem da França endividados. Na Inglaterra se envolvem com malandro cockney ( Grant fala, pela única vez, com seu sotaque de origem. Uma delícia!!). O que vemos então são os hilários golpes dos 3, e o filme, de 1935, se torna um milagre : um filme dos irmãos Coen, o melhor deles, feito mais de meio século antes. Kate se faz passar por menino e o filme brinca com travestismo, roubo, trapaça, egoísmo, pai infantil, tudo isso com imensa alegria e em cenas curtas e meio improvisadas. Kate, de paletó, cabelo de menino, leve como um Peter Pan, se mostra alegre, se diverte com seu papel, e vemos o mais bonito menino da história do cinema. Cary Grant começa neste filme a chamar a atenção do mundo sobre sua figura. Vemos o nascimento do mais adorável dos comediantes, do mais elegante dos malandros. E vendo este espetáculo pela primeira vez, penso : que fantástico show ! será meu filme favorito!!!! Mas... Kate se apaixona, larga as roupas de menino e se assume mocinha... e o filme, esquizofrenicamente, se torna outro, drama de amor. O personagem de Grant desaparece, e sentimos saudade de sua saudável malandrice. São 40 minutos de romance inconvincente, empolado, sem motivo. Nunca ví tal sucídio de expectativas na tela. Quando o filme acaba, parece que assistimos dois filmes totalmente diferentes : um que nos mostrou a verdadeira Kate, rapazinho bissexual, leve, alegre, linda; e o verdadeiro Cary, ambicioso malandro inglês, palhação, acrobata, charme de gigolô. Mas toda essa maravilha é morta pelo covencionalismo, pelo romance banal. Você se entristece com o filme, cai na razão, esmorece. O filme, em seu tempo, foi imenso fracasso. Hoje é um cult de primeira. É tão estranho que não pode ser julgado. Toda nota seria injusta.
EFEITO DOMINÓ de Roger Donaldson com Jason Statham e Saffron Burrows
O velho Roger continua filmando ( nunca vivemos uma era com tanto diretor velho. No cinema, até os anos 90, diretores eram encostados aos 60 anos. Hoje filmam até morrer. Bergman, Minelli, Ford, Hawks, Wilder, Donen, Capra, Stevens, Renoir, todos pararam aos 60, 62. Hoje, Lumet, Chabrol, Scorsese, Donner, Resnais, Spielberg, Penn, Boorman, De Palma, Eastwood, Woody Allen, filmam e filmarão até o fim. Como filmaram Altman, Pollack e Kubrick. Bom ou mal sinal ? ) Bem... eu gosto de Jason. É um Bruce Willis atual ( eu preferia Bruce. Mas Jason é ok. ) O filme, delícia de filme de assalto, é muito agradável, ágil, divertido. E tem Burrows, uma bela atriz. nota 6.
Siodmak foi um dos vários alemães que emigraram para os EUA e que criaram o estilo noir do cinema americano. Este é um belo exemplo. Filme muito forte, sobre bandido italiano que usa todos para tentar escapar da lei. Mature está ok, como o policial que cresceu no mesmo bairro e tenta incriminá-lo. Mas é Conte quem impressiona, mais uma vez dando show. O filme tem um clima realista, sujo, feio, que o torna muito absorvente e emocionante. nota 8.
SIROCCO de Curtis Bernhardt com Humphrey Bogart, Lee J. Cobb e Marta Toren
Conhecido como um dos piores filmes de Bogey, ele incomoda por ser seu personagem um fraco. Ele nada consegue e tem um fim nada heróico. Mas tem seus méritos, nesta história onde franceses colonialistas tentam domar revolta na Siria. nota 5.
PATTON de Franklyn J. Schaffner com George C. Scott e Karl Malden
Grande vencedor do Oscar de 1970, este filme representa bem uma das melhores safras do cinema americano ( 66/74 ). Trata-se de uma bio como não se faz mais : completamente verdadeira, mas sem jamais perder o caráter de espetáculo. Caramba ! Porque não se fazem mais filmes como este ??????????? Patton, feito por um Scott endiabrado, é fascista, egocentrico, homossexual enrustido, cruel, vaidoso ao extremo. Mas o admiramos, e depois o odiamos e voltamos a admirar. Na história deste gênio da guerra, que amava ópera e acreditava em reencarnação, assistimos a um filme perfeito em seu gigantismo. Gigantismo que jamais se torna frio, falso, impessoal. Tudo nele é belo e cruel, verdadeiro e mitológico. Foi este filme que deu o primeiro Oscar à Coppolla ( é dele o roteiro ) e deu a Scott um Oscar merecido. Aliás, bem de acordo com o clima político desse tempo, Scott não aceitou o prêmio e nunca foi o buscar. Disse que atores não são esportistas para concorrer entre sí, e que o único modo de se julgar dois atores seria dar a ambos o mesmo papel no mesmo filme em condições iguais. Ele está errado ? Tudo neste filme é superior : a música de Jerry Goldsmith, a fotografia de Fred Koenekamp, e esse absoluto extase que é assistir à Scott como este magnífico e inesquecível general. Apesar da concorrência fortíssima de 1970, o filme mereceu cada prêmio ganho. Trata-se de cinema de primeira, de arte e diversão, de política e emoção. Assistir este filme é compreender o que o cinema popular pode e deve ser. nota Dez.
THE LOVE PARADE de Ernst Lubistch com Maurice Chevalier, Jeannete MacDonald e Lilian Roth
Envelheceu muito este filme do importante Ernst. É um tipo de filme realmente morto, ancião, enterrado. De bom, os cenários luxuosos e Lilian, uma maliciosa atriz de beleza sapeca, que teve a carreira destruída pelo alcoolismo. Seria uma estrela. O que encanta é a malicia do filme, feito antes da criação do código de censura. nota 4.
UN FLIC de Jean-Pierre Melville com Alain Delon, Richard Crenna e Catherine Deneuve
John Woo, Guy Ritchie e Tarantino adoram os filmes de Melville. Neste, que é seu último trabalho, dá pra se notar o porquê. É cinema policial durão, nada simpático, árido, cool, muito cheio de coisas dúbias, onde o bandido é tão ruim quanto o policial e tudo cheira a corrupção e existencialismo crú. Melville adotou este sobrenome como homenagem ao autor de Moby Dick. Amava tudo o que era americano, se vestia como Bogey, ouvia jazz e acima de tudo, assistia os noir de Huston, Wilder, Wise, Preminger e Dassin. Alain Delon, com sua cara de absurda beleza gelada, nasceu para fazer este papel. nota 7.
