GUSTAV MAHLER, O FILME DE KEN RUSSEL E A SINFONIA NÚMERO 9

É quase um milagre. O final da Sinfonia número nove de Mahler. Escrita em momento terrível, Mahler brigado com a Sinfônica de New York, a saúde muito fragilizada, ele adivinhou ou intuiu que aquela seria sua última obra. São mais de 80 minutos de despedida, de dor, de luta e de absoluta e tétrica beleza. O final desta obra prima, quase silencioso, arrasa sua alma e ao mesmo tempo te dá nova força. Por isso, um milagre. -------------------------- Aviso: se voce tem dificuldade para ouvir Brahms esqueça Mahler, ele exige ainda mais atenção. O modo como Mahler faz música é nada simples. Melodias são criadas como se fossem independentes, e então misturadas. São várias "músicas" executadas como se ao mesmo tempo, o risco de caos é imenso, mas, ninguém sabe como, Mahler harmonizava e fazia dar certo. Para quem tem dificuldades com música erudita, Mahler é torturante. A sensação é de falta de melodia, de bagunça, de música que ameaça nascer e não nasce. Na verdade há muita melodia, tudo organizado e as músicas nascem e morrem o tempo todo, sem parar. Mahler queria criar a música da Terra e por isso suas sinfonias são assim: como passear pela Terra e ver tudo: passado, futuro, animais, tempestades, mares, tragédias, mortes, nascimentos. É a mais universal das músicas e a mais terrestre entre todas. ---------------- Estranho destino teve Mahler! Ficou rico e famoso mas não como ele queria. Seu desejo era ser um grande compositor, mas sua fortuna foi como maestro. Foi um superstar no tempo em que maestros eram superstar ( entre 1880-1910 ). Regeu em New York por uma fortuna e até hoje é considerado o maior maestro da história. Mas...enquanto vivo, suas composições eram tratadas como "mera curiosidade de um grande maestro que insiste em compor". Morto ainda no auge, longe da velhice, por problemas crônicos de coração, foi chorado como maestro e apenas como tal. E então algo aconteceu... a partir da década de 1960, lentamente, primeiro apenas entre os mais cult, Mahler começou a ser descoberto como compositor e então na década de 1980 veio a virada, Mahler passou a ser visto como um dos cinco maiores músicos da história, um igual a Wagner, Bach ou Beethoven. Desde então sua fama só cresceu. Em 2026 ele é, após Beethoven, o autor mais tocado em salas de concerto. Mesmo sendo tão dificil e exigindo orquestras imensas. ------------------ Mahler fez a ponte entre a música do século XIX, a de Beethoven, Brahms e Wagner, e a do século XX, a de Debussy e Stravinsky. Ele era romântico como Liszt e moderno como Ravel. Demorou muito para eu o entender, várias vezes o escutei sem entender, sem entrar em seu universo. O filme de Ken Russel, feito em 1974, ajudo. -------------------- Tentei ver esse filme anos atrás e detestei, parei em 20 minutos. Agora fui em frente e ele me tocou. Tem um dos finais mais tristes da história e a música é sublime. O filme nos faz entender a música de Mahler e isso não é pouco. Do meio para o fim ele cresce muito e algumas cenas são memoráveis. Claro, há o velho exagero cafona de Ken Russel, a cena com a nazista é grotesca, mas é um filme belo, digno do artista. Mahler, egocêntrico, revela no final quem ele de fato foi e isso nos toca. Alma, sua esposa, finalmente entende o marido e nós sentimos o que ela sente. --------------------------- Que houve naquele canto da Europa entre 1880-1910? Entre Munique e Vienna, Praga e Budapeste? Wittgeinstein e Kafka, Musil e Klimt, Mahler e Freud, Bartok e Mann. Seria o Danúbio? A mistura de línguas? A cultura judaica colocada ao lado dos ciganos e germanos? Ninguém sabe. ----------------- O CD que ouço traz Claudio Abbado em 1999 regendo a Filarmonica de Berlin. Abbado havia quase morrido em infarto e voltava ao trabalho. O CD, gravado ao vivo, traz os aplausos finais. Gravaram dois minutos onde se escutam vários Bravo! e muitas palmas. Leio que duraram 12 minutos. 12 minutos de aplausos. A gravação é sublime.