A RAINHA DA NEVE- MICHAEL CUNNINGHAM

   São quatro personagens centrais vivendo num subúrbio de NY. Um músico que cheira coca e tenta compor a canção de sua vida. A mulher desse músico, que está morrendo de câncer. A sócia dessa doente, dona de uma loja cool, cinquentona que namora garotos bonitos e burros. E o irmão gay do músico, um fracassado que acabou de levar mais um pé na bunda via celular. Ele anda pelo Central Park e percebe algo no céu.
  O autor recebeu o Pulitzer por As Horas, o livro que foi destruído naquele filme que fez sucesso em 2000. A arquitetura deste seu novo livro é parecida: cenas curtas com personagens que se conectam. Morte, dor, redenção, epifania. Cunningham não tem uma escrita fria. Ele é gentil. Uma escrita gentil é o tipo da coisa que nunca pensei escrever. Os diálogos, muitos, são simples. Ninguém fala nada de brilhante, mas no conjunto dá pra perceber a humanidade por entre as falas. As pessoas são frágeis.
  No final é uma história sobre a amizade de dois irmãos. A relação deles é a mais forte e a única que dura. Quanto a tal visão no céu....ela fica sem explicação, é como deve ser. O livro passa perto da epifania, mas a recusa. Se há um milagre não cabe a nós o compreender, apenas usufruímos. E nem mesmo saberemos para que ele serviu, se é que existiu.
  Curto e simples, Cunningham consegue falar de coisas muito tristes de um modo leve.
  É isso.

FRANÇA

   Em 1975 minha família foi pela primeira vez à França. Lembro das cores do céu e do vento em Orly. Mas agora quero falar do era o aeroporto de então. Descemos do avião e fomos entrando no país. Um civil deu uma rápida olhada em nossos passaportes e passamos. Ninguém abriu nossa bagagem de mão, meu pai poderia ter uma bazuca ou meio quilo de pó, ninguém perceberia. Em todo o aeroporto, e minha mãe confirma que foi assim até recentemente, não se via um só policial. E assim foi por toda a Europa ocidental. Apenas na Espanha, ao entrar em San Sebastian, dois policiais olharam nossa cara e pediram para entrar.
  A pá de cal sobre esse mundo foi jogada ontem. Você meu jovem, que só conhece esse estranho mundo de câmeras, vigias, portões e grades, irá ter de se acostumar a mais vigilância. Os loucos das sombras querem nos fazer ovelhas assustadas, Faz tempo que conseguiram.
  Minha indignação é impossível de ser expressa. Estamos numa guerra contra as sombras que dura décadas. Mas os tolos relativistas colocam vendas de sofismo sobre nossos olhos. O mal está firme e unido, nós divididos e paralisados.
  Meu mundo nasceu com a dúvida de Sócrates. Depois recebeu o direito romano e a caritas cristã. Essa a trindade do ocidente que querem destruir. E sinto que conseguiram. A França não mais é A França. Ela perdeu.
Todos perdemos.

O ORANGOTANGO

No rosto daquele orangotango toda acusação estampada numa cara de desamparo.
E o desamparo do irracional é o pior de todos porque ele acusa sem racionalizar, fala sem mentir, diz em todos os símbolos: Vocês me traíram.
O orangotango, notícia da UOL que vejo e me comovo, foi espancado, ele e seu filho, até o desespero.
E como um Cristo ele nos faz murmurar: Minha culpa, minha máxima culpa.
Se Deus há ele nos fez jardineiros. Se diabo há ele nos dá uma serra.
Mas o orangotango, que não é divino e menos ainda diabólico, alheio a história e ao tempo, sofre sozinho agarrado a seu filho. E nem mesmo uma acusação ele pode formular.
Nem xingar ele pode!
Mas eu posso! Posso amar esse ser infeliz e chorar com ele o destino sem caminho.
E em nossa comunhão se refaz uma peça do tabuleiro sem lugar.
Eu falo por você, sem voz.
mesmo que não seja ouvido...

