PSICOLOGIA DO INCONSCIENTE- CARL GUSTAV JUNG

A ênfase é toda dada a criatividade. Curar uma neurose é dar ao paciente a possibilidade de exercer sua criatividade ( pois neurose nada mais é que o empobrecimento da vida psíquica ). Vem daí a maior crítica às outras correntes psicológicas da época: elas se contentavam com o esclarecimento e o apaziguamento dos sintomas. Interrompiam a cura em terreno seguro, deixavam de procurar a individuação do paciente. Negavam os riscos ( que são imensos ).

Nietzsche, assim como Freud e como o próprio Jung, é um exemplo da neurose pessoal como neurose de sua época. Pois TODO neurótico traz em si a neurose do tempo em que vive. O doente vive na carne e de forma explícita aquilo que toda a sociedade vive de forma velada e não consciente. E uma das mais tristes formas de doença de nosso tempo é a dessacralização das manifestações de Dionisio. Observe como toda energia inconsciente quando liberada pela sociedade ( saudávelmente ) logo vai se enfraquecendo e perdendo todo seu aspecto livre e irracional. Jung cita as religiões pagãs, logo domesticadas pelo cristianismo, mas eu penso então, de forma mais corriqueira, naquilo que o carnaval foi e no que ele é hoje. De alegria e liberdade irrefletida, transforma-se em organização fria e comercial. O mesmo pode ser dito do rock ( onde hoje aquele espírito anárquico e sem sentido? ), das drogas ( que de caminho para o inconsciente se transformaram em via para a alienação ) e do sexo ( a liberdade sexual nos tornou mais felizes? O sexo é um ritual de crescimento ou se tornou apenas uma função fisiológica? ). Todo caráter dionisíaco sempre é desvirtuado, mas, não se engane, é imortal. E se nosso tempo não aceita ou teme sua manifestação, ele surgirá então como doença, depressão, guerra ou a simples banalização do espírito. Espírito que é tudo aquilo que faz a vida valer a pena, e ao mesmo tempo é o que mais tememos. Pois espírito é inconsciente coletivo e insconsciente significa despersonalização, não-controle, esquecimento, significa deixar de ser aquilo que se é, morte de certezas e de crenças, transformação absoluta. Cabe ao terapeuta, com conhecimento responsável de religião e história, antropologia e filosofia, caminhar com o paciente rumo a esse reino indomado e indomável. Sabendo que o inconsciente não será jamais domado, será isto sim, experimentado e aceito. Ao contrário do Freudianismo, Jung não fala jamais em sublimação ou iluminação de trevas, ele fala de humildade perante a psique e de liberação do si-mesmo, seja ele o que for.
Será que vale a pena eu tentar explicar a anima? A serpente? O que significa a mulher? A feminilidade que vive em nós e que é a força que faz a ponte com nosso inconsciente pessoal? O animus, a força masculina que mora nas mulheres, o ideal masculino, símbolo de eterno conflito e de engano? A serpente como ser simbólico que dá a possibilidade de liberdade e ao mesmo tempo de perda absoluta? Não falarei. Leia o livro e tente vivenciar.
Prefiro falar o que sempre acreditei e agora encontro escrito diante de meus olhos. ( O que confirma uma das crenaças junguianas: a de que o inconsciente cria aquilo que nos é real. Esse um dos postulados mais complexos de Jung e dos mais difamados pelos que não o leram ). O que leio é que o sexo é apenas um dos milhares de fatores que formam a psique. Reduzir tudo a pulsão sexual, a sublimação de desejo sexual, é exatamente isso: redução, modo astuto de não encarar a falta de controle, a sombra, a irracionalidade da mente. Sexo é importante, mas não é a única energia. Um mundo com sexo livre e sem tabús seria apenas isso: um mundo de sexo livre e sem tabús. O inconsciente continuaria desconhecido, as neuroses vicejando e a criatividade amordaçada. Na verdade a psique é uma multidão de energias, vivendo com seus opostos, sempre em desequilíbrio, sempre em busca desse equilíbrio. O equilíbrio é impossível, pois seria a morte, mas viver é a busca desse equilíbrio. O começo do conhecimento é reconhecer esse não-controle.
O trabalho do terapeuta não é aplacar a dor, é sim, percorrer com o paciente esse caminho entre conciente e inconsciente, dar acesso as imagens impessoais da mente, fazer com que seja reconhecida a sombra e o horror que vivem dentro de sua mente ( independente de sua vontade ) e dar ao paciente a possibilidade do sim e do não. Sim ao risco de viver, ao encontro com o si-mesmo, criatividade particular e característica única de cada humano.
Para Jung então, arte não é sublimação de nada. Arte é inconsciente, é transformação de código obscuro em comunicação, é mergulho em arcaísmos e sonhos, é possessão. Penso então em Stendhal e seus delirios de amor, em Mozart e seus passeios pelo céu, em Tolstoi e sua procura pelo sublime. Eles não são neuróticos que sublimaram um trauma e o fizeram arte, antes foram homens como eu e voce, mas que conseguiram mergulhar na sombra e de lá voltar com as imagens comuns a todos nós.
Livro fascinante e faiscante, vivo e simples, tem me feito imenso bem, tem me inspirado, vivificado e me dado sonhos límpidos e risonhos. A corrente junguiana é perfeita para aqueles que sentem amor pela busca, pela criação, pelo inesperado e pela viagem mental sem bússola. Reconheço que é um tipo de terapia ineficaz para crianças e homens apressados, mas para quem vive em curiosidade, para os fascinados por arte e filosofia, nada é melhor.

O EU E O INCONSCIENTE- CARL GUSTAV JUNG

Não é pelas respostas que Jung me fascina. É por suas perguntas. Jung levanta as questões que mais me interessam, dá o passo que Freud temeu dar: além do sexo, fora da razão, o que há?
Me agrada o fato de que ele jamais diz "é assim" ou "com certeza". Jung diz sempre "talvez seja" e "pode ser que". Ele evita brilhantemente ser dono de qualquer verdade. Sua sina é a do caminhante, faz perguntas, procura respostas, mas já avisa de cara que essas respostas são impossíveis, pois são irracionais.
A vida é irracional. Não existe lógica alguma fora de nosso consciente. Nós criamos uma razão para poder viver em sociedade, para contar o tempo, para fazer da vida algo previsível, que funcione. Mas fora de nosso consciente nada é racional e claro, e mesmo dentro de nós há o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo, ambos escuros, sem qualquer lógica, não verbais e pré-históricos. A razão, portanto, não pode explicar a vida.
Longe de mim então, tentar explicar este livro tão instigante. Feito a partir de uma série de seminários de Jung ( anos 30 ), ele descreve com precisão coisas que vivi em minhas crises e certas quase crenças que compartilho com o psicólogo suiço.
Jung fala de persona, de anima, de animus. Usa muito a imagem do inconsciente, seja pessoal, seja coletivo, e mostra que a individuação é o mais alto grau de desenvolvimento que um homem pode atingir. Falando de um modo bastante crú, a persona seria a máscara que nos obrigamos e que nos obrigam a usar. Máscara que se opõe a nosso inconsciente, estância profunda e em eterna revolução, que não cessa nunca de cutucar essa persona. Criamos persona para poder viver em trabalho e para nos defender, o perigo é crer nela. Mas o livro fica melhor quando se fala do medo que todos temos do inconsciente. A sensação de morte, de loucura, que existe ao se mirar esse tipo de fantasma que mora em nós e que não nos reconhece. A neurose como o medo desse tipo de aspecto da mente, o pavor de se perder em seu interior e não poder sair mais, daí então o hiper-controle do neurótico, e o sintoma: toques do inconsciente pessoal, toques sem qualquer razão, energia que se libera.
Todos nós temos momentos de medo ou de crise ao tocar o inconsciente. E é esse momento que nos faz andar. É nessa hora que mergulhamos em imagens e inspirações, em desejos e mudanças. Podemos então crescer ou sucumbir. Me agrada ler que Jung considerava todo neurótico como um ser-humano mais brilhante em potencial, mas que naufragou no medo de seu inconsciente.
O inconsciente pessoal sendo a herança de nossos antepassados genéticos, de pais e tios, país e nação. E o inconsciente coletivo sendo tudo aquilo que carregamos da história da humanidade. Mas veja: não é uma lembrança linear. Não é sequer uma lembrança. São imagens sem texto e sem voz, são símbolos que ficam gravados e se tornam lenda, mitos, religião. Todo inconsciente é religioso porque tudo que é irracional acaba se tornando linguagem religiosa. Conhecer toda religião, compreender seu símbolo e seu ritual é primordial para se tentar entender o inconsciente.
A individuação. O ser se tornando si-mesmo. A saúde plena sendo o homem que se torna aquilo para o qual nasceu. O homem que consegue ir ao inconsciente e retornar: mito de todo herói. O herói que vai ao mar, a floresta, ao castelo e retorna outro, mais velho, mais sábio, inteiro. O ser que se faz si-mesmo descobrindo algo sobre seu inconsciente. Jung usa a imagem de caminhar sobre o fio da navalha.
O que impede essa descoberta é o medo. Medo de se perder, de deixar de ser, de morrer ou enlouquecer. Medo do irracional, medo da vida ( que é mortal e irracional ). Apego a persona como meio de não pensar e não questionar e apego a imagem materna como meio de escapar do inconsciente.
Bela sacada de Jung: não desejamos apenas sexualmente a mãe. O que desejamos é seu consolo contra o medo de viver. Ela nos protege de nossas trevas inconscientes, ela "ilumina" a escuridão. As sociedades primitivas realizavam cerimonias para livrar o menino dessa proteção. Hoje não as há mais. Então o que o homem faz é usar mulheres como proteção. A mulher usada como antídoto contra o perigo, contra o inconsciente, contra a individuação. O homem se infantiliza com essa mulher e nega toda a treva irracional que vive dentro dele.
O pai protege o filho do mundo real. A mãe o salva do mundo simbólico, irracional.
Bem.... há muito mais a dizer, mas deixo aqui apenas um aperitivo sobre esse pensamento que me perturba e me seduz. Jung valoriza o homem original, poético, em conflito. Ele joga fora certezas e máscaras e deixa de lado a facilidade de se explicar tudo por repressão e libido ( a libido junguiana é bem mais complexa ).
Mas não se exaltem, freudianos. Jung aceita várias conquistas de Sigmund. O que ele renega é o fato de Freud não ter seguido adiante, não ter tido a humildade de fazer uma auto-crítica, e de ter se deitado sobre os louros de uma única grande teoria. Freudianismo acabou se tornando um tipo de crença que dá a seu fiel o consolo de crer em guru infalível. Uma coisa automática e sem dúvidas. A racionalização do que nunca é racional.
Jung está longe de ser infalível. Mas nessa disposição ao risco, nesse desequilíbrio e nessa incessante busca pelas questões certas, ele se apresenta como um ser mais artístico, mais músico, muito mais livre. E o principal: suas descrições de crises se casam a perfeição com minhas crises e meus medos. Se em Freud eu preciso me adaptar a suas crenças, com Jung vejo maravilhado a descrição daquilo que eu já sabia.
PS: antes que se pense que individuação seja sinônimo de egoísmo, explico: a individuação, a descoberta do si-mesmo se dá pelo mergulho em seu inconsciente ( e a habilidade de não sucumbir em psicose ou mania ), mas esse si-mesmo só se solidifica no contato com o outro. É impossível se tornar voce mesmo no isolamento. O homem é um ser social, para ser Homem é preciso o outro. Todos compartilhamos esse inconsciente coletivo, essa herança de símbolos ( e é isso que nos faz pensar em vida eterna ), esse inconsciente é sempre igual, seja em que tempo for. Saber que ele não nos pertence é o primeiro passo rumo ao conhecimento. E a humildade.

