INFÂNCIA E WORDSWORTH

   Wordsworth teve uma longa vida. 1770 até 1850. Oitenta anos que no século XIX equivaleriam a viver uns 100 hoje. Sua melhor poesia foi feita entre 1790-1820, ou seja, enquanto sua memória ainda estava fresca. Wordsworth não escreve nada sobre sua infância como biografia, mas ele só é poeta quando revive o sentimento de ser uma criança. Mas não pense que ele compactua da moda de então, aquela de que toda criança é inocente. Não. O que o poeta inglês tenta preservar é a sensação de estar vivo DENTRO da vida e não FORA do elan vital. Para Wordsworth a vida só é plena enquanto somos crianças. O hábito mata esse dom. O tempo nos obriga a viver numa eterna repetição,  e essas repetições destroem a memória. Nascemos vindos da divindade. Quanto mais jovens mais podemos sentir essa nossa origem.
  Fazer poesia, para ele, é rememorar. A emoção e o casamento entre criança e natureza, na idade adulta, estão perdidos. Mas calmamente voce pode relembrar e assim reviver, mesmo que a distância e de um modo frio, o que foi aquele encanto natural.
  Wordsworth faz assim dois movimentos na época revolucionários. Primeiro tira o poeta do pedestal do classicismo. Todo ser humano pode ter essa experiência. Pois toda infância vive dentro desse encanto. Segundo fato: Fazer poesia é memória e não arte de pura técnica. Essa é outra pedrada nos clássicos.
  É aceito hoje que todo artista verdadeiro tem acesso à um tipo de espírito da infância. O homem tende a perder esse espírito com a idade. Segundo Wordsworth o que o degrada é a pura e simples repetição. Somos presos numa rotina diária que embota nossa emoção. Horários, estudo, ruídos da cidade, distrações, tudo nos faz ESQUECER. Para ele, a infância é sagrada simplesmente por estar próxima ao outro mundo, o universo de onde viemos. Esse porque é para mim o único ponto discutível do que Wordsworth diz. Para mim o simples fato de sermos jovens cria o encanto. Vemos tudo pela primeira vez, sentimos pela primeira vez. Para esse encanto não é necessária nenhuma memória de outro mundo. Mas, de todo modo, Wordsworth cria uma bela imagem poética. E quem poderá negar essa verdade?
  Desse modo, em nossa vida de adulto, e agora quem fala sou eu e não o poeta inglês, só tem valor poético TUDO AQUILO QUE É ALGUMA RECORDAÇÃO DA INFÂNCIA. Não posso cometer o erro de dizer que minha experiência é a experiência de todos. Mas só consigo habitar o meu mundo de contentamento, paz e sensação de absoluto, quando mergulhado em algum tipo de rememoramento da infância. Ás vezes provo a felicidade total simplesmente por sentir em minha carne uma espécie de calor ou sono COMO DO DA MINHA MAIS REMOTA INFÂNCIA. É como se minha pele ou minha barriga voltasse a sentir o calor de uma tarde de 1970 ou o cheiro de uma fruta sentida em 1968. A sensação é de uma porta que se abre dentro de mim, e então olho dentro daquele mundo outra vez. O que vejo lá dentro não é alegria ou dor, felicidade ou melancolia, é A SIMPLICIDADE ABSOLUTA DE SE ESTAR VIVO. Eu não penso em nada de especial. Nenhum fato dramático é lembrado. O que sucede é somente uma sensação sem história. Um estar aqui. Viver.
  A frase mais famosa de Wordsworth é a que diz O MENINO É PAI DO HOMEM. Isso porque todos nós tivemos um menino antes de ter um homem. Nascemos de um menino, fomos esse menino, ele veio antes e nos abriu as portas. Para não perder todo o encanto da vida, é necessário que esse menino-pai permaneça a nosso lado, mão com mão, sempre.
  Isso me recorda muito as sessões de terapia que tive durante 1986-1989. Quem já fez sabe que 80% das sessões não são proveitosas. Mal nos lembramos delas. Mas que existem tardes em que uma porta se abre. Li mais de uma vez que a linguagem de nosso inconsciente é sempre poética. Nossa mente mais profunda fala e enxerga por poesia. Pois eu diria que ao tocar nosso inconsciente nos tornamos uma criança novamente. Nos tornamos básicos. Puro sentimento. Pura sensação. É aí que mora o pior medo. E a mais bela recordação.
  Wordsworth intuiu isso. Ler esse poeta é sempre uma terapia.

BAD NEWS

   Não me lembro qual, mas havia uma civilização no passado em que o mensageiro que trazia más notícias era morto pelo rei. Antes de ser uma anomalia, isso revela um conteúdo profundo de nossa mente. Mensageiros da dor são evitados depois que a dor passa. Quando não, se tornam alvo de ódio. Prova disso? Quantos casais não se separam após a morte de um filho? Quantas famílias não se desunem após uma tragédia? Olhar o rosto daquele que te trouxe uma mensagem de dor, se torna, com o tempo, uma lembrança a ser evitada. Ninguém ama quem alardeia a tragédia. O amor que nasce em emergências é aquele que te fez sorrir no pesadelo.
  Após esta crise será difícil para o cidadão comum não associar certas figuras com o mal de uma lembrança amarga. Penso, óbvio, em emissoras e veículos que não se cansam de assustar, dramatizar, alarmar. Não há seriedade neles, apenas o desejo vil de se aproveitar de um momento fora da curva. Mesmo que de forma inconsciente, grava-se na memória de todos o mal estar criado por tanta frase venenosa, tanta informação corrompida, tanto cenho feroz.
  Essa atitude de certos meios de comunicação me surpreende muito. É uma atitude burra, ou talvez desesperada. Não há bom senso nenhum. Não se pensa no futuro da própria empresa. Até como ato de egoísmo ele é falho.
  Dizem que o ser humano mostra seu rosto na hora da emergência.
  Cara feia a da nossa imprensa.
  Burra. Histérica e revanchista.