DWAYNE- BILL CONDON- PETER BOGDANOVICH-WIM WENDERS- GUY RITCHIE- LAWRENCE- GUERRA

   UM AMOR A CADA ESQUINA de Peter Bogdanovich com Imogen Poots, Owen Wilson, Jennifer Aniston, Rhys Ifans, Will Forte, Cybill Shepard.
A produção é de Wes Anderson e de Noah Baumbach. Tem participação, como ator, de Tarantino. Ou seja, a nata do cinema de 2015 dando uma força para Peter, o grande diretor revelação de 1971 com A Última Sessão de Cinema. E que depois fez algumas excelentes comédias doidas, como aquelas que se faziam nos anos 30. Mas aqui nada funciona. É triste ver os atores se esforçando ao máximo para dar vida a personagens tão fake. Na comédia doida tudo é fantasia, tudo é exagerado, mas havia nelas uma inteligência, nas falas, que tornava tudo "verdadeiro". Pelo exagero se chegava à verdade final das relações. Aqui as pessoas são apenas loucas. Elas correm, gritam, mentem, fogem, voltam, e fazem com que nos sintamos indiferentes. Não chegam a ser antipáticos, são apenas chatos. Penso que deveríamos achar Imogen fofa. Ela é apenas bobinha. Owen deveria ser charmoso. É apenas oco. E a pobre Jennifer deveria ser divertida. É apenas sem peso. Triste ver um filme que pensa ser chique, leve, amoral, cínico, ser apenas infantil, truncado, espertinho e ingênuo. Um fiasco! ( Atenção a Imogen. Ela será uma estrela ).
   A ESTRADA 47 de Vicente Ferraz com Daniel de Oliveira
Bom tema: o brasileiro na guerra de Hitler. Penso que Ferraz tentou construir um clima à Kurosawa. A estética a serviço do absurdo. A guerra vista como confusão, medo, dor e niilismo completo. Mas falta muito para se chegar perto do mestre japonês ( ou de Naruse ), o filme não nos envolve. Histeria e frio que nunca vira narração.
   LADY CHATTERLEY'S LOVER de Jed Mercúrio com Holliday Grainger e Richard Madden.
Filme da BBC que foi exibido em setembro de 2015. Os filmes de TV da BBC nada mudaram. A Globo os exibia nos anos 70. Eram bem interpretados, solenes, adaptações de livros escritos no período vitoriano ou eduardiano. A única mudança foi nas cores dos sets: antes eram marrons e dourados, agora abusam do azul pálido e do cinza. Continuam sendo filmes bem feitos e meio mortos. Sem fibra e sem paixão. A antítese dos filmes de Boorman, Loach, Anderson, Schlesinger ou Losey.
   EVERYTHING WILL BE FINE de Wim Wenders com James Franco, Charlotte Gainsbourg, Rachel McAdams
Os primeiros dez minutos são ótimos. Neve e mais neve no Canadá do norte. Um homem atropela uma criança. Ele é escritor e é casado. E daí vem a crise... De admirável o fato de termos um filme "de arte" que não apela para sexo explícito, cenas de violência chocante ou um discurso calcado na velha ladainha de raiva adolescente. É adulto, lento, pausado, com imagens fortes, bem pensadas e nunca gratuitas. Mas é também insuportavelmente lento, escuro, triste e sussurrado. Não se pode dizer que não deu certo, ele é exatamente aquilo que Wenders imaginou.
   TERREMOTO, A FALHA DE SAN ANDREAS de Brad Peyton com Dwayne Johnson, Carla Gugino,  Ioan Gruffud e Paul Giamatti.
É bom poder dizer que este Terremoto é muito melhor que aquele de 1974. Não é uma refilmagem, mas tem o mesmo tema. Aqui os efeitos são ótimos, a ação vem na hora certa, nunca como única meta, mas sim como consequência, e ficamos muito satisfeitos com a diversão que ele nos dá. Sim, somos uma geração que se diverte vendo o fim do mundo...Quem sabe não sejamos no fundo uma geração descrente do mundo sólido e das cidades como centro da vida....Relaxe, enjoy!
   MR. HOLMES de Bill Condon com Ian McKellen, Laura Linney.
Já falei deste filme abaixo. Holmes está senil e luta para recordar a resolução de um crime de 30 anos atrás. Enquanto isso faz amizade com um menino e cria abelhas. Um bom filme com atuações ótimas. O final é bastante memorável.
  O AGENTE DA UNCLE de Guy Ritchie com Henry Cavill, Armie Hammer e Alicia Vikander.
Esperto, chique, divertido e charmoso. Tudo que imaginamos ter sido viver entre 1958-1965. Essa foi a época dos mais luxuosos filme. E foi o tempo do bom gosto. O filme tenta copiar esse tempo. E consegue! Os atores são bacanas, a trilha sonora imita Schiffrin e Barry, e Guy até diminui sua velocidade. Tipo do filme que te deixa de boas e faz com que você se sinta mais civilizado.

MATEMÁTICA DAS ESFERAS ( O BILHETE PARA MIM MESMO )

Noticiado hoje que um físico brasileiro começa a provar que o Universo tem uma arrumação sincrônica. Que há uma lógica nele. O Universo seria mais matemático do que pensamos.
Pitágoras sempre esteve certo. A matemática é Deus e a música sua linguagem. E se seguirmos Pitágoras ainda mais longe não nos esqueçamos que em seu tempo ele teve a então original ideia da transmigração das almas.
Na escola em que trabalho dentre outros tenho um amigo bonachão chamado William. Ele é professor e tem um cargo de direção numa outra escola, escola onde estudei de 1972 até 1978. Depois de um ano de amizade tive de súbito a ideia de lhe pedir os documentos que ainda restassem de minha passagem pela dita escola. Após semanas do pedido feito ele me trouxe um envelope grande.
O que eu queria era uma assinatura de matrícula de minha mãe, uma foto, talvez minhas notas. Lembranças e rastros. Ele me trouxe tudo isso, mas trouxe mais. William jogou diante de mim o objeto mais terrível de minha vida.
Em 1978 eu fui feliz. Muito feliz. A confiança no alto. Amigos. Uma menina japonesa. Mas em outubro a professora de português nos propôs uma redação. Tema livre. Lembro muito bem do dia. Estava úmido e frio. Fim de tarde escura. De repente eu me senti de volta a 1977, o ano em que fugi de casa, em que vivi isolado entre livros ( já de volta ao meu lar ). O ano em que descobri Bronte, Dostoievski, Kafka, Dickens. E escrevi uma redação raivosa. Sobre prisão, morte e escuridão.
Quando a professora devolveu as redações a minha não foi devolvida. Todos começaram a achar que ela tinha jogado a minha fora, afinal eu era um dos piores alunos da sala. Mas não. Ela foi diante da sala e disse que eu escrevera "uma obra de arte", que ela lera meu texto para toda a direção e que eles resolveram me eleger o representante da escola nas "Olimpíadas de Português de 1978".
A melhor aluna da classe não se conformou. Ela tirara 10 em gramática e 8 na redação; eu tinha 5 em gramática e fizera a tal redação. Fiquei envergonhado. Não queria ser elogiado, não queria ir a olimpíada nenhuma, não queria ter escrito aquela droga....
Fui à olimpíada e fui mal. E essa redação mudou minha vida. Se tornou uma lembrança de minha sina de "artista"...Eu detestava sempre e continuei tendo sérias dificuldades com artistas, artes, intelectuais, nerds, e professores.
Pois bem, agora em outubro de 2015, 37 anos depois, no meio dos documentos, lá está ela, a maldita redação. O documento de minha "sombra". Explodo de alegria. Abraço William. Não acredito no que vejo. Ali está: minha letra de 1978, letra de forma, eu escrevia em letra de forma grande e angulosa, o papel onde escrevi, minha tinta de caneta, meu nome, minha sala ( 8-B ), minha assinatura. E o texto...Que não li até agora.
Isso é uma sincronia. Isso é um milagre. O eterno retorno.
Isso é realidade.