WOODY/ COPPOLLA/ VISCONTI/ YIMOU/ DE SICA/ HAWKS

VOCE VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS de Woody Allen com Brolin, Banderas, Watts, Hopkins e Jones
Um dos mais amargos filmes de Woody. O filme serve como um lembrete das diferenças do Allen de 1976 e do Woody de 2010. Antes seus filmes eram centrados em politica, pretensões intelectuais e um saudável hedonismo. Hoje ele fala básicamente de dinheiro, poder e ambição. É como se Woody Allen não se sentisse mais a vontade neste mundo, seus filmes parecem tortos, desconfortáveis e pior, eles têm personagens chatos. Essa chatice é sintoma do não-afeto que Allen sente por eles ( neste filme a única excessão é a divorciada "crente". ) Quando vemos qualquer filme dele pré 1998, há um transbordamento de simpatia por seus personagens, ele ama cada um deles. Vendo este filme tenho a impressão de que Allen os abomina. O filme, mais um fiasco, é completamente desinteressante. Nota 3.
O ESTRANGEIRO de Luchino Visconti com Marcello Mastroianni e Anna Karina
Existem livros que são pegos pelo diretor errado. O Estrangeiro de Camus é um livro soberbo e Visconti é um dos mais cultos e talentosos diretores da história. Mas o estilo dos dois não combina. Camus pede um diretor muito mais seco, distante, frio; Visconti é sensível, exagerado, politico. O filme acaba não sendo nem Camus e nem Visconti. Marcello faz o que pode, mas todo o projeto nasceu errado. Nota 4.
UMBERTO D de Vittorio de Sica
Eis o mais triste filme já feito. Acompanhamos o cotidiano de um velho solitário e pobre. O filme é de uma realidade que beira o insuportável. De Sica inclusive nos mostra um velho nada simpático. Nenhuma cena é feita para chorar, nada é bonitinho ou meloso, o velho, sem casa e sem nenhuma esperança tenta se matar, e nesse momento, em que ele desiste do suicidio ao olhar para seu cão ( que nunca é um cão à Disney ), o filme chega a seu limite: nenhum filme me fez sentir tão triste. Ele é de uma tristeza não-poética, é uma melancolia desagradável, de rua quente, de fome e de solidão absoluta. Vittorio de Sica era além de um gênio, um anjo. O nascimento de um diretor como ele hoje ( e bem que os iranianos tentam ) é impossível. Ele crê no homem, ele ama o homem, ele conhece o que é a vida. Nota DEZ.
HATARI! de Howard Hawks com John Wayne e Elsa Martinelli
Um bando de homens recebe, na Africa, a visita de fotógrafa italiana. E é isso: Hawks filma esses homens bebendo, tomando café, caçando animais para zoos e paquerando a garota. Nada de importante acontece. É o misterioso estilo de Hawks, voce fica vendo o nada e se sentindo bem, como se voce fosse um convidado daqueles caras. Quando o filme termina não há nada para se dizer, mas voce se sente um deles. Hawks era ainda mais despretensioso que Ford, seus filmes parecem fáceis de fazer, parecem uma brincadeira. Ninguém nunca brincou tão bem. Não é a toa que todos os diretores o adoram, quem se interessa pela feitura de um filme sabe como é trabalhoso ser tão fácil. Nota DEZ.
O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS de Zhang Yimou
O diretor se empolgou após o excelente Herói e cometeu este filme frouxo. Trata-se de uma aventura que deveria ser empolgante e comovente, ela é fria e muito mal desenvolvida. O romance não nos importa e as lutas se parecem com ensaios. Pior, notamos que os atores não sabem nada de artes marciais. Uma desilusão. Nota 2.
TETRO de Coppolla com Vincent Gallo
Vendo este filme percebemos o quanto o preto e branco nos dá. A foto em P/B é mais densa, o filme se torna irreal e ao mesmo tempo muito mais urgente. Além do que, é chic! Coppolla não perdeu sua genialidade para enquadrar e criar clima, mas, infelizmente, o roteiro ( dele ) é apenas uma muito longa sessão de auto-expiação. Ele vomita dores, mas o que nos interessa aquilo? Tetro não é um personagem interessante, ele nada tem de brilhante, de original, de cativante. É como ser obrigado a assistir um filme bonito sobre um Fiat 174 qualquer. Todos dizem que Tetro é isso, Tetro é aquilo, mas o que vemos é um chato cheio de auto-piedade. De maravilhoso as cenas de filmes de Michael Powell ( nada hoje é mais in que amar Powell. Com justiça, o homem foi um dos maiores. ) Se servir para alguém sentir desejo de assistir um filme de Michael Powell já valeu. Nota 3.

HERMES E AFINS

O homem só pode criar aquilo que já estava em sua mente. Parece um pensamento fácil, mas pense bem: o que vemos é aquilo que já, e desde sempre, estava em nós. Portanto, é impossível ao homem apreender a realidade. Porque só percebemos o que nossa mente consegue ver/entender/criar. Realidade e irrealidade são conceitos que não fazem sentido.
Criamos palavras para dar vida a coisas. E só o que tem um nome é por nós percebido. Mas no momento em que mesmo as palavras perdem seu motivo primal, em que até elas deixam de significar, toda a vida começa a se tornar sem sentido.
Mulher passa em praça etíope. Ela chora e sente fome. Ela sofre de forma total e irrecuperável. Vendo aquela mulher eu a percebo como parte daquela situação. Por detrás de seu sofrimento há toda uma história. Na sombra de seus ossos moram seus companheiros de dor, sua origem, seu terror, seus cantos e sua crença. Agora. Mulher passa em rua de Veneza. Ela usa óculos escuros e um casaco Prada. Em seu caminhar eu nada vejo. Ela não possui história. Nada significa, a não ser uma imagem/sombra que anda e desaparece. Apesar de não sofrer como a etíope ( será? ), ela é um ser de absoluta solidão. Para ela nada pertence, e ela a nada se dá. As ruas de Veneza são indiferentes a sua passagem.
É tudo uma crença. Voce cria aquilo em que acreditar. O problema é quando não se acredita na vida. O inconsciente cria sem parar, cria independente de tempo ou de espaço. Ele prepara o mundo e cria a vida. Nele mora aquilo que chamamos de Deus. Mas há mais:
Todo arquétipo vive nele e arquétipo é Deus. Deuses que tememos olhar, todos eles, de todos os tempos, alguns sem nome. De Dionisio a Odin, de Xangô a Krishna, milhões de seres que criam a terra, que criam a história e que influenciam a vida de todos, criando acidentes, lembranças, sinais. Símbolos que simbolizam aquilo que faz a vida. Símbolos que são tudo aquilo inominado. Deuses que são imortais, que sempre estão presentes, que nos guiam. Saber falar com eles, entender suas mensagens, eis o que é a vida plena.
Nossa vida não é nossa. Nossa mente não é nossa. O que eu sou não sou eu ( tudo o que tento controlar é minha máscara, raiz de minha doença e de minha cegueira ). Porque eu sinto, quando tenho a coragem de me isolar do mundo, ou quando estou tomado pelo amor profundo, ou pelo mais violento ódio, eu sinto que há algo sem nome em mim, algo que vive em meus joelhos, que pensa em meu fígado, que respira pelos meus pés. Eu sinto que há uma vida fora de mim, me cercando, me sussurrando, muda, incompreensível. Sinto que esse eu não é Paulo e não é Tony. Nem homem ele é. Rio que flui, raio que brilha ou pássaro que pousa. Sinto que esse ser é o que é. Inominável. E que ele pode me matar, me enlouquecer, ou dar sentido a vida.
Cada um de nós deve fechar-se em seu abrigo. E mergulhar nesse rio. Porque para salvar o mundo é preciso salvar voce. Individualismo? Cada rio é rio que pertence ao mundo. Iluminar esse rio é iluminar o mundo.
O Oriente ( India e China ) sairá de seu mundo passivo/interior/feminino e se descobrirá ativo. Cabe ao Ocidente a sabedoria de sair de cena e retornar a sua vida passiva/feminina/interior. É preciso que o Oriente se ative e que o Ocidente se recolha em sí. Os símbolos do ocidente precisam ser iluminados.
No Novo México existe um povo ( ainda hoje ) chamado "Pueblo". O chefe diz que os brancos não deveriam acabar com eles. Pois são eles que fazem o sol nascer. Toda manhã eles ajudam o sol a se erguer. Quando eles se forem, será sempre noite. O que pensar? Pode haver povo mais feliz que um povo que crê ser responsável pelo sol? Somos responsáveis por alguma coisa natural? E mais: um povo que acredita ser forte como o sol, que se une ao sol todo dia, que se pensa como um igual ao sol, torna-se ele mesmo, sol.
Sincronicamente captamos no rio do inconsciente mensagens que unem pessoas afim. E de repente me pego falando aquilo que voce queria dizer. E um artista-poeta consegue ser voz de todo um grupo disperso. E vorazes homens de aço começam a devorar o mundo ao mesmo tempo. E eu encontro voce e ouço sua voz e já te conheço. E falo o que voce fala e ouço o que eu queria ouvir. Pegamos do rio a mesma coisa, eu e voce. Alguns pegam a morte, outros a dor. A maioria nem sabe que o rio existe.
Sabendo ou não sabendo, chamando-o ou não, Deus está lá.
Sua ânsia é ansia de rio. Voce se droga para tentar chegar lá. Voce vai a igreja para tentar chegar lá. Pula em baladas futeis, grita em show de rock, paga terapias, engole pilulas. Voce tenta encontar voce. Tenta ver Apolo ou Eros ou Jesus. Não sabe que voce não é, pois na verdade voce está.
Agora, enquanto escrevo isto, sou um velho de 99 anos da Mongólia. Uma hora atrás eu fui um Bem-Te-Vi numa árvore. E acordei cachorro hoje. E saiba, se quando voce me ver eu estiver Tony Roxy ou Paulo Mané... não sou eu, é a persona que criei.
Há tanta coisa pra aprender......