Novos Baianos Preta Pretinha



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MORAES MOREIRA ERA UM CARA LEGAL

   Em meus mais de 50 anos de vida, afirmo sempre sem o menor medo de errar, que o Brasil nunca foi tão feliz como no período que vai de 1977 até 1983. Se voce quiser pode repetir a ladainha: Bah! Ditadura! Ok. Mas imagino que voce tenha uns 35, 25 anos né? Sim, havia uma ditadura, e nessa época eu tinha muita raiva dela. Não podíamos votar, e havia a odiada censura. Eu ficava frustrado com o fato de não podermos ver um nu frontal na Playboy. Nem na Ele e Ela. Era minha adolescência. Era isso que me atingia.
  Eu lia dois jornais por dia, o Jornal da Tarde e a Folha da Tarde. Voce não vai acreditar, mas tinha jornal que chegava às bancas de madrugada, 5 da manhã, e outros, como os dois citados, às 10 horas. Então eu sabia que havia censura, proibições, perseguições. Mas creiam-me, o clima geral era de otimismo absoluto. Foi o último período de otimismo neste país.
  Se voce duvida e acha que penso assim porque aos 15, 20 anos tudo parece colorido, ouça a MPB feita então. Por mais que Gonzaguinha seja amargo, os discos de Caetano, Gil, Gal, são de desbunde. É o auge do hedonismo. Em 1977 começou a lenta abertura. A volta dos exilados. É a época de Moraes Moreira.
  Em 1971-1972 ele já havia lançado ao mundo o melhor disco já gravado nesta terra brasileira: Acabou Chorare. Um disco que ainda hoje me causa orgulho de ser daqui. Ouvir esse LP é como encontrar a si mesmo. Tratamento junguiano que resolve tudo em meia hora. A partir de 1977, em carreira solo mas nunca solitária, Moraes cria a trilha sonora da felicidade. Nunca fomos tão felizes. E a gente sabia disso.
 Um parênteses aqui: Não foi uma época fácil pra mim. Fui um adolescente tímido e hiper solitário. Então eu passei por esses anos como um tipo de convidado que não aproveita a festa. Voltemos ao texto...
  Tinha topless nas praias. E mulher pelada no carnaval. A gente sabia que Bethânia e Simone eram lésbicas. Que Ney e Clodovil eram gays. Mas e daí? Tinha Zico e tinha Chacrinha, então o Brasil era o país mais feliz do mundo. A gente realmente acreditava nisso. O Rio era o melhor lugar do mundo para se nascer e a Bahia era um lugar onde ninguém era triste. Por seis anos a gente viveu nessa certeza. Era o Brasil pobre mas sorridente. Isso era certo? Era errado? Não sei. O que sei era que Gabeira e Brizola tinham voltado, Glauber elogiava os generais e nossa ditadura era um esculacho. Brasileiro não sabe fazer nem ditadura direito. Nas ruas e nos bares, sempre lotados, se falava alto e se ria muito. Na rua Augusta a paquera era ostensiva e madrugada adentro. A gente dormia na praça, bêbados. E Moraes e A Cor do Som cantavam pra gente.
  Teve Queen com Freddie Mercury em janeiro de 1981 no Morumbi. Gente de 15 anos ainda podia ir. Assisti entre 1980 e 1983 uns 3 shows do Moraes. O do ginásio do Ibirapuera foi o melhor. Todo mundo entupido de lança perfume e maconha. Como disse, a ditadura brasileira foi um esculacho. Eu voltava a pé pra casa. A gente, mesmo a classe média, tinha poucos bens e não sabia disso. Depois dos shows eu cruzava 10 km de ruas escuras, sozinho. Cantando alto.
  Todo domingo tinha jogo no Morumbi. Um ingresso custava o mesmo que um bilhete de cinema: quase nada. Então todo mundo ia. 100 mil pessoas em jogo médio. Eu levava rojão e bandeirão. O povo da escola todo lá. Depois do jogo ainda dava pra jogar bola na rua. A vida era na rua.
  Bazar Brasileiro foi o disco da época. Forró do ABC. Deus me fez brasileiro, o documento da raça, na festa da alegria...
  Na praia dava pra morar ainda. Praia era zona livre, sem divisão e sem preço. E as festas: Natal, Páscoa, Ano Novo, Juninas, eram na rua, enfeitadas, grátis, sem frescura.
  Mas em 1984 inventaram os anos 80 e a gente ficou fresco, metido, bobo. Pior, inventaram a tal hiper inflação, e esse foi um trauma muito pior que a ditadura. Nunca nos recuperamos. Os anos 80 trouxeram à tona o pior do Brasil: roubo. Corrupção. Cinismo. E um fatalismo atroz. A MPB hedonista virou rock brasileiro. Ficamos sérios. Ficamos velhos. Ficamos chatos demais.
  Moraes permaneceu. Ele ainda apostava na alegria.
  Morreu dormindo. Uma benção.
  Voce foi o brasileiro em seu melhor.