O BELO ANTONIO de Mauro Bolognini com Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale e Pierre Brasseur
Em toda a história do cinema de qualquer nação, ninguém fez tantos filmes bons em tão pouco tempo quanto Marcello. Entre 55/75, a quantidade de filmes eternos que ele fez é impressionante. Mesmo tendo de concorrer com Gassman, Tognazzi, Manfredi e Sordi. Nesse período o cinema italiano era o melhor do mundo e Marcello seu rei. Este foi um de seus maiores papeis : um homem da Sicilia, lugar de machismo absoluto, que não consegue consumar seu casamento, pois ama demais sua bela esposa, que vê como um anjo. Este poderia ser tema de comédia, mas aqui, graças a sensibilidade de Bolognini, discípulo de Visconti, o que seria riso se torna melancolia. Marcello tem uma interpretação digna de um deus. Seu olhar na cena final é coisa para se guardar para a eternidade. Seu personagem, que tem fama de comedor, se torna a piada da cidade. Claudia brilha, com sua transformação de belo anjo para mulher rancorosa e Brasseur, como o pai orgulhoso e maschio, passa toda a patetice desse garanhão de meia idade. Em destaque a bela cidade de Palermo, cheia de vielas, varandas e varais. Rica de gente. Um filme belo, vivo e muito triste. nota 8.
DELIVERANCE de John Boorman com Jon Voight e Burt Reynolds
A coisa de uma semana assiti um filme de Boorman feito antes deste. Um filme em que Lee Marvin e Mifune duelam numa ilha deserta. Agora me cai em mãos este Deliverance. Outra prova da maestria desse inglês Boorman, cineasta ainda na ativa, poeta da violência e da sobrevivência. Este filme é, em seu gênero, uma pequena obra-prima da crueldade. Poderia ser feito hoje ? Com certeza não. Sua violência é real demais, seu sangue não é glamuroso, seu horror é adulto, nunca infantil. Sua história : quatro amigos partem para a mata. Irão remar num rio que será eliminado, transformado em lago de represa. O que acontece com eles ? O absoluto horror. O filme nos mostra todo o tempo o ridículo de cada um deles. Como nos tornamos seres desajeitados, anti-naturais, desconfortáveis em meio a mata, e em como tentamos crer em nossa " pureza". Eles erram em tudo e todo o tempo, e pagam caro por todo erro. Cada passo que dão é um passo de aliem num planeta que nunca é o deles. A mata os repele, e os caipiras são de um mundo distante, além do que eles podem ver. Nada neste filme é bonito. Ninguém é heróico. Não há poesia: a mata é o que é, mundo fechado, inescrutável. Surpresa : o filme não tem trilha sonora, apenas o som de pássaros, da água, de gemidos e gritos, de conversas tolas. É uma obra-prima feita por um corajoso. Cineasta que se queimou nos anos oitenta com dois filmes muito ruins ( inclusive um deles feito no Amazonas, com Sean Connery e José Wilker ). Mas Boorman é invulgar, original, forte e difícil. Este Deliverance ( grande sucesso na época ) é para se guardar e rever. nota Dez.
SYLVIA SCARLETT de George Cukor com Kate Hepburn, Cary Grant, Edmund Gwenn, Brian Aherne.
Maior prazer que ver Kate na tela ( minha atriz favorita ), só o de ver Grant na tela ( meu ator favorito ). Cukor, que apesar de grande diretor, não é ousado ou muito criativo, faz aqui um filme completamente doido. Sua primeira parte ( 40 minutos ) é deslumbrante ! Pai e filha fogem da França endividados. Na Inglaterra se envolvem com malandro cockney ( Grant fala, pela única vez, com seu sotaque de origem. Uma delícia!!). O que vemos então são os hilários golpes dos 3, e o filme, de 1935, se torna um milagre : um filme dos irmãos Coen, o melhor deles, feito mais de meio século antes. Kate se faz passar por menino e o filme brinca com travestismo, roubo, trapaça, egoísmo, pai infantil, tudo isso com imensa alegria e em cenas curtas e meio improvisadas. Kate, de paletó, cabelo de menino, leve como um Peter Pan, se mostra alegre, se diverte com seu papel, e vemos o mais bonito menino da história do cinema. Cary Grant começa neste filme a chamar a atenção do mundo sobre sua figura. Vemos o nascimento do mais adorável dos comediantes, do mais elegante dos malandros. E vendo este espetáculo pela primeira vez, penso : que fantástico show ! será meu filme favorito!!!! Mas... Kate se apaixona, larga as roupas de menino e se assume mocinha... e o filme, esquizofrenicamente, se torna outro, drama de amor. O personagem de Grant desaparece, e sentimos saudade de sua saudável malandrice. São 40 minutos de romance inconvincente, empolado, sem motivo. Nunca ví tal sucídio de expectativas na tela. Quando o filme acaba, parece que assistimos dois filmes totalmente diferentes : um que nos mostrou a verdadeira Kate, rapazinho bissexual, leve, alegre, linda; e o verdadeiro Cary, ambicioso malandro inglês, palhação, acrobata, charme de gigolô. Mas toda essa maravilha é morta pelo covencionalismo, pelo romance banal. Você se entristece com o filme, cai na razão, esmorece. O filme, em seu tempo, foi imenso fracasso. Hoje é um cult de primeira. É tão estranho que não pode ser julgado. Toda nota seria injusta.
EFEITO DOMINÓ de Roger Donaldson com Jason Statham e Saffron Burrows
O velho Roger continua filmando ( nunca vivemos uma era com tanto diretor velho. No cinema, até os anos 90, diretores eram encostados aos 60 anos. Hoje filmam até morrer. Bergman, Minelli, Ford, Hawks, Wilder, Donen, Capra, Stevens, Renoir, todos pararam aos 60, 62. Hoje, Lumet, Chabrol, Scorsese, Donner, Resnais, Spielberg, Penn, Boorman, De Palma, Eastwood, Woody Allen, filmam e filmarão até o fim. Como filmaram Altman, Pollack e Kubrick. Bom ou mal sinal ? ) Bem... eu gosto de Jason. É um Bruce Willis atual ( eu preferia Bruce. Mas Jason é ok. ) O filme, delícia de filme de assalto, é muito agradável, ágil, divertido. E tem Burrows, uma bela atriz. nota 6.