CÍRCULO HERMÉTICO- MIGUEL SERRANO

Estar diante de uma estante de livros, em sebo ou livraria, é como estar num trem: as paisagens vão passando e em algumas eu quero parar. Fuço as prateleiras, leio trechos, admiro capas, tento lembrar quem é aquele autor, me surpreendo. Pego em sebo este livro. Raro volume, manuseado, edição de 1970.
Miguel é um diplomata chileno que no final dos anos 50 privou na Suiça da amizade de Hermann Hesse e de Jung. O livro, breve e sem ambição, é um retrato afetuoso desses dois senhores. Primeiro Hesse.
Fica desse "pássaro" uma imagem de imensa doçura. Hesse morreu conseguindo voltar a ser criança. Ele se maravilha com a vida. Árvores, sol, lua, neve, em seu solitário retiro suiço, o velho escritor andarilho se maravilha em solidão. As lições que ele passa são sublimes. Escreve uma parábola sobre o homem que se tornou árvore e deixou de se transformar. Pois para Hesse, a vida é uma transformação, e só vive essa VIDA quem se deixa ser levado. O homem que é hoje um inseto, depois uma pedra, um cão e uma árvore. Para Hesse, tudo é um círculo e nesse círculo nós não somos o centro ( pois centro não há ), somos parte sendo nada.
Há muito de India e China em Hesse. Ele ama a impessoalidade do Oriente, os templos não assinados, a persona fraca, a passividade. Hesse conta algo interessante: Para um indiano típico, o pensamento é algo que se observa. Ele se coloca na posição passiva, o pensamento acontece independente de sua vontade, então ele assiste seus pensamentos. No ocidente nós somos aquilo que pensamos. Não nos esqueçamos que para a fé cristã, o pecado se faz em pensamento.
Depois o autor conhece Jung em Zurique, Jung já com mais de oitenta anos. De Jung ele absorve a imagem de que toda a transformação psíquica só pode ocorrer através do amor, mas não o amor como o conhecemos, deve ser aquele tipo de amor que enfrenta a morte, que vai além da vida, do medo. Esse amor só existe no que é proibido, no amor que não tem objetivo, no amor onde os dois se fazem um, na cumplicidade contra o mundo. Sem casamento, sem filhos, sem construção alguma. Amor que deverá morrer e matar os amantes, para que assim eles possam morrer em sua persona e mergulhando no inconsciente, renascer como sí-mesmo, satisfeitos com sua unicidade, auto-suficientes.
Conta-se a cerimônia de casamento dos Siddhas na India: os dois jovens, castos, vão à floresta, nús, e lá ficam por meses. Dormem juntos, se banham e trabalham. Moem grãos, confeccionam. Finalmente, ela irá massagear seus chakras, ele irá acariciá-la. Faz-se então a união. União que não é sexual, é muito mais que isso. Ele não irá ejacular, seu sêmem deverá jorrar "para dentro". O amor entre eles não será um amor para fora, será todo para dentro. Um amor que não é morte ( pois não engendra vida ), é um amor que busca o mergulho no incorpóreo, no absoluto. Os dois se separarão após essa noite. Os dois estarão prontos para a auto-suficiência.
Jung fala também que o ocidente viveu um profundo trauma psíquico com o advento do cristianismo. Ao contrário do oriente, que viveu todo o desenvolvimento de suas religiões, as fés e crenças da Europa foram subitamente sublimadas por uma religião importada. Todo o crescimento e amadurecimento dessas religiões nativas foi abortada, reprimida e jogada ao inconsciente. As imagens estão todas trancafiadas, e quanto maior a distância que nossa sociedade vive delas, maiores os surtos de barbarismo.
Comprei também um livro recém lançado de um jovem filósofo francês. Abro o livro e pesco uma frase: " Uma sociedade que se baseie no sexo será sempre uma sociedade incompleta. Pois o sexo é por sua natureza, ser incompleto sempre. Essa sociedade será então marcada pelo vazio, pela ansiedade e pela falta. Sexo só se completa no hermafroditismo, é impossível ser feliz sózinho numa sociedade sexualizada, e pior, é impossível ser feliz a dois numa sociedade sexualizada, pois o eterno flerte torna-se imperativo. Basear uma civilização no sexo é caminhar para a infelicidade. O século XIX, reprimido, deu ao sexo um valor que a repressão lhe fantasiou. Somos os filhos dessa anomalia."

A VIDA É SONHO- CALDERON DE LA BARCA

O enredo: Um rei sabe através dos astros que seu futuro filho será um tirano. Assim que ele nasce, ele o deixa trancafiado em torre e sem saber quem seja. Mas, anos depois, esse rei sente dúvidas e resolve fazer um teste: narcotizar esse filho/prisioneiro e ver como ele se sai ao se tornar rei. Ele despertará e viverá como soberano por um dia. Se for um homem do mal, será novamente adormecido e ao acordar pensará ser tudo um sonho.
O que ocorre? Ele torna-se um rei sem limite, fazendo valer apenas seu desejo. Trancafiado outra vez, pensa que aquele dia foi um sonho, e com pesar, percebe não ter aproveitado aquele momento onírico. Sendo depois libertado por uma revolução popular, ele se tornará um monarca exemplar, pois agora tem a consciência de que "viver é um sonho, e cabe a nós viver o sonho com retidão, estar pronto para o despertar."
Calderon foi o grande dramaturgo espanhol do século XVII. Escreveu muito, teve imenso sucesso e como todo homem de seu tempo, viveu várias vidas ( soldado, poeta, padre ). Não fosse uma peça cheia de simbolismo, A Vida é Sonho tem ainda uma escrita admirável e uma fala que se tornou muito famosa:
Que é a vida? Um frenesí
Que é a vida? Uma ilusão
uma sombra, uma ficção;
O maior bem é tristonho
Porque toda a vida é sonho
e sonhos, sonhos são.

Ora, se a vida é sonho, então toda a ânsia por poder e por coisas transitórias nada vale. O que vale é a preparação para o despertar, levar consigo aquilo que é para sempre, que está além do sonho. Usufruir do sonho seria sonhar bem, e sonhar bem é ter consciência desse sonho onde se está. Século XVII... momento brilhante de nosso caminho rumo ao......

SINDBAD, O MARUJO ( UMA TERRA JOVEM, JOVEM DEMAIS )

Não existe um autor de Sindbad. Como acontece com a Biblia ou com A Ilíada, o texto parece ter se auto-fecundado. É coisa da natureza. E como todo texto fundador, trata-se de uma viagem ( que na verdade são sete ). Tudo é maravilhoso aqui e tudo é estranhamente crível. As aventuras se sucedem e tudo o que voce deseja é ler mais e mais. Prazer de verdade, claro e límpido.
O texto que me chega é o mais fiel possível. Coisa de 770 D/C. Arábia...Bagdá...é surpreendente como eles nessa época estavam muito a frente da Europa. Possuem uma delicadeza, um amor a etiqueta, a limpeza e a educação que deixa a Europa como um tipo de curral de cavaleiros toscos.
O livro me faz pensar, e o pensamento que ele me traz é este:
Em 770.... Quantas tribos existiam no Brasil? Línguas que não mais se falarão e bichos que há muito sumiram de nossa vista. Imagino a floresta sem fim e um indio nadando no Pinheiros. Tribos em Marajó e no sul. E tribos na Argentina e no Perú ( Incas? ). Onças e Botos aos milhões e povos se espalhando pelo México e pelo Canadá. Cada um com sua língua, seu Deus e seu corpo. Contando uma saga e criando mitologias.
Penso que em 770, enquanto em Bagdá se redigia o Sinbad, na Irlanda os monges católicos andavam em pregação. Matilhas de lobos vagavam pela Alemanha e druidas viviam na França. Vikings na Noruega, Saxões na Inglaterra e Íberos na Espanha. Quantos ursos ainda viviam no continente e crenças desapareciam para sempre. Tribos sem fim pela Russia.
Penso na India e na China de 770. Na imensa diversidade de vidas e de vozes. Nas ilhas do Pacifico, nos reinos da Àfrica e na Austrália onde os aborigenes percorriam as estrelas. Maoris na Zelandia, eskimós no norte e os comanches, sioux, arapahos.
Em 770 uma enorme variedade de vozes, de visões sobre a vida, de peles e de rostos. Miscelânea de costumes, modos de ver, jeitos de pensar. Vida sem fim.
Penso que agora todos nós somos poucos. Todos estamos nos tornando coisas uniformes. Como gado de raça: mesmos desejos, mesmos valores, mesmos medos. E sinto que sendo assim somos mais fracos como homens, mais vulneráveis como espécie e muito mais pobres como alma. Mesma música, mesma roupa, mesma comida.
Para onde ir quando a vida entrar em crise?
Porque Sindbad me faz ver que toda crise é solucionada com a redescoberta do reprimido. A era medieval sendo superada pela lembrança da Grécia, a decadencia de Roma revitalizada pela fé católica, o novo sempre vem de uma civilização que se pôs a margem do poder. Mas se tudo for uma só coisa, de onde virá a novidade?
O oriente é o inconsciente do mundo e sempre foi de lá que veio o sopro de vida nova. A Grécia brota da Pérsia, e as religiões ( judaísmo/catolicismo/islamismo ) nasceram por lá. Aliás, religião sempre foi uma coisa muito fraca na Europa. Religião puramente européia é coisa que nunca existiu. Mas, se o mundo perder toda sua diversidade ( e desde 1350 estamos nesse caminho ), se o oriente, a Ásia toda, se tornar uma coisa só, de onde fazer brotar a nova fase, a nova crença, o novo mundo?
Cada ilha do mar da India era uma civilização. Cada canto da Indochina era uma fonte de fé e de filosofia. Pra onde foram esses modos de pensar? Uniformização. Odeio essa palavra.
Sindbad é a celebração desse mundo rico, desse mundo onde cada esquina é outro universo, em que tudo é diferente em cada reino, em cada ser. Sindbad é então a pura celebração de um planeta jovem, exuberante, enérgico, e que ainda se surpreende todo dia.
Sindbad é o homem plenamente saudável.
PS: Começo a pagar uma dívida que tinha comigo-mesmo. Começo a estudar Jung. Uma frase dele me pega ( e é exatamente o que eu já pensava ): O inconsciente é sempre religião. Todo inconsciente é religioso e temer ou não saber ler a simbologia religiosa significa temer ou reprimir a riquesa da vida do inconsciente. Porém, o homem existe para se individualizar, para se tornar um ser-sí-mesmo. Ora, isso só ocorre com o mergulho no inconsciente, com a alfabetização da simbologia religiosa. Mitos, religiões, poemas, essa é a linguagem de todo saber profundo, saber que é a vida da terra. A Europa é o árido mundo sólido do ser, o principio masculino; o oriente é o principio religioso, inconsciente, passivo e simbólico. É de lá que flui a fonte da vida, a fecundação, as novas etapas, a vida. Útero. Sindbad me cai nas mãos na hora exata.