EU E MARCEL

  Entre abril e agosto era sempre a mesma coisa. Exatamente às 18 horas a sinfonia de violinos mal afinados se instalava dentro do meu peito. Acordes agudos quando eu aspirava, acordes graves quando expirava. Franol e MM Expectorante. Algum psicólogo deveria escrever 3 volumes sobre o quanto a vida de um cara muda quando cresce com asma. Sua mente não relaxa! Voce se concentra em respirar toda noite o tempo todo. Fim de tarde vem o medo e a certeza, o ar vai faltar.
  Deitado na cama voce sente calor, frio, medo, ansiedade. O ar não entra e quando entra não sai.
  Marcel Proust viveu em um quarto com paredes de cortiça. Alérgico, ele ficou seus últimos anos sem sair desse quarto, escrevendo. As primeiras páginas de Em Busca falam de sua asma noturna. Não tenho medo de arriscar que o senso de observação de Proust nasceu em suas noites de vigília. Noites onde, eu sei, ficamos vigiando e observando o som de nossos pulmões e a evolução do ar dentro de nosso peito.
  Por outro lado...
  Que alegria quando volta a primavera e respiramos sem perceber. Voce, que teve a sorte de jamais saber o que é asma, não saberá o prazer que há na respiração, pura e simples, irrefletida. Não há prazer maior que o corpo vivendo sem esforço.

A MÁQUINA DO TEMPO

   George Pal dirigiu e produziu este filme, baseado no livro de Wells, em 1960. Se em 60 o grande medo era do fim nuclear do planeta, hoje, 2020, A Máquina do Tempo assusta por sua precisão em adivinhar a situação social do primeiro mundo. Mas antes vamos lembrar.
   Um cientista inglês, em 1899, constrói uma máquina com a qual ele viaja ao futuro. Milhares de anos depois, ele está no centro de um novo tipo de sociedade terrena: humanos divididos em Morlocks e Elois. Morlocks trabalham e vivem no subsolo. Elois são todos loiros e lindos e vivem sem precisar trabalhar, apenas se divertem. Morlocks na verdade criam Elois como gado. Toda noite alguns deles são devorados.
  Para quem analisar superficialmente, Morlocks são a classe trabalhadora, que obrigada a se desumanizar, se vinga comendo a classe que nada produz. Essa interpretação é bastante tola. Elois são vítimas, Morlocks são exploradores. Na verdade à luz dos dias de hoje, a coisa é bem mais terrível do que parece.
  Elois tomam sol num dolce far niente à beira da água. Não perguntam nada, não querem aprender nada, são indiferentes. Na cena em que estão almoçando, no enorme salão branco, tivessem cada um seu celular à mão, seriam típicos europeus dóceis e entediados de 2020. Na consciência deles, a comida surge dada por alguém, as roupas são presentes merecidos, e o passado é ignorado. Tudo que importa é ter paz e não precisar se esforçar. São como crianças. Entre eles não existe a doença e nem a velhice.
  Morlocks vivem próximos à eles, mas são de certo modo invisíveis. Produzem comida, roupas, bem estar para os Elois. Em troca se alimentam de sua carne tenra. Morlocks não são felizes. Apenas criaram um modo de sobreviver. Mas são vencedores. Eles viveriam sem Elois. Já Elois morreriam de inanição sem eles. Se voce lembrou de europeus do norte, acertou.
  Se Elois tivessem uma filosofia, ela seria: Me deixem em paz. Se Morlocks tivessem uma, e eu creio que a tenham, seria: Viver é lutar. Deixo à voce suas analogias.
  Lembro de ter visto o filme, pela primeira vez, na Globo, sábado às 21 horas, por volta de 1975. Eu era uma criança, mas nunca esqueci. Filmes vistos nessa idade se tornam um tipo de sombra que nos seguem pelo resto da vida. Até hoje me pego pensando nos Elois, no paradoxo do tempo, no modo como o lugar onde estou estará daqui a 3000 ou 15 mil anos. Por puro reflexo sempre penso que aqui um dinossauro pisou e ali um selvagem caçou. Percebo que são imagens que me ficaram vindas deste filme.
  Vivemos a mais de um século a obsessão do tempo. Como gastar, como usufruir, como não perder tempo. Mais que Deus, morte ou amor, o tempo é o centro de nossa angústia. Como bem diz o filme, é a dimensão que nos escraviza. Podemos ir e vir, subir e descer, mas a quarta dimensão, a temporal, nos prende ao seu modo.
  O filme é delicioso. Poucos têm tal clima vitoriano tão bem construído. Voce se sente dentro da Londres de 1899. É uma pequena obra prima. Veja.

