LIÇÕES DE PROUST

Estou relendo à SOMBRA DAS RAPARIGAS EM FLOR ( odeio esse título, por que não Sob a sombra das jovens meninas? ). Escrevi em outro post que Proust é um tipo de médico de almas. Mostro aqui, em meio a tão vasta obra, dois exemplos retirados do volume acima citado. ---------- Em toda minha vida, cerca de 90% dos discos que mais amei foram decepções em sua primeira audição. Let It Bleed é o melhor exemplo, mas posso citar obras primas como Siren, Low ou Houses of The Holy, todos discos que me decepcionaram na primeira audição. Mais recentemente eu achei In The Court of Crimson King algo muito ruim, para depois da terceira audição começar a o achar fascinante. Proust explica isso. Como? -------------------- O narrador frequenta a casa dos Swann e lá ouve a dona da casa, a volúvel Odette, tocar ao piano uma obra que todos na casa adoram. O narrador se surpreende pois nada entende do que é tocado. Para ele aquilo parece uma confusão de notas sem nenhum sentido. Pois bem, ao escutar a dita peça pela segunda vez eis que o narrador entende o que acontece ( e começa aí a lição do mestre Proust ), a obra só faz sentido quando ela já vive em algum canto da memória. Ao a escutar de novo e de novo e de novo todas as notas começam a se arrumar e a fazer sentido, isso porque a memória já fez seu trabalho de as identificar e arrumar. Os trechos mais sublimes se destacam em meio a multidão de acordes e a melodia se encontra em reencontro. ----------- Então posso dizer que as músicas que amamos de primeira são aquelas que MESMO SEM TER JAMAIS SIDO ESCUTADAS NOS RECORDAM ALGO JÁ OUVIDO! E que tudo que seja novo deverá ser confortado na memória antes que possa ser entendido, ou seja, pedirá a reescuta. A primeira para deixar a música entrar na memória, e a segunda para começar a recordar e assim apreciar. ------------- Na minha atual fase, em que ouço Bruckner e Mahler, sinto na alma a verdade dessa tese. Nada entendi de nehum dos dois, e os ouvi antes de reler Proust, a música de ambos me pareceu uma orgia de fragmentos de melodia sem nenhum sentido. Mas eis que na terceira audição, ao reconhecer certos trechos, tudo se iluminou: eis a música! A beleza assombrosa dos dois surgiu inteira. Sem esforço nenhum, apenas se deixando ouvir. ------------------- A segunda lição de Proust é sobre o ciúmes. A febre do ciúmes como um desejo voluntário de esquecimento, ao sentir ciúme eu esqueço de meus problemas, da vida ao meu redor e me distraio com o objeto que me deixa febril. O fim do ciúmes é sempre o mesmo, se for vivido até seu destino terminará na indiferença. Não importa mais se ela ou ele traíam ou não, não interessa mais o que é feito, o objeto amado se torna algo sem nenhum valor. Isso porque ele jamais foi amado de fato, foi apenas perseguido como miragem. Swann, que viveu o inferno com Odette, não se importa mais em saber se ela mentia ou não, e nota que ela nem mesmo era seu tipo de mulher. Sim, ele se casa com ela, e é provável que ela o traia, mas isso pouco lhe importa agora. Ele a trai também e em todas essas traições há a verdade da ausência de amor real. O desejo almeja a posse e o ciúme é a posse impossível, o desejar possuir completamente. O amor é o conhecer autêntico. ------------- Todas essas lições em apenas 20 páginas de Proust.