OS GUINLE. A HISTÓRIA DE UMA DINASTIA. CLÓVIS BULCÃO.

   Uma família francesa imigra no meio do século XIX para o Uruguai. Fogem de lá quando uma revolução acontece, o Rio é seu destino. Lá se faz um armarinho no centro e desse comércio vem o progresso. A história é fascinante.
  O patriarca diversifica os negócios e nessa caminhada a família molda a cidade do Rio de Janeiro. O Parque Guinle, a avenida Rio Branco, Copacabana, Teresópolis, todos esses lugares foram descobertos, desenvolvidos, batizados pelos Guinle. Cada filho do patriarca indo para uma direção.
  A base da fortuna veio do Porto de Santos. Foi o primeiro Guinle, Eduardo, o homem que tocou a reforma do porto e da cidade de Santos. O lugar, apenas lodo e lixo, foi urbanizado, limpo, desenvolvido pela família. Em troca, 20% de todo o dinheiro movimentado no local seria da família. Durante 90 anos! Essa a garantia, o lastro da fortuna. Daí nasceram o Banco Boavista, o Jockey Club da Lagoa ( lugar sem valor que os Guinle valorizaram ), a Granja Comary em Teresópolis, o Estádio do Fluminense, nas Laranjeiras, o Copacabana Palace, na praia deserta de então, a PUC do Rio, e ainda hospitais, edifícios no centro do Rio e em Santos, mansões em Paris, São Paulo, Petrópolis. Os Guinle deram à capital do Brasil seu caráter chique, fino, enchendo as avenidas de construções de refinado gosto. Gosto que era reflexo da educação em casa. A família presava jantares longos, pratas e cristais, luvas brancas, roupas para a noite e roupas para o dia.
  Aconteceram erros também. Um dos irmãos faliu construindo uma mansão. Ela hoje é a sede do governo do Rio. Feita com materiais importados ( até o cimento vinha da Inglaterra ), ela consumiu toda a herança de um dos sete filhos da primeira geração. Outro erro foi a briga com a Light. Os Guinle tiveram a ideia de iluminar, levar luz a todo o estado do Rio. Mas trombou de frente com o grupo do Canadá. Usinas hidrelétricas, redes de captação, tudo foi perdido. Mas de qualquer modo se manteve a rede da Bahia.
  Culturalmente foram os filhos que ajudaram a transformar o futebol em moda ( um deles foi presidente do Fluminense e trouxe o Sul-Americano de 1919 para as Laranjeiras, primeiro título da seleção e febre no país desde então ). Patrocinaram Pixinguinha, Villa-Lobos, e transformaram o carnaval naquilo que ele é hoje: a grande atração turística do país. A marca da família se faz presente em coisas, costumes que ainda hoje prosseguem, fizeram a corrida automobilística que lançou as bases do amor brasileiro aos carros ( Circuito da Gávea ), construíram a primeira rodovia moderna do país ( a Rio- Teresópolis ), e com o Copa colocaram a hotelaria nacional no primeiro mundo. ( Eram 3 funcionários para cada cliente ).
  O mais fascinante é ler sobre seu cotidiano. O apartamento tríplex com 12 quartos de empregados, a mansão em Higienópolis com serraria e casas de reparos, o palácio em Botafogo, as 3 horas gastas toda manhã para se vestir ( com a ajuda de um valet ).
  O Brasil possuiu no começo do século XX famílias como os Matarazzo, os Marinho, os Prado. Mas nenhuma foi tão observada, invejada e nenhuma teve tanto acesso ao poder, fosse Nilo Peçanha, fosse Getúlio. Quando a capital foi para Brasilia eles não entenderam que o Brasil mudava. O regime militar via a família com rancor, como algo antigo, aristocrático, incômodo. Logo perderam Santos, o banco Boavista, terrenos, casas. Um tempo se ia. Melhor ou pior, impossível saber.
  Incrível perceber como alguém tipo Eike Batista tentou repetir os mesmos passos. Intervir na cidade, negociar com o governo. A diferença maior, entre tantas, é o tempo. O império dos Guinle durou exatos 90 anos. Eike mal chegou a 9.

MR. HOLMES, UM FILME DE BILL CONDON

   Tenha na mente que Conan Doyle era espírita. E assim você poderá entender o porque deste filme.
   Sherlock Holmes, rei da lógica, frio, vaidoso, cético, está aqui com 93 anos. É tempo da segunda-guerra. É no campo. Ele vive isolado com uma governanta e o filho desta. Ele está velho e seu corpo começa a vacilar. Perde a memória. O menino se apega a ele e juntos eles cuidam de um apiário. Ao mesmo tempo, Holmes tenta recordar um caso que ele deixou pelo meio, sem solução.
  O filme até então parece bonito, só que meio vazio. Tudo parece sem rumo, vago. Mas há uma reviravolta, que não devo contar, e em seguida mais uma, que muda tudo ao seu redor. A morte surge, e com ela a dúvida, a insegurança e finalmente a humanização de Holmes.
  Os atores, Ian McKellen, Laura Linney, são ótimos, e o menino rouba o filme. Nada há de bonitinho aqui, nada de doce, é apenas a vida "normal". A não ser em sua última cena.
  Holmes junta pedras e na beira do mar ergue os braços aos céus. A lógica é derrotada e ao afundar na dúvida Sherlock Holmes perde toda a segurança e se torna um outro. Conan Doyle é a alma por detrás de Holmes e quem é a alma de Doyle só ele poderia dizer.
  O filme se afirma então. Fazia muito que não se fazia tão clara mensagem sobre a descoberta. Pequeno e humilde filme. Deve-se ver.