DIA DE FINADOS- CEES NOOTEBOOM

Um homem anda por Berlin filmando aquilo que ninguém filma: pés sobre a calçada, pegadas na neve. Ele é holandês, calado, e adora a solidão. Mas tem 3 amigos, que costumam se encontrar em bar e filosofar sobre a vida e Berlin. Esse holandês conhece uma mulher misteriosa, com quem terá uma relação silenciosa ( o que não impede o sexo ) e a quem seguirá à Espanha. Ao final, ele descobrirá que o que filma é aquilo que jamais muda no tempo do mundo: sombras, pegadas, pedras, vento. Ele, que é viúvo, ansia pelo não-tempo, pelo que perdura.
Com esses temas este poderia ser um livro maravilhoso. Quase chega lá, mas não é. Pois se nos convencemos de sua profundidade, de sua sinceridade ( e de sua contemporaniedade ), nos desiludimos ao ler certos chavões que o texto exibe. Nooteboom escreve algumas linhas de banalidade absoluta, dignas de qualquer livrinho pseudo-artístico, e essas poucas linhas derrubam tudo de sólido e verdadeiro que o livro tem. Nos embrenhamos em toda aquela filosofia pessimista/atéia, e então somos desligados do encanto por frases tipo "Janelas com chuva como lágrimas de solidão"....
Nooteboom é inquieto, levanta questões pertinentes sobre politica, história e filosofia, mas escreve sem a altura que esses temas merecem. É tipico caso de autor de ambição maior que seu talento.
Cees Nooteboom está vivo e é" O" autor da Holanda. Este livro consta dos tais 1000 livros para ler antes de morrer. Waaaal... há melhores.

CEES NOOTEBOOM E MAIS BENJAMIN E AINDA HEGEL

Estou lendo um autor bem interessante: Cees Nooteboom. É o principal autor da Holanda hoje. Escreve filosoficamente, é bastante materialista, mas é um materialismo em crise. Tenta abarcar tudo o que importa agora: a falência da sensibilidade, a vulgarização da história, a falta de rumo da existência, a memória persistente, o fim de tudo todo o tempo. Sobre o livro que leio hoje, falo depois. Quero antes citar algumas coisas de interesse.
O século XX é o século da ironia. Tudo é olhado com dúvida, com distanciamento. Ora, com ironia não se dá um passo. Se voce não se entregar sem reservas a nada, se voce não tiver fé em coisa alguma, nada será feito, produzido, tentado. A vida se torna um sempre "quase", um talvez, um relativo quem sabe ou outra vez. Mas, estranhamente, o século XX é feito e destruído na Alemanha, país desprovido de ironia.
Alemanha é nação da punição. O alemão está sempre se policiando, se vigiando e se punindo por seus erros. É um povo que ama seu sofrimento: Wagner, Beethoven, Nietzsche, Rilke, Freud e Strauss. A imagem de Nietzsche abraçado ao pescoço de um cavalo e pedindo perdão a todos os animais da terra é a imagem da Alemanha. Ela faz a guerra e sofre a derrota, sempre. Sua ânsia é a vontade de perder. Porque isso?
É um país de nevascas, de vales escuros, de florestas eternamente em névoa, de montanhas isoladas. Tudo na Alemanha era mistério: cavernas, bruxas, bosques, mitos, sangue em abundancia. De toda a Europa é o país que pior se adapta a modernidade, a razão fria, ao tempo sem segredos. Mas, como povo guerreiro, ele corre rumo a liderança, sacrificando sua "alma". Dá-se a irrupção sazonal do inconsciente, do espírito, do que foi negado. Já a Holanda é seu oposto: uma nação sem montanhas, sem cavernas, plana e simples, exposta, anti-segredos, reino da burguesia, dos bancos, do pensamento moderno, onde tudo é reto, claro e sem mácula.
Nooteboom fala ainda dos humanos extintos. Características humanas em vias de desaparecer. Humanos tímidos. Ninguém mais é timido. Todos sabem posar para fotos, criar nomes falsos, sair de casa sozinho. O rubor está sumindo, a mocinha de seio rosado e bochecha rosa, olhando para o chão; o mocinho timido, sonhador, romantico velado, gaguejante. A timidez foi morta pelo mundo do espetáculo, pelo show, pela vida em escritório, pelo cinema americano, pelo rocknroll. O respeito é outro valor extinto. Tudo o que importa é a minha verdade, e se a minha verdade é só minha a sua verdade me é irrelevante. Não respeitarei alguém que deseja ser mais verdadeiro que eu mesmo. Não respeitarei ninguém, pois respeito é negação de si mesmo. Esse pensamento torto, bobo, ridiculo se torna dominante com a tecnologia ( onde tudo é relativo e sem hierarquia ) com o fim da timidez ( timidez que traz a vida interior ). Para o futuro haverá a extinção da verdade, do subjetivismo e da solidão.
Tudo isso nas 130 primeiras páginas de Nooteboom.
Uma citação de Walter Benjamim:
"... é assim que o anjo deve ser representado perante a história. Com esse olhar crispado voltado ao passado ( ele fala de uma pintura de Paul Klee ). Onde nós vemos um encadeamento de fatos que significam nossa história, o anjo vê apenas um momento único de catástrofe absoluta. Esse anjo gostaria de ficar e ressuscitar os mortos, abrir a luz nos escombros. Mas do céu desce um vento irresistível que arrasta suas asas ao porvir. Os escombros, o entulho se agiganta a seus pés alcançando montanhas, mas o anjo precisa voar, rumo ao destino. É a essa tragédia que damos o nome de progresso".
Uma citação de Hegel:
" Voce está num trem bem iluminado. Voce observa por toda a viagem o ambiente e seus companheiros de viagem. Rostos, vozes, roupas, gestos. Voce crê então conhecer a realidade daquele vagão. Então voce pede a outra pessoa para descrever aquele vagão, descrevendo inclusive voce. E descobre que a realidade para ela seria uma aberração para voce. Pois ela não considerou nada do que lhe é mais real. Ela não percebeu seus sentimentos, seus desejos, seu passado, aquilo que voce ama em voce e renega em voce. Ela simplesmente não conheceu a realidade. É por isso que toda a história do mundo é impossível de ser apreendida."
Nooteboom, como todo grande artista, vai mais longe: É por isso que a Verdade não existe.

MANDA PRA DEBAIXO DO TAPETE

A ciência nos deu a cura de algumas doenças e remédios pra deprê. Carros e aviões. Mas não nos deu uma forma de lidar com casamentos, amizades, pais e enterros. E é nessa hora, a hora da verdade, que a gente percebe que fomos roubados.
Isabel era minha prima. Mesma idade, a gente cresceu brincando. Ela falava baixo, era vaidosa, boa gente, cheia de amigos. Adorava os pais.
Sexta de noite, voltando do teatro, Isabel levou um tiro no peito. Metade do corpo se esparramou pelo carro. Os assassinos, de moto, se foram... Isabel deixou dois pais. E um lugar vazio.
O corpo, recomposto e maquiado, foi enterrado. E o que é um enterro? Um monte de gente triste, sem saber o que fazer, o que sentir, o que falar. O corpo baixa à terra em meio aos coveiros, e todos ficam aturdidos como bichos que nada entendem. E eu, que em nada creio, penso, cheio de ódio, naquilo que a tal modernidade nos tirou. Roubou de nossa vida o velório em igreja, o padre consolador, o ritual do enterro. Qualquer tribo primitiva sabe como lidar com isso, nós, modernos, não. Assim como não sabemos lidar com nada que realmente importa. Tudo é varrido para debaixo do tapete, para o inconsciente. Afinal, o que nos pedem é seguir em frente, sempre. ( O melhor é continuar a trabalhar!!!! )
Onde a transcendencia? Onde o luto profundo e reparador? Onde a dor da tragédia e a catarse? Tudo o que nos oferecem são flores e trabalho, a vida que segue, um antideprê e uma terapiazinha... e todo o significado da morte e da vida passa a ser não entendido. Nos tornamos menos que bichos, somos um conjunto de células, nosso sentimento e nossa dor é quimica, nada mais que quimica. Óxidos e nitratos que pensam.
É tudo uma merda, uma imensa merda. Sabemos tudo e nada sabemos na hora em que o negócio fica sério. Os pais, desamparados, pessoas da época romântica jogados na era do trabalho, ficam lá, ao lado da cova, agradecendo a quem compareceu ( muitos ) e em desamparo completo. Onde o chefe da taba? Onde o xamã? Onde o consolo que consola? Nada, absolutamente nada. Tudo trancafiado no inconsciente, afinal, toda essa vida religiosa/simbólica apenas atrapalha a caminhada rumo ao futuro/trabalho.
Eu sinto ódio. Muito ódio. A velha Bíblia estava certa, olho por olho. Não me venham com "vejamos", "por outro lado", "a sociedade"; morte se paga com morte, os dois covardes devem pagar, ser enforcados na minha frente, assados em fogo brando. Eles devem pedir perdão de joelhos e serem executados com risos e festa. Te deixo chocado? Falo aquilo que voce não tem coragem de dizer. Aquilo que foi trancafiado no seu cérebro, lá no escuro, junto com sonhos de familia feliz, desejos de liberdade e fé na vida. Os dois foram ruins, e creia, a maldade é incurável e imperdoável. O relativismo da ciência nos roubou também essa certeza.
Uma menina senta-se ao meu lado no velório. Vestido longo, cabelo com tiara, voz fininha. Talvez 7 anos. Ela é exatamente como Isabel foi um dia. Ela precisa ser protegida. Ela precisa ter um final mais digno. Ela é o único sentido que nos resta. A continuação da história.
Minha mãe pega meu braço. O pai de Isabel não quer sair do lado da filha. O céu está azul. Um pássaro passa voando. Algumas pessoas estão no túmulo de Senna.
Se Deus não existe e nunca existiu, eu o invento. Se os anjos fugiram da Terra com desgosto, eu falarei com eles. Se a alma é apenas o sonho de alguém que pensa demais, eu pensarei muito. O vale da morte, a dor de um pai, a saudade de um amigo... apenas isso importa.