EU SOU MINHA LÍNGUA
Todo francês ama sua língua. Vem daí o cuidado que eles têm com as letras em suas canções e o prazer masturbatório em ouvir sua voz nos filmes. Eles adoram se ouvir falando. Continuam fazendo questão de chamar John Wayne de Jean Vaine, Brad Pitt é Brrrade Pí e Grace Kelly é Grrrrasse Quelí. Não subjugam sua língua. MTV é emetevê.
Em Portugal cd é dc, pois é um disco compacto, assim como pc é cp, computador pessoal. Todos os países latinos chamam aids de sida, pois aids nada significa em nossa língua. Celular é fone móvel. Me parece que nessa adaptação da língua, que franceses e portugueses fazem, além do orgulho por se ser quem se é, existe algo de mais nobre por detrás : a democratização da informação. Quando uma loja escreve sale, além de demonstrar falta de senso de ridículo, ela demonstra o desejo, tolo e perverso, de não ser entendida pelo povinho que não sabe o que significa sale. Se todos os termos da informática tivessem sido bem traduzidos em sua origem, ela teria sido democratizada com muito maior facilidade.
Me parece que esse hábito de se colocar em blogs e orkuts frases em inglês ( existe palavra mais feia que blog ? Sim, orkut ! ), esse hábito recorda aqueles "doutores advogados" que adoram falar termos jurídicos que a plebe não entende, aqueles médicos que amam escrever receitas que ninguém pode ler, enfim, é um hábito antigo como a poesia ruim, uma mania de se diferenciar pelo tolo esnobismo da língua.
Como os nobres russos que só falavam francês.
Uma língua deve estar aberta a influências. Esnobe é uma palavra inglesa. Como metrô é francesa. Mas essa palavra só pode ser usada quando não há equivalente em sua língua. Chamar rede de net ou mercado de market é pura caipirice. Negar a língua em que você pensa e sonha, é afirmar de forma burra, que seus sonhos e seus pensamentos nada são, que eles devem ser traduzidos em linguagem mais civilizada, mais moderna, mais pop. ( Pop é boa palavra. Coincide com popular ). Pare de se rebaixar e readquira o orgulho de sua fala. Amando é bem mais bonito que In love.
Em Portugal cd é dc, pois é um disco compacto, assim como pc é cp, computador pessoal. Todos os países latinos chamam aids de sida, pois aids nada significa em nossa língua. Celular é fone móvel. Me parece que nessa adaptação da língua, que franceses e portugueses fazem, além do orgulho por se ser quem se é, existe algo de mais nobre por detrás : a democratização da informação. Quando uma loja escreve sale, além de demonstrar falta de senso de ridículo, ela demonstra o desejo, tolo e perverso, de não ser entendida pelo povinho que não sabe o que significa sale. Se todos os termos da informática tivessem sido bem traduzidos em sua origem, ela teria sido democratizada com muito maior facilidade.
Me parece que esse hábito de se colocar em blogs e orkuts frases em inglês ( existe palavra mais feia que blog ? Sim, orkut ! ), esse hábito recorda aqueles "doutores advogados" que adoram falar termos jurídicos que a plebe não entende, aqueles médicos que amam escrever receitas que ninguém pode ler, enfim, é um hábito antigo como a poesia ruim, uma mania de se diferenciar pelo tolo esnobismo da língua.
Como os nobres russos que só falavam francês.
Uma língua deve estar aberta a influências. Esnobe é uma palavra inglesa. Como metrô é francesa. Mas essa palavra só pode ser usada quando não há equivalente em sua língua. Chamar rede de net ou mercado de market é pura caipirice. Negar a língua em que você pensa e sonha, é afirmar de forma burra, que seus sonhos e seus pensamentos nada são, que eles devem ser traduzidos em linguagem mais civilizada, mais moderna, mais pop. ( Pop é boa palavra. Coincide com popular ). Pare de se rebaixar e readquira o orgulho de sua fala. Amando é bem mais bonito que In love.
DEREK AND THE DOMINOS- sol, desespero e amor
ATENÇÃO:
ESTE TEXTO NÃO DEVE SER LIDO POR MENINOS ( MENINA PODE ). ELE FALA SOBRE SENTIMENTOS VIRIS. PODE CAUSAR DOR, MEDO E INSEGURANÇA.
A Rolling Stone disse uma vez que existe um certo tipo de disco que consegue passar aquilo que seria um ato de sucídio por amor. Música que é um abismo de dor, mas não de neurose. Ao contrário da neura, é dor verdadeira, inteira, assumida, é a completa e abismal paixão. O autor do texto cita "Darkness on the edge of town" de Bruce e "Tonight is the night" de Neil Young como exemplos desse momento de dor e de inspiração, e cita " Derek and the dominos" como o momento maior, onde o autor se mata de amor em nossa frente, e ao ouvir o disco, se estivermos apaixonados, nos sentimos morrer com ele.
Mas o que é Derek ?
Você sabe, é o Eric Clapton da heroína, o cara que em 1970 todos diziam ser o próximo morto. O que não sabiam é que ele já estava no inferno. ( E è sintomático de sua situação o fato de Keith Richards ter dito numa entrevista que trabalhar com Clapton era barra-pesada demais !!!! ).
Eric acabou com o Cream ( no auge da fama ) por dois motivos : por ter escutado a The Band e querer fazer aquele som, e por estar entupido de heroína. Mas, como tudo que é ruim pode ficar pior, ele se apaixona pela esposa do melhor amigo : Patty Boyd Harrison, esposa de George, aquele George...
Clapton vai, cheio de culpa ( não foi platônico e George perdoou os dois ) para a América e se mistura com uma gang de muito talento e de muita droga, os tais Dominos. Disfarçado então, ele lança um disco onde canta ( grita ) seu amor por Patty. Ouvindo o disco ( que nada mais é que uma carta de amor ), ela escolhe continuar com George, mas dois anos depois opta por Eric ( com quem ficaria mais de dez anos ). Clapton lança o disco, pira de vez e desaparece por quatro anos. Quando retorna, limpo de heroína, bebedor compulsivo, ele se apresenta como o cara que conhecemos desde então : acomodado, calmo, pop. Com a morte, por sucídio amoroso, daquele poeta do blues, nasce o guitarrista pouco ousado, clean e elegante, boa praça. Quem assistiu o show em homenagem a George ( excelente ) sabe do que falo : Clapton é um gentleman. Mas quem ouviu e sentiu os Dominos sabe mais : o disco é um berro de desespero amoroso.