O AGENTE DA UNCLE- GUY RITCHIE ACERTA MAIS UMA

   Este filme funciona muito bem porque retrata de um modo não caricato, de um modo confiante, o mais cool dos períodos históricos, aquele entre 1959-1965. O tempo da guerra fria e do medo da bomba, mas também o tempo de Dior, St.Laurent, BB e do cool jazz.
   O AGENTE DA UNCLE foi uma série inglesa que meu pai adorava. Lembro muito vagamente da TV ligada à noite, eu brincando no tapete e os adultos assistindo aquela coisa barulhenta e que eu já percebia ser muito cool e muito sexy ( eu juro que aos 6 anos eu sentia as vibrações daquele momento especial ). A série fez enorme sucesso e depois virou cult. Robert Vaughn e seu personagem Napoleon Solo se tornaram nomes tão icônicos daquele tempo como James Bond ou Inspetor Clouseau. E havia ainda David McCallun no papel de Ilya, o russo do bem ( mais ou menos do bem ).
  As pessoas compram a ideia de que a TV está agora em seu auge. A TV SEMPRE vende a ideia de estar em seu auge. Ela se vende, isso é normal. No tempo de UNCLE havia Missão Impossível e Star Trek, A Feiticeira e Hawaii 5.0...nada mal. Besteira também dizer que o cinema pega hoje atores da TV. Em 1964 Clint Eastwood era um ator de TV e só da TV. Well....
  Guy Ritchie é um bom diretor. Ele tem senso visual, ritmo, e aqui ele consegue ir mais devagar, quase no ritmo de 1964. O filme não é só ação, aliás seus melhores momentos são todos em diálogos. E surpreendentemente os jovens atores se saem muito bem. São bonitos sem parecer bonecos e sabem ser elegantes sem parecer meninos usando as roupas dos pais. O filme tem ainda uma boa trilha sonora que usa despudoradamente os climas que John Barry, Lalo Schiffrin e Qincy Jones punham nas cenas de então. Mas o melhor é mesmo o visual, a doce beleza moderna das roupas, a alegria suave dos objetos, a ousadia otimista dos cenários. Vemos de novo a Roma rica de Fellini e a Berlin cinza dos filmes de espionagem. A diversão se garante. É um filme para a geração que ama MAD MEN e 007.
  Existem falhas, e como em todos os filmes de Ritchie, há uma momento em que o excesso de exuberância cansa. Mas a coisa anda e na verdade já estamos ganhos faz muito.
  Guy é o cara.

Steely Dan - Peg - 10-17-15 Beacon Theater, NYC



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LINGUÍSTICA E MÚSICA: STEELY DAN.

   Aprendemos na linguística que com a educação, feita desde o nascimento, de nossa audição, adquirimos a habilidade de perceber certos sons, em nossa língua-mãe, que estrangeiros, nascidos e educados em outro ambiente, não percebem. Desse modo, um brasileiro tem dificuldade em perceber a diferença falada entre "night" e "Knight". Um inglês consegue escutar esse "K", nós não o notamos. Do mesmo modo, a trema de uma palavra alemã, a diferença entre "U" e o "i" em francês ou os sons nasais do japonês podem nos ser inaudíveis. E eles não conseguem escutar o nosso "til" com clareza. Ouvem um simples "n".
  Música é a mesma coisa e por isso um músico profissional sempre parece a nós, leigos, um chato. Ele foi educado a ouvir sons que nos passam despercebidos. Mesmo assim, um leigo como eu, pode ser melhorado se escutar certas músicas de complexa construção. O Steely Dan faz isso por nós.
  Percebo que meus alunos, não todos, educados no som chapado do sertanejo e do funk, têm perdido a capacidade de distinguir os vários sons e ritmos que formam a música mais rica. Sentem a batida geral, mas não procuram instintivamente o som da bateria ou do baixo. Muito menos percebem os vários timbres que existem numa bateria. Minha geração, por mais que o rádio nos desse a riqueza sonora de Stevie Wonder ou de Marvin Gaye, tinha também suas massas deseducadoras: Kiss, Foreigner ou Roberto Carlos. Entenda, eu adoro sons chapados como os do MC5 ou Motorhead, mas é preciso ouvir mais, muito mais, inclusive para entender melhor MC5 e Motorhead.
   Numa canção como Peg ou King of The World há tanto ritmo diferente e tanta sutileza que a educação se faz completa. A bateria em Peg tem quebras de andamento, toques sublimes nos pratos, uma caixa que parece atravessada. Em King of The World o solo de guitarra final é cheio de notas que se reproduzem ao infinito enquanto o contrabaixo evolui como uma cascata de notas blue. E há muito mais, muito mais.
  Um LP como Countdown to Ecstasy serve como um mestrado em beat, em harmonia e em composição. Por detrás da aparente inofensividade de um pop bem gravado há a ferocidade genial de um ouvido que escuta tudo e escuta bem. É o POP sublime.
  E você pode perguntar: Para que serve educação. E eu respondo: Para dar ainda mais prazer dentro daquilo que você já conhece. E para te abrir caminho para novos conhecimentos. O Steely Dan, Donald Fagen-Walter Becker, são dupla de eruditos. São de se reverenciar.