PÁSCOA

   Deus saiu da minha vida quando eu tinha mais ou menos 7 anos. Não me pergunte por que. Mas lembro muito bem que já nessa época eu sentia a distância enorme que havia entre eu e aqueles que pareciam crer. Meus pais não iam à igreja e foi provavelmente isso que me fez ser o que eu era: dividido.
  Estranha situação que só neste exato momento recordo. Meus pais, segundo a moral católica de então, viviam em pecado. Eram casados no civil, mas não no religioso. Apesar de ambos crerem em Deus, não tinham dinheiro para a cerimônia quando se casaram, e depois, quando o dinheiro já havia, meu pai adiava a data indefinidamente. Então eles não se sentiam confortáveis para entrar numa igreja. E ao mesmo tempo queriam que eu crescesse como católico. O que era feito então? Minha tia me levava à missa dos domingos.
  Na mente de uma criança de 7 anos a coisa era confusa. Lá estava eu, dentro de uma imensa igreja azul. Lotada de pessoas de todo tipo. Abafada. Ao meu lado eu via minha tia, véu negro sobre a cabeça, rezando. Eu estava alí, mas por que não meus pais? Agora, tanto tempo depois, é que percebo que seria impossível eu ter fé, a verdadeira fé, nessa situação estranha. Como herança, cresci desde então com a sensação vaga de que Deus não me queria lá. Se meus pais não podiam ou não queriam ir, eu estava no lugar errado.
  Na minha adolescência Deus era um assunto sem lugar e quando virei adulto eu sentia orgulho em me dizer ateu. Tudo mudou quando meu pai faleceu. Em 2008.
  Veja, não foi a dor que me fez mudar. Deus não foi consolo de desespero. Falo isso com segurança, porque meus piores momentos na vida foram muito antes, em 1986, 1987. E não me agarrei à Deus para me consolar. Não consegui nem tentar isso. Simplesmente me era impossível cogitar esse caminho.
  Mas em 2008 algo aconteceu. Não há como explicar. Tudo que consigo dizer é que houve uma tristeza profunda, um desalento sem fim, uma sensação de vida que se perde em vão. Mas ao mesmo tempo tudo isso vinha entrelaçado com doçura, com aceitação da verdade, com profunda humildade. Eu me desarmei e senti que Deus entrava em mim. Aconteceram experiências simples e estranhas, mas não podem ser ditas.
  E assim, por 10 anos eu vivi numa espécie de paz divina. Mas veio 2018, e agora posso confessar que então eu perdi Deus pela segunda vez na minha vida.
  Foi meu segundo encontro com a morte, a morte de uma segunda pessoa central em minha vida e dessa vez o efeito foi contrário. Tudo que houve de significativo em 2008, aqui nada valia. Foi uma experiência do sem sentido, do vazio e de uma profunda raiva. Se a morte do meu pai trouxe paz e doçura, como se ela fosse o capítulo perfeito em um livro correto, esta trouxe perda e desânimo. Como fosse um ruído estridente numa sinfonia perdida.
  Faz quase dois anos já. E nesses dois anos eu nunca mais consegui pensar em Deus. Não sinto por Ele nem medo, nem distância. Não há dúvida e nem certeza. Eu não consigo O sentir. É como uma ausência. Daí a certeza de que O perdi.
  Durante dez anos eu olhava para o céu em meus momentos ruins, e tinha a certeza de estar em Sua companhia. Falava com Ele em pensamentos ao andar na rua. Erguia minha mente à Ele antes de dormir. Nos últimos dois anos não há nem a possibilidade mais remota de eu tentar isso. Meu céu ficou vazio. E isso é pior que o ateísmo, porque como ateu não há vazio pois não há céu. Voce não sente falta do que nunca provou.
  Mas eu senti a doçura da Presença.
  E não a sinto mais.
 Amanhã é Páscoa e eu amaria escrever uma carta para Deus. Falando da saudade que sinto Dele. Do quanto Ele faz falta.
  Talvez Ele não precise de cartas.
  Talvez Ele esteja aqui.

O TERCEIRO TIRO. HITCHCOCK. A MORTE QUE NÃO IMPORTA.

  Os primeiros quinze minutos são das coisas mais perfeitas que, não só Hitch, mas qualquer outro diretor já filmou. Os créditos iniciais, animados, com a trilha sonora brilhante de Bernard Herrmann ( ele, o diretor, a considerava a melhor já feita ), então as paisagens de Vermont em cores brilhantes. Úma criança, e então uma morte. Um velho caçador que fala seus pensamentos. Descobre o cadáver e pensa que o matou sem querer. Ele se esconde enquanto várias pessoas passam por lá...
  Há aqui humor absurdo. Nonsense. Muita britanicidade. E beleza, uma beleza tétrica. Ironia aos montes. Harry é o morto. E morto ele é ao mesmo tempo um estorvo e insignificante. Nada vai acontecer no filme inteiro. Não lhe prometo emoção nenhuma. O filme foi um fiasco em sua época. Mas Hitch o amava, e não só por ser um patinho feio, mas sim por ser um filme impossível.
  A cidade tem só 3 casas. Há um policial. Uma criança. Um pintor. E duas solteironas. E uma ruiva, mãe da criança. Esse é o elenco inteiro. Nenhum deles é muito normal. Todos são excêntricos. Na verdade o único interesse deles é sexo. Todos os diálogos, se vc prestar atenção, são convites ao ato sexual. Eles querem acasalar, e na primeira fala do filme, a do velho caçador "assassino", já se entrega isso. Diz ele que "caçar é maravilhoso porque satisfaz nosso instinto mais primitivo". Exatamente como o sexo faz.
  Hitchcock trata, em todos o seus filmes, de "apenas" dois assuntos: sexo e morte. Qualquer pessoa com honestidade básica sabe que são os únicos temas que importam. Todo o resto é consequência, quando não futilidade. Este filme mostra, da forma que os anos 50 permitiam, que ao lado de um morto, tudo que nos resta é acasalar. A morte aqui não tem a menor importância. Quem se importa com Harry? Ele só desperta alguma atenção quando impede um namoro ou um casamento. Fora isso, é somente uma coisa a ser esquecida. Nunca Hitchcock foi tão direto. E ao mesmo tempo tão delicado. Isso porque o filme é um idílio. O lugar é um tipo de paraíso, e não há nesses lugares nada escondido, não é um falso paraíso, é aquilo que vemos, pessoas que vivem suas vidas comuns. São esquisitas porque as vemos de perto, bem de perto.
  Não é um dos grandes filmes do gênio, mas é um daqueles em que ele revela seu riso debochado. Ele se dava a esse luxo. Cada 3 ou 4 sucessos, um filme pra brincar. Aqui vemos seu playground.
  Shirley MacLaine estreia no cinema aqui. O elenco ainda tem o grande Edmund Gwenn. E John Forsythe. É um filme barato. E com cores espetaculares. O destaque é Bernard Herrmann. Sua trilha tem dois temas básicos: um irônico e um arrebatador. Nos dois ele apresenta aquilo que sua música é : perfeita. No meio dos anos 60 Hitch perdeu seu compositor. Os dois nunca mais foram os mesmos. Há encontros que parecem escritos no céu.