Como devo deixar bem claro, o disco é de dor e desespero, mas nada tem de neurótico. O amor que ele passa é a paixão visceral de um homem de coragem por uma mulher especial. Apesar de ter sido gravado por um bando de junkies, nada em seu som trai qualquer tipo de viagem ou de pesadelo drogado. É um disco de blues. Para ser entendido por quem se perdeu numa estrada, para quem sabe o que é estar onde não se queria estar, para quem acordou e se viu no blues.
Nunca duas guitarras soaram tão fortes e tão cheias de sangue. Clapton chamou Duane Allman para tocar com ele. Duane, na época não muito conhecido, morreria em acidente de moto dois anos mais tarde, no estouro da Allman Brothers Band. Eric, com a modéstia que nele parece ser verdadeira, deu para Allman os melhores solos e passa boa parte do disco fazendo base para os solos de slide do americano. E que solos ! Tudo o que uma guitarra pode fazer em termos de emoção é feito pelo slide de Duane e pelo dedilhar de Eric. Os solos não são colocados nas músicas, eles explodem, sempre em desespero, sempre em lamentações dobradas, numa espécie de hiper saturação do blues. O efeito sobre aquele que já se apaixonou pela mulher errada e pagou por isso, é devastador. As duas guitarras, faixa após faixa, trazem uivos e gemidos que revivem toda a dor de uma emoção destruída e destruidora. Após estas faixas não há como outro guitarrista os superar, a linguagem do instrumento é esgotada.
As faixas falam de toda a história dessa paixão. Começando com " I Looked Away ", com solo soberbo de Eric, caminhando por "Bell Botton Blues", faixa que já estraçalha seu pobre coração aniquilado, tudo no disco conta a história da sua/ da minha/ da paixão de todos. Mas veja bem, paixão com P gigante, paixão louca de total entrega e total desfalecimento. Clapton se suicida nestes sulcos, dá sua alma à musa e renasce outro ser, anos depois. O cara que gravou isto, o louco deus da guitarra do Cream e do Yardbirds desaparece neste album. Album que continua com a festa de Keep on Growing, prossegue pela soberba Anyday- que tem vocais de morrer de dor, e deságua na música das músicas de estrada, Key to Highway, que tem os melhores solos já gravados. Quando Have you ever loved a woman surge, só resta entregar tudo à música, o que foi gravado alí é algo precioso demais para ser explicado. É música pura, superior; explicá-la é tão dificil quanto explicar uma paixão.
Dos músicos que tocaram neste disco, dois se mataram, um enlouqueceu e Duane morreu no acidente. Eric Clapton sobreviveu. E acima de Hendrix, Cobain, Morrison ou Curtis, eu valorizo o sobrevivente, o que viu a besta e voltou para continuar. Clapton viu. O demonio que ele viu tem o tamanho deste emocional disco. Era um demonio feito de amor, de desejo e de aventura. Ele soube domá-los. Não fez pouca coisa.
Ao final ele sobreviveu a Patty e a George. E melhor, manteve a amizade dos dois. O que fica disso tudo ? Este disco... e penso que ao final tudo se resume ao blues........
ESTE TEXTO NÃO DEVE SER LIDO POR MENINOS ( MENINA PODE ). ELE FALA SOBRE SENTIMENTOS VIRIS. PODE CAUSAR DOR, MEDO E INSEGURANÇA.
A Rolling Stone disse uma vez que existe um certo tipo de disco que consegue passar aquilo que seria um ato de sucídio por amor. Música que é um abismo de dor, mas não de neurose. Ao contrário da neura, é dor verdadeira, inteira, assumida, é a completa e abismal paixão. O autor do texto cita "Darkness on the edge of town" de Bruce e "Tonight is the night" de Neil Young como exemplos desse momento de dor e de inspiração, e cita " Derek and the dominos" como o momento maior, onde o autor se mata de amor em nossa frente, e ao ouvir o disco, se estivermos apaixonados, nos sentimos morrer com ele.
Mas o que é Derek ?
Você sabe, é o Eric Clapton da heroína, o cara que em 1970 todos diziam ser o próximo morto. O que não sabiam é que ele já estava no inferno. ( E è sintomático de sua situação o fato de Keith Richards ter dito numa entrevista que trabalhar com Clapton era barra-pesada demais !!!! ).
Eric acabou com o Cream ( no auge da fama ) por dois motivos : por ter escutado a The Band e querer fazer aquele som, e por estar entupido de heroína. Mas, como tudo que é ruim pode ficar pior, ele se apaixona pela esposa do melhor amigo : Patty Boyd Harrison, esposa de George, aquele George...
Clapton vai, cheio de culpa ( não foi platônico e George perdoou os dois ) para a América e se mistura com uma gang de muito talento e de muita droga, os tais Dominos. Disfarçado então, ele lança um disco onde canta ( grita ) seu amor por Patty. Ouvindo o disco ( que nada mais é que uma carta de amor ), ela escolhe continuar com George, mas dois anos depois opta por Eric ( com quem ficaria mais de dez anos ). Clapton lança o disco, pira de vez e desaparece por quatro anos. Quando retorna, limpo de heroína, bebedor compulsivo, ele se apresenta como o cara que conhecemos desde então : acomodado, calmo, pop. Com a morte, por sucídio amoroso, daquele poeta do blues, nasce o guitarrista pouco ousado, clean e elegante, boa praça. Quem assistiu o show em homenagem a George ( excelente ) sabe do que falo : Clapton é um gentleman. Mas quem ouviu e sentiu os Dominos sabe mais : o disco é um berro de desespero amoroso.
Como devo deixar bem claro, o disco é de dor e desespero, mas nada tem de neurótico. O amor que ele passa é a paixão visceral de um homem de coragem por uma mulher especial. Apesar de ter sido gravado por um bando de junkies, nada em seu som trai qualquer tipo de viagem ou de pesadelo drogado. É um disco de blues. Para ser entendido por quem se perdeu numa estrada, para quem sabe o que é estar onde não se queria estar, para quem acordou e se viu no blues.