Donald Fagen - New Frontier (Video)



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GOETHE FOI COMPLETAMENTE DERROTADO

   Fausto faz uma aposta com Mefistófeles: Ele jamais irá se sentir satisfeito, e se isso ocorrer, sua alma estará salva. Mefistófeles lhe dará conhecimento, prazeres, e mesmo assim, Fausto promete, continuará insatisfeito. Se isso for mantido, o diabo irá perder. No final da peça não sabemos quem venceu. Jakobson, Benjamin, Arendt, nenhum deles conseguiu descobrir o vencedor. Mas não é sobre isso que desejo falar. Vamos adiante.
  Goethe considerava três os sofrimentos do inferno: o Materialismo, a super valorização do Sexo em detrimento do Amor, e a Pressa. No inferno as pessoas teriam a certeza de que o Presente é tudo o que existe, que o Homem é uma máquina de carne e sangue e que a vida consiste na satisfação da matéria. Sexo seria a única forma de Amor. E tudo seria feito com cada vez mais pressa. Amizades, viagens, nascimento e morte, tudo regido pelo tempo do relógio. O tic tac como eco da vida.
  Não é preciso dizer a vocês que nosso mundo é o retrato do inferno que Goethe intuiu em 1790. Ele tinha horror ao materialismo, para ele, desprovido de mistério, de fantasia, a vida perdia seu valor. Assim como o sexo visto como fim mataria o amor. Quanta a pressa, ela seria consequência do materialismo: se somos máquinas viver bem e ser melhor significa funcionar mais rapidamente.
  Converso com o professor e digo que se pode imaginar Shakespeare sentindo um certo fascínio pelo nosso mundo. Assim como Byron ficaria horrorizado e intrigado pela nossa civilização proteica. Mas Goethe não. É impossível imaginar Goethe em NY ou Tokyo. Seria para ele o puro horror. Ele seria como um ser de outro planeta, de outra galáxia, impossível de ser entendido e de entender.
  Fausto é o mais útil dos livros exatamente por isso. Ele diagnostica o mal antes de seus sintomas mais nítidos. Ele mostra a luta interna que vivemos agora: um mundo mefistofélico que nos é dado de herança, e no qual, cada vez menos fausticos, temos de lidar.
  Tentamos vencer a aposta. Tentamos não sentir a plena satisfação dentro dessa apequenação. Tentamos crer que Isto Não É Tudo. E intuímos que esse é o único modo de vencer Mefisto.
  PS: Vale ainda dizer que Fausto é a obra mais homenageada do mundo. Falas são usadas em Machado de Assis ( que o amava ), Dostoievski, Philip Roth, Joyce. E o livro é usado como molde em obras de Fernando Pessoa ( Fausto ), Thomas Mann ( Dr Fausto ), Sanguinetti, Bulghakov, e Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, e mais um infinidade de autores do mundo inteiro.
  Há Fausto em filmes noir, westerns, Bergman, Fellini, Visconti, Wenders, Woody Allen....nos seus melhores filmes.
  Fausto continua resistindo. Um dia irá vencer...ou desaparecer tentando....

O MATADOR- VIN DIESEL- JASON STATHAM- WINTERBOTTON- STEVE COOGAN- PERCY JACKSON- TED- BBC

   A ESPIÃ QUE SABIA DE MENOS de Paul Feig com Melissa McCarthy, Jude Law e Jason Statham.
Uma sátira aos filmes de James Bond. Melissa faz uma gorducha apaixonada por Law que é um super agente. Quando ele morre, ela toma seu lugar. O filme é engraçado e chato. Depende da cena. Eu morri de rir com a primeira e a segunda cena de Jason Statham. Ele faz uma gozação com seus papéis habituais. Por outro lado temos algumas cenas que nos desligam. Mas no geral o filme é divertido. Melissa é uma comediante ok. E Law sabe rir de si-mesmo. Nota 6.
   AN INSPECTOR CALLS de Ainsling Walsh com David Thewlis, Miranda Richardson e Ken Stott
Um filme para a Tv da BBC. Adaptação da segunda peça mais vista do teatro inglês, um texto de JB Priestley de 1930. Tem a velha competência da emissora estatal. Boa fotografia, bons atores e um clima de cliché vitoriano. Um Downtown Abbey de suspense. Mas eu achei o texto deplorável, inverossímil e pobre. E pior, a reviravolta final é completamente boring. Como denuncia da classe alta britânica é óbvio, como suspense é previsível. Nota 3.
   VELOZES E FURIOSOS 7 de Jason Ling com Vin Diesel, Paul Walker, Dwayne Johnson, Jason Statham e Michelle Rodriguez.
Em 2000 foi feito o primeiro filme. Uma modesta diversão estrelada por Paul Walker. O filme, que é simples e muito bom, fez um sucesso inesperado e lançou Vin Diesel ao estrelato. O ator musculoso não conseguiu aproveitar a onda de sucesso e acabou ficando restrito à franquia. Mesmo assim ele é um cara de muita sorte. Porque como ator ele é possivelmente o pior que já vi. Dwayne Johnson a seu lado fica com o porte de Marlon Brando e Paul Walker parece Steve McQueen. A série varia entre filmes bons ( o primeiro e o quarto ) e alguns muito chatos ( o quinto e sexto ). Sempre que tentam complicar a coisa cai. Os filmes são melhores quando se concentram nos carros. Aqui há uma cena numa floresta que é maravilhosa! Ação absurda e bem feita. Mas toda a trama parece ter sido escrita por um garoto de 10 anos. Bêbado. Nada faz sentido. De qualquer modo, se você ignorar as mãos penduradas de Diesel ( ele nunca sabe o que fazer com elas ), o rosto sem expressão de Diesel e sua voz inexpressiva ( além da desastrosa Michelle, uma atriz inexplicável ), você pode se divertir. Pena Dwayne e Jason não aparecerem mais.... Nota 4
    TED 2 de Seth McFarlane com Mark Whalberg, Amanda Seyfried, Morgan Freeman
O que houve com Seth...Ele leva Ted a sério! E quase mata o personagem. Ted, o primeiro, era um filme legal por ser anárquico. Ele ria do politicamente correto e pouco se lixava para as consequências. Aqui Ted é quase bonzinho!!!! Ele vai a julgamento para provar ser um humano. E poder se casar. Ou seja, ele luta para ser aceito. Ted deixa de ser Ted. O filme não está nem perto da graça do primeiro. Tem menos sexo, menos palavrões e as drogas aparecem como brincadeirinha de crianças. Eu amava Ted, aqui ele quase destrói isso. Esqueça. Nota 2.
   PERCY JACKSON E O LADRÃO DE RAIOS de Chris Columbus com Pierce Brosnam, Catherine Keener, Sean Bean, Steve Coogan, Rosario Dawson...
Mitologia para crianças. Ok, vamos ver o que os moleques andam vendo...E carcaça! Deve ser maravilhoso ter 12 anos e ir ao cinema hoje! Quero dizer que eu, aos 12 anos, adoraria um filme como este!!!! Eu ia delirar com a magia, a ação e a viagem e ele se tornaria um filme de saudade quando eu tivesse 50. Mas visto na minha idade...não dá. A mitologia grega é reduzida a uma espécie de "monstrinhos fofos da Disney", a ação é banal e acabei me distraindo de tudo aquilo. Vi o filme a 6 dias e já não me lembro de sua trama. Ao contrário de alguns ótimos filmes juvenis que andei vendo, este não consegue envolver um adulto. Pena. Nota 2.
   UMA VIAGEM PARA A ITÁLIA de Michael Winterbottom com Steve Coogan e Rob Brydon
Um amigo inglês, jornalista, convida um ator de TV para viajar com ele pela Itália. O filme é apenas isso. Os dois viajando pelo país e conversando muito e muito e muito. Felizmente a conversa é ótima! O diretor não enfeita nada, a ação é a conversa, a paisagem correndo ao lado do carro e os restaurantes e hotéis onde eles ficam. Os dois atores interpretam eles mesmos ( na verdade os personagens são Rob e Steve ). Algumas cenas são hilárias. Rob imita Hugh Grant, Jude Law e Michael Caine à perfeição. Morri de rir! O filme é todo assim, leve e bem humorado. Eles falam de coisas sérias: idade, tempo, fama, mas sempre com alegria, cinismo ou até anarquia. Um filme muito gostoso de se ver. Nota 7.
   O MATADOR de Henry King com Gregory Peck, Millard Mitchell e Helen Westcott.
Falei desse filme num texto abaixo. É uma obra-prima. Fala de um matador cansado, alguém que procura ser esquecido. No processo ele não consegue escapar de sua fama. Henry King começou no cinema mudo, fez algumas obras primas e continuou sua carreira até os anos 50, sendo sempre o diretor classe A da Fox. Peck raramente esteve tão bem. Com meia dúzia de olhares e o timbre da voz ele nos comove. É um filme raro, seco, simples, duro e bastante pessimista. Tem de ver! DEZ!!!!!!!!
 