The Trouble With Harry



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AMANHÃ

   Amanhã, ou daqui a 6 meses, o nacionalismo europeu voltará com tudo. E a união europeia, organismo que só serve para turistas, terá sua inutilidade escancarada. Os ingleses mais uma vez se anteciparam ao continente. Aliás, isso é histórico. Perceberam Hitler antes de todos, se industrializaram primeiro, criaram um modo de controlar o rei sem revoluções abjetas. A Inglaterra percebe antes porque ela é pragmática. Ela observa sem a distorção do idealismo. Sem a ideologia. Ela olha e vê, e então age. Agora assiste de camarote. Vê que ninguém se moveu para ajudar a Itália. Ninguém ajuda a Espanha. Portugal fala para as paredes. Na hora do aperto é cada um por si. E se apertar demais, que venha os EUA nos salvar. Coordenação nenhuma, e a grana não aparece. Alemanha, Holanda e Austria vão bem. O resto, um abraço.
  A esquerda; famosa por jamais acertar uma previsão, eles ainda acham que a evolução do capitalismo é o comunismo; quer pensar que o mundo pós corona vírus será anti capital. Que o estado ganha moral com essa onda de dor e medo. Modo bobinho de pensar. Após o medo vem a raiva, sempre. As pessoas acusarão o estado por não ter agido antes. Reclamarão das fronteiras abertas. Tenderão a se fechar. Olharão com medo o imigrante e até o turista. No médio prazo a China sai perdendo. Políticos de direita radical tenderão a vencer. Fechar fronteira e se manter em casa é a praia deles.
  Por aqui, na amarga Latino América, nada mudará. A Argentina caminhará alegremente para mais um suicídio. A Venezuela é a grande derrotada. O país acabou. O governo não cai porque o exército não quer. Esquecem que Chavez era militar. O exército tem bons salários. A população está tão faminta que não tem energia nem pra reclamar. 15 dólares por mês.
  Cá no Brasil já se percebe quem ficou feliz com a crise. A turma do quanto pior melhor foi com tanta sede ao pote que ficou chato. Todo mundo notou.  Bolsonaro, péssimo em relações públicas, vai se manter. Os governadores sairão com o pires na mão. Vão mendigar recursos. O povo, coitado, não conta. O brasileiro continua sendo um peão. O presidente se queimou por falar besteiras. Os outros por inflar o medo. Presidente que fala besteira é o comum por aqui. Inflar medo é imperdoável. Os eleitores serão lembrados disso.
  Quando Dilma foi impedida, falei que nunca mais teríamos um presidente sem a sombra do impeachment. Até nisso imitamos os EUA. Lá, desde Nixon, todo presidente convive com isso. É briga de crianças: Voce impediu o meu, quero impedir o seu. Bolsonaro faria bem em não tentar a reeleição. Poderia até vencer. A oposição se destrói por si mesma. Mas não vale o desgaste. Deverá surgir um nome novo da baixa política. Mais uma vez.
  Lula morreu. Se tornou aquilo que foi Brizola em seus últimos anos. Uma memória meio turva. Um velhinho gritando slogans mofados.
  Doria e Witzel esqueceram que são menos que nada. Estão no governo por usar a força do presidente em seu momento mais forte. Sozinhos não têm base nenhuma. Cercados por puxa sacos, estão acreditando nos elogios dos sombras.
 Haddad não existe como pessoa independente. E seus posts depõe contra ele mesmo. Hesitante, ele apenas grita, com voz fraca, palavras de ordem sem sentido. Parece líder estudantil.  É Robin. O pupilo do Batman esclerosado.
 Ciro não precisa de oposição. Basta deixar ele falar. Ciro destrói Ciro.
 Que panorama podre!
 E temos nossos formadores de opinião. Arautos que falam para outros formadores de opinião. Masturbadores que se encantam com a própria mão. Se empolgaram com a crise. Acharam que ela faria deles Os Protagonistas outra vez. Não. Os políticos, ruins e menos ruins, são as estrelas do momento.
 Termino citando Hitchcock. Atores são gado. Salvo 1% deles, não pensam. Decoram texto. E vomitam banalidades. Ninguém falou mais idiotices nestes dias que eles. Me perdoem os menos bobos, mas eles parecem ter a mente de um menino de 10 anos educado num sindicato do ódio.
  O mundo após a crise voltará outro? Talvez.
  Mas creia, não será como seu professor de sociologia diz. Ele nunca acertou uma.