VIDA- KEITH RICHARDS, COMENTÁRIO CONTRADITÓRIO

Os Stones fizeram em 1964 um contrato com a Decca muito melhor do que aquele dos Beatles com a EMI. Se tornaram a banda mais rica do mundo e a mais paparicada pelos milionários. Ao mesmo tempo posavam de reis dos revolucionários e dos insatisfeitos do mundo, papel que ficaria muito melhor em qualquer cantor de blues da Geórgia.
A história dos Stones é sempre uma história de muita sorte ( e é isso que irrita aqueles que insistem em crer que arte é sofrimento ). Lendo o livro de Keith, o que vemos é uma vida onde tudo sempre dá certo. Ele não morreu jovem, logo ficou rico, sobreviveu aos punks e aos grunges e tem uma imensa e saudável familia. Chega a dar raiva!
Keith é injusto várias vezes. Resmunga sobre Jagger. Diz que em 1983 Mick tentou tomar os Stones para si, e que em 1985 Jagger cometeu a deslealdade de se lançar em carreira solo. Ora Keith! Voce ficou oito anos como um peso junkie nas costas de Jagger! Quem já conviveu com um viciado sabe o quanto eles são chatos! Jagger levou a banda sózinho entre 73/81. E cá entre nós, sem Mick Jagger nos vocais, voces seriam no máximo um The Who.
Isso é chato no livro. Keith tem um ego do tamanho do de Jagger, mas ele posa de doidão-blueseiro, o rei da honestidade. Será? Se o Mick de 1961 morreu nos Rolls Royce e nas noites de Cannes e Monte Carlo, o Keith timido e humilde de 1962 se foi nas carreiras de pó e nas agulhas de heroína ( e dá uma sensação ruim vê-lo defender o bom consumo de drogas ).
Mas ninguém é perfeito. Mesmo cheirando carreiras nos palcos entre uma música e outra, mesmo tendo feito dois dos piores discos da história ( Dirty Work e Steel Wheels ), mesmo tendo feito aquele show lastimável em Copacabana, quem sabe o que é rocknroll sempre vai entender o porque de sua importância. Eles são espertos, maus, soberbos, egocêntricos, auto-centrados e nada sofridos. E por isso são vencedores, o tipo de cínicos sexies, coisa que os Beatles ou o U2 nunca puderam ser ( estavam ocupados em ser os tais "artistas relevantes" ). Os Stones sempre souberam que rock é irrelevante, que depois de Chuck, Elvis e Little Richard todo o resto foi diluição.
Foda-se! Eu tinha de defender Mick Jagger ( que tem a elegância de se manter calado ). Dizer, que ruim Keith!, que Mick tem o pau pequeno é muuuita sacanagem!
Mas fazer o que? Keith é a própria imagem da coisa, gostar dele é o teste para se saber se voce está por dentro do que seja rocknroll ou se voce está irremediávelmente por fora. Se a sua turma é do carrão/garotinhas/riffs de foder ou quarto/lágrimas/melodias tristonhas.
A gente pode dizer que o cara tem muita, muita sorte...

VIDA, UM LIVRO ( ENERGÉTICO, LIBERTÁRIO, VITAL ) DE KEITH RICHARDS

O maior elogio que se pode fazer a Keith Richards é chamá-lo de negro. O objetivo dos Stones sempre foi esse: ser uma banda de black music, de preferência como as de Muddy Waters ou John Lee Hooker. Em 1965, nos EUA, músicos da Stax lhe disseram pensar que Satisfaction fosse alguma canção americana. Era dificil para aqueles negros crer que aquela música fosse feita por branquelos da terra dos Beatles. Esse foi o maior elogio que KR poderia receber.
Ele sempre foi do blues. Assim como Charlie Watts foi do jazz e Jagger do soul. E mesmo quando ele foi country ou disco, era um tipo de country-blues e disco-blue. Quando em 1973 Keith foi morar na Jamaica, os batedores de tambor das favelas jamaicanas logo o chamaram de negro. Um garoto feio de Dartford-England, nascido em meio ao ruido das bombas nazi, ter conseguido ser um preto do Tennessee e um rasta da Jamaica... bem, é um milagre.
Keith não faz drama com nada. Sua lição é: foda-se! Da infancia rebelde, filho único de mãe alegre que traía o pai com o vizinho mais jovem, aos momentos ( vários ) de quase-morte, nada vira drama, nada é lamentado. Ele é muito forte. Keith Richards é um cowboy, um pirata, e porque não, um herói.
O livro é cheio de momentos curiosos, de coisas que mesmo os fãs não sabiam, e melhor, nada é muito fantástico. Ele não aumenta, não mitifica, escolhe ser simpático, mas nunca hollywoodiano. Ficamos sabendo que Bobby Keys é seu melhor amigo, que Charlie Watts é um dandy que só gosta de jazz. Me chóco ao saber o quanto KR chama Brian Jones de escroto, um cara que se achava o máximo, um músico que deixou de tocar e que se afundava em auto-piedade. Keith conta a noite em que Marlon Brando tentou ir pra cama com ele e Anita ( sua esposa ), e melhor, descreve o clima de Londres em 65/67: Londres com seus pintores Pop, os herdeiros de sangue azul se entupindo de LSD, a descoberta de que tudo era permitido, os escritores, os cineastas, as groupies. Mick Jagger como um atlético conquistador, KR como um cara que precisava de carinho, dormir junto, ter alguma história.
As drogas. Ele passa tempos enormes vivendo por e para elas. Na década de 60 drogas eram coisa desconhecida. Eram usadas como descoberta, afronta, porta para fora da sociedade. Nos anos 70 elas se tornam moda, são usadas como documento para ser "in", e nos 80 são remédios para fazer tudo funcionar. Hoje são coisas para divertir, produto para criar uma sensação rápida e passageira.
Keith nunca demonstra o menor arrependimento. Ele usava drogas porque lhe davam prazer. É só isso, nada mais, e ele deixa isso bem claro. Tomava uma droga para acordar, uma outra pós-café para ficar ligado, droga de trabalho, droga para se acalmar, droga para pensar melhor e droga para ficar 3 dias de pé. Ele diz sentir saudades das drogas antigas, que não são mais fabricadas. Conta que o segredo para ter sobrevivido é nunca ter tomado nada de segunda, sua cocaína era Merck, direto do laboratório, tão pura que flutuava no ar; sua heroína era papoula 100% tailandesa, barbitúricos de farmácias de confiança e por aí vai... não há nada de sofrido, nada de culpa, nada de "agora vi a luz"; e também nada de "veja como sou louco". As loucuras que ele conta são nada glamurosas, e nenhuma é sexual.
Pesada é apenas a história de Anita, a maravilhosa Anita, modelo alemã, ex-Brian Jones ( tem uma história muito boa dela e de Keith fugindo de Brian no Marrocos ), mais doida que KR e que tinha conexões com Andy Warhol, Fellini e Roger Vadim. Nos anos 70 ela entra na paranóia pura e o casamento naufraga. KR é salvo por Patti Hansen, uma saudável modelo americana, sua esposa até hoje. È bonito perceber então, já lá no fim do livro, que Keith nunca mudou. O guitarrista espinhudo do Ed Sullivan Show é o mesmo cara do Piratas do Caribe. Como eu, Keith nada joga fora. Se ele descobre rap, reggae, disco, funk, o que for, ele os adiciona ao que já conhecia; ao contrário de Jagger, que para se reciclar precisa jogar fora o passado, KR preserva e revaloriza sempre tudo o que foi. Ele soma, nunca substitue.
Gram Parsons é o cara a quem ele tece os maiores elogios. É ótimo ler o que ele fala sobre amizade. Assim como é legal ver o que ele diz sobre John Lennon, um cara que aparecia sempre em seu apartamento, que tentava seguir seu ritmo de drogas, mas que sempre terminava a noite no banheiro, desmaiado ao lado do vaso e dizendo: "Onde estou?"
Stones e Beatles se comunicavam sempre: " Hey John, estou com uma nova aqui, voces vão lançar algo agora?...Então espera 3 semanas, eu lanço agora e voces depois." Paul foi procurar Keith quando brigou com Heather Mills ( 2005 ) na Jamaica ( Keith mora lá, vizinho de Bruce Willis ), os dois chegaram a compor juntos e Keith disse a ele que a grande diferença entre Beatles e eles é que os Beatles sempre foram um grupo vocal. Tudo neles tem a voz por base, a parte instrumental só como acompanhamento; os Stones são um grupo instrumental, a base é sempre um riff, uma levada de guitarra. Brancos e negros, certo?
Ele conta como gravaram o Banquete dos Mendigos, em gravadorzinhos Phillips, apenas violões em volume alto que se distorciam pela pouca potência do gravador. Um tipo de som que hoje se perdeu. Conta a saga das gravações de Exile e desce a lenha em Jagger.
Não vou falar dessa parte. Acho dificil. Mas concordo que MJ tentou ser David Bowie na década de 80 ( todos tentaram e se ferraram. Bowie em 1983 estourou como ídolo teen-inteligente, todos os caras de sua geração tentaram operar o mesmo milagre, de Ferry a Rod, de Paul a Eric ). Keith acha um absurdo Jagger querer ser Bowie, pois Jagger é muito melhor que Bowie, o que ele fez foi se rebaixar. Dá pra discordar?
Keith diz sonhar em sempre fazer blues, Jagger odeia recordar Exile ou Let It Bleed.
É lindo ler sobre seu reencontro com o pai, trinta anos sem o ver. O pai, velho, tornou-se um tipo de pirata, um velho de pub, conquistador, forte, duro, o cara. ( Há uma foto linda no livro, os dois juntos ).
Já no fim, quando diz passar muito tempo lendo, Keith toca numa coisa Junguiana, não sei se sem querer. É quando ele fala dos horários. Que é uma besteira da revolução industrial, um conto do vigário, essa coisa de que devemos comer ao meio-dia, dormir oito horas por noite... tipo: hora de comer, hora de acordar, hora de transar...Foda-se, Keith diz que o certo é comer quando dá fome, dormir quando se tem sono e transar quando há desejo. E a droga entra nisso também. Cada um tem seu tempo, seu limite, seu ritmo, cada um é um.
E vem daí aquela fala linda que ele escreve, de que ele sabe ser um simbolo, e que todo cara que se fode trabalhando num emprego de merda, com um horário cruel e uma vida sem sal, tem dentro de si um Keith Richards asfixiado e que cabe a ele representar esse cara que insiste em viver dentro de cada um.
Isso é lindo. E o livro é lindo.
Dá uma puta tristeza quando acaba. A gente pensa: Que merda, eu estava me acostumando a ficar com Keith toda tarde! Que bosta de saudade desse cara do caralho!
Após ler o livro eu não aumento meu amor por Keith Richards. Isso seria impossível. Ele é meu anjo do mal desde 1974. Mas aumentou meu respeito por ele. Keith Richards é um grande cara!