Pablo Picasso HD Interview with The Father of Modern Art



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PRA PABLO

   "Tudo aquilo que conseguimos imaginar é real".
   Pablo é o antídoto para Schoppenhauer, para o pessimismo. Ele é vital.
   Pablo é solar. Ele vivia ao sol, torso nú, criando. Pegava pedra e fazia bicho. Pegava lixo e criava sonho. Mas tudo em Pablo é real. Nada nele parece etéreo. A criação mais absurda é de verdade. Tem peso. Pablo ama o peso, a solidez, a dureza do toque.
   Seu sexo é aquele do fauno. Meio deus e meio besta. Deitado ao sol, pelado, ele exala desejo. Ama a carne. O cheiro. É um touro.
   Nenhum artista é mais carnal que Pablo. E nenhum outro mergulhou mais fundo no onírico explícito. Ele viu que o sonho está no aparente. Aquilo que vemos é surreal. Ele pescava absurdos no comum.
   Pablo era também cruel, duro, egoísta, vaidoso, isolado e sedento de elogios. Vingativo. Ele era ruim. Maldoso como todo criador é. Criar é um ato de vingança contra o comum, o ordinário, o tédio, o banal. O objetivo pode ser bom, mas a energia é aquela do mal.
  Ninguém viveu tanto como Pablo.

FAUSTO, NOSSO PECADO, NOSSO DESTINO, NOSSO PLANETA.

