O LIVRO DO PUER - JAMES HILLMAN

São conferências de Hillman reunidas em livro. Nascido em 1926, Hillman estudou com Jung nos anos 50. Professor em várias universidades americanas, falecido em 2011, Hillman levou adiante o legado do mestre suiço. Aqui temos a oposição entre Senex e Puer. Senex sendo o tipo saturno, pesado, pessimista, antigo, teimoso, construtor, e também astuto, sexual, demoníaco e pai do Olimpo. Puer, mercúrio, é o jovem eterno, irresponsável, veloz, alado, trasnformador, mentiroso, ladrão, auto destrutivo. Em nossa alma viveriam os dois tipos, tendo um predominância sobre o outro. --------------- O texto é vasto, cheio de refências, e espanta o modo como Hillman consegue ser poético sem nunca parecer raso-barateador. Ele não teme ir além. ------------------------------------------ Algumas afirmações me surpreenderam e conseguiram me convencer. Por exemplo, o fato de que todo heroi é heroi para a figura da mãe. Puer sempre, o heroi luta para dignificar a mãe. Isso me surpreendeu pois sempre vi o heroi como aquele que superou a figura da máe. Vale avisar que Hillman não advoga a complexo edipiano como fato central da psique. Para ele, apenas algumas pessoas vivem esse complexo, muitas outras tendo complexos realtivos a Marte, Vênus, Mercúrio, Hercules, Odisseu. Sim, os mitos dos deuses, todos, de toda cultura, são centrais para Hillman. Somos regidos por esses deuses e a crise de sentido de nosso tempo está ligada ao abandono de todo sentido de divino. -------------------------- A cura é a decadência. Hillman vai contra as doutrinas que pregam a paz interior, a unificação. A cura vem do conflito, da complexidade, de se ouvir as várias vozes internas. Aceitar não um Deus, mas deuses, cada um em cada recanto. O puer, para evoluir, deve apodrecer. Ficar doente fisicamente, viver sua queda. Nós não nos livramos dos complexos, eles que desistem de nós. ----------------- Ao dizer que o problema do puer é devido à mãe, a psicologia deu ao puer um complexo materno. O problema do puer não é a mãe, é a oposição senex-puer. O velho e o novo. Quando surge um complexo devemos perguntar a que deus devo sacrificar meu sintoma. ------------------- Há uma bela imagem que Hillman desenvolve: se um aborígene nos perguntasse a que servimos, o que move nossa ida à Lua, nossas cidades imensas, nossas construções, teríamos de dizer que não são os deuses, mas sim o ego asssutado pelo tédio e pelo medo da serpente, a serpente sendo o universo irracional dos deuses e da alma. ------------------- Há já ao final do livro, uma palestra onde Hillman cita E.M.Forster, o grande romancista inglês dos anos 20 e 30. Tentando diferenciar espírito de alma, Forster diz que escritores do espírito escrevem bem e constroem sentidos. Dostoievski, Tolstoi, Dickens são do espírito. Autores da alma se perdem na escrita, seus livros são cheios de digressões. O espírito não possui humor, a alma ri. O espírito é um profeta, a alma fantasia. --------------------------- Outra bela imagem deste belo livro é o contraste entre monte e vale. O espírito vive no monte, seja Olimpo, monte das Oliveiras, o Tibet. Ele vive no alto, no rarefeito, no limpo, no iluminado. A alma é do vale, do escuro, da sombra, do pântano, da névoa. O espírito é uno, a alma é multi. ---------------------- Não pergunte O Que ou Como, pergunte Quem. ------------------- Por fim, falando da Anima, Hillman fala que a alma é história, é passado, é continuidade e o espírito é o agora sem tempo. ---------------- Termino falando de uma cena histórica, crucial, que mudou o ocidente para sempre. O concelho de Niceia que em 835 criou a prioridade do espírito sobre a alma. Como? Houve um conflito entre duas fés. Um grupo pensava que as imagens eram sagradas e o outro grupo dizia que toda imagem era pagã. No concílio, os bispos e o Papa decidiram que as imagens da cruz e dos santos poderiam continuar nas igrejas, MAS elas seriam louvadas como imagens, com a consciência de serem objetos, retratos, ALEGORIAS de uma história divina. Ou seja, retirou-se da imagem seu PODER mágico. Antes, a imagem de um santo era o santo em presença. Um objeto era a morada de um poder real. Agora era somente uma obra de arte, mais nada. Foi nesse momento que a alma se retirou para o inconsciente mais profundo. Ela não mais podia ser vista, presente, diante de seus olhos, numa imagem, ou em um lugar. O espírito no alto e a alma onde? Sem saber, a igreja católica assinava alí o começo de sua dessacralização. O espírito, racional, provável, prático, vencia a alma, obscura, multipla, fantasiosa. ---------------------- O livro, este, de James Hillman, é uma obra prima.