Nunca duas guitarras soaram tão fortes e tão cheias de sangue. Clapton chamou Duane Allman para tocar com ele. Duane, na época não muito conhecido, morreria em acidente de moto dois anos mais tarde, no estouro da Allman Brothers Band. Eric, com a modéstia que nele parece ser verdadeira, deu para Allman os melhores solos e passa boa parte do disco fazendo base para os solos de slide do americano. E que solos ! Tudo o que uma guitarra pode fazer em termos de emoção é feito pelo slide de Duane e pelo dedilhar de Eric. Os solos não são colocados nas músicas, eles explodem, sempre em desespero, sempre em lamentações dobradas, numa espécie de hiper saturação do blues. O efeito sobre aquele que já se apaixonou pela mulher errada e pagou por isso, é devastador. As duas guitarras, faixa após faixa, trazem uivos e gemidos que revivem toda a dor de uma emoção destruída e destruidora. Após estas faixas não há como outro guitarrista os superar, a linguagem do instrumento é esgotada.
As faixas falam de toda a história dessa paixão. Começando com " I Looked Away ", com solo soberbo de Eric, caminhando por "Bell Botton Blues", faixa que já estraçalha seu pobre coração aniquilado, tudo no disco conta a história da sua/ da minha/ da paixão de todos. Mas veja bem, paixão com P gigante, paixão louca de total entrega e total desfalecimento. Clapton se suicida nestes sulcos, dá sua alma à musa e renasce outro ser, anos depois. O cara que gravou isto, o louco deus da guitarra do Cream e do Yardbirds desaparece neste album. Album que continua com a festa de Keep on Growing, prossegue pela soberba Anyday- que tem vocais de morrer de dor, e deságua na música das músicas de estrada, Key to Highway, que tem os melhores solos já gravados. Quando Have you ever loved a woman surge, só resta entregar tudo à música, o que foi gravado alí é algo precioso demais para ser explicado. É música pura, superior; explicá-la é tão dificil quanto explicar uma paixão.
Dos músicos que tocaram neste disco, dois se mataram, um enlouqueceu e Duane morreu no acidente. Eric Clapton sobreviveu. E acima de Hendrix, Cobain, Morrison ou Curtis, eu valorizo o sobrevivente, o que viu a besta e voltou para continuar. Clapton viu. O demonio que ele viu tem o tamanho deste emocional disco. Era um demonio feito de amor, de desejo e de aventura. Ele soube domá-los. Não fez pouca coisa.
Ao final ele sobreviveu a Patty e a George. E melhor, manteve a amizade dos dois. O que fica disso tudo ? Este disco... e penso que ao final tudo se resume ao blues........
DAISY MILLER / INCIDENTE INTERNACIONAL - HENRY JAMES
Um imenso prazer ler James. É o melhor escritor dos últimos 150 anos ? Talvez Tolstoi e Proust sejam tão bons quanto ele, mas desde Stendhal eu não conheço quem escreva tão bem, tão "bonito", de modo tão claro, refinado, prazeroso e profundo. James esgota os vários angulos de cada sentimento, nos dá o personagem inteiro, complexo em todo matiz, cria com exuberância.
Daisy Miller é uma noveleta de 80 páginas. Compara americanos à ingleses. Sabemos que James nasceu na América, mas muito cedo emigrou para a Inglaterra. Sua descrição é imparcial, mas notamos, surpresos, que na época desta história ( 1875 ) a América já era a América. Vejamos :
Toques cômicos animam todo o relato. Desse modo, vemos Daisy, em Londres ( e depois em Roma ), uma americana rica ( James só fala do que conhece, as altas classes ), se divertindo como uma americana se diverte : falando tudo o que pensa. Isso deixa os britânicos alarmados ! Falar tanto, falar tudo, fazer confidências, expor sentimentos... quanta falta de educação ! Pior, Daisy anda sozinha pela cidade ! E se aproxima dos homens, sorrindo, sem ter sido apresentada à eles ! Tudo nela é ação ingênua, tudo nos ingleses é convenção estudada. Nada pode ser natural na Europa, lugar antigo e pouco selvagem. Para Daisy, viver é falar e fazer. Ingleses não se preocupam em fazer, seu ideal é a nobreza, e um duque passa a vida na inutilidade.
Na segunda história, são dois nobres ingleses que visitam Nova Iorque, e o tom cômico é maior. Basta dizer que eles temem não compreender a língua americana e morrem de calor no verão, pois para eles Nova Iorque está muito próxima do Equador !!!
Neste relato, os dois são ponto de atenção da sociedade de Newport, sociedade que se irrita ao constatar que um nobre inglês jamais comparece ao parlamento e nunca demonstra interesse por suas próprias ruínas históricas. Eles nada têm a dizer sobre nada. As americanas, por seu lado, fazem aquilo que as americans fazem todo dia e toda hora : compras ! Sim meus caros, em 1875 a grande atividade americana já era o consumo. E elas andam de lá para cá, toda tarde flanando, e comprando sedas, jóias, luvas, sombrinhas, botinhas, perfumes, quadros, flores, móveis, tapetes, vestidos, vasos, talheres e um imenso etc. Os homens trabalham e trabalham, mesmo os milionários, que não conseguem parar de fazer dinheiro. São todos terrivelmente ingênuos. Acreditam na democracia, na missão americana e em Deus. Pior, acreditam que a Europa é aquilo que leram em livros europeus. Sempre se decepcionam, e descobrem, como caipiras que são, que nada é melhor que Richmond.
A salientar a figura de Raymond, uma criança americana na Europa, que reclama todo o tempo da Inglaterra. Para ele o céu é nublado, as pessoas são feias, as casas pequenas e a comida sem sabor. Lugar bom é Poconotsy, onde existe o bom doutor Taylor, que tudo cura, e onde as estrelas brilham de verdade. Para ele, a Oak street é muito maior que Trafalgar e Picadilly juntos.
Assim como é hilário o modo como os dois nobres estranham o chuveiro do hotel ( imenso, a América é a terra dos hotéis e dos transatlânticos ) e ficam horas tomando banho.
O que notamos é que nada mudou na América. E é fascinante ver o nascimento do gigante, em seu auge de otimismo e juventude. Era óbvio o fato de que seu estilo de viver seria dominante no século seguinte, que toda cidade seria Nova Iorque e que toda mocinha seria Daisy Miller. Já os ingleses sumiram. Tornaram-se apêndices da América, pseudo americanos com a pose de nobres, ou cockneys que pensam estar no Harlem.
Além de mestre da psicologia, Henry James se revela aqui ( nestes seus primeiros sucessos ) um humorista digno de Wilde e um observador agudo daquilo que realmente importa. Ler estas novelas é prazer e informação, o que mais se pode querer ?