   Chegamos então, neste curso de brilho, nessas aulas inesquecíveis, a Fausto. Nossa mais alta montanha. E nossa radiografia. Maldição. Querer saber tudo. Se meter em tudo. Desejar possuir o saber sobre todas as coisas. Ver tudo. O pecado da Curiosidade.
   Deus nos proibiu o saber em excesso. Nós, com o empurrão da Serpente, demos o passo. E sabendo, e vendo, caímos do Paraíso. Após o despertar do saber, tornou-se impossível a Felicidade.
   A consequência é eterna. Ainda hoje, nestes tempos vaidosos, nos pegamos pensando que ser ignorante é ser feliz. Que ler demais é viver de menos. Que feliz é o analfabeto. Que inocente é o povo simples. Que não sabe.
   No século XVI surgiu a figura de Fausto. Um best seller. Contava a vida de um bruxo que se vendera ao Diabo em troca do saber. Marlowe teatralizou e fez sucesso. E toda nação desde então compôs seu Fausto nacional. O nosso se encontra em Grande Sertão: Veredas. O mito que não é mito, é arquétipo universal. O homem que desafia o deus. O homem que deseja ser um deus. O Fausto de Goethe é o maior ( segundo meu professor, o maior dos livros ). Síntese do destino ocidental.
   Uma conclusão que Goethe antecipa e que está se cumprindo aqui e agora: o homem deixou Deus de lado em troca do saber. E deixará a Natureza de lado em troca do poder. Porque Deus e Natureza são Um e o Mesmo. Aquele que se desfaz do Divino destrói, cedo ou tarde, Seu Corpo, a Natureza. Fausto irá matar a Terra. Goethe nos avisou. Nunca escutamos isso. O saber há de existir, mas sempre unido ao cuidado, a delicadeza, ao Amor à tudo que seja natural.
   Ninguém seguiu esse conselho.
   Fausto mudou a Arte em toda a Europa. Ingleses e franceses amaram Goethe como guia divinizante. Crianças recitavam Goethe enquanto caminhavam pelo campo. Ele impregnou a vida cotidiana das cidades cultas. E mesmo assim, com todos os seus avisos, o Nazismo nasceu como a realização dos pesadelos do poeta. A aliança com o mal supremo em troca de saber e de poder.
   O poeta alemão amava Shakespeare e em estilo Fausto deve muito a A Tempestade. A peça final do inglês que fala também de poder e saber. Mas enquanto Shakespeare é sonho e beleza, Goethe é dor e pesadelo.
   Ler Goethe era, até mais ou menos 1950, um dever moral e estético. Hoje ele é apenas uma curiosidade pedante. Foi anestesiado por nosso mortal tédio e cinismo. Goethe, que foi um deprimido, descobriu que o saber conduz necessariamente ao enfado, ao tédio e à melancolia. E era seu dever lutar contra ela. Nós já desistimos. A engolimos sem reclamar. E nos medicamos como cabritos.
   Em 1820, Goethe, e também Beethoven, Byron, Schubert, Chopin, Hugo, todos eram Fausto. Prometeus em luta contra o destino. Hoje somos velhos que balbuciam: "-Eu sei....que se há de fazer...é assim....tem de ser assim...."
   Então o destino se cumprirá. Marte nos espera. Alegremente caminharemos ao inferno.

JUNG, SONHOS E REFLEXÕES. UMA VIDA MUITO BEM VIVIDA.

   Um mito só é vivo quando muda. Tudo o que tem vida modifica-se o tempo todo. Os deuses gregos tinham vida, em seu tempo, porque sua existência se modificava com e ao lado dos homens. Desde o século XII o cristianismo parou de mudar. Toda tentativa de mudança passou a ser heresia. A crença se solidificou. Imutável, morreu. É um mito que pouco diz ao homem de hoje. Sua validade está fora da igreja, naquilo que ele pode dizer de particular a cada um individualmente.
  A razão não pode criar mitos. Ela se ocupa daquilo que podemos ver e ouvir. Pesar e medir. Sentimentos, intuições, individualidades estão fora de seu alcance. Seu interesse não é criar, é provar através da observação. A razão pega o que já existe. Dentro de seu mundo.
  O mito é necessário para dar sentido à vida. Sem ele nossa existência empobrece e o planeta fica à deriva. Cada ato, sem o mito, cai no vazio. A liberdade se torna falsa, porque ela fica restrita ao campo do comum, do vulgar, do provável. Só existe aquilo que é de todos. O indivíduo morre na razão.
  O significado da vida e seu sentido só pode ser percebido dentro do inconsciente. Mas ele existe indiferente ao consciente. Como sombra, ele age nos bastidores, longe da linguagem humana, em atos sem tempo, sem lugar e sem aparente consequência. Longe da razão.
  O homem é essa luta entre opostos: consciente e inconsciente. Polaridade que nos move, polaridade que por ser aquilo que nos define, é tudo o que podemos perceber no mundo. Só percebemos fora de nós aquilo que vive dentro de nós. Opostos em luta. Sombra e luz.
  Todas as respostas moram dentro de cada um. E só entramos nesse mundo, o do inconsciente, quando em crise. O neurótico é aquele que luta por ficar fora. O esquizo é aquele que entra e não mais sabe sair. Um fecha a porta. O outro não acha a porta.
  Há um centro dentro de cada um de nós que é incomunicável. Portanto ele é um segredo. UMA SOCIEDADE PRECISA DE SEGREDOS. É o segredo que faz nascer um grupo de iniciados. E deles nasce um reconhecimento. Uma sociedade. Algo que só eles sabem e entendem. Esse centro não reconhece lugar ou causalidade.
  Não se pode comunicar Deus a alguém. Deus não se vê ou se ensina. Ele é uma experiência. Você sente Sua presença. Sabe. E guarda esse segredo.
  O homem pleno, se é que ele existe, se ocupa daquilo que é valioso. O mundo perde tempo naquilo que pouco valor tem. Tudo que se liga ao tempo e é marcado pela pressa tem pouco valor. O precioso está fora do tempo, é eterno.
  ... termino o belo livro que a Cultura lançou com a Nova Fronteira em edição caprichada. Jung me convence porque tudo o que ele fala eu vivi antes. Bem antes. E vivo hoje.
  Todas essas frases acima são do livro. E devo ainda dizer que os melhores trechos são aqueles que falam de suas viagens. África. Índia. Novo México. A mais fascinante é aquela a Uganda e Kenya. Jung se esforça por os conhecer. Sábia a sua atitude de sempre ter em vista seu modo europeu de pensar. E me frustrou a recusa que ele teve em face de um momento dionisíaco. A coisa quase acontece numa tribo africana, mas ele não sai de seu mundo.
  Na cidade indígena do Novo México a coisa é mais plácida. Lá Jung tem talvez seu mais belo momento.
  A visão de Jung é aquela da dualidade sempre. O mundo da natureza é cruel e belo. O homem é consciente e inconsciente. Deus e o homem são opostos que se criam. Um ligado ao outro. A morte é a sombra da vida e a vida está unida a morte. Homem e mulher se motivam e ao mesmo tempo se repelem. Dentro e fora. Aqui e lá. Tudo em dualidade.
  Mas ao mesmo tempo ele reconhece que esse é o modo como ele pode ver a vida. E a vida existe também fora de nossas percepções. Daí o insaciável interesse de Jung pelo oculto, pela chance de procurar algo que esteja fora da razão e do tempo.  Das pistas cifradas de outros mundos. Do mundo interior. O sonho acima de tudo. As mensagens visuais do inconsciente. As sincronicidades. O estar aberto a todas as possibilidades.
  Fosse trinta anos mais jovem Jung teria feito aquilo que Huxley fez ( são almas irmãs ). Provaria mescalina e LSD para ampliar sua busca. Jung não criou dogmas. Ele ampliava experiências. Vivo.
  É um belo livro. ( Com algumas partes chatas. Jung não escreve bem. E reconhece isso. )
 