MARIA SCHNEIDER

Existem milhares de Marias hoje. Mas como bem disse Keith, uma coisa é ser doido agora, com mapa e bússola já feitas pelos doidos anteriores; outra bem diferente é ser o navegante sem mapa, vivendo e criando ao mesmo tempo uma rebeldia e uma loucura sem testes feitos por outros. Voce entra na piração e não tem nenhum exemplo pra te guiar. Maria foi dessas.
Ela estava pouco se lixando para o cinema. A menina começou pelo muito alto, pelo perigosamente alto: Brando e Bertolucci em Último Tango.
O mais intenso e enlouquecedor dos atores, no melhor desempenho "bruto" que um homem ousou exibir. Assitir o filme é ver um cara totalmente nú. Brando se exibe inteiro, sem medo e com imenso sofrimento. E Maria peitou o cara. Enfrentou o queridinho da esquerda cinéfila ( Bertolucci ) e o bicho doido gênio ( Brando ). E na sequencia mergulhou em Antonioni ( o niilista ) com Jack Nicholson ( o cínico ) na obra-prima O PASSAGEIRO.
Ela era apenas uma mocinha bem-lôca. Numa época em que ser assim não era moda e portanto nunca era fake. Correu riscos, partiu para excessos e se arrebentou toda. Viveu enfim.
Ter chegado aos 50 e poucos anos foi um milagre.
2011, a mais policiada das épocas não era pra ela. Se houver um além, a gente se vê por lá.

BELEZA E TRISTEZA- KAWABATA ( A BELEZA DO JAPÃO E DAQUI )

Livro final de Kawabata. Quem quiser o conhecer leia O PAÍS DAS NEVES. Ou KYOTO. Este é o pior. Mas aqui se fala do conceito de beleza japonês. A beleza ( sentido absoluto da vida para eles ), como retensão e repressão. O que é belo é aquilo que se liga a depuração máxima, tensão de espera, atenção em seu limite.
O Japão é pequeno. E é frio. Para sobreviver sempre foi preciso saber guardar, saber valorizar o mínimo. Cada flor que nasce é uma paisagem, todo canto de jardim é um deslumbre. O japonês aprende então a olhar o detalhe, a saborear com lentidão tudo que se desvanesce.
Que outro país excursiona para ver uma árvore florir?
Quando japoneses fotografam tudo, não existe ali o deslumbramento, o que mora nesse ato é a tristeza pela beleza que morre. A foto é a tentativa de a guardar viva.
Prende-se o cabelo, disciplina-se o corpo, cria-se um ritual para falar, para caminhar, para decorar, para o chá e a morte. Apruma-se a elegância. Cada gesto é um refinamento ( repressor e anti-natural ) de um ato grosseiro. Congela-se a animalidade e ritualiza-se a carne ( até o suicidio, elegancia na morte, ritualização do inescapável ).
A beleza torna-se tristeza, porque tudo o que é belo passa a ser retensão de impulso. Nada é natural, tudo é calculo. A beleza então confunde-se com melancolia ( e quantos ocidentais não sofrem dessa doença de pensar que a alegria nunca é bela? ).
Na Europa, no mundo árabe, isso não se faz tão acentuadamente. A exuberância é muito maior, a beleza é feita da tensão entre real e ideal; e na África toda beleza é sempre feliz. A exuberância como lei. Quando a imensidão sem fim das Américas nasce, a beleza se torna indomável, tudo o que é bonito é forte, grande, potente e natural.
Quem me conhece sabe que adoro o ritual e a religião do Japão ( religiões ), porque lá vejo o absoluto oposto ao que sou e sinto. Pois sou o desregramento da mata atlântica, o excesso de praias perdidas e o sem fim dos desejos ocidentais.
Nada disse sobre o livro do Kawabata. Mas o livro é bem isso. Falei....

FORA DO AR

Fora do ar a quatro dias. Às vezes fico assim, sem me reconhecer. Ou me sabendo de verdade.
Quando fico nesse estado de foradoarzice sinto tanta vitalidade dentro do meu peito que chego a sentir que a vida é apaixonante. Mas não o apaixonante que a gente fala da boca pra fora. Não. É saber que a vida é leve, que o deixa ir, deixa sangrar mais que vale.
E minha mente se solta e se vai sem saber nada. E meu corpo vai atrás.
Coisas rolam. Coisas vêm. Doce 1983, doce 1992, doce 1998, doce 78. Ver o rio e afundar a cara naquela lama toda. Frases pra voce ( só pra voce baby )
O mundo se divide em quem gosta de cães e quem daria a vida por um deles.
Quem ouve rocknroll e quem se explode ao escutar uma guitarra "mal" tocada.
Tem aqueles que desejam uma mulher bonita, e tem quem possa matar ou se matar por uma bonita mulher em uma noite bonita. O desejo é uma faca guardada, enferrujada.
Alguns são brancos, outros pretos e outros muito escuros.
Tem quem se divirta com alegres diversões. Para outros tudo é diversão, mesmo o abismo.
Certos seres vivem com espelho e outros seguem o ruído. Quebrar o espelho com um grito, isso fazem outros.
Beleza é a razão. Mas há quem ame o feio sujo. Desde que seja um feio elegante e um sujo único.
Há quem perceba a ridicula futilidade da arte. Há quem veja a inutilidade de tudo.
Enquanto todos correm, um anda beeeem devagar
E quando todos seguem os horários de dietas industriais, outros comem quando sentem fome.
Bem.....
Duvide de tudo e diga sempre foda-se.
Jay Leno disse que o triste é que aprendemos a fazer aviões e foguetes
Mas não sabemos fazer um Keith Richards.
No fim de tudo, o mundo se divide em quem detesta Keith
E em quem o adora. ( E são esses os da coluna dois ).
Foda-se o que vou dizer ( estou muito fora do ar ):
Quando nasci eu escutava Ruby Tuesday e quando senti pela primeira vez o ódio pela ordem e pelo progresso, eu cantava Lets spend the night together. E ao descobrir o desejo que arranca a pele e expões a carne eu cantava Satisfaction e caía. Porra, KR estava comigo sempre ( quando a coisa valia a pena ): Na merda em que estive no colegial, um cabeludo em antro de fashions, eu cantava Citadel, e quando afinal achei minha "Anita" ( e botei um A na minha garganta ) era Happy na cabeça. Foda-se, estive no auge com tudo isso, essa básica música de preto que é sempre blues ( blues rock, blues soul, blues country, blues pop e até blues disco ). Eu estive em estradas e camas com You Gotta Move.
Então a coisa é que não é questão de gostar ou desgostar de KR. O fato é que o cara é uma tatto em minha vida, tá sempre lá. E se hoje eu começo a envelhecer, é ainda e agora mais ainda, que KR me mostra como envelhecer sendo o mesmo de sempre.
Porque ele nunca muda. E o negócio que nos maravilha é esse: o velho Keith nunca muda, é o mesmo de 64, de 73 ou de 2000. Fincou o pé na borda e disse: Foda-se, daqui não saio e não mudo.
Tem só mais uma coisa: KR tem consciência clara de tudo. Ele disse:
Enquanto os caras têm de obedecer um chefe, cumprir um horário, jogar fora tudo o que queriam, fingir ser banal; eu fico aqui, lembrando a eles que todos são um pouco Keith, alguns mais, outros menos; mas lembrando que todos nós devemos algo a esse cara. O seu KR está lá...e creia, quanto mais livre voce for, mais perto da tona ele estará.
Portanto eu tou beeem fora do ar. E torça para que eu fique por lá.
PS: Isso foi escrito pra voce.