DAS AMIZADES VERDADEIRAS

   Cresci ouvindo falar que brasileiro não era politizado. Que aqui se brigava por futebol, nunca por política. Diziam ainda que quando o Brasil se politizasse tudo ia melhorar. ( Mais um mito. O que me lembra também a tese de que com educação tudo se resolve ).
  Hoje brasileiro briga por política, e como no futebol, todos se acham experts no assunto. Não sei nada de política, apenas vejo o que posso ver. Cresci me achando esquerdista, adorava irritar meu pai com meu ateísmo. Mas mudei a partir dos anos 80. Me rendi às evidências históricas. E mesmo quando me contam tolices, do tipo: Cuba não deu certo por causa do bloqueio americano, eu penso: Pois que se rendesse! De que adiantou esse teimoso heroísmo? Os EUA não perderam um só dólar, e Cuba ganhou apenas uma lenda. Para seus habitantes seria muito melhor ter nascido na Costa Rica ou em Porto Rico. Pragmatismo salva vidas. Ideologia cria mitos.
 Se voce é de esquerda já se arrependeu de ler isto né. Me desqualificou como mais um bolsominion. E tá tudo resolvido. Rótulo posto, assunto morto. Mas que surpresa! Não votei no mito. Nunca votei na direita. Sou contra a pena de morte. Odeio a caça. Odeio armas. E tenho amigos gays e lésbicas. Ah sim, adoro ler. Não só livros policiais. Leio poesia. Leio romances russos. E amo cinema de arte. Estranho né? As pessoas não cabem em rótulos meu caro amigo. Mesmo o mais bronco dos bolsominions ou o mais raivoso dos piçolistas têm alguma nuance. São humanos.
  Entro agora no tema da amizade ( já li Montaigne, veja só, um direitista que lê Montaigne ). Perdi quatro amigos nos últimos dois anos. Perdidos para a política. Quatro até que é um bom número. São poucos. Mas me magoaram como se fossem muitos.
  Tenho hoje vários amigos que não pensam como eu. Alguns continuam sendo de esquerda. E morrerão sendo. Assim como espero que eu morra sendo amigo deles. Nossa amizade está além do assunto política. É um assunto interessante. Importante. Mas em amizade não é central. Por um motivo muito simples: voce não escolhe um amigo por ele ter votado em B ou X. Quem termina uma amizade por esse motivo, começou a dita amizade pelo motivo errado. Ou nunca o foi.
  Eu e meus amigos de esquerda não discutimos politica porque sabemos que seria inútil. Eles não mudarão meu modo de pensar. Eu não mudarei o deles. Na verdade nem queremos isso. Sabemos que uma opinião profunda só é mudada na experiência do dia a dia. E se for uma crença, bem, só um grande acontecimento modifica uma crença. Quem sou eu para os catequizar?
  O máximo que falamos é : caramba seu tonto, voce é um merda de um petista! Ou um : seu ignorante, como pode voce ser um imbecil de direita! Rimos. E o assunto se encerra.
  A amizade precisa de um certo pudor para sobreviver. Acham os estúpidos que amigos podem e devem falar tudo. Nunca foi assim. Sempre existiram assuntos tabu. E por delicadeza e afeto, deles não falamos.
  Dois anos atrás perdi meu primeiro amigo para a politica. Ele me convidou para um café e após poucos minutos me interrogou. Fui literalmente examinado. Assim que a primeira pergunta foi feita a amizade morreu. Ele me olhou, mal contendo a raiva, e disse: Eu sou de esquerda, e voce é o que?
  Eu juro que senti um derretimento interno. A decepção profunda. Uma armadilha. Eu não queria crer! Ele estava me policiando! Era isso a tal patrulha ideológica? Teria sido assim na Polonia, na Hungria, na Lituânia? Amigos dedurando, interrogando, acusando?
  Saí pela tangente. Tentei me explicar. Sim. Fui obrigado a dar explicações. E assim, ainda nos vimos mais duas vezes. Em todas elas vinha o momento da pergunta: O que vc acha da luta de classes? Como vc se posiciona diante da miséria? Me explique o que vc entende por conservadorismo? Tudo isso dito com cara séria, raiva muito mal disfarçada.
  Acabou então.
 Vinte anos de amizade trocados por um partido.
 Minha mente não consegue entender isso e meu coração não aceita. Pelo fato de que eu nunca fiz ou faria tal ato de traição. A palavra é essa: Traição. Amizade que exige a mesma opinião ou a mesma fé não é amizade. Há nesse ato um tipo de frieza egoísta que nega todo o universo do amor.
 Por outro lado....Que nobreza de caráter vive nesses amigos que apesar dos pesares, mantém viva a chama do afeto, o compromisso de vida, o amor pelo que é diferente de si mesmo.
 Sim, eles me dizem: Que bosta voce falou cara! Mas dizem isso com o olhar do afeto, do bem, do entendimento.
 Nunca no Brasil a amizade foi tão testada.
 E vocês são a prova de que ela é maior que tudo.
 