Daisy Miller é uma noveleta de 80 páginas. Compara americanos à ingleses. Sabemos que James nasceu na América, mas muito cedo emigrou para a Inglaterra. Sua descrição é imparcial, mas notamos, surpresos, que na época desta história ( 1875 ) a América já era a América. Vejamos :
Toques cômicos animam todo o relato. Desse modo, vemos Daisy, em Londres ( e depois em Roma ), uma americana rica ( James só fala do que conhece, as altas classes ), se divertindo como uma americana se diverte : falando tudo o que pensa. Isso deixa os britânicos alarmados ! Falar tanto, falar tudo, fazer confidências, expor sentimentos... quanta falta de educação ! Pior, Daisy anda sozinha pela cidade ! E se aproxima dos homens, sorrindo, sem ter sido apresentada à eles ! Tudo nela é ação ingênua, tudo nos ingleses é convenção estudada. Nada pode ser natural na Europa, lugar antigo e pouco selvagem. Para Daisy, viver é falar e fazer. Ingleses não se preocupam em fazer, seu ideal é a nobreza, e um duque passa a vida na inutilidade.
Na segunda história, são dois nobres ingleses que visitam Nova Iorque, e o tom cômico é maior. Basta dizer que eles temem não compreender a língua americana e morrem de calor no verão, pois para eles Nova Iorque está muito próxima do Equador !!!
Neste relato, os dois são ponto de atenção da sociedade de Newport, sociedade que se irrita ao constatar que um nobre inglês jamais comparece ao parlamento e nunca demonstra interesse por suas próprias ruínas históricas. Eles nada têm a dizer sobre nada. As americanas, por seu lado, fazem aquilo que as americans fazem todo dia e toda hora : compras ! Sim meus caros, em 1875 a grande atividade americana já era o consumo. E elas andam de lá para cá, toda tarde flanando, e comprando sedas, jóias, luvas, sombrinhas, botinhas, perfumes, quadros, flores, móveis, tapetes, vestidos, vasos, talheres e um imenso etc. Os homens trabalham e trabalham, mesmo os milionários, que não conseguem parar de fazer dinheiro. São todos terrivelmente ingênuos. Acreditam na democracia, na missão americana e em Deus. Pior, acreditam que a Europa é aquilo que leram em livros europeus. Sempre se decepcionam, e descobrem, como caipiras que são, que nada é melhor que Richmond.
A salientar a figura de Raymond, uma criança americana na Europa, que reclama todo o tempo da Inglaterra. Para ele o céu é nublado, as pessoas são feias, as casas pequenas e a comida sem sabor. Lugar bom é Poconotsy, onde existe o bom doutor Taylor, que tudo cura, e onde as estrelas brilham de verdade. Para ele, a Oak street é muito maior que Trafalgar e Picadilly juntos.
Assim como é hilário o modo como os dois nobres estranham o chuveiro do hotel ( imenso, a América é a terra dos hotéis e dos transatlânticos ) e ficam horas tomando banho.
O que notamos é que nada mudou na América. E é fascinante ver o nascimento do gigante, em seu auge de otimismo e juventude. Era óbvio o fato de que seu estilo de viver seria dominante no século seguinte, que toda cidade seria Nova Iorque e que toda mocinha seria Daisy Miller. Já os ingleses sumiram. Tornaram-se apêndices da América, pseudo americanos com a pose de nobres, ou cockneys que pensam estar no Harlem.
Além de mestre da psicologia, Henry James se revela aqui ( nestes seus primeiros sucessos ) um humorista digno de Wilde e um observador agudo daquilo que realmente importa. Ler estas novelas é prazer e informação, o que mais se pode querer ?
FREARS/CLAUDETTE COLBERT/BOORMAN/HITCHCOCK
OS IMORAIS de Stephen Frears com John Cusak, Anjelica Huston e Annete Bening
Entre 1990/1998 foi moda o filme de malandragem. Aquele tipo de filme que mostrava gente desonesta ( e muito charmosa ) em seu "trabalho" diário. Era um tipo de filme delicioso e este é dos primeiros ( e dos mais amargos e cruéis ). Frears, grande e irriquieto diretor, dirige com sua costumeira correção e apesar de Cusak não ser o ator ideal para o papel ( e aqui começa a amizade dos dois, que os levariam a fazer juntos " Alta Fidelidade" ) o filme sobrevive muito bem, graças ao excelente roteiro de Westlake e as perfeitas Anjelica ( um fenômeno ) e Anette ( linda e maldosa ). Diversão de alto nível. nota 7.
O GENERAL MORREU AO AMANHECER de Lewis Milestone com Gary Cooper e Madeleine Carrol.
Passado na China ( soberbo cenário labiríntico ) é uma aventura sobre americano que luta contra tirano chinês ( tirano de direita ). Impressiona o carisma do elenco conhecido, a fotografia expressionista cheia de sombras e um clima de suspense absorvente. O tipo de filme pop que justifica a existência do dvd e o resgate dos filmes dos anos 30. nota 7.
A OITAVA ESPOSA DO BARBA-AZUL de Ernst Lubistch com Gary Cooper e Claudette Colbert.
O roteiro de Billy Wilder e Charles Brackett é, talvez, o mais perfeito roteiro alegre já escrito. E quem dirige é Lubistch, o mais admirado dos diretores de comédia. O tema : na Paris da Paramount ( ou seja, é a Paris que deveria ter existido ), um americano muuuuito rico e muito ocupado, conhece numa loja, uma francesa de sangue azul, porém, falida. O pai dessa francesa é um malandro de marca maior. É lógico que os dois irão se apaixonar, é lógico que se detestarão no começo. E é lógico que o filme é maravilhoso ! Tudo funciona : Cooper está no auge do carisma, faz um americano como todo americano desde então pensa ser- bonito, esperto e educado. Claudette está belíssima e com um jeito de malicia ingênua exuberante. Todos os coadjuvantes brilham e as falas têm o cinismo alegre que Wilder sempre exibiu. Não tem um só momento arrastado, jamais parece forçado e corre leve como espuma. Se um filme fosse champagne, este seria um Dom Perignon. Nota DEZ !!!!! É uma obra-prima.
UMA HORA COM VOCÊ de Ernst Lubistch com Maurice Chevalier, Jeanette MacDonald e Genevieve Tobin.