BILLY WILDER/ GAINSBOURG/ FORD/ OSHIMA/ SIRK/ HELEN MIRREN

CUPIDO NÃO TEM BANDEIRA de Billy Wilder com James Cagney
De todos os clássicos diretores de Hollywood ( Ford, Hawks, Wyler, Stevens, MacCarey ) ninguém tem tantos filmes decepcionantes como Billy. Sim, ele é um cara genial, quando acerta, mas seus filmes fracos são mais irritantes que os filmes menos bons da turma citada acima. Este fala de executivo da Coca-Cola que trabalha em Berlin nos dias da construção do muro. É uma comédia boba. As piadas vêm e erram o alvo. O resultado é histérico. Nota 3.
A ÁRVORE de Julie Bertuccelli com Charlotte Gainsbourg
Fujam! Na Austrália morre um jovem pai em ataque cardíaco junto a árvore. Essa enorme e belíssima árvore é o centro e interesse único do filme. Pena que nada de interessante ocorra depois dessa tragédia. Quem quiser que encontre um sentido nesta coisa chata e lenta, se encontrar, esse sentido será acidental, o filme é tão cheio de "arte" que tudo pode ter um significado. Inclusive o significado da picaretagem. Nota 1 ( um ponto pela bela árvore ).
DONOVAN'S REEF de John Ford com John Wayne e Lee Marvin
A vida de um dono de boteco em ilha do Taiti. Acontece a visita de uma herdeira e mais nada. Ford, após cinquenta anos filmando. mostra sinais de cansaço. O filme é flácido, solto demais. Uma bela paisagem, atores gostáveis, mas nada mais que isso. Nota 3.
O MERCADOR DE ALMAS de Martin Ritt com Paul Newman, Joanne Woodward, Orson Welles, Anthony Franciosa
Belo exemplo de cinema adulto dos anos 50. Newman faz seu tipo mais habitual: o cara malandro, egoísta e carismático. Esse cara penetra em família do sul e acaba por se tornar herdeiro do "dono" de toda a cidade: Welles. Filhos que odeiam o pai, sensualidade reprimida, poder do dinheiro, homossexualismo, há de tudo um pouco. É uma diversão completa, um prato rico e gorduroso. Joanne está muito bem como uma solteirona. Nota 8.
O TÚMULO DO SOL de Nagisa Oshima
Em Osaka, anos 60, gente das ruas vende sangue para comer. Mais prostituição, drogas e Oshima, um diretor sempre violento. O filme é representante da Nouvelle Vague japonesa. Cores berrantes, câmera nervosa e cortes abruptos, incisivos. Oshima seria o centro desse movimento. O filme, um dos primeiros dele, é irregular, mas supreende sua modernidade. Nota 5.
TUDO QUE O CÉU PERMITE de Douglas Sirk com Jane Wyman e Rock Hudson
Muito melhor do que eu esperava. Sirk, dinamarquês rei do melodrama em Hollywood, faz aqui um dilacerante retrato da classe média da época ( terá mudado tanto assim desde 1955 ? ). Jane Wyman é uma viúva com dois filhos, cheia de amigos porém solitária. Ela se envolve com seu jardineiro, um jovem livre, que tenta seguir a filosofia de Thoreau. Ninguém aceita isso e os filhos ( quase adultos ) impedem o casamento. Só, ( e é chocante se observar como na época ver tv era considerado ato de perdedores, de gente sem vida social ), ela vê que caiu numa armadilha, os dois filhos seguem sua vida e ela fica à parte de tudo. Todo esse drama é conduzido de uma forma tão leve, fina, vibrante que é impossível resistir. Voce embarca na novelona. Fassbinder o refilmou na Alemanha e Almodovar sempre o cita ( além de Todd Haynes ). Rock Hudson era um canastrão, mas ninguém sabe ser mais tão galã. Nota 8.
MANON de Henri-Georges Clouzot com Cecile Aubry e Serge Reggianni
Clouzot é um dos maiores diretores que a França já teve. Fez pelo menos quatro obras-primas, mas este não é uma delas. Conta a história de mocinha muito "livre" que trai seu amor com vários homens de poder. O namorado sempre descobre, e sempre a perdoa. O final, hiper-romantico, é em deserto. O filme se vê com interesse, mas está muito abaixo do melhor Clouzot. Nota 5.
A RAINHA de Stephen Frears com Helen Mirren e Michael Sheen
Pra que ver este filme? Qual o interesse em se rever os dias da morte e do enterro de Lady Di? Tudo visto pelo ponto de vista de Tony Blair e da Rainha...pra que? Bem...o filme é estupendo, uma aula de direção e de interpretação. Stephen Frears, diretor da geração de Ridley Scott, mas que ao contrário de Scott, optou sempre pelo risco ( é dele a obra-prima Ligações Perigosas e ainda Minha Adorável Lavanderia, Alta Fidelidade, e mais uma infinidade de pequenos filmes instigantes ), dirige com uma eficiência que beira o milagre. Penetramos na mente de Elizabeth, conseguimos sentir o absurdo daquilo tudo, e melhor, não sabemos o que pensar. Ficamos desorientados. Mas há Mirren. Talvez seja este o desempenho feminino da década. Em personagem dificílimo, contido, frio, distante ( e tão cotidiano ) Helen cria uma alma, não imita. A rainha que ela nos mostra vai lentamente tomando consciência de sua derrota, do fim de uma ilusão. ( " Eu me recolho e nada declaro, sou sincera, enquanto isso essas pessoas que jamais a conheceram estão morrendo de dor, e eu é que sou a doida" ). Pois o filme é sobre isso: os súditos passam a querer lágrimas, frases pomposas, a exibição pornográfica de luto. Quando Di morre e a rainha se esconde, pois essa é a tradição, luto não é show, sentimentos devem ser contidos e discretos; o povo passa a odiá-la. O filme tem duas cenas de antologia: a hora em que ela lê as mensagens nas flores colocadas nos portões do palácio ( todas ofensivas a ela ) e a maravilhosa cena com o cervo, quando ela percebe a beleza que mora nele e o risco de ser caçado. Esse animal, que será morto lentamente e decapitado ( decapitação é o fim de todo rei deposto ) representa a bela elegância de uma época que morrera muito tempo antes, época que Elizabeth só então percebe ter chegado ao fim. De certa forma, Blair a salva dessa decapitação e ele acaba tomando seu partido. O filme então, feito pelo esquerdista Frears, tem a sabedoria de reconhecer que perante os novos tempos de midia e falta de respeito, ( são magnificas as cenas de telejornais da época, que mostram Lady Di tão falsa em sua "dor" e o povo deseperado com sua morte; e ainda vemos no enterro o absurdo de Elton John, Tom Cruise e Spielberg serem mais "gostados" que a familia de Di e de Charles ) a rainha ainda representa algo de decente, correto e de verdadeiramente real. O filme torna-se então imenso. Que admirável surpresa! Nota 9.
TERRA BRUTA de John Ford com James Stewart e Richard Widmark
Ford chamava este seu filme de "bela porcaria". Longe disso. Apesar de ele quase não ter história ( fala algo sobre brancos resgatados de Comanches ), o filme tem um ar de improviso, de alegre camaradagem, que acaba por encantar. Há quem o chame de obra-prima. Não é. Mas ele sem dúvida é invulgar. Nota 6.

MÚSICA, AINDA IMPORTA?

Primeiro música a beira do fogo ou na caverna. Música como ritual, como frenesi, religião, preparação para a guerra, união de tribo.
Depois. Música em igrejas, em cerimônias de coroação, em casamentos, em natais e aniversários.
E então, ela habita os teatros, e os pianos de estudantes pautados. E as rodas folclóricas, fogo, dança e bebidas.
Mais tarde. Música no rádio, em noites ao redor do grande aparelho de madeira, com suas válvulas misteriosas. E em discos pesados, que quebravam se caíssem no chão. Que chiavam.
Em filmes nas salas imensas com tapetes felpudos e lanterninhas de uniforme. Melodias em bailes de gala e nas rodas de samba dos morros. Nos terreiros e nos bares dos sertanejos.
Música sempre em grupo, sempre unindo, coisa sagrada que é sempre hino.
Chega o vinil. Olhar com amor a capa colorida, ler o encarte ( isso após rasgar o celofane ), sentir o cheiro do papel impresso, do petróleo do disco. Pegar com DELICADEZA, colocar pra rodar, ver o disco girar e escutar. Todo ele, inteiro, na sua sala ou no seu quarto, sempre em seu lugar especial, sempre um ritual.
Hoje. Música no seu ouvido, apenas sua, toda sua, individualizada. Música no ônibus, no metrô, na rua, na escola, no banheiro, todo o dia, na cama. Fundo indistinto do ruído da vida, música ruído.
Música feita para a magia que se tornou música feita para a igreja que se fez música feita para o teatro que se mudou em música para o rádio. E ela se fez para o disco e daí para o cd. E agora é um impulso elétrico que é pensada como trilha que combina com todo lugar. Música ambiente incolor de ruas e conversas sem fim ( e onde nada se escuta "de verdade" ).
Em 1975 Brian Eno criou a Ambient Music. Era um conceito ( ridicularizado então ). Eno dizia que a música do futuro seria parte de um ambiente, como um quadro ou a cor de uma parede. Essa música não poderia pedir atenção do ouvinte e também não teria emoção alguma. Pois o ouvinte jamais poderia perder a atenção daquilo que fazia ( o trabalho ).
Eno lança MUSIC FOR AIRPORTS I e II, e ainda discos para elevador, trens e salas de espera. Em Berlin ele conhece David Bowie e juntos lançam 3 discos: Low, Heroes e Lodger. O conceito é: música abstrata, que não seja feliz ou triste, nem sobre dor ou sobre amor, sem raiva ou tédio. Controle absoluto e absoluta neutralidade.
Hoje e desde os anos 80, esse tipo de proposta se tornou dominante. Mas em 1975 isso era um absurdo. Música era emoção naquele tempo ( de Lennon à Elton John, de Marley à Neil Young, tudo era emoção exacerbada e exibicionista ). O que Eno e Bowie ( e o Kraftwerk ) pediam era o oposto: frieza, controle, distância.
Agora estamos no ponto máximo desse conceito. Não só a música como produto sob controle, sem o inesperado, como o OUVINTE em atitude de neutra e distraída apreciação. Sem nenhum ritual de ligação, sem nenhum delicado cuidado de preservação, e sem qualquer canto sagrado de dança ou escuta.
A música, a mais misteriosa e mágica das artes, se torna enfim, a banalidade total e absoluta.