BEM VINDO AO MUNDO REAL

   Conheço críticos que nos anos 80 e 90 diziam que o grande mal da arte brasileira era a subserviência à Caetano Velloso e sua corte. Eles bufavam dizendo que todo novo cantor, banda ou escritor, tinha como ambição máxima receber as bênçãos de Cae e Gil. Diziam que aqui não havia ruptura, fim de ciclo. Que tudo girava em torno da corte baiana.
  Hoje esses mesmos críticos estão alinhados com a corte.
  Este não é um texto a favor ou contra. Juro que tento apenas olhar e descrever. Alguém tem de abrir um olho. Vamos a descrição.
  Quero entender o motivo de tanto ódio. Por que um povo que ignorava Sarney, hoje quer ver morto Bolsonaro. Há algo de psicológico nisso. Há uma doença social. E eu sei, que pelo fato de 99% dos psicólogos sociais serem de esquerda, eles estão analisando a doença de ser Bolsonaro, e ignoram o ódio irracional ao presidente.
  Não digo que ele seja bom. Talvez seja menos que razoável. O que me causa espanto é o tamanho do ódio. Eu vi os governos Figueiredo, Sarney, Collor e todos os demais. Nem Collor foi tão odiado. Por que?
  Dizem que Bolsonaro é machista. Diria antes hetero ostensivo. Não o vi bater em mulher. Não o vi caçar algum direito feminino. Não o vi em orgias com 5 mulheres pagas. Sarney, Collor e Lula pareciam tão heteros quanto ele. O que seria então?
  Dizem que ele é ignorante. Não vai ao teatro e não lê bons livros. Lula não lia nada. Não foi visto em museu ou teatro. Collor só frequentava festas de playboy. Itamar era alegremente bronco. Então onde Bolsonaro peca?
  Já ficou claro não é? Ele cometeu o pecado de não beijar a mão de Caetano e Chico. Claro que estou usando símbolos. Collor e Figueiredo não fizeram isso. Mas o bronco Lula era amado porque foi prestar homenagens a eles. Mesmo não sabendo uma letra de Milton de cor.
  Quem mais odeia Bolsonaro é quem não suporta o fato novo que acontece aqui e agora: a morte do formador de opinião. Quem o detesta são as pessoas que se vêm ameaçadas pela perda de sua importância intelectual. " Como esse bronco ousa me ignorar?"
  O problema não é ele não ler. É ele ignorar quem escreve livros. Lula dava prêmios. Fazia festivais. Artistas são baratos. E Lula é esperto.
  Bolsonaro foi eleito, como Trump, sem o apoio de formadores de opinião. E eles, assustados, não o perdoam por isso. Ele jogou na cara deles o quanto hoje eles são irrelevantes. E eles não podem suportar essa novidade.
  O Brasil sempre teve duas elites que mandaram como reis e duques: Os ricos e os "letrados". Em terra de miseráveis, quem tem dois tostões é nobre e quem leu Jorge Amado se acha especial. Tanto o rico como o letrado têm na ponta da língua a frase: "Voce sabe com quem está falando? Voce não tem nível para me contradizer".
 Bolsonaro e seus eleitores ignoraram os leitores de Chauí. Nem sequer a atacam. Ignoram sua existência. E vivem bem sem ela. Ela então grita.
 Para o ego dos formadores de opinião, isso é insuportável.
 A Globo ataca frontalmente, e na minha opinião se suicida com isso, ao governo não só por uma questão fiscal. Ela sabe que ele põe a perigo seu trono dourado. Mostra que ela já não dita regras. Lula foi ao Fantástico no dia da eleição. Foi dar uma exclusiva para a rainha do país. Bolsonaro rezou. Numa transmissão mambembe, ele transmitiu uma reza. Foi feio. Tosco. Foi Brasil.
 Bolsonaro joga na cara desse povo, os classe média bem educados, esquerdistas no molde Partido Democrata da California, o que é o Brasil. Muito mais que Lula ou Itamar, ele é o tiozão caminhoneiro, o taxista, o guarda no sinal, o empreiteiro, o dono do açougue, o feirante. Lula era o homem do povo para uso de intelectuais culpados, Bolsonaro é o homem do povo que pouco se importa com intelectuais. Ele é absurdamente sincero.
 O ódio a Bolsonaro é revelador. Mostra o preconceito das classes educadas, esnobes, egocêntricas, europeizadas e americanizadas , contra o homem comum, banal, simplório. Ele fala o que pensa e se atrapalha porque fala demais. Ele fala de um modo sujo, mal articulado, feio. Isso é motivo para tanto ódio? Não. Se ele pagasse tributo à realeza seria motivo apenas para risos. Como era o caso de Sarney ou de Itamar. O ódio é aquele do ego ferido. É insuportável para quem o sente.
 Ele revela que seu curso de sociologia pode nada significar. Que suas leituras sobre Heidegger podem ser apenas masturbação. Que o mundo real pouco se importa com voce.
 É claro que eu adoro livros etc etc etc. Mas por Deus! Como é possível tanta crueldade a alguém cujo único pecado é ser um bronco?
 Esse ódio é possível a partir do momento em que ele ameaça seu senso de auto importância.
 A partir do momento em que ele se elege contra todos os seus palpites.
 E expõe, de forma humilhante, que voce não sabe prever, não influi mais e talvez esteja deixando de ser um "nobre leitor" e se tornando apenas mais um na multidão.
 Bem Vindo ao mundo real.
 