Não tão bom. Mas bastante amoral : o marido ama a esposa, mas a trai alegremente com sua melhor amiga. A esposa dá o troco. É um musical de opereta, bastante austríaco, e isso quase estraga o filme. Chevalier, que foi super estrela, fala com biquinho. Os franceses até hoje pagam o pato : todos pensam que falar francês é fazer bico. Chevalier fazia bico, os franceses na verdade falam soprando fumaça ( como Jean Gabin ). È um filme antigo como carruagens ou valsas. Nota 5.
UM BOM ANO de Ridley Scott com Russel Crowe e Albert Finney
Um horror !!!!! O livro de Peter Mayle ( que me fez adorar todos os seus livros. Eu lí todos eles. ), é uma alegre e saborosa ode à Provence, terra de prazeres sensoriais. O personagem, no livro, é um homem meio insípido, que d escobre o prazer na mesa provençal. No filme ele é um hiper-yuppie, hiper ambicioso, hiper-chato. O filme é uma bomba!!!!! Scott e Crowe se tornaram amigos ao fazer Gladiador. Ambos adoram a Provence e seus vinhos e comidas. Tal região merecia algo melhor. nota 2.
REGEN de Joris Ivens
A vida transcorre na Holanda. ( Amsterdã ? Rotterdã ? ). Chove na cidade. Volta o sol. O filme ( 30 minutos ) é apenas isso. A chuva caindo e gente se abrigando. Água nas telhas e nas ruas, nos rios, no chão. Mas há tanta poesia aqui que chega a comover. Ivens foi um dos criadores do cinema holandês; este pequeno filme é mitológico. Merece sua fama. Nota 9.
JUAREZ de William Dieterle com Paul Muni, Brian Aherne e Bette Davis
O roteiro é de John Huston. Eis um fato raro : o filme é sobre Juarez, libertador do México, mas ele exibe seu rival, Maximiliano, como um homem tão fascinante quanto ele. Ambos erram, ambos têm boas razões. O filme é exemplar em sua visão multi-facetada da história. Faz o que CHE não faz, olha com coragem e isenção. Nota 7.
SALOMÉ de Ken Russell com Nickolas Grace e Glenda Jackson.
Russell foi diretor famoso nos 70/80. Famoso por sua ruindade e sua pretensão. Todos os seus filmes fazem força para chocar, para serem esquisitos. Se tornam "Joãozinho Trinta". Aqui vemos Oscar Wilde assistindo em sua sala a uma apresentação de sua peça Salomé. O ator que faz Oscar está ótimo, mas o filme é lixo oitentista da pior espécie. É afetado, metido, fake luxuoso, hiper gay e muito chato. Nota Zero!!!!!!
INFERNO NO PACÍFICO de John Boorman com Lee Marvin e Toshiro Mifune.
Atenção !!!!! Este filme mostra tudo aquilo que um diretor deve saber ! Dois soldados, um americano e um japonês, estão sós numa ilha do Pacífico. Brigam por água, por comida, por tudo. Conhecem o inferno máximo e acabam se aceitando ao tentar fugir da tal ilha. O filme é só isso : sem nenhum diálogo, os dois atores grunhem, brigam, sofrem e enfrentam o mar. Boorman, diretor inglês da brilhante geração de Anderson, Richardson e Schlesinger, dá uma aula de movimento de câmera, de ação, de clima. São duas horas que nunca cansam, que emocionam. Ele faz tanto com tão pouco !!!! Quanto aos atores... repito o comentário de Pauline Kael - " Um filme cheio dos lamentos de Lee Marvin e dos grunhidos de Mifune é como algo parecido com o paraíso de todo fã de cinema. " O filme é cheio de Lee e de Toshiro. Não precisa de mais nada. Viril, belamente fotografado ( Conrad Hall ) e com boa trilha de Lalo Schifrin. Nota 9.
DISQUE M PARA MATAR de Hitchcock com Ray Milland e Grace Kelly
O mestre pega uma peça de sucesso e a filma. Simples, sem ambição. Ele precisava de um sucesso e o conseguiu. O filme é perfeito em seu tom. Milland esbanja maldade elegante, Grace está linda e assustada e a câmera de Hitch desliza pelo cenário único sem nunca nos cansar. Entramos na trama, torcemos por Ray, depois por Grace, por Ray de novo e afinal aplaudimos o mestre por sua alegre genialidade. Alfred Hitchcock, como aqui, dirigindo sem esforço, só pra relaxar, coloca 99.999999% dos outros diretores no bolso do colete. Um filme para se ver, rever e sorrir de prazer. Nos extras, belo comentário do fã M. Night Shyalaman. Nota 9.
A VERDADE NUA E CRUA de Mike Chadway com Katherine Heigl e Gerard Butler
O roteiro poderia ter sido escrito por qualquer semi-analfabeto do Arkansas ( e creio que foi ). Tudo é falso, tolo, forçado e o pior, sem graça. Esse tal de Butler é tão mal ator que chega a ser cômico seu esforço para fazer alguma expressão. Não consegue. Tudo o que consegue é posar como se um anúncio de desodorante fosse o tema do filme. Para quem se dirige esta coisa ? Com certeza para aqueles que vivem em anùncios de desodorantes e de cervejas. O filme tem o valor de um copo de cerveja quente e passada. A atriz é bonitinha mas inócua. Nota menos mil.
Entre 1990/1998 foi moda o filme de malandragem. Aquele tipo de filme que mostrava gente desonesta ( e muito charmosa ) em seu "trabalho" diário. Era um tipo de filme delicioso e este é dos primeiros ( e dos mais amargos e cruéis ). Frears, grande e irriquieto diretor, dirige com sua costumeira correção e apesar de Cusak não ser o ator ideal para o papel ( e aqui começa a amizade dos dois, que os levariam a fazer juntos " Alta Fidelidade" ) o filme sobrevive muito bem, graças ao excelente roteiro de Westlake e as perfeitas Anjelica ( um fenômeno ) e Anette ( linda e maldosa ). Diversão de alto nível. nota 7.
O GENERAL MORREU AO AMANHECER de Lewis Milestone com Gary Cooper e Madeleine Carrol.
Passado na China ( soberbo cenário labiríntico ) é uma aventura sobre americano que luta contra tirano chinês ( tirano de direita ). Impressiona o carisma do elenco conhecido, a fotografia expressionista cheia de sombras e um clima de suspense absorvente. O tipo de filme pop que justifica a existência do dvd e o resgate dos filmes dos anos 30. nota 7.
A OITAVA ESPOSA DO BARBA-AZUL de Ernst Lubistch com Gary Cooper e Claudette Colbert.