 

FIRENZE E ROMA

   Tenho uma amiga que está cruzando a Itália. Ele me envia fotos de Roma e de Firenze. Nunca estive na Itália e olho as fotos.
   Ela sabe fotografar. E sabe escolher seus alvos. Olho as fotos de noite, dentro da escola onde trabalho, numa pausa. Há uma colega ao meu lado em outro computador. São nove horas da noite e faz calor. O ventilador está ligado.
   Uma sequência de fotos: túmulos. Dante. Machiavelli. Petrarca. Galileo. Michelangelo. ...alguma coisa acontece aqui.
   Desce sobre mim. Os pelos de meus braços se erguem. O calor me meu rosto aumenta. Fico vermelho. Uma onda de frio varre o lugar onde estou sentado. Meus olhos se arregalam. Meu coração NÃO dispara. Estou calmo. E ao mesmo tempo emocionado. Uma emoção que não acelera. Abraça. Tento me controlar mas logo desisto. A sensação é deliciosa. Sou tomado. A visão do mármore que envolve Michelangelo me dá um desmaio que não me apaga, antes me ergue.
  Continuo vendo as fotos nesse estado do sublime enlevo. Firenze se mostra e se abre para mim. Ela é fatal. Um pensamento: eu morreria em Firenze. E seria a mais bela morte. Pois eu renasceria em Firenze.
  Palavras a partir daqui não mais podem ser ditas.
  ...
 

A TORRE COLORIDA

   Estou lendo o livro de memórias de Jung. Deve ser meu sétimo ou oitavo livro do guru. Jung tem o poder de me liberar. Apesar do capítulo 3 me ter incomodado muito, onde ele fala das doenças de seus pacientes, o livro possui maravilhosas coincidências com minhas próprias experiências. Jung me convence porque o que ele viu foi visto por mim também. Antes de o conhecer. Bem antes. Ele valida as impressões que senti e as dores que não compreendi.
  Mas não estou escrevendo isto como comentário à obra. Quero apenas falar com você e com meu amigo Léo. O capítulo onde Jung descreve sua casa foi escrito especialmente para pessoas como Léo. Basta dizer que Jung construiu ao fim da vida uma Torre de Pedra. Com as próprias mãos. E que essa torre não tinha eletricidade ou água encanada. Tinha fogo, lampiões e um poço. Ele gostava de pensar que um antepassado seu, se lá surgisse, se sentiria em casa dentro daquela casa. A torre era o ambiente onde Jung era livre para ser ele. Onde seu eu número dois podia existir.
  Ele fala da necessidade de termos um canto só nosso. Onde ninguém pode entrar. Onde tudo é eu. Ele pintou as paredes com símbolos. Fez objetos. E ouviu o silêncio que dizia.
 Eu tive dois cantos meus. E faz vinte anos que os perdi. O primeiro foi o porão da casa onde nasci. Cheio de teias, insetos, trapos, móveis velhos, rachaduras e vidros quebrados. E o segundo foi meu quarto número dois. O "quarto da bagunça". Onde ninguém entrava. Onde rabisquei peixes, plantas e sóis nas paredes. Onde eu cantava, dançava, pulava, gritava e dormia com meus cães. Foi minha torre. Minha Torre Colorida.
 

O MATADOR- UMA OBRA PRIMA DE HENRY KING

   A história é de uma simplicidade mítica: um matador está cansado de ser aquilo que ele é. A questão: alguém pode deixar de ser a pessoa que os outros querem ver...
  Sob uma melodia soberba e elétrica de Alfred Newman, Gregory Peck cavalga. Ele vai à um saloon e lá, logo reconhecido, tem de se colocar à prova. Essa sua sina. Por ser um pistoleiro famoso deverá, sempre, ser desafiado. Todo jovem maluco quer o seu lugar. A fama de ter morto o grande matador.
  A fotografia de Arthur Miller é absoluta. Ela abarca todo o set e todos os tons de cinza. As cenas são profundas, vastas apesar de claustrofóbicas.
  E há o rosto de Peck. Ele nunca foi um grande ator, mas ele era mais que isso, era uma estrela. Ilumina o filme. Dá luz sendo obscuro. O rosto está cansado. O Pistoleiro não quer mais ser quem é. Há um desejo imenso de descanso nele. E dolorosamente ele quase consegue chegar lá.
  O que faz de um filme uma obra-prima: prazer, vontade de falar dele, interpretações múltiplas, desejo de rever, muitas cenas que se guardam na lembrança. Este filme tem tudo isso. Ele fala da fama, do destino, do julgamento da comunidade, da impossibilidade de se apagar o que se fez.
  Henry King teve uma longa carreira. Começou ainda no cinema mudo e nele ficou famoso. Passou ao falado e acabou por se especializar em grandes filmes da Fox. Ele fazia de tudo: musicais, westerns, épicos, dramas, e muitas adaptações literárias. Com mais de 90 filmes nas costas, óbvio que nem todos são de alto nível. Mas ele conseguiu jamais fazer um filme ruim. Muitos são bons, alguns são ótimos e cinco ou seis são geniais. Quando a produção era cara, complicada, arriscada, se chamava Henry King. E tudo acontecia.
  Aqui aconteceu. Um filme perfeito.