CORONA VÍRUS EM NEVERLAND

   Este texto é escrito por inspiração de um belo artigo de Luiz Felipe Pondé. A filosofia que ele expressa é 99% a minha. Algo me incomodava nesta crise mundial, um certo mal estar indefinido, e Pondé conseguiu desanuviar minha mente. O que ele escreve colocou a primeira marcha neste meu escrito. Aqui vão as outra quatro.
  Convivo com duas classes sociais. A classe média e a classe dos que lutam para comer. Quando pensei em escrever este desabafo, imaginei que só as classes mais abastadas poderiam ser alvo do que falarei. Mas agora percebo que não. Mesmo os mais pobres, aqui no Brasil, São Paulo, vivem na mesma ilusão. Para eles a coisa é ainda pior. Eles não têm como pagar pela ilusão. Vamos ao que Pondé disse e ao que eu falo do meu ponto de vista.
  O vírus escancara a fragilidade de um certo tipo de pessoa. Aquela que vive na ideia de que tudo é possível se voce desejar. O corpo é meu e faço com ele o que quero. Mas não só isso, também a ideia de que a vida é minha e ela está aqui para me servir. A vida e a existência vistas como um tipo de serviçais. Pessoas que acreditam no "direito à felicidade", uma invenção fabricada, e portanto artificial, criada ao fim da segunda guerra mundial. Desumana no sentido de que nada na humanidade predispõe à felicidade. A vida é uma luta, uma guerra, uma disputa. É assim para o esquilo, para o macaco e para o tigre. A vida não é um desenho da Disney. Os animais estão em constante e eterna luta e se voce crê que o humano é apenas mais um animal, e não um filho de Deus, então saiba que sua vida é como a do salmão, briga por sobreviver.
  A vida é assim e não há como escapar. Mas o mundo de 2020, na verdade o mundo desde 1945, consegue fazer com que ignoremos isso. Podemos passar vinte ou até 60 anos de nossa vida  crendo que Bambi existe e que se " a gente se unir e quiser com bastante vontade, o bem será de todos". Até que um dia, sozinho na sala de espera de um médico, voce descobre ter um câncer. Então a vida Disney acaba. E voce descobre que a leoa que morria de fome na savana, cercada por hienas, era igual a voce. Seu corpo te trai. Sua mente te condena. Bem vindo à natureza real, Bambi. A vida é lutar por viver. A felicidade é apenas uma miragem criada por gente que nunca achou que ia ter de sobreviver. Que ia apenas tentar ser feliz.
  O vírus joga na cara de 3 bilhões de pessoas, ao mesmo tempo, que a morte existe. Que seu condomínio não te protege dela. Que todos podemos morrer amanhã. E veja que coisa:  Provavelmente sua morte será de câncer! Educados para crer que desejar é poder, e que a vida é a busca pela felicidade e não pela sobrevivência, nos tornamos histéricos com essa afronta desse vírus maldito. O pavor nos domina. E as hienas, felizes, esfregam as mãos.
  Usamos então a antiquíssima válvula de escape. Um bode expiatório. A culpa pela peste era do judeu, era do feiticeiro, era do bárbaro. Agora é do chinês, é do Bolsonaro, é do italiano. Queremos crer que há um culpado para assim podermos o eliminar, e o eliminando vencer a morte. Que infantil ainda somos! O inimigo é um vírus. E ele pouco se lixa para suas opiniões. Não comer carne ou fazer ioga não vai te salvar. Na vida todos nós morremos no final. Hoje, amanhã ou em 2100.
  Para a classe média, essa vida Disney é absoluta. A morte não existe e as pessoas do meu meio são boas e positivas. Para os mais pobres percebo que já surgiu o mesmo fenômeno. A pessoa não tem o que comer, mas vive na fantasia de que sua vida é um filme policial em Los Angeles, que ela é um astro do Rap, ou que sua vida é a busca da felicidade, e que desejando com fé, ela virá. Como diria Paulo Francis: weeeeeellllll........
  O movimento hippie aconteceu porque pela primeira vez os adolescentes não precisavam trabalhar. O capital criou tanta riqueza que o mundo viu um fenômeno inédito: gente de 15 anos tendo tempo livre e dinheiro pra consumir. Surgiu a indústria pro jovem, indústria que hoje é hegemônica. E jovens têm desejos. E o comércio os atendia e atende. Já. E ser feliz é o maior dos desejos.
  Problema: Claro que ninguém sabe o que é ser feliz. Mas não faz mal. Vamos querer algo indefinível. Vamos pagar por ele. E é aqui que entra o texto de Pondé: Vamos nos deprimir por ele. Depressão óbvia: Se voce quer algo que não sabe o que é, voce jamais encontrará. E ao não encontrar vai se deprimir. Pior, se condenará por ser incapaz de o encontrar. Imaginará que todos os outros são felizes e que voce não é.
  Pois bem. Junte um universo de iludidos estilo Disney, crentes na bondade natural do mundo, e junte à deprimidos que falharam em achar a felicidade dentro desse mundo Disney. Jogue então um vírus sobre eles, o que resultará?
  Os deprimidos dirão: Eu avisei. E com um sorrisinho de superioridade irão prognosticar: vai piorar muito! Que satisfação ver os que voce imaginava felizes tão apavorados, né?
  Os crentes no mundo fofo argumentarão: Há algo de errado neste NOSSO mundo perfeito!  O mundo é maravilhoso e a natureza é benéfica. São eles ( chineses, bolsonaristas, italianos, ricos, americanos, petistas ) os culpados! Eles destroem a nossa Neverland!
  Ambos são o resultado de cinco gerações que jamais viram uma guerra ou tiveram de enterrar quatro ou cinco irmãos ainda bebês. ( Calma! Estou escrevendo pra voce. Não para um sírio ou um afegão. E se voce vive na periferia, e teve meia família perdida no tráfico, voce sabe que não é de voce que falo ). Essa geração, que pega inclusive os eternos adolescentes de 55 ou 65 anos, jamais cresceu e jamais desejou crescer. Eles exibem imaturidade como troféu. Alcançar a felicidade passa por ser jovem pra sempre. Somos tão burros que não notamos que a fase mais dura da vida é exatamente a adolescência. Viver 50 anos nela é coisa de masoquista hard. Todos o somos.
  Pra esse povo a palavra serenidade não existe. Como não existe a palavra responsabilidade. Honra. Abnegação. Pragmatismo. São esses que esperam, como todo teen, que um pai resolva tudo por eles. E esse pai se chama estado. Igreja. Grupo. Se a morte nos ronda, o governo que nos livre dela. Se a fome aparece, o pai que nos alimente.
  Somos covardes. Vergonhosamente covardes. Acreditamos realmente que Bambi é mundo real. Que temos o direito de ser Peter Pan. Que a Neverland é nossa por direito de nascença.
  Meu pai foi da última geração a ignorar a ideia de felicidade. Nascido em 1926, no fim do mundo, ele fazia uma cara de surpresa absoluta quando eu reclamava, aos 14 anos, não ser feliz, não estar realizado, não ser livre. Usando a linguagem dele, meu pai dizia:
Que porra de conversa é essa? Estuda e trabalha, a vida é só isso. Seja bom e honre quem voce ama. Felicidade....que ideia mais idiota...
  Para meu pai, esse vírus seria apenas mais uma das muitas mortes que ele viu.
 Mas para nós, que horror, o vírus nos joga na cara que apesar do smart phone da academia, a morte é democrática, irreparável e invencível.