MAPAS E LENDAS ( AINDA DÁ? )

Precisamos de espaço. Existem certas coisas que somos obrigados a engolir, e essas coisas deixam de ser comentadas, se transformam numa espécie de assunto esgotado ou caem ao limbo do esquecimento. Mas o fato é esse: um homem sem espaço é um vegetal. Se voce não tiver para onde expandir seu olhar, se voce não tiver onde fugir para escutar o silencio, se voce não puder andar e sentir a liberdade de não estar dentro mas sim fora de algum lugar, voce seca, morre, vegeta.
É triste admitir isso, mas é uma tristeza necessária: gente sem espaço é como frango de granja, vida movida a luz artificial e drogas para crescer ( produzir ). Penso em crianças nascendo e crescendo em apartamentos fechados, brincando em playgrounds cercados, indo a escolas SEM janelas e gastando a semana em sites e jogos. Essa criança vai crescer? A mente dela irá se expandir? Qual o tamanho de seus sonhos? O quanto de criatividade, de originalidade ela vai desenvolver?
Falo disso porque entrei num site onde os mapas de SP de hoje são comparados aos mapas de SP de 1958. É péssimo olhar para o mapa, e se voce tiver depressão evite. O rio Pinheiros com suas margens limpas, um monte de espaço, de terrenos abertos e sem muros, trilhas cortando os quarteirões.
Mas pra mim foi cruel. Cruel porque sempre pensei que as lembranças que tenho do meu bairro pudessem ser fantasia. Mas não, está lá na tela: riachos onde pesquei, lagos onde aprendi a nadar, matas onde eu acampava; tudo dentro de SP ( Morumbi em 1969/1971 ). Vejo que não é fantasia, defronte a casa de minha tia não havia nada, um descampado todo LIVRE para meu sonho. E é somente com esse espaço livre que se pode começar a ser feliz. Porque é preciso sentir o vento na cara, ver a chuva vindo de longe, ter onde olhar o sol nascendo, escutar passos distantes, vozes longinguas, poder correr, se perder completamente, ter onde deitar no chão e adormecer. Sem esse espaço, sem esse ir-se de si-mesmo, voce perde o dom de "viajar", de expandir-se, de ser um bicho. Vegeta. Franguinho de granja.
Choveu hoje no deserto da Arábia. Algum otimista estúpido vai continuar dizendo que tudo está nos conformes. Uma área do tamanho da França ficou alagada no deserto da Austrália..... Posso falar o que penso ( e talvez voce odeie ler isso, então pare agora ), fizemos tudo errado. Nós estamos aqui com uma única missão: cuidar deste jardim. Nossa única tarefa IMPRESCINDÍVEL e que daria toda a nobreza necessária a nossa existência: cuidar do mundo, equilibrar, preservar, ajudar a natureza. Nossa inteligência, nossas mãos, nosso olhar se justificariam assim. É o único trabalho sério e é um trabalho que apenas nós poderíamos ter feito.
Mas não. O rio Pinheiros é um testemunho. E o espaço para todos os jardins foi trocado por garagens para 3 carros e portões com câmeras. Que pena....

SOBRE O LIVRO DE JOHNATHAN FRAZEN, LIDO

A LITHUANIA é privatizada. Voce pode ser dono de uma rua ou adotar meninas de 14 anos. O filho mais novo do casal de velhinhos, deste livro, vai pra lá. E Vê que a diferença entre Lithuania e EUA é mínima: nos EUA voce é anestesiado pelas drogas legais e ilegais, é condicionado a gostar apenas do que está ou se parece com a TV, e se distrai da vida com tecnologia futil e viciante. Teus vicios te dominam. Na Lithuania a coisa é mais honesta. Voce é dominado na porrada e no poder da grana. Sem hipocrisia.
Ele volta pra casa a tempo do natal. Pra descobrir que a familia não existe mais ( e que tudo o que ele queria era o amor do pai. Quando toma consciencia de que sempre o teve descobre então que não era isso....). A irmã está um caco. Seu único problema ( dela ) é a vida afetiva, mas esse problema é O Problema. E o irmão, rico, casado, pai, controla tudo: horários, sentimentos, eficiência, afetos. Covarde, está sempre aterrorizado com a sombra da depressão. Um ditador que é esmagado pela esposa, super bonita e super feliz quarentona, que morre de medo de ladrões.
O pai está demente. Antigo macho dominante, calado e frio, tornou-se um traste. No fim do livro pede que o filho o mate. Não matará. E há a mãe, que tenta crer na família e se vicia em antidepressivos ( porque não ser feliz? ). Quando tudo desaba é o único personagem que ainda crê na recuperação da vida ( aos 75 anos ).
Scott Fitzgerald dizia que a inteligência se manifesta em pessoas que conseguem manter duas idéias contrárias ao mesmo tempo. O livro tem essa citação ( que é a pura verdade. Todo burro tem certezas únicas ). Lendo Frazen nós nunca sabemos qual a opinião do autor, qual o personagem central e qual seria o fim daquilo tudo. São montes de personagens, montes de situações, uma montanha de informação.
Ele bate nessa coisa tão atual de médicos que só lêem sobre medicina, filósofos que só lêem filosofia e psicólogos que só lêem psicologia. E pessoas comuns, que só se interessam por seus umbigos. Mundo compartilhado em guetos, sites e wwws que Frazen chama de "branda demência social".
No mundo de Frazen ( o livro ganhou o Booker Prize de 2001 ) não há a menor chance de salvação, viver é descer ladeira abaixo. E fim.

QUANDO FREUD ERA REI : THE LONG, HOT SUMMER - MARTIN RITT

Na década de 50, em Hollywood tudo era freudiano. Cada fala e cada movimento de um personagem ( falo dos dramas dito sérios ) era calcado em edipianismo, repressão sexual, complexo de Electra, incesto, castrações e taras várias. Muita bobagem saiu desse caldo, pois todos estavam tão imersos nessa fé vienense que ignoravam que nem tudo que Sigmund ditava era verdade ( ou não pareceria ridículo com o tempo ).
Um dos melhores representantes deste estilo de cinema é THE LONG, HOT SUMMER, que no Brasil recebeu o nome inacreditável de O Mercador de Almas ( Freud explica? ).
O roteiro, perfeito, de Irving Ravetch e Harriet Frank Jr., condensa 6 contos de William Faulkner em duas horas. Milagrosamente dá certo. Quem dirigiu foi Martin Ritt, em seu terceiro filme, após triunfal carreira na TV.
Já se disse que se o sul tivesse vencido a guerra civil americana, os EUA seriam hoje o Brasil. Este filme mostra porque. Se passa na época contemporânea ( 1958 ) mas, feito no Tennessee, inspirado pelo muito sulista Faulkner, ele conta a história de um típico coronel ( que no Brasil seria um coroné do sertão ). Ele domina terras, comércio, politica e indústria de cidade. Gordo, falastrão, machista ( feito saborosamente por Orson Welles ), tudo o que ele deseja agora que está velho, é um neto. E para isso, como para tudo o mais, seu desejo é a única realidade. Na sua agressividade erótica, na sua sem-vergonhice, vemos o extremo amor a vida, o reino da libido pura. Esse coronel tem dois filhos. O filho-homem é um fraco. Seu único desejo é sexual, ele está enfeitiçado pela esposa, uma piranha sexy-jovem. O pai o despreza por isso e deixa isso claro. O filho se ressente, exibe seu sofrimento de filho não-amado e tentará matar o pai ( e ao fazer isso, readquire o respeito do pai. Sua cerimônia de entrada no mundo masculino é esse quase assassinato tabú ). A filha do coronel é uma insegura e auto-controlada professora idealista. Todo seu desejo, reprimido, é dirigido ao muito educado e calmo vizinho, um cavalheiro sulista a antiga, que irá se revelar gay. Nesse caldo de repressão, chega um homem que será o catalizador da quimica que irá fazer a coisa virar, a crise se instalar e a catarsis se tornar possível.
Ele é um desajustado, arrogante, frio e hiper-masculino matuto. Homem que vem em fuga, pois cometeu em outra cidade o pior dos crimes para aquela sociedade conservadora, ateou fogo a propriedade alheia. Ao pedir emprego ao coronel, ele irá penetrar no coração da familia. Ele e o coronel são dois iguais e reconhecem isso. O velho o adota como herdeiro e com esse ato ele destrói o filho de sangue e empurra o forasteiro para a cama da filha "certinha".
Essa história, que feita sem habilidade poderia se tornar pesada ou até ridicula, nas mãos desta equipe se faz leve, ágil e sempre interessante. Paul Newman consolida aqui seu tipo de mal caráter adorável. Ninguém soube como ele, fazer tantos tipos de péssimos costumes em filmes, e mesmo assim ser gostável. Com este papel ele venceu em Cannes como melhor ator. Joanne Woodward se casou com ele durante as filmagens ( duraria toda a vida ). A filha domina o filme. Joanne era uma atriz de gênio. Este papel, todo para dentro, é uma tour de force em seu modo de falar e na maneira como ela olha para ele. Anthony Franciosa é o filho sofredor. Ator do Actors Studio, sua intensidade é exata. Orson Welles sofreu muito neste papel. A maquiagem o asfixiava e os outros atores eram do estilo moderno de atuar ( o estilo que é o de hoje ), ou seja, buscavam dentro de si o âmago do personagem. Orson era da moda antiga, atuar era criar uma persona. Os choques foram dificeis. Além do que, Orson não perdia sua mania de querer roubar as cenas e dirigir o filme. Mas o patriarca que ele nos dá é fantástico. Um prazer vê-lo nesse papel.
Porque hoje não nos dão mais tanta fartura em um filme? Penso que se filmado agora ( o que seria dificil ) apenas um dos personagens seria mostrado. O diretor iria o dissecar lentamente, e todos os outros seriam coadjuvantes.
Se voce é daqueles caras que estão começando a descobrir que havia cinema antes de Tarantino, esse momento de renovação no cinema americano é um bom caminho de aprendizado. Os filmes feitos entre 1954/1965 de Ritt, Lumet, Frankenheimer, Penn, Schaffner, Nichols, Jewison, Mulligan e etc. É uma boa safra para se preparar para os pratos mais raros e de gormand..
Bom apetite!