O roteiro de Billy Wilder e Charles Brackett é, talvez, o mais perfeito roteiro alegre já escrito. E quem dirige é Lubistch, o mais admirado dos diretores de comédia. O tema : na Paris da Paramount ( ou seja, é a Paris que deveria ter existido ), um americano muuuuito rico e muito ocupado, conhece numa loja, uma francesa de sangue azul, porém, falida. O pai dessa francesa é um malandro de marca maior. É lógico que os dois irão se apaixonar, é lógico que se detestarão no começo. E é lógico que o filme é maravilhoso ! Tudo funciona : Cooper está no auge do carisma, faz um americano como todo americano desde então pensa ser- bonito, esperto e educado. Claudette está belíssima e com um jeito de malicia ingênua exuberante. Todos os coadjuvantes brilham e as falas têm o cinismo alegre que Wilder sempre exibiu. Não tem um só momento arrastado, jamais parece forçado e corre leve como espuma. Se um filme fosse champagne, este seria um Dom Perignon. Nota DEZ !!!!! É uma obra-prima.
UMA HORA COM VOCÊ de Ernst Lubistch com Maurice Chevalier, Jeanette MacDonald e Genevieve Tobin.
Não tão bom. Mas bastante amoral : o marido ama a esposa, mas a trai alegremente com sua melhor amiga. A esposa dá o troco. É um musical de opereta, bastante austríaco, e isso quase estraga o filme. Chevalier, que foi super estrela, fala com biquinho. Os franceses até hoje pagam o pato : todos pensam que falar francês é fazer bico. Chevalier fazia bico, os franceses na verdade falam soprando fumaça ( como Jean Gabin ). È um filme antigo como carruagens ou valsas. Nota 5.
UM BOM ANO de Ridley Scott com Russel Crowe e Albert Finney
Um horror !!!!! O livro de Peter Mayle ( que me fez adorar todos os seus livros. Eu lí todos eles. ), é uma alegre e saborosa ode à Provence, terra de prazeres sensoriais. O personagem, no livro, é um homem meio insípido, que d escobre o prazer na mesa provençal. No filme ele é um hiper-yuppie, hiper ambicioso, hiper-chato. O filme é uma bomba!!!!! Scott e Crowe se tornaram amigos ao fazer Gladiador. Ambos adoram a Provence e seus vinhos e comidas. Tal região merecia algo melhor. nota 2.
REGEN de Joris Ivens
A vida transcorre na Holanda. ( Amsterdã ? Rotterdã ? ). Chove na cidade. Volta o sol. O filme ( 30 minutos ) é apenas isso. A chuva caindo e gente se abrigando. Água nas telhas e nas ruas, nos rios, no chão. Mas há tanta poesia aqui que chega a comover. Ivens foi um dos criadores do cinema holandês; este pequeno filme é mitológico. Merece sua fama. Nota 9.
JUAREZ de William Dieterle com Paul Muni, Brian Aherne e Bette Davis
O roteiro é de John Huston. Eis um fato raro : o filme é sobre Juarez, libertador do México, mas ele exibe seu rival, Maximiliano, como um homem tão fascinante quanto ele. Ambos erram, ambos têm boas razões. O filme é exemplar em sua visão multi-facetada da história. Faz o que CHE não faz, olha com coragem e isenção. Nota 7.
SALOMÉ de Ken Russell com Nickolas Grace e Glenda Jackson.
Russell foi diretor famoso nos 70/80. Famoso por sua ruindade e sua pretensão. Todos os seus filmes fazem força para chocar, para serem esquisitos. Se tornam "Joãozinho Trinta". Aqui vemos Oscar Wilde assistindo em sua sala a uma apresentação de sua peça Salomé. O ator que faz Oscar está ótimo, mas o filme é lixo oitentista da pior espécie. É afetado, metido, fake luxuoso, hiper gay e muito chato. Nota Zero!!!!!!
INFERNO NO PACÍFICO de John Boorman com Lee Marvin e Toshiro Mifune.
Atenção !!!!! Este filme mostra tudo aquilo que um diretor deve saber ! Dois soldados, um americano e um japonês, estão sós numa ilha do Pacífico. Brigam por água, por comida, por tudo. Conhecem o inferno máximo e acabam se aceitando ao tentar fugir da tal ilha. O filme é só isso : sem nenhum diálogo, os dois atores grunhem, brigam, sofrem e enfrentam o mar. Boorman, diretor inglês da brilhante geração de Anderson, Richardson e Schlesinger, dá uma aula de movimento de câmera, de ação, de clima. São duas horas que nunca cansam, que emocionam. Ele faz tanto com tão pouco !!!! Quanto aos atores... repito o comentário de Pauline Kael - " Um filme cheio dos lamentos de Lee Marvin e dos grunhidos de Mifune é como algo parecido com o paraíso de todo fã de cinema. " O filme é cheio de Lee e de Toshiro. Não precisa de mais nada. Viril, belamente fotografado ( Conrad Hall ) e com boa trilha de Lalo Schifrin. Nota 9.
DISQUE M PARA MATAR de Hitchcock com Ray Milland e Grace Kelly
O mestre pega uma peça de sucesso e a filma. Simples, sem ambição. Ele precisava de um sucesso e o conseguiu. O filme é perfeito em seu tom. Milland esbanja maldade elegante, Grace está linda e assustada e a câmera de Hitch desliza pelo cenário único sem nunca nos cansar. Entramos na trama, torcemos por Ray, depois por Grace, por Ray de novo e afinal aplaudimos o mestre por sua alegre genialidade. Alfred Hitchcock, como aqui, dirigindo sem esforço, só pra relaxar, coloca 99.999999% dos outros diretores no bolso do colete. Um filme para se ver, rever e sorrir de prazer. Nos extras, belo comentário do fã M. Night Shyalaman. Nota 9.
A VERDADE NUA E CRUA de Mike Chadway com Katherine Heigl e Gerard Butler
O roteiro poderia ter sido escrito por qualquer semi-analfabeto do Arkansas ( e creio que foi ). Tudo é falso, tolo, forçado e o pior, sem graça. Esse tal de Butler é tão mal ator que chega a ser cômico seu esforço para fazer alguma expressão. Não consegue. Tudo o que consegue é posar como se um anúncio de desodorante fosse o tema do filme. Para quem se dirige esta coisa ? Com certeza para aqueles que vivem em anùncios de desodorantes e de cervejas. O filme tem o valor de um copo de cerveja quente e passada. A atriz é bonitinha mas inócua. Nota menos mil.
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